Volume 2
Capítulo 75: Quando os pilares cedem
Kilian corria ao lado dos dois paladinos. As sombras se moviam entre os prédios destruídos, no encalço deles. Uma respiração pesada e gutural se aproximava.
— Estão chegando! — gritou Kilian, virando-se por cima do ombro.
Uma figura gigantesca rompeu a parede de uma casa e saltou pelo beco. O rugido ecoou. O braço direito do berserker terminava numa lâmina óssea.
Caelinus largou Jessiah. Sacou a espada. O paladino tombou no chão, exausto.
Kilian ergueu as mãos. Começou um encantamento.
As lâminas se chocaram. O impacto fez Caelinus recuar. A lâmina de osso quase rasgou seu ombro — mas desacelerou no ar.
Uma mão etérea surgiu. Transparente, com dedos disformes. O soco mágico acertou o peito do berserker e o arremessou para dentro da casa. A porta explodiu com o impacto.
— Eles não vão parar... — arfou Caelinus, enquanto ajudava Jessiah a levantar. — Precisamos sair logo!
— Vamos por aqui! — disse Kilian, guiando os dois por entre os becos de Quangras.
O silêncio se fechou em volta deles. Só os passos rápidos e o som irregular da respiração preenchiam as vielas.
— Kilian — disse Caelinus, sem parar. — Você nunca veio aqui antes. Como conhece esses lugares?
— Nunca vim? Quem te disse isso?
— É Caelinus... — murmurou Jessiah, entre tosses. — Ele te pegou nessa. Ficasse tempo demais fora da vida do garoto...
O chão estremeceu. Outro berserker caiu à frente deles. Maior. Mais ágil. Atacou sem hesitação.
Kilian rolou para o lado. A lâmina passou onde seu pescoço estivera um segundo antes.
O monstro investiu contra Caelinus. Empurrou o paladino contra a parede. A força esmagava sua armadura.
— Droga! — gritou Caelinus, lutando contra o aperto. — Não vou...
O sangue jorrou.
Jessiah, ainda sentado, atravessou a perna do monstro com sua espada. A lâmina entrou e saiu do outro lado.
O berserker rosnou. Continuou a apertar Caelinus.
— Não, Kilian! Deixa comigo! — gritou Jessiah, vendo o garoto conjurar de novo.
Ele se levantou com esforço. O corte arrancou a perna do berserker.
O monstro tombou. O aperto afrouxou. Caelinus se soltou, arfando.
— Kilian — disse Jessiah. — Guarde sua força pra uma emergência.
— Mas eu...
— Somos paladinos. Não se esqueça disso. Não há espaço pra recuar. Desistir é inviável.
— Tudo bem...
— Essa foi por pouco — resmungou Caelinus. A mão tremia no cabo da espada.
Um som grave ressoou. Os passos voltavam.
— Eles não vão parar — disse Kilian. — Eu fico. Atraso eles. Vocês encontram um lugar seguro.
Caelinus se virou com o cenho fechado.
— O quê? Até parece que dois paladinos vão fugir enquanto um garoto cobre a retaguarda.
Jessiah ajeitou o corpo contra a parede.
— Ele já não é mais um garoto. Sozinho, talvez tenha mais chance. Nesse estado, somos peso morto.
— Eles vão nos alcançar de qualquer jeito — disse Kilian. — Se eu ficar, vocês têm mais chance de sobreviver.
— Chega dessa besteira — cortou Caelinus. — Levanta, Jessiah. Vem, Kilian. Se sabe o caminho, mostra de uma vez.
Kilian parou por um instante, o pé suspenso. Depois assentiu.
— Tá bom então... Por aqui. Tem uma praça adiante.
Seguiram pelas vielas. Cortiços e muros escuros passavam em silêncio.
Encontraram uma escadaria. No fim, a feira noturna.
As luzes ainda ardiam em alguns toldos distantes.
Mas o cheiro de queimado chegou primeiro.
— Isso é loucura... — murmurou Caelinus.
As barracas estavam destruídas. Nada se mexia.
Os passos pesados voltaram. O chão tremeu sob os pés.
— Então é isso... — Jessiah se desvencilhou de Caelinus. Apoiou um joelho no chão, espada em mãos. — Se é para morrer, que seja junto.
O canto da boca de Kilian tremia. O sorriso saiu curto, preso.
Os berserkers surgiram da escuridão. Rugiam como bestas famintas e avançaram. Os três se prepararam, armas em punho. As mãos tremiam de exaustão.
— Mas por que, pelos demônios, vocês ainda estão aqui? — gritou uma voz atrás da fumaça.
O primeiro berserker ergueu a lâmina. Um som seco ecoou. O golpe o derrubou com um estrondo.
Jessiah puxou Caelinus com ele. Recuaram um passo. Kilian permaneceu parado.
— E esse aí? Quem é? — perguntou Jessiah.
Cara de Prancha estava ali. De pé entre os corpos, descalço, vestindo calças e camisa de dormir. O martelo de batalha descansava na mão, firme como um membro natural.
— Acham mesmo que podem sair por aí assustando os outros com essas caraças feias? — berrou o anão, já esmagando os últimos.
— É um dos seus amigos, Kilian? — perguntou Caelinus, observando o anão esmagar os monstros como se fossem bonecos de barro.
— É sim. — Kilian sorriu. — Tô te devendo essa!
— Não, garoto. Depois daquela do wyrm, quem ainda te deve é este velho anão — rosnou Cara de Prancha, com a voz mais baixa que o normal.
Kilian se aproximou ofegante. Apertou a mão do anão. Depois o puxou num abraço curto e urgente.
— Precisamos tomar cuidado. Esses monstros estão por toda parte. Não dá pra saber o que é seguro. — Kilian lançou um olhar rápido para Caelinus e Jessiah, encostados numa parede, exaustos.
— Berserkers, é? — Cara de Prancha ergueu uma sobrancelha. — É assim que chamam essas coisas? Matei alguns a caminho. Espero que Maya e os outros estejam bem.
— A Maya veio atrás de mim também? — Kilian desviou o rosto, calado.
— Calma, garoto. Eu só vi Josh te seguindo. Os outros, se vieram, não sei. Eu saí antes deles.
— E então, Kilian? — Caelinus tossiu, ainda apoiado em Jessiah. — Seu amigo novo vai nos ajudar a chegar ao aeroplano?
— Ah, o aeroplano! — Kilian arregalou os olhos. — Quem está lá?
— Mestre Gorbolg — respondeu Jessiah, com a voz pesada e a mão no peito. — Precisamos voltar. Os paladinos podem nos curar.
Cara de Prancha bufou. Depois lançou um olhar aos dois.
— Pois é, garoto. Estive no aeroplano. Lá também tá feio. Achei que você tivesse ido para lá.
— Eu fui, mas vi Caelinus indo noutra direção e o segui. Cheguei tarde demais.
— Tarde? — Jessiah interrompeu. — Chegou na hora certa.
Cara de Prancha soltou uma risada curta.
— Vocês parecem mais mortos do que vivos. E olha que sou bom em julgar esse tipo de coisa. — Ele se aproximou e examinou os ferimentos dos dois. — Vai precisar de um par extra de pernas, ou consegue andar, paladino?
— Só precisamos chegar ao aeroplano... — Jessiah arfou. — Gorbolg... eles podem nos ajudar.
Kilian assentiu. Os dedos tamborilavam no ombro. — Melhor irmos. Essas criaturas são perigosas.
— Certo. — Cara de Prancha deu um passo à frente e fez sinal para que o seguissem. — Eu cuido do caminho. Vocês só precisam se concentrar em não cair mortos.
Os três seguiram, com o anão à frente, martelo em punho, atento ao entorno. Kilian andava em silêncio. Olhava para o chão.
— Ele veio me ajudar... Josh...
— Esse Josh foi o cara que te ensinou essa magia que você anda usando por aí? — perguntou Caelinus, enquanto Jessiah se apoiava mais firmemente nele.
O anão soltou uma gargalhada.
— Qual é a graça? — perguntou Caelinus, irritado.
— Kilian aprendendo magia com Josh... — o anão respondeu, entre risos, enquanto eles dobraram uma esquina cheia de destroços.
— E o que tem isso? — Jessiah perguntou, com esforço para continuar andando.
— Kilian aprendeu com Garrik Valendria. Um dos lordes da Coalizão de Trinn.
— Trinn, é? Caramba, Caelinus, parece que o garoto andou fazendo bons contatos — disse Jessiah, com um sorriso débil.
Caelinus olhou Kilian, calado.
Um ruído seco escapou de sua garganta, meio entre riso e um engasgo curto.
— Esse Josh já deve ter escapado de coisa pior. Se for ele que cair, estamos todos ferrados.
— Verdade... ou tomara que seja — disse ele, sem firmeza no tom.
Os passos dos paladinos ressoavam no chão. Nenhuma fala por um tempo.
— E essas criaturas? — disse Cara de Prancha, sem parar de andar. — Já sabem qual é a origem deles?
— Não sei... mas não é a primeira vez que vejo um deles—
— Druidas — cortou Caelinus. — Berserkers de Doo, pra ser exato.
— Doo, é? — Cara de Prancha caminhava ao lado deles. — E quem é esse?
— Eu! — uma voz respondeu de cima de uma carruagem capotada.
Doo sangrava, ao mesmo tempo que segurava um pau de fogo primo — um tubo de madeira negra com runas queimadas no cabo.
— Achou que seria fácil me derrubar? — A voz de Doo vibrou. — Essa é pelo Vale, Caelinus.
Doo disparou. Uma rajada de essência mágica direto no peito do paladino.
— Não! — gritou Jessiah, quando Cara de Prancha empurrava Caelinus para o lado, salvando-o por um triz.
O disparo atingiu o anão em cheio. Sangue manchou a camisa fina. O corpo caiu com o som surdo de carne contra pedra. Doo, com um sorriso cínico, desapareceu nas sombras das ruínas.
— Não... — Kilian correu até o anão. Os joelhos bateram contra o chão. As mãos agarraram o peito do amigo.
Cara de Prancha abriu um sorriso fraco, A voz do anão saiu arranhada, quase sem ar.
— Respire… por mim, garoto... — Ele tentou dizer mais alguma coisa, mas a dor o silenciou.
— Não! Não morre! — Kilian repetia, os braços trêmulos. — Eles podem te curar... Jessiah! Caelinus! Façam alguma coisa!
Os paladinos se aproximaram, mas a verdade já estava nos olhos deles. Jessiah ajoelhou ao lado. A voz saiu mais fraca que antes.
— Kilian... nós não podemos... — murmurou Jessiah. — Estamos sem poderes. Você sabe.
— Não! Vocês são paladinos! Vocês têm que fazer algo!
Caelinus pousou a mão no ombro dele. Os olhos estavam baixos. A boca firme.
— Sabe que não podemos mentir. Ele está além do nosso poder agora.
***
Garrik pairava no ar, sustentado por um círculo mágico que girava sob seus pés; o sangue escorria do braço, manchando a manga até o punho.
Maya mantinha as mãos erguidas. A luz mágica selava o corte com calor visível, puxando a carne de volta como se costurada por dentro.
— Aguenta firme! — disse ela, sem desviar os olhos de Garrik.
O chão tremia com os impactos. Calçamento revirado, sangue nas pedras, vários focos de incêndio no horizonte.
Nariz de Batata rangeu os dentes e correu com o machado erguido. Nenhum outro combatente estava de pé. Os golpes eram poderosos, mas o orc não recuava.
Com um único movimento, o orc derrubou o anão.
O pé do orc repousou sobre o peito do anão com um estalo surdo, pressionando-o contra as pedras rachadas.
— Isso é tudo o que tem, anão? — Jorno rosnou, enquanto seus olhos brilhavam de malícia.
Ele então se virou para Maya e viu a garota curar Garrik. O olhar de Jorno parou nela. O sorriso torto apareceu, lento.
— É essa garota que mantém esse mago chato respirando — murmurou Jorno, antes de erguer a mão direita. Vinhas espinhosas brotaram de seus dedos, prontas para atacar.
Maya não se moveu. As mãos ainda abertas, os olhos presos na ameaça.
Porém, antes que as vinhas a tocassem, o braço de Jorno foi cortado por um borrão de movimento.
O orc gritou. Os olhos se arregalaram. O braço no chão ainda se mexia.
— Quem...?! — rosnou Jorno, antes de se virar.
Josh surgiu como um borrão. As adagas cortavam o ar enquanto girava sobre o próprio eixo, até ficar de cabeça para baixo, quase encostando o rosto no do orc.
— Você! — rugiu Jorno, seus passos vacilantes.
Josh não piscou. Ainda no meio da pirueta, desferiu um golpe em arco, mirou o pescoço do orc.
Por um instante, antes da lâmina atingi-lo, Jorno colocou a mão na frente. Seu pescoço foi poupado, mas a mão esquerda também caiu, pesada e inerte no chão.
— Cabelos de Oliva... o descendente dos féericos que vaga nas terras ancestrais. O que faz aqui?
Josh não respondeu.
Quando ele pousou diante do orc mutilado, o peito de Jorno subia e descia com esforço. O sangue caía dos tocos como cordas vermelhas.
— Agora sim... tudo mudou — murmurou o orc, com os olhos varrendo o campo. — Não consigo mais prever o desfecho dessa luta.
Antes que dissesse mais, uma voz ecoou das sombras.
— Já fizemos o suficiente por hoje — disse Doo, antes de surgir ao lado de Jorno.
Jorno soltou um rugido rouco. As pernas encolheram. As asas brotaram. Quando a pele de couro cobriu sua espinha, ele já era um morcego do tamanho de um touro.
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