Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 4

Capítulo 46: Reunião Clerical

A primeira badalada do sino no topo da catedral indicava o começo de mais uma das reuniões dos Antigos…

Os Antigos, também chamados de Anciões, são os membros da mais alta cúpula da Organização Global dos Clérigos e Sacerdotes — que é global só no nome.

Aquela jovem nunca poderia imaginar a vida fora do lugar onde nasceu e cresceu. Monstros perigosos vivem lá fora, e ela ouviu dizer que a situação não para de piorar.

No campo irradiado pela luz dos três sóis, a Iniciada encontrava-se sentada sob a sombra de uma árvore, lendo um livro que ela pegou recentemente da biblioteca da Ordem.

O vento estava muito forte, quase desfazendo suas tranças castanhas que levaram horas para preparar e levantando o orvalho da grama até seus óculos grossos.

A segunda badalada afastava os Consagrados e Oficiantes do enorme campus verde. Deixando apenas os poucos Prelados que ainda tinham a permissão de caminhar sob o mesmo céu que um Ancião.

A garota, entretanto, não se moveu, nem expressou uma reação. Ela sabia que era a única que não deveria sair, na verdade.

O som das pessoas e do sino atrapalharam a sua concentração no conteúdo do livro, fazendo a garota olhar para a outra figura que se aproximava.

Com seus sedosos cabelos e sua barba grisalha, um dos anciões se aproximava.

Usava a misteriosa túnica preta com detalhes de folhas e estrelas prateadas em formas de medalhas.

E seus olhos, cansados, como sempre, mas que ganhavam um certo brilho ao ver a jovem sob a árvore.

Os seus passos eram leves e mal dava para os ouvir sobre o som dos pássaros cantando.

O momento da calma havia sido interrompido, mas a menina sabia bem o porquê.

— Vamos indo? Já sei do que se trata essa reunião, será interessante que você saiba também.

— S-Sim, senhor…

Ele estendeu sua mão até a jovem, que a segurou e se levantou, batendo na própria túnica branca para tirar as folhas e a grama.

No momento seguinte, o senhor piscou em uma luz branca e, sem dizer uma palavra, começou a levitar junto da garota.

Era somente no ar que ela percebia a grandeza e magnitude da catedral central da OGCS, ladrilhos indo do branco mais cristalino até o preto mais denso e escuro como uma noite sem estrelas.

Torres e telhados pontiagudos como o fio de uma espada; no chão, portas de madeira tão grandes que precisavam da força de dezenas de pessoas só para serem movidas.

A própria construção junto do campo gramado e as muralhas já era uma vista de tirar o fôlego.

— Não precisa se agarrar em mim… — disse o ancião.

— Ah! D-Desculpa Santo Ancião! — respondeu a garota, recuando para segurar a mão dele novamente.

Eles se aproximaram de uma entrada por uma das janelas obscuras da catedral. O espaço parecia dobrar ao redor deles enquanto começavam a se mover ainda mais rapidamente.

O corredor era iluminado por tochas brancas que se acendiam à medida que os dois passavam em um rasante em direção à uma entrada com portas duplas de uma pedra escura muito bem polida.

A garota podia ver o próprio reflexo, e mal conseguia conter seu rosto de surpresa e curiosidade. O salão de reunião dos anciãos, o mais alto patamar das decisões da OGCS.

Ela soltou a mão do homem e começou a inspecionar os arredores com um brilho no olhos.

Quando o senhor fez um gesto e sua mão brilhou, foi quando a garota percebeu que haviam níveis para a arquitetura que ela conhecia.

As portas se abriram, fazendo um rangido seco de pedra em pedra, abrindo passagem para uma enorme sala que mais parecia um tribunal, com escadas que levavam até uma plataforma com diversos tronos aparentemente confortáveis que circulavam uma pequena cadeira velha no centro.

O próprio salão tinha um formato cilíndrico, com diversas plataformas e estantes de milhares de livros subindo até uma claraboia com vidraças coloridas, exibindo a imagem simbólica dos três sóis por meio de sua luz sobre a pessoa que se sentaria na cadeira.

Nos tronos elevados, diversos outros anciões já estavam sentados, esperando para que o seu último membro se juntasse. A maioria deles tinha cabelos grisalhos e usava suas túnicas das mais diversas cores em tonalidades bem escuras. Com apenas uma exceção sendo um homem que deveria ter seus trinta anos de idade.

— Ótimo… só faltava você… — uma anciã disse, pausadamente.

— Ancião Sirius! — o mais jovem exclamou, entusiasmado..

— E quem seria essa com você?

— Talvez a netinha dele? — outra anciã comentou.

— Não diga besteiras, todos sabemos que os anciões estão proibidos de adotarem crianças. Cláusulas estipuladas há…

— Já sabemos, colega… Podemos acabar logo com isso?

A jovem viu o ancião Sirius dar um passo adiante, ele se curvou respeitosamente e disse com sua voz grossa e firme:

— Anciã Betelgeuse. Ancião Vega. Anciã Antares. Ancião Aldebaran. Ancião Achernar. É um prazer vê-los novamente.

— Por favor, sente-se. — Betelgeuse bateu com sua bengala no chão, moldando o salão como se fosse uma geleia. Agora as cadeiras faziam um círculo completo ao redor do centro.

Um painel brilhante mostrando o mapa da região começou a brilhar enquanto todos os anciãos olhavam atentamente.

Escadas surgiram para que Sirius subisse, e assim ele fez, sendo acompanhado pela garota.

— A menininha fica. — disse Aldebaran, sem nem olhar para o rosto dela.

Sirius só bufou, e se virou para a jovem, apertando seus ombros e confortando-a para ficar no chão esperando que a reunião acabasse, a mesma assentiu, nervosamente.

— Não toque em nenhum dos livros nem suba nas prateleiras.

— Eu não tenho dez anos, ancião Sirius!

— É… eu costumava dar esses avisos para outra pessoa…

Sirius se virou para a mesa circular elevada e subiu as escadas até sentar em seu próprio assento. Olhando atentamente para o mapa que mostrava alguns pontos brilhantes, representando cidades e indivíduos.

— Um mapa do sul de San-Solaris?

— Recentemente ficamos sabendo que uma nova conexão da barreira sul foi feita… com os reinos do sul. — Betelgeuse explicou. — Vocês provavelmente conseguem imaginar o problema.

— A Imperatriz está finalmente expandindo o alcance de seu poder? — perguntou Vega.

— Não só isso, mas também recebemos uma chamada de emergência de um dos poucos contatos que estabelecemos no continente sul.

— De onde seria? — perguntou Sirius.

— Você sabe muito bem, Ancião Sirius — Antares provocou-o — Eu e a Anciã Betelgeuse cuidamos do recado para avisar que o Ducado de Tzoldrich estará recebendo uma visitinha de nossa amada Imperatriz em alguns poucos dias.

— Mas o nosso último agente que foi enviado para Tzoldrich nos certificou de que uma maga do Reino de Arquoia havia colocado uma proteção robusta na barreira do Ducado de Tzoldrich…

— Isso não importa, Sirius. — Achernar interrompeu. — A questão é que a situação foi para a merda assim que o seu protegido foi enviado para o Ducado depois que ele implorou para nós. Uma atitude suspeita para dizer o mínimo.

— Isso é um ultraje, o Oficiante Cálix Valente nem é capaz de usar magia! — Vega interveio. — Os nossos registros mostram que ele é restrito à Teurgia.

— Os fatos não mudam! — Betelgeuse protestou — Cálix Valente estava em Tzoldrich no momento em que a conexão entre as barreiras foi estabelecida.

— Está afirmando que um mago magicamente caiu do céu e ajudou Cálix a desfazer as proteções da barreira de Tzoldrich?

— Cálix Valente será julgado por seus atos hediondos assim que ele retornar. — ordenou Aldebaran, com um tom ríspido. — Até lá, temos que planejar a nossa defesa com o polo aliado da OGCS, o Ducado de Tzoldrich.

— Se enviássemos muitas forças para fora de San-Solaris, isso provavelmente colocaria Alexei Rozman e IIsaac Kharbiford em alerta, não podemos quebrar a balança do poder. — disse a anciã Antares.

— Você só pode estar de brincadeira… Quantas vezes precisamos reforçar que não há uma balança de poder enquanto Alexei Rozman estiver no tabuleiro?

— Por isso eu digo para agirmos com cautela enquanto ele estiver manso, Ancião Achernar.

— Giovanna Vitória é uma bomba que está com o pavio aceso, Alexei Rozman é uma que já explodiu, mas não sabemos o estrago causado.

— Estamos divergindo do assunto — Vega estalou os dedos. — O problema agora é a Imperatriz, e não sabemos quanto tempo levará até que ela chegue em Tzoldrich.

— Preparem uma equipe de vinte agentes consistindo de Consagrados e Prelados escolhidos por vocês, de preferência os que tenham melhor afinidade com manipulação de barreiras. Vou pegar alguns dos meus. — Sirius levantou-se. — Giovanna Vitória está indo sozinha para Tzoldrich. A diplomacia que conhecemos morre assim que saímos dos limites do Império.

— Ancião Sirius, você ficou maluco?! — Vega gritou, batendo as mãos na mesa.

— Ancião Vega, se acalme. A anciã Betelgeuse está certa, Cálix Valente é meu protegido. — Sirius suspirou. — Vou resolver os problemas que causei e devo retornar em alguns dias.

O ancião começou a descer as escadas e olhou fixamente para a garota parada com a cabeça baixa.

— A propósito, essa é a oportunidade perfeita…

A jovem levantou a cabeça, notando o que o ancião estava prestes a falar, seus olhos brilharam como os três sóis de empolgação.

— Sua missão de promoção para Devota começa agora. Você virá comigo como agente de suporte… Iniciada Próxima Centauri.

Próxima quase não conseguiu conter a sua emoção, queria saltar e gritar de alegria.

— A-Ah! Pelos três sóis, seria uma honra! — ela se curvou diante de Sirius e apenas agradeceu de maneira contida.

— É uma missão de extrema urgência, então sairemos hoje à noite. Reúnam os agentes assim como pedi e envie-os em uma caravana em até quatro horas.

Os outros anciões assentiram, incluíndo Vega, mesmo que relutante, e então todos eles se dispersaram para outras portas no salão, saindo da catedral.

O salão ficou vazio e silencioso novamente.

— Vamos sair, Próxima.

— O que precisa que eu pegue?

— Apenas revise suas bênçãos com os deuses que você achar necessário. Lembre-se, eles existem para nos servir. — Sirius se agachou e colocou a mão em sua cabeça, com um sorriso radiante por debaixo da barba. — Confio em seu julgamento.

Logo após a reunião, os dois saíram da Catedral pela mesma janela que entraram e desceram até o gramado, indo em direção aos muros da sede da OGCS.

— Então… Ancião Sirius, quem é esse tal de Cálix Valente? Ele é um Oficiante… então ele é meu veterano?

— Sim, apesar de ele não ser muito mais velho do que você, ele deve completar dezenove anos em alguns meses… Sim, ele é meu protegido, assim como você.

Os graus de classificação hierárquica na OGCS seguem como Iniciado, Devoto, Oficiante, Consagrados, Prelados e Anciãos.

Próxima olhava para os superiores dela sempre com o maior respeito possível, um dia, talvez, ela pudesse estar na posição deles.

Originalmente o propósito da Organização era de manter a segurança no gigantesco Império de San-Solaris. Mas com as mudanças recentes na governança, eles tiveram que tomar rumos além de cuidar de crimes, isso incluía ficar de olho em Nanavit, pois sabiam muito bem quais eram as motivações finais dela.

Próxima notava que Sirius desgostava de Nanavit, mas de uma maneira diferente dos outros anciãos, contudo, ela nunca se preocupou em questioná-lo, talvez ele só fosse mudar de assunto…

— Você já consegue requisitar bênçãos por meio de orações, não é?

— Sim, eu sinto que já peguei o macete!

— Ótimo, então não temos tempo a perder.

Ao caminharem para os portões externos da catedral, os mecanismos hidráulicos começaram a agir, fazendo um rangido ensurdecedor da madeira velha para o concreto da calçada.

A diferença gritante entre a OGCS e o resto de San-Solaris… seu horizonte que parecia vir de outro planeta, prédios de vidro, concreto e aço que se estendiam até onde o olho enxergava e até onde os pássaros mais valentes conseguiam voar.

Ruas asfaltadas e limpas, como esperado da esquina do principal órgão religioso do país, e carros andando pelas ruas e voando pelos céus em padrões que poderia confundir até mesmo os cérebros mais geniais.

Sirius se espreguiçou ali mesmo e relaxou sua postura, assobiando bem alto.

— E aí, Próxima, vai querer comer alguma coisa?

— Tem certeza que é uma boa hora?

— Precisamos estar bem alimentados para a viagem de ida até o continente sul, você sequer tem ideia do que eles comem lá?

— Não… — respondeu a Iniciada, nervosa.

— Pois é por essa razão que temos que comer uma boa culinária Solariana. Então, o que vai querer? Hambúrguer? Cachorro-quente? Pastel e caldo de cana?

— Er…

— Talvez uma comida de Ivytenode? Eles são ótimos com os sabores picantes!

— Eu…

— Se você não se decidir, podemos também provar a culinária Ocidental, já ouviu falar de sushi?

— Vamos comer hambúrguer… — resmungou a Iniciada.

Sirius pegou o seu celular do bolso e começou a mexer nele, alguns segundos depois um belo carro esportivo vermelho chegou voando em alta velocidade até o pavimento onde os dois estavam.

— Sabe, os outros anciãos adoram reclamar do Alexei, mas foi ele que inventou todos esses pratos que comemos. Me pergunto como alguém com tanto conhecimento escolhe esconder o resto do que sabe?

Próxima e Sirius caminharam até o carro e entraram nele, tinha um cheiro bom e novo, além do interior incluir luzes brilhantes e um painel super complexo que quase deixava a garota tonta.

“Por que é que ele age de maneira tão diferente fora da Sede…?” pensou, com um semblante confuso.

— Só tome cuidado quando estiver comendo, o couro do banco custou quarenta mil Luxes.

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