Light Novel

Capítulo 30: Yennekar Palerover (3)

A empregada sênior Bell era considerada a melhor e mais confiável entre as empregadas de elite do Ophelis Hall.

Ela tinha autoridade sobre as outras empregadas e era responsável por educar as recém-contratadas, chegando até mesmo a repreendê-las quando necessário.

Muitos especulavam sobre quem seria a sucessora de Elris, a atual chefe das empregadas e gerente geral do Ophelis Hall, que estava prestes a se aposentar. A candidata mais provável era, sem dúvidas, Bell Maya.

— Srta. Yennekar.

Bell já era tratada com mais respeito do que as outras empregadas do Ophelis Hall, mas isso não significava que seu trabalho fosse diferente do delas por conta de sua posição elevada.

As empregadas de nível inferior lidavam com as tarefas mais pesadas e desgastantes no dormitório. Precisavam estar sempre prontas para qualquer ordem, sendo responsáveis por grande parte do funcionamento do Ophelis Hall.

Isso incluía auxiliar os alunos a se vestirem. Normalmente, empregadas sêniores não faziam esse tipo de tarefa, mas Bell ainda arregaçava as mangas e fazia isso pessoalmente.

Como agora, enquanto penteava o cabelo de Yennekar em frente ao espelho, trazendo à tona um certo assunto de forma casual.

— Da última vez que fui até o acampamento do jovem mestre Ed na floresta, vi algo bastante impressionante.

— Hm? Ah… Você deve estar falando da cabana?

— Como soube disso?

Yennekar deu de ombros enquanto enrolava as pontas do cabelo entre os dedos.

— Eu… eu a vi enquanto passava por lá.

— Entendo. Ele disse que a construiu sozinho, mas fiquei bastante surpresa. Era muito mais impressionante do que eu imaginava. Eu não fazia ideia de que ele tinha talento para esse tipo de coisa.

— Eu… eu vejo.

— Queria dar uma olhada por dentro, mas me contive. Tive receio de que pedir para entrar fosse inapropriado. No entanto, fiquei curiosa para ver como era por dentro e o quão resistente era.

— Até mesmo você se interessa por esse tipo de coisa, hein?

— É claro. Também sou humana. Sentir curiosidade é algo natural.

Bell era a empregada perfeita. Alguém que compreendia, melhor do que ninguém, o significado de servir a outra pessoa. Ela nunca se satisfazia apenas com a limpeza e as tarefas cotidianas.

Dar o melhor de si para servir alguém, sem jamais parecer presunçosa, essa era a verdadeira qualidade de uma empregada.

— Qualquer um que passe por aquela cabana ficaria curioso sobre quem a construiu, como a construiu e o que há dentro dela, não acha? Essa é uma reação completamente natural.

Curiosamente, Bell repetia as palavras "natural" e "óbvio", como se tivesse uma intenção oculta. Yennekar sentiu como se estivesse sendo pressionada.

Ela também queria visitar o acampamento de Ed. Queria vê-lo. Queria conversar com ele sobre várias coisas.

Mas, claro, duvidar da gentileza dos outros ou tentar adivinhar suas verdadeiras intenções… Yennekar jamais pensaria desse jeito.

Por isso, apenas acenou com a cabeça e respondeu:

— Entendo. Você tem razão. É claro que é natural. Ao ver algo assim, é lógico que você ficaria curiosa.

Yennekar aceitou as palavras de Bell com um rosto sério.

Atrás dela, Bell soltou um suspiro discreto de alívio enquanto trançava seus cabelos.

Era natural que uma garota da idade de Yennekar sentisse afeto e anseio. No entanto, sendo tão desajeitada desse jeito, as coisas acabariam se resolvendo bem para ela.

Claro, interferir mais do que isso seria um exagero.

Por ora, tudo que Bell podia fazer era trançar os cabelos de Yennekar da forma mais bonita possível.

Naquele dia, Bell usou um pouco mais de força nas mãos enquanto penteava seus cabelos em silêncio.

A entrada da floresta do norte continuava a mesma de sempre. A vegetação verdejante se espalhava pelo caminho, como se desse boas-vindas a qualquer um que entrasse.

A entrada da floresta parecia mais acolhedora do que sombria, apesar do sol estar se pondo no horizonte.

Isso se devia ao fato de que, para Yennekar, a floresta do norte era um lugar que sempre visitava quando precisava respirar um pouco.

Ela gostava especialmente de sentar-se e se apoiar na Árvore Guardiã de Merilda, lendo livros enquanto sentia a brisa e ouvia o som das folhas balançando ao seu redor. O vento assobiando em seus ouvidos a lembrava dos momentos em que se sentava em uma colina em sua cidade natal.

Por isso, sempre que sentia um leve traço de saudade de casa, acabava vindo para essa floresta.

No entanto, ultimamente, não conseguia reunir coragem para entrar nela.

Sentia-se envergonhada em admitir para si mesma a razão disso: havia uma grande chance de encontrar alguém lá.

Esse alguém era o estudante que vivia na floresta.

Tudo começou com uma simples curiosidade.

O espírito do vento Merilda, que protegia a floresta, ocasionalmente assumia a forma de uma pequena raposa e saía para visitar Yennekar quando tinha tempo.

Nas noites de lua cheia, ambas se sentavam no parapeito da janela e conversavam por longas horas. Para Yennekar, terminar o dia assim havia se tornado parte de sua rotina.

O Ed Rothstaylor que Merilda descrevia era bem diferente dos rumores que ouvira.

Ao escutar sobre suas dificuldades para sobreviver na floresta, ele parecia mais um animal selvagem do que um nobre caído.

Ele teve uma dor de estômago por comer casca de árvore, seu abrigo de madeira vivia desmoronando sobre ele, e ele amarrava o cabelo enquanto cortava lenha. Yennekar não conseguia conter o riso ao ouvir essas histórias.

Quando ele conseguiu pescar e cozinhar seu primeiro peixe com uma vara que fabricou sozinho, quando completou sua resistente prateleira de secagem, e até mesmo quando finalmente conseguiu caçar pequenos animais usando seu arco artesanal…

Yennekar não pôde evitar sorrir, sentindo orgulho.

Gostava de se sentar na janela e ouvir todas essas histórias que Merilda contava. Isso a lembrava de sua infância, quando seus pais acariciavam sua cabeça enquanto lhe liam contos de fadas.

Depois de crescer, ficou envergonhada demais para pedir que fizessem isso de novo.

Mas, sempre que sentia que ia enlouquecer, sabia que podia contar com o alívio de terminar o dia ouvindo histórias sobre Ed.

— Hmmm…

Yennekar chutava levemente o chão com os pés enquanto caminhava pela entrada da floresta do norte. Sim, ela sabia o quão patética estava sendo.

Era por causa do incidente de Glasskan? Mas, mesmo antes disso, já havia alguns sinais.

Não era nada especial.

Seu afeto e desejo por Ed eram como uma chuva fina, quando percebeu que estava chovendo, seu corpo já estava completamente encharcado.

Se fosse se justificar… bem, Merilda sempre descrevia Ed com detalhes excessivos.

O espírito do vento narrava com precisão como os músculos dele se moviam quando trabalhava sem camisa.

Falava sobre seus bíceps e os contornos definidos dos músculos abdominais que estavam começando a se formar.

E, no momento em que ouviu isso, Yennekar sentiu seu rosto pegar fogo.

Ela sequer conseguia olhar diretamente para ele quando acidentalmente o encontrou na cidade.

Seus olhos continuavam desviando para os tendões próximos à clavícula dele… e para as veias no dorso de suas mãos…

Saiu correndo como se estivesse fugindo, com o nariz sangrando. Sua melhor amiga, Anise, ficou preocupada.

Mas quem parecia ainda mais preocupada era Clara, que começou a suar frio de maneira estranha.

O sangramento de Yennekar não era grave a ponto de justificar tanta preocupação. Na verdade, achou a reação de Clara um tanto exagerada.

— Mas que diabos eu estou fazendo…

Yennekar finalmente voltou a si.

Sempre que tinha um momento livre, sua mente se enchia de pensamentos sobre ele.

Havia alguém mais idiota do que ela?

Pisou firme no chão, frustrada com sua própria estupidez.

Desde o princípio, Ed Rothstaylor era alguém que já havia sido deserdado pela família.

Embora ainda fosse chamado de Ed Rothstaylor por hábito, agora não passava de um plebeu com um nome de duas letras, simplesmente Ed.

Isso significava que não havia mais uma grande diferença entre seus status sociais.

A verdade era que sua imaginação já estava indo longe demais.

Por exemplo…

Já havia imaginado os dois trabalhando juntos no rancho de sua família, que carecia de funcionários.

Ou então pesquisando lado a lado em um lugar como a Sociedade de Magia Oriental após a formatura.

Ou até mesmo permanecendo juntos na academia para se tornarem professores.

Pensar nessas coisas a fazia se revirar na cama, chutando o cobertor… enquanto sua mente divagava.

Nunca soube que era capaz de tais devaneios, e, à medida que o tempo passava, sua vergonha só aumentava.

— Até quando vou continuar agindo assim? Ed deve achar que sou estranha…

A reputação de Ed até podia ter melhorado, mas ainda não era das melhores.

Ele próprio estava ciente disso, então provavelmente não achava estranho que Yennekar o evitasse.

Mas, para Yennekar…

Era uma história completamente diferente.

Se analisasse a situação de forma objetiva, evitar alguém de maneira tão óbvia era simplesmente rude.

Independente do que sentia, aquilo era uma questão de etiqueta básica.

Ela não podia continuar agindo assim.

Determinada, Yennekar assentiu e começou a caminhar na direção de Ed.


[Nome: Ed Rothstaylor]

Gênero: Masculino

Idade: 17

Ano Escolar: 2º

Espécie: Humano

Conquistas: Nenhuma

Vitalidade: 8

Inteligência: 7

Destreza: 10

Determinação: 9

Sorte: 7

≪ Detalhes das Habilidades de Combate ≫

≪ Detalhes das Habilidades Mágicas ≫

≪ Detalhes das Habilidades de Vida ≫

≪ Detalhes das Habilidades de Alquimia ≫


Finalmente. Minha Destreza havia alcançado o nível 10.

A partir daqui, já poderia ser considerado um especialista em artesanato.

Além disso, minha proficiência em produção aumentou no instante em que alcancei esse marco.

Isso significava que, com as condições certas, fui capaz de desbloquear habilidades avançadas de produção.

Infusão Espiritual me permitia injetar o poder de um espírito nos produtos que eu criasse.

Engenharia Mágica me permitia fabricar diferentes tipos de itens mágicos.

Implementação Mágica me permitia conceder diversos efeitos especiais a produtos comuns.

Espírito do Artesão aumentava meu poder em combate ao utilizar os itens que eu mesmo produzia.

E, por fim, Olhos de Farmacêutico me permitiam misturar diferentes reagentes e ervas para criar novos compostos.

Habilidades avançadas possibilitavam o uso de técnicas especiais em diferentes formas, que só poderiam ser adquiridas ao atender certas condições e ao combinar as habilidades de ****Combate, Magia e Alquimia.

A única habilidade avançada de produção que eu poderia obter agora era Infusão Espiritual.

Mas sabia que, se trabalhasse o suficiente, eventualmente poderia testar as outras habilidades avançadas também.

Senti um grande senso de realização ao ver o crescimento que tive enquanto trabalhava na minha cabana. Isso me deu forças e me incentivou a continuar me esforçando ainda mais.

Era um ciclo positivo e vantajoso.

Enquanto isso, comecei a pensar em como preencher o interior da minha cabana, imaginando todas as coisas que poderia construir.

A coisa mais urgente no momento era uma porta.

Eu já havia comprado uma dobradiça e a anexado a uma tábua de madeira, mas não era muito resistente. Além disso, o tamanho da tábua não encaixava bem na moldura da entrada, então havia frestas por onde o vento passava.

Continuei pensando em maneiras de resolver esse problema enquanto cortava madeira em frente à minha cabana.

— Hey! Ed!

Alguém me chamou com um tom ligeiramente desafinado.

Virei a cabeça e vi que era Yennekar.

Parecia que ela tinha vindo ao acampamento por algum motivo.

Diferente de seu uniforme escolar impecável, hoje Yennekar vestia uma saia azul-escura e uma blusa branca larga.

Ela também usava um chapéu e uma echarpe, parecendo bem protegida contra o sol. Provavelmente, para evitar queimaduras solares. Uma decisão inteligente, na minha opinião. Sua pele era incrivelmente pálida e parecia sensível à luz solar.

O sol já estava começando a se pôr, então não era tão forte agora… mas, de qualquer forma, nunca é bom ser descuidado.

Por outro lado, eu estava ali, segurando um serrote enquanto cortava madeira sobre minha bancada de trabalho, com as mangas da camisa e as pernas da calça enroladas para cima. Minha aparência crua e desalinhada contrastava bastante com a dela.

— Ei, Yennekar. O que te traz aqui?

Perguntei naturalmente.

Na verdade, estava um pouco confuso.

Nos últimos dias, Yennekar vinha me evitando. Será que ela tinha algum outro motivo para estar aqui? Ou realmente veio até o acampamento sozinha?

— Ah, não é nada demais!

Yennekar começou a se explicar rapidamente.

— Eu só estava passando por aqui! Indo ver a Merilda! Aí vi essa cabana! E agora estou aqui!

Ela falava como se estivesse com pressa.

— Vi a cabana e fiquei curiosa. Quem construiu? Como construiu? Como é por dentro? É natural ficar curioso, certo? Hein, Ed?

— Eu… acho que sim?

— Sim! Tive um pensamento totalmente natural e óbvio, que me levou a fazer a coisa natural e óbvia. E aqui estou! Ah, a propósito, essa cabana é incrível, Ed.

Joguei o serrote na bancada de trabalho e limpei as mãos.

— Sim, construí recentemente. Os espíritos não te contaram?

Ao ouvir essas palavras, Yennekar engoliu em seco e soltou um pequeno soluço. Ela balançou a cabeça rapidamente.

— Eu já te disse que só estava passando por aqui, não disse? Ah… sim, talvez tenha havido um momento em que os espíritos mencionaram alguma coisa… mas só um pouco? Bem pouco mesmo? Algo tão insignificante que nem fazia diferença? Eu nem falo tanto com os espíritos assim, sabe? Só converso com eles de vez em quando. Tipo, só pegando umas atualizações básicas. Então, eu realmente não sabia como você estava… Estou falando sério.

— Hm… certo, então.

Acenei com a cabeça e apontei para a entrada da cabana.

— Se quiser entrar, fique à vontade. Ela está bem firme, não deve ser um problema. Na verdade, estou bem orgulhoso dela.

Yennekar hesitou por um momento antes de entrar, tocando e examinando cada pequeno detalhe com atenção.

Sim, era só uma cabana de toras.

Mas eu estava extremamente orgulhoso do fato de tê-la construído com minhas próprias mãos.

A noite caiu, trazendo consigo sua habitual melodia.

O zumbido das cigarras era tão agradável quanto sempre.

A lua começava a surgir enquanto as estrelas lentamente se espalhavam pelo céu.

Preparei um chá em uma caneca que comprei na cidade, usando as ervas que Bell havia me dado.

Yennekar segurava a caneca com ambas as mãos, encarando as chamas da fogueira com um olhar distante.

Ainda não havia construído uma lareira dentro da cabana, então não podia acender fogo lá dentro.

Se, por algum descuido, eu queimasse a cabana que tanto me esforcei para construir, eu definitivamente não conseguiria dormir naquela noite.

Por isso, decidi continuar dormindo do lado de fora até que pudesse concluir a construção do interior.

Ainda assim, apenas olhar para minha casa quase finalizada me dava a sensação de que meus sonhos estavam se tornando realidade.

— Você é incrível, Ed. A maioria das pessoas teria desistido no seu lugar.

— Não acho que tenha feito nada que mereça elogios.

— Não, isso já é incrível o suficiente.

A hesitação que ela demonstrava antes já havia desaparecido.

A atmosfera misteriosa da floresta à noite trazia um sentimento de tranquilidade, que ajudava as pessoas a se acalmarem.

Com um chá de ervas na mão, tudo parecia perfeito.

— Se eu estivesse no seu lugar, acho que não teria conseguido fazer nada.

— Hm… você não vai ter que sair do Ophelis Hall em breve?

— Sim. Provavelmente, vou acabar indo para o Dex Hall.

A Silvenia Academy possuía três dormitórios principais: Ophelis Hall, Lorail Hall e Dex Hall.

O Dex Hall era o dormitório com as piores instalações e era onde a maioria dos alunos comuns ficava.

Dependendo do valor pago, os quartos podiam ser compartilhados por quatro, oito ou até dez estudantes.

Para alguém acostumado ao luxo do Ophelis Hall, seria uma mudança difícil de se acostumar.

Bem, no caso de Yennekar, que não vinha de uma família rica, talvez a adaptação não fosse tão complicada.

— E sobre as mensalidades? Sua família pode arcar com elas?

Yennekar balançou a cabeça.

— Febri disse que me emprestaria o dinheiro. Eu posso pagar de volta aos poucos quando me formar.

Febri era a segunda filha da família Kroel.

Fazia sentido. Afinal, Yennekar era talentosa o suficiente para fazer qualquer coisa depois de se formar e obter seu diploma.

Não era um investimento arriscado.

Mesmo tentando quitar suas próprias dívidas, parecia que sua família ainda estava tentando encontrar maneiras de ajudá-la.

Mesmo com toda essa ajuda, Yennekar continuava determinada a se mudar para o Dex Hall.

O Lorail Hall seria uma opção muito melhor para ela, mas, depois do enorme incidente que causou, não queria depender de seus amigos para conseguir um dormitório melhor.

— Acabei acumulando uma dívida enorme.

Ela suspirou, segurando sua caneca de chá com ambas as mãos.

— Não esperava que tantas pessoas me ajudassem durante a audiência. Especialmente a Princesa Penia e a Lortel... Mesmo depois de eu ter cometido um erro tão grande, por alguma razão, todos tentaram me confortar…

Seus olhos se voltaram para a fogueira, as chamas refletindo em suas íris.

— Sou muito grata. Nem sei como expressar o quanto sou grata.

O problema era que Yennekar ainda não compreendia a verdadeira raiz de toda a situação.

A origem de tudo estava no peso da sua própria sinceridade. No final, nenhuma das questões centrais havia sido resolvida.

O ciclo vicioso ainda não tinha sido quebrado.

— Como eu… poderia pagar todos de volta?

— Então não pague, se não puder.

Ela piscou, surpresa com a resposta.

Apesar das expectativas e do apoio de todos, Yennekar, no fim, falhou.

O choque ainda não havia desaparecido, e, mesmo assim, novas dívidas continuavam a se acumular.

— Não é só um estereótipo? Essa ideia de que você precisa pagar tudo o que deve? Você realmente precisa retribuir só porque alguém te ajudou?

— Oh… Uau. Nunca pensei nisso dessa forma.

Havia inúmeras maneiras de evitar pagar uma dívida. Da mesma forma, havia muitas pessoas que passavam a vida inteira sem quitar as suas.

Mas para Yennekar, esse conceito era simplesmente impensável.

Esse era o tipo de pessoa que ela era.

— De qualquer forma, você já passou por muita coisa. E logo terá que se mudar de dormitório.

— Tenho certeza de que as instalações do Dex Hall não serão tão boas…

Ela abaixou o olhar por um instante, mas logo forçou um sorriso fraco.

— Mas acho que ainda assim será divertido. Vou poder passar o dia todo com meus amigos. Desde cedo pela manhã até tarde da noite. Podemos brincar e rir juntos no mesmo quarto, abraçar nossos travesseiros antes de dormir, fazer lanches tarde da noite e conversar sobre qualquer coisa… Sim, vai ser divertido.

No Ophelis Hall, cada aluno tinha seu próprio quarto.

Era um lugar onde se podia descansar em silêncio depois de um dia cansativo. Um espaço para encontrar um pouco de paz.

Ali, não existiam colegas de classe ou estudantes mais novos olhando para Yennekar com inveja.

Sentar-se sozinha na cama todas as noites, olhando para a lua pela janela, já era suficiente para aliviar parte do peso que carregava.

Por isso, para Yennekar, o Dex Hall era um lugar que despertava um medo instintivo.

Para ela, não era diferente de uma prisão.

Seria como viver acorrentada todos os dias.

Yennekar desviou os olhos da fogueira e ergueu o rosto para o céu.

A noite em Acken Island estava incrivelmente clara.

A brisa era leve.

A escuridão fria do início da noite agora parecia acolhedora e quente.

Havia algo estranho na expressão de Yennekar.

Ela estava inquieta.

A situação começou a me deixar desconfortável.

— Quando quiser ficar sozinha, pode vir para cá e ficar o quanto quiser. Eu não vou me importar.

Falei casualmente.

Se soasse sincero e cuidadoso demais, isso só acabaria se tornando um fardo para ela.

— Hm? Sério, Ed?

Seus olhos brilharam por um momento, e, então, ela abriu um sorriso bobo e despreocupado.

Era a primeira vez, em dias, que Yennekar sorria assim.

— Hehe… Isso me deixa tão feliz.

As chamas da fogueira dançavam em seus olhos enquanto ela se recostava levemente.

Por fim, com a voz suave, ela murmurou:

— Ei, Ed… Se um dia você estiver passando por um momento realmente difícil…

Ela olhava para o céu azul-escuro acima de nós, as estrelas refletindo em seus olhos.

— Se houver algo com que esteja lutando sozinho, seria incrível se pudesse me contar.

Fechou os olhos por um instante e sorriu.

— Eu definitivamente te ajudaria.

— O Ophelis Hall está um verdadeiro caos esses dias.

A caneca de chá de ervas estava vazia.

Yennekar pegou sua echarpe e começou a ajeitar suas roupas, se preparando para partir.

— É porque há rumores de que a chefe das empregadas vai se demitir em breve. Ouvi dizer que a Elris tem passado por um período de muito estresse ultimamente.

Ela comentou enquanto sacudia a poeira das vestes.

— Não é estranho? Não a vi muitas vezes, mas, sempre que a encontrei, parecia uma pessoa muito esforçada e de espírito brilhante.

Ela sorriu, despreocupada.

— Bom, de qualquer forma, vou sair do Ophelis Hall em breve, então não faz muita diferença para mim… mas, por algum motivo, isso me preocupa.

Ela então virou-se para mim com um sorriso inocente.

— Enfim, obrigada por me mostrar sua cabana, Ed. Eu virei te visitar mais vezes. Será que posso vir todos os dias?

Hesitou por um momento.

— Hm… Não, talvez isso seja exagero?

— Faça o que quiser.

— Hehe! Foi uma ótima escolha ter vindo te ver hoje, Ed.

Ela abriu um sorriso satisfeito e começou a se afastar.

— Então… nos vemos amanhã!

Pausou, sem jeito, e se corrigiu rapidamente:

— Não, quero dizer… da próxima vez. Isso! Nos vemos da próxima vez!

Enquanto me despedia de Yennekar, fiz questão de agir como se as informações que ela havia me contado não fossem nada de especial.

Mas, pensando bem…

O segundo semestre já estava quase começando.

O marco que anunciava o início do Ato 2.

"A Ocupação do Ophelis Hall"

Era um evento onde alunos insatisfeitos com o tratamento injusto que recebiam expressavam sua insatisfação abertamente.

Mas, na prática, não tinha grande impacto, já que ninguém realmente se importava com eles.

Porém…

A escala do incidente cresceu exponencialmente com a participação da chefe das empregadas, que havia sido comprada por Lortel.

O caso acabou se tornando um evento central do Ato 2.

Isso intensificou o conflito entre a Companhia Elte e o setor Acadêmico pela posse do "Selo do Sábio", um artefato de importância absurda.

No fim, essa situação se tornaria algo grande o suficiente para ser chamado de… "O começo de tudo."

'Ah… Em breve, você vai passar por um belo sufoco, Taylee.'

Com um aceno de mão, observei Yennekar desaparecer entre as árvores da floresta.

E, ao mesmo tempo, fiz uma prece silenciosa de todo o coração por Taylee.

'Sério… isso vai ser um verdadeiro inferno, Taylee.'

Boa sorte.

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