Volume 1 – Arco 1
Capítulo 8: Aposta revanche
Lucca Massaro Monti, parte externa da prisão, 1340 D.M.
Dentre todas as coisas nesse lugar, a sala de visitas era a mais parecida com as minhas expectativas criadas pelos filmes.
Várias cadeiras fora da sala, com prisioneiros esperando serem chamados, uma parede de vidro separando o prisioneiro do visitante e divisórias brancas entre cada cadeira.
Se havia alguma diferença para se notar eram os telefones usados para falar, que foram substituídos por uma estatueta em formato de papagaio.
— Como que eu ligo isso?
— É só levantar ele para a altura da sua boca e falar — respondeu o guarda.
— Obrigado.
Eu já tinha uma ideia de quem era, mas decidi perguntar mesmo assim:
— Quem solicitou a visita?
— O primeiro filho do Barão Prykavyk Fortuna, Khajilamiv Fortuna e sua noiva, a filha do conselheiro ancião da guilda dos comerciantes, Selena Bravystrada.
— Então esse é o nome dela... Onde eles estão?
— Parece que houve um pequeno imprevisto, mas já estão a caminho.
Depois de dez minutos, os dois chegaram.
Eu pensava que eles viriam com roupas confortáveis para um lugar como esse, mas pelo contrário, eles vestiam acessórios ainda mais formais. Logo que os vi entendi o motivo, junto das expressões frias em seus rostos, essas roupas passavam um intenso ar de nobreza, mesmo sendo ambos bem novos.
— Que bom ver você saudável, Lucca — disse Khajilamiv.
— Que pena que não morreu ainda — disse Selena.
— O que?
— Olhe seus modos! Me perdoe, é que ela...
— Por sua culpa ele me obrigou a trabalhar sem parar, até nos fins de semana! E caso eu não aceitasse procurar por uma informação impossível que ele pediu, no próximo encontro ele não parava quieto até eu prometer que faria o que ele pediu.
E assim, o ar de nobreza foi quebrado em um instante.
— Talvez eu tenha passado do ponto, mesmo assim, era por um motivo importante!
Ele abaixou o telefone mágico e eu parei de ouvir, mas eles continuaram discutindo por um bom tempo.
— Deve ser difícil ter um casamento arranjado — tentei mudar de assunto.
— Que nada, mesmo antes de nossos superiores decidirem isso, já éramos bons amigos — disse Selena. — O problema foi ele ter te encontrado!
— Sendo mais específico, deve ser difícil ter um casamento arranjado tão cedo.
— No passado, quando as pessoas realmente se casavam nessa idade, até poderia ser difícil, mas atualmente nossos pais só pretendem seguir com isso quando passarmos da maioridade — disse Khajilamiv.
— Que bom... E nesse mundo seria com quantos anos?
— Quando eu fizer quinze anos!
— Retiro o que eu disse, isso ainda é cedo demais.
— Bom, culturalmente falando, depois da Santa se tornar influente sobre todo o mundo humano, seria um escândalo fazer qualquer coisa antes dos vinte anos, mas podemos discutir isso outro dia. Hoje viemos para falar sobre o seu julgamento!
— Desculpa, eu não iria conseguir prestar atenção no que você vai falar antes de tirar esse elefante da sala.
— Elefante?
— Uma expressão do meu mundo, pode continuar.
— Graças aos grandes esforços da minha noiva, conseguimos descobrir que no dia do seu julgamento final, um herói passará por perto daqui. Se conseguirmos entrar em contato com ele, certamente você será livre desse caso injusto!
— Como ele ajudaria no meu caso?
— É conhecimento comum que um herói identifica outro herói. Só com uma palavra dele, conseguimos virar esse julgamento!
— Pronto, já falou o que tinha que falar, vamos embora — disse Selena.
— Entendi, muito obrigado pelo seu trabalho duro, mas não precisa se forçar, nem sobrecarregar a sua noiva mais, agora que encontramos uma solução, até...
— Pelo contrário! Sempre devemos ter um bom plano B! Se só nos basearmos em só uma defesa e ocorrer um imprevisto com o herói, você pode ser morto por minha causa! Devemos estudar várias outras formas de te provar inocente.
— Se continuar jogando trabalho para ela, temo que mesmo saindo daqui, vou ser assassinado logo que pisar fora daqui. Descansem por enquanto.
— Mas...
— Ouviu ele? — E ela agarrou a parte de trás da gola da camisa do Khajilamiv e o arrastou embora antes dele ter tempo para protestar.
— Voltamos amanhã para discutir mais!
— Até... — disse, acenando.
Quando eles saíram da sala, eu coloquei o artefato de volta a base em formato de planta e me levantei para ir embora.
— Pode esperar aqui mesmo — disse o guarda. — Você ainda tem mais uma visita.
— Mais uma?
— O visitante quase foi barrado na entrada, mas como carregava o emblema de honra dos Fortuna, deixamos vir. Ele se identificou como Jonas, mas não carregava nenhum documento provando sua identidade. Você já o conhecia?
— Não que eu me lembre.
“Parece um nome da Terra... Mas Selena também. Só o nome dos homens nobres são estranhos nesse mundo?”
Enquanto conversávamos, a porta se abriu.
Ele vestia roupas simples, desgastadas e velhas, tinha um cabelo escuro e longo. Pela reação dos guardas, cheirava mau. Andava descalço, tinha várias cicatrizes de queimaduras em sua mão direita, essa que segurava firmemente um livro preto. Seus olhos eram cobertos por uma venda preta e pouco acima havia uma tatuagem de um olho, bem sinistro.
Como sua venda cobria seus olhos, era difícil de ler sua expressão, mas ele aparentava ser alguém sério.
— Você realmente é a cara do seu pai. — Senti meu estomago se revirar, logo na primeira frase dele.
— Como você conhece ele? — Inconscientemente comecei a coçar meus braços.
— Encontrei aquele covarde fugindo de sua missão.
— Que missão?
— Exterminar um dos reinos menores, mas não é isso que o fez um covarde.
— Qual a sua relação com ele? — Percebi que poderia estar mentindo, então retornei a uma pergunta mais básica. — Antes de responder essa, prove que conhece ele. Qual o nome?
— Alessandro Massaro Monti, estou certo? — Deixei escapar uma expressão surpresa e ele suspirou profundamente. — Eu fui enviado para ser o conselheiro dele, mas aquele idiota fez o oposto de todas as minhas sugestões. Espero que não tenha herdado esse traço desagradável.
Antes de seguir com as perguntas, tomei uma pausa para respirar.
“Nada de bom virá se me deixar ser levado pelas emoções.”
Quando pensei ter me acalmado, percebi que até agora ele estava falando sem usar o artefato. Olhei para meus arredores e ninguém percebeu, ou viram e não acharam nada demais.
Por algum motivo, isso me incomodou.
— Você foi enviado? Por quem? Os Fortuna?
— Por que está tão cauteloso? Ele falou mal sobre mim ou algo do tipo?
Aquele homem parecia suspeito demais, senti que nada bom viria de uma conversa com ele, então joguei o telefone e me levantei para ir embora.
— Tal pai, tal filho...
Quando fui abrir a porta, escutei o vidro se estilhaçando atrás de mim, mas ninguém da sala pareceu reagir. Me virei para olhar o que tinha acontecido, mas meu corpo congelou no meio desse movimento.
“Isso é uma habilidade ou magia?”
— Sistema, abrir... — disse isso no volume de parecer que estava apenas movendo os meus lábios.
[Erro]
“Por que eu ainda achei que esse inútil iria me ajudar em alguma coisa?”
O som de passos lentamente andando em minha direção, acompanhados de um canto em latim, me fizeram lembrar da última música que o Poeta havia cantado na noite anterior, pois o refrão das duas músicas soava bem parecido.
— Você é o santo dos marcados? — perguntei.
Ambos os sons pararam.
— Meu nome de batismo é Jonas, usei esse por ser menos conhecido e por causar menos alvoroço entre os guardas. Meu nome de nascimento é Labra e sim, santo dos marcados é o meu título mais famoso.
Senti um toque em meu pescoço, que foi se apertando até causar a dor de uma agulha, então ele continuou:
— Se lembre bem desse dia e ouça com atenção aos meus dois conselhos: de jeito nenhum deixe o herói que vai passar por aqui testemunhar para você e da próxima vez, siga direito o que eu mandar você fazer.
“Ele está me mandando perder propositalmente o caso e continuar preso? Que tipo de ameaça é essa?”
Os passos se distanciaram de mim.
Quando a porta se fechou, consegui voltar a me mover.
As unhas da minha mão direita estavam coloridas com sangue, ambas tremiam consideravelmente. Meu coração pulsava em um volume audível, minha respiração ofegante não se estabilizava de maneira alguma. Me mantive curvado, pois quando tentei me levantar, um som agudo e uma dor insuportável tomava conta.
Levei um bom tempo para me recuperar e quando consegui me levantar, olhei ao meu redor e por um breve instante vi todos os guardas parados em pé com os olhos totalmente brancos e para minha surpresa, o vidro estava completamente intacto.
Subitamente, o olho de todos voltaram ao normal e eles agiram como se nada tivesse acontecido.
— Lucca? A visita já terminou e não há mais ninguém esperando, pode sair.
“Isso pareceu real demais para ser uma alucinação, o que diabos aconteceu?”
Ao sair da sala um guarda já esperava por mim, me algemou e me guiou de volta para dentro da prisão.
— Herói, herói! — Logo que cheguei, antes mesmo de ter tempo para processar o que tinha acontecido, encontrei o Poeta correndo e gritando em minha direção. — Fizeram de novo! Teve outra tentativa de assassinato e dessa vez o chapéu dourado matou cinco!
— Cinco? Não me diga que um deles era...
— Felizmente nenhum deles era dos fujões, mas junto do pessoal que foi preso como exemplo... Pegaram o Brutamonte!
— Que droga. O que vai acontecer com ele?
— Depende do julgamento que vai acontecer semana que vem.
— Tem alguma coisa que eu posso fazer, já que veio para mim com tanta pressa?
— Você não disse que conhecia o filho de um Barão? Peça para ele subornar os guardas ou algo assim!
— Respira um pouco e toma uma água, que parece que você vai derreter. O Khajilamiv já me ajudou mais que eu poderia pedir, não tem como eu sujar o nome dele, o colocando em risco como agradecimento por isso.
— Ele é um nobre! Não tem como ele ser preso só por fazer um suborno para livrar alguém que não fez nada.
— Desculpa, mas isso não vai dar. Se quem sofreu o assassinato não tem nada a ver com a gente, até tem como eu pedir para ele buscar algumas evidências da inocência, mas nada que seja um crime.
O poeta desviou o seu olhar com uma expressão amarga.
— Não me diga que.
— Tentaram matar o Corvo dessa vez.
— Agora entendi. Esse caso é impossível de ganhar por meios comuns, não é?
— Apesar de ele ser o mais tranquilo entre a gente, só por ele ser um grandalhão e estar relacionado com o Corvo, já vão tomar isso como prova o suficiente se o Grão mestre resolver culpar ele...
— Isso tudo parece conveniente demais. Quando vocês me usaram de isca, vi várias pessoas que tinham alguma coisa contra vocês. Será que as tentativas de assassinato, na verdade, são distrações para incriminarem vocês?
— Também pensei nisso, mas se formos procurar todos os potenciais suspeitos de ferrarem a gente, já vai ter passado mais de uma semana.
— Mas se ficar só olhando tudo isso acontecer, é questão de tempo até eles acusarem você também.
— Tem certeza de que não pode pedir ajuda para o filho do Barão?
Bati nas costas dele e o convidei para dar uma volta, para esfriar a cabeça.
— Pare com isso. Você nem mesmo deve ter dinheiro ainda.
— Ainda dá tempo de eu escolher uma profissão?
— Vai fazer isso agora? Sério? — Ele empurrou meu braço e saiu irritado.
— Se continuar fissurado nisso só vai te fazer pior. Essa situação já está fora do nosso controle!
Pouco tempo depois dele ir embora, o Vibogo apareceu.
— Herói! Você ficou sabendo que...
— Sim, o Poeta já me contou tudo, menos sobre como o Corvo foi atacado.
Ele desacelerou sua corrida e ficou apreensivo por um tempo.
— Derrubaram um pedaço de metal de cima de um dos prédios que o Brutamonte estava, quando o Corvo estava caminhando por perto. Aqueles que trabalhavam na forja e tinham acesso a metal, foram imediatamente mortos e os outros que estavam no mesmo prédio foram presos.
— Isso não poderia ter sido só um acidente?
— Você já tentou acessar o teto do prédio?
— Ah, o culpado roubou a chave de um guarda?
— Exatamente. A chave roubada foi encontrada um andar para baixo do Brutamonte. Como ninguém seria burro o suficiente para perder isso no próprio andar, os principais suspeitos são os dos outros andares.
— Eu estava discutindo agora pouco com o Poeta que poderia ser alguém que odeia vocês tentando jogar a culpa desses assassinatos, mas depois de ouvir isso, até eu estou começando a me questionar se não foi ele mesmo. Quando cheguei aqui parecia que ele era mais rabugento que o normal com o Corvo.
— Posso te garantir que ele é pior com outras pessoas e nem por isso tentou matar ou agredir ninguém.
Enquanto andávamos em direção ao setor dos trabalhos, algo me veio à mente:
— Agora que eu me lembrei, você mesmo não me disse que tinha alguém sabotando as suas fugas?
— E o que tem a ver com isso? Também disse que não tinha como ser a mesma pessoa.
— Se reduzirmos as buscas para aqueles que entraram em contato com vocês no dia da fuga podemos com certeza checar todos os suspeitos. Aquele que armou o esquema de assassinato naquele dia pode não ser o mesmo do sabotador, mas se tivermos sorte podemos ao menos encontrar o grupo que os dois podem estar.
— Esse plano é meio torto, mas melhor que nada. Deixa comigo e com o Poeta que a gente consegue verificar isso pessoalmente.
— Não é perigoso irem direto falarem com eles?
— Se realmente estiverem juntos, pelas últimas ações deles, eles não teriam coragem de fazer nada a luz do dia, na frente dos guardas.
— Eu posso ir junto.
— Ir com você poderia ser ainda mais perigoso. Eles podem se sentir ameaçados por basearem sua força nos heróis dos contos e fazerem alguma maluquice. Além disso, você acabou de chegar e nem terminou de fazer todo o básico, vai arranjar um trabalho.
— E se decidirmos isso em uma aposta? — A feição dele mudou completamente.
— Qual tipo você quer agora? Repetir o mesmo jogo duas vezes não tem graça.
— Tem cartas aqui?
— Posso alugar no cassino, aí fica na conta de quem perder.
— Fechado.
Ele foi e voltou como se a aposta fosse sobre corrida e logo que chegou, começou a verificar as cartas, as separando por naipes, com o mesmo nome e símbolos quase idênticos com as da Terra.
— Conhece o truco? — perguntei.
— Não, pode me explicar? — Quando ele disse isso, eu sorri.
Depois de explicar as regras e chamar mais dois jogadores, ensinei a minha dupla alguns sinais e a partida começou.
1-0, 4-0, 4-1, 5-1...
Como esperado, foi um massacre unilateral.
— Por isso que prefiro os jogos que só dependem de sorte... — disse Vibogo.
— Então podemos ir lá?
Ele coçou o pescoço e inclinou a cabeça, dizendo:
— O Poeta já foi sozinho... Não achei que você ia ganhar.
— E quando que você encontrou ele?
— Quando a gente foi procurar outros prisioneiros para jogar, eu pedi para um amigo falar com o Poeta para já ir adiantando o trabalho... Olha, mas como foi culpa minha, eu posso oferecer outra coisa muito melhor, que milhares desejariam ter!
— O que?
— Três pedidos!
— Você é um gênio da lâmpada por acaso? Do que vai adiantar três pedidos aqui na prisão?
Ele me olhou confuso.
— Tudo bem, o meu primeiro pedido é mais cem pedidos!
— Isso não vale.
— Então uma tonelada de ouro maciço da mais alta qualidade.
— Peça algo mais razoável.
— Liberte o Brutamonte da prisão preventiva.
— Tudo bem.
— Sério?
— Só precisamos causar uma rebelião entre os presos, passar por uma multidão de guardas imperiais treinados e matar o grão-mestre que deve estar interrogando os presos.
— Se não consegue fazer nada agora, vou guardar esses pedidos para depois.
— Quem disse que eu estou brincando? Daqui a dois dias fazemos isso.
— Boa piada, vai lá com o Poeta que está te esperando e da próxima vez faça apostas que consegue cumprir.
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