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Capítulo 33: A Ocupação do Salão Ophelis (3)
— Amanhã será o início do segundo semestre.
Enquanto treinava sozinho em seu quarto, Ziggs Eiffelstein percebeu, de repente, que um bom tempo já havia se passado.
Ao olhar pela janela, a chuva torrencial lá fora não ajudou a levantar seu ânimo.
Devido ao clima chuvoso dos últimos dias, ele não pôde começar o dia com sua corrida matinal, e as condições não estavam boas para treinar sua magia ao ar livre.
Seu plano de treinar o máximo possível durante as férias foi arruinado.
Ele havia planejado desenvolver habilidades básicas para acompanhar o ritmo da turma, mas ainda sentia que tinha um longo caminho pela frente.
O currículo do Professor Glast para a Turma A era bastante desafiador para Ziggs, que não tinha talento natural para o aprendizado.
Lucy estava fora de questão, pois resolvia qualquer problema apenas com sua magia avassaladora.
Em vez disso, ele queria observar e aprender com Lortel, com seu uso preciso e eficiente da magia, além de sua capacidade de resolver problemas e se adaptar rapidamente.
Embora Ziggs estivesse à frente de Lortel em combate real, ele estava muito atrás dela quando se tratava de habilidades de sobrevivência em sociedade.
— Preciso parar de deixar minhas emoções nublarem meu julgamento…
Ziggs soltou um suspiro pesado.
Sua companheira, Elka, ficou genuinamente irritada quando ele espancou Totte em um momento de fúria.
Era raro Elka se irritar com Ziggs.
No fim, foi Ziggs quem teve que se desculpar com Totte, mesmo que sua raiva ainda não tivesse desaparecido completamente.
— Hm?
De repente, ele avistou um rosto familiar no jardim, através da chuva forte.
Usando um manto, a pessoa correu através da tempestade e entrou no Salão Ophelis.
Era definitivamente o cara que morava na cabana na Floresta do Norte.
— Ele não foi expulso? Se está tentando invadir o Salão Ophelis, as criadas vão simplesmente expulsá-lo…
Ele ficou preocupado que aquele sujeito pudesse se machucar à toa, mas… já o conhecia bem o suficiente.
Por isso, não precisou se preocupar tanto com algo assim.
Ziggs se recostou na cadeira e desviou o olhar da janela.
Assim que se abria a porta principal do Salão Ophelis, via-se o grande salão do primeiro andar.
Sempre que um estudante entrava no dormitório, a criada responsável pela entrada verificava rapidamente sua identidade antes de permitir sua entrada.
A menos que estivessem usando o broche vermelho, dado apenas para os estudantes permitidos no Salão Ophelis, não era possível entrar.
Além disso, as criadas memorizavam o rosto dos 53 alunos residentes do dormitório, então ninguém podia enganá-las.
— Você deve ser Sir Ed? Recebi uma mensagem da governanta-chefe.
Originalmente, eu deveria estar parado na chuva, diante de uma entrada fechada.
No entanto, hoje o Salão Ophelis estava aberto.
Kelly, a criada encarregada da lavanderia.
Ela tinha uma estatura pequena e vestia um uniforme simples de criada inferior.
Ela era um dos chefes intermediários no evento da Ocupação do Salão Ophelis.
Não havia nenhuma chance das criadas leais do Salão Ophelis participarem voluntariamente da ocupação.
No entanto, Shaney e Kelly, que foram treinadas e criadas pela Governanta-Chefe Elris, eram diferentes.
Elas foram persuadidas por Elris a participar do plano.
Shaney, que empunhava um florete, seria a vanguarda.
Kelly, com sua habilidade decente em magia básica, controlaria os corredores.
No jogo, você encontraria ambas no terceiro andar como inimigas, mas, honestamente, não eram tão difíceis de lidar.
Bastava derrotar Kelly, que era a principal fonte de poder ofensivo, e então ficaria muito mais fácil avançar.
Bem, isso era algo que Taylee cuidaria mais tarde.
— Teria sido um desastre se você tivesse chegado mais tarde. Vamos trocar de turno em breve.
De qualquer forma, Kelly ainda estava encarregada da entrada.
Como havia sido instruída previamente, ela me deixou entrar no Salão Ophelis.
— Em breve, trocarei de lugar com outra criada para cuidar de minhas tarefas. Celara pode ser apenas uma criança, mas é a nova criada.
— Ainda assim, acho estranho uma criança ser responsável pela entrada principal.
— Identificar e permitir a entrada de pessoas não é um trabalho difícil.
Ela apontou para um artefato mágico ao lado da porta.
— Em caso de emergência, há um artefato de comunicação direta com a governanta-chefe… mas hoje ela não responderá.
Assenti com a cabeça.
Eu me esconderia dentro do salão e, quando chegasse a hora, derrotaria a criada de plantão e abriria as portas.
Então, os estudantes de nível mais baixo entrariam e subiriam as escadas.
A essa altura, a Governanta-Chefe Elris já teria ativado o Círculo de Defesa do Salão Ophelis.
Isso selaria todas as portas dos quartos, isolando os estudantes dentro.
Minha única tarefa seria percorrer o primeiro andar e verificar se a magia estava funcionando corretamente.
Depois disso, voltaria ao grande salão do primeiro andar e esperaria por Taylee.
Na linha do tempo original, os personagens que superariam esse evento seriam Taylee, Ayla, Elvira e Clevius.
No entanto, Clevius só se juntaria ao grupo no segundo andar, então, por enquanto, eu só precisava lidar com os outros três.
— E as outras criadas?
Olhei para o corredor vazio enquanto questionava Kelly.
— Tirando o pessoal essencial, a maioria delas se reuniu na sala de conferências. A governanta-chefe as reuniu lá, dizendo que havia um assunto importante a ser discutido.
Ela planejava colocá-las todas na sala e selar a entrada.
Como esperado, quando a líder do grupo já está recrutada, o plano se torna rápido e simples.
— Preparei as coisas que você pediu.
Kelly gemeu ao trazer uma bacia grande para perto da entrada.
O recipiente estava cheio de um líquido espesso.
— Ah, obrigado.
— Deixo no canto?
Assenti com a cabeça e olhei para o hall.
Sendo um edifício tão luxuoso, a entrada já era glamorosa por si só.
O chão de mármore no hall principal estava brilhando de tão limpo.
O teto era incrivelmente alto, o que dava a sensação de ainda estar ao ar livre.
Um lustre magnífico pendia do teto, rodeado por vários outros menores.
Parecia que estrelas decoravam a lua.
Ao caminhar pelo centro do salão, era o tipo de lugar que fazia qualquer um se sentir solitário.
As vitrines decorativas alinhadas na parede, até mesmo a porta de pedra que levava aos corredores, eram antiguidades valiosas.
— As paredes e o chão são todos de mármore.
Definitivamente, era um lugar extravagante.
Já havia visitado esse local antes pela perspectiva de Taylee, no decorrer da história principal, mas ver pessoalmente era completamente diferente.
Abri a porta de uma vitrine num canto do salão e guardei algumas das coisas que preparei.
Após memorizar a estrutura e a localização de diversos pontos do hall, assenti e fiz uma estimativa aproximada do que aconteceria a seguir.
De acordo com a linha do tempo original, a luta contra o chefe do primeiro andar não era nada especial.
Apenas levava um pouco de tempo.
O objetivo principal era apenas atrasar um pouco Taylee antes que ele seguisse para a batalha do segundo andar.
Depois disso, o restante provavelmente se desenrolaria sem grandes problemas.
O chefe do segundo andar era "Clevius Sombrio".
Esse evento consistia em perseguir Clevius, que derrubava uma parede em puro desespero, pois tinha medo de ficar sozinho, mesmo que, até aquele momento, nada realmente grave tivesse acontecido.
Era um cenário em que Clevius insistia que iria fugir, mas acabava sendo subjugado e forçado a se juntar ao grupo.
Até ouvir Clevius derrubar a parede, meu trabalho era ganhar tempo.
Minha função era garantir que o momento do evento ocorresse na sequência perfeita.
Tive que admitir…
Havia algo que percebi durante a luta contra o chefe do Ato 1:
O efeito borboleta era completamente imprevisível.
A verdade era que tentar controlar todas as variáveis do mundo era apenas pura arrogância.
Por isso, assim que a luta no primeiro andar terminasse, eu iria até o Jardim das Rosas e observaria tudo até o fim, com meu plano de contingência: Yennekar.
Dessa forma, poderíamos reagir imediatamente caso ocorresse alguma anomalia.
— É uma oportunidade para avaliar as capacidades de Taylee.
Se suas estatísticas não fossem suficientes para concluir este evento, seria um grande problema.
Especialmente porque o chefe final do Ato 2, "Inquiridor Glast", era um oponente infernal.
Sua Magia Celestial e maldições faziam a vítima sentir como se estivesse sendo perfurada por estiletes constantemente, até quebrar psicologicamente.
Era difícil enfrentá-lo sem ter atributos e força mental bem treinados.
Certifiquei-me de colocar todos os itens que preparei dentro da vitrine e então fechei a porta com um estalo seco.
Depois disso, tudo correu sem problemas.
Enquanto me escondia entre os armários do salão principal, pouco depois das oito da noite, a nova criada e Kelly trocaram de turno na porta de entrada.
— Não vamos mais aceitar esse tratamento!
— Esta é uma terra de aprendizado! Pelo menos garantam igualdade nas notas!
— Respondam às nossas vozes!
Os gritos dos estudantes de nível mais baixo e médios ecoavam pela entrada principal.
Eles estavam reunidos em frente ao Salão Ophelis, bradando suas reivindicações.
A pessoa que liderava tudo era o representante dos estudantes de nível mais baixo, Willain.
Ele tinha cabelos loiros curtos, óculos de armação fina, e seu manto marrom-acinzentado já estava completamente encharcado pela chuva.
O Salão Ophelis simbolizava a nobreza e o privilégio dos estudantes mais influentes de Silvenia.
Agora, aqueles estudantes marginalizados estavam sentados à frente desse símbolo, estudando como se fosse sua sala de aula.
Originalmente, isso deveria terminar apenas assim.
Eles não tinham outra opção, além de expressar sua insatisfação e ressentimento dessa forma.
Isso porque a porta principal do Salão Ophelis estava trancada.
— Euaaah! O que é isso?! Preciso avisar a governanta-chefe…!
A nova criada, assustada com a situação repentina, tremeu enquanto procurava o artefato mágico que havia recebido.
Aproveitando sua confusão, rapidamente saltei atrás dela e cobri seus olhos com um lenço.
— Ughaahk! O que está acontecendo?! Quem é você?!
Levantei a criada vendada sobre meu ombro, segurando firmemente seus pulsos com uma mão para que ela não conseguisse soltar o lenço.
Com a outra mão, destranquei a porta principal e dei um chute forte para abri-la.
— Huuuuuuuuuuh?!
— O-O QUÊ?!
Os estudantes reunidos ficaram atônitos diante da repentina mudança na situação.
Mas então…
— A porta do Salão Ophelis está aberta! Vamos entrar!
O representante Willain gritou, e a multidão irrompeu pelos corredores do Salão Ophelis.
— O escritório da administração fica no quarto andar! Vamos tomá-lo e emitir nossa declaração!
— Vamos fazer nossas vozes serem ouvidas!
— Tratamento igualitário! Não queremos muito, apenas igualdade!
— Vamos lá! Vamos mostrar nosso potencial!
Observei a multidão de estudantes avançando enquanto ainda segurava a criada.
— Você… Você é Ed Rothstaylor?
O estudante do terceiro ano Willain, que estava liderando o grupo, reagiu ao me ver.
Parece que até os veteranos já conheciam meu nome.
— Foi você quem Lortel contratou…?!
— Sim. Estou encarregado da vigilância do primeiro andar."
— Mas por quê…?
Usei as falas que havia preparado de antemão.
— Havia algo nas suas palavras que realmente me fez refletir. É verdade que eu vivia confortavelmente no Salão Ophelis… mas quando fui expulso, percebi o quão privilegiado eu era.
— Ed Rothstaylor…!
— Só agora eu percebi! Tudo que você disse estava certo…! Até ser expulso, eu fazia parte da classe privilegiada. Por isso, não conseguia compreender o que vocês sentiam. Agora, preciso provar isso com minhas ações!
Diante das minhas palavras, as mãos de Willain tremeram de admiração.
Ed Rothstaylor era um homem que já havia vivido no topo, mas ao ser expulso, pôde finalmente enxergar os privilégios que antes tomava como garantidos.
Quanto mais humano se tornava, mais percebia as vantagens que antes nem considerava.
— Isso é incrível! Você realmente contribuiu para nossa luta pela igualdade! Eu havia ouvido rumores sobre você e acabei julgando errado…!
— De jeito nenhum. Eu era uma pessoa horrível. A única coisa que aconteceu foi que fiquei tão impressionado com suas palavras que fiz o que pude! Tudo isso foi graças a você, Willain.
Respondi rapidamente, instigando Willain a seguir com o plano.
— Por favor, suba imediatamente. Você precisa ir ao escritório da administração no quarto andar para emitir a declaração!
— C-Certo! Obrigado pela ajuda!
Willain era o único que assumiria toda a responsabilidade assim que este incidente chegasse ao fim.
Ele sofreria uma punição severa por incitar os estudantes e incentivá-los a violar os regulamentos da academia.
Se todos os alunos envolvidos fossem punidos severamente, a escola nunca voltaria ao normal.
Por isso, usariam a punição de Willain como exemplo.
Os estudantes que apenas participaram de seu plano seriam considerados vítimas de sua influência.
Por isso, receberiam penas mais leves, sendo apenas culpados por terem sido persuadidos a agir de forma destrutiva.
Não era benéfico para mim receber uma punição desnecessária, mas considerando a importância de 20 moedas de ouro e a necessidade de manter a linha do tempo fluindo corretamente, era um risco aceitável.
Por isso, o mais importante era continuar repetindo.
— Só estou agindo porque fui tocado pelas palavras de Willain!
— Apenas estou seguindo os objetivos de Willain!
Eu precisava garantir que toda e qualquer responsabilidade que recaísse sobre mim desaparecesse o máximo possível.
Mas, na verdade, Willain não tinha a intenção de destruir o Salão Ophelis.
Seu plano era apenas ocupar pacificamente o dormitório e então emitir uma declaração oficial… Mas as coisas nunca acontecem como planejado.
‘Eu… eu sinto muito, mas… não importa o que eu faça, estou em uma posição que levará a uma punição severa… então não tem problema só aproveitar a onda, certo…?’
— Suba rápido, Willain.
— Certo. Não vou me esquecer de você, Ed! Você é o melhor dos mais novos…!
‘Me desculpe!!!’
‘Fique firme, Willain…!’
A luz suave que emanava do círculo mágico preenchia o corredor escuro.
Na entrada de cada quarto, a magia defensiva estava funcionando perfeitamente.
— O que diabos está acontecendo lá fora?! Será que é seguro apenas ficar no meu quarto?
— Tem alguém aí? A porta não abre. Eu… eu posso quebrá-la? Parece cara, no entanto…
— Vi vários alunos entrando pela janela, mas que diabos está acontecendo?
— S-se eu apenas esperar, tudo voltará ao normal, certo? Não é nada grave, não é?
Enquanto cruzava o corredor, ouvi as vozes confusas dos estudantes presos em seus quartos.
O primeiro andar era ocupado principalmente pelos alunos do terceiro ano.
Verifiquei cada quarto com atenção para garantir que não havia círculos mágicos faltando.
Se a história seguisse como na linha do tempo original, então não haveria falhas no círculo mágico.
Mas, mesmo assim, queria confirmar isso com meus próprios olhos.
Após cerca de quinze minutos de inspeção, voltei para o salão do primeiro andar e me deparei com algo que não queria ver.
Lá fora, além do grande portão escancarado, a chuva continuava caindo pesadamente.
Não vi sinal da nova criada em lugar algum.
Provavelmente ela foi relatar a situação aos superiores… Infelizmente para ela, todos deveriam estar trancados na sala de conferências do quarto andar.
O chão de mármore, que sempre fora mantido brilhando de tão limpo, agora estava completamente sujo pelas pegadas enlameadas dos estudantes que invadiram o salão.
Algumas estantes e prateleiras haviam sido derrubadas.
— Oh… Isso começou de forma muito mais impressionante do que eu imaginava.
A garota passou pela forte chuva e entrou no salão, sacudindo as roupas molhadas.
— Como esperado de você, Ed. Fico feliz por ter confiado em você.
Ela sorriu enquanto tirava o manto encharcado. Ao abaixar o capuz, sua pele clara e pura ficou à mostra.
— Eghk! Minhas meias também ficaram encharcadas. É por isso que odeio dias chuvosos.
— Então você estava observando do lado de fora, Lortel.
— Não podia avaliar se a situação estava indo bem ou não se ficasse presa no meu quarto. Além disso, precisei garantir que os alunos estivessem reunidos lá fora. Mas não esperava que chovesse tanto. Eghk. Até aqui dentro está molhado.
Lortel sorriu como uma raposa enquanto retirava o manto e o sacudia.
Suas roupas casuais, um vestido branco simples e uma saia, estavam completamente encharcadas. Pareciam horríveis.
Ela pegou os cabelos castanho-avermelhados, que estavam soltos de forma incomum, e os apertou com uma mão para retirar o excesso de água.
Com a outra, enrolou o manto molhado após sacudi-lo.
— Se o corpo docente da escola interferir, seremos derrotados rapidamente. Temos que agir antes que isso aconteça.
— Certo. Trabalhe duro.
Lortel sorriu enquanto terminava de se ajeitar e seguiu pelo corredor.
Provavelmente estava indo para o quinto andar para discutir os próximos passos com Elris.
A situação ficaria ainda mais intensa assim que eles entregassem o círculo mágico, que envolvia o Salão Ophelis com magia defensiva, para o representante dos estudantes de nível mais baixo, Willain.
Nesse momento, Willain se tornaria o chefe do quarto andar, agora cercado pelos incontáveis círculos mágicos defensivos que protegiam o Salão Ophelis.
De acordo com o enredo, o jogador era forçado a derrotar Willain o mais rápido possível, pois ele perderia o controle, sendo consumido pelo caos dos círculos mágicos fora de controle.
— Ed, posso te perguntar algo meio aleatório?
Como se tivesse tido um pensamento repentino, Lortel parou no corredor e me dirigiu a palavra.
A pergunta que fez foi inesperada.
— Você já matou alguém?
A voz de Lortel mantinha o mesmo tom animado de sempre, mas, de repente, o ambiente parecia tão sombrio quanto o clima lá fora.
Franzi a testa. Lortel soltou uma risada antes de sorrir e virar as costas para mim.
Seus cabelos castanho-avermelhados, ainda molhados, caíam até os ombros.
— Eu não.
— Nem eu. Haha.
Então, como se estivesse fazendo uma confissão, Lortel continuou falando.
— Mas… já fiz muitas coisas parecidas.
O passado de Lortel estava longe de ser limpo.
Todas as trapaças e fraudes que Lortel havia cometido enquanto fazia parte da Companhia Elte eram ações que, no final, resultavam na ruína de alguém.
Não chegavam a ser crimes comparáveis ao assassinato, mas estavam alinhadas com o ato de acabar com a vida de outra pessoa.
Lortel sabia disso melhor do que ninguém.
— No começo, eu só queria sobreviver.
Para sobreviver em uma realidade que parecia um caminho cheio de espinhos, apunhalar outra pessoa pelas costas parecia algo natural.
Nas primeiras vezes, talvez viesse um sentimento de culpa. Mas logo ele desaparecia.
Depois de aceitar o título honroso de "mercadora rica", de repente havia uma infinidade de pessoas que precisavam ser pisoteadas.
O mundo estava cheio de indivíduos que, sempre que tinham uma oportunidade, enfiavam uma faca no próprio coração.
Depois de chegar tão longe, Lortel começou a se perguntar se havia vivido a vida errada.
Ela destruiu a vida de outras pessoas para sobreviver. E, para impedir que a apunhalassem pelas costas, ela traía os outros primeiro.
Viveu uma vida cometendo esses atos, justificando-se com essas desculpas. Mas quando pensava nisso profundamente, percebia que tudo não passava de autojustificação.
— Ed, o que você acha de uma pessoa assim?
Mesmo que ela tenha percebido isso depois de muito tempo, isso não significava que todas as manchas em seu corpo desapareceriam.
A partir desse momento, qualquer boa ação que fizesse seria vista apenas como hipocrisia.
E ela nunca poderia ter a ousadia de simplesmente abrir mão de toda a riqueza que acumulou ao longo da vida.
Agora que chegou tão longe, não havia mais como voltar atrás.
Ela sabia demais sobre os segredos sujos escondidos por vários comerciantes, aristocratas e outras pessoas influentes.
Fugir do mundo dos negócios era impossível. O momento em que o nome de Lortel perdesse seu valor, tudo chegaria ao fim.
No final, ela não tinha escolha a não ser seguir em frente como um trem desgovernado, correndo para a última estação.
Ela já havia ido longe demais para ser hipócrita.
Como mercadora, como vilã, como uma sombra oculta nos bastidores… o instante em que deu seu primeiro passo nesse pântano, ele começou a devorá-la aos poucos.
Quando se deu conta, já estava completamente mergulhada na escuridão.
A quem ela poderia pedir para salvá-la?
Esse era um desastre que ela mesma havia causado.
E sabia melhor do que ninguém que não merecia piedade.
Por isso, estava procurando por alguém exatamente como ela.
— Se fosse você, Ed… você simpatizaria com uma pessoa assim?
Eu já estava atolado na lama até o pescoço.
Sabia a verdade.
Também nunca poderia ser completamente aceito ou compreendido por alguém.
Independente de certo ou errado, o sentimento de solidão viria. Assim como aconteceu com ela.
A única forma de escapar dessa solidão era encontrar alguém como ela, alguém que também estivesse preso rolando na lama.
Ela só poderia ser salva ao encontrar alguém que se acostumasse a viver no fundo do pântano com ela.
— Não.
Obviamente, essa pessoa não sou eu.
— Você deve ser responsável por suas próprias escolhas, Lortel.
Diante dessas palavras, Lortel ficou momentaneamente sem reação, antes de, finalmente, sorrir.
— Você tem razão.
Lortel Kehelland era uma garota que viveu sua vida inteira perseguindo apenas razão e racionalidade.
E eu já estava cansado de saber disso.
Até o dia em que a história de "O Espadachim Fracassado de Silvenia" chegasse ao fim, ela jamais perderia sua racionalidade ou se tornaria obcecada por qualquer coisa.
— Não deveria ter falado tanta bobagem. Desculpe por isso. Heh.
O rosto de Lortel rapidamente voltou ao seu sorriso brincalhão, enquanto afastava qualquer vestígio de emoção.
— Melhor eu voltar ao trabalho. Não há muito tempo.
Com essas palavras, Lortel subiu as escadas e desapareceu.
Assenti com a cabeça, levantei uma cadeira que havia tombado e me sentei.
A partir desse momento, eu apenas ficaria ali, esperando Taylee entrar.
De qualquer forma, já conhecia as estatísticas e habilidades que Taylee, Ayla e Elvira teriam durante o Ato 2.
Mesmo com a diferença absoluta entre nossos números e estatísticas, isso por si só não seria o suficiente para me derrotar facilmente.
Mas eu também não precisava vencê-los completamente.
Apenas tinha que ganhar tempo.
Não era nem um grande desafio.
Desde que eu conseguisse atrasá-los antes de perder, Taylee seguiria para o segundo andar.
Ainda assim, durante a luta, havia o risco de levar alguns golpes ou me machucar.
Bem… era um sacrifício necessário…
— Por que há uma carruagem a essa hora da noite…?
Sentada no canto do pavilhão do Jardim das Rosas, um pouco afastada do Salão Ophelis, Yennekar olhava para a estrada principal.
Uma carruagem magnificamente grande passou em frente ao jardim.
Ela nunca tinha visto um transporte tão luxuoso antes.
A coroa dourada desenhada no topo era impressionante.
Parecia que alguém importante estava visitando.
"Algo urgente surgiu de repente, então posso me atrasar um pouco. Chegarei o mais rápido possível, então, por favor, espere só mais um pouco. Me desculpe."
Ela dobrou o bilhete que Ed havia deixado e o segurou junto ao peito, encarando a chuva que caía sobre as belas rosas.
Isso na verdade era uma coisa boa.
Agora ela tinha tempo para se acalmar.
— E-ele preparou mais alguma coisa…?
O pavilhão do Jardim das Rosas era um lugar que via todos os dias.
Ficava bem em frente à entrada principal do Salão Ophelis, ao longo do caminho que levava ao distrito dos professores.
Já era tarde da noite, então não conseguia ver completamente o Salão Ophelis.
Mas, através da chuva, ainda conseguia enxergar parte dele.
Parecia que algum tipo de acidente havia ocorrido.
Muitos estudantes se dirigiam para o Salão Ophelis e, agora há pouco, uma carruagem enorme havia desaparecido na direção do dormitório.
Yennekar ficou curiosa, mas não se moveu.
Não queria se afastar desnecessariamente e acabar perdendo Ed.
Nos últimos três dias, ela não conseguiu dormir direito, sempre se perguntando:
‘O que Ed quer me dizer…?’
Talvez… fosse aquilo?
Não, não podia ser…
Ou será que ela estava exagerando?
Havia outro motivo para ele tê-la chamado ali?
Ficar falando sozinha sobre essas coisas acabou preocupando suas amigas.
Ela se sentia culpada, mas continuou ouvindo Merilda sobre cada movimento de Ed.
Mais pessoas do que ela imaginava conheciam o acampamento de Ed.
Merilda disse que viu não só Lucy, mas também a Princesa Penia, Bell Maya e até mesmo Lortel visitando o lugar.
Merilda não vigiava Ed o tempo todo, então era bem possível que ainda mais pessoas tivessem ido ao acampamento sem que ela soubesse.
O fato de que a maioria das visitantes eram estudantes do sexo feminino partia o coração de Yennekar, mas…
Ela não estava em posição de reclamar sobre isso.
Pensar nisso fez o sangue subir à sua cabeça novamente.
— E-eu não deveria ter vindo vestindo isso… E-essa roupa não combina comigo…?
Após tanto tempo sem usá-lo, ela decidiu colocar um grampo de caqui laranja que recebeu de sua casa.
Ela escovou os cabelos cuidadosamente e verificou se suas roupas estavam sem rugas antes de sair.
Mas, agora que estava ali, começou a pensar que o prendedor de cosmos que usou no festival era mais bonito.
O grampo de caqui combinava mesmo com a roupa?
Ou seria melhor um tom mais claro, já que estava escuro e difícil de enxergar?
— D-deveria voltar para trocar de roupa…?
Mesmo com os estudantes invadindo o Salão Ophelis e uma carruagem gigante passando por ali, Yennekar continuou parada, com medo de perder Ed.
Mas…
Era ridículo voltar ao dormitório agora apenas por causa de um grampo de cabelo.
— S-se eu correr rapidamente, talvez dê tempo…
Quando se toma uma decisão, é melhor agir rápido do que perder tempo pensando.
Engolindo em seco, Yennekar correu de volta para a chuva, puxando o capuz da túnica sobre a cabeça.
Estava preocupada que o capuz bagunçasse seu cabelo, depois de tanto trabalho para deixá-lo arrumado.
Mesmo assim, correu o mais rápido que pôde.
Se seus cabelos ficassem um pouco desalinhados, ela apenas os ajeitaria rapidamente no quarto.
— Será mesmo a decisão certa entrar no Salão Ophelis?
— Você tem ideia de quanto custam todas as ervas que deixei no meu quarto, Taylee?!
— Ainda assim, não seria melhor esperar a escola resolver isso sozinha…?
A chuva caía pesadamente.
Diante da entrada principal do Salão Ophelis, Taylee, Ayla e Elvira discutiam.
— Se eu não pegar as ervas a tempo e lançar a magia de preservação nelas, elas vão mudar de propriedades!
— A menor diferença nos detalhes pode arruinar completamente um experimento!
— Você tem noção da importância disso, Taylee?!
Elvira inflou as bochechas, furiosa, enquanto pressionava Taylee.
Elvira estava, na verdade, testando reagentes secretamente em um laboratório clandestino construído em um penhasco à beira-mar, sem a permissão da escola.
Por causa disso, não queria se envolver no incidente do Salão Ophelis desde o início.
Mesmo assim, as ervas que havia deixado em seu quarto estavam lhe incomodando tanto que acabou pegando qualquer um que encontrasse para ajudá-la a entrar no dormitório.
Os sacrifícios da vez foram Taylee e Ayla.
— São apenas estudantes de nível mais baixo! Nós três conseguimos dar conta deles! Só precisamos derrubar o líder, Willain!
Dizendo isso, Elvira começou a dar passos largos em direção à entrada do Salão Ophelis.
— Ayla, pare ela…! Ela está tentando entrar no Salão Ophelis sozinha!
— N-não podemos apenas fingir que não vimos nada? Elvira é uma das melhores alunas do departamento de alquimia, ela deve ser capaz de se cuidar sozinha…
— Quem está em perigo não é a Elvira, e sim os estudantes de nível mais baixo! Ela vai acabar jogando qualquer reagente que tiver nos olhos deles!
Ouvindo isso, Ayla engoliu seco.
Elvira, que estava se comportando completamente fora de seu normal, realmente poderia acabar jogando um monte de reagentes nos estudantes.
Taylee estava certo.
Não era Elvira quem corria perigo, e sim os outros alunos.
Taylee e Ayla seguiram Elvira, que marchava apressadamente em direção à entrada do Salão Ophelis.
— Elvira! Pare! Pare!!
— Para de reclamar e apenas me siga! Preciso que me ajudem a chegar até meu quarto no quarto andar!
— Então… se apenas te levarmos até seu quarto, tudo bem? Você não vai fazer mais nada?
— Exatamente. Só preciso manter minhas ervas seguras, afinal.
Taylee soltou um suspiro ao ouvir essas palavras, amarrando o cabelo.
— Certo. Então vamos para o seu quarto, Elvira.
— Se alguém tentar me impedir, eu vou passar por cima deles. Entendido, Taylee?
— Por favor, não machuque ninguém, Elvira.
Taylee disse isso enquanto olhava para Ayla.
Ayla suspirou profundamente antes de seguir os dois.
Pouco tempo depois, chegaram em frente ao Salão Ophelis.
Elvira chutou a porta da entrada principal sem hesitar.
A porta abriu com um estrondo, revelando o salão espaçoso do primeiro andar.
No centro do hall, sozinho, um homem estava sentado em uma cadeira de madeira.
O homem levantou a cabeça, observando o grupo que acabava de entrar no primeiro andar do Salão Ophelis, enquanto o som da chuva preenchia o ambiente.
Ato 2, Capítulo 3: A Ocupação do Salão Ophelis.
O chefe do primeiro andar, diferente da linha do tempo original.
O aristocrata caído, excomungado de sua família.
Ed.
Assim como no dia em que derrotou Takan, ele estava sentado, de braços cruzados e mãos entrelaçadas, esperando o grupo chegar.
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