Volume 2
Capítulo 71: Não como vocês, que se devoram por mais um dia
Gorbolg firmou os pés. Os olhos fixos em Jorno.
Com a espada erguida, avançou.
O choque entre o aço e as vinhas ecoou pelo campo.
Rápido. Brutal.
A lâmina de Gorbolg tilintava contra os braços fortificados de Jorno.
O druida revidava com ferocidade.
O ar ao redor vibrava com a força dos impactos.
— Não importa o que faça! — gritou Gorbolg, bloqueando um golpe pesado. — Você vai cair, druida!
— Já ouvi isso antes — disse Jorno, mostrando os dentes num sorriso ferino.
Os ataques vinham de ambos os lados, rápidos e devastadores.
Mesmo sendo um orc grande, Jorno desviava de alguns cortes.
Mas a lâmina celestial de Gorbolg o alcançava, deixando marcas luminosas que queimavam a carne.
O sangue de ambos já manchava o chão.
Avançaram juntos, num movimento espelhado.
O impacto os fez cambalear.
Gorbolg caiu de joelhos.
Permaneceu estoico. A dor pulsava nos ferimentos, mas ele não recuou.
— Ainda... — murmurou, com a espada tremendo na mão. — Ainda não acabei.
A lâmina brilhou, renovada. As palavras de encantamento fluíram dos seus lábios.
Jorno observava com o rosto contorcido.
Olhos faiscando. Os punhos cerrados.
— Não cansa dessas bobagens? — rosnou. — Vou esconjurar tudo isso. Acabar com seus truques de luz e feitiços ridículos!
— É mesmo? Então vamos ver — retrucou Gorbolg, entre dentes.
Continuou conjurando, ignorando as dores.
O novo embate veio com ainda mais força.
A espada rasgou a pele de Jorno. Três cortes — dois no torso, um atravessando o estômago.
O sangue jorrou.
Jorno rugiu, cambaleando para trás, tentando contra-atacar.
— Morra, maldito! — gritou, socando com os punhos revestidos de vinhas espinhentas.
Gorbolg tentou bloquear.
O golpe o atingiu.
Mas a magia brilhou.
O soco ricocheteou, e Jorno foi lançado para trás, rolando pelo chão.
— O quê? — grunhiu, levantando-se furioso.
Investiu de novo, mas foi ofuscado por um clarão.
Cambaleou.
Gorbolg avançou.
Tocou o corpo de Jorno com a mão esquerda.
As vinhas se desfizeram em pedaços.
Caíram aos pés do druida.
— Está vendo, druida? — disse Gorbolg. Os olhos duros como aço. — Não são só vocês que sabem desencantar.
Deu mais um passo à frente.
— Vocês acham que a natureza pertence só a vocês. Mas olhe ao redor.
Jorno cerrou os dentes. Os caninos salientes escaparam por entre os lábios.
Desviou o olhar.
A cidade ainda estava lá. As muralhas. Os prédios. Os paladinos mantendo o flanco.
O peito largo subiu e desceu num ritmo irregular.
— Olhe o que construímos com as nossas mãos! — rugiu Gorbolg, cortando fundo o braço do inimigo. — Aqui se vive por décadas. Não como vocês, que se devoram por mais um dia.
Jorno grunhiu. Investiu com os ombros pesados.
Gorbolg aparou.
A lâmina penetrou entre as costelas.
O druida vacilou. As pernas trincaram sob o próprio peso.
— Vocês se escondem. Vivem como feras. Morrendo de febre no mato! — berrou Gorbolg. — Não constroem. Só apodrecem o que tocam!
Jorno tentou socar. Os dedos viraram garras de vinhas.
Gorbolg girou. O joelho acertou o abdômen do orc com força seca.
O druida caiu de joelhos.
— Agora eu te mostro o que é um soco de verdade.
O punho envolveu-se em luz.
O impacto acertou as costas de Jorno. Um trovão seco se espalhou pela rua.
A terra rachou sob o corpo esmagado.
Tudo mergulhou em silêncio.
Os paladinos se viraram. Um deles gritou, sem fôlego:
— O Mestre Gorbolg venceu?
O meio-orc subiu devagar. A respiração pesada.
Segurava a espada com força.
As vinhas começaram a se mover.
Ele recuou.
Raízes puxaram o corpo do orc de volta.
Jorno se ergueu. Limpou o sangue com as costas da mão.
Os lobos sumiram como fumaça.
— Não me subestime, paladino — disse Jorno. A voz grave, sem pressa. — O ciclo é perpétuo. A natureza nunca morre.
— Ciclo? — Gorbolg rosnou. — Eu arranco essa árvore pela raiz, se for preciso.
Os paladinos correram.
Um deles ergueu a espada.
— Vamos acabar com ele, Mestre Gorbolg!
— Não. — O braço se ergueu, firme. — Essa luta é minha.
Todos pararam.
Jorno olhou de relance. Voltou os olhos para Gorbolg.
Endireitou a coluna. Inspirou devagar.
O ar pareceu contrair ao redor.
— Devia ter me matado antes.
O chão tremeu.
Raízes negras romperam a terra. Subiram pelos braços e pescoço.
A pele engrossou. O tórax expandiu.
As mãos viraram garras.
Os olhos brilharam, verdes como esmeraldas cobertas de musgo.
A mandíbula cerrada. Nenhuma provocação.
Só a respiração profunda de um animal em prontidão.
— Agora sim, Gorbolg — disse Jorno. Sua voz ressoou pela rua. — Vamos ver se a disciplina de um paladino pode conter a força pura da natureza.
O meio-orc ergueu a espada.
Os olhos estavam fixos na criatura diante dele.
Um leve sorriso se formou.
— Já enfrentei gigantes, monstros e forças muito além de nós dois, druida. Nós, paladinos, seguimos uma tradição milenar. — Sua voz soava determinada. — Não ouse me subestimar. Eu também ainda não usei tudo o que tenho.
Jorno avançou.
O chão tremeu sob o peso da nova forma.
A pele grossa reluzia com musgo e seiva.
— Palavras vazias — rosnou. — Mal consegue ficar de pé.
Gorbolg soltou um riso rouco.
Ajustou a postura.
O braço ferido ainda tremia, mas a espada se mantinha erguida.
— Então me derrube, se puder. Vou mostrar que sua guerra já nasceu fadada ao fracasso.
Jorno rugiu.
O som reverberou pelas pedras, espantando corvos ao longe.
Avançou com velocidade brutal.
As garras cortaram o ar.
O primeiro golpe foi aparado. A lâmina estremeceu.
O impacto rachou o solo.
As garras recobertas de raízes voltaram com fúria.
— Verá com os próprios olhos! — Jorno urrava entre os ataques. — A terra não falha!
— E você vai ver — respondeu Gorbolg, recuando centímetro por centímetro — que não é só de lâminas e couraças que vive um paladino.
Outro golpe.
Gorbolg girou o corpo.
A armadura trincou, mas ele se manteve em pé.
A lâmina brilhou com nova luz.
***
O telhado rangia sob o peso de Doo. Ele mantinha a postura inclinada, um sorriso debochado crescendo no rosto.
— Bem onde eu queria, paladino — murmurou, erguendo a varinha como se fosse parte do braço. — Você caiu direitinho. Eu já deixei o seu amigo Jessiah para trás... E agora você é o único que falta.
Caelinus apertou o cabo da espada, firme. O rosto impassível.
Doo lançou uma bola de fogo. O clarão alaranjado refletiu na armadura do paladino. Caelinus ergueu o escudo e bloqueou o ataque. A magia se despedaçou em faíscas que iluminaram seu rosto sério.
Doo recuou de imediato. Escorregou pelo telhado com agilidade, sumindo por entre as telhas. Caelinus manteve os olhos fixos nele, calculando cada movimento.
— Desista, Doo — a voz de Caelinus ecoou. — Você está encurralado.
O bandido girou o corpo e disparou dois tiros. As bolas de fogo explodiram em sequência, uma atrás da outra. A segunda explodiu três vezes seguidas. Caelinus saltou para um telhado abaixo, rolando no impacto.
— Eu já acabei com o outro, Caelinus! Jessiah está morto! — gritou Doo. — Só falta você agora.
Caelinus murmurou um encantamento. Num salto ágil, surgiu diante de Doo.
A espada desceu.
Doo ergueu o braço para se proteger. A lâmina cortou fundo, quebrou os ossos e arrancou um grito de dor. Ele recuou cambaleante, segurando o braço.
Caelinus o seguiu, atento. A espada erguida.
— Jessiah não seria detido por meia dúzia de bolas de fogo, Doo — disse, firme. — Ele é o sucessor de Gorbolg, o mais forte dos paladinos da Ordem. Você não tem ideia do que está enfrentando.
Doo arfava. O rosto suado. Sangue escorrendo pelo braço, mas os olhos ainda brilhando com fúria.
— Falta pouco. Vamos ver quanto tempo ele dura... — murmurou, com veneno na voz.
Dois vultos pousaram no telhado.
O casal de antes.
Agora, grotescos. Vinhas escuras envolviam os corpos, os músculos inchados, as bocas espumando. Ossos projetavam-se da pele como lâminas. Carapaças de inseto recobriam seus torsos.
Caelinus recuou um passo, sem abaixar a guarda.
Doo riu baixinho, trêmulo, mas satisfeito.
— Eu disse que você era o único que faltava, paladino. Meus amigos já devem estar enfrentando os seus companheiros agora. — Ele abriu um frasco e bebeu uma poção. — Mas você... você vai ser o primeiro a provar o que eu tenho guardado para Jillar. Eu vou fazer essa cidade queimar, e nada vai me impedir.
Os dois berserkers rugiram, salivando. Corpos contorcidos. Prontos para atacar.
Caelinus fechou os olhos por um momento, ajustando-se no telhado escorregadio.
Diante dele, rugiam como bestas, ossos e raízes retorcidos moldando seus corpos.
De cima, Doo soltou uma risada.
— Vou saborear cada momento da sua queda, Caelinus!
O disparo do pau de fogo primo riscou o ar. O impacto explodiu no ombro do paladino, arrancando faíscas e lascas da armadura.
— Fique de pé, caçador de justiça — zombou Doo, recarregando. — Quero ver o brilho da vida deixar os seus olhos.
Caelinus arfou. O braço dormente. Os berserkers avançavam.
A primeira criatura atacou com a lâmina óssea do braço esquerdo.
Caelinus ergueu o escudo. O impacto reverberou no corpo. Retalhou com um golpe lateral, mas o monstro se lançou para o lado, impulsionado por raízes que se fincavam no telhado.
A segunda criatura veio pela esquerda. As garras afiadas brilharam.
Caelinus aparou com a espada, por pouco.
— Ui! Essa passou perto, paladino — provocou Doo, disparando outro projétil.
A explosão atingiu a lateral da armadura. Sangue escorreu pela fenda aberta.
— Você não vai sair vivo daqui.
Caelinus grunhiu. Doo atacava à distância, os berserkers sem trégua.
O monstro hesitou por um segundo.
Caelinus rugiu. A espada brilhou com luz trêmula e perfurou o peito da criatura. As raízes se contraíram. O corpo caiu.
O segundo berserker rugiu com fúria. Avançou como uma besta descontrolada.
Caelinus recuou. O peito arfava. Preparava-se para o golpe final.
Uma sombra passou por trás.
Um corte de aço. A cabeça da criatura rolou.
Jessiah apareceu. Espada em punho. Olhar firme.
— Chegou na hora certa — disse Caelinus, os joelhos quase cedendo.
Doo fugiu pelos telhados. Desapareceu na escuridão.
— Ele não vai longe — disse Jessiah, limpando a lâmina. — Primeiro, vamos cuidar de você.
Caelinus pressionou a lateral ferida. A luz da cura percorreu o corpo.
Jessiah mantinha os olhos no rastro de Doo.
— Vá atrás dele, Jessiah, rápido! — arfou Caelinus. — Se esse desgraçado escapar vivo, as grávidas explosivas vão parecer piada perto do que ele tem preparado pra cidade.
Jessiah franziu o cenho. Hesitou por um instante.
— Sério? E o que pode ser pior do que aquilo?
— Vai! Depois eu te conto com detalhes! — rosnou Caelinus. — Ele não pode escapar!
Jessiah disparou pelos telhados.
Doo corria à frente, rindo. Os disparos da varinha ecoavam pelos becos. Bolas de fogo atingiam telhados e chaminés, incendiando tudo ao redor.
Jessiah desviava com agilidade, mas o calor se espalhava. As construções começavam a incendiar.
Doo olhou por cima do ombro. O sorriso desapareceu. Os dentes cerrados, a varinha apertada na mão.
Saltou por uma chaminé, as botas escorregando nas telhas. Alcançou a beirada de um prédio alto. Jogou-se.
O baque foi seco no pátio aberto. Rolou no chão e voltou a correr.
Jessiah veio logo atrás. Saltou e rolou, pousando como uma sombra.
Ao longe, Caelinus vinha atrás. Corria no limite. A cura mantinha o corpo de pé, mas os músculos protestavam a cada passo.
Chegou à beirada. Viu os dois sumirem no pátio.
— Não deixa ele escapar, Jessiah! — gritou, antes de se lançar no ar.
Caiu com força. Os joelhos dobraram, mas se ergueu no mesmo instante.
O ar pesou.
Passos ecoaram em todas as direções.
Das entradas ao redor do pátio, as figuras surgiram.
Eram dezenas.
Os mesmos berserkers. Corpos deformados por raízes e ossos. Olhos verdes em brasa. Um cerco perfeito.
— Droga... — murmurou Jessiah, sacando a espada.
Olhou em volta. Nenhuma rota livre. Todos os caminhos bloqueados.
Doo surgiu do meio da horda. Ria alto.
— As sementes do Rei Morto — disse ele, a voz vibrando entre loucura e triunfo — trazem a fúria da natureza para quem as aceita. Esses aqui são marionetes assassinas sob meu controle.
Ergueu a mão. As raízes nos corpos pulsaram.
Os monstros estremeceram. Rosnavam baixo. Todos voltaram a atenção para os dois paladinos.
— Um presente do Arquidruida para a cidade — continuou Doo, sorrindo. — E se dois fizeram o estrago que vocês viram... o que acham que dez mil podem fazer com a querida cidade de vossas excelências?
O chão tremeu.
A horda avançava.
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