Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 73: O peso de um legado

Caelinus girou sua espada longa em um arco e derrubou outro berserker que avançava com fúria cega.

Corpos destroçados cobriam o chão ao redor dos dois paladinos, formando uma pilha sangrenta de mais de uma dúzia de inimigos.

Jessiah cambaleou ao desferir um golpe com a espada de duas mãos; a lâmina partiu o crânio de um berserker.

O monstro caiu inerte aos seus pés, apenas para ser substituído por outro, que atacou com garras afiadas.

Mesmo sob pressão, Jessiah continuava a lutar, os braços já cansados e cobertos de cortes. Usou a espada como barreira e forçou a criatura a recuar; o esforço o derrubou de joelhos.

— Caelinus… — ofegou ele, o sangue escorrendo de um corte profundo na lateral do corpo. — Estamos acabados.

Caelinus recuou um passo. O escudo redondo de metal estava amassado; o peitoral de aço, coberto de arranhões e sangue seco.

Ofegava, os olhos varrendo o campo de batalha. A dor em cada músculo e a quantidade de criaturas restantes deixavam claro: aquilo não acabaria tão cedo.

— Aqui, Jessiah — disse ele, tocando o companheiro enquanto outro berserker avançava. Uma luz dourada brilhou na palma de Jessiah.

A técnica sagrada restaurou parte das forças de Caelinus. Ele se levantou e sentiu a carne fechar; o cansaço, porém, ainda o sufocava.

Repetiu o gesto no ombro ferido de Jessiah. A cura devolveu alguma mobilidade — o suficiente para erguer o escudo.

Mas os berserkers seguiam avançando, implacáveis: a cada um que caía, mais surgiam.

— Continuem lutando, seus cães! — a voz de Doo ecoou pelo pátio.

O bandido caminhava entre a carnificina, deslizando sobre os corpos com passos leves e desviando dos golpes como quem dança.

Tomou distância da horda, tirou um frasco do bolso, bebeu e saltou, alcançando o topo de um prédio.
Sua silhueta se recortou contra o céu estrelado, a varinha erguida como a batuta de um maestro.

— Isso! Lutem! Lutem por suas vidas miseráveis! — gritava ele. — Quanto mais vocês sangram, mais eu me divirto!

Caelinus avançou com fúria renovada e abateu dois berserkers em sequência.

Os corpos foram arremessados contra os montes de mortos; o sangue escorria de sua orelha, misturando-se aos cabelos soltos até os ombros e ao vermelho ressecado da armadura.

Seus golpes vinham mais fortes, mais desesperados.

Jessiah abriu caminho girando a espada azulada; a lâmina cortava com precisão e rasgava os corpos deformados.

O chão ao redor vira uma poça de sangue.

Caelinus não viu o ataque vindo do flanco: a lâmina rasgou seu torso e abriu uma fenda profunda na armadura.

O sangue jorrou, encharcou o metal e pingou no chão. Ele caiu de joelhos, mas ainda ergueu a espada num gesto final de defesa.

Outro berserker avançou — e parou abruptamente.

— Parem! — gritou Doo, estendendo a mão. — Agora deixem-nos para mim!

Os berserkers recuaram e formaram um círculo ao redor dos paladinos, respirando como uma matilha à espera do comando.

Doo riu; a voz ecoou pelos prédios vazios.

— Ah, meus gloriosos paladinos. Tão heroicos, tão inúteis. — Ele apontou a varinha. — Vocês destruíram meu império. Mas hoje... hoje serão apenas cinzas.

— Doo! — gritou Caelinus. — Desça aqui! Vamos resolver isso! Eu e você!

O bandido apenas riu.

Ergueu a varinha e começou a gesticular.

Uma bola de fogo surgiu na ponta.

Cresceu em tamanho e calor.

Caelinus e Jessiah mal tiveram tempo de reagir.

A esfera atravessou o ar como se um corpo celeste fosse se chocar contra a cidade.

Explodiu no meio do pátio com um impacto devastador.

As chamas os lançaram ao chão.

O calor era insuportável.

O aço das armaduras estalava sob a pressão, emitindo um rangido abafado — como metal derretendo.

Caelinus gritou e tentou rolar para longe, mas a dor o imobilizou.

Jessiah também foi engolido pelas chamas.

Mesmo assim, conseguiu se levantar. Tremia de dor.

Quando a explosão cessou, ainda estavam de pé. Moribundos. Armaduras chamuscadas. Corpos cobertos de ferimentos.

Jessiah respirava com dificuldade. Tossia. Sangue escorria de sua boca.

— Isso… é tudo o que tem, Doo? — disse Caelinus, a voz rouca.

Lá de cima, Doo ria. A varinha cintilava novamente.

— Eu é que pergunto, meus tolos heróis… vocês aguentam mais uma?

A esfera de fogo começou a crescer de novo.

Iluminava o pátio.

Os dois paladinos mal se mantinham em pé.

***

O corpo de Gorbolg começou a desvanecer. A energia ao seu redor, antes um manto de poder, se dispersava em fragmentos cintilantes. Cinzas de luz dourada e negra subiam devagar, dissolvendo sua forma no ar.

Os paladinos observavam sem se mover. Os olhos estavam fixos, as mãos trêmulas segurando espadas já baixas.

O jovem mais próximo apertou os punhos, o peito subindo em respirações curtas. Os lábios entreabertos soltaram apenas um sussurro:

— Mestre…

Gorbolg já não era mais o mestre invencível. Seus contornos se perdiam entre as partículas flutuantes, mas ele ainda ergueu o queixo e varreu com os olhos os rostos ao redor.

A boca se moveu com suavidade.

— Eu não me arrependo — disse, a voz baixa. — Vocês já sabem o que fazer.

O veterano, ajoelhado, não respondeu. Os olhos brilhavam sob a sombra do elmo, e a mão repousou contra o peito, firme, como quem sustém algo por dentro.

Então veio o último suspiro. O corpo se desfez, e o campo de batalha mergulhou em silêncio.

Cinzas dançavam no ar, arrastadas pelo vento entre as colunas de pedra e os corpos ao redor. Por um momento, ninguém se moveu.

Jorno permaneceu parado. A marca negra em forma de palma queimava sobre o rosto. Ele ergueu os dedos até a cicatriz e a tocou, os olhos semicerrando sem remorso.

O sorriso surgiu devagar, um canto da boca se erguendo.

— Ele se foi… e com ele, a cabeça desta serpente. — A voz rompeu o silêncio, cortante. — Agora, falta apenas o corpo.

Os paladinos não reagiram de imediato. O mais jovem arfava, o elmo oscilando. As mãos apertavam o cabo da espada até os nós dos dedos ficarem brancos.

O veterano ergueu a cabeça. Os olhos presos em Jorno. Então se levantou, empunhando a espada com ambas as mãos.

Os outros seguiram o gesto. As lâminas se ergueram, nenhum rosto tremia mais.

— Por Gorbolg — disse o veterano, baixo.

As espadas se ergueram em uníssono. Não era um grito de guerra, mas uma promessa.

Jorno riu — um som seco, entre os dentes. O corpo se inclinou para a frente, como um animal prestes a saltar.

— Então venham, pequenos cães — disse ele. — Morram como ele.

***

— Vejam só o estado patético de vocês... — A voz de Doo cortou o silêncio. — Não há mais razão para prolongar isso, não acham?

A ponta da varinha crepitava com energia. Doo a ergueu devagar, o braço firme como o de um carrasco.

— Paladinos sempre contam com a sorte. Então... não vamos arriscar.

Caelinus arfava. Os pulmões rasgavam o ar em golfadas quentes. Suor e sangue escorriam pelo rosto, borrando os olhos.

Jessiah estava de joelhos. Os olhos semicerrados. O sangue pingava da boca, descendo pelo queixo até a placa do pescoço.

Ele apertava o punho da espada. As mãos tremiam, mas ele não soltou.
Trocaram um olhar. Breve, pesado. Nada foi dito.

Doo inclinou a cabeça. A ponta da varinha pulsava, iluminando seu rosto em flashes azulados.

— Admito. Vocês me divertiram um pouco… — Ele girou a varinha com leveza. — Mas toda brincadeira precisa de um fim.

O ar estremeceu atrás dele. Algo o atingiu nas costas.

O estalo do impacto ecoou entre os prédios. Doo gritou; a varinha escapou dos dedos. O corpo foi lançado para a frente.

Girou no ar, sem controle. A laje sumiu sob seus pés. Ele caiu.

A pancada contra o chão ressoou como um tambor de pedra. O corpo se contorceu uma última vez antes de ficar imóvel.

Sangue escorreu pelas frestas dos paralelepípedos.

Silêncio.

Caelinus, ainda de pé, arregalou os olhos. As narinas infladas, o corpo tenso, como se esperasse outro golpe.

Jessiah tossiu. A tosse seca sacudiu seu peito. Depois ergueu a cabeça e olhou para cima.

— Kilian? — sussurrou Caelinus.

No topo do prédio, uma silhueta cercada por mãos etéreas os observava. Kilian. Em silêncio.

Ele saltou e aterrissou diante da única saída do pátio. As mãos mágicas ainda pairavam ao seu redor.

Os berserkers rugiram ao ver o corpo de Doo estirado no chão. Avançaram todos de uma vez.

— Não temos saída, Jessiah — disse Caelinus, a voz rouca, mal sustentada.

As lâminas se chocaram. O pátio foi tomado por aço e carne.

Caelinus desviou um golpe e cravou sua espada no braço de uma criatura. O membro caiu, ainda se contraindo.

Jessiah bloqueou outro ataque, mas foi arrastado para trás. A espada riscou o chão ao fincar no peito de outro inimigo.

Um impacto brutal o atingiu. A armadura rangeu sob a força do golpe.

— Caelinus, Jessiah! Por aqui! — Kilian gritava da saída, apontando com os braços abertos.

— Kilian! Vai embora! — Caelinus rugiu, cambaleando.

— Eu posso atrasá-los! Só preciso que vocês saiam!

— Não se meta nisso, garoto! — Jessiah bradou, bloqueando outro ataque com esforço. — É perigoso! Vá embora!

Um berserker abriu um corte fundo no abdômen de Caelinus. Ele cambaleou, mas ainda conseguiu erguer a lâmina a tempo de bloquear o próximo golpe.
Jessiah foi atingido no flanco. O chute o lançou ao chão. O sangue escorria pela lateral da armadura.

— Caelinus! — gritou, tentando se erguer. — Segura eles! Eu... vou usar... a técnica do mestre Gorbolg!

Caelinus assentiu, o rosto ensanguentado. O corte na testa escorria como uma fenda rubra.

— Certo... mas por que só agora?

— Essa técnica... me esgota por completo. — Ele mal respirava. — Se usasse antes... não conseguiria lutar.

Caelinus ergueu a espada e a cravou no chão. O punho livre brilhou.

Uma explosão de luz surgiu. O clarão atravessou o pátio como um raio solar. Os berserkers recuaram, cegos.

Jessiah, de olhos fechados, recitou palavras antigas. O círculo surgiu. Runas douradas cobriram o chão ao redor.

As marcas acenderam como brasas. A terra tremeu. Pilares de luz se ergueram. A barreira envolveu os monstros como uma gaiola radiante.

Por um instante, tudo ficou imóvel. Como se o tempo hesitasse. Então, os corpos dentro do círculo se desintegraram. Viraram pó diante dos olhos dos paladinos.

A energia que restou se espalhou como uma brisa quente. Fechou as feridas mais recentes. Deu fôlego.

Jessiah caiu de joelhos. O pátio voltou a escurecer.

O sangue escorria pela testa. A respiração era lenta. Os ombros baixaram, como se a alma cedesse.

Caelinus manteve-se de pé. Os olhos semicerrados varriam o campo agora vazio. Os músculos ainda vibravam.

— Você… você conseguiu — murmurou, entre o alívio e o espanto. — Eu não acredito.

Jessiah tentou rir. O corpo cedeu.

Apoiou-se com uma das mãos no chão.

— Nem eu…

Um grito rasgou o silêncio.

— Venham logo! Rápido, saiam daí! — era Kilian.

Caelinus olhou para o companheiro. Passou um dos braços pela cintura dele. Começaram a se mover, passos cambaleantes. O peso de Jessiah dobrava a cada metro.

O som de telhas quebrando veio de cima. Caelinus ergueu a cabeça.

Berserkers caíam dos telhados. Garras estendidas. Os olhos ardendo em fúria.

— Droga… tem mais deles! — rosnou, tentando apressar o passo.

A perna falhou. Os dois quase tombaram juntos.

— Eu… eu não consigo mais… — murmurou Jessiah, os olhos se fechando.

Kilian gritou de novo. A urgência agora soava como desespero.

— Corram! Por aqui! Eu seguro eles!

Caelinus girou o corpo com esforço, mantendo o olhar fixo no garoto à frente da saída.

— Você tá maluco? Eu já mandei você ir embora, Kilian!

— Eu não vou deixar vocês sozinhos! — gritou Kilian. — Sai daí! Eu vou ajudar!

A avalanche de monstros se aproximava. Pulavam dos telhados como predadores no cio.
Caelinus apertou os dentes e puxou Jessiah com força renovada.

— Maldito garoto teimoso…

Jessiah passou por Kilian, cambaleando. O rosto pálido, o corpo pendendo de lado. Berserkers saltaram logo atrás.

Kilian ficou entre eles e os amigos. O peito inflou; os ombros se curvaram.

Uma onda de lama espessa explodiu de sua boca, jorrando como um dilúvio marrom.

A substância avançou em linha reta, cobrindo os primeiros monstros antes que pudessem reagir.

Outros tentaram saltar, mas a lama os alcançou. Cobriu patas, braços, rostos.

Começou a endurecer ao contato com o ar. Os berserkers congelaram em meio ao salto. As garras ainda erguidas. Os olhos ainda fixos.

Kilian arfou.

— Boa! Consegui!

Caelinus olhou por cima do ombro. Jessiah, semi-inconsciente, era arrastado com esforço.
A voz dele saiu arrastada:

— O que… o que foi isso…?

— Ele… ele tá usando magia? — murmurou Caelinus, sem tirar os olhos do garoto. — Desde quando…?

Avançaram entre os monstros imobilizados. As formas grotescas agora pareciam parte da própria arquitetura.

Kilian correu atrás deles.

Mas então parou. Olhou de volta para o pátio.

A muralha de lama parecia sólida como pedra. Mas algo se movia lá dentro, silencioso.

Um brilho tênue pulsou entre as fissuras. Como se algo estivesse acordando. Kilian prendeu a respiração.

— Kilian! — gritou Caelinus, com a voz grave. — Anda logo!

O vulto sumiu nas sombras.

Kilian hesitou. Depois correu, sem dizer nada.

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