Volume 2
Capítulo 72: Até o golpe derradeiro
A nova forma de Jorno mergulhou o campo de batalha em brutalidade.
O druida, agora uma criatura disforme, investiu com as garras à frente, rasgando o ar como lâminas.
Gorbolg ergueu a espada para o bloqueio. O impacto o lançou para trás.
— Que força absurda... — murmurou, os pés derrapando no chão estilhaçado.
O braço cedeu.
As garras atravessaram a armadura e o músculo com um estalo seco. Sangue jorrou do peito. O peitoral de aço caiu pendurado, despedaçado.
Ele cambaleou, o lado direito do corpo em chamas. Antes que pudesse se firmar, Jorno avançou de novo. As garras rasgaram seu flanco.
Gorbolg recuou dois passos, arquejando.
As pedras sob seus pés estavam cobertas de sangue. O cheiro metálico preenchia suas narinas. Cada respiração parecia rasgar por dentro.
— Maldição... — a espada ainda erguida, mas a mão tremia. — É assim que termina?
O druida respondeu com um rugido.
A voz era metade orc, metade fera.
Saltou.
O golpe seguinte abriu um corte profundo na perna do paladino.
A dor subiu como um raio, do joelho até o ombro.
O mundo girou por um instante, mas ele forçou os olhos a permanecerem abertos.
O joelho cedeu. Gorbolg caiu.
— Eu... não vou me ajoelhar diante de você! — sussurrou, mesmo tombando.
— Mestre! — gritou alguém no campo, longe demais para alcançar.
Gorbolg manteve a espada erguida.
As garras já vinham de novo.
Ele ergueu a mão livre.
Um círculo dourado brotou ao seu redor.
A luz estremeceu, depois se espalhou pelo chão, formando uma barreira sagrada — irregular, trêmula, como se algo dentro dela resistisse.
As feridas começaram a fechar. Mas devagar. Muito devagar.
— Achando que um círculo vai te salvar? — rosnou Jorno, arranhando o campo mágico. — Já passou da hora de morrer.
A barreira tremeu com o impacto.
O chão vibrou sob seus joelhos.
Frestas se abriram nas bordas do círculo, como rachaduras no casco de um navio. A proteção sagrada não aguentaria muito mais.
Fagulhas douradas queimaram a pele do druida, que recuou apenas para ganhar impulso.
Jorno atacou de novo, repetidas vezes. Cada golpe ressoava como um trovão.
Gorbolg cerrou os dentes. Forçou o corpo contra a dor.
— Vamos... só mais um segundo...
— Ele tá invadindo o círculo... — murmurou um paladino, incrédulo.
— Não... vou... cair... — sussurrou Gorbolg, os pés firmes. A espada ainda erguida.
Mais sangue respingava a cada ataque.
A barreira cedia. O chão sagrado já estava tingido de sangue.
— O mestre não vai aguentar muito mais... — disse uma voz embargada entre os paladinos.
Outro balançou a cabeça.
— Ele tá perdendo... ele tá... caindo...
O último golpe empurrou Gorbolg como um boneco.
O ar foi arrancado dos pulmões. Os ossos do ombro gritaram. A visão vacilou por um segundo. Ele bateu no chão com um estrondo.
O círculo dourado oscilou, mas não se desfez.
Gorbolg tentou se levantar. As pernas não responderam. O sangue fluía sem contenção. A luz divina mal o alcançava agora.
Jorno se aproximou.
As raízes ao redor de seus pés se contorciam, como serpentes.
Ele parou diante do paladino caído.
— Você foi um bom adversário, Mestre Gorbolg... — a voz era baixa, calma. — Mas isso termina aqui.
Gorbolg cuspiu sangue.
O olhar ainda desafiava.
— Não... enquanto eu respirar... isso não é o fim...
— Mestre! — gritou um dos paladinos, antes de avançar com a espada em punho.
Outro o segurou pelo braço.
— Ele mandou a gente ficar de fora! — a voz era tensa, trêmula.
— Mas ele vai morrer!
O silêncio caiu como uma sentença.
Lá na frente, Jorno ergueu as garras.
***
Caelinus e Jessiah se posicionaram costas com costas. Os dois trocavam palavras curtas, olhos atentos aos cantos do campo. Era uma dança antiga — treinada, repetida, agora posta à prova.
Ali, não havia mais tática. Só sobrevivência. Respiravam com dificuldade. Mas não vacilavam.
Ao redor, os berserkers fechavam o cerco.
Corpos magros, pulsando com energia selvagem. Ossos à mostra. Lâminas brotando dos braços.
No centro da horda, Doo erguia a varinha com um sorriso torcido.
— Avancem! Quero os corpos desses dois aos meus pés!
A ordem explodiu no campo de batalha. O primeiro monstro rugiu e avançou, a lâmina óssea reluzindo.
Jessiah o cortou no meio do salto. Músculos e raízes se abriram. A criatura caiu, mas outras duas já vinham logo atrás.
Caelinus ergueu o escudo.
O impacto o fez estremecer.
— Desviando à direita! — avisou, movendo os pés no instante exato.
Jessiah girou a espada em arco e cortou a cabeça de outro atacante.
— Eles não param! — gritou, ofegante.
— Temos que pensar num plano. Continue lutando! — respondeu Caelinus, cortando adiante.
As criaturas vinham em ondas. Cada uma que caía deixava outra mais furiosa no lugar. Cicatrizes, ossos, olhos febris. Um enxame de raiva.
— Três à esquerda! — gritou Caelinus, escudo em guarda.
Jessiah desviou um golpe. A espada dele cravou no peito do inimigo, mas não houve tempo para recuar.
Outro berserker surgiu, aos urros, e enfiou o braço em forma de lança na coxa do paladino.
— Droga! — Jessiah cambaleou. O sangue jorrou, tingindo a terra. — O ferimento do aeroplano abriu de novo.
Caelinus o interceptou. Partiu o braço do atacante com um golpe, depois decapitou o monstro.
— Aguenta firme, Jessiah! — empurrou-o com o escudo no peito. — Você tem que ficar de pé! Não vou perder você aqui!
Jessiah mordeu os dentes. A mão espalmada em um brilho esverdeado sobre o ferimento.
— Eu... tô tentando! Mas eles também não ajudam!
Três novos avançaram.
Um deles pulou em Caelinus antes que o escudo subisse por completo.
O golpe o empurrou para trás. A lâmina do monstro raspou no metal, em um chiado sinistro.
O som penetrou como uma farpa na espinha. Caelinus rosnou, sentindo o peso do escudo vibrar em seu braço. As lâminas raspavam como presas afiadas contra o metal.
Ele respondeu com um corte seco.
A criatura caiu sem o tendão da perna.
Do outro lado, Jessiah deu um golpe horizontal e abriu o peito de outro berserker. Sangue negro espirrou.
Mas o monstro agarrou o paladino, mesmo ferido.
— Sai de cima de mim, demônio! — gritou Jessiah, empurrando a criatura e cortando sua garganta.
Antes que pudesse respirar, outra criatura surgiu pelas costas. Maior. Mais rápida.
As garras cortaram a lateral da armadura, abrindo carne.
Jessiah rolou no chão, deixando um rastro espesso de sangue atrás de si.
— Jessiah! — gritou Caelinus, ouvindo o som do aço rasgando os ossos.
Jessiah tentou se levantar de joelhos. A espada quase escorregou das mãos.
Ergueu os olhos por um segundo, as pupilas dilatadas, fixas no céu.
O berserker avançou.
As lâminas ósseas, como uma tesoura, prontas para cortar a cabeça do paladino ferido.
Caelinus correu. Lançou o escudo como um aríete, desviando o inimigo da trajetória.
— Fica de pé! — berrou, posicionando-se entre o amigo e a ameaça.
Jessiah se ergueu com esforço. Pressionou a mão contra o corte profundo. O rosto pálido, mas os olhos firmes.
Ao redor, os berserkers rugiam. Formavam um anel de fúria e ossos ao redor dos dois.
De longe, Doo os observava.
Sorria.
A varinha girava entre os dedos, com leveza.
Ele mastigava alguma semente, o rosto relaxado.
A morte dos paladinos era só entretenimento.
O olhar brilhava de expectativa.
— Eles vão nos esmagar! — gritou Jessiah, o corpo tremendo de exaustão.
Caelinus não respondeu. Apenas respirou fundo.
A espada na mão direita.
O escudo na esquerda.
Os pés firmes no chão.
E os olhos, fixos nos monstros que se aproximavam.
***
Gorbolg estava de joelhos.
O sangue escorria pelas feridas, preenchendo as fendas entre os paralelepípedos. A respiração era pesada. Mas os olhos... intactos.
Jorno se aproximava. Sorriso cruel nos lábios.
Ao redor, os paladinos trocavam olhares tensos, sem saber se deveriam agir.
— Será que é nossa hora? — murmurou um deles, a espada trêmula nas mãos.
— Não podemos quebrar a ordem... ele mandou ficar de fora — respondeu outro, sem convicção.
— Mas se continuar assim, ele vai morrer... — insistiu o primeiro.
— E você acha que faria diferença? — o outro o fitou, com os olhos duros.
O paladino não respondeu.
Jorno ergueu as garras. O golpe final se aproximava.
— Acabou, Gorbolg.
Nenhuma resposta.
O corpo do paladino estremeceu.
E, num fôlego improvável, começou a se levantar.
Devagar.
As pernas ganhavam firmeza.
Uma aura pesada emergia de seu corpo, como uma tempestade prestes a cair.
— O quê...? — Jorno recuou um passo.
Os paladinos também se afastaram.
Murmúrios atravessaram a rua devastada.
— Não... — disse um deles, a voz baixa. — Ele está usando...
— O Toque da Omissão — completou o mais jovem. — Ele vai tentar?
— Isso é loucura! — gritou outro. — Ele está ferido demais! Se o poder dele for menor que o do druida...
— Então não teria chance alguma — interrompeu o veterano, a voz grave. — Mas você acha que Gorbolg faria isso sem um plano?
— Ou talvez... seja só o último recurso... — sussurrou um terceiro. — Ele sabe que pode perder. Mas não tem mais escolha.
A espada de Gorbolg caiu ao chão com um eco metálico.
Ele arrancou o que restava da armadura no peito, expondo as feridas.
Sangue escorria livremente.
Mesmo assim, o rosto estava sereno.
O olhar de Gorbolg era calmo.
Imóvel.
Como alguém disposto a enfrentar o fim — e não o evitar. Os olhos voltados ao céu estrelado como se fosse uma prece silenciosa. Não parecia um pedido. Parecia aceitação.
— Ele está mesmo... — murmurou o mais jovem. — Mestre…
Jorno interrompeu sua investida.
O sorriso desapareceu, os lábios se contraíram, e os ombros se retesaram.
A energia ao redor de Gorbolg pesava como uma montanha.
— Você acha que isso vai mudar alguma coisa? — rosnou Jorno. — Então venha! Vamos ver quem cai primeiro!
Gorbolg não respondeu. Ergueu a mão direita, como se agarrasse o próprio ar denso ao redor.
Jorno avançou com um grito. As garras prontas para o golpe final.
— Ele vai morrer... — sussurrou o jovem, os olhos marejados.
— Cale-se! — o veterano rebateu. — Se ele faz isso, é porque confia no ataque! Mostre respeito ao seu sacrifício. Pode ser o último ensinamento do nosso mestre!
Quando o druida se lançou, Gorbolg se moveu.
Rápido.
Assombroso.
Sua mão tocou o rosto de Jorno no instante exato.
O mundo pareceu parar.
Um silêncio esmagador tomou conta do campo.
Uma marca negra surgiu na face de Jorno. A palma do paladino, impressa como uma sombra, parecia pulsar.
Não era só um símbolo. Era uma sentença.
E o próprio ar ao redor ficou mais frio.
O corpo do druida travou.
O rosto se contorceu em choque.
— O que... você fez...? — murmurou, a voz falha.
Gorbolg baixou a mão. Fechou os olhos.
— Minha vida foi pesada na balança... — murmurou. — E o julgamento foi feito.
Luz negra e dourada flutuava ao redor dos dois, como cinzas em brasa.
Os paladinos assistiam em silêncio.
Olhos arregalados.
Jorno tentou se mover.
A marca drenava tudo.
Seus passos vacilavam. Cada gesto era mais lento.
Os joelhos dobravam. Os ombros afundavam.
Gorbolg permanecia de pé.
Respiração profunda.
Olhos no horizonte.
— Ele... — murmurou um dos paladinos. — Ele realmente fez isso...
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios