Volume 2
Capítulo 69: Sangue, aço e cinzas
O lobo pressionando o escudo atacou. As presas buscaram o rosto de Gorbolg.
Mas a lâmina já estava em movimento.
Ele cravou a espada no pescoço da fera antes que os dentes o alcançassem. O bicho tremeu, garras ainda raspando o escudo, até o corpo morto tombar sobre ele.
Gorbolg rolou para o lado, empurrando o cadáver com um grunhido baixo.
— Por que vocês sempre têm que vir em dupla? — resmungou.
O segundo lobo investiu.
Era o mesmo que havia arrancado a ombreira. Salto agressivo, patas abertas, baba pingando dos dentes.
Gorbolg subiu a espada em arco e o golpe pegou em cheio no peito da criatura. Sangue espirrou quente. O lobo girou no ar antes de cair, cambaleante.
Ao redor, olhos brilharam na sombra. Os lobos hesitaram. Gorbolg deu um passo atrás, escudo em posição.
Os lábios grossos se curvaram num sorriso torto.
— Vão me fazer suar mesmo.
Quatro lobos se adiantaram. O primeiro veio direto contra o escudo.
O impacto ecoou pela rua. Gorbolg afundou os pés nas pedras, mas não cedeu.
Outro tentou morder sua perna.
— Ah, esse aí foi burro.
A espada desceu como uma estaca. O crânio do lobo se rachou com um estalo seco.
Os dois últimos vieram juntos. As garras deslizaram pela armadura, arrancando faíscas. O som era de metal sofrendo.
Gorbolg puxou a espada do cadáver ainda contorcendo no chão. O bicho soltou um último gemido e parou.
Deu dois passos para trás. O peito arfava, mas os olhos não perdiam foco.
Um lobo surgiu pela lateral. Sorrateiro, veloz. Mordeu a coxa.
Os músculos do rosto saltaram. Gorbolg soltou um grunhido abafado, os dentes cerrados, as narinas abrindo com o esforço.
O sangue escorria em jorros vivos.
— Droga... — rosnou. — A coisa tá ficando feia.
Ergueu a mão. O símbolo em seu pescoço brilhou. Um círculo sagrado envolveu o chão sob seus pés.
A carne começou a se fechar, fumegando. A luz empurrou o lobo para trás com um chiado.
Enquanto curava os ferimentos, Gorbolg manteve os olhos nas sombras.
Um lobo saltou de cima de uma casa. Usou a parede como impulso.
— Mas como...
As presas cravaram no pescoço dele. O sangue jorrou quente.
O corpo de Gorbolg se curvou. Os joelhos tocaram o chão.
— Isso vai doer amanhã.
O círculo sagrado brilhou.
Uma luz furiosa envolveu o animal, que começou a derreter com um chiado. Carne virou fumaça. Os ossos estalaram antes de sumirem em pó.
Gorbolg apertou o pescoço com as duas mãos. O rosto tremia; os dentes cerrados, como presas trincadas pela dor.
A luz curava. Mas não sem custo.
— Tá funcionando... — murmurou. — Do pior jeito possível.
Ergueu-se com esforço, as mãos ainda ensanguentadas.
— Malditos... — sussurrou entre os dentes desproporcionais. — Essa foi por pouco.
Os lobos farejavam o ar, rodeando o círculo mágico sem cruzá-lo.
Um deles rosnou.
Gorbolg ergueu a espada.
— Eles já perceberam… Vamos ver do que são capazes.
Bateu a lâmina contra o escudo. O som ecoou pela rua.
— Venham!
Os olhos brilhavam na penumbra. Nenhum lobo recuou.
E Gorbolg também não. O escudo à frente, a espada em guarda.
Dois lobos saltaram ao mesmo tempo.
O primeiro cravou as presas no braço que segurava a espada, rasgando carne e malha. Gorbolg soltou um grunhido e esmagou o crânio da criatura com o escudo.
O segundo mordeu seu flanco, arrancando um rosnado mais profundo.
— Vai com calma, grandão — murmurou Gorbolg, girando a espada.
A lâmina brilhou com luz sagrada e arrancou a cabeça do bicho. Ela rolou até bater numa parede, as patas ainda arranhando o chão numa morte lenta.
Gorbolg respirou fundo, uma mão passando pela armadura manchada. O braço latejava. A coxa também.
— Tá começando a ficar interessante — disse, observando os próximos.
Cerca de dez lobos se aproximavam a galope. Mas uma dúzia de paladinos já esperava, escudos erguidos e bestas apoiadas.
Gorbolg adentrou a linha, conjurando algo com as duas mãos.
— Agora! — gritou. As bestas dispararam ao mesmo tempo.
Virotes cruzaram o ar com zumbidos finos, atingindo carne e peles espessas. Alguns lobos tombaram. Outros, só desaceleraram.
O choque contra os escudos foi brutal. Os paladinos estremeceram, escorando o peso das feras com esforço.
— Firmes! Força! — rugiu Gorbolg, caminhando ao longo da linha. — Eles são só cachorros grandes. Vocês aguentam!
Gorbolg ergueu o braço e apontou para o lobo mais próximo.
A mão brilhou com luz sagrada.
— Você primeiro — murmurou.
A fera avançou num salto. Quando tocou os escudos, explodiu em clarões dourados.
Uivou, cambaleou. As lanças cravaram fundo. A fera estremeceu e tombou.
Com o bando se espalhando, os paladinos largaram as bestas e sacaram espadas, lanças e machados. Cada um lutava à sua maneira — passos firmes, ombros erguidos, olhos arregalados.
Gorbolg manteve-se atrás da formação. Murmurava conjurações, os olhos atentos ao caos.
Um jovem paladino avançou demais.
— Espera... — disse Gorbolg. Mas já era tarde.
Um lobo o agarrou pelo braço e o puxou para fora da formação. Outro saltou por cima dos escudos. Mais dois surgiram logo atrás, rosnando.
Um companheiro tentou correr até ele.
— A gente precisa tirar ele daí! — gritou.
Deu dois passos, braço estendido.
— Fica na linha! — respondeu alguém, puxando-o de volta.
O escudo se fechou com estrondo.
O grito abafado do jovem soou mais alto por um instante — depois sumiu.
O sangue escorreu por baixo.
O garoto gritou, e logo o som virou carne rasgada.
— Não! — berrou um dos companheiros, dando meio passo à frente. Mas as garras já faziam seu trabalho.
Os escudos tremeram. Os gritos ainda ecoavam no ar.
Gorbolg fechou os olhos por um instante. Inspirou.
Depois estendeu o braço.
— Chega.
A voz soou densa, como um trovão contido.
Uma nova luz dourada envolveu outro lobo em meio ao salto. Quando a criatura cravou as garras num paladino, recuou atordoada, sufocada por uma força invisível.
— Mantenham a pressão! — rugiu um dos veteranos, espada larga em punho.
O aço golpeou o peito da fera.
Ela gritou, cambaleou e caiu de lado. As patas se contorceram até pararem de vez.
— Malditos! — rosnou outro paladino, ofegante, sangue na têmpora. — Quanto poder esses druidas ainda têm?
As formações vacilaram. O flanco exposto. Os corpos, cansados.
Então um estrondo ecoou.
Dois colossos metálicos emergiram dos becos. Construtos de aço, altos como torres, com juntas que chiavam a cada passo.
Um dos lobos atacou de frente, mordendo o braço de ferro. Dentes rangendo contra o metal.
O construto nem hesitou.
Segurou o lobo pelo dorso, girou o corpo no ar e o arremessou contra outros dois.
Os três foram lançados longe, como bonecos de trapo.
Gorbolg soltou um assobio curto.
— Sempre pontuais, esses rapazes.
Outro construto avançou com passos pesados. Um lobo tentou saltar sobre ele, mas foi recebido por um soco seco. O punho do colosso partiu o animal ao meio.
O corpo caiu em espasmos. Patas tremendo, a cabeça ainda tentando rosnar, até tudo cessar.
Mais adiante, outro construto esmagou uma fera sob o pé.
O som dos ossos estalou, abafado pela carne. A mandíbula da criatura ainda se prendia à canela metálica do construto quando a vida a deixou.
— Enfim... — Gorbolg suspirou, soltando os ombros. — Já era hora.
— Quangras! — disse um dos paladinos. Era a primeira vez que ria hoje. — Agora vamos ganhar!
A ofensiva dos lobos perdeu força. Os paladinos recuaram para reorganizar as linhas.
Alguns se ajoelhavam para curar colegas. Outros limpavam as lâminas ou consertavam os escudos.
Dois jovens paladinos, ainda ofegantes, se aproximaram um do outro. O peito arfava, os olhos varriam os becos.
— Não vi o senhor Caelinus. Nem o mestre Jessiah, desde o aeroplano... — disse a paladina, pressionando a mão sobre a ferida de um companheiro.
A cura brilhou sob seus dedos.
— Devem estar atrás de outros druidas — respondeu o rapaz. — Ou do mandante disso tudo.
O som ecoou seco, alto, como um trovão curto. Gorbolg se jogou à frente da paladina. O escudo subiu num reflexo quase instintivo.
O impacto fez suas pernas dobrarem. Mas ele não caiu.
— Doo... — rosnou entre dentes, encarando as lajes acima.
Uma silhueta desaparecia no alto da casa. Movia-se como fumaça.
— Delfin! — bradou Gorbolg, apontando o dedo. — Lá em cima! Devolva o disparo!
O paladino puxou o pau de fogo primo. Girou o corpo, mirou e atirou.
O clarão iluminou o telhado por um segundo. Mas já não havia nada ali.
Antes que Gorbolg pudesse ordenar qualquer coisa, um som pesado reverberou entre as pedras.
Um lobo gigante avançava. Crina eriçada, olhos cravados na linha de frente.
Nas costas dele, montado com firmeza, vinha um orc. Ombros largos, mãos cobertas por cicatrizes e musgo seco.
Saltou do lombo da fera com facilidade e caiu no meio dos construtos Quangra.
O impacto estremeceu o chão.
Ao tocar as pedras, ele fez um gesto.
Raízes negras brotaram do solo e do metal.
Começaram finas, como dedos, mas se multiplicaram em segundos. Estalaram por entre as juntas dos construtos com o som de ossos quebrando.
Em seguida, árvores inteiras explodiram para fora dos corpos encantados. Troncos subindo como espadas. Ramos se infiltrando entre os condutores arcanos.
— Isso é... isso é magia selvagem... — murmurou um paladino mais jovem, com os olhos arregalados.
Uma árvore atravessou um peitoral de cobre e se fincou no chão, arrastando a carcaça como se fosse nada.
Um construto tentou reagir. Mas seus membros foram torcidos como galhos secos.
Enquanto isso, o lobo corria em disparada na direção de Gorbolg. As patas martelavam o chão. Os músculos tremiam sob a pele espessa.
O paladino não se mexeu.
Levantou o braço, com calma. Um escudo invisível se formou diante dele — grosso, reluzente, moldado em energia divina.
O lobo não viu.
Atingiu a barreira com toda a força. O impacto quebrou ossos e lançou o corpo de lado, como um saco de carne.
A criatura uivou, o som atravessando a praça. Mas Gorbolg já caminhava.
O olhar seguia reto. Cada passo firme, inevitável. Como um sino de condenação.
Ao passar pelo lobo agonizante, ergueu a espada. A lâmina brilhou brevemente antes de cortar.
O sangue respingou nos calcanhares do paladino. O uivo cessou. Ele seguiu.
No centro da destruição, o orc se virou. As raízes ainda pulsavam sob seus pés, como se respirassem.
Com os escudos ainda erguidos, os paladinos observavam em silêncio. Um deles quebrou a quietude:
— Isso não é só mais um druida...
Outro deu um passo à frente.
Gorbolg estendeu o braço sem tirar os olhos do orc.
O grupo permaneceu onde estava.
— Mestre Gorbolg — disse ele, a voz ecoando como trovão abafado —, líder dos paladinos de Jillar. Eu vim para matá-lo.
Os olhos de Gorbolg varreram os arredores.
Paladinos ainda enfrentavam os últimos lobos. O terreno estava coberto de corpos. Fumaça, sangue e metal retorcido dos construtos destruídos.
— Cuidem dos lobos. — disse ele, girando a espada nas mãos, sem pressa.
O som do aço ressoou. Os olhos agora cravados no inimigo.
— Esse druida é meu.
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