Light Novel

Capítulo 45: Qualquer Um Pode Ser um Professor (3)

Tarde da noite, a escuridão da floresta ao norte não era gentil com os intrusos.

Para aqueles que chamavam a floresta de lar, como os animais selvagens que vagavam livremente ou Ed, que a tratava como seu quintal particular, aquele lugar poderia ser um ambiente familiar.

Mas, para Cleoh, era um mundo completamente desconhecido.

A cada vez que tropeçava ou ouvia o som da grama se movendo, um arrepio percorria sua espinha.

Mas, mesmo sentindo o coração disparar, ela continuou seguindo pacientemente Ed.

Eventualmente, o acampamento de Ed apareceu no final da trilha.

Não… O tamanho daquilo era grande demais para ser chamado de simples acampamento.

Naquele ponto, poderia até ser considerado um esconderijo.

— Q-Q-Que diabos é isso…?!

A fumaça saindo da chaminé da cabana completava ainda mais o cenário surreal.

O fogueira, bem no centro do espaço em frente à cabana, era cercada por um defumador, um varal de secagem, uma bancada de trabalho, uma caixa de ferramentas e outros equipamentos.

Em um dos lados, havia um abrigo de madeira que parecia extremamente resistente.

Do lado direito da cabana, havia uma árvore com uma rede de descanso presa a ela, além de pilhas de lenha organizadas em um depósito improvisado, feito com pregos e tábuas de madeira.

Havia também tábuas cortadas em tamanhos apropriados, encostadas na parede da cabana.

O cheiro e a organização do lugar eram tão familiares, tão próximos da vida cotidiana, que não parecia um esconderijo…

Era como uma casa de verdade.

Cleoh ficou completamente chocada, escondendo-se atrás de uma árvore.

Ed deixou o corpo ensanguentado do filhote de cervo perto da fogueira antes de jogar Lucy rudemente dentro do abrigo de madeira.

Ele então arrumou a saia enrolada dela e jogou uma bolsa de couro com pedaços de carne seca perto dela antes de se sentar ao lado do fogo, esculpindo pedaços de madeira.

‘Ela desmaiou…?’

Por mais preguiçosa que Lucy fosse, não havia como ela estar dormindo em uma situação dessas…!

Cleoh não sabia que Lucy era capaz de dormir em qualquer situação.

Na superfície, parecia que ela havia sido derrotada, sequestrada e arrastada até o esconderijo de Ed.

‘Ele… Ele conseguiu derrotar a Lucy…?!’

Lucy estava completamente imóvel, deitada no canto do abrigo, sem dar nenhum sinal de consciência.

— Ah, pensando bem… Tenho compromissos cedo amanhã.

De repente, Ed começou a murmurar sozinho, em voz baixa.

— Hah… Tenho tanto trabalho para resolver. Mas, para o bem da minha saúde, devo dormir cedo hoje. Hm…

Ele terminou de esculpir a madeira e apagou a fogueira.

Agora, apenas brasas fracas iluminavam a frente da cabana.

Pegando alguns panos para se cobrir, Ed entrou na cabana.

Uma luz tênue brilhou através da janela, onde ainda não havia vidro.

Não era difícil imaginar que ele já estava deitado, próximo ao fogo.

‘Eu… Eu preciso salvar a Lucy…!’

Cleoh não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas não podia simplesmente ir embora depois de vê-la ser levada daquela maneira.

Independentemente da situação, ela ainda era uma professora da academia.

Magia de combate não era sua especialidade, mas um mero estudante não deveria ser páreo para ela.

No entanto, ela não podia baixar a guarda.

Seria idiotice tentar enfrentar Ed diretamente, ainda mais considerando seu físico fraco.

Além disso, ele poderia ter algum tipo de truque ou arma secreta para ter conseguido derrotar Lucy.

A melhor opção seria se aproximar do abrigo com extrema cautela e fugir rapidamente carregando Lucy.

Dava para ver apenas pela aparência dela que Lucy era leve como uma pluma.

Mesmo sem precisar usar magia descaradamente, Cleoh deveria ser capaz de arrastá-la para fora sozinha.

Engolindo em seco, Cleoh começou a se mover lentamente, abaixando-se e caminhando com cuidado.

Ela se sentia tensa, sem saber quando a porta da cabana poderia se abrir ou quando Ed poderia aparecer de repente.

Para reagir caso algo inesperado acontecesse, focou toda sua concentração na ressonância do seu poder mágico.

Prendendo a respiração, se moveu em direção ao abrigo de madeira.

Ali estava Lucy, deitada de barriga para baixo, exalando como um bebê dormindo profundamente.

‘Devagar… O mais silenciosamente possível…!’

No momento em que se agachou e estendeu a mão para Lucy…

Whoosh!

Thud!

Aconteceu tudo em um piscar de olhos.

Lucy abriu os olhos de repente.

Reunindo poder mágico instantaneamente, ela explodiu a mão de Cleoh para longe.

— O quê?!

Cleoh soltou um grito curto de choque.

Lucy também ficou assustada, segurando seu chapéu de bruxa enquanto corria na direção da fogueira.

Ela olhou para Cleoh com olhos frios.

Naquele dia, ficou claro que não era um olhar amigável.

— L… Lucy…?

— Quem é você?

Se Lucy fosse um gato de rua, ela seria o tipo que não aceitava estranhos facilmente.

Gatos tinham sentidos extremamente aguçados, quase como animais selvagens.

Não importava o quão profundamente adormecidos estivessem, eram rápidos em reconhecer quando alguém que não tinha permissão os tocava.

No entanto, para Lucy não reconhecer que Cleoh era uma professora assistente, algo estava muito errado.

Mas isso acontecia porque Lucy vivia no próprio ritmo dela, completamente alheia a questões acadêmicas.

— Eu sou… Você é… Lucy…!

Antes que Cleoh pudesse continuar, Lucy fez o que sempre fazia, sumiu em um piscar de olhos, levando consigo o saco de carne seca do abrigo de madeira.

Ela foi tão rápida que, quando Cleoh finalmente processou o que havia acontecido, tudo o que restava eram algumas folhas balançando no lugar onde Lucy havia desaparecido.

— ……

O acampamento inteiro ficou em silêncio mais uma vez.

‘Primeiro, eu preciso sair daqui…’

Ed ainda não parecia ter notado a presença de Cleoh.

Ela não fazia ideia do que estava acontecendo, mas estava claro que Ed era suspeito, e isso era o suficiente para ela.

‘Tenho certeza de que encontrei alguma pista. O próximo passo é interrogar Ed depois que eu reunir algumas evidências sólidas.’

‘Até lá, preciso desvendar tudo isso com cuidado…’

Cleoh organizou seus pensamentos, assentindo para si mesma.

‘De qualquer forma… Ninguém sabe que eu estava nesta floresta, exceto Lucy! Enquanto isso, ninguém saberá!’

Na manhã seguinte.

— Ouvi dizer que a Professora Assistente Cleoh entrou na floresta ao norte ontem. Você a viu, Ed?

— Hm? Sério? Não a vi.

— É mesmo…?

Me encontrei com Yennekar cedo, em frente à praça dos estudantes.

Os bancos de madeira ao redor da fonte majestosa estavam completamente vazios.

O nevoeiro da manhã ainda pairava no ar, indicando o início de mais um dia letivo.

— Por que ela foi para a floresta ao norte? Você ouviu mais alguma coisa, Yennekar?

— Hmm… Não tenho certeza… Só ouvi isso por alto.

Ao ouvir o nome de Cleoh, senti um leve desconforto.

Ela não era uma personagem super influente, mas tinha um papel na trama.

E, pior ainda, era do tipo que se metia onde não devia por pura curiosidade.

Na segunda fase da Subjugação de Glast, ela não passava de um chefe fácil de derrotar.

Mas o importante era…

Ela teve um papel ativo no roubo do Selo do Sábio pelo Professor Glast.

A Professora Assistente Cleoh não era uma professora corrupta, na verdade, ela mesma estava cansada das atitudes de Glast.

Isso foi o que tornou surpreendente o fato de que, sem ser chantageada ou enganada, ela tenha aceitado ajudar no plano de Glast.

Na linha do tempo original, a explicação era de que ela apenas seguia as ordens do seu orientador…

Mas essa justificativa sempre pareceu fraca demais.

— Bom, talvez a escola apenas a tenha enviado para resolver alguma tarefa aleatória? Só fiquei preocupada que ela pudesse ter ido te incomodar sobre morar na floresta.

— Para começo de conversa, a escola nunca se preocupou muito com a floresta. Eles praticamente a deixam abandonada… Então, desde que eu não faça nada chamativo, devo ficar bem.

— Sim, você tem razão.

Yennekar sorriu, concordando.

— Sinto muito por te chamar tão cedo, Ed. Clara e Anise têm me pedido para parar de ficar fora até tarde da noite… Tenho voltado para o Dex Hall depois do toque de recolher, então levei algumas broncas ultimamente.

— Entendi… Bom, o acampamento e o Dex Hall são bem distantes um do outro. Deve ser cansativo para você continuar vindo à floresta.

— E-Ed…

Yennekar abaixou a cabeça, envergonhada.

Seus cabelos caíram sobre seu rosto, e ela falou timidamente.

— V-Você sabe que eu te visito no acampamento todos os dias… Pode manter isso em segredo dos outros, por favor…?

— Hm? Preciso mesmo?

— É que… Como posso dizer…? É meio vergonhoso admitir isso em voz alta… Mas eu tenho muitos amigos.

Era óbvio que ela se sentia envergonhada ao dizer isso.

Yennekar era a estrela dos alunos do segundo ano, a melhor da sua turma.

Ela devia se sentir exausta, tendo que cumprimentar todas as pessoas que encontrava no campus.

— Já que esse é o seu lar, eu ficaria me sentindo mal se começasse a encher de gente por minha causa. Heh.

— Entendo.

— Então, vamos manter isso só entre nós, ok? Qual o sentido de trazer mais pessoas para o seu acampamento?

Pensando bem…

Para alguém como Yennekar, que sempre foi extremamente sincera, o olhar constante das pessoas sobre ela deveria ser sufocante.

Ela não precisava se desculpar comigo.

Na verdade, ela só precisava de um lugar para descansar.

— Ainda acho que ninguém me vê com bons olhos na escola… Então, não é algo que você precisa se preocupar tanto.

— Mas ultimamente tem menos rumores ruins sobre você. Afinal, você só tem cuidado da sua própria vida, além de já ter ajudado muita gente.

Yennekar puxou o xale sobre os ombros, ajeitando-se antes de voltar ao assunto principal.

— Enfim! O foco! O motivo pelo qual nos encontramos hoje!

— Ah, sim.

Yennekar colocou sua varinha de carvalho ao lado do banco e abriu as mãos.

A energia mágica começou a rodopiar, enquanto pequenas faíscas surgiam no ar.

A chama ardente lentamente assumiu a forma de um pequeno morcego de fogo.

Ele então voou da mão dela, pousando no ombro de Yennekar antes de dobrar suas asas, assumindo postura.

— Este é Mugg, um espírito de fogo de baixo escalão. Quer tentar focar sua energia mágica para se comunicar com ele?

— Claro.

Fechei os olhos suavemente.

Após alguns segundos, abri novamente, olhando diretamente para o morcego de fogo.

Então, de repente, uma voz ecoou em meu ouvido.

[Prazer em conhecê-lo, jovem mestre Ed! Eu sou Mugg, um espírito de fogo de baixo escalão!]

— ……

E assim, minha primeira experiência real com Espíritos começava.

‘Que tipo de treinamento militar ele passou para agir assim…?’

— Yennekar… Uhm…

— Hm? O que foi?

Eu não conseguia perguntar seriamente para Yennekar, que sorria feito uma boba, se aquele espírito sempre agia daquela maneira.

Yennekar conhecia uma quantidade absurda de espíritos.

Foi por isso que pedi para ela me apresentar um bom espírito, um com quem eu pudesse fazer um contrato.

Sabia que não estava em posição de reclamar, mas…

— Já que você me pediu um espírito decente, escolhi um dos que já foram meus contratados antes. Além disso, ele é eficiente no uso de poder mágico. O processo de seleção foi… Bem, foi um grande processo, mas Takan cuidou de tudo.

— ……

— Bom, Takan disse que… Ele mesmo ‘daria um jeito’.

[É uma honra poder fazer um contrato com você, jovem mestre Ed! Meu coração está ardendo de paixão! Bem, meu corpo já está pegando fogo, mas prometo que queimarei ainda mais com determinação para te apoiar ao máximo!]

Na segunda ou terceira vez que joguei Silvenia’s Failed Swordmaster, comecei a evoluir minhas habilidades em magia espiritual.

Entre os espíritos que fiz contrato naquela vez, havia o espírito da água Cleo e o espírito do vento Pesci.

Mas, naquela época, não era bem essa a sensação…

Rir juntos, trocar brincadeiras, dar suporte em batalhas, e manifestá-los apenas para dormir sobre a pelagem deles…

Era definitivamente o sentimento de ter um companheiro próximo.

[Apenas me dê a ordem, jovem mestre Ed!]

— ……

Bem, não havia muito o que dizer sobre esse espírito, que claramente era uma elite entre os espíritos de baixo escalão.


[Habilidades Mágicas]

Grau: Mago Proficiente

Especialização: Elementos

Magia Comum:

  • Lançamento Rápido Nível 8
  • Percepção de Mana Nível 8

Magia de Fogo:

  • Ignição Nível 14

Magia de Vento:

  • Lâmina de Vento Nível 13

Agora pode aprender magia intermediária!

Magia Espiritual:

  • Ressonância Espiritual Nível 12
  • Compreensão Espiritual Nível 12
  • Manifestação Espiritual: Nível 1
  • Compartilhamento de Sentidos: Nível 1

〔 Espírito Contratado: Espírito de Fogo de Baixo Escalão - Mugg 〕

  • Nível de Ressonância: 2
  • Eficiência Espiritual: Boa

Habilidades Inatas:

  • Bênção da Fortuna do Fogo (Imunidade temporária ao fogo)
  • Explosão (Explosão de baixo nível)
  • Aprimoramento da magia de fogo

〔 Espaço para Novo Espírito: Vazio 〕


— Oh…? Está quente?

— Você consegue sentir o calor, certo? Quando você começa a ressoar com um espírito com quem fez um contrato, mesmo sem manifestá-lo, pode sentir sua energia física ou mágica. Se a ressonância for muito forte, pode acabar esquentando demais. Então, controle isso bem.

Não demorou muito para concluir o contrato com Mugg.

Com apenas um pequeno círculo mágico, fui capaz de selar o contrato com o espírito de baixo escalão.

Mugg pousou no meu ombro, o que me assustou por um momento, por conta do calor que irradiava de seu corpo.

— E-Então, se eu controlar o nível de ressonância… a ‘intensidade do fogo’ também muda…?

— É meio estranho chamar de ‘intensidade do fogo’… Parece mais uma máquina do que um espírito…

— Isso… Isso é…

Somente então levantei Mugg no ar, com uma expressão de puro entusiasmo.

[Hahaha. Isso me deixa envergonhado, jovem mestre Ed.]

Era um aquecedor portátil…!

O longo, longo inverno estava chegando…

Ele era algo que eu poderia manter grudado no meu corpo para liberar calor, dentro ou fora da cabana…

Uma ferramenta de sobrevivência.

Algo mais importante do que eu poderia colocar em palavras…!

Além disso… Ele nem precisava de lenha…!

Claro, em vez disso, ele consumia minha energia mágica.

Mas, devido à minha Ressonância Espiritual, a eficiência do fogo do espírito em comparação com a quantidade de poder mágico que eu usava para lançar ‘Ignite’ era como a diferença entre o céu e a terra.

Ressonância Espiritual era o nível de eficiência do consumo de mana ao se comunicar com um espírito ou manifestá-lo.

Quanto maior fosse sua ressonância, menos magia era necessária para invocar ou manter espíritos mais fortes.

Mesmo que sua capacidade inata de armazenar mana fosse baixa, com alta ressonância, você poderia manipular uma variedade maior de espíritos.

Devido a essa característica única, a eficiência da mana nos Elementalistas era completamente diferente da magia convencional.

Esse era o maior trunfo dos Magos Espiritualistas.

Claro, isso não significava que não consumia energia mágica.

Eu não poderia simplesmente manter Mugg ativado o dia todo, como se fosse uma caldeira.

Mas eu poderia usá-lo para me aquecer enquanto trabalhava ao ar livre no inverno ou dentro da cabana até o ambiente esquentar.

Se a lenha começasse a acabar, eu poderia usar Mugg temporariamente, equilibrando o consumo entre magia e recursos naturais.

Isso significava que eu poderia alternar constantemente entre fogo natural e poder mágico, dependendo da situação.

— Obrigado, Yennekar! Eu adorei! Vamos nos dar bem de agora em diante, aquecedor… Não, Mugg!

[Hahahahaha! Eu nem sei como reagir, vendo você tão feliz!]

Peguei Mugg nas mãos, girei no ar empolgado.

Fiz ele voar um pouco, testando a intensidade do calor ao ajustar o nível de ressonância.

Ao aumentar a ressonância ao máximo, o calor superava até o de uma fogueira.

Claro, isso consumia muita mana, mas com o tempo e treinamento, eu poderia melhorar ainda mais a eficiência.

Era completamente diferente experimentar um contrato espiritual na realidade do que simplesmente ver isso no jogo.

Será que sempre foi possível compartilhar sensações com o espírito contratado?

Com metade da mente cheia de admiração e a outra explodindo de animação, comecei a testar várias coisas com Mugg.

— Fico feliz em ver você tão animado, Ed. Você sempre parece tão sobrecarregado… Ver você sorrir assim me deixa feliz também. Hehe.

Yennekar ficou um tempo apenas me observando, sorrindo timidamente.

— Se precisar de mais alguma coisa, é só me avisar, Ed.

— Antes da minha primeira aula, posso te ensinar mais sobre ressonância e percepção espiritual. Vai ser mais fácil aprender na prática comigo.

— E, para você atingir um nível onde possa fazer um contrato com um espírito de médio escalão, devemos praticar combate espiritual também.

— Vou arranjar um tempo para alugar uma sala de treinamento!

— E… Uhm… Existem vários acessórios que aumentam a eficiência da ressonância… Eu tenho alguns no meu quarto, então… Da próxima vez que nos encontrarmos, eu posso trazer… H-Hyug!

Yennekar, que falava animadamente, de repente engasgou.

Parece que ela havia acabado de perceber algo.

Fechou a boca rapidamente, antes de soltar um longo suspiro e me encarar.

— Uhm, Ed…

— Sim?

— Na verdade… Eu sou ocupada! Sou uma pessoa muito ocupada!

Yennekar endireitou as costas, fechou os olhos e pigarreou, tentando parecer mais séria.

— Eu também sou a melhor aluna do nosso ano. Tem muitas pessoas esperando na fila para aprender comigo, sabia? Então… Vai ser difícil arranjar tempo! Hm!

— Entendo. Bom, faz sentido.

— Por isso, não acha que é pedir demais para eu ficar te ensinando magia espiritual…? Hm?

Ela continuou sorrindo, mas seus lábios tremiam levemente.

Era claramente… Um jogo de “empurra e puxa”.

Me perguntei se ela estava tentando imitar Lortel, mas…

No fim, tudo o que ela dizia era verdade.

Era fácil esquecer, já que ela passava todo dia comigo no acampamento, mas…

Normalmente, receber aulas particulares de uma Elementalista como Yennekar seria algo extremamente valioso e caro.

"É tão bom ter uma conexão pessoal valiosa", era o que eu pensava, enquanto não dava nada em troca para ela…

Eu tinha certeza de que havia passado do limite.

— Eu não tinha pensado nisso, Yennekar… Mas agora que você falou, é tão óbvio. Me desculpe. Eu tomei sua boa vontade como algo garantido.

— Ah, hm? Não, eu não queria que você se desculpasse assim… É só que a Clara continua me dizendo para… Tentar te pressionar… Não, espera, esquece isso…!

— Então… O que eu deveria fazer…? Não seria certo eu te pagar de alguma forma pelo seu tempo e esforço? Mas… Acho que não consigo te dar um valor adequado…

Mesmo assim, talvez ela pudesse me dar um desconto, já que éramos amigos… Certo?

Afinal, Yennekar sabia exatamente da minha situação.

Eu não tinha escolha a não ser pegar o caderno de anotações e calcular o quanto eu poderia gastar, enquanto também considerava meus gastos com a sobrevivência.

— O quê? Dinheiro?

Ao ouvir essa palavra, Yennekar arregalou os olhos, visivelmente chocada.

— Dinheiro?! Que dinheiro?! Ed! Você está em uma situação crítica, precisa se preocupar com sua sobrevivência! Como pode sequer pensar em desperdiçar dinheiro assim?!

— Você precisa economizar tudo! Não gaste!

— E nem pense em me pagar! Eu vou ficar brava!

— ……?

— Não acredito que você cogitou me pagar por isso… Isso é frio demais! Nós somos mais próximos que isso!

— Sério, você me deixa tão chateada!

— Mas… Não foi você mesma quem trouxe à tona a questão do custo, em primeiro lugar?

Yennekar ficou boquiaberta, como se tivesse levado um golpe crítico.

Parece que ao refletir sobre suas próprias palavras, ela percebeu que eu estava certo.

Eu não fazia ideia de como seguir o ritmo dela.

— O que há com você, de repente…?

Foi então que Yennekar finalmente decidiu confessar tudo.

— Foi porque a Clara me deu alguns conselhos… Ela disse que eu sou boazinha demais, que dou coisas de graça o tempo todo…

— Não, espera! Não é isso! Hm… Ah…

— Ela disse que eu preciso aprender a aumentar o valor do que eu ofereço para os outros…!

— Algo tipo… negociar melhor? Talvez parecer mais sofisticada?

— Eu preciso aprender a dizer ‘não’ quando for necessário… Preciso ser um pouco mais fria, desse jeito.

— Nada do que ela disse está errado. Eu também fico com medo de que um dia você possa ser enganada por alguém. Você tem uma amiga bem esperta.

— Certo, acho que isso faz sentido…? Mas… Eu… Eu simplesmente não consigo tratar qualquer um desse jeito…

Remexendo os dedos nervosamente, ela olhava para mim de canto de olho.

Mas, quando nossos olhares se encontraram, ela rapidamente desviou, surpresa.

— De qualquer forma! Eu explico melhor da próxima vez!

— Nos vemos na sala de treinamento de combate! Eu vou reservar e te aviso!

— Vou trazer um acessório legal também!

— E se precisar de um livro de ressonância para treinar, me fala!

— Agora eu preciso ir para a minha aula da manhã…! Tchau, Ed! Até mais!

Então, sem esperar resposta, ela saltou do banco e saiu correndo.

Eu nem tive tempo de dizer nada, então só pude observá-la se afastar rapidamente.

 

◇ ◇ ◇

 

Os rumores diziam que a situação financeira da academia estava apertada.

O Professor Glast estava sentado silenciosamente em seu laboratório, folheando suas pesquisas acadêmicas.

A magia celestial era um campo extremamente limitado, portanto, quase nenhum progresso era feito.

O estudo sobre Magia Celestial, que torcia e quebrava as regras da realidade, desafiando a verdade percebida, não havia avançado quase nada desde os tempos do grande sábio Silvenia.

Era praticamente impossível para qualquer estudioso tentar compreender completamente o Selo do Sábio.

Se a pesquisa acadêmica fosse um campo onde apenas alguns gênios escolhidos poderiam contribuir, então qual era o papel de um acadêmico como ele?

Será que seu único propósito era memorizar e sistematizar o conhecimento de seus predecessores, apenas para passá-lo às gerações futuras?

Professor Glast soltou uma risada sarcástica, se sentindo incomodado por seu próprio pensamento antiquado.

Ele percebeu que sua vida tinha se tornado confortável o bastante, a ponto de suas preocupações parecerem triviais.

Em qualquer caso, o papel de Glast estava claro.

Em um mundo repleto de lixo, ele seria aquele que encontraria uma joia rara de talento, alguém capaz de mudar o mundo para sempre.

Um talento tão brilhante que aceleraria o progresso da pesquisa, independentemente do campo.

Thud!

A professora assistente Cleoh Elpin rompeu o silêncio, abrindo bruscamente a porta do laboratório.

— Professor Glast!

— Você não vai bater antes de entrar?

— Desculpe, mas isso é urgente!

Cleoh saiu correndo novamente, fechou a porta, e então…

Toc, toc!

Professor Glast soltou um longo suspiro.

— Está bem, entre logo.

— Sim, senhor!

Cleoh entrou às pressas, carregando um monte de arquivos e uma bola de cristal.

Ela derrubou tudo sobre a mesa de Glast, sem se importar com a bagunça.

— Tenho algo para relatar! Isso é algo realmente grande! Se prepare para ficar chocado!

— ……

— Ed Rothstaylor! Você conhece esse aluno, Ed, aquele que foi excomungado?!?

— Eu não perco tempo memorizando os nomes de todo lixo sem talento.

— Aí vai você de novo, falando desse jeito! Apenas me escute primeiro!

Cleoh continuou gesticulando e fazendo barulho, batendo na mesa dele.

— Você conhece a Lucy, certo?! Lucy! Aquela que você tanto admira, Lucy Mayreel!

— ……

— Lucy foi derrotada por Ed. A ponto de não conseguir reagir!

— Não, o que quero dizer é… Eu estava suspeitando do Incidente da Ocupação do Ophelis Hall, então fui investigar mais a fundo… Não, antes disso, preciso explicar porque eu fui até a floresta do norte…

— Não há necessidade de continuar divagando, Professora Assistente Cleoh.

Ela tinha muitas coisas para dizer, mas, por estar tão empolgada, não conseguia organizar a história corretamente.

Professor Glast suspirou novamente, pensando que ela provavelmente agia da mesma forma diante dos alunos.

— O que estou tentando dizer é… Eu usei a magia de gravação de Pensamentografia no primeiro andar do Ophelis Hall!

— Magia de Pensamentografia? Você obteve permissão da escola?

— É claro que não!

— Fui até o departamento responsável pelos equipamentos mágicos de Pensamentografia, inventei uma desculpa e consegui um!

— Sério, é ótimo ser uma professora! Eles nem suspeitaram de mim! Nunca teria conseguido fazer isso antes de conseguir meu diploma!

— ……

A Magia de Pensamentografia era uma técnica de reencenação mágica que permitia reproduzir eventos passados ocorridos em um determinado local.

Como essa magia lidava com o conceito de tempo, ela consumia uma quantidade absurda de energia mágica, a menos que se utilizasse conhecimentos da teoria da Magia Celestial, um campo que ainda carecia de pesquisas aprofundadas.

A maior parte desse tipo de magia foi criada por arquimagos, que a incorporaram em artefatos mágicos altamente complexos.

No entanto, o preço de apenas um desses artefatos era equivalente ao de um prédio inteiro.

Além de extremamente caro, o método para usá-lo era complicado, por isso, a escola exigia permissão oficial para sua utilização.

Mas, Cleoh não se importou com isso.

Ela explorou sua autoridade como professora para usar o equipamento à vontade.

Embora o item não se desgastasse com o uso, era claramente um abuso de poder.

— Prepare-se para escrever uma carta de desculpas.

— Já sabia que você ia dizer isso, então escrevi uma com antecedência!

— Isso é algo para se orgulhar?

— Mesmo assim, quando você vir isso, vai reconsiderar! Aqui, olhe!

Cleoh ativou a esfera de cristal, preenchendo-a com a gravação da Pensamentografia.

— O departamento de investigação da escola nem sequer usou a Magia de Pensamentografia na investigação do caso!

— No começo, me perguntei por quê… Mas depois percebi que, como a confissão da governanta Elris foi tão clara, e os testemunhos no local eram todos consistentes, ninguém sentiu necessidade de ir além…

— Na verdade, a Magia de Pensamentografia nem sempre registra tudo com detalhes!

Cleoh continuou despejando informações sem parar, enquanto injetava mais poder mágico na esfera.

— Como é um equipamento mágico de engenharia extremamente complicado, seria ineficiente demais configurá-lo em todo o Ophelis Hall. Por isso, limitei a investigação a um único ponto!

— Era melhor usá-lo em um local específico do que tentar cobrir o prédio inteiro!

— E daí?

— Seguindo o testemunho de Taylee, que disse ter encontrado Ed no primeiro andar, eu configurei a Pensamentografia apenas no saguão principal do térreo!

— A configuração era complexa demais, então fiz tudo meio improvisado!

Não importava se você fosse um membro da equipe docente, havia um limite para o que podia ser feito sem aprovação.

Professor Glast já estava cansado da maneira impulsiva e direta de Cleoh, que sempre agia com base em sua intuição.

Se ele realmente acreditasse que havia algo suspeito, teria enviado o caso imediatamente para o comitê disciplinar.

Mas Glast não era esse tipo de pessoa.

Além disso, a academia já estava com falta de pessoal.

— E então?

— Veja isto! Eu consegui capturar o Ed!

— Trouxe a gravação rapidamente, já que a imagem não dura muito tempo.

A cena exibida na esfera mostrava o exato momento em que Ed estava sentado sozinho no saguão do primeiro andar, cumprimentando Taylee.

À primeira vista, parecia uma imagem estática, mas era possível ver claramente os pingos de chuva batendo na janela, provando que estava em movimento.

— Olhe para isso! Ele parece exatamente como um vilão das sombras, certo?!

— ……

— Você não consegue ver a maneira como ele está sentado?

— É como se ele estivesse dizendo: ‘Sou o mestre por trás de tudo isso…’

— ……

Professor Glast passou a mão no rosto, exausto, enquanto olhava diretamente para Cleoh.

— Isso é tudo…?

— Hã?!

— Estou perguntando se isso é tudo o que você trouxe, considerando que entrou aqui pisando forte e batendo a porta.

— Não, uhm… Eu também te contei que vi Ed carregando Lucy, que estava completamente desacordada…

— Lucy Mayreel é extremamente preguiçosa. Ela dorme sempre que pode e, quando adormece, não acorda facilmente.

— Tem certeza de que ele não estava apenas a carregando para outro lugar enquanto ela dormia?

Infelizmente para Cleoh, foi exatamente isso o que aconteceu.

— M-Mas quando eu a toquei, ela teve uma grande reação…!

— Isso não é surpresa alguma. Essa é a reação padrão da Lucy quando alguém a toca enquanto dorme.

— Ironicamente, você acabou de provar que ela estava, de fato, dormindo.

— Ah…! Não apenas isso! Ed também construiu algum tipo de refúgio para viver na floresta do norte…

— E pode me explicar exatamente o que isso tem a ver com a Ocupação do Ophelis Hall?

— Uhm… Isso é… Eu…

Professor Glast soltou um longo suspiro.

— Cleoh… Como já te disse antes, você tende a confiar demais em sua intuição e avança nas coisas sem refletir o suficiente.

Ela não tinha mais nada a dizer.

Ed certamente era um aluno suspeito, mas não havia provas concretas contra ele.

Ed já havia prestado seu depoimento sobre a ocupação.

O relatório era um tanto vago, mas, dadas as circunstâncias, fazia sentido.

O motivo de Ed estar no Ophelis Hall era porque tinha um compromisso pessoal com Yennekar.

Eles haviam combinado de se encontrar no jardim de rosas, na frente do prédio.

Yennekar também confirmou esse fato.

No entanto, ao perceber que algo estava acontecendo dentro do prédio, Ed entrou para verificar a situação.

Depois de julgar que o local estava perigoso, tentou impedir Taylee e seu grupo de forçar a entrada.

Claro, Ed acabou falhando.

O relato fazia com que ele parecesse apenas um veterano responsável, tentando impedir os calouros de se colocarem em perigo.

Bem… pelo menos era isso que o depoimento dizia.

Fora o comportamento estranho de Ed, não havia nada que desmentisse o testemunho.

Mesmo que Cleoh estivesse desapontada, isso era um problema completamente diferente.

— Aprenda a distinguir entre suas emoções e as evidências concretas, Cleoh.

— Uhh… Eu entendo… Peço desculpas…

No final, completamente derrotada, Cleoh abaixou a cabeça.

— Apenas traga sua carta de desculpas.

— Sim…

Sua empolgação desapareceu completamente, enquanto deixava o laboratório com um suspiro pesado.

Sozinho no laboratório, Professor Glast refletia…

Ele se recostou na cadeira, reunindo todos os arquivos.

Finalmente, pegou a esfera de cristal que Cleoh havia trazido.

A imagem mostrava Ed se levantando, parecendo estar em combate.

Um jovem que já foi chamado de Ed Rothstaylor, mas que agora era apenas Ed.

Professor Glast não se lembrava muito sobre ele.

O que significava apenas uma coisa…

Ed era alguém que nasceu sem talento.

A quantidade total de poder mágico que ele possuía parecia pequena, e o nível de magia que usava não era muito alto.

Ele era alguém que você poderia encontrar em qualquer lugar.

Alguém sem talento.

Quando ele ficou no caminho de Taylee, Elvira e Ayla, não foi coragem, mas sim imprudência.

Isso também estava registrado nos arquivos.

Ed tentou impedir Taylee e seu grupo, mas eles romperam sua barreira em questão de instantes.

Era simplesmente assim que o mundo funcionava.

Nada podia ser resolvido sozinho.

Professor Glast era o responsável pelos alunos do departamento de magia.

No entanto, também tinha observado os estudantes dos departamentos de Combate e Alquimia antes.

Embora não tivesse autoridade direta para avaliá-los, ele havia identificado alguns indivíduos talentosos entre eles.

Taylee, um jovem que nasceu para o caminho da espada.

Elvira, dotada de uma intuição natural para a alquimia.

Esses dois não eram pessoas que qualquer um poderia simplesmente parar.

Considerando isso, Professor Glast continuou observando a esfera de cristal.

Ele queria reafirmar os talentos de Taylee e Elvira.

Glast era um homem que gostava de descobrir talentos.

Assim como um joalheiro examina pedras preciosas, ele analisava os alunos para determinar seu verdadeiro valor.

— Ohhh…

Professor Glast continuou assistindo por um longo tempo a batalha entre Ed e o grupo de Taylee.

— ……

Após um tempo, Professor Glast segurou o queixo, mergulhando profundamente em seus pensamentos.

Preso em uma reflexão intensa, ele permaneceu imóvel por um longo tempo.

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