Volume 2
Capítulo 73: O peso de um legado
Caelinus girou sua espada longa em um arco e derrubou outro berserker que avançava com fúria cega.
Corpos destroçados cobriam o chão ao redor dos dois paladinos, formando uma pilha sangrenta de mais de uma dúzia de inimigos.
Jessiah cambaleou ao desferir um golpe com a espada de duas mãos; a lâmina partiu o crânio de um berserker.
O monstro caiu inerte aos seus pés, apenas para ser substituído por outro, que atacou com garras afiadas.
Mesmo sob pressão, Jessiah continuava a lutar, os braços já cansados e cobertos de cortes. Usou a espada como barreira e forçou a criatura a recuar; o esforço o derrubou de joelhos.
— Caelinus… — ofegou ele, o sangue escorrendo de um corte profundo na lateral do corpo. — Estamos acabados.
Caelinus recuou um passo. O escudo redondo de metal estava amassado; o peitoral de aço, coberto de arranhões e sangue seco.
Ofegava, os olhos varrendo o campo de batalha. A dor em cada músculo e a quantidade de criaturas restantes deixavam claro: aquilo não acabaria tão cedo.
— Aqui, Jessiah — disse ele, tocando o companheiro enquanto outro berserker avançava. Uma luz dourada brilhou na palma de Jessiah.
A técnica sagrada restaurou parte das forças de Caelinus. Ele se levantou e sentiu a carne fechar; o cansaço, porém, ainda o sufocava.
Repetiu o gesto no ombro ferido de Jessiah. A cura devolveu alguma mobilidade — o suficiente para erguer o escudo.
Mas os berserkers seguiam avançando, implacáveis: a cada um que caía, mais surgiam.
— Continuem lutando, seus cães! — a voz de Doo ecoou pelo pátio.
O bandido caminhava entre a carnificina, deslizando sobre os corpos com passos leves e desviando dos golpes como quem dança.
Tomou distância da horda, tirou um frasco do bolso, bebeu e saltou, alcançando o topo de um prédio.
Sua silhueta se recortou contra o céu estrelado, a varinha erguida como a batuta de um maestro.
— Isso! Lutem! Lutem por suas vidas miseráveis! — gritava ele. — Quanto mais vocês sangram, mais eu me divirto!
Caelinus avançou com fúria renovada e abateu dois berserkers em sequência.
Os corpos foram arremessados contra os montes de mortos; o sangue escorria de sua orelha, misturando-se aos cabelos soltos até os ombros e ao vermelho ressecado da armadura.
Seus golpes vinham mais fortes, mais desesperados.
Jessiah abriu caminho girando a espada azulada; a lâmina cortava com precisão e rasgava os corpos deformados.
O chão ao redor vira uma poça de sangue.
Caelinus não viu o ataque vindo do flanco: a lâmina rasgou seu torso e abriu uma fenda profunda na armadura.
O sangue jorrou, encharcou o metal e pingou no chão. Ele caiu de joelhos, mas ainda ergueu a espada num gesto final de defesa.
Outro berserker avançou — e parou abruptamente.
— Parem! — gritou Doo, estendendo a mão. — Agora deixem-nos para mim!
Os berserkers recuaram e formaram um círculo ao redor dos paladinos, respirando como uma matilha à espera do comando.
Doo riu; a voz ecoou pelos prédios vazios.
— Ah, meus gloriosos paladinos. Tão heroicos, tão inúteis. — Ele apontou a varinha. — Vocês destruíram meu império. Mas hoje... hoje serão apenas cinzas.
— Doo! — gritou Caelinus. — Desça aqui! Vamos resolver isso! Eu e você!
O bandido apenas riu.
Ergueu a varinha e começou a gesticular.
Uma bola de fogo surgiu na ponta.
Cresceu em tamanho e calor.
Caelinus e Jessiah mal tiveram tempo de reagir.
A esfera atravessou o ar como se um corpo celeste fosse se chocar contra a cidade.
Explodiu no meio do pátio com um impacto devastador.
As chamas os lançaram ao chão.
O calor era insuportável.
O aço das armaduras estalava sob a pressão, emitindo um rangido abafado — como metal derretendo.
Caelinus gritou e tentou rolar para longe, mas a dor o imobilizou.
Jessiah também foi engolido pelas chamas.
Mesmo assim, conseguiu se levantar. Tremia de dor.
Quando a explosão cessou, ainda estavam de pé. Moribundos. Armaduras chamuscadas. Corpos cobertos de ferimentos.
Jessiah respirava com dificuldade. Tossia. Sangue escorria de sua boca.
— Isso… é tudo o que tem, Doo? — disse Caelinus, a voz rouca.
Lá de cima, Doo ria. A varinha cintilava novamente.
— Eu é que pergunto, meus tolos heróis… vocês aguentam mais uma?
A esfera de fogo começou a crescer de novo.
Iluminava o pátio.
Os dois paladinos mal se mantinham em pé.
***
O corpo de Gorbolg começou a desvanecer. A energia ao seu redor, antes um manto de poder, se dispersava em fragmentos cintilantes. Cinzas de luz dourada e negra subiam devagar, dissolvendo sua forma no ar.
Os paladinos observavam sem se mover. Os olhos estavam fixos, as mãos trêmulas segurando espadas já baixas.
O jovem mais próximo apertou os punhos, o peito subindo em respirações curtas. Os lábios entreabertos soltaram apenas um sussurro:
— Mestre…
Gorbolg já não era mais o mestre invencível. Seus contornos se perdiam entre as partículas flutuantes, mas ele ainda ergueu o queixo e varreu com os olhos os rostos ao redor.
A boca se moveu com suavidade.
— Eu não me arrependo — disse, a voz baixa. — Vocês já sabem o que fazer.
O veterano, ajoelhado, não respondeu. Os olhos brilhavam sob a sombra do elmo, e a mão repousou contra o peito, firme, como quem sustém algo por dentro.
Então veio o último suspiro. O corpo se desfez, e o campo de batalha mergulhou em silêncio.
Cinzas dançavam no ar, arrastadas pelo vento entre as colunas de pedra e os corpos ao redor. Por um momento, ninguém se moveu.
Jorno permaneceu parado. A marca negra em forma de palma queimava sobre o rosto. Ele ergueu os dedos até a cicatriz e a tocou, os olhos semicerrando sem remorso.
O sorriso surgiu devagar, um canto da boca se erguendo.
— Ele se foi… e com ele, a cabeça desta serpente. — A voz rompeu o silêncio, cortante. — Agora, falta apenas o corpo.
Os paladinos não reagiram de imediato. O mais jovem arfava, o elmo oscilando. As mãos apertavam o cabo da espada até os nós dos dedos ficarem brancos.
O veterano ergueu a cabeça. Os olhos presos em Jorno. Então se levantou, empunhando a espada com ambas as mãos.
Os outros seguiram o gesto. As lâminas se ergueram, nenhum rosto tremia mais.
— Por Gorbolg — disse o veterano, baixo.
As espadas se ergueram em uníssono. Não era um grito de guerra, mas uma promessa.
Jorno riu — um som seco, entre os dentes. O corpo se inclinou para a frente, como um animal prestes a saltar.
— Então venham, pequenos cães — disse ele. — Morram como ele.
***
— Vejam só o estado patético de vocês... — A voz de Doo cortou o silêncio. — Não há mais razão para prolongar isso, não acham?
A ponta da varinha crepitava com energia. Doo a ergueu devagar, o braço firme como o de um carrasco.
— Paladinos sempre contam com a sorte. Então... não vamos arriscar.
Caelinus arfava. Os pulmões rasgavam o ar em golfadas quentes. Suor e sangue escorriam pelo rosto, borrando os olhos.
Jessiah estava de joelhos. Os olhos semicerrados. O sangue pingava da boca, descendo pelo queixo até a placa do pescoço.
Ele apertava o punho da espada. As mãos tremiam, mas ele não soltou.
Trocaram um olhar. Breve, pesado. Nada foi dito.
Doo inclinou a cabeça. A ponta da varinha pulsava, iluminando seu rosto em flashes azulados.
— Admito. Vocês me divertiram um pouco… — Ele girou a varinha com leveza. — Mas toda brincadeira precisa de um fim.
O ar estremeceu atrás dele. Algo o atingiu nas costas.
O estalo do impacto ecoou entre os prédios. Doo gritou; a varinha escapou dos dedos. O corpo foi lançado para a frente.
Girou no ar, sem controle. A laje sumiu sob seus pés. Ele caiu.
A pancada contra o chão ressoou como um tambor de pedra. O corpo se contorceu uma última vez antes de ficar imóvel.
Sangue escorreu pelas frestas dos paralelepípedos.
Silêncio.
Caelinus, ainda de pé, arregalou os olhos. As narinas infladas, o corpo tenso, como se esperasse outro golpe.
Jessiah tossiu. A tosse seca sacudiu seu peito. Depois ergueu a cabeça e olhou para cima.
— Kilian? — sussurrou Caelinus.
No topo do prédio, uma silhueta cercada por mãos etéreas os observava. Kilian. Em silêncio.
Ele saltou e aterrissou diante da única saída do pátio. As mãos mágicas ainda pairavam ao seu redor.
Os berserkers rugiram ao ver o corpo de Doo estirado no chão. Avançaram todos de uma vez.
— Não temos saída, Jessiah — disse Caelinus, a voz rouca, mal sustentada.
As lâminas se chocaram. O pátio foi tomado por aço e carne.
Caelinus desviou um golpe e cravou sua espada no braço de uma criatura. O membro caiu, ainda se contraindo.
Jessiah bloqueou outro ataque, mas foi arrastado para trás. A espada riscou o chão ao fincar no peito de outro inimigo.
Um impacto brutal o atingiu. A armadura rangeu sob a força do golpe.
— Caelinus, Jessiah! Por aqui! — Kilian gritava da saída, apontando com os braços abertos.
— Kilian! Vai embora! — Caelinus rugiu, cambaleando.
— Eu posso atrasá-los! Só preciso que vocês saiam!
— Não se meta nisso, garoto! — Jessiah bradou, bloqueando outro ataque com esforço. — É perigoso! Vá embora!
Um berserker abriu um corte fundo no abdômen de Caelinus. Ele cambaleou, mas ainda conseguiu erguer a lâmina a tempo de bloquear o próximo golpe.
Jessiah foi atingido no flanco. O chute o lançou ao chão. O sangue escorria pela lateral da armadura.
— Caelinus! — gritou, tentando se erguer. — Segura eles! Eu... vou usar... a técnica do mestre Gorbolg!
Caelinus assentiu, o rosto ensanguentado. O corte na testa escorria como uma fenda rubra.
— Certo... mas por que só agora?
— Essa técnica... me esgota por completo. — Ele mal respirava. — Se usasse antes... não conseguiria lutar.
Caelinus ergueu a espada e a cravou no chão. O punho livre brilhou.
Uma explosão de luz surgiu. O clarão atravessou o pátio como um raio solar. Os berserkers recuaram, cegos.
Jessiah, de olhos fechados, recitou palavras antigas. O círculo surgiu. Runas douradas cobriram o chão ao redor.
As marcas acenderam como brasas. A terra tremeu. Pilares de luz se ergueram. A barreira envolveu os monstros como uma gaiola radiante.
Por um instante, tudo ficou imóvel. Como se o tempo hesitasse. Então, os corpos dentro do círculo se desintegraram. Viraram pó diante dos olhos dos paladinos.
A energia que restou se espalhou como uma brisa quente. Fechou as feridas mais recentes. Deu fôlego.
Jessiah caiu de joelhos. O pátio voltou a escurecer.
O sangue escorria pela testa. A respiração era lenta. Os ombros baixaram, como se a alma cedesse.
Caelinus manteve-se de pé. Os olhos semicerrados varriam o campo agora vazio. Os músculos ainda vibravam.
— Você… você conseguiu — murmurou, entre o alívio e o espanto. — Eu não acredito.
Jessiah tentou rir. O corpo cedeu.
Apoiou-se com uma das mãos no chão.
— Nem eu…
Um grito rasgou o silêncio.
— Venham logo! Rápido, saiam daí! — era Kilian.
Caelinus olhou para o companheiro. Passou um dos braços pela cintura dele. Começaram a se mover, passos cambaleantes. O peso de Jessiah dobrava a cada metro.
O som de telhas quebrando veio de cima. Caelinus ergueu a cabeça.
Berserkers caíam dos telhados. Garras estendidas. Os olhos ardendo em fúria.
— Droga… tem mais deles! — rosnou, tentando apressar o passo.
A perna falhou. Os dois quase tombaram juntos.
— Eu… eu não consigo mais… — murmurou Jessiah, os olhos se fechando.
Kilian gritou de novo. A urgência agora soava como desespero.
— Corram! Por aqui! Eu seguro eles!
Caelinus girou o corpo com esforço, mantendo o olhar fixo no garoto à frente da saída.
— Você tá maluco? Eu já mandei você ir embora, Kilian!
— Eu não vou deixar vocês sozinhos! — gritou Kilian. — Sai daí! Eu vou ajudar!
A avalanche de monstros se aproximava. Pulavam dos telhados como predadores no cio.
Caelinus apertou os dentes e puxou Jessiah com força renovada.
— Maldito garoto teimoso…
Jessiah passou por Kilian, cambaleando. O rosto pálido, o corpo pendendo de lado. Berserkers saltaram logo atrás.
Kilian ficou entre eles e os amigos. O peito inflou; os ombros se curvaram.
Uma onda de lama espessa explodiu de sua boca, jorrando como um dilúvio marrom.
A substância avançou em linha reta, cobrindo os primeiros monstros antes que pudessem reagir.
Outros tentaram saltar, mas a lama os alcançou. Cobriu patas, braços, rostos.
Começou a endurecer ao contato com o ar. Os berserkers congelaram em meio ao salto. As garras ainda erguidas. Os olhos ainda fixos.
Kilian arfou.
— Boa! Consegui!
Caelinus olhou por cima do ombro. Jessiah, semi-inconsciente, era arrastado com esforço.
A voz dele saiu arrastada:
— O que… o que foi isso…?
— Ele… ele tá usando magia? — murmurou Caelinus, sem tirar os olhos do garoto. — Desde quando…?
Avançaram entre os monstros imobilizados. As formas grotescas agora pareciam parte da própria arquitetura.
Kilian correu atrás deles.
Mas então parou. Olhou de volta para o pátio.
A muralha de lama parecia sólida como pedra. Mas algo se movia lá dentro, silencioso.
Um brilho tênue pulsou entre as fissuras. Como se algo estivesse acordando. Kilian prendeu a respiração.
— Kilian! — gritou Caelinus, com a voz grave. — Anda logo!
O vulto sumiu nas sombras.
Kilian hesitou. Depois correu, sem dizer nada.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios