Volume 1

Capítulo 1: Chamas da Curiosidade (1)

 

 

Morar perto das montanhas é realmente uma maravilha. O ar fresco enche meus pulmões, e a natureza abundante nunca deixa de me surpreender. Explorar as criaturas que habitam essas terras se tornou a minha paixão. Os vales e rios são meus lugares favoritos, onde tomo banho e me maravilho com a pureza das águas intocadas.

E pensar que eu tenho apenas 11 anos. Meu nome é Kaito, e um dia vou realizar grandes feitos. Mas há algo que me incomoda: sei tão pouco sobre o meu passado. Minha avó, Isolde Stonehaven, se recusa a me contar qualquer coisa. Estou convencido de que aquela velha está escondendo algo. Isolde não é apenas uma avó qualquer; ela é uma feiticeira poderosa, reverenciada por sua destreza mágica e sabedoria milenar. Os moradores da vila a adoram, e eu não consigo evitar ouvir as histórias que contam.

E tem também Lyria Whisperwind. Ela é implacável em suas buscas, apesar dos fantasmas do passado. Ouvi muitas histórias sobre ela, determinada e firme em seus objetivos. Claro, estou apenas repetindo o que ouvi por aí, mas isso não importa agora.

Vivemos escondidos nas montanhas, onde tudo parece tão calmo. Mas minha avó está sempre no meu encalço quando desapareço sem avisar. Ela sempre pede para Lyria ficar de olho em mim, mas eu já estou bem esperto em escapar. Nossa casa é um lugar acolhedor, onde a magia faz parte do próprio tecido da vida.

Quando o dia mal havia amanhecido, eu já estava decidido a me aventurar. Saí de fininho, na esperança de escapar sem ser notado, mas não tive tanta sorte. Lyria estava na varanda, aproveitando o sol da manhã, e me pegou em flagrante.

— Kaito! Onde pensa que vai assim, sem avisar? — perguntou ela, a voz firme, mas não sem um toque de preocupação.

— Só queria explorar um pouco, Lyria, não é nada demais — respondi, tentando amenizar a situação.

Ela suspirou e balançou a cabeça.

— Você precisa parar de sair por aí sem motivo. É perigoso, e sua avó ficaria furiosa se soubesse. Prometa que vai tomar mais cuidado, está bem?

Eu sabia que ela estava certa, mas a vontade de explorar sempre falava mais alto. Mesmo assim, prometi com um aceno de cabeça, sabendo que aquela não seria a última vez que ela teria que me dar uma bronca.

Lyria me olhou por um instante, avaliando se minha promessa era sincera, antes de suavizar o tom.

— Kaito, eu entendo sua curiosidade. Afinal, também sou assim, mas há coisas lá fora que você ainda não está preparado para enfrentar. Não é que eu queira te prender aqui, só estou tentando te proteger.

— Eu sei, Lyria — respondi, um pouco mais sério dessa vez. — Mas é que... tem tanta coisa pra descobrir. E tem coisas sobre mim que eu sinto que preciso entender.

Ela suspirou novamente, mas dessa vez havia algo diferente em seu olhar. Talvez ela soubesse mais do que estava disposta a dizer.

— Seu tempo vai chegar, Kaito. Só precisa ter paciência. Enquanto isso, explore, mas faça isso com sabedoria. E nunca esqueça que estamos aqui para te ajudar a encontrar as respostas que procura, na hora certa.

Havia um peso nas palavras dela que eu não conseguia ignorar. Talvez ela e minha avó soubessem mais sobre o meu passado do que estavam dispostas a revelar, mas sabia que insistir agora não adiantaria.

— Tá bom, eu prometo ser mais cuidadoso — respondi com um sorriso meio culpado.

Ela sorriu de volta, tocando meu ombro de leve.

— Agora, que tal ajudar a cuidar das plantas antes de sair por aí de novo? Quem sabe eu não conto uma história enquanto fazemos isso? — Ela sugeriu, mudando de assunto.

— Ah, eu gosto dessas histórias! — respondi, animado com a ideia. Afinal, mesmo as pequenas tarefas podiam se tornar grandes aventuras com as histórias de Lyria. E, quem sabe, em uma delas, eu poderia descobrir mais sobre o que tanto me intrigava.

Depois de ouvir as histórias e ajudar Lyria com as plantas, decidi ir até o rio e fiquei lá, refletindo um pouco. A água cristalina corria suavemente, e o som tranquilizante do fluxo deveria acalmar minha mente, mas, mesmo diante de tamanha beleza, uma inquietação persistia em meu coração.

— O que tem além dos limites da vila? — murmurei para mim mesmo, contemplando minha imagem refletida nas águas. Era uma pergunta que me assombrava constantemente. Eu sentia que o mundo lá fora guardava segredos que eu precisava desvendar.

— Preciso dar um jeito logo! — sussurrei, sentindo a ansiedade misturada com uma determinação crescente dentro de mim.

De repente, uma voz suave sussurrou ao meu lado, quase como se estivesse dentro da minha mente.

— Você consegue, eu sei que consegue.

Meu coração disparou. Eu me virei abruptamente, procurando pela origem daquela voz.

— Quem disse isso?! — perguntei em voz alta, meu olhar correndo pelo entorno. Não havia ninguém ali, apenas a tranquilidade do rio e a floresta ao redor. A sombra que eu achava ter visto sumiu tão rápido quanto apareceu.

Minha respiração ficou agitada, ecoando na quietude do ambiente. A sensação de estar sendo observado não me abandonava, mas recusei-me a deixar o medo tomar conta.

— Deve ser coisa da minha cabeça... — murmurei, tentando afastar a sensação. — Já cansei desse lugar.

Olhei ao redor uma última vez, o desconforto ainda presente, mas decidi que era hora de partir.

"É melhor eu sair daqui antes que enlouqueça de vez," pensei, afastando-me rapidamente do rio, minha mente ainda tentando processar o que havia acontecido.

Apesar da minha curiosidade insaciável e da vontade de explorar, eu também gostava de ajudar os outros moradores da vila. Sempre que podia, eu absorvia o máximo de conhecimento e compartilhava minhas experiências com uma empatia que surpreendia até mesmo os mais velhos. Mas, naquele momento, minha mente estava focada em algo maior. Eu sabia que tinha que descobrir o que estava além dos limites da vila, mesmo que isso significasse confrontar os mistérios que se escondiam na escuridão.

A vila um lugar simples e tranquilo. As casas de madeira se misturavam com a natureza, e as ruas contavam histórias silenciosas dos muitos passos que as percorriam. À noite, o céu estrelado deixava tudo ainda mais mágico.

Mas a avó Isolde, sempre preocupada, insistia para não me aventurar até tarde, mesmo que a vila fosse segura. Ela sabia que o inesperado podia acontecer.

Num fim de uma tarde, quando o sol estava quase se pondo, não voltei para casa no horário de sempre.

— Ele deve estar bem, não se preocupe tanto, vovó. Aquele garoto conhece bem os arredores — disse Lyria, tentando tranquilizá-la, antes de sair.

— Eu sei, minha querida, mas nunca é demais tomar cuidado. Ele é minha responsabilidade e minha maior preocupação — respondeu ela, com um pouco de apreensão.

— Vou atrás dele! Aquele moleque às vezes esquece das coisas. Assim que encontrá-lo, vou dar uma bronca nele! — exclamou ela, enquanto saía em sua busca.

Observei Lyria se afastando, enquanto uma mistura de gratidão e preocupação se refletia em meus olhos cansados.

— Ai ai, aquele garoto... Onde será que devo procurar? Vou andar mais um pouco e perguntar para algumas pessoas da vila.

Caminhei pelas ruas da vila com passos decididos, meu coração pulsando forte no peito.Lembrei que aquele garoto tem um cantinho especial. Vou direto para lá; sei que vou encontrá-lo.

Eu estava lá, em cima de uma pedra gigante que oferecia uma vista incrível do horizonte distante. Decidi ficar mais um pouco. Enquanto o sol se punha, permaneci ali, distraído, sem perceber a preocupação que estava causando aos outros.

A brisa suave do fim da tarde acariciava meu cabelo enquanto eu me perdia em pensamentos profundos, contemplando o horizonte.

— Eu sabia que ia encontrá-lo! Olha só, ele está despreocupado, mas o que importa é que ele está bem — disse ela, com um sorriso no rosto.

— Tudo bem aí? — perguntou Lyria, a voz cheia de preocupação. — A vovó tá ficando agoniada com a tua demora. Bora voltar antes que a noite pegue a gente de jeito.

— AH! Não é surpresa que você tenha me achado. 

— A vovó deve estar à beira de um ataque cardíaco — disse ele sorrindo. 

— Eu estava quase voltando. Só queria curtir mais um pouco o pôr do sol.

Ela chegou mais perto, sentou-se  ao meu lado, puxou minha orelha e disse: Essa você mereceu por preocupar a vovó.

— Então, bora assistir juntos, mas não vamos demorar muito.

Enquanto víamos o sol sumir devagar no horizonte, deixando o céu todo colorido, fiz uma pergunta para ela, algo que vinha martelando meus pensamentos há algum tempo.

— Tu achas que um dia eu vou conseguir? E descobrir o que tem depois da vila?

Com os olhos fixos no horizonte, peguei um colar com uma pedra preciosa e mostrei para ele. Esta é a única lembrança que tenho da minha família. Foi uma tragédia, e todos os dias, ao olhar para ele, lembro de tudo.

— O que aconteceu? — perguntou ele, curioso.

 — Olha só, Kaito, este colar aqui... Quando eu era pequena, um lobo apareceu nas redondezas. Fiquei tão assustada, mas meus pais deram suas vidas para me proteger. Foi graças a eles que consegui escapar. Desde então, este colar é minha lembrança deles.

— Nossa! Desculpa, Lyria. Te fiz lembrar de coisas ruins.

— Relaxa, não posso ficar pensando nisso pelo resto da vida. Meus pais me deram uma segunda chance, então devo aproveitar, honrá-los e seguir em frente — disse ela, aliviada após soltar essas palavras.

— Além da vila, tem um monte de criaturas e coisas perigosas? — perguntou ele, com um peso nos ombros.

— Provavelmente sim, mas só sei de uma coisa: o mundo lá fora é bem cruel.

— A gente se preocupa contigo justamente por isso. Não queremos que nada de ruim aconteça contigo.

— Eu juro que um dia vou alcançar esse objetivo. Quando completar 18 anos, estou determinado a iniciar uma jornada além do horizonte.

Após toda nossa conversa, ela me abraçou apertado e sussurrou belas palavras no meu ouvido: Você vai conseguir o que quiser, só depende de você explorar o mundo afora, vai depender dos seus esforços.

— Vou me preparar muito até chegar esse dia. Não vou desistir nem por um momento — afirmou ele, confiante, e depois sorriu ao olhar para Lyria, cujos cabelos balançavam ao vento.

Rapidamente, ela mudou o tom de voz, chamando minha atenção.

— Bora logo! Tá anoitecendo.

Enquanto nós dois caminhávamos de volta para casa, a noite nos envolvia em um manto de escuridão. Os ruídos da floresta ganhavam um ar mais sinistro, e havia uma sensação de inquietação no ar. De repente, um som estranho quebrou o silêncio, fazendo-nos parar subitamente.

CRRAAASSHHHHH! CRRAAASSHHHHH!

 Franzi meu rosto e olhei em volta com cautela.

— O que foi isso? — ele sussurrou, sua voz tensa.

— Não sei. Fique calmo, deve ser nada. Fique perto de mim.

— Eu não tenho medo de nada.

— Garoto! Você está de brincadeira?  

— Não é hora pra isso! — Disse ela, com aquele olhar sério.

— Eita! Olha, tem uma coisa no nosso caminho.

— Ei, aquilo é estranho... o que será? — perguntou Kaito, enquanto segurava a mão de Lyria.

Foi então que percebi: a mão dela estava suando muito. Apesar de tentar manter a postura de durona, estava claro que aquilo no nosso caminho era um problema sério, algo que não poderíamos ignorar.

— Não sei, Kaito..., mas não quero ficar aqui para descobrir. Vamos sair daqui agora. — A voz dela era firme, mas tinha um leve tremor que denunciava sua inquietação.

A criatura estava imóvel no meio do caminho, envolta por uma sombra densa e inquietante. Apesar de ser noite, a luz da lua cheia revelava sua presença. Seus olhos brilhavam como uma luz sinistra, cortando a escuridão como faróis de um predador. Nunca havíamos visto algo assim antes. Havia algo em sua postura — uma mistura de ameaça e fome selvagem — que fazia cada fibra do meu ser gritar para fugir.

Lyria deu um passo para trás instintivamente, o som de sua respiração acelerada quebrando o silêncio tenso.

— Precisamos... — começou ela, mas sua frase foi interrompida por um rugido cortante.

A criatura avançou em um instante, as garras reluzindo sob a luz da lua.

Sem pensar, me movi. Empurrei o garoto para longe, mas antes que pudesse desviar completamente, senti o impacto. As garras rasgaram meu braço esquerdo, uma dor ardente que quase me fez cair. Mesmo assim, não soltei o garoto de vista. Cada movimento agora era uma luta pela sobrevivência.

— Ahhhhhhhhhh! Droga! Mais que dor...

O sangue começou a escorrer pelo braço ferido dela, manchando o solo com tons escuros e brilhantes sob os raios da luz noturna.

Nesse momento, eu fiquei paralisado de medo, incapaz de me mover ao ver o que tinha acontecido com Lyria.

Tudo ao meu redor parecia mudo, meus sentidos amortecidos pela intensidade do momento.

“Eu não consigo falar… Meu corpo não me obedece” …

Uma grande sensação de desespero tomou conta de mim, minhas pernas começaram a tremer involuntariamente.

— Kaitooooooooooooooooo! Acordaaaaaaaaaa!

A voz de Lyria soava como se viesse de um lugar distante. Mas suas palavras foram suficientes para que eu recuperasse um pouco da minha própria consciência.

— Temos que correr se quisermos sobreviver.

Vamooooos!  Correeeeeeeeeeeeeeer!

Nos corríamos desesperadamente, se esforçando para ganhar distância da terrível criatura.

— Vamos cortar caminho por dentro da floresta, falta pouco para chegar em casa — sugeriu Lyria, sua voz trêmula, mas determinada.

— Será que vamos conseguir? — perguntou Kaito, sua respiração ofegante refletindo sua ansiedade.

— Ou conseguimos! Ou vamos virar comida dessa criatura! — declarou, com urgência na voz.

A criatura continuava a sua perseguição implacável, atacando com golpes cada vez mais poderosos, rasgando as árvores que caíam com estrondos ensurdecedores.

! CRRAAASSHHHHH!!! CRRAAASSHHHHH!!! CRRAAASSHHHHH!!

— Corra mais rápido, garoto! — gritou ela, seu tom urgente.

— Estou tentando! — sua voz cheia de determinação enquanto acelerava o passo.

— Precisamos despistar essa coisa! — exclamou Lyria, com os olhos fixos adiante, procurando desesperadamente por uma rota de fuga.

Enquanto estávamos fugindo pela floresta escura, avistamos uma ravina estreita à nossa direita, com um riacho correndo furiosamente no fundo.

SWOOSH! SWOOSH! SWOOSH! SWOOSH! SWOOSH! SWOOSH!

— Esse barulho é de um riacho.

— Rápido! Siga-me! — ela grita, indicando a direção da ravina.

Sem hesitar, pulamos pela ravina abaixo, mas o solo estava muito escorregadio, e ambos perdemos o equilíbrio na lama, caindo e rolando morro abaixo. Foi tudo muito rápido.

— Que drogaaa! Nem percebemos que tinha essa lama — disse um deles.

— Maldição! Essa praga não para de nos seguir. Será que vai nos perseguir até no inferno? — questionou o outro.

— Estamos cobertos de lama. Nossa! Seu braço está feio, Lyria — questionou kaito.

— Esqueça meu braço, olha só essa situação! — Lyria exclamou, tentando desviar o foco da preocupação sobre seu ferimento.

NOSSAAAAAAAAAAA!  NÃO ACREDITOOOOOO NISSOO!

— Essa lama está dificultando muito a nossa fuga — disse Lyria, expressando sua frustração com a situação.

 Eles se deparam com o riacho na sua frente.

— Aqui! Vamos nos esconder na água! — Kaito sugere, desesperado.

A água gelada do riacho parecia cortar minha pele como lâminas de gelo, mas não havia escolha. Estávamos submersos até o pescoço, tentando ao máximo controlar nossa respiração para que nem o menor som fosse percebido.

A criatura caminhava na margem, suas patas pesadas esmagando galhos e folhas secas com um som ameaçador. O ar parecia carregado, como se até a floresta segurasse o fôlego.

Lyria estava ao meu lado, com os lábios quase roxos pelo frio, mas seus olhos fixos na criatura refletiam determinação.

— Não se mova, não importa o que aconteça — sussurrou ela, mal mexendo os lábios, suas palavras quase se dissolvendo no som da correnteza.

A criatura parou de repente, erguendo sua cabeça grotesca.

GRRRRRRRRRRRRR! GRRRRRRRRRRRRR!

O som gutural reverberava pelo vale, e meu coração parecia querer pular pela garganta. A criatura inclinou a cabeça, suas narinas enormes farejando o ar com avidez.

De repente, ela deu um salto para dentro do riacho, a poucos metros de nós. A água espirrou, quase revelando nossas posições.

Lyria me lançou um olhar rápido, como se dizendo “não se atreva a se mexer”. Meu corpo tremia, mas consegui me manter imóvel.

A criatura vasculhou a correnteza por alguns segundos intermináveis, seus olhos sinistros varrendo a superfície da água. Então, como se tivesse perdido o interesse, ela deu um grunhido frustrado e voltou para a margem.

Ainda esperamos longos minutos após ela desaparecer da nossa vista, incapazes de confiar no silêncio ao redor. A tensão era quase tão sufocante quanto a água gelada que envolvia nossos corpos.

— Acho que... ela foi embora — Lyria disse finalmente, quase inaudível, sua voz tremendo de alívio e exaustão.

Mal tive tempo de responder quando um som distante, como um galho quebrando, nos fez voltar à realidade. Talvez a criatura não tivesse ido tão longe quanto pensávamos.

 

 

 


 

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