Kapakocha Brasileira

Autor(a): M. Zimmermann


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 44: Sobre os poderes divinos

Capítulo 44: Sobre os poderes divinos

— Chegou a hora, Cálix — Vaia repreendeu o jovem, sentado na poltrona, com todos já em casa, após retornarem do festival desastroso. — Vai contar para nós dela?

Cálix estava com a cabeça baixa. Batia o calcanhar no chão de madeira repetidamente, fazendo um som oco que passava muito bem o seu estado mental…

Ansiedade e nervosismo puro.

À essa altura, Lâmina já havia conseguido acalmar a bebê; ela estava rindo no colo do jovem enquanto ele ficava pressionando o nariz dela delicadamente.

Talyra olhava para Cálix com um semblante ainda mais aterrorizado. Periodicamente fitava Lâmina, frustrada com a despreocupação do amigo.

O ambiente da casa não parecia mais tão confortável para Cálix. Vaia o havia confrontado sobre essa situação no dia em que chegaram, mas agora era o momento dele soltar tudo, ou poderia se arrepender profundamente.

O clérigo cruzou os dedos e abaixou ainda mais a cabeça. Suspirou alto para que todos ouvissem.

— Cálix… — Vaia chegou perto dele e se agachou para falar com o garoto. — Lembra do que combinamos no navio, logo depois de sair de Fajilla?

Ele levantou a cabeça, seus olhos estavam levemente marejados e ele tentava manter uma expressão neutra, mesmo que forçada.

— Vocês não me trataram como um monstro, apesar de meu controle ser muito instável. Eu me senti acolhida por você, pelo seu carisma.

— Eu estaria cercada de estranhos, mas foram vocês que me viram jogada na neve do vilarejo e me acolheram para um chalé. Me deram companhia e me apoiaram quando precisei. — Talyra deu um passo adiante.

O semblante de Cálix parecia ficar mais afundado em sua franja, escondido na sombra do candelabro no teto.

— Eu pude finalmente retornar a ter momentos de calma que eu já havia me esquecido há um bom tempo… Os jantares que tivemos, os laços novos que formei… Não foi só por causa de vocês, mas também dela. — Lâmina ergueu a bebê no ar. A pequenina começou a estender os braços para o espadachim.

— Sei que pode parecer ridículo falar isso a essa altura do campeonato, mas não somos mais uns desconhecidos que protegem uma criança pelos interesses próprios prometidos por um pedaço de papel mágico…

— Lutamos juntos, estamos nessa juntos! 

— Somos uma família.

Cálix levantou o rosto; seus olhos abertos estavam inchados e vermelhos, como se tivesse suportado dezenas de horas aprisionando dentro da própria mente junto de seus pensamentos mais cruéis.

As palavras de Lâmina o despertaram de um transe autoinfligido, no qual nem mesmo seu Deus conseguia se comunicar com o jovem clérigo.

Uma família? Até que fazia sentido. Cálix conseguia sentir uma emoção parecida vinda de todos os outros na sala. Um longo tempo de solidão, sofrimento, curados em apenas alguns dias juntos.

Isso quase fazia Cálix acreditar que sua angústia era fruto de algum clérigo da tristeza ou da depressão que o amaldiçoou. E que sua condição só havia passado por conta da bebê.

Mas, vendo os rostos deles, sorrindo, tentando confortar seu coração murcho, Cálix conseguia se sentir um pouco melhor.

— Viu só? Você ainda consegue sorrir — Talyra caçoou.

— Ah, não me enche… — Cálix se apoiou no braço da poltrona e deixou escapar um sorriso.

— A situação toda está indo para as cucuias rapidamente. Eu sabia que precisávamos falar com você no momento em que Yvelle fez a revelação. Você ficou quase completamente paralisado com a notícia! — Talyra exclamou. — Eu sei que eu sou a causa do problema todo, mas pode pelo menos dizer o porquê?

— Mais importante, você é o único que está familiarizado com o norte… com Nanavit… você tinha me dito que nos contaria outro dia sobre ela. — Vaia abriu os braços, receptiva. — Bem, vá em frente.

A pressão inteira do cômodo parecia se concentrar novamente no jovem de cabelos rosados, mas ele não estava tão nervoso dessa vez. Gaguejou, mas agora as palavras saíam de sua boca.

— Vocês sabem quando geralmente dizem que uma pessoa é tão sortuda ou talentosa que parece que ela é abençoada pelos deuses?

Ninguém ousou responder.

— Agora eu finalmente entendo por que a pergunta que O Círculo faz era tão familiar…

— Aquela que Jasmyne comentou, sobre terem três sóis no céu?

— Essa mesmo, e sabendo que Nanavit faz parte d’O Círculo, torna tudo isso ainda mais revelador… — Cálix colocou a mão sobre a boca. — Antes de eu falar quem é Nanavit. Vocês precisam saber a razão de ela ser tão poderosa em primeiro lugar.

— Não é mais fácil você só falar por que ela tem um nome tão esquisito? — Talyra indagou.

— Senta logo e escuta, guria!

— Cruzes, parece um velho…

Os três jovens então se sentaram no sofá oposto à mesa de café na sala de estar.

— Vocês… já ouviram falar da Revolução Estelar?


Há aproximadamente cinco séculos. O mundo, como era conhecido pelos habitantes fora do continente sul, era muito diferente.

O Panteão de Todas as Deidades era um nome bem autoexplicativo. Todos os deuses e divindades compunham sua organização. Não havia hierarquia distinta, a não ser por segregações baseadas puramente em poder bruto.

As divindades representavam conceitos, mas elas existiam em números muito menores do que atualmente.

Os especialistas de história da Era de Ouro diziam que a criação do planeta, da lua e da estrela foi fruto de apenas “tédio” dos deuses. Além da criação das espécies que habitavam a Terra, como os humanos, elfos, fadas, demônios, entre tantas outras. Esses foram consequência dos esforços de dois deuses específicos.

A Deusa da Vida, também conhecida como Mestra da Feitiçaria ou Mãe Natureza, era a responsável pela criação do ciclo de vida dos elementos da natureza e dos seres vivos. Sua existência era pura e neutra com o ambiente.

E o Deus da Morte, chamado de Lorde Thuzaryn por seus seguidores. Ele emana o fim de tudo que existe, apodrecimentos, decadência e… bem… a morte dos seres vivos. 

Sua existência não é exatamente maligna, mas ele atua como o mal necessário para aqueles que consideram muito seu tempo no mundo material.

Ao longo dos milênios, a proposta de um lugar e corpos que os Deuses poderiam usar para usufruir de prazeres da carne parecia mais e mais tentadora.

Com o surgimento dos primeiros humanos, eles rapidamente se tornaram “avatares” para a vontade dos deuses, foram possuídos e foram procriando, gerando humanos que eram filhos de deuses, mas não tinham poderes inigualáveis.

Depois, o planeta virou uma área livre para os deuses abusarem de seus caprichos egoístas e sua tirania.

Qualquer tipo de rebelião feita pelos não-deuses, utilizando as artes místicas desenvolvidas pelos deuses, era imediatamente suprimida, com as raças do planeta sendo separadas para evitar sua união.

Mas tudo isso mudou quando um deus, sozinho, decidiu se rebelar contra seu próprio panteão. Ele reuniu uma equipe formada por anomalias das forças místicas do planeta, indivíduos tão poderosos que podiam rivalizar com os avatares dos deuses.

Um mago. Uma guerreira. Um terceiro nome que foi apagado de todos os registros… E o deus rebelde.

— Os detalhes exatos do plano não foram descobertos pela OGCS… ainda.

— Espera, um mago?!

— É, mas é tudo que eu lembro dele. O livro didático na sede da organização não entra em muitos detalhes. O foco é mais no evento em si.

— Mas o que tudo isso tem a ver com Nanavit?

— Lembra que eu falei dos avatares dos deuses? Bem, ela é basicamente um molde perfeito. A aposta do Panteão para que eles retornem o mundo ao seu estado antigo.

— Então ela deve estar coordenando tudo isso para poder matar a bebê — Vaia sugeriu.

— Não. Ela vir até Tzoldrich e ela querer matar a bebê são dois objetivos diferentes.

Cálix prosseguiu, ficando ereto na poltrona.

— O OGCS esteve investigando os passos de Nanavit desde que ela virou imperatriz. Descobrimos que os poderes divinos praticamente irrestritos dela, na verdade, não são completamente irrestritos; e ela só pode atuar com seus poderes em áreas com barreiras configuradas para permitir a sua Teurgia.

— Como eu fiz com as barreiras daqui… — Talyra choramingou, cobrindo o rosto com as mãos.

— Mas então você só precisa reverter as mudanças que você fez nas barreiras, não é? — questionou Lâmina.

— Não é tão simples assim! — Talyra exclamou. — Reverter ou anular configurações estabelecidas recentemente pode levar dias!

— Como assim?

Talyra bufou e rosnou para Lâmina, coçando a nuca.

— O melhor exemplo que consigo pensar é o seguinte: imagine que colocar condições em uma barreira é como colocar pedregulhos em um buraco. Ao longo do tempo os pedregulhos vão se degradando e virando pó, aí eles conseguem sair com um sopro de vento. Mas se você tenta tirá-los logo depois de colocar, você tem que tirar pedregulhos gigantes de um buraco fundo.

— E…?

— Esse foi um péssimo exemplo para alguém como você… A questão é que não rola!

Os jovens entraram em um silêncio denso.

— Talyra, tem certeza de que não há nenhum tipo de alternativa?

A jovem maga pensou, tentou puxar do fundo de suas memórias alguma maneira de reverter a barreira. Sua mente só chegava a uma conclusão…

— Só se a pessoa que as alterou antes de mim vier e… explodir o buraco com os pedregulhos… — Talyra levantou o rosto com um semblante cansado. — A… maga… do conselho de Zaltan…

— Só mais uma que está nos caçando. Maravilha… 

— Será que não há como convencê-la?

— Conhecendo um dos outros membros do conselho do qual ela faz parte… Acho bem improvável. Mas podemos conversar com Zaltan para nos certificarmos.

— Cálix… A Nanavit não teria alguma fraqueza que valha a pena comentar?

— Não, Lâmina. Como eu disse, ela é o avatar perfeito para todos os deuses do Panteão. Ela possui uma imunidade, no mínimo uma resistência altíssima, contra qualquer mal causado contra seu corpo. Por conta disso, ela provavelmente seria resistente até mesmo contra os cortes do sabre de Heinrich. Por isso eu nunca nem cogitei pegar a arma para mim.

— Não digo esse tipo de fraqueza. Em uma batalha, abusar de qualquer brecha do oponente é a chave para a vitória.

— Como assim?

— Ela tem alguma ferida aberta? Alguma para jogarmos sal?

— O espadachim honrado falando de abusar de fraquezas…? Isso é novidade — Vaia apontou, sorrindo.

— Minha avó dizia que, se você é abalado pelas provocações de um oponente, então você não está no direito de choramingar.

— O lugar em que você cresceu não devia valorizar emoções… né? — Cálix perguntou.

— É claro que valoriza, mas ele tem uma forte ideologia de se manter livre das correntes das emoções, para que nenhum guerreiro se torne escravo delas.

— Hmm… É, pensando melhor, você até que tem razão. — O clérigo coçou o queixo — Se eu tivesse que apontar uma fraqueza dela… Seria eu.

O rosto do jovem ficou sério.

— Fato é que, se Nanavit me ver ou ver a bebê, ela irá imediatamente atacar para matar sem pensar duas vezes. Ela pode até mesmo ignorar todo o mundo à sua volta.

— A bebê até faz sentido… mas você? — Talyra disse, inclinando a cabeça.

— A razão é irrelevante no momento.

— Certo, então vou falar com Zaltan para ver se tem como convencer a maga do conselho dele de alguma forma. Ela pode até ser uma veterana minha, quem sabe…

— Eu vou passar os dias perto do túnel cavado nas montanhas para ver quando Nanavit pode retornar. Vou tentar segurar ela o máximo que eu puder — disse Lâmina.

— Tem um terrorista à solta na cidade. Vou andar por ela para poder me certificar de que as pessoas estão seguras. A instabilidade que deu no festival pode ser uma oportunidade para aquele cara fazer outro ataque…

— E você, Cálix?

Cálix ainda não sentia a intervenção divina em seu corpo, suas bênçãos ainda estavam restringidas, mas ele não sabia dizer o porquê.

O ar no local estava parado, abafado. Tanto que o clérigo mal conseguia decifrar o que seu deus dizia, mas ele queria confiar na própria intuição. Estava junto dessas pessoas, pois tinha o mesmo desejo de proteger.

— Eu vou cuidar da bebê, mas devo continuar meus deveres da Organização aqui em Tzoldrich… Certas pessoas ainda precisam ouvir minhas palavras…

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