Volume 2
Capítulo 76: A última partilha
Alguns meses depois…
O ancoradouro de Jillar estava movimentado. Aeroplanos subiam e desciam entre as plataformas, e cada aterrissagem fazia os patamares tremerem um pouco. Trabalhadores passavam carregando caixas marcadas com runas, e dois grifos mecânicos puxavam um contêiner suspenso por correntes ruidosas. O vento quente trazia cheiro de óleo queimado e madeira polida, misturado ao aroma salgado das nuvens baixas que passavam sob as plataformas.
As cordas vibravam, e as velas rangiam nos mastros mágicos. Um aeroplano mais antigo soltou um jato de vapor que atravessou o corredor de embarque, obrigando alguns passageiros a se afastarem com pressa. A luz refletia na madeira dos cascos e criava manchas brancas que saltavam no chão.
— Atrasado, Kilian — disse Maya, impaciente, os braços cruzados.
— Desculpa, pessoal. Tentei fazer o Josh calçar os sapatos, mas ele não quis — falou Kilian, ainda ofegante.
Josh permanecia alheio à conversa. Ele passou atrás de dois carregadores que empurravam uma plataforma móvel e desviou sem pressa. Observava os aeroplanos enquanto torcia uma corda entre os dedos, atento ao movimento das máquinas. O reflexo lilás das velas encantadas piscava nos olhos dele cada vez que um aeroplano se inclinava para ajustar a altitude.
— Esse Josh nunca muda, não é? — disse Nariz de Batata, com uma risada. A urna de Cara de Prancha descansava na mão dele.
— É verdade — respondeu Garrik, sério. Ele ajeitou a capa e encarou Kilian. — E você? Como tem lidado com tudo o que aconteceu?
Kilian abaixou a cabeça e levou um pé atrás do outro.
— Ainda é estranho. O Caelinus voltou a falar comigo… mas não é como antes.
Garrik balançou a cabeça.
— Entendo. Sabe por que estamos aqui hoje, certo?
— Sei — disse Kilian, mexendo os dedos sem levantar o olhar.
— Garrik… você não quer reconsiderar? — Maya inclinou a cabeça. O cruzar dos braços apertou ainda mais contra o peito.
— Pois é, Garrik. Só faltou um pedaço — insistiu Kilian, tentando forçar alguma esperança na voz.
Garrik suspirou.
— Eu sei. Mas não será possível, mesmo assim.
Nariz de Batata deu uma risada curta e apontou para a urna.
— Se quiser reconsiderar, esse idiota aqui pode esperar mais um pouco.
— Não, Nariz de Batata. — Garrik ergueu a mão, firme. — Já estou longe de Trinn há muito tempo. Sou um lorde lá, tenho obrigações.
— E sua noiva? — perguntou Maya. — Ela não vai se decepcionar se você não voltar com a joia que prometeu trazer?
— Não se preocupe, Maya. Ela vai entender — disse Garrik, tranquilo. — Aliás, você daqui a pouco vai estar se casando também.
— Não fale besteiras! — O rosto dela ficou vermelho na hora, e as risadas dos outros estouraram ao redor.
Os aeroplanos continuavam a movimentação constante acima deles. O vento bateu forte e sacudiu as roupas de todos.
— Tem certeza que não quer ir? — Kilian insistiu. A voz saiu mais alta do que ele queria.
Garrik olhou para o horizonte, os olhos semicerrados, mas o corpo firme.
— Tenho. E mesmo que conseguíssemos o último pedaço, o desafio seria estabilizar tudo depois. Sem o Cara de Prancha, isso é perigoso demais.
Kilian fechou os punhos. A frustração vibrava no gesto.
— Mas… eu consigo estabilizar. Li todas as anotações dele. Temos as ferramentas. Lembra do Wyrm?
Maya deu um passo à frente e se colocou entre os dois, encarando Kilian de perto.
— Ei, você não ouviu? Ele já disse que não.
A voz cortou o ar.
Garrik levantou as mãos e pousou nos ombros dos dois.
— Calma, Maya. Eu entendo o Kilian. — Ele virou o rosto para o jovem. — Eu sei do seu potencial. É justamente por isso que não vou colocar essa pressão nos seus ombros. Fiquei por causa do acordo com os anões. Agora…
Kilian balançou a cabeça, como se buscasse outra rota.
— Mas… e todo o esforço que fizemos até aqui?
Garrik continuou imóvel. Nem o vento quente do ancoradouro conseguiu fazer o mago se mover.
— Eu sei. Mas é hora de seguir adiante. Tenho problemas demais em Trinn. E vocês… também precisam de novas experiências.
Kilian buscou algum sinal no rosto dele, mas nada mudou. O mago não cedeu um centímetro.
Garrik cruzou os braços. Olhou para o grupo reunido.
— Chegou a hora da partilha.
— Que partilha?
Josh, como sempre afastado alguns passos, chutava uma pedra com a ponta do pé. A cabeça inclinou levemente quando ouviu a pergunta, embora os olhos permanecessem no chão.
— As partes do Purgeno que conseguimos até agora — explicou Garrik, firme. Ele não desviou o olhar do grupo.
Maya cruzou os braços, o semblante duro.
— Tá brincando, né? Você pagou por tudo, Garrik. Não tem lógica dividir isso.
— Ela tem razão — disse Kilian, dando meio passo à frente. — Você financiou a operação toda. Isso não é justo.
Garrik ergueu a mão e silenciou os dois.
— Isso não tem a ver com dinheiro. O que conquistamos juntos vale mais. Se venderem essas partes, conseguem um bom dinheiro.
Josh mexia os dedos com movimentos curtos, quase invisíveis. O corpo oscilava de leve, como se cada palavra o atravessasse sem pressa.
Nariz de Batata resmungou e puxou o próprio bigode, incomodado.
— O homem tem um ponto. A gente suou pra conseguir essas pedras. Não seria certo deixar tudo esquecido.
— Exato — disse Garrik, assentindo.
Josh começou a caminhar em círculos curtos. Evitava olhar diretamente para alguém, mas não se afastava.
— Muito bem, aqui estão.
Garrik abriu a caixa de madeira escura. As pedras púrpuras brilharam à luz do sol, vivas como se respirassem. Josh fixou os olhos nelas, mas recuou meio passo, mantendo a distância.
— Duas para você, Nariz de Batata. Duas para Maya. Duas para Kilian…
— Pera aí. — Nariz de Batata ergueu o dedo, coçando o bigode com a outra mão. — São nove, certo? Justo é você ficar com três.
Josh parou por um momento. Os olhos seguiam cada movimento de Nariz de Batata, atentos às pedras sendo separadas e guardadas.
— Tudo bem — concordou Garrik, soltando um suspiro curto. — Três pra mim.
Eles guardaram suas partes em silêncio. As mãos se moveram devagar, como se o peso das pedras fosse maior do que pareciam.
Quando terminaram, Garrik fechou a caixa.
— Um aviso: Jillar está à beira de uma guerra. As coisas vão ficar perigosas daqui em diante.
Josh manteve-se à sombra de um aeroplano. A cabeça balançou de leve, quase imperceptível, enquanto o olhar se perdia no horizonte quente e tremulante.
— Kilian. Você esteve na superfície recentemente. Como estão as coisas?
Kilian desviou o olhar para o chão. O maxilar apertou.
— Terríveis. Os Berserkers surgem do nada. Matam, roubam… e desaparecem como fantasmas.
O vento quente passou entre eles. Trouxe o cheiro seco da areia do sul.
— Pois é — disse Garrik, guardando a caixa sob o braço. — Isso é só o começo.
— Chamada para os passageiros do voo para Trinn! — ecoou a voz de um funcionário, enquanto a rampa de um aeroplano descia.
O grupo avançou entre o vento e o ruído das velas. Dois aeroplanos passaram ao alto como aves imensas de madeira e metal, projetando sombras oscilantes pelo chão. Um deles inclinou as asas, fazendo as cordas internas tocar umas nas outras com um tilintar seco. A plataforma vibrou sob os pés deles quando um guindaste mágico desceu uma caixa cheia de cristais.
Garrik parou de repente e pousou uma mão firme no ombro de Kilian. O gesto fez o manto dele se abrir por completo, batendo no vento como uma bandeira pesada.
— Siga em frente, garoto. Já te ensinei tudo que podia. O resto… — O sorriso surgiu cansado, mas confiante. — Está nas suas mãos.
Kilian respirou fundo e assentiu. Uma fileira de trabalhadores passou atrás deles carregando um cilindro de metal; o chão ecoou o movimento como se fosse um tambor oco.
— Cuide-se. Espero te ver de novo.
— Ah, não se preocupe.
Garrik virou-se para Maya. A plataforma onde eles estavam inclinou levemente quando outro aeroplano atracou ao lado, fazendo a grade de proteção vibrar.
— Maya, vem cá. Cuidado com os Berserkers… e com esses Bardos também. Estão espalhando histórias horríveis sobre grávidas explosivas. Ouvi dizer que alguns andam colocando sementes em garotas sozinhas por aí. Melhor você se cuidar.
Kilian travou a respiração por um instante. O corpo ficou rígido, sem que ele percebesse. Maya franziu a testa e apertou os braços cruzados.
— Como se eu fosse idiota o bastante pra cair numa dessas — disse ela, sem perder o tom provocativo, apesar do olhar sério.
— Mesmo assim, o aviso fica — respondeu Garrik. Ele lançou um olhar rápido para Kilian antes de voltar os olhos para Josh. — Quanto a você, Kilian… não me preocupo. Está na companhia mais segura de Jillar.
Kilian não respondeu. A garganta subiu e desceu num movimento preso.
Garrik subiu a rampa do aeroplano. O vento puxou seu manto para trás enquanto ele acenava uma última vez. As velas inflaram com força, e o som grave do fole mágico encheu o ar. Um grupo de pilotos passou correndo abaixo, gritando ordens para ajustar a pressão das turbinas. Devagar, o aeroplano começou a subir, empurrando uma onda de vento quente que ondulou as roupas de todos.
***
— Está agitado hoje. — A voz cortou o som das armaduras e dos passos apressados que atravessavam o pátio da Ordem.
O paladino de cabelos vermelhos metálicos manteve o olhar à frente. O vento seco fazia os fios se moverem como lâminas finas.
— Você não soube das últimas notícias?
— Soube, mas mesmo assim? — respondeu o outro, com um sarcasmo leve na voz.
— Eles estão assustados. — O tom dele permaneceu neutro. — Estão enfrentando um inimigo que ceifou o maior baluarte deles.
O companheiro sorriu de leve. A luz atravessou o pátio e tocou seus cabelos prateados com pontas esverdeadas, realçando o gesto sutil.
— E o novo mestre? Já falou com ele?
O paladino caminhou sem alterar o ritmo. Os olhos não deixaram o castelo à frente. Outros paladinos acenavam ao passar, mas ele não reagia além de um movimento de cabeça quase automático.
— Em parte, sim. Mas não acredito que ele tenha levado a sério. Vamos ter que provar nosso ponto antes que perceba sozinho.
Um paladino apressado passou ao lado deles.
— Bom dia, Phong.
Phong levantou a mão num aceno curto.
— Bom dia.
O companheiro observou a breve interação. Os olhos negros brilhavam com uma curiosidade contida.
— Parece que todos aqui conhecem você. E, mesmo assim, ninguém sabe quem você é de verdade.
— É assim que prefiro.
— Um dos heróis mais poderosos do mundo escondido entre aqueles que o subestimam. Que ironia. — Ele observou o pátio caótico por alguns segundos. — Imagino quantas vezes evitou a tragédia sem que percebessem.
Phong manteve o passo firme.
— Bobagem. Quanto menos souberem, mais seguros estarão.
O outro sorriu de maneira discreta, como quem reconhece algo que não pretende questionar.
— Tem razão. — Ele olhou para o distrito evacuado ao longe, onde a vegetação retorcida ainda dominava o terreno. — Shaykor, certo?
Phong apenas assentiu enquanto se curvava brevemente para um superior que passava.
— Só quero que as pessoas de quem gosto estejam bem no fim do dia — disse ele, num tom calmo, já aproximando-se do portão.
As grandes portas do castelo se abriram sem palavra alguma do guarda. Os dois atravessaram a entrada, sumindo na escuridão do interior. O frenesi no pátio continuou inabalável, como se suas vozes tivessem se perdido no barulho constante da Ordem.
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