vol 2

jogo numero:10 (construção de sucata)

 





(0/30)

Yuki despertou sobre um chão de concreto frio.

(1/30)

Assim que recobrou a consciência, percebeu que estava deitada diretamente sobre o concreto.
A textura áspera e impiedosamente gelada do material se fazia sentir sob seu corpo.

Ela se levantou.

Vestia um vestido branco — daqueles que ficariam lindos sob um céu de verão, o tipo de roupa que protagonistas de visual novels costumam usar. Era o traje preparado para aquele jogo.
O tecido combinava com sua pele pálida, quase fantasmagórica… mas o céu azul que deixaria a cena bonita simplesmente não existia ali.

O ambiente estava mal iluminado, quase escuro.
As luzes permaneciam apagadas, e nenhum raio de sol entrava pelas janelas.

O que impedia o quarto de mergulhar na escuridão total era apenas um monitor preso à parede, exibindo números digitais.

O brilho vermelho marcava:

05:32:12

Os números diminuíam segundo a segundo.

Em cinco horas e meia, a contagem chegaria a zero.

Mas Yuki não tinha como saber se aquilo indicava o começo do jogo… ou o fim.

Ainda assim, o quarto era escuro demais.

Guiando-se apenas pela luz fraca do monitor, ela observou o local ao redor.

O espaço tinha mais ou menos o tamanho da sala de estar de uma casa comum de classe média. O chão, porém, estava coberto por cacos de vidro e pedaços de madeira.
Parecia o interior de um prédio abandonado — ou pelo menos era essa a impressão.

Talvez os organizadores tivessem simplesmente reaproveitado um edifício em desuso como cenário do jogo.

Enquanto caminhava, Yuki chutou algo sem querer.

Ao olhar para baixo, viu uma mochila.

Não era dela — claramente havia sido fornecida para o jogo.

Ela abriu o zíper.

Dentro, encontrou uma quantidade generosa de suprimentos.

Os primeiros itens que chamaram sua atenção foram rações de emergência embrulhadas em papel-alumínio — exatamente como ela sempre imaginava que seriam.

Experimentou uma das três porções.

O gosto lembrava a primeira tentativa de uma fabricante de energéticos em transformar bebida em comida sólida.

Conclusão: a comida daquele jogo ficava definitivamente no nível mais baixo de qualidade.

Em seguida, encontrou materiais de primeiros socorros.

Nada especial — apenas itens comuns, como os que um trilheiro carregaria, não um médico de combate.

Curativos, pomada, colírio, remédio para dor de estômago.

Mesmo sem saber que tipo de jogo a aguardava, Yuki tinha quase certeza de uma coisa:

Provavelmente — não, certamente — aquilo não ajudaria muito.

Continuando a vasculhar a mochila, encontrou alguns equipamentos de sobrevivência mais práticos: um kit de costura, uma lanterna…

E também ferramentas que podiam facilmente tirar a vida de alguém.

Uma faca.
Uma corda.

Além disso, havia mais um objeto.

“…?”

Era uma folha branca.

O papel tinha uma textura mais firme e agradável que o comum.

Estava totalmente em branco, dos dois lados.

Seu propósito não era nada óbvio.

Seria algo para primeiros socorros?
Ou ela simplesmente não sabia como era uma gaze moderna?

Dobrou, puxou, mexeu de vários jeitos, tentando descobrir sua função.

Depois de chegar a uma conclusão provisória, guardou tudo de volta na mochila.

Colocou-a nas costas e saiu do quarto.

O corredor estava muito mais deteriorado do que o interior do quarto onde havia acordado.

Se quisesse sair dali com as pernas — e o vestido — intactos, teria que andar com cuidado.

Não havia luzes ali também.

A única iluminação vinha de contadores digitais espalhados pelas paredes.

Logo ao lado do quarto havia uma escada.

Mesmo assim, Yuki decidiu primeiro verificar todo o andar.

Optou por não usar a lanterna.

Como era notívaga, aquela escuridão não a atrapalhava muito.

Além disso, preferia economizar bateria.

Num jogo que acontecia em um prédio escuro, fontes de luz certamente seriam preciosas.

Atenta ao redor, seguiu pelo corredor.

Deu uma volta completa no andar.

Um mapa velho caído no chão indicava que estava no quinto andar.

Sem janelas, era impossível saber se era dia ou noite.

Havia seis salas no total.

Enquanto começava sua segunda volta, pensava qual investigar primeiro.

Normalmente escolheria a porta maior, mas todas eram idênticas.

Restava apenas escolher ao acaso.

Entrou em uma delas.

O tamanho era exatamente igual ao do quarto onde havia acordado.

O interior estava igualmente destruído, iluminado apenas pelo brilho do cronômetro na parede.

E havia alguém ali.

Uma garota dormindo profundamente no chão de concreto.

“…Oh?”

Isso era incomum.

Yuki só tinha encontrado jogadoras dormindo algumas vezes antes.

Antes de cada jogo, todos recebiam um comprimido para dormir, e o efeito costumava ser tão forte nela que quase sempre era a última a acordar.

Talvez seus novos hábitos de vida mais saudáveis tivessem mudado a forma como seu corpo reagia ao remédio.

Pensando nisso, aproximou-se da garota.

Assim como Yuki, ela vestia um vestido branco.

Mas nela, a roupa parecia ainda mais elegante — como se fosse uma jovem dama de família rica.

Seus longos cabelos loiros formavam cachos de princesa, belíssimos, quase valiosos como ouro.

Um penteado raro de se ver.

Yuki ficou encantada.

Seu lado travesso despertou.

Teve vontade de tocar aqueles cachos.

Aproximou-se na ponta dos pés.

De repente—

A garota virou o corpo enquanto dormia.

Num piscar de olhos, o cabelo se espalhou, cobrindo todo o campo de visão de Yuki.

Seu desejo foi atendido… mas ao custo de não enxergar nada.

Antes que pudesse reagir, algo frio pressionou seu pescoço.

Unhas.

Longas.

Da garota.

“Poderia se identificar?”, ela perguntou, piscando lentamente. Ao mesmo tempo, a pressão aumentou.

Yuki ergueu as mãos, como alguém rendido diante de uma arma.

“…Meu nome é Yuki. Prazer em conhecê-la.”

(2/30)

Depois disso, elas se moveram rapidamente.

A garota com jeito de princesa passou de quarto em quarto, acordando os jogadores restantes. Em menos de cinco minutos, todos do andar estavam reunidos em uma única sala.

“Este era o único quarto vazio”, disse a princesa, olhando ao redor. “Será que já estava desocupado desde o início? Ou pode haver outra jogadora escondida em algum lugar? Bem… imagino que descobriremos conforme o jogo avançar.”

Ela se virou para o grupo que havia reunido.
Yuki acompanhou seu olhar.

Havia cinco pessoas na sala, contando com ela e a princesa.

Todas pareciam menores de idade.
Todas usavam vestidos brancos.

A escolha daquela roupa era estranha. Um prédio abandonado… vestidos brancos…
Era pra parecer fantasmas?

Se fosse esse o objetivo, então ninguém combinava mais com o cenário do que a própria Yuki.

“Primeiro, que tal seguirmos o protocolo padrão e fazermos apresentações?”, sugeriu a princesa, encarando Yuki diretamente. “Embora a maioria de nós já se conheça.”

“Hã?”, Yuki piscou, olhando em volta.
Por coincidência… todas estavam olhando pra ela. “Espera… vocês se conhecem?”

“Sim. Já colaboramos em vários jogos. Você é a única desconhecida aqui.”

Yuki também nunca tinha visto nenhuma delas antes.
Três meses atrás, quase todas as jogadoras veteranas tinham sido dizimadas no jogo chamado Candle Woods. Essas garotas deviam ter começado depois disso.

“Acho que eu começo então”, disse Yuki.

Nem sabia direito por quê, mas parecia natural falar primeiro.

“Meu nome é Yuki. Esse é meu décimo jogo. Já faz um tempo desde o último, mas ainda devo ser útil.”

No instante em que ela disse décimo, a expressão da princesa azedou.

Provavelmente ela ainda não tinha chegado nesse número.

As outras três também não, ao que tudo indicava.

“Prazer em conhecer vocês.”, Yuki finalizou com um aceno de cabeça.

“…Só isso?”, a princesa rebateu.

“O que mais eu deveria falar?”

“Suas habilidades, por exemplo. Sem essas informações, é impossível decidir a melhor forma de trabalhar com você.”

Yuki nunca tinha ouvido algo assim em apresentações.
Normalmente era só nome, número de jogos e pronto.

Talvez muita coisa tivesse mudado enquanto ela esteve afastada.

“Ah… bom… como parece ser um jogo de fuga… eu sou boa em detectar armadilhas. Também me viro bem em combate corpo a corpo”, coçou a bochecha. “Mas… não sou muito boa com coisas que exigem inteligência. Eu praticamente não fui à escola.”

Ela olhou direto para a princesa.

“Isso serve?”

“Sim. É o suficiente”, respondeu friamente. “Já entendi.”

Aquilo doeu um pouco.

“Eu vou agora”, continuou a princesa. “Podem me chamar de Mishiro. Este é meu oitavo jogo. Tenho confiança nas minhas habilidades de liderança, então normalmente organizo e coordeno o grupo.”

Então era isso.

Ela era a líder delas.

Explicava a postura arrogante.

Natural que não gostasse de alguém mais experiente aparecendo do nada.

“Próxima.”

“Eu sou Kotoha…”, disse a garota de óculos, numa voz quase sussurrada. “É meu quinto jogo. Acho que… posso ajudar mais na parte intelectual.”

Jeito de aluna de biblioteca total, pensou Yuki.

Nome delicado. Inteligente. Olhos baixos atrás das lentes.

Aliás, óculos eram raríssimos nesses jogos. O Tratamento de Preservação geralmente corrigia a visão. Talvez ela tivesse algum problema especial… ou fosse só apego emocional.

Yuki ficou curiosa, mas não era hora de perguntar.

“ ‘Acho’ é problemático”, Mishiro comentou, de olhos fechados. “Quantas vezes preciso dizer? Não use expressões inseguras. Essa atitude não combina com um jogo de vida ou morte.”

“D-desculpa…”

Climão.

A hierarquia entre as duas ficou bem clara.

“Chie aquiii~!”. A próxima falou, arrastando a voz. “Acho que esse é meu quarto jogo. Sou tipo… faz-tudo, sabe? Consigo fazer um pouco de tudo, mas nada muuuito bem. Prazer!”

Cabelo preso de lado. Jeito sociável.
A típica pessoa que se enturma com qualquer grupo.

“Sua vez!”, apontou.

“Sou Keito.” A última sorriu de um jeito meio suspeito. “Sexto jogo. Sou boa em descobrir rápido quem são os jogadores vencedores. Prazer.”

Quando disse “vencedores”, piscou para Mishiro.

Sombra ambulante, pensou Yuki.

Cara de interesseira profissional.

Provavelmente do tipo que se agarra ao jogador mais forte e sobrevive nas costas dele.

Quando todas terminaram:

“Será que existe uma sexta pessoa?”. Yuki comentou.

Afinal, havia um quarto vazio.

“Especulação inútil”, Mishiro cortou. “Descobriremos conforme o jogo avança. Vamos focar no que importa.”

Yuki só deu de ombros.

“Então, vamos prosseguir. Como sempre, assumirei o papel de líder. Todos de acordo?”

 

(3/30)

Keito foi a primeira a concordar, claro.

Depois Kotoha e Chie também assentiram.

Só Yuki ficou parada.

“Ótimo. Então eu assumo”

“Não é que eu esteja discordando, mas…”, Yuki falou. “Por que você deveria liderar? Eu tenho mais experiência que todo mundo aqui.”

“Confiança”, Mishiro respondeu na hora. “E adequação. Experiência não define liderança. Além disso, ninguém aqui conhece você. É mais seguro confiar em alguém com quem já temos vínculo. Concorda?”

…Ela tinha um ponto.

“Além disso… você me parece suspeita”. Mishiro sorriu.

Um sorriso bonito.
Se não fosse cheio de desprezo, talvez fosse encantador.

“Não parece alguém no décimo jogo. Sua postura é amadora. E eu te derrubei com facilidade. “Boa em combate corpo a corpo”? Difícil acreditar.”

“Tá me chamando de mentirosa?”

“De forma alguma. Só acho que suas palavras deveriam condizer mais com a realidade.”

As outras garotas claramente achavam que Yuki estava errada.

E… talvez estivesse mesmo.

No fim, liderança não era número de jogos.

“Tá bom”, Yuki suspirou. “Mishiro, você é a líder.”

“Então está decidido. Vamos começar.” Mishiro olhou para o cronômetro: 05:11:13. “Parece um jogo de fuga. Vamos descer as escadas.”

Ela pegou a lanterna da mochila.

“Vocês também têm?”

Todas assentiram.

“Usaremos uma de cada vez. Precisamos economizar bateria."

Fazia sentido.

Luz era recurso.

Formaram fila indiana no corredor escuro.

Keito foi na frente com a lanterna.

Desceram as escadas em silêncio.

Então, perto do patamar, Keito parou.

“…Eita.”

“O que foi?”

Ela apontou a luz para o chão.

Havia um buraco enorme. Grande o suficiente para engolir uma pessoa inteira.

“O prédio desabou em vários pontos…”, Mishiro murmurou. “Precisamos mirar a lanterna no chão também.”

“Não é só isso…”

Keito iluminou o fundo do buraco.

Todas olharam.

“A-Ah…”. Chie engoliu seco.

Lá embaixo…

havia um cadáver.

(4/30)

O cadáver deitava em uma posição propensa ao chão. Mesmo que seu rosto não fosse visível, Yuki percebeu que o rosto era de uma garota menor de idade vestindo um vestido branco. A escuridão do andar anulava o senso de distância, mas a garota provavelmente tinha caído um andar abaixo, descendo até o quarto andar. Seu pescoço tinha dobrado para um ângulo impossível a partir do seu torso – ela estava sem dúvida nenhuma morta.

A cabeça da garota parecia ter sido esmagada contra o chão, e as suas entranhas estavam saindo pelo ponto do impacto da queda. Entretanto, elas não eram vermelhas nem da cor de fluídos cerebrais– elas eram brancas. 

Graças ao Tratamento de Preservação, o procedimento de modificação corporal realizado nas jogadoras antes do início do jogo fazia com que qualquer tecido interno exposto ao ar inchasse e se transformasse em uma espécie de penugem branca, parecido com o algodão dentro de um bichinho de pelúcia. Esse era um dos métodos usados pelos organizadores para transformar jogos de morte em uma forma de entretenimento, garantindo que as fatalidades das jogadoras fossem visualmente aceitáveis na tela. Como Yuki nunca havia visto um cadáver de verdade, ela não fazia ideia se o tratamento realmente cumpria o efeito pretendido.

“Ela deve ser a sexta jogadora”, disse Mishiro em um tom calmo. “Muito provavelmente acordou antes do resto de nós e acabou caindo enquanto andava por aí de forma descuidada.”

A existência do corpo explicava o mistério do quarto desocupado no quinto andar. Não só isso, como também esclarecia algo que vinha incomodando Yuki — o motivo de ela ter acordado tão cedo. O quarto de Yuki ficava imediatamente ao lado da escadaria. Isso significava que o som da infeliz jogadora despencando até o quarto andar teria sido mais alto para ela do que para qualquer outra pessoa. Mesmo com o barulho alto ela havia dormido profundamente como de costume a trouxe uma leve decepção.

“Que garota Idiota”, Mishiro zombou. “Andar por aí despreocupadamente neste prédio desmoronando, sem nem prestar atenção no chão, sem sequer pensar em acordar as outras jogadoras antes…”

“Você tirou as palavras da minha boca”, acrescentou Keito.

“N-não, é que…” Foi a garota estudiosa, Kotoha, quem falou em seguida.

“O que foi, Kotoha?”, perguntou Mishiro.

“É que… isso…”

“A palavra ‘isso’, sozinha, não nos diz absolutamente nada.”

Apesar da pressão de Mishiro, Kotoha continuou incapaz de transformar seus pensamentos em palavras. No fim, ela apenas apontou para o que queria dizer — uma lanterna que estava caída ao lado da mão esquerda do corpo silencioso da sexta jogadora. Presumivelmente, era a lanterna que havia sido fornecida a garota.

“Ah…” Ao ver a lanterna, Yuki entendeu o que Kotoha queria dizer. “Então isso foi, ah…” Ela se virou para Kotoha, procurando o termo certo. “Isso foi uma armadilha.”

Kotoha assentiu, indicando que era isso que ela queria dizer.

A presença de uma fonte de luz ao lado do corpo indicava que a sexta jogadora — ou melhor, a primeira jogadora — estava caminhando enquanto iluminava o próprio caminho. Ainda assim, apesar disso, ela havia acabado em um buraco.

Havia apenas uma explicação para isso: o buraco se abriu no momento em que a garota pisou sobre ele. Em outras palavras, ela havia despencado em uma armadilha.

Concluir este jogo não seria tão simples quanto avançar enquanto iluminavam o caminho à frente. Pisar em uma parte macia do chão os faria despencar de cabeça para o andar inferior.

Este era um jogo de campo minado.

(5/30)

O grupo avançou para o quarto andar. Não havia nenhuma “mina” além do patamar da escada. Nenhuma das jogadoras se feriu, mas a distância percorrida havia desgastado seus nervos, e o tempo gasto descendo as escadas havia consumido as baterias das lanternas.

Normalmente, as escadarias conectavam todos os andares de um prédio, mas aquele jogo jamais seria tão misericordioso. As escadas terminavam após o grupo descer apenas um andar, levando-as à extensão interminável de escuridão do quarto piso. A única fonte de luz vinha do brilho fraco dos temporizadores digitais fixados em vários pontos das paredes. As escadas que levavam ao terceiro andar estavam localizadas em algum lugar daquele nível, mas sem qualquer pista sobre sua localização, o grupo não tinha alternativa além de realizar uma busca exaustiva.

Elas começaram investigando o corpo que haviam visto de cima. Observá-lo de perto lhes trouxe duas novas informações. A primeira era que a garota estava, sem sombra de dúvida, morta. A segunda — e muito mais importante — era que a lanterna ao lado dela estava sem bateria. Ela provavelmente havia permanecido ligada mesmo após a morte da garota.

Embora as jogadoras não tenham conseguido encontrar baterias adicionais, elas vasculharam a mochila da participante morta em busca de itens úteis antes de deixar seu corpo para trás.

O grupo voltou seus esforços para atravessar o andar. Diante da realidade de que as “minas” no chão as puxariam para baixo ao serem pisadas, elas fizeram um pequeno ajuste na formação. Keito permaneceu na dianteira, enquanto as outras quatro jogadoras seguiam logo atrás, a uma curta distância, como antes. No entanto, elas haviam acrescentado uma ligação física entre si — uma corda que fazia parte de seus suprimentos e que agora conectava as mãos das quatro jogadoras ao torso de Keito.

“Eu não gosto muito de como estamos guiando ela como se fosse um cachorro…”, comentou Yuki, olhando para Keito à frente.

O propósito da corda era óbvio — impedir que Keito atingisse o chão caso pisasse em uma “mina”. Como a corda precisava sustentar todo o peso do corpo de uma pessoa, não bastava que Keito apenas a segurasse ou a enrolasse no braço. Era necessário prendê-la firmemente ao redor de seu torso e, como consequência, a cena fazia o grupo parecer estar passeando com um cachorro ou exibindo uma escrava.

“É assim que tem que ser. A segurança é muito mais importante do que a aparência”, disse Mishiro.

Yuki teve de admitir que Mishiro tinha razão. Além disso, aquele arranjo não duraria para sempre. Seria um fardo pesado demais para a mesma jogadora permanecer na linha de frente durante todo o jogo, então o grupo planejava reatribuir a função a cada andar. Assim que chegassem em segurança ao terceiro andar — ou caso Keito sucumbisse a uma “mina”, como a pobre sexta jogadora — as garotas restantes jogariam outra partida de pedra, papel e tesoura para decidir a próxima líder da fila. Yuki queria evitar essa responsabilidade a todo custo, mas fugir completamente dela abriria outro problema. Se sua previsão sobre o jogo estivesse correta, a não ação provavelmente cobraria um preço alto

“—Espere, Keito”, chamou Yuki.

As costas de Keito estremeceram, como se uma corrente elétrica tivesse passado por ela através da corda, e ela parou no mesmo instante.

Keito se virou. “O que foi?”

“Parece um pouco perigoso mais à frente.” Yuki estreitou os olhos para enxergar melhor o caminho iluminado pela lanterna de Keito. “Acho que deveríamos seguir por outra rota.”

“…Você se importaria de explicar o motivo?”, perguntou Mishiro. Embora o desprezo por Yuki por ter se manifestado estivesse estampado em seu rosto, Mishiro parecia disposta a ao menos considerar sua opinião.

“Há uma câmera de vigilância logo à frente, em um local muito óbvio.”

Yuki apontou para o teto, e a lanterna nas mãos de Keito se moveu na mesma direção. O feixe de luz atingiu uma câmera. Ela não estava habilmente escondida e tampouco era pequena — era chamativa, como uma daquelas instaladas para dissuadir crimes, e não para vigilância discreta.

“Uau, como você percebeu isso?”, perguntou Chie.

“Meus olhos já se acostumaram à escuridão”, respondeu Yuki.

“Qual é a importância da simples presença de uma câmera?”, perguntou Mishiro. “Há várias espalhadas por aí.”

Embora as jogadoras raramente tivessem tempo para pensar nisso, aqueles jogos de morte haviam sido concebidos como uma forma de entretenimento. Cada movimento que faziam era transmitido continuamente a espectadores de gostos peculiares por meio de câmeras de vigilância espalhadas por todo o local do jogo, inclusive — é claro — em áreas que demonstravam um completo desrespeito à lei. Por isso, não era incomum que as participantes dessem de cara com câmeras.

“O problema é que ela foi colocada para chamar nossa atenção”, respondeu Yuki. “Você não acha que precisa haver algum motivo para instalarem uma câmera daquele tamanho?”

“Você está sugerindo que estão deliberadamente nos alertando sobre a presença de uma armadilha? Porque fariam isso?”

“Para aumentar o valor de entretenimento. A mesma coisa acontece em programas de câmera escondida, quando a situação é levada longe demais e a produção quase acaba sendo exposta.”

Será que aquela explicação conseguiu convencer Mishiro? Ou ela já havia tomado sua decisão e estava apenas provocando Yuki? Ou talvez não estivesse nem um pouco convencida, mas algo naquela situação a tivesse incomodado?

Seja qual fosse o motivo, Mishiro respondeu: “Muito bem. Vamos dar meia-volta.”

Assim, a busca minuciosa do andar chegou ao seu primeiro ponto de virada. O grupo retornou pelo caminho que havia percorrido, seguiu pela rota central de uma bifurcação em três direções e continuou avançando, com Keito novamente à frente.

No entanto, nem um minuto depois —

“Espere”, chamou Yuki. “Esse caminho também parece suspeito. Vamos voltar.”

“…E o que é desta vez?”, Mishiro estreitou os olhos e ergueu o olhar para o teto. “Não vejo nenhuma câmera por aqui. Poderia explicar como chegou a essa conclusão?”

“…Intuição, eu acho. Intuição feminina”, respondeu Yuki, usando uma expressão batida.

Ela não estava tentando fugir da pergunta. Era apenas que só conseguia descrever aquilo como sua intuição em ação. Ao observar o quadro geral — os sinais de alerta levantados por aquele caminho excessivamente comum, a atmosfera relaxada de toda a área, a relativa complacência das jogadoras em comparação com antes, o progresso que haviam feito no prédio e no jogo como um todo, as artimanhas dos organizadores em jogos anteriores, e assim por diante —, ela simplesmente teve um mau pressentimento. Embora não conseguisse colocar aquilo em palavras, sentia que aquela área era mais suspeita — muito mais suspeita — do que o caminho com a câmera chamativa.

“É difícil explicar, mas acho melhor ficarmos longe.”

“Yuki.” O olhar de Mishiro era frio. “Neste momento, ainda estou disposta a aceitá-la como você é.”

“Do que você está falando?”

“Consigo sentir o que você sente, mas imploro que tome uma decisão corajosa. Se fizer isso, o resto de nós vai lhe encontrar no meio do caminho.”

“Se há algo que você precisa dizer, então vá direto ao ponto.”

“Tem certeza? Então serei direta: pare de ser tão teimosa.”

No instante seguinte, a área foi engolida pela escuridão. Keito havia apagado a lanterna, talvez percebendo que aquela troca de palavras iria se prolongar.

“Você já foi longe demais para recuar, não é? Afinal, você mentiu ao dizer que este era o seu décimo jogo. Para nos convencer de sua experiência, tudo o que precisava fazer era agir como uma jogadora veterana, ainda que minimamente. E tenho de admitir, fingir detectar perigo foi um truque astuto. Desde que conseguisse nos fazer voltar, sua mentira passaria despercebida. Ainda assim, este campo de batalha de vida ou morte não é lugar para suas brincadeiras tolas.”

Pare de inventar uma história na sua cabeça, pensou Yuki.

“Pare de inventar uma história”, Yuki disse em voz alta. “Você realmente tem uma imaginação fértil. Esses jogos combinam com você, Mishiro.”

“Keito”, disse Mishiro, “não dê atenção a ela. Por favor, continue avançando.”

Keito ligou a lanterna novamente, iluminando seu rosto apreensivo. “Tem certeza?”

“Sim. Não há necessidade de dar ouvidos a nada do que ela tenha a dizer.”

Sério? pensou Yuki. Você nem sequer vai considerar a possibilidade de voltar? Não é você quem está sendo teimosa ao mandar que a ignore e continue andando?

Yuki lançou um olhar sucessivo às outras jogadoras — Chie, Kotoha e Keito.

Chie desviou o olhar de forma constrangida. Kotoha parecia mergulhada em pensamentos, ocupada demais para notar. Os olhos de Keito alternaram entre Mishiro e Yuki antes que ela finalmente tomasse uma decisão.

“Vou seguir em frente”, ela disse.

O ritmo parecia assustadoramente lento para Yuki. Keito deu um passo à frente. Depois outro. Mesmo após o terceiro, o quarto e os seguintes, o chão não dava nenhum sinal de ceder.

“…………”

O alívio tomou conta de Yuki.

“Yuki.” O olhar de Mishiro continuava frio como sempre, mas havia também um leve traço de piedade em seus olhos. “A qualquer momento serve. Se decidir se desculpar, estou disposta a perdoar e esquecer.”

Yuki sentiu algo como sangue se acumulando dentro do peito. “Vou pensar nisso”, respondeu.

(6/30)

Yuki tinha, sim, uma defesa para si mesma. Ela havia dito apenas que o caminho era “suspeito”; não se lembrava de ter afirmado que ele certamente iria ceder. Quanto à probabilidade de o piso desabar ou não, era óbvio que havia uma chance maior de que nada acontecesse. Desde o início, a aposta não favorecia Yuki. Se a probabilidade de o caminho conter uma “mina” fosse de 5% — ou mesmo de apenas 1% —, isso já seria risco suficiente para justificar dar meia-volta. O fato de não haver armadilhas ali não significava que Yuki tivesse mentido. Esse era o argumento lógico.

Entretanto, a situação tinha suas próprias circunstâncias. Explicar seu raciocínio quase certamente não ajudaria em nada. O caminho não havia desabado. Yuki fizera uma previsão incorreta. Era só isso. Não valia a pena desperdiçar saliva com uma jogadora de terceira categoria como aquela falsa princesa. Ainda assim, Yuki não podia deixar de reconhecer o carisma de Mishiro — ou, ao menos, sua habilidade de virar qualquer situação a seu favor. Yuki estava em desvantagem. Ficar calada e aguentar o que viesse parecia ser a melhor opção.

O grupo não encontrou nenhuma “mina” e conseguiu atravessar o quarto andar sem incidentes. Depois de localizar a escadaria, desceram até o terceiro andar. Como antes, as escadas se estendiam por apenas um piso, e o que aguardava as jogadoras lá embaixo era a mesma escuridão que haviam encontrado no andar superior.

Outro jogo decisivo de pedra, papel e tesoura determinou que Kotoha, a garota de óculos, assumiria a dianteira. Kotoha posicionou-se à frente da fila, com a corda de segurança amarrada ao corpo, e o grupo começou a explorar o andar praticamente da mesma forma que havia feito no quarto piso.

Pouco tempo depois, a lanterna nas mãos de Kotoha ficou sem bateria.

Aquela era a segunda lanterna inutilizada. Keito havia guiado o grupo desde o quinto andar por todo o quarto andar, e sua lanterna havia se esgotado no meio do caminho. Em seguida, ela pegara emprestada a lanterna de Kotoha, de modo que, quando chegaram ao terceiro andar, ela já estava à beira de acabar.

Em outras palavras, haviam sido necessárias duas lanternas inteiras para explorar o quarto andar. Três pisos ainda os separavam da suposta saída, mas, como restavam apenas três lanternas funcionando, a fonte de luz se esgotaria muito antes que conseguissem escapar do prédio caso continuassem naquele ritmo.

Diante dessa realidade, Mishiro — a autoproclamada líder do grupo — limitou-se a dizer: “A partir de agora, vamos avançar com mais rapidez.”

“Ei, isso não é nada bom”, protestou Yuki.

Suas palavras caíram em ouvidos moucos.

“Correr não vai nos ajudar a chegar a tempo. Além disso, este jogo foi feito para que fiquemos sem baterias.”

Yuki continuou falando, mas ninguém — nem Mishiro, nem Chie, nem Keito, nem Kotoha — lhe deu atenção. Ela sentia como se tivesse se tornado um verdadeiro fantasma.

“Começamos com cinco lanternas para cinco andares. O quarto andar nos custou quase duas baterias inteiras, então, se continuarmos nesse ritmo, ficaremos sem luz no meio do segundo andar. Isso nos deixa com um andar e meio na escuridão. É imprudente tentar cobrir essa distância apenas acelerando o passo.”

Yuki vinha tentando explicar sua visão do jogo desde que haviam chegado ao terceiro andar, mais ou menos desde o momento em que a lanterna de Kotoha se apagou. No entanto, já era tarde demais para convencer as outras de suas capacidades. Yuki tinha plena consciência de que nenhuma delas daria crédito ao que dizia, mas a sobrevivência do grupo estava em jogo. Se continuassem daquele jeito, a vida de Yuki correria perigo.

“Em algum momento deste jogo, vamos ter de suportar a escuridão. Seja no quarto, no terceiro, no segundo ou no primeiro andar, em algum ponto teremos de avançar sem usar baterias. O que significa… você sabe. É razoável pensar que, quanto mais fundo descermos, mais perigosas serão as armadilhas. É isso que torna vantajoso encarar a escuridão o mais cedo possível — é isso que torna este jogo interessante.”

A lógica por trás de suas palavras começava a se embaralhar um pouco, mas Yuki persistiu mesmo assim. Ela percebeu que estava ficando impaciente.

“Ainda não é tarde demais. Os organizadores provavelmente esperavam que chegássemos a essa conclusão no quarto andar e, então, fôssemos encarar a escuridão no terceiro. Essa deve ser a solução prevista para o jogo. É por isso que as armadilhas neste nível não devem ser 100% letais. Se esperarmos até o segundo andar, será tarde demais, porque as armadilhas de lá podem nos matar com um único erro. Ficaremos completamente indefesas diante da morte. Esse deve ser o final ruim que os organizadores estão esperando. Vocês não entendem? Do jeito que estamos agora, estamos marchando direto para uma condenação certa.”

Pessoalmente, Yuki achava que estava se explicando muito bem. Seu raciocínio era impecável. Ela chegou até a acreditar que havia conseguido expor tudo de forma fácil de entender. Mas, apesar de seus melhores esforços, nenhuma das outras jogadoras lhe deu ouvidos.

Yuki começou a se perguntar onde tudo havia dado errado. É claro que, considerando a maneira como havia agido até então, ela não tinha feito exatamente nada para conquistar a confiança das outras, mas, ainda assim, não deveriam ser convencidas por uma lógica sólida? Por que as demais jogadoras não conseguiam compreender algo tão óbvio? Yuki não fazia ideia. Embora se orgulhasse de ter voltado a frequentar a escola recentemente e de estar, aos poucos, adquirindo habilidades para a vida, isso não mudava o fato de que a psicologia humana continuava sendo um enigma para ela.

Quando Yuki sentiu que estava ficando exaltada, a fila de jogadoras parou abruptamente. Isso aconteceu porque a líder da fila, Kotoha, havia interrompido seus passos.

“……? O que foi, Kotoha?”, perguntou Mishiro.

Kotoha estava imóvel no meio do passo, com as pernas bem abertas. Sua postura fazia parecer que ela fora forçada a parar em um momento estranho de uma brincadeira de estátua, ou como se fosse um boneco de corda cujo mecanismo tivesse acabado de travar.

Mantendo aquela posição, Kotoha virou a cabeça na direção das outras. “É que… tem…”

“O que foi? Chega de enrolar. Você está desperdiçando a bateria.”

Diante da pressão de Mishiro, Kotoha apagou a lanterna e continuou a falar.

“T-tem uma mina”, disse ela na escuridão. “Tem uma mina aqui.”

“Você quer dizer que há uma armadilha à frente? Como pode saber?”

“N-não… não é isso!”, Kotoha ergueu a voz em um grito incomum para ela. “O chão aqui está estranho! T-tem… tem uma mina terrestre de verdade enterrada aqui!”

(7/30)

Era uma cena comum em filmes: um grupo de pessoas atravessa uma selva quando, de repente, uma delas percebe uma sensação estranha sob os pés. Ela olha para baixo e vê que pisou em um aterrador disco de metal — uma mina terrestre. O grupo então é obrigado a interromper temporariamente a jornada e procurar uma pedra ou outro objeto próximo para usar como peso e apaziguar o explosivo mortal.

Sempre que Yuki via uma cena dessas, as mesmas perguntas lhe vinham à cabeça: por que as minas terrestres não eram projetadas para explodir no instante em que alguém pisava nelas? Por que funcionavam como um clique de mouse, detonando apenas no momento em que o peso era retirado? Yuki não tinha um conhecimento aprofundado sobre explosivos, mas imaginava que coisas assim não existiam na vida real. Era o mesmo princípio do anacronismo deliberado de usar cavalos de raça em dramas de época — apenas uma licença dramática para aumentar a emoção.

Mas agora Yuki e as outras estavam cara a cara com aquele exato produto da ficção.

“É, é, é, é, então…”, Kotoha gaguejou, repetindo as palavras como um disco quebrado.

“Acalme-se”, disse Mishiro. “Mantenha sua posição atual e não mova um músculo.”

“Tá bom…”, respondeu Kotoha, com a voz trêmula. Qualquer pessoa soaria assim depois de pisar em uma mina terrestre.

Sentindo uma oportunidade, Yuki cutucou o ombro de Mishiro. A “princesa” desviou o olhar para ela, aparentemente incapaz de ignorar o toque físico.

Yuki retribuiu com um sorriso presunçoso.

“…Hmph.” Mishiro bufou antes de virar o rosto.

É claro que a única informação que haviam obtido era que as armadilhas do terceiro andar eram mais mortais do que as do quarto. Não havia nada que indicasse a necessidade de economizar baterias, nem se armadilhas ainda mais perigosas aguardavam no segundo nível. Ainda assim, Mishiro fora forçada a reconhecer que ao menos uma fração da previsão de Yuki havia se concretizado. Foi isso que seu resmungo implicava.

“Por enquanto… suponho que não temos escolha a não ser imitar o que fazem nos filmes.” Mishiro tirou a mochila das costas e a virou de cabeça para baixo, espalhando seu conteúdo pelo chão.

“O que você está fazendo?”, perguntou Yuki.

“Não é óbvio? Vou encher a mochila com entulho para que possa ser usada como peso. Caso contrário, ela não teria massa suficiente.”

Ah, então seu cérebro está funcionando, pensou Yuki. Se Mishiro não tivesse chegado à conclusão correta, Yuki teria humildemente apontado isso. Talvez Mishiro não merecesse o rótulo de jogadora de terceira categoria — ela era, no mínimo, de segunda. Yuki não se opunha a admitir isso.

Como o local era um prédio abandonado, havia tanto entulho espalhado pelo chão que era difícil andar sem se machucar. Consequentemente, encontrar objetos para encher a mochila não foi desafio algum.

“Aqui está.” Mishiro entregou a mochila a Kotoha. “Mesmo que a mina terrestre detone, não acredito que sua vida esteja em perigo, a menos que você tenha um azar extremo com a explosão. Ainda assim… tenha cuidado.”

“…Entendi.”

As outras jogadoras se afastaram da mina terrestre — e de Kotoha. Elas se esconderam atrás de uma esquina para garantir que não fossem atingidas pela explosão. Era apenas uma precaução; afinal, o grupo acreditava que a mina não seria tão poderosa, e não queriam sequer imaginar a possibilidade de Kotoha falhar. Embora fosse, de fato, uma atitude fria, não haveria nada que pudessem fazer mesmo se permanecessem ao lado dela, e queriam deixar claro que não era por maldade.

“Pode ir”, sinalizou Mishiro.

O grupo aguardou com a respiração presa. Yuki contou os segundos em sua mente.

Dez segundos se passaram.

Vinte segundos se passaram.

Trinta segundos se passaram, mas ainda assim nada aconteceu.

“…E-eu… consegui…”

Por fim, uma voz extremamente fraca ecoou pela escuridão, fazendo com que todas soltassem um suspiro coletivo de alívio.

“Isso resolve a situação…”, disse Mishiro. “Bom trabalho, Kotoha. Para garantir, vamos evitar este caminho, então venha por aqui.”

“C-certo”, respondeu Kotoha em voz alta. Ela voltou apressada, com passos frenéticos que denunciavam a profundidade de seu medo.

Mas outro som se misturava ao barulho de seus passos — o de algo sendo arrastado.

Yuki identificou imediatamente a origem do ruído.

“Espere, Kotoha! Tome cuidado para não prender a corda—”

“—então ande devagar.”

Yuki não conseguiu terminar a frase antes que um baque profundo e pesado ecoasse; soou como a tampa de um caldeirão infernal se abrindo.

Ela sentiu o sangue desaparecer instantaneamente de seu corpo.

“S-sua idiota!”, gritou Mishiro. Mas antes que pudesse lançar outro insulto—

(8/30)

O som era inconfundivelmente o de uma explosão.

Foi um estrondo de intensidade mediana, que não excedeu nem ficou aquém das expectativas. Pedaços de entulho, aquecidos e arremessados pela detonação, voaram pelo corredor como se disputassem uma corrida. Eles ricochetearam nas paredes e caíram perto de Yuki e das outras, forçando-as a se encolher para se proteger. Mas esse foi o limite do perigo. Nenhuma das quatro sofreu ferimentos graves. A evacuação preventiva havia valido a pena.

Quanto à garota restante, porém…

“Kotoha!”

Yuki não foi a única a gritar o nome. Embora em momentos ligeiramente diferentes, as quatro o fizeram. Elas correram pelo corredor, que estava impregnado com o cheiro de pólvora. Com tanta fumaça e poeira no ar, uma lanterna não ajudaria em nada, então o grupo só conseguiu entender o que havia acontecido tateando ao redor.

Primeiro, perceberam que o caminho terminava abruptamente — a explosão da mina terrestre havia feito o piso desabar por completo. Embora o corredor fosse bastante largo, uma fenda havia se formado, atravessando toda a largura do caminho, da extremidade esquerda até a direita. Provavelmente, a mesma quantidade de piso também havia cedido ao longo da direção do corredor, o que tornava impossível saltar para o outro lado.

Além disso, Kotoha não estava em lugar nenhum daquele lado do corredor. Não havia sinais de seu corpo, nem de nada que se assemelhasse a partes dele. Mesmo que tivesse sido despedaçada, restos de carne deveriam estar espalhados, mas, diante da ausência total de vestígios, as jogadoras concluíram que Kotoha havia sido arremessada para o outro lado.

Além disso, o grupo encontrou o culpado pela desgraça de Kotoha — a corda que havia sido amarrada ao redor de seu torso para impedi-la de cair.

Yuki a pegou. Naturalmente, uma parte dela havia sido queimada. Ela se arrependeu de não ter apontado isso antes. Deveria ter percebido o perigo de a corda se prender a algum objeto que precisava permanecer imóvel. Trabalhar na escuridão havia provocado aquela calamidade. Nenhuma das jogadoras — nem Yuki, e provavelmente nem mesmo a própria Kotoha — havia se lembrado de que a corda estava amarrada ao corpo da garota.

O baque que Yuki ouvira provavelmente fora a mochila tombando. Ela não sabia exatamente como a corda havia causado a queda da mochila, mas havia dois fatos evidentes. Primeiro, o corredor estava cheio de entulho, qualquer um dos quais poderia ter se prendido à corda. E segundo, era impossível prever quanta força a corda poderia exercer sobre a mochila enquanto estivesse amarrada a uma garota que corria desesperadamente.

Pouco depois de a fumaça se dissipar, Yuki apontou a lanterna para o outro lado do corredor.

Ali estava Kotoha. Ou melhor, o corpo dela.

“—…”

Alguém engoliu em seco, audivelmente.

Em contraste, Yuki soltou um suspiro de alívio; a maior parte do corpo de Kotoha estava intacta. As duas pernas da garota haviam sido arrancadas por completo, e o sangue que se transformara em penugem branca estava espalhado por toda parte. Ela estava caída de bruços e parecia inconsciente, mas, pela cena, Yuki concluiu que a garota não havia perdido a vida.

Era exatamente como Yuki havia previsto — as armadilhas do terceiro andar não eram 100% letais.

“Kotoha! Você consegue me ouvir?”, gritou Mishiro.

Kotoha não respondeu, nem apresentou qualquer sinal de movimento. A explosão claramente a havia deixado desacordada.

“…Não há esperança para ela.” A princesa suspirou. “Yuki, por favor, apague sua lanterna. É doloroso vê-la iluminada nesse estado.”

“Hã…?” Yuki ficou perplexa. Ela apagou a lanterna para economizar a bateria, mas não podia deixar a fala de Mishiro passar em branco. “Você vai abandoná-la? Só pode estar brincando.”

“Eu não estou abandonando ninguém. Aquele cadáver parece vivo para você?”

“Ela definitivamente está viva. Com o Tratamento de Preservação, um ferimento desse tipo não significa nada.”

Todas as jogadoras de jogos mortais, sem exceção, passavam por um procedimento de modificação corporal chamado Tratamento de Preservação antes de participar de um jogo. Esse procedimento eliminava o odor corporal das jogadoras, impedia que morressem por perda de sangue mesmo que fossem desmembradas e evitava que seus corpos apodrecessem mesmo quando expostos às intempéries. O principal objetivo do Tratamento de Preservação era tornar as mortes das jogadoras mais aceitáveis para o público, mas, ao mesmo tempo, ele também aumentava a durabilidade de seus corpos. A simples perda de ambas as pernas, embora fosse sem dúvida um ferimento grave, não seria algo fatal. De fato, Yuki já havia perdido os quatro membros em um jogo anterior e, ainda assim, conseguira pular e se mover.

Yuki continuou: “Se ela tivesse quebrado o pescoço ou batido a cabeça, a história seria outra, mas os ferimentos dela não parecem representar risco de vida.”

“Não estou me referindo ao fato de Kotoha estar biologicamente viva”, respondeu Mishiro. “Quero dizer que ela morreu como jogadora.”

“O quê?”

“Ela perdeu as duas pernas, não foi? Como poderia voltar ao jogo nesse estado? Você pretende carregá-la como uma mochila? E mesmo que, por acaso, ela sobreviva ao jogo, você realmente acredita que esses ferimentos possam ser curados?”

Embora os jogos mortais atribuíssem pouco valor à vida, surpreendentemente, suas participantes recebiam proteção considerável fora das partidas em si. Após o fim de um jogo, as jogadoras podiam receber tratamento médico gratuito dos organizadores e, graças ao Tratamento de Preservação, o tipo de ferimentos que podiam ser tratados superava em muito os limites da medicina comum. Braços ou pernas decepados podiam ser reimplantados com a mesma facilidade com que se costura um bicho de pelúcia rasgado.

No entanto, mesmo com as capacidades médicas dos organizadores, era impossível restaurar completamente uma jogadora cujo corpo tivesse sido despedaçado por uma explosão.

“As chances de ela retornar como jogadora são inexistentes”, afirmou Mishiro.

“Tudo bem, isso pode até ser verdade, mas—”

“Além disso, tentar salvá-la terá um custo. Teríamos de gastar uma quantidade preciosa de bateria para encontrar um caminho até o outro lado do corredor. E isso significaria correr o risco de pisar em minas terrestres que, de outra forma, evitaríamos. Você vê valor suficiente nela para compensar esses custos?”

“—Então você está dizendo que salvá-la não compensa, é isso?”

“Se eu não for medir palavras, então sim, suponho que seja isso.”

Yuki se virou para as outras duas jogadoras — Chie e Keito.

“…Bom, acho que não temos muita escolha”, disse Chie. “Estamos juntas apenas para ajudar umas às outras a sobreviver. Claro, considero ela uma amiga, mas não a ponto de largar tudo para ir salvá-la. Além disso, não foi culpa da própria Kotoha por ser desastrada? Não acho que o karma vá cair sobre nós se fingirmos que não vimos.”

“Concordo”, acrescentou Keito. “No pior dos casos, desperdiçamos bateria demais e acabamos dando um tiro no próprio pé. Yuki, não foi você mesma quem disse que deveríamos economizar a luz?”

Yuki estreitou os olhos.

Ela não achava que as outras fossem pessoas frias.

Colocar a si mesma acima dos outros. O interesse próprio acima do altruísmo. No fim das contas, essa era a atitude comum nesses jogos. A situação atual de Kotoha também era problemática. Não havia garantia de que ela estivesse viva e, mesmo que estivesse, seria incapaz de andar sozinha, o que significava que alguém teria de carregá-la nas costas. Esperar sobreviver enquanto se carrega uma “bagagem” literal era puro otimismo ingênuo. Considerando as circunstâncias, as outras garotas estavam sendo realistas.

Ainda assim, Yuki estava decepcionada com elas.

“Nesse caso, eu vou sozinha”, disse Yuki. “Sou livre para fazer o que quiser, não sou?”

“Não, você não é”, retrucou Mishiro. “Yuki, acredito que você tenha aprovado que eu fosse a nossa líder. Não posso aceitar que você saia por aí tentando bancar a heroína. No entanto, se você insiste em ir…” Mishiro estendeu a mão direita. “Vou precisar que entregue sua lanterna para nós.”

Yuki abaixou o olhar para a lanterna em sua mão.

Uma lanterna. Ela era a linha de vida delas naquele jogo, o principal motivo de estarem andando juntas. Yuki havia usado a sua apenas por algumas dezenas de segundos para iluminar Kotoha há pouco, o que significava que a bateria ainda estava quase cheia. Mesmo assim—

“Tudo bem.” Yuki arremessou o objeto em direção a Mishiro. “Feliz agora?”

Os olhos de Mishiro se arregalaram diante da decisão irracional de Yuki. Ela rapidamente recuperou a compostura e ligou a lanterna por um instante para confirmar que as baterias ainda estavam dentro.

“…Muito bem”, disse Mishiro. “Você me decepciona. E pensar que eu estava prestes a reavaliar o seu valor como jogadora.”

“Digo o mesmo”, respondeu Yuki, já se afastando. “Nenhuma de vocês entende do que este jogo realmente se trata.”

(9/30)

Depois de se separar do grupo de Mishiro, Yuki avançou pela escuridão. Embora confiasse em sua capacidade de detectar armadilhas, a ausência de luz tornava tudo, sem dúvida, mais complicado. No caminho até Kotoha, Yuki acionou duas armadilhas diferentes. A primeira era do mesmo tipo de mina terrestre que Kotoha havia detonado, que Yuki conseguiu neutralizar usando um pedaço de entulho do tamanho exato como peso. A segunda era uma bomba ligada a um fio de disparo que se projetava acima do chão. Como ela não foi feita para explodir imediatamente, Yuki mergulhou em um cômodo próximo e se protegeu da explosão.

Não levou muito tempo para localizar Kotoha, já que Yuki não mantinha o ritmo de lesma que o grupo de Mishiro havia adotado. Uma das poucas vantagens de agir como uma loba solitária era a liberdade de se mover mais rápido do que o resto da matilha.

Yuki correu até Kotoha. A garota ainda estava caída de bruços, e suas pernas continuavam ausentes. Era possível que as pernas de Kotoha tivessem simplesmente sido arrancadas, em vez de explodidas em pedaços, então Yuki procurou ao redor por elas, mas sem sucesso. A única coisa que encontrou foi penugem branca. Infelizmente, a probabilidade de as pernas de Kotoha poderem ser restauradas ao normal era praticamente inexistente.

Yuki pegou a lanterna que Kotoha havia segurado e acionou o interruptor. Logo depois de confirmar que a luz funcionava sem problemas, Yuki avistou os óculos da garota no chão, ali perto. As lentes estavam rachadas e a armação um pouco torta, mas, considerando que haviam sido pegos em uma explosão, estavam em um estado milagroso. E ainda bem — para jogadoras que usam óculos, perdê-los era muito mais mortal do que perder membros. Yuki virou Kotoha de costas para colocar os óculos em seu rosto.

Kotoha abriu os olhos. “Ah… Yuki.”

Embora sua fala estivesse arrastada, ela estava consciente e ainda conseguia falar.

“Você sabe onde estamos?”, perguntou Yuki.

“Em um prédio abandonado… para um jogo…”

“E o seu nome?”

“Shiori Kotono…”

“Seu nome de jogadora, por favor.”

“…Kotoha.”

“Você se lembra de como ficou assim?”

“Eu pisei em uma mina… e a corda ficou presa…”

Tudo parecia em ordem — desconsiderando, é claro, a ausência das duas pernas. Pelo menos, sua vida e seu cérebro pareciam completamente intactos.

Yuki desviou o olhar de Kotoha e voltou sua atenção para a mochila pendurada nas costas da garota. Assim como o corpo de Kotoha, ela havia mantido a maior parte de sua forma original, mas seu conteúdo havia se espalhado generosamente por um buraco grande, recém-formado e impossível de reparar. Ao perceber que a mochila teria de ser abandonada, Yuki começou a vasculhar o que havia dentro.

“Por que você veio me salvar…?”, perguntou Kotoha enquanto Yuki continuava revirando a mochila.

“Para ganhar pontos”, respondeu Yuki, transferindo objetos da mochila de Kotoha para a sua própria.

Logo após a palavra pontos sair de sua boca, Yuki apresentou o objeto que segurava a Kotoha — o misterioso pedaço de papel branco.

“Popularidade é um fator importante neste jogo”, disse Yuki.

“…Então… era para isso…”, murmurou Kotoha.

Yuki não se surpreendeu com a reação de Kotoha. Afinal, ela era uma garota estudiosa, que parecia ter recebido uma boa educação. Ao que tudo indicava, havia entendido do que aquele jogo realmente se tratava.

Yuki puxou a mochila para a frente do corpo e colocou Kotoha em suas costas.

“Você é bem leve, Kotoha”, comentou Yuki. “Quanto você pesa?”

“Da última vez que me pesei, estava com pouco menos de quarenta e cinco quilos…”

“Então acho que agora deve estar por volta de trinta”, disse Yuki, rindo de leve.

“…Eu não consigo rir disso.” Kotoha apertou os braços com força ao redor do peito de Yuki.

 

 

(10/30)

Yuki continuou avançando pela escuridão. Não ouvia passos além dos seus próprios. Talvez o grupo de Mishiro já estivesse no segundo andar. Yuki procurou um corredor com sinais claros de passagem e seguiu a rota que acreditava ter sido tomada pelo grupo de Mishiro.

Ao virar uma esquina, Yuki iluminou o corredor com a lanterna por uma fração de segundo para confirmar a ausência de armadilhas. Confiando na imagem gravada em suas retinas, avançou enquanto desviava habilmente das pilhas de entulho.

“…Você é incrível, Yuki”, disse Kotoha.

“Hã?”

“É mesmo possível determinar se um caminho é seguro só de olhar…?”

Desde que se reunira com Kotoha, Yuki vinha repetindo a mesma sequência de ações. Em vez de manter a lanterna ligada, ela iluminava os caminhos apenas por um breve instante, apenas o suficiente para confirmar que estavam livres. Essa era sua estratégia para economizar bateria.

“Sim, acho que sim”, respondeu Yuki. “Detectar armadilhas é, em grande parte, instinto. Um olhar já basta. Embora manter a lanterna ligada deixasse bem menos margem para erro.”

Havia também o fato de que elas estavam seguindo o trajeto do grupo de Mishiro. Era razoável assumir que um caminho já percorrido antes não conteria armadilhas.

“Então este realmente é o seu décimo jogo, Yuki”, disse Kotoha.

“Você não acreditou em mim.”

“Desculpa. De verdade…”

“…Bom, já faz um tempo desde o meu último jogo, então dá para entender por que soou como mentira.”

Yuki cerrou a mão em um punho antes de abri-la novamente. Embora seus instintos estivessem aos poucos retornando, ela ainda não sabia dizer se havia recuperado totalmente sua antiga forma.

“Por que voltar a ser jogadora?”, perguntou Kotoha.

“Não é como se eu tivesse decidido me aposentar. Só tive uma espécie de despertar no meu último jogo, então estava tentando melhorar meu estilo de vida. Foi isso que me manteve afastada.”

“Quando… foi o seu último jogo?”

Apesar da aparência introvertida, Kotoha fazia perguntas com surpreendente insistência — talvez fruto de uma curiosidade típica de quem gosta de livros.

“Há uns três meses, eu acho…”

“Ah… então você era jogadora de antes de Candle Woods.”

O comentário pegou Yuki de surpresa. “Você sabe sobre Candle Woods?”

“Meu agente me contou sobre isso e sobre como dizimou o contingente de jogadoras… Eles queriam repor a base o mais rápido possível, por isso fui recrutada.”

Como Yuki havia suspeitado, Kotoha havia estreado como jogadora depois de Candle Woods.

“Isso também vale para Mishiro, Chie e Keito?”, perguntou Yuki.

“Sim. Nós nos conhecemos em um jogo não faz muito tempo. Havia cerca de trinta jogadoras, todas em seu primeiro jogo… Foi quando nos juntamos.”

Pelo que Yuki sabia, jogadoras novatas geralmente começavam em jogos ao lado de outras iniciantes, em vez de serem colocadas sozinhas com um grupo de veteranas. Esse era um mecanismo para manter o equilíbrio do jogo, compensando a enorme diferença de habilidade entre principiantes e participantes experientes. Ao que parecia, as jogadoras recrutadas após Candle Woods haviam tido a chance de se conhecer — o que explicava por que as outras estavam acostumadas a atuar em grupo.

Yuki voltou sua atenção para o caminho à frente. A escuridão do terceiro andar se estendia sem fim. Ela achou que agora era sua vez de fazer perguntas.

“Então você disse que este é o seu quinto jogo?”, perguntou Yuki.

“Sim.”

“Por que uma garota certinha como você está participando desses jogos? Está endividada ou algo assim?”

O benefício mais óbvio para jogadoras de jogos mortais era o prêmio em dinheiro. Embora o valor exato variasse de pessoa para pessoa, era possível ganhar alguns milhões de ienes por jogo. Era uma quantia considerável, especialmente porque exigia, no máximo, alguns dias de esforço, sem necessidade de certificações, experiência ou nacionalidade específica. Ainda assim, Yuki sabia muito bem que o dinheiro não era a única coisa que as jogadoras buscavam nesses jogos.

“…É que…”, Kotoha pareceu hesitar.

“Você não precisa responder se não quiser.”

“Ah, não… tudo bem…” Kotoha respirou fundo, como se estivesse se preparando. “…Eu quero me aposentar cedo…”

“…………”

…Isso é prático, pensou Yuki. Ela deu de ombros, mesmo com Kotoha em suas costas.

“Quero viver reclusa”, continuou Kotoha. “Quero dizer, você não acha que as pessoas na sociedade hoje em dia estão todas meio loucas? Cinismo, maquiavelismo, hipótese do mundo justo… É como se uma histeria coletiva estivesse tomando conta. Eu não quero viver cercada por esse tipo de gente. Por isso, meu objetivo é juntar o máximo de dinheiro o mais rápido possível, fugir para um país com baixo custo de vida e levar uma vida tranquila, isolada.”

Yuki pensou no corpo de Kotoha, reduzido à metade de sua forma original. “O prêmio deste jogo vai ser suficiente?”

“Acho que vou ter de viver com muita frugalidade… ou então pensar em outro plano…”

Yuki não sabia se era apropriado forçar um sorriso, então respondeu apenas com um vago: “Ahhh…”

“E quanto a você, Yuki?”, perguntou Kotoha. “Se não quiser responder… eu entendo.”

“Meu objetivo é estabelecer um novo recorde nesses jogos”, respondeu Yuki. “Noventa e nove vitórias consecutivas. Esse é o meu alvo.”

“Noventa e nove…? Não cem?”

“Ao que parece, o recorde atual é noventa e oito, então começo pelo noventa e nove. Claro, cem soa muito melhor, mas, afinal, estou colocando minha vida em risco. Ainda não decidi se vou dar esse passo extra.”

“…É um objetivo incrível. Você ganha alguma coisa por bater o recorde?”

“Não. Nada”, disse Yuki. “Só o direito de se gabar, eu acho. Talvez me deem um troféu ou algo assim, mas quem sabe. E nem tenho certeza se o recorde atual é mesmo noventa e oito. Das jogadoras que conheci pessoalmente, a maior sequência foi de noventa e cinco.”

Kotoha ficou em silêncio. Yuki conseguia sentir a confusão da garota. A pergunta que passava pela mente dela era óbvia —

—O que há de tão divertido nesses jogos a ponto de querer estabelecer um recorde neles?

Yuki não tinha uma resposta concreta. Faltavam-lhe as palavras para explicar o que Candle Woods havia mudado nela.

“Bom, sabe…” Depois de lutar para organizar os pensamentos, Yuki finalmente respondeu: “Eu só queria um objetivo. Não importava qual.”

“Entendo…” A reação de Kotoha foi morna.

Os cantos dos lábios de Yuki se curvaram em um sorriso. Então era assim que minha mentora se sentia, refletiu.

Enquanto as duas continuavam conversando trivialidades, Yuki acabou avistando a escadaria que levava ao segundo andar. Ela iluminou os degraus até o patamar por um breve instante antes de começar a descer. No patamar, girou o corpo em cento e oitenta graus e iluminou o restante da escada.

“Hã…?”, murmurou Kotoha.

“Mas que diabos…?”, disse Yuki em seguida.

O restante da escada havia desaparecido.

(11/30)

Não era que a escada simplesmente terminava — ela não estava mais lá. A metade inferior da escada que ligava o terceiro ao segundo andar, além do patamar, havia sumido por completo. A distância até o piso abaixo era grande o suficiente para fazer qualquer um hesitar em pular.

“…Mas que diabos…”, Yuki repetiu, olhando para baixo. “Isso foi… uma armadilha? Em proporções anormais.”

“Talvez seja uma escada de sentido único”, sugeriu Kotoha. “Será que isso está nos dizendo que não poderemos voltar depois de pisar no segundo andar?”

“Estou com um péssimo pressentimento…” Yuki iluminou novamente e estimou a distância até o chão. “Não há outro caminho senão descer. Pode ficar meio instável, então se segure bem.”

“Tá bom.”

Yuki deu um passo à frente. Em vez de despencar diretamente até o segundo andar, ela segurou a borda do patamar com uma das mãos, reduzindo a energia da queda equivalente à altura. Depois que seu corpo ficou completamente estável, soltou-se e caiu pelo ar. Aterrissou no chão, dobrando habilmente os joelhos para dissipar o impacto pelo corpo. Kotoha absorveu parte do choque também.

Yuki olhou ao redor. Assim como nos andares anteriores, o segundo piso estava completamente envolto em escuridão. Era ali que Mishiro e as outras teriam ficado sem bateria caso tivessem usado as lanternas o tempo todo. Yuki acreditava que as armadilhas desse andar eram capazes de causar ferimentos fatais. Com isso em mente, até mesmo uma jogadora veterana como ela não conseguiu evitar o nervosismo.

Ainda assim, tudo o que precisava fazer era continuar como antes: iluminar o caminho à frente por um instante para garantir que estava livre. E assim, Yuki e Kotoha deram início à tarefa de atravessar o segundo andar.

“Não estou ouvindo nenhum passo”, disse Yuki enquanto caminhava. “Além dos meus, claro. Odeio usar um clichê desses, mas está silencioso demais.”

“Também é estranho não termos visto nenhum sinal de luz”, acrescentou Kotoha. “Com essa escuridão toda, deveríamos conseguir identificar onde as outras estão se estiverem usando uma lanterna. Mas até agora, nada…”

“Isso significa que ou elas já chegaram ao primeiro andar, ou ficaram presas depois que as baterias acabaram.”

“É… Yuki? Se a segunda opção for verdadeira…”

“Sim?”

“O que você vai fazer se encontrarmos a escada antes de nos reunirmos com as outras?”

“Descer”, respondeu Yuki de imediato. “Não temos como saber se elas estão presas. Eu definitivamente não iria procurá-las se houvesse a chance de já terem chegado ao primeiro andar.”

“E se chegarmos à saída sem encontrá-las?”

“…Boa pergunta. Bem, não dá para saber como as coisas vão estar na saída… Ainda não pensei tão longe.”

“Entendo…” Depois dessa breve reação, Kotoha ficou em silêncio.

Será que ela queria que Yuki salvasse as outras, se possível? Era uma atitude louvável, especialmente considerando que haviam abandonado Kotoha sem pensar duas vezes.

“Bom, se eu conseguir salvá-las, eu salvo”, disse Yuki, para tranquilizá-la.

“Sim… claro”, respondeu Kotoha.

Yuki não conseguiu discernir, pela resposta, se Kotoha havia se sentido aliviada.

Elas viraram uma esquina, e Yuki iluminou o caminho. Após confirmar que estava livre, seguiu em frente.

Estranho não termos encontrado nenhuma armadilha, pensou.

Todos os caminhos que haviam escolhido até então tinham sido seguros. O nervosismo que sentira ao chegar ao segundo andar talvez tivesse sido infundado. Teriam chegado a uma área segura por acaso? Será que Yuki estava errada ao achar que o segundo nível era perigoso? Ou sua habilidade de detectar perigo havia começado a falhar? Justo quando ela começava a desviar a atenção do ambiente para os pensamentos que se atropelavam em sua mente—

—um arrepio percorreu sua espinha.

Yuki congelou por um instante.

(12/30)

No instante seguinte, Yuki voltou a caminhar. Apenas uma fração de segundo havia passado. Para qualquer observador — desconsiderando a escuridão do corredor — pareceria que ela apenas seguira andando normalmente. Provavelmente nem mesmo Kotoha percebeu algo fora do comum enquanto se agarrava a Yuki. Ainda assim, Yuki sabia que seus pés haviam parado por um momento fugaz.

Algo a fizera parar — uma sensação esmagadora de malícia a atingira por trás como um relâmpago.

Yuki puxou os dois braços que envolviam seu peito, erguendo Kotoha mais alto em suas costas, o suficiente para que suas bochechas se tocassem. Em termos técnicos, a cena poderia ser descrita como um suave toque de bochechas.

No tom mais baixo possível, Yuki sussurrou para Kotoha: “Tem alguém atrás da gente.”

“Hã…?”

Yuki puxou os braços da garota confusa mais uma vez. Desta vez, o gesto era um sinal para ficar em silêncio. A mensagem deve ter sido entendida, pois Kotoha fechou a boca. Ela também não fez nada estúpido, como se virar para olhar para trás.

“Não sei explicar direito, mas tem sede de sangue no ar. Alguém está focado em nós”, disse Yuki, mantendo o passo normal enquanto falava.

“Sede de sangue…? Isso existe mesmo?”, perguntou Kotoha.

“Sei lá. Eu senti o que senti. Interprete como ‘sinais de vida’, se preferir.”

Apesar do que dizia, Yuki sabia que não havia sentido apenas sinais de vida. Aquilo só podia ser descrito como uma sede de sangue pura e simples. E não era algo que apenas pairava no ar; vinha acompanhado de um desejo palpável de tirar a vida de alguém. Embora Yuki conseguisse detectar armadilhas com um único olhar, ela tinha bem menos confiança na própria capacidade de perceber sinais de vida — e, por extensão, sede de sangue. Isso significava que a malícia no ar era forte a ponto de até alguém como ela notá-la? Ou será que Yuki havia despertado uma nova habilidade depois de ter enfrentado, três meses antes, uma mulher que podia ser descrita como a própria encarnação da sede de sangue?

“Não estou ouvindo nenhum passo…”, disse Kotoha.

“Quem quer que seja, provavelmente está longe o suficiente para não ser ouvido. Tenho quase certeza de que não vamos ver ninguém se eu me virar e apontar a lanterna para frente.”

“Quem poderia ser?”

“Essa é a questão. Alguma das outras garotas é boa em se aproximar sorrateiramente das pessoas?”

“Não… acho que não.”

“Então isso elimina elas.”

Em seguida, Yuki pensou na sexta jogadora. A garota supostamente havia morrido antes de qualquer uma delas acordar, mas talvez ainda estivesse viva. No entanto, o grupo havia confirmado sua morte e, mesmo que ela estivesse vagando por aí, não haveria como ter chegado tão longe sem uma lanterna. A possibilidade de existir uma sétima ou oitava jogadora também era improvável, considerando o número de quartos no quinto andar e a curta duração das baterias das lanternas.

Restava apenas uma possibilidade.

“Isso tem que ser a armadilha letal que se esconde no segundo andar”, disse Yuki.

“…Então você está dizendo que é… algo vivo?”, perguntou Kotoha.

Existiam inúmeras histórias de terror que retratavam monstros sobrenaturais contra os quais nenhum humano teria chance alguma — criaturas que garantiam a morte de qualquer um azarado o suficiente para encontrá-las. Esses clichês não eram nada incomuns em jogos mortais, mas aquela era a primeira vez que Yuki se deparava com um monstro em seus dez jogos.

Agora ela finalmente entendia por que a escada havia desaparecido. Não era para criar uma armadilha ou indicar um caminho de mão única — era para formar uma jaula, impedindo que aquilo que vagava por aquele andar subisse aos níveis superiores.

“O-o que a gente faz?”, perguntou Kotoha. “Se estamos sendo alvos…”

“Calma. Para começar… ele está mantendo distância, então estamos seguras por enquanto. Aposto que está esperando a oportunidade certa para atacar.”

Yuki começou a quebrar a cabeça. Seja o que fosse, precisava ter algum grau de inteligência para segui-las daquele jeito. Como sua sede de sangue se espalhava pelo ar, estava claro que buscava matar, mas, por algum motivo, havia decidido que aquele ainda não era o momento. Mas o que exatamente estava esperando? Que Yuki se esgotasse de tanto andar? Que chegassem a um corredor entulhado de destroços que dificultasse uma fuga? Ou será que o segundo andar possuía outras armadilhas além dessa “coisa viva”, e ela aguardava que se ferissem ao ativar alguma delas?

Ou talvez…

“Vamos dar uma boa olhada nele”, sugeriu Yuki.

Kotoha não respondeu. Yuki interpretou o silêncio como uma concordância relutante e entrou em ação.

O que ela precisava era de um corredor longo — mais longo do que a distância que aquela coisa mantinha delas. Cada vez que chegava a uma interseção, Yuki iluminava todos os caminhos com a lanterna em busca de um corredor que atendesse a esse critério. Era um desperdício de bateria, mas sua curiosidade e a necessidade de identificar a entidade que as seguia falaram mais alto. Depois de encontrar um corredor adequado, Yuki avançou por ele com naturalidade. Assim que chegou ao final, girou o corpo com tamanha agilidade que Kotoha quase poderia ter caído de suas costas.

No instante seguinte, ela apontou a lanterna para o perseguidor.

O feixe de luz iluminou uma besta.

(13/30)

Tratava-se de um canídeo de quatro patas. Seu corpo lembrava mais o de um lobo do que o de um cachorro. Ainda assim, era muito maior do que qualquer espécie de lobo que Yuki conhecia, e não vagava em matilha. Tinha a pelagem negra, como se tivesse absorvido a cor de uma noite sem lua. Como todo o seu corpo era de uma única cor — até mesmo as pupilas, completamente pretas —, a criatura dava a impressão de ser uma sombra. As únicas partes que não eram negras eram as pequenas áreas brancas visíveis ao redor das pupilas, as pontas das patas e os dentes expostos sob o focinho.

Seus dentes estavam cravados em uma presa danificada por repetidas mordidas. Como a superfície do objeto estava coberta de penugem branca, nem Yuki nem Kotoha tiveram dificuldade em identificá-lo.

Era um braço humano.

No momento em que começaram a se perguntar a quem aquele braço pertencia, a criatura se moveu.

Yuki deu um passo para trás quando a besta avançou lentamente. Apesar de ter sido descoberta e de ter perdido a chance de um ataque furtivo, ela não havia perdido a vontade de lutar. Passo a passo, com lentidão calculada, aproximava-se das garotas para intimidá-las.

Recuando com cautela, Yuki perguntou: “Que diabos é isso?”

“…Parece ser uma fera”, respondeu Kotoha.

Yuki havia pensado o mesmo. No mínimo, não tinha qualquer aparência humana, nem parecia que Mishiro, Chie ou Keito haviam se transformado em monstros.

Yuki olhou rapidamente para os próprios braços e para os de Kotoha, apenas para se certificar de que o membro na boca da criatura não pertencia a nenhuma das duas. Depois de confirmar que os quatro braços delas ainda estavam devidamente no lugar, Yuki voltou sua atenção para a penugem branca.

“Alguma ideia de a quem pertence aquele braço?”, perguntou Yuki.

“Não… Está mutilado demais para saber.”

“Não é um lanche que deram a ele antes do jogo, certo? O que significa que… ele pegou alguém.”

“Espero mesmo que tenha sido só um braço…”

O lobo avançou lentamente. Yuki deu mais um passo para trás.

“Lobos devoradores de gente realmente existem…?”, perguntou Yuki. “…Quer dizer, acho que têm de existir, já que tem um bem na nossa frente…”

“Acho que deve ter sido especialmente treinado pelos organizadores. Isso me lembra a Besta de Gévaudan.”

“Que diabos é isso?”

“Um lobo lendário devorador de humanos. Era grande, tinha pelagem negra e supostamente devorou mais de cem pessoas. Imagino que os organizadores tenham treinado um lobo comum para imitar a lenda.”

“Você só pode estar brincando…”

Continuando a recuar, Yuki chegou ao fim do corredor.

Embora pudesse virar a esquina, precisaria apontar a lanterna para longe da besta por um instante para confirmar que o caminho estava livre. E, naquela situação, cada segundo valia ouro.

Como resultado, Yuki parou onde estava.

“Só existiu uma Besta de Gévaudan?”, ela perguntou.

“Segundo muitos relatos, sim. Mas talvez seja arriscado demais tirar essa conclusão…”

“Ela é, por acaso, fraca contra a luz?”

“Não, nunca ouvi nada assim… Mas levando em conta a natureza deste jogo, é possível…”

Assim que essas palavras saíram da boca de Kotoha, a besta interrompeu seu avanço e começou a andar de um lado para o outro, como se tivesse esbarrado em uma parede invisível.

Acertei em cheio, pensou Yuki. A besta era fraca contra a luz. Isso deveria ter sido óbvio, considerando a natureza do jogo. As jogadoras podiam avançar pelos andares empunhando suas lanternas para afastar qualquer ataque. Mas, se desperdiçassem a bateria sem pensar nas consequências — como o grupo de Mishiro havia feito —, essa criatura as caçaria. A armadilha havia sido projetada exatamente com isso em mente.

Os esforços de Yuki haviam valido a pena, já que ainda tinham uma lanterna funcionando. Porém…

“…Isso não é bom. Está quase acabando.”

Yuki olhou para a lanterna em sua mão. A intensidade da luz havia diminuído drasticamente desde a primeira vez que a ligara. Ao afastar a mão, dava para ver claramente a lâmpada que servia como fonte de luz. A bateria estava por um fio. Yuki havia pegado a lanterna de Kotoha ainda no meio do terceiro andar, quando a carga já estava quase toda consumida. Ainda assim, xingar a lanterna naquele momento crítico não adiantaria nada. Ela havia resistido muito mais do que o esperado.

Mesmo assim, tudo o que é finito chega ao fim.

A besta parecia entender isso também. Era por isso que não fugira. E estava perfeitamente claro o que ela faria no momento em que a lanterna se apagasse.

Yuki puxou uma faca da mochila presa ao peito. Era uma faca de sobrevivência robusta. Com uma mão só, removeu a bainha e exibiu a lâmina diante da besta — e de Kotoha.

“Você vai lutar?”, perguntou Kotoha.

“Não temos escolha.”

“Nessas circunstâncias?”

Para resumir a situação de Yuki: uma mochila no peito e Kotoha nas costas.

“Quer que eu te coloque no chão?”, Yuki curvou os lábios em um meio sorriso.

“Por favor, não…”

Kotoha se agarrou ainda mais a Yuki, para a satisfação dela.

Yuki achou melhor manter a mochila, já que funcionaria como uma espécie de peitoral. Para mostrar que não era uma ovelha indo para o abate, ela deu um passo à frente. O feixe de luz avançou junto, forçando a besta a recuar um passo. Yuki avançou um segundo passo, depois um terceiro, retornando à posição que ocupava antes.

No instante seguinte, a lanterna apagou completamente, mergulhando tudo na escuridão.

Mas Yuki já havia gravado a imagem do corredor — até a última mancha no chão — em sua mente. Perder a visão não a colocava em desvantagem; pelo contrário, aguçava seus outros sentidos. Ela conseguia ouvir o próprio coração bater, sentir o pulso e a respiração de Kotoha, além do suor que cobria a pele clara e macia da garota.

Ainda assim, dentro dessa rede de sentidos aguçados, não havia sinal algum da besta.

(14/30)

A presença dela havia desaparecido. A sede de sangue no ar havia se dissipado.

Mesmo assim, Yuki não era tola a ponto de concluir que a criatura tinha ido embora. No entanto, seu corpo reagiu antes de sua mente — o aperto em torno da faca afrouxou, a postura baixa que adotara voltou ao normal e um suspiro escapou de seus lábios. Kotoha pareceu notar essas reações, pois também relaxou os braços ao redor do peito de Yuki.

“Ela foi embora?”, perguntou Yuki, quase como se quisesse transformar aquilo em realidade. “Foi embora.”

“Será mesmo?”, questionou Kotoha.

“Depois de me ver assumir uma postura de ataque, com uma arma bem na cara dela, provavelmente não gostou das próprias chances.”

Yuki aguçou a audição em busca de passos. Eram surpreendentemente silenciosos, considerando a distância entre elas e a besta, mas ainda assim dava para perceber que se afastavam cada vez mais. Embora Yuki não sentisse vontade de largar a faca, por hora era seguro assumir que o perigo havia passado.

“Vamos seguir em frente também.”

Yuki apertou o interruptor da lanterna algumas vezes. A luz não voltou. Ela jogou o objeto agora inútil no chão e começou a andar.

“É mesmo seguro avançar no escuro?”, perguntou Kotoha.

“Não muito, mas não é como se tivéssemos escolha.”

O fato de a besta ser a armadilha do segundo andar sugeria que não havia armadilhas fixas, como buracos ou minas terrestres. Nesse sentido, a falta de luz não comprometia diretamente a segurança delas. Mas evitar armadilhas não era o único motivo pelo qual Yuki vinha iluminando os corredores — ela também o fazia para não cortar as pernas nos destroços espalhados pelo chão, alguns afiados o suficiente para servir como armas. Seja em um jogo mortal ou na vida real, a luz era um recurso indispensável para explorar ruínas abandonadas.

Não adiantava chorar pelo impossível, então Yuki se resignou a prestar atenção redobrada onde pisava.

“Será que as outras estão vivas?”, ela comentou.

“Espero muito que sim…”

Yuki lembrou-se do braço na boca da besta. Ela havia visto apenas um membro, mas será que aquilo era tudo?

“Contra um lobo, sussurrar assim já deve ser suficiente para revelar nossa posição”, disse Yuki. “Ou até mesmo fazer passos audíveis… Espera, esquece isso. Aposto que ele consegue nos rastrear só pelo cheiro.”

“Parece que ele não ataca ninguém que esteja com luz, mas agora está tudo completamente escuro…”

Com o andar mergulhado em trevas, Yuki e Kotoha deveriam ter percebido qualquer outra fonte de iluminação. Como não haviam visto nada disso, era provável que as outras tivessem ficado sem luz. Diante disso, a chance de estarem vivas era—

“Bom, não vamos tirar conclusões precipitadas”, disse Yuki, fingindo ignorância. “Esse papo deprimente pode esperar até termos alguma prova concreta. Não faz mal manter o otimismo por enquanto.”

“Sim… você tem razão.”

As palavras de conforto serviam para tranquilizar Kotoha, mas também refletiam o que Yuki realmente acreditava. Embora pensar no pior fosse essencial para sobreviver a jogos mortais, isso não significava adotar uma postura pessimista. Um braço havia sido arrancado. Lobos tinham audição e olfato apurados. Esses eram os fatos. Para Yuki, havia uma diferença clara entre realismo e pessimismo. Ser realista era apenas reconhecer os fatos — não significava agir de forma positiva ou negativa.

E, na prática, a visão pessimista acabou se mostrando equivocada.

Pouco depois de retomarem o avanço, algo tocou a perna de Yuki quando ela passava ao lado de uma pilha de entulho.

“……!!”

Yuki lançou a perna para o lado, chutando o monte de destroços, que desabou com um estrondo. Embora a escuridão a impedisse de ver o que acontecera, ela sentiu que havia arremessado para longe quem quer que tivesse tocado sua perna.

“O-o que foi isso?”, perguntou Kotoha.

“Tem algo ali”, respondeu Yuki. “Algo vivo.”

Aquilo havia tocado seu joelho. Yuki sentira a textura da pele e o calor de um corpo — alguém estava escondido dentro do entulho. O espaço era pequeno demais para a Besta de Gévaudan. Seria uma criança? Ou haveria uma segunda criatura vagando pelo andar?

Yuki avançou cautelosamente na direção do ser que havia chutado.

“Espera, espera! Yuki!”

No instante seguinte, Yuki sentiu outro toque em sua perna. Como desta vez ouviu uma voz, manteve a perna imóvel. Olhou para baixo e viu—

“…Keito?”

Era Keito, a garota de corpo esguio.

Yuki ergueu o olhar à frente e percebeu que antes havia chutado—

“…Não precisava disso tudo, Yuki”, reclamou Chie, saindo de dentro de uma pilha de entulho.

Duas integrantes do grupo de Mishiro haviam sobrevivido.

(15/30)

Yuki não parou de andar. Não havia como saber quando a Besta de Gévaudan atacaria novamente. Ela queria encontrar a escada para o primeiro andar o mais rápido possível. Chie e Keito a seguiram logo atrás.

“Que bom ver você sã e salva”, disse Keito.

“Digo o mesmo”, respondeu Yuki. “Nenhuma de vocês parece ferida.”

Yuki se virou para examinar as duas. Embora estivessem cobertas de arranhões — provavelmente por terem se escondido entre os destroços —, podiam ser consideradas ilesas. Ambas ainda tinham todos os membros.

O que significava que o braço na boca da besta pertencia a—

“Onde a Mishiro foi parar?”, perguntou Yuki, verbalizando a dúvida que queimava em sua mente.

Chie e Keito trocaram olhares constrangidos.

“Perdemos ela de vista enquanto corríamos no escuro…”, respondeu Keito. “Não fazemos ideia de onde esteja.”

Segundo Keito, depois de se separarem de Kotoha e Yuki no terceiro andar, as jogadoras restantes haviam continuado o jogo com Mishiro na liderança. Ao que tudo indicava, encontraram a Besta de Gévaudan assim que chegaram ao segundo andar. Ela surgiu do nada imediatamente depois que a última lanterna se apagou. Ao perceberem que não tinham chance alguma em uma luta, as três fugiram em direções diferentes. Chie e Keito conseguiram se reencontrar depois, mas não tinham pistas sobre o paradeiro de Mishiro.

“Então aquele braço era da Mishiro…?”, perguntou Yuki, de forma sugestiva.

“Acho que sim”, respondeu Keito.

Pela reação de Keito, Yuki teve certeza de que a história da garota tinha falhas. Ela não perguntou “Que braço?” ou “Tinha um braço em algum lugar?” — respondeu diretamente “acho que sim”. Isso significava que ela sabia que Mishiro havia estado em uma situação em que poderia ter o braço arrancado. Nesse caso, Keito e Chie tinham visto a besta morder o braço de Mishiro. Só depois disso perceberam que não tinham chance alguma e fugiram em direções diferentes.

Elas haviam abandonado Mishiro.

A mesma garota que decidira abandonar Kotoha agora havia sido deixada para trás. Que reviravolta irônica.

“Então vocês estavam escondidas no entulho para… fugir da besta?”, perguntou Yuki.

“Sim. Não temos a menor chance contra um monstro daqueles.”

“E se esconder… funcionou?”, perguntou Yuki. “Ela não rastreou o cheiro de vocês?”

“Achamos que isso podia acontecer, mas deu tudo certo”, respondeu Chie. “A gente passou pelo Tratamento de Preservação, lembra? Não temos cheiro.”

“Ah, é…”

Yuki se lembrou do Tratamento de Preservação. Um de seus efeitos era neutralizar o odor corporal. Mesmo que alguém corresse por uma selva tropical durante uma semana inteira, não ficaria com cheiro de suor. Ao que parecia, isso era suficiente para confundir até o olfato apurado de um lobo.

“Ainda assim, ela teria nos encontrado se tivéssemos feito qualquer barulho”, disse Keito. “Não sabíamos onde estávamos, já que corremos em direções aleatórias, então ficamos praticamente presas. Se você não tivesse passado por ali, Yuki, já era pra gente.” A garota encarou Yuki com os olhos marejados. “Se não for pedir demais, eu adoraria continuar com você. Tudo bem?”

“Isso não vai impedir a besta de atacar”, respondeu Yuki.

“Mas você a afugentou, não foi? Ela não vai atacar você de novo. Aquele canídeo com certeza sabe quem é o alfa aqui.”

Yuki não acreditava nisso. A besta havia sido claramente treinada para matar jogadoras. Embora provavelmente priorizasse alvos mais fáceis, no fim das contas não hesitaria em atacar Yuki.

Ela também achava que Keito não acreditava de verdade no que estava dizendo. Suas palavras eram apenas uma forma de convencer Yuki a deixá-las ficar por perto. Keito queria alguém que lutasse por ela quando a besta aparecesse novamente. Era o tipo de jogadora que se agarrava aos fortes para sobreviver. Com Mishiro fora de cena, agora havia voltado sua atenção para Yuki.

“Bom, eu não me importo…”, disse Yuki. “Estamos quase chegando mesmo.”

“Hã?”

Chie, Keito e até Kotoha reagiram com surpresa.

Claro que elas não perceberam, pensou Yuki. Decidiu explicar.

“A escada está perto. Deve estar logo depois de mais uma ou duas curvas.”

“…Como você sabe?”, perguntou Keito.

“O fluxo de ar aqui é diferente. Imagino que o primeiro andar tenha janelas. Um pouco do ar de fora está chegando até aqui.”

“Você sente alguma coisa…?”, Chie perguntou a Keito.

“Não. Nada”, respondeu ela.

Yuki continuou andando sem dizer mais nada. As outras duas também ficaram em silêncio. Viraram uma esquina, depois outra…

E, dessa vez, ao contrário da última previsão que fizera, Yuki não se envergonhou. À direita do corredor em que acabavam de entrar, havia uma escadaria magnífica.

“…Uau”, comentou Chie.

“Não duvidei nem por um segundo”, disse Keito.

“Olha… esse tipo de coisa é algo que vocês deviam perceber”, respondeu Yuki.

Mesmo levando em conta o terror causado pela besta, Yuki achou que elas estavam desatentas demais. O comentário soou condescendente, mas ela não conseguiu se conter.

Ao se aproximarem da escada, Yuki notou um brilho fraco vindo de baixo. Ou o primeiro andar tinha iluminação funcionando, ou a luz do sol entrava pelas janelas. De qualquer forma, a visão animou Chie e Keito, que desceram correndo as escadas como crianças liberadas da aula.

Yuki, porém, permaneceu parada no topo da escadaria.

Ao perceber que apenas dois pares de passos ecoavam, Keito se virou.

“…O que foi?”, perguntou, confusa. “Não me diga que tem uma armadilha na escada.”

“Hã? Não, nada disso.”

Yuki olhou para Keito, depois para Chie. Somando Kotoha, eram quatro. Com base naquela combinação de jogadoras, ela deduziu que quem provavelmente morreria no final seria—

Yuki sentiu algo se apertar em torno do peito — os braços de Kotoha.

“Você vai voltar?”, perguntou Kotoha, parecendo entender o motivo de Yuki ter parado.

“…Vou. Acho que devo”, respondeu Yuki. Ela não podia perder de vista o que era mais importante.

“Espera, o quê…? Não me diga que você está pensando em ir salvar a Mishiro”, disse Chie.

Yuki sorriu diante do desdém evidente no “nem pensar”.

Mishiro — uma princesa mimada e autoritária, líder que vinha coordenando jogadoras novatas após Candle Woods. Este era seu oitavo jogo, e ela frequentemente entrava em conflito com Yuki, que representava uma ameaça à sua posição.

“É exatamente isso que estou pensando”, respondeu Yuki. “Ela ainda pode estar viva.”

Chie e Keito a encararam, incrédulas.

Ir salvar uma única jogadora deixada para trás era basicamente o mesmo que Yuki havia feito por Kotoha, mas havia uma diferença crucial. Kotoha estava apenas separada do grupo; no caso de Mishiro, havia a ameaça imediata da Besta de Gévaudan.

Mesmo assim, Yuki não hesitou. Tirou Kotoha das costas e a entregou a Chie.

“Pode carregá-la? Obviamente, não é uma boa ideia levá-la comigo.”

“Claro…”, disse Chie, colocando Kotoha nas costas. “Mas… por quê? Eu… não entendo por que você iria querer salvar a Mishiro…”

Mais uma observação cruel. Yuki forçou um sorriso antes de responder:

“Para ganhar pontos.”

(16/30)

Como as coisas tinham chegado a esse ponto?

Essa era a única pergunta na mente de Mishiro.

(17/30)

 

Tudo estava escuro.

Mishiro estava dentro de uma sala pequena.

Ela havia se escondido em um abrigo improvisado. Por fora, parecia apenas um monte de tábuas e restos de madeira, mas por dentro havia um espaço oco, grande o bastante para uma pessoa sentar abraçando os joelhos. Fora uma construção apressada, mas ela se orgulhava do resultado. Na verdade, a besta se aproximara duas vezes do local e passara direto em ambas. Por ora, Mishiro havia garantido sua segurança.

Mas não poderia ficar ali para sempre. A cada segundo que passava, aproximava-se mais de sua ruína.

“…Maldição”, murmurou Mishiro, cuidando para não ser detectada pela besta. As únicas vibrações causadas por aquela expressão de frustração ocorreram dentro de seu próprio crânio.

Aquele jogo tinha um limite de tempo. Quando os cronômetros digitais espalhados pelo prédio chegassem a zero, seria o fim. Talvez uma bomba gigantesca no primeiro andar explodisse o edifício, ou um dispositivo letal ligado ao coração de Mishiro fosse ativado. Ela não sabia como, mas sua execução era certa. Muito provavelmente, não sobreviveria tempo suficiente para ver a contagem chegar ao fim. A besta não era estúpida; eventualmente encontraria o esconderijo de Mishiro e pisaria sobre seu corpo adolescente.

Mishiro queria desesperadamente sair dali o quanto antes, mas não via nenhuma perspectiva de sobrevivência. Antes de se esconder, correra em pânico, o que a deixara sem qualquer noção da disposição do andar. Não lembrava de onde viera nem tinha ideia de onde ficava a escada para descer. Seria tolice achar que poderia encontrar a escada simplesmente correndo em uma direção aleatória. Ainda assim, continuar escondida não melhoraria sua situação, e seria prudente tentar escapar antes que suas reservas de energia e força de vontade se esgotassem.

Infelizmente, Mishiro não tinha coragem para isso. Tudo o que conseguia fazer era permanecer ali, sozinha, abraçando os joelhos.

E, para ser exata, nem isso ela conseguia fazer direito.

Isso porque só tinha um braço para se abraçar. Seu braço direito, a partir do cotovelo, estava coberto de penugem branca. A parte que antes ocupava aquele espaço provavelmente já estava sendo digerida no estômago da besta. Assim como as pernas de Kotoha não poderiam ser restauradas, o braço direito de Mishiro provavelmente nunca mais seria o mesmo.

“…Maldição”, murmurou Mishiro novamente.

Ela havia se tornado apenas uma sombra de sua antiga elegância. Mishiro fora lançada para longe assim que chegara ao segundo andar. Depois que o grupo ficou sem bateria, a besta apareceu e cravou os dentes em seu braço direito com velocidade relâmpago — e tudo se apagou. O grito que ela soltara não teve nada de gracioso. Não era surpresa que Chie e Keito a tivessem abandonado e fugido para salvar a própria vida.

A única coisa boa fora que seu antebraço se desprendera com relativa facilidade. Isso significava duas coisas: primeiro, Mishiro havia soltado um grito patético; segundo, a besta interrompera a perseguição por um momento. Enquanto a criatura roía seu braço, Mishiro conseguira fugir como um personagem de desenho animado. Ela correu sem pensar na possibilidade de outras armadilhas, trombando em destroços que arranharam seu corpo e transformaram seu vestido em trapos, tropeçando e se chocando contra o chão e as paredes de concreto até mal conseguir respirar, até que finalmente…

Ela se escondeu na escuridão.

Tudo o que restava a Mishiro era aquele pequeno esconderijo.

“…Maldição”, murmurou ela pela terceira vez.

Mishiro não fazia ideia de quanto tempo havia passado desde então. Talvez apenas dez ou vinte minutos tivessem se escoado de fato — nada significativo —, mas, para ela, parecera uma eternidade. Tempo mais do que suficiente para pensar… pensar em coisas inúteis.

Por quê? Como isso aconteceu? Onde eu errei?

A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi o rosto daquela miserável — Yuki. A garota com aparência de fantasma, que afirmava estar no décimo jogo.

Isso é tudo culpa dela, pensou Mishiro. Se ela não tivesse ficado abrindo a boca, meu destino teria sido diferente. “Temos que economizar as baterias”? É claro que eu sabia disso! Não fui eu a primeira a propor usar uma lanterna por vez? Eu tinha plena consciência da nossa situação. Se Yuki tivesse ficado calada, eu teria pensado em instruir Kotoha a não usar a lanterna no terceiro andar. Mas, como ela tinha que se intrometer e falar, eu fui obrigada a ignorá-la. Exatamente. Se ao menos ela não tivesse atrapalhado meu ritmo.

Se ao menos ela não tivesse dito que este era o décimo jogo dela.

Em seguida, Mishiro imaginou o rosto da pessoa que a arrastara para aquele mundo — sua agente. Mishiro era capaz de recitar cada palavra do convite que recebera.

“Aqui, não haverá ninguém acima de você. Nós lhe daremos o status que você deseja.”

Isso era plausível. Como poucas pessoas se dispõem a participar de jogos mortais, era fácil se tornar uma jogadora de topo após cinco ou dez jogos. Era comparável a estabelecer um recorde do Guinness cuspindo sementes de melancia. Pensando melhor, Mishiro percebeu que o status social oferecido pelos jogos não era nada extraordinário, mas, na época, a proposta parecera irresistível. Tornar-se facilmente uma jogadora de elite em um “mercado” que atendia a uma clientela de aristocratas? Nada mal.

Mas sua agente não dissera uma palavra sobre miseráveis como Yuki.

Isso é um golpe, pensou Mishiro. Eu não devia ter caído nessas promessas vazias.

Ela se lembrou da noite em que destruiu cada canto do próprio quarto. Enlouquecera porque sentiu que havia batido em uma parede na vida. Já que não podia derrubar a parede, contentou-se em destruir o quarto. Mishiro acreditava que sua maior desgraça era ter nascido na era atual. Não importava o que fizesse, sempre haveria alguém acima dela. Havia poucos picos no mundo, e gente demais tentando alcançá-los.

O que alguém como eu deve fazer hoje em dia?, perguntou-se Mishiro. Seria melhor morrer? Eu bati na minha irmãzinha com a minha raquete querida até ela precisar ser levada de ambulância para o hospital. Se ao menos eu não tivesse nascido com essa disposição.

Por fim, sua mente derivou para a imagem de sua mãe. Ela ergueu o olhar para a mulher, que tinha mais do que o dobro da sua altura, e perguntou: “Ei, por que meu nome, Kazumi, significa ‘a mais bonita’?”

A mulher respondeu: “Eu te nomeei com a esperança de que você fosse a melhor em alguma coisa, por menor que fosse.”

Cala a boca, sua mulher. Morra. Como se atreve a me amaldiçoar… Morra!

Quem vai morrer é você, disse a parte fria do coração de Mishiro para si mesma.

“…………”

Mishiro enterrou o rosto nos joelhos.

Ela deixou a consciência se desfazer aos poucos. Não se importava se adormecesse. Estava cansada. Nada mais importava. Depois de perder o braço direito, sua dignidade e sua vontade de sobreviver a qualquer custo evaporaram. Não precisava de algo que já tinha se quebrado. No instante em que fechou os olhos, uma onda pesada de exaustão a engoliu. Estava mais fatigada do que imaginava. E, enquanto se entregava a essa sensação, Mishiro—

—ouviu passos.

Não era alucinação. O eco dos passos chegou até seus ouvidos. Estavam se aproximando.

Mishiro tirou a mão esquerda dos joelhos e agarrou a faca no chão. Era a única coisa que levara consigo depois de esvaziar a mochila no terceiro andar. Mas o que isso adiantaria? Ela achava que poderia enfrentar a besta com aquela lâmina patética? Não. A faca, para ela, não era tanto uma arma quanto um amuleto. Ela não suportava a sensação de estar de mãos vazias.

E assim Mishiro permaneceu imóvel enquanto a origem dos passos entrava no cômodo.

Embora seu esconderijo tivesse, duas vezes, impedido um ataque da besta, ele tinha um defeito: não havia nenhuma fresta para observar. Ela não tinha como confirmar a identidade do intruso, nem se ele havia percebido o esconderijo. Mishiro bateu no próprio peito com o braço sem mão, ordenando a si mesma que se acalmasse, mas, em aberta zombaria de sua ordem, o coração apenas acelerou.

Quando seu esconderijo foi arrancado com um chute, Mishiro achou que seu coração ia parar.

Não — ele parou por uma fração de segundo. Ela sentiu um rasgo no tecido do tempo. Quando recobrou a noção, viu-se encarando uma única garota, que voltava a uma postura normal depois de desferir um chute alto.

Era a garota fantasma, Yuki.

(18/30)

Como esperado, Yuki encontrou Mishiro escondida em um lugar onde o entulho havia sido mexido.

“Ei”, chamou Yuki. “Parece que você está bem.”

Mishiro estava com uma expressão atônita.

Apesar das sombras profundas do cômodo, o cansaço no rosto da garota era evidente. E não era de se admirar — ela ficara encolhida naquele espaço apertado por bastante tempo. Yuki chegou a pensar em lhe dar um tapa para acordá-la, mas, antes que pudesse erguer a mão—

“Como?”, perguntou Mishiro. “Como você soube que eu estava aqui?”

“Intuição feminina”, respondeu Yuki, repetindo a mesma frase que usara mais cedo. “Não importa quanto tempo eu tenha ficado afastada desses jogos — eu não vou perder para um cachorro idiota.”

“O que você quer comigo?”

“Não é você que quer alguma coisa de mim?”

Mishiro ficou em silêncio.

“Foi um barulho bem alto agora há pouco.” Yuki cutucou um pedaço de entulho com o pé. “É bem provável que aquela besta esteja correndo para cá neste exato momento. E, desta vez, ela não vai se contentar com um braço — vai devorar seu corpo inteiro.”

“…Isso também vale para você, não?”

“Não. Eu tenho uma rede de segurança. Encontrei a escada, então posso fugir a qualquer hora.”

A expressão de Mishiro mudou.

Yuki continuou: “E, claro, eu não esqueci como chegar lá. As outras três já desceram para o primeiro andar. Só restamos nós duas.”

“…Mesmo depois de encontrar a escada, você decidiu voltar?”

“É assim que é.”

“Você quer dizer que voltou para me procurar… para me resgatar?”

Yuki soltou uma risadinha. “Nem pensar. Eu voltei para te humilhar. Eu não suporto a ideia de você morrer sem mim, então preciso provar aqui e agora qual de nós é superior.”

“Hã…?”

“Você se divertiu demais me usando como saco de pancadas, Mishiro. Nem lembro quantas vezes foi… então vamos juntar tudo em uma só. Se você pedir desculpas, eu perdoo e esqueço.”

Yuki estendeu os braços, como se exibisse sua generosidade.

“Se você disser desculpa por agir toda arrogante, eu te levo até a escada.”

(19/30)

Mishiro ficou sem palavras.

“Ué? O que foi? É só admitir o óbvio. Daqui, dá para ver claramente qual de nós é mais capaz. E você me difamou sem motivo nenhum. Eu sei que seu coração está cheio de culpa, então tudo o que você tem que fazer é colocar isso para fora.”

A mão de Mishiro tremeu em torno do cabo da faca. Mas o tremor não levou a nada.

“Ou o quê, você realmente não percebe que eu estou em outro nível? Me poupe. É fácil demais ser convencida quando você é incompetente. E, como não percebe o quão impotente é, você vai repetir os mesmos fracassos uma e outra vez até morrer. De longe, é engraçado de assistir, mas eu não quero ficar perto o bastante para respirar o mesmo ar que você.”

Mishiro não conseguia responder. Mas a mesma frase se repetia, sem parar, dentro de sua mente.

Sua miserável, sua miserável, sua miserável, sua miserável — sua miserável!

“O gato comeu sua língua? Não me diga que você está tentando ganhar tempo para a besta chegar. Assim não dá. Você tem dez segundos. Eu odiaria fazer isso, mas, se eu não ouvir um pedido de desculpas nesse tempo, vou ter que desistir de você, princesa.”

Yuki levantou as mãos diante de Mishiro. Ergueu o mesmo número de dedos que o número de segundos que havia estipulado — dez.

Yuki abaixou o polegar direito.

Yuki abaixou o indicador direito.

De sete para seis, para cinco, o número de dedos estendidos continuou diminuindo. Mishiro observava, como se estivesse hipnotizada por uma moeda pendurada em um fio.

Diga, ordenou uma voz em sua cabeça.

Certo — ela não tinha escolha a não ser admitir. Objetivamente, Yuki era a jogadora superior. Ela provavelmente também dizia a verdade sobre estar no décimo jogo. Mishiro tinha de reconhecer que agira com superioridade diante de uma jogadora mais experiente. Não — nem precisava ir tão longe. Só precisava pedir desculpas. Um pedido de desculpas vazio era tudo o que a situação exigia.

Não havia dúvidas de que Yuki conduziria Mishiro até a escada; era difícil imaginar que ela teria voltado apenas para humilhá-la. Yuki era uma jogadora veterana no décimo jogo e devia querer resgatar Mishiro.

Um pedido de desculpas salvaria a vida de Mishiro.

Mesmo assim, sua boca permaneceu rígida e se recusou a se mover.

Por que você hesita?, pensou. O que você está pensando? Isso não é uma briga de crianças. O que adianta ser teimosa numa hora dessas? —Teimosa? Não. Não é isso que eu sinto. Então o que é? Depois de passar por esse inferno, o que é essa coisa queimando dentro de mim?

Frustração.

No momento em que encontrou a palavra, os olhos de Mishiro se arregalaram. As engrenagens em seu corpo começaram a girar, restaurando suas funções normais.

É isso. Eu estou frustrada. Frustrada demais para admitir derrota. Tão frustrada que me recuso a me render a ela só para prolongar minha vida.

“Cala a boca”, disse Mishiro quando os dedos de Yuki chegaram a um.

“Hã? O quê?”

“Já chega dessa baboseira!!”

(20/30)

Yuki ficou atônita. Ter sobrevivido a Candle Woods não significava nada ali.

Quando se deu conta, já estava caindo para trás, sentada no chão. Incapaz de juntar qualquer coisa para dizer à agressora, ela só conseguiu olhar, pasma, enquanto Mishiro disparava para fora do cômodo.

“…………?”

Yuki levou a mão ao peito. Seu coração disparava — assim como sua mente. Ainda assim, tentou entender a situação com o cérebro mal funcionando. O que tinha acabado de acontecer? Yuki encontrara Mishiro. Poderia tê-la resgatado imediatamente, mas decidira aproveitar para provocá-la um pouco. Não havia nada a perder; mesmo que Mishiro se recusasse a pedir desculpas, Yuki ainda iria salvá-la. Em vez disso, Mishiro explodira de raiva. Yuki não reagira a tempo ao desenvolvimento inesperado e ficara perplexa enquanto a garota a empurrava e corria para fora do cômodo.

E agora…

E agora, por algum motivo, o coração de Yuki estava acelerado.

Ela ouviu passos pesados ao longe.

“…Certo, eu tenho que sair daqui.”

Yuki se levantou. Os passos eram da Besta de Gévaudan, que logo chegaria àquele cômodo. Sabendo que o tempo era curto, ela saiu rapidamente enquanto tentava detectar a posição de Mishiro.

Enquanto corria, tocou o peito de novo. O coração ainda estava disparado.

Mas ele não acelerara por causa da corrida. Nem porque ela estivesse irritada com a reviravolta. Na verdade, Yuki percebeu que era o oposto. Ela estava curiosa sobre Mishiro. Ela tinha se afeiçoado a ela.

“Baboseira”, hein?, pensou Yuki. Ela ficou impressionada com a resistência de Mishiro. Parecia que Yuki havia tocado e sido repelida pela parte mais macia do coração dela.

Yuki a achou cativante.

E também não queria que Mishiro morresse.

A percepção aguçada de Yuki captou simultaneamente a presença de dois seres. O primeiro era a Besta de Gévaudan. O segundo era Mishiro. A garota provavelmente corria sem rumo pelos corredores, mas, ao que parece, os deuses da sobrevivência não a haviam abandonado: ela estava, por acaso, correndo em linha reta na direção da escada. No entanto, as presas da besta se aproximavam cada vez mais. Desse jeito, Mishiro não chegaria a tempo.

Ao virar uma esquina, Yuki viu a silhueta de Mishiro. Ela estava prestes a atravessar correndo uma junção de três caminhos.

Ao mesmo tempo, uma sombra avançava pelo corredor lateral.

Yuki disparou em velocidade máxima e saltou nas costas de Mishiro—

(21/30)

“…Gah?!”

Mishiro sentiu algo atingi-la por trás. Sua postura desabou, e a inércia a fez rolar pelo chão. Percebendo o quão desorientador era cair no escuro, ela conseguiu se impedir de continuar rolando e se levantou. Uma dor aguda atravessou os cortes espalhados por seu corpo.

“Eu me afeiçoei a você!” A voz era de Yuki. “Como um agrado especial, vou te salvar desta vez! Vire à esquerda na próxima esquina e depois pegue a terceira à direita! Corre enquanto eu distraio a—”

As palavras da garota foram interrompidas de repente. Mishiro ouviu algo tombar, seguido por sons de luta. Yuki estava se debatendo sozinha? Não, isso era impossível. No meio do barulho, havia um resfolegar intenso demais para vir de pulmões humanos.

Era a armadilha do segundo andar — a besta devoradora de gente. Yuki havia se tornado sua próxima vítima.

Até poucos segundos antes, Mishiro estivera onde Yuki estava. Se Yuki não a tivesse empurrado para longe, Mishiro teria caído nas presas da besta. Yuki a protegera. E, além disso, revelara a localização da escada — justamente para Mishiro, alguém por quem deveria sentir rancor. Apesar de Mishiro ter atacado Yuki repetidas vezes e ter se recusado a pedir desculpas.

A pergunta na mente de Mishiro era: por quê?

Era uma armadilha? Yuki ainda queria se vingar dela?

Era uma explicação plausível. Ainda assim, Mishiro correu como Yuki havia instruído. Virou à esquerda na próxima esquina. Depois pegou a terceira à direita.

Ela não tinha motivos para confiar em Yuki, mas confiou. Porque, quando Yuki gritou as direções para a escada, sua voz soara muito mais brilhante e alegre do que qualquer outra que Mishiro já tivesse ouvido.

(22/30)

Yuki ouviu os passos se afastando. Então a Mishiro foi, pensou, sentindo o bafo da besta em sua pele enquanto era presa ao chão.

A Besta de Gévaudan agarrou Yuki com as presas, cravando os dentes em seu estômago pelo lado. Ainda assim, Yuki não se abalou. Ela sentia dor, mas não associava aquilo ao sofrimento. Na verdade, a dor só a acalmava. Isso provava duas coisas: que ela estava à beira de um perigo grave e que havia retomado o ritmo como jogadora. Um alívio a inundou — o jogo tinha sido indulgente demais, fazendo-a duvidar se seus instintos tinham mesmo voltado. Mas aquele momento lhe dizia que ela estava de volta.

Mesmo no escuro, Yuki estava em plena forma e manobrou a faca por trás das costas para cortar o olho da besta, tentando forçá-la a recuar. Ela ainda tinha espaço mental para pensar no público; matar a besta de forma excessivamente brutal poderia gerar reprovação. Havia gente que comemorava a morte de humanos, mas se indignava com maus-tratos a animais, e muitas dessas pessoas faziam parte da audiência. Para Yuki, era absurdo demonstrar devoção absoluta ao bem-estar animal enquanto se assistia a um jogo mortal, mas era a realidade. Se ela caísse em desgraça com o público — os patrocinadores do jogo —, isso poderia afetar o prêmio em dinheiro por sobreviver. Ela precisava agir como a jogadora ideal e deixar de lado suas crenças pessoais. Nesse mundo, o que importava era conseguir agir conforme o desejo dos outros.

A vida de atriz é difícil, pensou Yuki.

Com a mão livre, ela puxou uma segunda faca — que havia surrupiado em segredo de Mishiro. Era hora de exibir suas habilidades com duas lâminas.

(23/30)

O grupo de Kotoha chegou ao primeiro andar.

Não havia armadilhas. Mas havia luz em abundância.

(24/30)

Como Yuki havia previsto, o primeiro andar tinha janelas com grades de ferro. Embora fossem estreitas demais para alguém conseguir passar por elas, deixavam a luz de fora entrar. Era de manhã cedo, e o céu ainda estava num tom azul marinho, mas havia claridade suficiente. Kotoha, Chie e Keito não precisavam prestar tanta atenção onde pisavam enquanto avançavam pelo primeiro andar.

“Sabe… parece mesmo que a gente chegou ao fim”, disse Chie, olhando o céu através das grades. “Claro, não dá pra baixar a guarda, mas com certeza já passamos pela pior parte.”

“Sim…”, respondeu Kotoha, nas costas de Chie.

Kotoha se virou. Keito estava ficando bem para trás. Embora o primeiro andar parecesse completamente seguro, aquilo podia ser apenas uma ilusão para esconder a existência de armadilhas, então Chie ia na frente. Keito liderara no quinto e no quarto andares, Kotoha no terceiro e Mishiro no segundo; agora era a vez de Chie. Tirando Yuki, todas elas já tinham tido pelo menos uma chance de liderar a fila.

Não havia sinal de Mishiro ou de Yuki vindo por trás. As duas só não tinham alcançado ainda ou tinham se metido em problemas? Kotoha se perguntou o que aconteceria se o grupo chegasse à saída sem elas. O cenário mais provável seria—

“Tenho que admitir, tô surpresa”, disse Chie. “A Yuki é uma garota bem legal. Ela não só foi te salvar, como também voltou pra buscar a Mishiro, mesmo elas batendo de frente o tempo todo… Você deu sorte de estar viva, Kotoha.”

Yuki. Uma jogadora no décimo jogo, com aparência de fantasma. Uma jogadora de antes de Candle Woods. Ela vinha o tempo todo tentando salvar as outras nesse jogo. Porém—

“Não é isso”, disse Kotoha. “Ela é assustadora, muito mais do que parece.”

“Hã? Por que você acha isso?”

“Você quer saber?”

“Quero, ué!”

Kotoha se virou mais uma vez. Depois de confirmar que Keito estava andando longe o bastante atrás, Kotoha baixou a voz num sussurro.

“Se eu te contar, você promete uma coisa?”

“Hã?” Como se tivesse sentido algo sinistro naquelas palavras, Chie também baixou a voz. “O que você quer dizer com isso?”

“Apenas me promete que vai fazer o que eu pedir. Eu só preciso da sua palavra.”

“…Tá. Acho que sim.”

“Você ainda tem aquele papel?”

Mesmo sem ver o rosto de Chie, Kotoha percebeu a surpresa.

“Papel?”, repetiu Chie.

“A folha branca resistente, mais ou menos do tamanho de um lenço. Estava dentro das nossas mochilas.”

Chie remexeu dentro da mochila, que estava presa ao peito do mesmo jeito que Yuki havia feito.

“Ah, tá aqui.” Ela tirou um pedaço de papel branco.

“É papel sintético da YUPO.”

“…O que é isso mesmo? Eu sei que já ouvi esse nome…”

“É o material usado em cédulas de votação em eleições. Depois que é dobrado, ele se abre sozinho de novo dentro da urna, então é conveniente.”

“Hã… sério? Eu nunca votei nem nada, então nem reparei. E aí?”

“Bem, tem mais uma coisa que eu achei estranha… A roupa deste jogo.”

Kotoha olhou para baixo, para Chie. Ela vestia um vestido branco que seria deslumbrante sob um céu de verão. Mas o tecido já havia acumulado muitos rasgos durante a caminhada pelo prédio cheio de sucata, e agora era algo que daria vergonha de usar em público.

“Você já parou pra pensar por que é um vestido branco?”, perguntou Kotoha. “Ele entra totalmente em conflito com o cenário do jogo.”

“Eu até pensei nisso… mas é tão estranho assim? Não é como se eu conseguisse imaginar uma roupa que combinasse com um prédio abandonado. Você descobriu alguma coisa?”

“Sim. Tenho quase certeza de que esses vestidos foram inspirados em quitões.”

“…Tá, essa palavra eu definitivamente nunca ouvi…”

“Quitão é um tipo de roupa comum na Grécia Antiga. Ele é feito dobrando uma grande peça de tecido de linho duas vezes, sem fazer cortes. Foi o antecessor da túnica, então o formato é bem próximo do de um vestido.”

“Tá… mas o que isso tem a ver com qualquer coisa?”

“Quando você ouve ‘Grécia Antiga’ e ‘voto’, não te vem nada à cabeça?”

“Não. Nada.”

“……”

Kotoha se calou. Meu Deus, pensou. As crianças de hoje não têm apreço nenhum por educação. A internet nem sempre resolve tudo.

Ela decidiu mudar de abordagem.

“Então deixa eu te perguntar outra coisa. Por que você acha que este andar não tem armadilhas?”

“Hã? Bom…”

“Você não acha que isso sugere que existe uma armadilha inevitável na saída? Não acha que pode haver alguma coisa esperando a gente no final, como o clímax deste jogo?”

“…Quer dizer…”

“Pensa em tudo o que a gente passou. Todas as armadilhas deste prédio podem ser evitadas se você fizer outra pessoa ir na frente. Não só os buracos e as minas; isso vale até para a besta. Uma criatura daquele tamanho deveria ficar completamente satisfeita depois de devorar uma única pessoa. O jogo foi equilibrado para que você consiga atravessar tudo com facilidade, desde que tenha alguém caminhando na frente. Por que você acha que é assim?”

“…………” O rosto de Chie empalideceu.

“Desculpa. Eu percebi isso desde o começo”, disse Kotoha. “Eu fiquei quieta, sabendo que algo assim estaria nos esperando na linha de chegada. Quer dizer, se isso se confirmasse, não teria como evitar… Para falar a verdade, eu fiquei feliz por perder no pedra-papel-tesoura e acabar liderando no terceiro andar. Porque encarar perigo de frente provavelmente me salvaria de ser escolhida no fim… E, como você está me carregando, Chie, eu não vou votar em você. Então eu quero que você também não vote em mim.”

No instante seguinte, Kotoha ouviu duas vozes vindo de trás. Uma era a de Keito; a outra era de alguém que ela conhecia. À medida que os passos se aproximavam, Kotoha se virou e chamou o nome da garota.

“—Mishiro! Você está bem!”

“…Sim. Em grande parte.” Mishiro olhou para o braço direito ausente. E essa não era sua única ferida; ela estava coberta de cortes e arranhões, e o vestido estava em frangalhos. Parecia menos uma garota em um dia de verão e mais uma jovem escravizada.

“É… onde está a Yuki? Ela não estava com você?”

“…Ela… entrou na frente para me proteger.” O tom de Mishiro denunciava relutância em admitir. “Ela virou a vítima da besta no meu lugar. Acredito que ela já não esteja mais entre nós…”

Kotoha duvidou daquilo. Será que é verdade? Ela não conseguia imaginar Yuki morrendo depois de tê-la visto demonstrar tanta habilidade. Ainda assim, Mishiro não parecia estar mentindo.

“De qualquer forma, que bom que você está bem”, Keito se intrometeu. “Que alívio. Isso só prova que você é a nossa única líder de verdade.”

Kotoha achou que Keito estava íntima demais, considerando que tinha abandonado Mishiro quando fugiram da besta.                                                 

Porém Mishiro não demonstrou raiva. Em vez disso, com uma expressão sombria, ela apenas respondeu: “…Acho que sim.”

Como consequência da melancolia enorme por trás daquelas palavras, o grupo seguiu em silêncio por um tempo.

Só quando chegaram diante de uma porta de ferro que parecia uma saída foi que o silêncio se quebrou.

Chie foi quem falou: “Mas que…?”

(25/30)

A saída estava diante dos olhos delas. Era uma porta de ferro, provavelmente feita do mesmo material usado em cofres de banco. Acima dela havia um monitor com a tela em branco. A porta não tinha maçaneta nem puxador, e não se mexia nem com o grupo inteiro empurrando. Era impossível abri-la apenas com força bruta.

De cada lado da porta havia três salinhas pequenas, cada uma com mais ou menos o tamanho de um box de chuveiro, totalizando seis. Essas salas estavam destrancadas e, dentro de cada uma, havia uma única mesa e uma cadeira, além do mesmo tipo de monitor que o de cima da porta. Elas também continham um cronômetro digital como os que as jogadoras já tinham visto repetidas vezes pelo prédio e, na parede externa, havia uma única abertura retangular.

Como se estivesse esperando Kotoha e as outras terminarem de olhar ao redor, o monitor emitiu um chiado de estática bem chamativa.

“—Bem-vindas, jogadoras. Parabéns por concluírem o jogo.”

Um mascote de aparência inofensiva apareceu na tela.

Kotoha já imaginava que algo assim aconteceria. Nesses jogos, a presença de um monitor implicava a aparição de um explicador. Em situações em que seria difícil explicar as regras de outra forma, ou em jogos com muitas participantes de primeira viagem, explicadores apareciam para orientar as jogadoras na direção certa.

Neste jogo, o explicador era um mascote que lembrava um lobo. Seu design não era nem feroz nem fofo; era neutro e inofensivo. Passava uma sensação de pena, como se tivesse sido criado na febre dos mascotes de uma década atrás e depois descartado por não ter nada de único. Kotoha suspeitou que aquele personagem não havia sido criado especialmente para aquele jogo, e sim reaproveitado de algum lugar pelos organizadores.

O lobo continuou: “Embora seja isso que eu gostaria de dizer, o jogo ainda não terminou. Agora é hora de vocês enfrentarem a Prova Final. Vocês estão vendo as salas de cada lado da porta, certo?”

Era claramente uma pergunta retórica, já que o mascote quase com certeza estava observando quando o grupo examinou as salas.

“Cada uma de vocês entrará em uma sala”, prosseguiu o mascote, sem esperar resposta. “Entretanto, parece que nem todas estão aqui. Sendo assim, haverá um período de espera.”

“—Nem todas estão aqui?”, repetiu Kotoha. “Isso quer dizer que a Yuki está viva?”

“Nem preciso dizer, mas cada sala só comporta uma jogadora”, continuou o mascote, ignorando Kotoha. “Quando alguém entrar, a porta da sala se trancará automaticamente. Não é possível destrancar por dentro, então aproveitem este momento para resolver qualquer pendência que tenham do lado de fora.”

Mishiro estreitou os olhos ao ouvir a parte sobre a tranca. Seja lá o que acontecesse naquelas salas, exigia que elas ficassem presas.

Mesmo com algumas partes da explicação incomodando, o grupo seguiu as instruções do mascote-lobo e entrou nas salas. Sem as pernas, Kotoha não conseguia se sentar sozinha na cadeira, então Chie a ajudou.

No instante em que Chie saiu da sala, a porta se fechou sozinha, e um “clunk” ecoou, sinalizando que havia trancado. Kotoha ficou isolada do mundo exterior.

Ela esperou pacientemente enquanto os segundos passavam.

Olhou para o cronômetro na parede: 01:32:45. Todos os dígitos entre zero e cinco apareciam exatamente uma vez. Quando Kotoha havia acordado, restavam cinco horas e meia na contagem regressiva, o que significava que o grupo levara aproximadamente quatro horas para chegar à saída. Só isso? pensou Kotoha. Ela estava tão exausta que teria acreditado que haviam vagado pelo prédio por quatro dias inteiros. Se ela se sentia assim mesmo tendo sido carregada durante toda a segunda metade do jogo, nem conseguia imaginar o quão cansadas as outras estavam.

Ainda restava uma hora e meia, mas não havia motivo para esperar esse tempo todo, porque, alguns minutos depois, Kotoha ouviu passos do lado de fora da porta. No instante em que ouviu, uma alegria a invadiu. Tinha que ser Yuki.

Depois que o momento de alegria passou, o nervosismo apareceu no rosto de Kotoha. A Yuki está mesmo bem? Parece que ela está bem o bastante para andar com as duas pernas…

Antes que Kotoha se perdesse nos próprios pensamentos, ela ouviu o monitor lá fora ligar novamente. O mascote-lobo repetiu a mesma explicação que havia dado às jogadoras poucos minutos antes. Kotoha ouviu o som de uma porta abrindo e fechando e até distinguiu o “clunk” da tranca.

O monitor na sala de Kotoha acendeu.

“Agora, vamos começar”, disse o mascote-lobo.

(26/30)

Mishiro concentrou a mente, prestando atenção em cada palavra do explicador.

“Jogadoras, abram suas mochilas e procurem no bolso interno direito. Lá vocês devem encontrar uma folha branca de papel. Já localizaram?” O mascote-lobo ergueu um pedaço de papel.

No entanto, Mishiro não pôde fazer o que o explicador pediu. O que não era surpresa, já que a mochila dela havia sido destruída quando a mina explodiu no terceiro andar.

“Oh? Parece que algumas de vocês perderam… Nesse caso, peço que quem estiver sem mochila abra a gaveta da mesa. Vocês encontrarão a mesma folha lá dentro.”

Mishiro fez como instruído e pegou o papel branco. Ela se lembrava de ter encontrado algo semelhante na mochila no início do jogo, embora não tivesse pensado muito a respeito. Apenas supusera que fosse algum tipo de fita dupla face.

“Este é papel YUPO”, explicou o mascote-lobo. “Ele é resistente à água e difícil de rasgar, e se abre sozinho quando dobrado. É usado em cédulas de votação nas eleições do nosso país. Alguma de vocês fez essa conexão?”

O mascote-lobo fez uma pausa, como se estivesse medindo a reação das jogadoras.

“…Entendo. Parece que várias de vocês perceberam. Então já devem compreender para que esse papel será usado. Dentro de instantes, vocês irão votar. Devem escrever o nome da jogadora que acreditam ter contribuído menos para a conclusão deste jogo. A jogadora que receber o maior número de votos—”

O mascote-lobo fez uma nova pausa, desta vez para dar ênfase.

“…morrerá.”

O explicador continuou: “Há uma abertura na parede à sua direita, que funciona tanto como a fenda da urna quanto como uma saída de ventilação. Um gás químico que desenvolvemos com extremo cuidado fluirá para a sala da jogadora que receber o maior número de votos. Pelo bem da saúde mental de vocês, vou me abster de explicar os efeitos específicos, mas saibam que a taxa de letalidade é praticamente de cem por cento, com a morte ocorrendo dentro de cinco minutos após a liberação.”

“…………”

Entendo… Então era isso, pensou Mishiro.

Essa era a razão pela qual Yuki havia salvado tanto Mishiro quanto Kotoha. Yuki havia entendido o significado daquele papel e previsto que uma prova como essa as aguardaria no final. Entre as cinco jogadoras, ela era a única outsider, então provavelmente imaginou que receberia a maioria dos votos se chegassem ao fim do jogo normalmente. Foi por isso que arriscou ser devorada pela besta para salvar Mishiro.

“Vocês terão quinze minutos para votar a partir do momento em que eu anunciar o início do período de votação. Estejam cientes de que qualquer jogadora que não depositar seu voto dentro desse prazo será tratada como se tivesse votado em si mesma. Isso conclui a explicação. Responderei agora a quaisquer perguntas que tenham.”

O mascote-lobo ficou em silêncio.

Mishiro também permaneceu quieta. Embora tivesse perguntas que queria fazer, decidiu primeiro observar como as outras jogadoras reagiriam. Pouco depois—

“Uma jogadora fez uma pergunta”, disse o mascote-lobo. “ ‘O que acontece se duas jogadoras empatarem com o maior número de votos?’ Uma pergunta perspicaz. Nesse caso, os votos terão pesos diferentes; jogadoras que votarem com a cédula encontrada dentro da mochila — ou seja, jogadoras que não perderam sua cédula original — terão maior poder de voto. Se o empate ainda persistir, haverá uma votação de desempate entre as duas mais votadas. Como há um número ímpar de jogadoras, essa votação será necessariamente decisiva.”

Essa regra penalizava Mishiro, que havia perdido sua cédula, embora ela achasse melhor do que não ter poder de voto algum.

“…Há outra pergunta. ‘O que acontece se uma jogadora votar em branco ou escrever algo além do nome de outra jogadora?’ Nesse caso, será tratado da mesma forma que não votar — o voto contará para a própria jogadora. A mesma regra se aplica a votos ilegíveis ou outros casos semelhantes, portanto recomendo que votem com cuidado.”

Isso significava que não havia como evitar a prova. Mishiro não ficou surpresa. Os organizadores jamais dariam às jogadoras uma saída depois de submetê-las a tanto sofrimento.

“Gostaria de fazer uma pergunta”, disse Mishiro. “Suponhamos que uma jogadora tenha recebido ou roubado uma cédula de outra durante o jogo, ou decida usar o papel dentro da mesa além de sua cédula original. O que acontece se essa jogadora votar múltiplas vezes?”

“…Há outra pergunta”, disse o mascote-lobo após uma breve pausa. Depois de repetir o conteúdo da pergunta de Mishiro, ele respondeu: “Nesse caso, apenas o primeiro voto depositado será considerado válido. Se for impossível determinar qual voto foi feito primeiro — por exemplo, se duas cédulas estiverem amarradas juntas — então apenas o primeiro voto que contarmos será válido. Em qualquer circunstância, uma jogadora não pode votar mais de uma vez.”

A resposta trouxe um grande alívio a Mishiro.

Coletar cédulas não daria vantagem a ninguém. Se, no início do jogo, Yuki tivesse previsto o que aconteceria, ela poderia ter obtido pelo menos duas cédulas adicionais — uma saqueando o corpo da sexta jogadora e outra ao salvar Kotoha depois que ela foi arremessada pela mina. Somadas à sua cédula original e ao papel na mesa, Yuki teria pelo menos quatro votos. Se fosse permitido votar tantas vezes quanto o número de cédulas, Mishiro e as outras não teriam como competir com o poder de voto de Yuki.

“…Como não parece haver mais perguntas, vou me retirar. Vocês têm quinze minutos — até o cronômetro chegar a uma hora e cinco minutos — para votar. Jogadoras, desejo boa sorte a todas.”

A tela apagou com um estalo.

Mishiro olhou para o cronômetro. Marcava 01:20:03.

(27/30)

Sobre a mesa havia um estojo cilíndrico e dois lápis. Após examiná-los, Mishiro concluiu que não havia nada de estranho neles. Vasculhou a sala, mas não encontrou nada como uma cédula dourada que valesse dois votos, nem qualquer abertura que lhe permitisse ver em quem outra jogadora estava votando. Aceitando que não havia nenhum truque oculto, Mishiro voltou à mesa.

Mishiro era destra, e a besta havia devorado seu braço direito. Ela só havia escrito com a mão esquerda algumas poucas vezes na infância, por brincadeira. Para garantir que a escrita fosse legível, segurou o lápis o mais próximo possível da ponta.

Então começou a pensar — que nome deveria escrever?

Primeiro, imaginou o rosto daquela garota desprezível, Yuki, a jogadora com quem havia se chocado tantas vezes ao longo do jogo. Com ela fora de cena, Mishiro voltaria ao topo. Mas não conseguia escrever o nome de Yuki de boa-fé. Depois do que havia acontecido antes, sua postura em relação a Yuki havia mudado. Mesmo sendo uma jogadora habitual desses jogos imorais, Yuki possuía um código de honra pessoal. Mishiro conseguiria viver consigo mesma se escrevesse o nome dela?

O próximo nome que lhe veio à mente foi o de Kotoha. Entre as jogadoras, ela havia sido a mais gravemente ferida, o que provavelmente a impediria de participar de outro jogo. Supondo que não se encontrariam em um jogo futuro, não haveria problema mesmo que Kotoha nutrisse rancor contra Mishiro. Ainda assim, Mishiro teve dificuldade em mover o lápis. Ela própria havia sofrido uma lesão permanente naquele jogo, e a empatia por Kotoha ainda persistia em algum lugar do seu coração.

“…Acho que devo seguir as instruções”, murmurou Mishiro antes de escrever um nome fatídico.

Como a besta havia devorado seu braço dominante, levou algum esforço, mas ela conseguiu depositar o voto. Mishiro afundou na cadeira e aguardou o tempo passar.

O cronômetro na sala desceu até 01:05:00. Mishiro supôs que o mascote-lobo apareceria novamente para revelar os votos, mas isso não aconteceu. A tela permaneceu completamente em branco.

“…Hã?”

Uma voz vinda de outra sala revelou a Mishiro o resultado da votação.

“O quê—? Eu? Sou eu? Por quê?”

Por estar em uma sala separada, Mishiro não tinha como saber como a garota descobrira que recebera o maior número de votos. Talvez apenas o monitor da sala dela tivesse ligado, ou o gás químico já estivesse fluindo pela ventilação. De qualquer forma, o resultado era claro. Mishiro soltou um suspiro de alívio ao saber que não havia sido a mais votada.

“Quem foi? Quem votou em mim? Kotoha? Você não prometeu que não votaria em mim? Não votou, né? Eu votei na Keito, sabia! Então por quê? Eu fiz alguma coisa errada?”

É porque você não fez nada, pensou Mishiro.

Keito havia enfrentado o perigo dos alçapões ao ir na frente no quinto e no quarto andar. Kotoha liderara no terceiro andar e perdera as pernas para uma mina terrestre. Mishiro liderara do terceiro para o segundo andar, e a besta havia comido seu braço. Yuki salvara Kotoha e Mishiro. Cada uma delas poderia ser considerada como tendo contribuído para a conclusão do jogo. Apenas uma jogadora era diferente — Chie, que não fizera nada de relevante além de carregar Kotoha.

“Isso não é justo. Não é culpa minha! A gente decidiu aleatoriamente quem ia na frente com pedra-papel-tesoura! Eu não mereço essa culpa! Por que todo mundo ouviu o explicador? Vocês deviam ter votado em quem queriam matar! Não… Não joguem a culpa em mim por um motivo idiota desses!”

A primeira vez que Mishiro sentiu esse sentimento foi quando sua irmã mais nova nasceu. Sempre que algo acontecia entre as duas, Mishiro acabava levando toda a culpa. Ela achava estranho como a mãe não as tratava de forma igual. Mas o momento em que esse sentimento se consolidou de vez foi quando ocorreu um incidente fatal em seu colégio. Uma estudante tratada como um capacho aparentemente havia tomado as rédeas da situação, mas, por algum motivo, quase ninguém demonstrou simpatia por ela. Foi então que finalmente caiu a ficha para Mishiro: ninguém tem senso de humanidade. Ela se perguntou se o que acabara de fazer não era a mesma coisa — fazer um problema desaparecer jogando a culpa em um bode expiatório conveniente. Mas desta vez parecia mais perverso do que o normal, já que podiam justificar o alvo com base na falta de contribuição da garota para a conclusão do jogo.

“Por quê?! Por que eu e não a Keito? O que aquela puxa-saco tem que eu não tenho? Mishiro, você não viu? Ela correu antes de mim! E ainda estava rindo! Estava aliviada por não ser atacada antes mesmo de pensar em demonstrar qualquer preocupação com você, sabia?! Você devia ter matado ela em vez de mim! Não é?!… Diz alguma coisa!! Só me restam cinco minutos!!”

Mishiro não disse nada. Ela fechou os olhos em silêncio.

“Vocês vão pagar por isso. Eu vou amaldiçoar vocês. Vou amaldiçoar vocês. Vou amaldiçoar vocês. Vou amaldiçoar vocês. Vou amaldiçoar vocês! Vou amaldiçoar vocês! Vou amaldiçoar vocês!! Vou amaldiçoar vocês!! Vou amaldiçoar vocês!! Vou amaldiçoar vocês!! Vou amaldiçoar vocês!! Vou amaldiçoar vocês!! Vou amaldiçoar vocês!! —…”

Chie bateu na porta, repetindo as mesmas palavras várias e várias vezes. O volume e o tom da voz permaneceram constantes, e as batidas continuaram sem cessar. Não havia qualquer sinal de que a porta fosse se abrir.

Não muito tempo depois, a voz cessou abruptamente, como um alto-falante desligado. Foi substituída por um choro fraco. Mas isso durou apenas um breve momento. Logo depois, a garota se calou, deixando Mishiro apenas com o som de um zumbido nos ouvidos.

O cronômetro digital na sala marcava 01:00:02.

(28/30)

A porta se abriu.

Yuki saiu da sala. Ela foi a primeira a sair. A Mishiro um pouco cambaleante apareceu logo depois, seguida por Keito. Ao lembrar que Kotoha não era capaz de deixar sua sala sozinha, Yuki foi buscá-la. Ela a colocou nas costas, exatamente como havia feito no terceiro e no segundo andares. Assim, ficaram em quatro.

Não havia uma quinta jogadora para se juntar a elas.

A porta da sala de Chie permaneceu trancada e não cedeu, mesmo quando tentaram empurrar ou puxar. Não havia frestas acima ou abaixo da porta, de modo que o grupo não conseguiu espiar para dentro. Ainda assim, o destino da ocupante era óbvio para todas que haviam ouvido seus gritos.

Entre as quatro jogadoras restantes, Mishiro foi a primeira a falar.

“Yuki”, disse ela. “Você conseguiu sobreviver… Que grande alívio.”

“Sim. Tudo graças a você.” Yuki tirou da mochila uma faca ensanguentada. Ela havia pertencido a Mishiro. “Acabei usando isso. O resto foi fácil.”

“…Minha faca… Você a recuperou?”

“Não queria deixar que fosse desperdiçada.”

Os olhos de Mishiro pousaram sobre o corpo de Yuki. Embora houvesse penugem branca saindo de seu estômago, ela não apresentava outros ferimentos. No fim das contas, a Besta de Gévaudan não havia conseguido acertá-la novamente. A situação fora diferente quando Yuki carregava Kotoha, então, sem nada para impedi-la, superar um obstáculo daquele nível fora brincadeira de criança.

Mishiro segurou o próprio ombro direito. Yuki não precisou perguntar para saber o que passava pela cabeça da garota.

“Ah…” A voz veio de trás de Yuki — era Kotoha. “Provavelmente não é certo perguntar isso… mas em quem vocês votaram?”

As jogadoras congelaram e trocaram olhares por alguns instantes.

“…Eu votei na Keito”, disse Kotoha, quebrando o silêncio. “Eu devia isso à Chie por ter me carregado até aqui…”

“…Meu voto foi para a Chie”, disse Mishiro em seguida. “Segui as instruções do explicador e a escolhi.”

“Eu também votei na Chie. Pelo mesmo motivo que a Mishiro”, disse Keito.

Ninguém mencionou o que Chie havia gritado em seus últimos momentos, como se todas tivessem concordado em silêncio em não tocar no assunto.

“E você, Yuki…?” perguntou Kotoha.

“Quem sabe?” respondeu ela. “Acho que deve ter sido a Chie. Ela provavelmente votou na Keito, então, caso contrário, as duas teriam ficado empatadas com dois votos cada.”

“Você ‘acha’? O que isso quer dizer?”

“Bom, sabe… tinha aquela regra de que só o primeiro voto conta quando alguém envia vários, né? Eu não me importava com quem votar, então escrevi o nome de todo mundo em cédulas diferentes e enfiei as quatro juntas na abertura. Por isso nem sei em quem meu voto acabou caindo.”

As outras jogadoras ficaram sem palavras.

“…Você tinha… quatro cédulas?” perguntou Keito, quebrando o silêncio pesado.

“Sim. A minha original, a da sexta jogadora, a da Kotoha e a da mesa. Quatro.”

“Isso quer dizer que você percebeu desde o começo que aquilo eram cédulas?” perguntou Mishiro.

“Mais ou menos. Vocês pareciam bem unidas, então imaginei que eu seria excluída no final. Foi por isso que fui salvar a Kotoha e a Mishiro. Para ganhar pontos.”

Ainda assim… “por esse motivo idiota”, hein? As palavras de Chie ecoaram na mente de Yuki. No fim, seu voto havia influenciado o resultado. Como não se importava com quem votar, ela achara mais justo decidir ao acaso, mas agora começava a se arrepender. Talvez tivesse sido irresponsável. Em situações semelhantes no futuro, seria melhor estabelecer outra regra para decidir quem deveria morrer.

Assim como as portas das salas individuais, a porta de saída se abriu sozinha. Yuki e as outras deixaram o prédio e encontraram vários carros estacionados do lado de fora. A agente de cada garota saiu para recebê-las.

Elas haviam completado o jogo. Mais uma vez, Yuki sobrevivera para ver outro dia.

“Yuki”, chamou Mishiro quando chegou a hora de se separarem.

“O quê?” respondeu Yuki.

“Antes… você disse que tinha se afeiçoado a mim.”

“Ah, sim. Acho que disse.”

“Foi apenas uma mentira para me convencer a não votar em você?”

“Hã? Não, eu não pensei tão longe. Ninguém nunca falou comigo daquele jeito, tão diretamente, então você despertou minha curiosidade. Só isso.”

Mishiro encarou Yuki intensamente, como se tentasse extrair seus verdadeiros pensamentos. Como Yuki não sentia culpa alguma, sustentou o olhar sem desviar.

Pouco depois, uma expressão azeda surgiu no rosto de Mishiro. Ela hesitou por um ou dois segundos, provavelmente reunindo coragem, antes de falar num tom contido.

“Yuki, peço desculpas sinceras por ter agido de forma tão arrogante.”

Yuki ficou surpresa.

A princesa continuou: “Você me deixou plenamente ciente de qual de nós é superior… Agora, se me dá licença.”

Enquanto Yuki permanecia ali, congelada, incapaz de reagir, Mishiro entrou em um carro.

“Ah… Yuki? Eu também quero entrar no meu carro, então agradeceria se você pudesse me colocar no chão…”

Quando Kotoha tocou em seu ombro, o transe se quebrou. Yuki ficou completamente desnorteada.

 

(29/30)

Jogadoras regulares como Mishiro tinham cada uma um agente exclusivo. Antes de receber alguém para gerenciá-las, novas jogadoras precisavam concluir seu primeiro jogo — algo que muitas não conseguiam — e depois completar um segundo, para provar que não eram participantes de uma única vez. Os agentes seguiam um molde específico — usavam óculos escuros, ternos pretos e dirigiam carros pretos, como um grupo que existia apenas em lendas urbanas. Ainda assim, os agentes individuais vinham em todos os tipos. Alguns faziam apenas o mínimo, despedindo-se e recebendo as jogadoras em silêncio, enquanto outros conversavam animadamente, se envolviam em suas vidas pessoais e ofereciam apoio extra para levá-las a patamares ainda maiores.

O agente de Mishiro pertencia a esse segundo grupo.

“Isso foi bem diferente de você, senhorita”, disse ele, girando o volante.

As palavras foram dirigidas ao banco de trás, onde a cabeça de Mishiro pendia, abatida.

“Será que foi o primeiro pedido de desculpas da sua vida? Que cena. Eu só queria ter gravado isso. Se eu—”

“Seria possível eu desabafar um pouco?” Mishiro interrompeu.

“…Aqui dentro? Sinceramente, eu preferiria que não…”

“Dar suporte ao bem-estar mental das jogadoras faz parte das atribuições de um agente.”

Depois dessa observação egoísta, Mishiro ergueu a perna direita e chutou o banco do agente com toda a força.

“Maldita seja ela!!” gritou. “Maldita!! Maldita!! Maldita!! Aquela desgraçada!! —****!!”

Ela continuou chutando com toda a força, gritando tudo o que lhe vinha à cabeça. O banco empurrava sua perna a cada golpe, fazendo os cortes em suas costas arderem de dor, mas ela não se importava. Sua prioridade era pôr para fora tudo o que pesava em seu coração.

Mishiro continuou até suas forças se esgotarem. Então se deitou atravessada no banco traseiro, ofegante.

“Ainda bem que eu não estava gravando isso, senhorita”, disse o agente, animado. “Sua reputação iria pelo ralo se alguém além de mim ouvisse essas palavras imundas.”

“Silêncio…” Mesmo exausta, Mishiro não suavizou o tom.

“Se você está tão frustrada assim, não teria sido melhor não se desculpar com ela?”

“Ofereci um pedido de desculpas porque considerei necessário. Se eu não reconhecer a realidade, não conseguirei enfrentá-la de frente. E assim, nunca poderei derrotá-la.”

“…Oh? Isso quer dizer que vai continuar como jogadora, senhorita?”

Mishiro olhou para o braço direito. Tudo além do cotovelo havia desaparecido, e ele mal suportaria o peso de algo mais pesado que um par de hashis. Em seu estado atual, ela não teria chance de sobreviver ao próximo jogo.

“Preciso recomeçar do zero”, disse Mishiro. “Quanto à sugestão que você me fez algum tempo atrás… vou aceitá-la.”

“Qual delas? Acoplar uma furadeira no seu braço direito?”

“Eu aceitaria a operação com prazer se pudesse participar assim, mas isso violaria as regras, não é?”

“Bem, não se pode levar armas para o jogo.”

“Então vou querer uma prótese comum.”

“Você diz ‘comum’, mas mesmo com toda a habilidade deles, será impossível restaurar seu braço perfeitamente. Não será exatamente começar do zero.”

“Terei de compensar evoluindo. De qualquer forma, com minhas habilidades atuais, mal tenho chances contra aquela desgraçada. Preciso de um aumento significativo de poder, algo que anule completamente as desvantagens de uma prótese.”

“Bem, parece que você precisa de uma mãozinha. Em dois sentidos.”

“…………”

“Entendeu? Uma mão física e uma ajuda…”

“Mantenha os olhos na estrada.”

“Como desejar.”














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