Volume 2
Capítulo 74: Por causa de um garoto
Os paladinos avançaram. Escudos erguidos. Espadas e lanças voltadas para frente. O som das grevas abafava o restante — como se o chão marchasse sozinho.
— Precisamos decidir isso! — gritou o humano à frente, a voz fundida ao metal das armaduras.
— Se ele passar por nós, quem poderá detê-lo? Por Jillar! Por Gorbolg!
— Por Jillar! Por Gorbolg!
Os outros seguiram em formação.
Jorno sorriu de canto. Não tinha pressa.
Num estalo, disparou.
As garras cravaram no peito do primeiro paladino. O metal sagrado se partiu com o impacto. A lâmina atravessou o corpo inteiro, abrindo um rombo onde antes havia armadura.
O sangue jorrou em espiral.
Jorno ergueu o homem ainda preso às garras. Depois o arremessou no chão.
O corpo quicou nas pedras. Os membros bateram tortos. O capacete se soltou com o impacto.
Jorno pisou no peito aberto. As placas do pavimento afundaram sob o peso.
— Maldito!
O segundo veio num salto, espada erguida. Jorno agarrou o pescoço com a mão livre. Apertou até o som de cartilagem partir o silêncio.
Com a outra garra, arrancou o braço do guerreiro — a espada ainda presa à mão.
Jogou o corpo no chão como se fosse lenha.
Os outros paladinos recuaram um passo. Nenhum falou.
— Formação! Não se dispersem! — disse o anão, o escudo vibrando nas mãos calejadas.
O orc tocou no chão. Vinhas negras romperam o solo. Serpentearam direto para um paladino próximo.
Um estalo.
As pernas quebraram. O grito não terminou — a cabeça já tinha sido esmagada no chão.
— Em forma, homens! Em forma! — gritou outro, a mão erguida.
Uma aura se formou em torno do grupo. A luz empurrou as vinhas.
Por alguns instantes, o espaço ficou limpo.
Jorno parou.
Olhou a barreira com o canto da boca puxado.
— Luzes... sempre tão frágeis...
Os braços dele se deformaram. As garras cresceram. Viraram lâminas.
Avançou.
A barreira quebrou. Como vidro.
As espadas dos paladinos cortavam o ar. Nenhuma encostava.
Jorno se movia como sombra.
Grande demais pra ser rápido. Mas era.
A pele verde-lustrosa esticava sobre os músculos. O peso das passadas rachava o solo.
Um deles gritou, levantando a maça de guerra.
Jorno pegou a arma num giro, arrancou da mão do homem.
O paladino voou pelos ares. Bateu nos destroços do aeroplano.
A madeira quebrou. O corpo tombou mole.
Sangue escorreu pela boca, tingindo a barba.
As vinhas continuavam a enlaçar os que restavam, arrastando-os ao chão. As armaduras chiavam sob a pressão. Gritos de agonia cortavam as ruas. A cada segundo, mais corpos e destroços se espalhavam pelo pavimento.
Apenas três paladinos ainda estavam de pé. Suas armaduras estavam sujas, e as espadas mal se mantinham firmes em mãos trêmulas.
— Ele... não pode sair daqui... — murmurou um deles, fitando a monstruosidade à sua frente. Os dedos apertaram o cabo da espada como se ela pudesse escapar. — Temos que... segurar…
Jorno deu um passo à frente. Inclinou levemente a cabeça. Observava os três com o mesmo interesse que se dá a um animal encurralado.
— Vocês acham que podem me deter? — disse ele, com uma risada baixa, anasalada. — Vou rasgar suas almas como fiz com os corpos dos seus irmãos.
Antes que os paladinos reagissem, um brilho cortou o ar.
Uma bola de fogo explodiu contra o peito de Jorno, arremessando-o ao chão. Depois, outra. E mais duas, cercando o orc em fumaça e chamas.
Garrik surgiu no meio da névoa, seguido de perto por Maya e Nariz de Batata. Avançavam com passos firmes.
O mago mantinha a postura rígida. Olhos afiados, cada gesto já ensaiado para o próximo.
Maya, logo atrás, com as mãos envoltas num brilho suave.
Nariz de Batata vinha à frente. Machado erguido. A armadura refletia as chamas oscilantes.
Os paladinos suspiraram juntos. Trocaram olhares rápidos.
— Quem são esses aí? — perguntou um deles, com a voz entrecortada.
— Deve ser mais reforço dos Quangras — arriscou o outro, sem desviar o olhar de Jorno. A testa se franzia. A respiração curta denunciava o nervosismo.
— Claro que não! — retrucou o primeiro. — Devem ser aventureiros que viram o sinal.
Nariz de Batata avançou alguns passos, ajustando o machado com firmeza.
— Vocês conhecem Caelinus? — A voz soou grave. — Paladino. Como vocês.
Um dos homens assentiu. Limpou o sangue da testa com as costas da mão.
— Conhecemos. Mas ele está... — Hesitou. O olhar perdido por um instante. — Desaparecido. Vocês sabem onde ele está?
Garrik inclinou levemente a cabeça.
— Não sabemos. E Kilian? — perguntou. — Eu vi vocês no funeral com ele. Conhecem?
O segundo paladino franziu a testa. As sobrancelhas se uniram num vinco.
— O garoto? Ele está por aqui? Isso é perigoso demais pra ele! Tomara que tenha se escondido... Se ainda estiver vivo.
O silêncio se adensou.
Jorno sacudiu a fumaça com um gesto lento.
— Mais três pra eu matar.
A fala grave do orc cortou o ar: despreocupada, ameaçadora.
Nariz de Batata estreitou os olhos. O aperto no machado se intensificou.
— Acho que não deu certo, Garrik.
— Precisamos ganhar tempo — murmurou Garrik entre os dentes. — Mantê-lo ocupado até que se canse. Ou até reforços de verdade chegarem.
Maya ergueu as mãos. Uma barreira translúcida começou a se formar ao redor deles. Seus olhos varriam o campo. Os pés inquietos. Os dedos tamborilando leve enquanto a magia se firmava.
— Se nem os paladinos sabem... onde está aquele idiota? — disse ela em meio a um suspiro profundo.
Os lábios se comprimiram logo em seguida.
— Devem ter ido atrás de Caelinus — respondeu Garrik, sem parar de conjurar.
Nariz de Batata soltou um grunhido. Os olhos fixos no orc druida, agora de pé. A sombra do corpo se estendia sobre os paladinos caídos.
— Não temos tempo pra pensar nisso agora. Ou seguramos esse desgraçado... ou ninguém sai vivo.
Jorno avançou alguns passos. Sem pressa.
Os paladinos, cambaleantes, se alinharam. Dois à frente, espadas erguidas. Um conjurador atrás.
— Muito bem. Quem quer morrer primeiro? — O sorriso torcido de Jorno se alargou. Os olhos fixos no grupo.
Garrik ergueu a mão. Os dedos cintilavam. Num gesto preciso, uma rajada de gelo partiu.
O ar ao redor se adensou. Um véu frio e denso. Flocos rodopiavam pelo campo.
O chão estalou sob os pés de Jorno. Gelo fino se espalhou entre pedras, destroços e corpos. Pequenas fendas surgiram na pele espessa do druida. Como se o inverno tivesse entrado à força no campo.
Maya, atrás, fortaleceu a barreira. As mãos desenhavam arcos precisos.
O escudo mágico brilhou em verde, absorvendo os estilhaços que ricocheteavam no campo.
Os paladinos recuaram, respirando com esforço. Aproveitavam a proteção enquanto se reagrupavam diante dos conjuradores.
O suor escorria. Mesmo com o frio.
Jorno, ainda coberto de gelo, se moveu de novo. Antes que a crosta se desfizesse por completo, Garrik lançou outra bola de fogo.
As chamas rugiram. O impacto colidiu contra o corpo do orc. Um vapor espesso subiu, escondendo sua silhueta.
Água e calor se misturaram. A pele, agora queimada, trazia fissuras abertas no braço e pescoço. Partes do músculo se revelavam: tensionadas, vivas.
Antes que a fumaça se dispersasse, um relâmpago desceu.
O céu se rasgou em branco. O trovão veio logo atrás.
O raio atingiu Jorno com força. O corpo se contorceu. As queimaduras se fundiram em fendas. O sangue escorria grosso, em veios escuros.
Jorno deu um passo para trás. A pele rasgada. Músculos expostos.
Mas os olhos, fixos. Sem dor.
Respirou fundo.
— Só isso? — Ergueu uma das mãos.
Com um gesto lento, os ferimentos começaram a se fechar. Músculos se recompunham sob a pele. Como se o tempo voltasse atrás.
Ele sorriu. Um sorriso largo. As cicatrizes sumiam.
— Vamos começar, então. — A risada baixa reverberou pelo campo.
***
O som das passadas pesadas ecoava pelo beco. Caelinus e Kilian à frente. Jessiah arrastava os pés atrás.
O paladino cambaleava. O rosto coberto de suor e sangue seco. Pálido. Próximo do limite.
— Não dá mais... — ofegou Jessiah. A voz falhou. Os passos vacilaram. Ele tropeçou. — Preciso parar... só por um momento.
Caelinus o segurou antes da queda. Olhou ao redor, rápido.
Um banco solitário. Praça deserta. Árvores secas. Ruas escuras.
— Ali serve.
Conduziu o amigo até o banco. Ajudou-o a sentar com esforço.
Kilian permaneceu alguns passos atrás. Silencioso. Os olhos varriam o entorno, atentos.
As mãos tremiam.
Caelinus sentou ao lado de Jessiah. Murmurou a magia. A luz azul envolveu o corpo ferido.
Seu semblante permaneceu carregado.
Ele ergueu os olhos. Observou Kilian por um instante. Respirou fundo.
— Kilian... como você conseguiu nos encontrar?
O garoto mantinha o olhar no horizonte. Maxilar travado.
Deu de ombros.
— Eu tava numa taverna, aqui perto... aí vi o sinal. Achei que podia ser vocês. Vim correndo.
Caelinus franziu o cenho. Dividia o olhar entre Kilian e o companheiro.
— Sei que não é hora pra isso. E não quero parecer ingrato. Você salvou nossas vidas. Mas...
Ele parou.
— Você não devia ter seguido por esse caminho.
Kilian ergueu os olhos. Riu. Só com a voz.
— E quem salvaria vocês agora, se eu tivesse escolhido outro?
Caelinus apertou os punhos.
— E tem mais: com a morte da Melangie, o que seria de mim se eu não tivesse seguido esse caminho?
Caelinus engoliu em seco, antes de falar.
— Se tivesse me escutado, nada disso estaria acontecendo. Mandei você ficar longe do Vale do Suplício! Mas não. Foi até lá. Avisou o paladino Quangra sobre Doo. E agora Jillar pode estar à beira de uma guerra.
Kilian arqueou a sobrancelha.
— É mesmo? Então você quer dizer que eu, um garoto de quatorze anos causou toda a guerra entre os druidas e Jillar?
Caelinus soltou o ar com força.
— Deixa pra lá. — Ele se voltou para Jessiah. — É melhor você voltar pra taverna.
— Tudo bem então. Você sempre foge mesmo.
Kilian se afastou, sem pressa. Lançou um olhar de canto para os dois.
— Só não esquece que foi por causa de um garoto que vocês ainda estão vivos.
Jessiah, ainda debilitado, abriu os olhos. Virou a cabeça.
— Você... matou o Doo.
A voz saiu fraca.
— Aquele desgraçado escorregadio... foi você quem deu o golpe final. Como conseguiu?
Kilian deu de ombros, indiferente.
— Eu? Foi só sorte. Ele tava distraído. Nada demais.
Jessiah balançou a cabeça, devagar. Processava.
Antes que dissesse mais alguma coisa, o som de passos ecoou pela praça.
Os três se viraram na mesma hora.
Silêncio.
Olhares atentos, corpos tensos.
— O que foi isso? — perguntou Caelinus, enquanto se movimentava com esforço.
— Precisamos sair daqui — murmurou Jessiah. Se forçou a levantar. O corpo cedeu, mas ele se firmou. — Não podemos ficar expostos por muito tempo.
Caelinus ainda encarava o vazio. Os olhos presos em Kilian.
Assentiu.
— Certo. Precisamos achar um lugar seguro.
Suspirou. Lançou um olhar mais demorado ao garoto.
— Minha magia acabou. E pelo jeito...
Os olhos se fixaram nos de Kilian.
As sombras cresciam devagar nas paredes ao redor.
— Fiquem tranquilos. Eu protejo vocês até chegarmos a um ponto seguro.
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