Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 45: O tempo que nos resta

Capítulo 45: O tempo que nos resta

“Era só uma questão de tempo…”

“Meu povo se dividiu completamente…”

Yvelle se apoiava na sua mesa de chá, na mesma sala em que foi ameaçada por Alphie dois meses atrás.

Seu estômago estava revirado, ela nem percebia o quanto suava e hiperventilava.

A duquesa inabalável estava à beira do colapso.

Seu maior temor nem era da divisão política que desabrochou após o anúncio, mas sim a falta de segurança que ela prometeu que providenciaria.

Os caçadores enviados para cuidar do terrorista no hospital foram completamente massacrados e a taberna popular entre os trabalhadores do distrito industrial foi afogada em um mar de chamas.

Yvelle tentou recobrar a postura, controlar sua respiração, mas ela conseguia ouvir os gritos do lado de fora de sua janela. A população brigava entre si, desorganizados, sem uma união.

Suas décadas de vida gastas para montar um ducado unido não serviram de nada.

Talvez o  continente sul não estivesse pronto para a chegada de sua revolução industrial…

Talvez… ela não fosse uma líder boa o suficiente…

Talvez ela tenha desapontado Heinrich…

Toc Toc!

— Ah! Q-Quem é?!

Um dos guardas do ducado abriu a porta, tapando sua vista para evitar ter que ver a sua duquesa em uma situação tão deplorável.

— Sua alteza… Não sei se você acreditaria… Mas sua Majestade Zaltan Arquois IV e Mirele Cahrazan querem falar com você.

— …Deixe-os entrar.

Ela se virou de volta para a janela ao lado da mesa com uma xícara vazia.

— Duq-... Yvelle. — Zaltan se corrigiu. — Precisamos conversar.

A voz de Zaltan era serena, calma, mas firme. Sua autoridade estava finalmente dando as caras.

— Eu arruinei tudo… Agora eu não sei o que vai acontecer. A situação está escapando do meu controle e…

— Muito provavelmente o ducado e Arquoia serão destruídos. 

— É. Fala algo que eu não sei.

— Mas não pelos motivos que você imagina — Zaltan se aproximou da mulher — Me fala: com quem você conversou para decidir os acordos no norte? A única relação que o continente sul mantinha com o norte eram os postos da OGCS e os postos de coleta d’O Círculo. Ambos estabelecidos há décadas.

— Falei com Giovanna Vitória, a Imperatriz de lá…

“Puta merda…” Zaltan bateu com a mão no próprio rosto.

— O que houve?

— Conversamos com os jovens que vieram junto de nós no barco de meu pai. — disse Mirele. — Eles nos confirmaram uma possível parceria que estaria acontecendo entre Nira e Giovanna, para que as duas conseguissem seus objetivos… O sabre e a morte da bebê que Lâmina e os seus amigos protegem.

— E-Espera…! Isso é muita informação — A duquesa cambaleou até a cadeira na mesa de chá e suas pernas cederam.

A situação mental dela estava cada vez pior. Sua visão, turva, e suas orelhas zuniam com um som ensurdecedor.

— Eles provavelmente vão dar um jeito de parar Nanavit. Ao contrário de você, eu não os coloquei para fazer tarefas ordinárias…

— Não… Não! Eu prometi para Vaia que eu manteria eles seguros!!

— E você falhou! Não pôde perceber que eles são a única chance que essa região decadente tem de continuar sobrevivendo das migalhas de uma era que já passou?!

— Duquesa… por favor…

— O que esperam que eu faça?! Minhas maiores forças foram dizimadas como se não fossem nada e eu dei um passe livre para o norte vir com uma invasão de escala total para cá!

— E você…— ela olhou para Mirele e se levantou, pisoteando em sua direção. — Eu admito, não consigo olhar para o seu rosto sem me lembrar dele! De como a promessa que eu fiz para ele de manter sua terra natal segura foi para o caralho!

Zaltan entrou na frente de Yvelle e desferiu um tapa no seu rosto, que ressoou por todo o salão.

— Você é uma líder!!! Tenha a postura de uma!

A marca da mão de Zaltan começava a se mostrar no rosto pálido de Schweitzer.

Aquele não era mais o menininho do rei, um jovem promissor e alegre. Ela levou um choque de realidade, apenas para perceber que quem falava com ela era um rei com metade de sua idade e o dobro de sua perseverança.

— Zaltan!

— Me responda, duquesa Schweitzer. — O tom do jovem era autoritário e sério, seu rosto não expressava nenhuma brecha de fraqueza — O seu povo vai morrer e suas terras serão devastadas. A sua única chance é colocar todas as apostas em quatro indivíduos que correspondem às maiores anomalias que o mundo do misticismo já presenciou.

Yvelle não respondeu, apenas passando a mão no rosto.

— Os dois guerreiros em quem você confia vão viajar centenas de quilômetros até um reino para lutar contra uma ameaça que nem pode ter seu poder descrito em palavras…

— E o único homem que poderia resolver essa situação… a abandonou…

— Yvelle, meu pai jamais iria querer ver a senhora desse jeito… — A garota se agachou até a duquesa e colocou a mão em seu ombro, recebendo o olhar mais deplorável do mundo. — Me olhe com outros olhos, mostre para o Heinrich que ele estava certo em confiar nós à você.

O toque de uma mão cheia de calos era bem familiar para Yvelle, lembrava ela, da última vez que viu seu velho amigo…

 


 

Yvelle se juntava à Heinrich mais uma vez — na varanda de uma de suas casas no ducado, com uma bela vista para o mar e as montanhas opostas. — O vento estava salgado e frio, assim como deveria ser.

Contudo, a expressão do homem transmitia outra coisa.

— É bom voltar para casa, não acha?

— Claro, nunca vou me esquecer desse pôr dos sóis… — Heinrich parecia paralisado pela vista. Até murmurou “sóis” logo depois.

— O que pode me contar de suas aventuras? Pretende ficar aqui com sua filha?

— Não…

— Tá… — Yvelle forçou um sorriso. — Você está bem?

— Olha, Yvelle, desde quando eu comecei minhas viagens para longe do continente, eu fui para longe… muito longe…

— Está falando do ocidente? Nem consigo imaginar como são as terras além deste oceano amaldiçoado… literalmente.

— Se me permite dizer… Esse ducado está praticamente irreconhecível, no bom sentido. — Heinrich se apoiou no parapeito. — Mas eu temo que o resto do mundo esteja muito diferente, o misticismo está decaindo e o povo do continente sul nem parece perceber! Lembra de quando éramos crianças e ouvíamos falar de elfos e fadas? Só restaram humanos!

— Onde você quer chegar, Heinrich?

— O mundo como conhecemos está muito diferente e nós não nos adaptamos à essas mudanças, ainda estamos presos aqui, com carroças, castelos e casas de madeira. Eu não quero que isso mude, o mundo externo parece corrompido, desassociado

— Tá parecendo com os conservadores do meu ducado, hein…? — Yvelle caçoou do amigo.

— Tô falando sério, Yvelle. A bebê que está junto dos jovens é uma vidinha que está presenciando um planeta que vai ser completamente diferente.

Ele suspirou.

— Mas eu só quero que eu possa ainda voltar para esse pôr do sol… Por isso que  eu confio em você como líder, pois você é a pessoa mais inteligente que conheço.

— Você sempre estava cansado de perder no xadrez.

— Tá começando a me provocar… — Heinrich rosnou. — …De todo modo, mantenha esses jovens seguros. Sobre o pequeno Zaltan e minha filha… Eles sabem o dever deles, e não vou impedi-los. São extremamente talentosos e não duvido que possam derrotar Nira apenas com a força de vontade… de vingança, ou por outros motivos…

— Pode deixar… Você sabe que eu sempre resolvo as coisas! Aliás, eu nunca estive progredindo tanto com a tecnologia do ducado!

O toque da mão calosa de Heinrich em suas memórias fez a duquesa retornar ao presente, encarando a menina de cabelos brancos.

A duquesa estava encurralada por todos os seus inimigos — antigos e recém descobertos —, se ela se encontrava nessa situação, deveria colocar todas as suas cartas na mesa. 

Fazer sua aposta final na sobrevivência de seu ducado.

— O jogo mudou… Eu ainda posso resolver as coisas.

Zaltan deixou escapar um leve sorriso. Yvelle abaixava a cabeça, deixando mechas de seus cabelos castanhos revelarem uma camada grisalha.

— Zaltan, quais são as ameaças iminentes?

— Giovanna Vitória e os quatro membros do meu conselho real, que estão aliados à Nira. Conhecendo ela, ela provavelmente acha que pode manter Arquoia em uma coleira sozinha, então vai mandar os traidores de meu reino para fazer seu trabalho sujo.

— Isso porque ela acha que ainda estou com medo, assim como eu estava no Abismo Revolto, mas eu vou lutar. — Mirele completou.

Yvelle se levantou do chão e encarou a janela. Com as mãos nas costas.

— Em tempos de crise, os líderes precisam ser mais rígidos… — Ela se virou para os jovens. — Precisamos de todo o poder de fogo que pudermos…

Yvelle deu duas palmas  bem altas, convocando funcionários do ducado que entraram na sala imediatamente.

— Ainda estamos com “o dispositivo”?

— Sim, senhora!

— Ótimo… Então liguem para a Organização Global dos Clérigos de Sacerdotes, façam o que for necessário. Podem até dizer que um de seus agentes está em perigo mortal. — Yvelle franziu a testa. — Façam o que for, mas mandem eles trazerem mais agentes para cá.

“Se a OGCS e a imperatriz no norte realmente fossem aliados, eu acharia estranho o fato de que a organização sempre age de maneira mais autônoma.” Yvelle pensou.

“À essa altura, não consigo chegar à conclusão de que Giovanna e o clérigo que veio para cá são lá muito amigos, o que me resta é apostar no antagonismo deles…”

— Mas e o Lâmina e os outros? — Mirele perguntou.

— Heinrich me pediu para mantê-los seguros. Mas não dá mais para cumprir essa promessa. — “O problema é a bebê, mas eu consigo resolver isso” — Zaltan, Mirele, falem com os moleques e tentem convencer eles à deixar a bebê segura em minhas instalações subterrâneas no hospital ducal. Vou alinhar as defesas do ducado para agirem em sincronia com eles.

“Eu não tinha comentado que deixei a bebê lá enquanto estavam desacordados pois estava com medo deles ficarem bravos…”

Os funcionários do ducado estavam prestes a sair, até serem interrompidos pela duquesa mais uma vez.

— E avisem os chefes das estações de polícia e guarda do Ducado, estaremos implementando algumas legislações novas… A nossa linha de frente precisa de toda a área livre que possam ter.

— Lei marcial, dona Duquesa boa pinta? — Zaltan provocou-a.

— Eu não vou deixar meu povo morrer, nem minhas terras serão destruídas. A imperatriz do norte me traiu e aquela dragoa desgraçada não vai deixar vocês em paz, né?

Os três se encararam por alguns segundos. Yvelle inflou o peito e entrou numa postura imponente:

— Quanto tempo temos?

— Não temos a menor ideia — Mirele respondeu.

— Droga!

— Se Nira enviou o resto do conselho assim que descobriu que Mirele e eu estávamos aqui, significa que foi recentemente… — disse Zaltan.

“O primeiro a realizar um ataque foi Darfur, conhecendo sua impulsividade, eu diria que ele enfrentou Vaia no hospital logo após descobrir…”

— Minha sugestão é que tracemos os próximos passos com dois a 3 dias em mente.

 


 

Notas do Autor:

Obrigado por acompanhar a obra até aqui.
Mais uma vez chegamos ao fim de um arco de Kapakocha.
Mesmo querendo ter uma vida tranquila a falsa sensação de paz nunca saiu de Tzoldrich, né?

Semana que vem conheceremos mais um lado deste conflito, e começará…

O Arco Final do primeiro volume de Kapakocha: O Reino da Prata!

 

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