Intangível Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 70: Aço contra raiz

Doo aterrissou com um baque seco. Rolou para aliviar o impacto. As pernas cederam por um instante.

— Merda... que se matem os dois — sussurrou, os braços sobre os joelhos. O suor traçava caminhos até o chão de pedra.

Olhou ao redor.

— Tenho que atrair aquele Caelinus primeiro... — murmurou, franzindo o rosto. — Aí eu mato um de cada vez.

Deu um passo trôpego. Depois outro.

— Esses paladinos são uma bosta de enfrentar.

Disparou na direção oposta.

Virou a esquina, enfiou-se num beco estreito, desviando de mercadores e transeuntes que sequer notaram sua presença.

— Vamos ver, aqui... — colocou a mão no peito, mas não parou.

Correu sem rumo por uma sucessão de vielas. Dobrou outra esquina e se escondeu atrás de um barril. Encostou a mão na parede, tentando regular a respiração.

— Acho... que despistei... — murmurou, a respiração ainda pesada. — Vamos ver se você é tão esperto assim pra me achar, Caelinus.

Suspirou. Tentou recuperar o fôlego.

Levantou a cabeça.

Uma sombra bloqueava a pouca luz no final do beco.

Jessiah estava ali, parado como uma estátua. A armadura brilhava à luz das cinco luas.

Doo arregalou os olhos.

— Não pode ser…

Deu um passo para trás, os dentes trincados.

— Você? — rosnou, sorrindo tenso.

Com um puxão rápido, sacou um pau de fogo da cintura. Apontou para Jessiah com as mãos trêmulas.

— Naquele dia vocês me tiraram tudo... — apertou o gatilho mágico. — Foi a última vez!

O disparo de essência mágica cruzou o beco. Jessiah rolou para o lado — desviou com facilidade.

Doo correu. Sacou outro pau de fogo e disparou novamente.

Jessiah ergueu a espada. A lâmina azul cintilante cortou o ar. O feixe ricocheteou no metal com um estalo, desviando para a parede. Uma marca chamuscada ficou no lugar.

— Droga! — murmurou Doo, ofegante, enquanto Jessiah avançava.

O paladino não disse nada. Os olhos fixos.

Doo girou nos calcanhares e fugiu outra vez.

— Agora são os dois juntos! Não vou... conseguir…

O coração parecia prestes a explodir. O ar entrava quente, seco, áspero.

Olhou para trás.

— E aquele Caelinus? Sumiu faz horas.

As botas de Jessiah ecoavam mais perto.

Tropeçou.

Caiu por cima de uma carroça de frutas. Laranjas e maçãs se espalharam.

Dois trabalhadores o encararam, atônitos. Um deles cerrou os punhos.

— Ei! Olha onde você... — chutou uma maçã longe.

Doo não respondeu. Levantou-se trôpego.

Jessiah se aproximava, implacável.

O suor misturava-se à sujeira do rosto. As pernas vacilaram.

Correu de novo.

— Vamos lá, pernas! Não me falhem agora! — gritou consigo mesmo, chutando frutas pelo caminho. Deixou algo pequeno e metálico para trás, sem nem notar.

***

Gorbolg firmou o escudo à frente do corpo. O calor da magia divina pulsava junto ao brilho dourado que envolvia sua armadura. O cheiro de sangue — de homens e feras — pairava pesado no ar.

Lutas isoladas ainda aconteciam nos arredores. Mas ali, naquele instante, era só ele e o druida.

— Mestre Hadrian, Mestre Mihael, Mestra Ledígia... guiem meus passos — murmurou, ativando o encantamento.

Sua espada ressoava com energia celestial, como se puxasse luz das próprias estrelas.

Jorno sorriu de canto. Os olhos brilhavam com um verde profundo. Sua presença se expandia, como se a própria natureza respirasse por ele.

Sem aviso, os músculos se contorceram. Ossos quebraram. Reencaixaram.

O corpo se expandiu como se rasgado por dentro. Em segundos, Jorno se transformou num urso negro colossal — presas como adagas, garras capazes de rasgar aço.

O rugido abafou por um instante o caos da guerra. Então ele investiu. Os passos arrancavam pedras do chão, deixando sulcos irregulares atrás de si.

Gorbolg se manteve firme. Plantou os pés. Ergueu o escudo.

O impacto brutal estourou o encantamento com um estalo seco, como vidro quebrando sob pressão. Mas o escudo físico resistiu. A pressão fazia os braços gritarem em protesto.

Ainda assim, não caiu.

— Nada mal para um mero selvagem — rosnou Gorbolg entre dentes cerrados, o sangue escorrendo de um corte no braço.

Jorno recuou dois passos. As garras deixaram marcas fundas no escudo. O sangue da fera pingava no chão. Os olhos brilhavam com inteligência predatória.

— Você profana esta terra com suas cidades, paladino — rosnou Jorno. A voz distorcida reverberava pela forma animal.

Gorbolg respirou fundo. Ignorou a dor. Levantou a espada.

A lâmina agora pulsava com luz intensificada pelo sangue inimigo.

— Sua corrupção será purificada pelo aço. Não importa o quanto a natureza se contorça em protesto. — Apontou a lâmina para o druida. — A civilização vai prevalecer!

Avançou sem aviso. A lâmina fez um arco no ar. Jorno recuou, reassumindo a forma original.

Conjurou uma lâmina de pedra e vinhas. Ela brotou entre os dedos como uma extensão da floresta.

As faíscas voaram entre os dois. O cheiro metálico se misturava à poeira e à seiva.

A cada golpe, Gorbolg murmurava palavras mágicas — quase inaudíveis sob o rugido da batalha.

— Vai precisar de mais do que encantamentos pífios pra me derrubar, Mestre Paladino — rugiu Jorno.

Lançou-se para mais um ataque, feroz e implacável. As patas traseiras ainda transmutadas desferiram um coice violento contra o escudo.

Gorbolg foi empurrado alguns passos para trás. Cravou os pés no chão. Firmou a base.

— Você é só mais um capítulo de superação nessa epopeia. Já falhou antes mesmo de começar, druida.

Com um golpe certeiro do escudo, empurrou Jorno para longe. O impacto o desequilibrou.

***

— Vem, vamos logo antes que alguém nos veja — o rapaz sussurrou, puxando a mão da garota com um sorriso malicioso.

Ela riu baixinho, olhando ao redor. — Você é louco... — respondeu, embora seguisse ao lado dele, sem resistir de verdade.

Os dois caminharam rapidamente pelas ruas escuras. Os passos abafados desapareciam no silêncio da noite. Ao se aproximarem do beco, ele a puxou mais para perto.

Abraçou-a pela cintura com a familiaridade de quem já havia feito isso antes. O ar estava carregado de excitação e perigo.

— Aqui ninguém vai nos achar — disse ele, baixinho, enquanto se encostavam à parede. Seus rostos quase se tocavam.

Os olhares se encontraram. O mundo parecia pequeno e quieto ali.

Mas, de repente, algo quebrou o clima. Uma figura alta e encapuzada surgiu apressada, quase colidindo com eles.

Doo passou como um vulto. Nem olhou para os dois. O empurrão fez a garota perder o equilíbrio, sendo amparada pelo rapaz no último segundo.

— Ei! — gritou o rapaz, mais frustrado que bravo.

Doo já se afastava. Levantou uma das mãos num gesto vago, como se jogasse algo no ar.

Nada aconteceu. Só uma tensão estranha ficou no ar.

O casal trocou olhares, confusos. — Que foi isso? — murmurou a garota, ajeitando a roupa.

Antes que pudessem reagir mais, outro homem se aproximou.

Jessiah surgiu com passos decididos. Os olhos penetrantes varreram os dois como lâminas.

— Vocês não deviam estar aqui. — A voz grave impôs autoridade. — Saiam agora. Este lugar vai ficar perigoso.

O casal trocou um último olhar. O medo tomou conta de seus rostos. Saíram rápido, sem dizer mais nada.

Num beco sem saída, Doo encostou as costas na parede. Respirava com dificuldade. O olhar se movia rápido pelos muros estreitos.

Um sorrisinho amargo surgiu ao fitar a entrada do beco. O paladino logo chegaria.

E então, como previsto, Jessiah apareceu. Os passos pesados ecoavam. A espada cintilava sob a luz das lâmpadas enfraquecidas.

— Acabou, Doo — disse Jessiah, frio e contido. — Você será julgado aqui e agora. Pelas grávidas explosivas. E pelo sangue dos meus companheiros. Sua punição é a morte.

Doo soltou o ar com força, um sorriso cínico no rosto. — Morte? — murmurou para si mesmo.

A mão procurava algo na bolsa. Dedos ágeis encontraram o necessário: uma corda mágica e uma varinha fina.

Ergueu a varinha, quase com desdém. — Vamos ver se você chega até mim vivo, paladino.

Num instante, uma bola de fogo surgiu. Iluminou o beco com luz feroz. A explosão avançou contra Jessiah.

Com um gesto preciso, o paladino ergueu a mão livre. Um campo de energia sagrada se formou.

As duas magias colidiram com um estrondo. Faíscas e chamas se debatiam contra a barreira.

Por um momento, parecia que o fogo venceria. Mas a bola de fogo se dissipou. A barreira permaneceu.

Jessiah deu mais alguns passos, firme.

Doo lançou a corda mágica para o alto. Ela flutuou, prendendo-se a algo invisível acima.

Sem hesitar, arremessou nova bola de fogo. Jessiah ergueu a barreira novamente. O fogo rugiu, contido pela magia.

Aproveitando o intervalo, Doo agarrou a corda. Com dois puxões rápidos, foi içado para o alto.

Desapareceu entre as sombras acima das construções.

No alto do telhado, caiu de joelhos. Respirava rápido. O olhar vasculhava os arredores.

Um alívio surgiu em seu rosto. — Um já foi... finalmente livre.

Mas antes que pudesse se mover, outra sombra pousou à sua frente.

Caelinus aterrissou com um salto preciso. Espada e escudo em punho. Sua presença bloqueava qualquer fuga.

O brilho da armadura refletia a luz das estrelas. Os olhos estavam fixos em Doo, implacáveis.

— Pensou que ia se safar tão fácil assim, Doo? — disse Caelinus, avançando com calma. A espada erguida, a voz firme como pedra.

***

Gorbolg flexionou os dedos na empunhadura da espada. O braço latejava. Sangue escorria.

Murmurou uma magia breve, quase inaudível. O brilho da lâmina e do escudo foi seguido por pequenos lampejos — encantamentos auxiliares, cada um pulsando em um tom diferente.

— Não preciso de nada mais do que isso... — murmurou, de cabeça baixa. — Vou queimar suas reservas mágicas enquanto tenta quebrar meus encantamentos, miserável.

Jorno, já de pé em sua forma orc, o observava com olhos faiscantes. Um verde fosforescente à luz da lua.

Ergueu os braços devagar. Uma aura escura o envolveu. Vinhas serpentearam pelos antebraços, e uma couraça viva se entrelaçou à pele, formando uma armadura orgânica e pulsante.

— Armamento da natureza — comentou Gorbolg, os olhos fixos no crescimento da proteção.

O silêncio caiu entre eles. Denso. A respiração de Gorbolg era contida. Jorno mantinha o corpo tenso, como uma fera à espreita.

Gorbolg avançou.

A espada cortou o ar num arco veloz. Jorno ergueu a lâmina de pedra e vinhas, mas não foi o bastante.

O impacto ecoou pelas ruas. A defesa natural de Jorno cedeu com um estalo úmido. A lâmina abriu o ombro, rasgando couro e carne.

Gorbolg girou o corpo. Atacou de novo.

Dessa vez, atingiu a perna. A energia celestial queimou o músculo com cheiro de sangue e seiva. Jorno rugiu.

Recuou, cambaleante. Os cortes, superficiais, já se acumulavam.

O peito arfava. O suor escorria pelas têmporas. Ele sorriu, os dentes à mostra.

Ergueu as mãos. As vinhas vibraram ao seu redor.

O chão estremeceu. Algo ancestral parecia despertar sob os pés.

— Não tão fácil, paladino! — rugiu Jorno.

A magia explodiu.

A onda selvagem subiu pelas pernas de Gorbolg e dissolveu os encantamentos como fumaça ao vento. Em seguida, o jogou para trás.

O corpo bateu no chão com um som seco. As costelas protestaram com dor aguda. O braço ferido quase cedeu. O sangue pingava dos lábios e manchava as pedras.

Gorbolg arfava. Cambaleante, apoiou-se na espada.

O suor deslizava pela testa. O rosto coberto de sangue. Mas os olhos continuavam fixos.

Jorno se aproximava com passos lentos. O tronco ereto. A tensão no olhar intacta.

— Vai se curar, paladino? — zombou Jorno, enquanto as vinhas ao redor pulsavam, absorvendo a força da terra.

Gorbolg cuspiu sangue. Limpou o rosto com as costas da mão.

— E você, druida? Vai se curar também? — disse Gorbolg, cortando as tiras do escudo com a ponta da espada. Sua mão agora estava livre.

Jorno franziu o cenho. Avançou um passo.

— Não preciso. Já estou de saco cheio disso. Vou acabar com essa luta agora.

Gorbolg soltou uma risada curta. Dolorida.

Endireitou o corpo o melhor que pôde. Jogou o escudo para longe. Empunhou a espada com as duas mãos.

— Concordo.

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