Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 74: Por causa de um garoto

Os paladinos avançaram. Escudos erguidos. Espadas e lanças voltadas para frente. O som das grevas abafava o restante — como se o chão marchasse sozinho.

— Precisamos decidir isso! — gritou o humano à frente, a voz fundida ao metal das armaduras.

— Se ele passar por nós, quem poderá detê-lo? Por Jillar! Por Gorbolg!

— Por Jillar! Por Gorbolg!

Os outros seguiram em formação.

Jorno sorriu de canto. Não tinha pressa.

Num estalo, disparou.

As garras cravaram no peito do primeiro paladino. O metal sagrado se partiu com o impacto. A lâmina atravessou o corpo inteiro, abrindo um rombo onde antes havia armadura.

O sangue jorrou em espiral.

Jorno ergueu o homem ainda preso às garras. Depois o arremessou no chão.

O corpo quicou nas pedras. Os membros bateram tortos. O capacete se soltou com o impacto.

Jorno pisou no peito aberto. As placas do pavimento afundaram sob o peso.

— Maldito!

O segundo veio num salto, espada erguida. Jorno agarrou o pescoço com a mão livre. Apertou até o som de cartilagem partir o silêncio.

Com a outra garra, arrancou o braço do guerreiro — a espada ainda presa à mão.

Jogou o corpo no chão como se fosse lenha.

Os outros paladinos recuaram um passo. Nenhum falou.

— Formação! Não se dispersem! — disse o anão, o escudo vibrando nas mãos calejadas.

O orc tocou no chão. Vinhas negras romperam o solo. Serpentearam direto para um paladino próximo.

Um estalo.

As pernas quebraram. O grito não terminou — a cabeça já tinha sido esmagada no chão.

— Em forma, homens! Em forma! — gritou outro, a mão erguida.

Uma aura se formou em torno do grupo. A luz empurrou as vinhas.

Por alguns instantes, o espaço ficou limpo.

Jorno parou.

Olhou a barreira com o canto da boca puxado.

— Luzes... sempre tão frágeis...

Os braços dele se deformaram. As garras cresceram. Viraram lâminas.

Avançou.

A barreira quebrou. Como vidro.

As espadas dos paladinos cortavam o ar. Nenhuma encostava.

Jorno se movia como sombra.

Grande demais pra ser rápido. Mas era.

A pele verde-lustrosa esticava sobre os músculos. O peso das passadas rachava o solo.

Um deles gritou, levantando a maça de guerra.

Jorno pegou a arma num giro, arrancou da mão do homem.

O paladino voou pelos ares. Bateu nos destroços do aeroplano.

A madeira quebrou. O corpo tombou mole.

Sangue escorreu pela boca, tingindo a barba.

As vinhas continuavam a enlaçar os que restavam, arrastando-os ao chão. As armaduras chiavam sob a pressão. Gritos de agonia cortavam as ruas. A cada segundo, mais corpos e destroços se espalhavam pelo pavimento.

Apenas três paladinos ainda estavam de pé. Suas armaduras estavam sujas, e as espadas mal se mantinham firmes em mãos trêmulas.

— Ele... não pode sair daqui... — murmurou um deles, fitando a monstruosidade à sua frente. Os dedos apertaram o cabo da espada como se ela pudesse escapar. — Temos que... segurar…

Jorno deu um passo à frente. Inclinou levemente a cabeça. Observava os três com o mesmo interesse que se dá a um animal encurralado.

— Vocês acham que podem me deter? — disse ele, com uma risada baixa, anasalada. — Vou rasgar suas almas como fiz com os corpos dos seus irmãos.

Antes que os paladinos reagissem, um brilho cortou o ar.

Uma bola de fogo explodiu contra o peito de Jorno, arremessando-o ao chão. Depois, outra. E mais duas, cercando o orc em fumaça e chamas.

Garrik surgiu no meio da névoa, seguido de perto por Maya e Nariz de Batata. Avançavam com passos firmes.

O mago mantinha a postura rígida. Olhos afiados, cada gesto já ensaiado para o próximo.

Maya, logo atrás, com as mãos envoltas num brilho suave.

Nariz de Batata vinha à frente. Machado erguido. A armadura refletia as chamas oscilantes.

Os paladinos suspiraram juntos. Trocaram olhares rápidos.

— Quem são esses aí? — perguntou um deles, com a voz entrecortada.

— Deve ser mais reforço dos Quangras — arriscou o outro, sem desviar o olhar de Jorno. A testa se franzia. A respiração curta denunciava o nervosismo.

— Claro que não! — retrucou o primeiro. — Devem ser aventureiros que viram o sinal.

Nariz de Batata avançou alguns passos, ajustando o machado com firmeza.

— Vocês conhecem Caelinus? — A voz soou grave. — Paladino. Como vocês.

Um dos homens assentiu. Limpou o sangue da testa com as costas da mão.

— Conhecemos. Mas ele está... — Hesitou. O olhar perdido por um instante. — Desaparecido. Vocês sabem onde ele está?

Garrik inclinou levemente a cabeça.

— Não sabemos. E Kilian? — perguntou. — Eu vi vocês no funeral com ele. Conhecem?

O segundo paladino franziu a testa. As sobrancelhas se uniram num vinco.

— O garoto? Ele está por aqui? Isso é perigoso demais pra ele! Tomara que tenha se escondido... Se ainda estiver vivo.

O silêncio se adensou.

Jorno sacudiu a fumaça com um gesto lento.

— Mais três pra eu matar.

A fala grave do orc cortou o ar: despreocupada, ameaçadora.

Nariz de Batata estreitou os olhos. O aperto no machado se intensificou.

— Acho que não deu certo, Garrik.

— Precisamos ganhar tempo — murmurou Garrik entre os dentes. — Mantê-lo ocupado até que se canse. Ou até reforços de verdade chegarem.

Maya ergueu as mãos. Uma barreira translúcida começou a se formar ao redor deles. Seus olhos varriam o campo. Os pés inquietos. Os dedos tamborilando leve enquanto a magia se firmava.

— Se nem os paladinos sabem... onde está aquele idiota? — disse ela em meio a um suspiro profundo.

Os lábios se comprimiram logo em seguida.

— Devem ter ido atrás de Caelinus — respondeu Garrik, sem parar de conjurar.

Nariz de Batata soltou um grunhido. Os olhos fixos no orc druida, agora de pé. A sombra do corpo se estendia sobre os paladinos caídos.

— Não temos tempo pra pensar nisso agora. Ou seguramos esse desgraçado... ou ninguém sai vivo.

Jorno avançou alguns passos. Sem pressa.

Os paladinos, cambaleantes, se alinharam. Dois à frente, espadas erguidas. Um conjurador atrás.

— Muito bem. Quem quer morrer primeiro? — O sorriso torcido de Jorno se alargou. Os olhos fixos no grupo.

Garrik ergueu a mão. Os dedos cintilavam. Num gesto preciso, uma rajada de gelo partiu.

O ar ao redor se adensou. Um véu frio e denso. Flocos rodopiavam pelo campo.

O chão estalou sob os pés de Jorno. Gelo fino se espalhou entre pedras, destroços e corpos. Pequenas fendas surgiram na pele espessa do druida. Como se o inverno tivesse entrado à força no campo.

Maya, atrás, fortaleceu a barreira. As mãos desenhavam arcos precisos.

O escudo mágico brilhou em verde, absorvendo os estilhaços que ricocheteavam no campo.

Os paladinos recuaram, respirando com esforço. Aproveitavam a proteção enquanto se reagrupavam diante dos conjuradores.

O suor escorria. Mesmo com o frio.

Jorno, ainda coberto de gelo, se moveu de novo. Antes que a crosta se desfizesse por completo, Garrik lançou outra bola de fogo.

As chamas rugiram. O impacto colidiu contra o corpo do orc. Um vapor espesso subiu, escondendo sua silhueta.

Água e calor se misturaram. A pele, agora queimada, trazia fissuras abertas no braço e pescoço. Partes do músculo se revelavam: tensionadas, vivas.

Antes que a fumaça se dispersasse, um relâmpago desceu.

O céu se rasgou em branco. O trovão veio logo atrás.

O raio atingiu Jorno com força. O corpo se contorceu. As queimaduras se fundiram em fendas. O sangue escorria grosso, em veios escuros.

Jorno deu um passo para trás. A pele rasgada. Músculos expostos.

Mas os olhos, fixos. Sem dor.

Respirou fundo.

— Só isso? — Ergueu uma das mãos.

Com um gesto lento, os ferimentos começaram a se fechar. Músculos se recompunham sob a pele. Como se o tempo voltasse atrás.

Ele sorriu. Um sorriso largo. As cicatrizes sumiam.

— Vamos começar, então. — A risada baixa reverberou pelo campo.

***

O som das passadas pesadas ecoava pelo beco. Caelinus e Kilian à frente. Jessiah arrastava os pés atrás.

O paladino cambaleava. O rosto coberto de suor e sangue seco. Pálido. Próximo do limite.

— Não dá mais... — ofegou Jessiah. A voz falhou. Os passos vacilaram. Ele tropeçou. — Preciso parar... só por um momento.

Caelinus o segurou antes da queda. Olhou ao redor, rápido.

Um banco solitário. Praça deserta. Árvores secas. Ruas escuras.

— Ali serve.

Conduziu o amigo até o banco. Ajudou-o a sentar com esforço.

Kilian permaneceu alguns passos atrás. Silencioso. Os olhos varriam o entorno, atentos.

As mãos tremiam.

Caelinus sentou ao lado de Jessiah. Murmurou a magia. A luz azul envolveu o corpo ferido.

Seu semblante permaneceu carregado.

Ele ergueu os olhos. Observou Kilian por um instante. Respirou fundo.

— Kilian... como você conseguiu nos encontrar?

O garoto mantinha o olhar no horizonte. Maxilar travado.

Deu de ombros.

— Eu tava numa taverna, aqui perto... aí vi o sinal. Achei que podia ser vocês. Vim correndo.

Caelinus franziu o cenho. Dividia o olhar entre Kilian e o companheiro.

— Sei que não é hora pra isso. E não quero parecer ingrato. Você salvou nossas vidas. Mas...

Ele parou.

— Você não devia ter seguido por esse caminho.

Kilian ergueu os olhos. Riu. Só com a voz.

— E quem salvaria vocês agora, se eu tivesse escolhido outro?

Caelinus apertou os punhos.

— E tem mais: com a morte da Melangie, o que seria de mim se eu não tivesse seguido esse caminho?

Caelinus engoliu em seco, antes de falar.

— Se tivesse me escutado, nada disso estaria acontecendo. Mandei você ficar longe do Vale do Suplício! Mas não. Foi até lá. Avisou o paladino Quangra sobre Doo. E agora Jillar pode estar à beira de uma guerra.

Kilian arqueou a sobrancelha.

— É mesmo? Então você quer dizer que eu, um garoto de quatorze anos causou toda a guerra entre os druidas e Jillar?

Caelinus soltou o ar com força.

— Deixa pra lá. — Ele se voltou para Jessiah. — É melhor você voltar pra taverna.

— Tudo bem então. Você sempre foge mesmo.

Kilian se afastou, sem pressa. Lançou um olhar de canto para os dois.

— Só não esquece que foi por causa de um garoto que vocês ainda estão vivos.

Jessiah, ainda debilitado, abriu os olhos. Virou a cabeça.

— Você... matou o Doo.

A voz saiu fraca.

— Aquele desgraçado escorregadio... foi você quem deu o golpe final. Como conseguiu?

Kilian deu de ombros, indiferente.

— Eu? Foi só sorte. Ele tava distraído. Nada demais.

Jessiah balançou a cabeça, devagar. Processava.

Antes que dissesse mais alguma coisa, o som de passos ecoou pela praça.

Os três se viraram na mesma hora.

Silêncio.

Olhares atentos, corpos tensos.

— O que foi isso? — perguntou Caelinus, enquanto se movimentava com esforço.

— Precisamos sair daqui — murmurou Jessiah. Se forçou a levantar. O corpo cedeu, mas ele se firmou. — Não podemos ficar expostos por muito tempo.

Caelinus ainda encarava o vazio. Os olhos presos em Kilian.

Assentiu.

— Certo. Precisamos achar um lugar seguro.

Suspirou. Lançou um olhar mais demorado ao garoto.

— Minha magia acabou. E pelo jeito...

Os olhos se fixaram nos de Kilian.

As sombras cresciam devagar nas paredes ao redor.

— Fiquem tranquilos. Eu protejo vocês até chegarmos a um ponto seguro.

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