Volume 1 – Arco 3
Capítulo 43: Revelação
Toda a cidade parecia paralisada no tempo; os cidadãos de Tzoldrich olhavam para o palco com admiração — já outros, um pouco tensos. Ninguém sabia o que esperar do grande anúncio da duquesa de Tzoldrich.
Os jovens prestavam atenção ao grande palco de madeira e flores no centro da praça principal. Mais especificamente, diante da estátua de Heinrich Cahrazan.
Diversos guardas rondavam os arredores da praça e alguns até afastaram pessoas que clamavam por sua líder.
Zaltan parecia atento; era ele quem estava mais ciente sobre qualquer motivação da duquesa. Àquela altura, eram as suposições dele contra a palavra de Vaia.
Toda a informação que ele pudesse retirar daquele anúncio decidiria se Yvelle Schweitzer era aliada ou inimiga…
Ela caminhou pela plataforma até o parapeito, com uma mureta lotada de flores das mais variadas cores. Usava um vestido cheio de orquídeas, com tons de roxo, rosa e um branco radiante que a fazia brilhar com a luz dos três sóis.
— Zaltan! — Mirele saiu da multidão perto da arquibancada.
— Mirele, você está bem? Não pude pegar o final da luta…
— Está tudo bem… — ela apertou o pano vermelho que segurava e o guardou dentro de suas roupas. — Então ela finalmente chegou, né?
— Vamos ver se ela vai comentar o ataque ao hospital. Acho que é o mínimo a se fazer… — Vaia murmurou.
— Ou talvez dos acordos com o norte… — Talyra disse.
— Acordos com Nanavit, você quis dizer. — Cálix a corrigiu num tom sério.
Alguns funcionários do ducado arrastaram uma peça de metal com um fio até Yvelle. Ela bateu algumas vezes no dispositivo. No momento em que ela começou a fazer o teste de som, as flores no palco se abriram e a plataforma subiu no ar, com as raízes se fixando pelas pernas da estátua de Heinrich.
— Bom dia, amado povo de Tzoldrich! Gostaria de agradecer a todos vocês pela presença essencial em mais um festival das flores, desta vez para meu aniversário de quarenta e sete anos! — O som de sua voz saiu das flores desabrochando no palco.
— Nossa! Como ela é conservada! — comentou Vaia, surpresa e com a mão sobre a boca.
— Essa grande comemoração vem com grandes anúncios! Antes de mais nada, eu gostaria de expressar minha gratidão pelos nossos avanços nos últimos anos. Mais de trinta escolas foram construídas; não temos mais pessoas em situação de pobreza extrema, todos podem sempre frequentar uma instituição de ensino ou o hospital ducal… Simplesmente maravilhoso, devo dizer.
“Tem caroço nesse angu…” pensou Cálix.
— Mas, como sua líder, eu sinto que podemos sempre dar um passo adiante. Microfones como este, dispositivos hospitalares da mais alta tecnologia; dispositivos de comunicação a longas distâncias. As possibilidades para o continente sul são ilimitadas.
O povo observava Yvelle com grandes expectativas. Cálix a olhou com mais afinco. O coração dela palpitava de ânimo e seu peito inchava com a respiração contagiante dela.
Seja lá o que Nanavit falou para ela, a duquesa acreditava fielmente no que dizia. “Pobrezinha…” pensou.
— As minas de prata estiveram fechadas nos últimos meses, e alguns de vocês, caçadores de monstros, devem ter ouvido algumas explosões vindas das cordilheiras. — Yvelle alargou seu sorriso e se aquietou por um momento.
Os murmúrios da multidão ficavam cada vez mais altos; todavia, não pareciam mais tão animados.
— O Ducado de Tzoldrich anuncia sua primeira conexão com uma nação fora do continente sul, além dessas montanhas que nos mantiveram aprisionados por séculos!
— Espera… O quê?! — Zaltan exclamou.
Os outros jovens e toda a multidão seguiam questionando o que possivelmente a duquesa estaria implicando.
— Nem fudendo… — Cálix arregalou os olhos.
— M-Mas… isso é loucura! — Talyra concordou com o amigo.
Até mesmo Darfur e Alphie, que observavam de longe, não puderam deixar de comentar no anúncio seguinte de Yvelle.
— Então… Nira não é mais a única ameaça…?
— Vadia Schweitzer… você se passou nessa. — O alquimista disse, de um telhado próximo.
— Em cinco dias. O Ducado finaliza sua maior obra: um túnel entre as cordilheiras que conectará todos os feudos do continente sul com o Império de San-Solaris!!!
Os gritos da multidão vieram, de fato. Contudo, Yvelle só não esperava que as vaias fossem igualmente presentes.
Yvelle pigarreou e fez ainda mais gestos, exaltando sua fala enquanto continuava a falar para um povo que mais parecia recuar do que aclamar.
— Ademais, as tecnologias importadas vão só se expandir! — anunciou, com a voz falha. — Em alguns anos, esperem poder abolir o uso de cavalos, o envio de cartas para comunicação e até mesmo o uso intensivo de misticismo para trabalhos braçais ou pesados.
Na multidão silenciosa, uma voz se levantou para indagar a duquesa sobre o seu segundo anúncio omissivo.
— E o que isso quer dizer, pelos três sóis?!
— Estaremos concedendo a permissão de receber energia do Norte. Uma de suas barreiras do sul foi recentemente conectada e…
— Você deu o controle de nossas barreiras para o norte?!! — Outra pessoa berrou, uma mulher com roupas chiques.
— Acal…
Antes que Yvelle pudesse ordenar para que as pessoas se acalmassem, um enorme debate se ergueu pela multidão e o caos se instaurou entre os grupos que ela conseguia facilmente determinar apenas com os olhos.
Os conservadores estavam apenas esperando por essa faísca.
“Será que eu me entusiasmei demais…?” Ela pensou. Seu olhar desabando enquanto os sons se abafaram e ela parecia perder a firmeza nas pernas.
— Duquesa! — um dos guardas ao seu lado gritou.
Agora, os apoiadores de Yvelle debatiam de volta, sem violência física. Mas as vozes irritadas e os gritos de discordância eram piores do que qualquer baque entre espadas.
Yvelle lentamente se questionava o porquê do pavio estar tão curto no momento em que ela começou a discursar. Claro, o império do norte é estrangeiro, mas eles só querem ajudar…
Zaltan massageou os olhos e suspirou, decepcionado. Todos os jovens estavam próximos uns dos outros, mas não conseguiam se ouvir pelo tumulto generalizado.
O ex-rei tocou no ombro de Cálix, que parecia confuso com a situação toda.
— Clérigo, consegue me responder se a duquesa mentiu em algum momento durante o discurso?
— Q-Quê…? — disse, coçando a nuca. — Não, se ela omitiu alguma coisa, eu mal notei…
— Ótimo, era o que eu precisava saber. — Ele dirigiu sua voz para Mirele desta vez. — Vamos voltar para casa, hei de falar com a duquesa quando esse caos acabar.
A garota acenou com a cabeça. Ambos se despediram dos jovens e foram embora.
— Pessoal, como está a bebê?
Foi só quando Cálix olhou que pôde perceber o pânico no rosto de Lâmina e Vaia, que tentavam acalmar a bebê a todo custo. A pobrezinha chorava e esperneava pelo barulho das pessoas discutindo.
— Céus! Pessoal, vamos indo também! — Ele gesticulou para os dois. — Talyra…
…
— Talyra?
A garota estava mais perplexa do que ele. Puxou Cálix pela manga da túnica e disse, numa voz leve e baixa, mas alta o bastante para o clérigo perceber sua urgência e desespero.
— Cálix… O que aconteceria com Tzoldrich se Nanavit tivesse acesso irrestrito de poder teúrgico ao ducado?
— E agora, voltamos com as notícias da Gazeta Imperial: os esforços diplomáticos de nossa grande imperatriz Giovanna e do chefe de Pesquisa e Desenvolvimento, IIsaac, foram um sucesso. A grande nação de San-Solaris progride para libertar suas correntes geográficas depois de quase quinhentos anos de isolamento. Como você se sente com relação a isso?
— É um momento maravilhoso para todos os cidadãos — o outro âncora do canal respondeu. — Com nossas conexões aos reinos do sul, em breve, finalmente teremos acesso ao misterioso oceano denominado de Abismo Revolto.
— O Magistrado Alexei também fez um pronunciamento sobre o seu plano de ação contra os monstros do Abismo Revolto. Deveríamos nos relembrar de suas nobres palavras?
Na televisão, um vídeo de alguns meses antes tocou, exibindo Alexei com seu olhar cansado de sempre.
— Er… O Abismo Revolto? É, eu dou um jeito. É só acabar com os monstros de lá, né?
O vídeo se encerrou, novamente voltando para os dois âncoras encarando a câmera com sorrisos radiantes.
— Palavras reconfortantes de um de nossos grandes líderes, não acha?
— Não poderia concordar mais!
— IIsaac!! — Nanavit berrou.
— Algum problema?
— Desliga a porra dessa televisão.
Splash!
O som da água ecoou pelo salão de banho de Nanavit no momento em que seu braço se soltou na água.
A jovem estava debruçada em uma das bordas da banheira — que mais parecia uma piscina, pela extensão — e inspirou relaxada quando a televisão do local foi desligada.
IIsaac também estava no local, sentado em um dos cantos, enquanto seus olhos brilhavam, provavelmente mexia em seus sistemas.
— Robôs geralmente não falham em ambientes úmidos?
— E você pensa que sou um robô qualquer? Humanos também têm dificuldade para respirar se há muito vapor de água no ambiente. Você é uma humana qualquer?
— Touché, IIsaac. Touché. — Nanavit se virou na banheira e começou a encarar o teto de vidro, que dava diretamente para o céu noturno e estrelado.
— Em breve, eu poderei estar livre fora de San-Solaris e minhas barreiras vão se expandir cada vez mais. Mas… algo está me incomodando…
— Talvez seja a ressurreição inesperada de seu ex-namorado — IIsaac pontuou. — A nossa colega dragão de Arquoia não nos deu um retorno até hoje.
— Grr! Já falei para não me provocarem com isso. Cálix é um nada! Não vale meu tempo. Agora, aquela bebê, por outro lado…
O salão ficou em silêncio por um instante. Nanavit afundou sua cabeça na água quente e IIsaac voltou ao seu estado imóvel, até que ele despertou repentinamente.
— Meus drones de escavação finalizaram as obras nas montanhas. — IIsaac se levantou. — Por favor, imperatriz, verifique o status das barreiras do ducado de Tzoldrich.
Nanavit fechou os olhos e se concentrou por uma fração de segundo. Os sussurros divinos invadiram sua mente, transmitindo apenas uma única resposta: “A hora chegou”.
— A subjugação deve ser rápida. Um de meus protótipos, réplica de uma serpente das cordilheiras, foi destruído depois de uma explosão mal calculada minha. Mas sinto que três delas devem devastar o ducado o suficiente para começarmos nossa colonização.
Nanvit cerrou o punho.
— Talvez nem haja a necessidade de você ir lá pessoalmente…
Os sussurros divinos invadiram a mente de Nanavit mais uma vez. Alguém queria se comunicar com ela.
“Minha carta d’O Círculo não está comigo agora… Deve ser alguém que está com uma de minhas cartas”, pensou.
Nanavit liberou a comunicação e soltou um enorme sorriso ao ouvir a voz de Nira do outro lado, falando por meio de sua carta.
— Diga.
— Meus informantes me comunicaram. Estamos com sorte grande…
Ela continuou.
— O sabre, Zaltan, a bebê e Cálix… Todos estão em Tzoldrich. — Nira cruzou os braços. — Faça o que quiser com essa informação. Resolverei as coisas do meu jeito agora.
Nanavit se levantou da água em um surto de adrenalina, suspirando e roendo as unhas de ansiedade.
— Alexei!!
Atrás de uma das paredes do cômodo, o homem interrompeu uma de suas massageadoras automáticas e levantou o pepino dos olhos, sem nem conseguir ver Nanavit ou IIsaac.
— Fala.
— Vou terminar o que não consegui antes.
A jovem começou a caminhar até a saída. Uma luz dourada refletiu de todas as paredes e do chão até seu corpo, fazendo uma camada leve de luz que se transformou em um conjunto de roupas brancas e douradas.
— Você e IIsaac cuidam do império, vou me ausentar. Retornarei com essa situação desagradável da bebê resolvida.
Ela andou apressadamente até a saída. Deixando os dois, homem e robô, sozinhos mais uma vez.
— Finalmente, tenho a banheira só para mim — disse IIsaac, levantando-se, enquanto Alexei só retomava a sua massagem.
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