Light Novel

Capítulo 18: A Filha Dourada (1)

— Ei, ei!

Com um esforço quase sobre-humano, consegui conter minha expressão para não demonstrar o quão frustrado eu estava.

Porque, ao voltar ao meu acampamento depois de coletar algumas ervas e plantas comestíveis, encontrei uma visitante inesperada.

A convidada era ninguém menos que Yennekar Palerover, a aluna número um do segundo ano, a chamada gênia Elementalista. Ela estava sentada no tronco ao lado da fogueira, balançando os pés e acenando para mim em saudação.

Nós nos esbarramos algumas vezes no Guardião Merilda, e como tínhamos algumas aulas em comum, ela costumava me cumprimentar. No entanto, eu nunca retribuí seus cumprimentos devidamente.

Isso porque eu estava ativamente tentando evitar Yennekar. Além disso, suas melhores amigas sempre apareciam como fantasmas para afastá-la de mim.

Na verdade, eu era até grato por isso, já que queria minimizar ao máximo o contato com ela. Mas, para Yennekar, que queria ser amiga de todo mundo, eu devia parecer um verdadeiro desafio.

Eu tinha certeza de que suas amigas já a haviam alertado várias vezes de que nada de bom poderia surgir ao tentar se aproximar de um idiota como Ed Rothstaylor.

Infelizmente para elas, Yennekar tinha a mentalidade de uma criança pequena.

Sempre carregava um ar animado, e mesmo quando parecia estar quieta, sem pensar em nada, ela simplesmente fazia o que achava certo, sem hesitar.

E essa situação era uma prova concreta disso.

— Uau! Isso é incrível! É como se fosse uma base secreta!

Ela levantou a mão, caminhando animadamente ao redor do acampamento, com a mesma empolgação de uma criança vendo a primeira neve do inverno.

— Posso vir aqui brincar de vez em quando?

O que eu queria responder era “Não, não pode.”, mas dizer isso de forma tão direta parecia cruel demais.

Ah, essa garota enérgica tinha um talento especial para despertar a vontade de protegê-la. Provavelmente, era por isso que todos na turma gostavam tanto dela.

— Bem, se encontrar algo de bom por aqui, então pode vir.

— Meu coração está disparado! Parece uma grande aventura! Ed, você não acha?

'É claro que meu coração dispara todos os dias. Há poucos dias, cometi um erro ao administrar a fogueira, e o fogo apagou de madrugada… quase fui atacado por um javali selvagem.'

Então, mesmo que ambos estivéssemos com os corações acelerados, havia claramente uma diferença enorme entre os dois motivos.

— Eu queria conversar com você... Tem algumas coisas que quero te perguntar... E também tem algo em que preciso do seu conselho.

'De todas as pessoas possíveis, por que tem que ser justamente eu?'

Mas essa teria sido uma pergunta cruel demais para jogar na cara dela.

Por mais necessário que fosse manter minha distância, tratá-la de maneira muito rude só faria de mim um completo babaca.

Por outro lado, também era verdade que não havia nenhum benefício em sermos muito amigáveis.

— Como você descobriu onde eu moro?

Meu acampamento ficava em um canto remoto da vasta Floresta do Norte, longe tanto do distrito acadêmico quanto do comercial.

Havia pouquíssimas pessoas que sabiam que eu estava vivendo por aqui.

— Por acaso, foi aquele lobo que te contou?

A resposta mais provável era Merilda.

O espírito do vento de alto nível, Merilda, era como uma família para Yennekar. Além disso, essa floresta era o território dela, então fazia sentido se tivesse contado sobre minha sobrevivência nesse canto isolado.

— Não, Merilda fala muito sobre você, mas… ela nunca me contou a localização do seu acampamento, nem nenhum dos seus segredos pessoais. Afinal, isso é algo privado.

'Uau, essa desgraçada. Então ela realmente se preocupa com a privacidade dos outros?'

Eu tinha certeza de que Merilda, sendo uma faladora compulsiva, já teria contado tudo para Yennekar há muito tempo.

Então quem diabos contou para Yennekar onde ficava meu acampamento?

— E a resposta é…!

Yennekar fez um som de rufar de tambores, como se estivesse prestes a revelar um grande mistério.

Enquanto eu torcia meu próprio cabelo, já tinha deduzido a resposta por eliminação.

— Então foi Bell...

— Uau! V-Você é bem esperto!

Bell Maya.

Esse nome, com o qual eu não estava tão familiarizado, pertencia a uma das empregadas seniores do Ophelis Hall, famoso por ser o mais luxuoso dos três dormitórios da Academia Silvenia.

Mas como ela soube da localização do meu acampamento?

Bem… para entender isso, precisaríamos voltar aproximadamente uma semana no tempo.


[Nome: Ed Rothstaylor]

Gênero: Masculino

Idade: 17

Ano Escolar: 2º

Espécie: Humano

Conquistas: Nenhuma

Vitalidade: 6

Inteligência: 5

Destreza: 9

Determinação: 8

Sorte: 6

≪ Detalhes das Habilidades de Combate ≫

≪ Detalhes das Habilidades Mágicas ≫

≪ Detalhes das Habilidades de Vida ≫

≪ Detalhes das Habilidades de Alquimia ≫


O fim de semana finalmente havia chegado, um momento precioso para cuidar das coisas que eu havia adiado durante toda a semana letiva.

Primeiro, lavei as roupas encharcadas de suor por causa da caçada matinal e as estendi sobre uma pedra à beira do riacho para secar.

Já fazia duas semanas desde a problemática Aula Conjunta de Combate.

Ter me envolvido com os personagens principais da história me envelheceu uns dez anos. Além disso, sentia-me exausto o tempo todo, como se estivesse andando sobre uma corda bamba, sempre ansioso para não afetar negativamente a história principal enquanto tentava levar minha vida.

Felizmente, depois daquela aula, não houve mais situações em que precisei interagir com os protagonistas. Foram dias tranquilos para mim.

Pude focar apenas nos estudos e na sobrevivência, e como resultado, minha vitalidade aumentou mais um ponto. Porém, meu nível relativamente alto de Destreza estava começando a desacelerar em termos de experiência. A partir do nível 10, ganhar pontos ficava muito mais difícil.

Meu nível de Vitalidade estava realmente bom. Claro, para os estudantes do Departamento de Combate, que tinham habilidades físicas absurdas, meu progresso pareceria patético. Mas para um civil comum, meu desempenho já era bastante aceitável.

Afinal, o ponto de referência para um estatuto alto era 10. Tanto para proficiências quanto para atributos básicos, a partir desse valor o ganho de experiência caía drasticamente, e qualquer aumento exigia esforço esmagador.

E levando em conta que os atributos finais ficavam em torno de 20, ainda havia um longo caminho pela frente.

Mas esse era um padrão excepcional, reservado apenas para os personagens jogáveis que superavam as limitações humanas normais.

No meu caso, meus atributos já eram mais que suficientes para eu viver a minha vida.

Além disso, graças ao meu treinamento, meu corpo já começava a mostrar alguns músculos.

Tirei minha camisa e observei meu reflexo na água.

— Como eu imaginava, a estatística de Vitalidade realmente faz diferença.

Nos últimos dois meses, segui um cronograma insano, forçando meu corpo até o limite humano. Para acompanhar esse ritmo, ele precisou se adaptar.

Mesmo que eu não fosse ficar com músculos gigantescos e definidos, meu corpo já apresentava tonificação na região do abdômen, ombros e antebraços. Um grande avanço, considerando que o Ed Rothstaylor original era tão magro quanto um graveto.

Visto que esse corpo não nasceu com talento físico algum, eu podia dizer que havia feito um progresso considerável.

Por outro lado, minha proeficiência com arco e adaga ainda era muito baixa. Mesmo a adaga, que era uma das armas que eu mais usava, mal acumulou experiência.

Mesmo depois de tanto tempo praticando, ainda tinha um longo caminho a percorrer.

— Preciso treinar agora para poder viver mais confortavelmente no futuro… Esse não é o momento para preguiça.

Apesar de já ter obtido alguns bons resultados, não podia me contentar apenas com isso.

Alonguei os braços, dobrei as costas e girei o torso, preparando meu corpo para o trabalho que precisava fazer.

Meu plano para hoje era produzir mais lenha e cortar alguns troncos novamente. Depois, com o tempo que me restasse à tarde, eu planejava trançar uma rede.

Utilizando os fios de seda que eu havia coletado, eu teceria uma rede reforçada, cruzando os fios diagonalmente e os torcendo em cada interseção para garantir sua resistência.

Mas por que fazer uma rede?

Embora o objetivo fosse pescar, a verdadeira motivação por trás desse projeto era preservação dos peixes.

Minha carne de caça era armazenada em um depósito subterrâneo, mas como o tempo de conservação não era tão longo, eu acabava perdendo parte do estoque.

Além disso, não podia salgar toda a carne, pois o sal extraído das rochas salinas da floresta não era suficiente.

Então, pensei em um novo método: defumação.

Se eu queimasse madeira para produzir fumaça e cozesse levemente a superfície do peixe antes de secá-lo, poderia prolongar sua durabilidade por alguns dias. Isso reduziria a necessidade de caçar constantemente, permitindo que eu investisse mais tempo nos estudos e na manutenção do acampamento.

No entanto, o peixe defumado não era tão eficiente quanto a carne em termos de conservação. Além disso, sua textura e sabor mudavam, tornando-o difícil de cozinhar.

Foi por isso que tive a ideia da rede de pesca.

Se eu pendurasse uma rede no riacho e a usasse como um criadouro, poderia armazenar os peixes vivos. Assim, eu teria tanto a frescura quanto o sabor original do peixe sempre que quisesse consumi-lo.

Era um experimento que valia a pena tentar.

Durante a semana, não tive tempo para isso. Meu dia era completamente preenchido pelas aulas e pela coleta diária de recursos para sobrevivência.

Mas agora, com um tempo livre no fim de semana, eu finalmente podia testar essa ideia.

Decidi finalizar rapidamente a produção de lenha, depois verificar se meu uniforme já estava seco e, por fim, começar a trabalhar na minha rede de pesca.

— Zzz… Zzz…

Eu estava no meio do meu alongamento, aquecendo meu corpo enquanto ainda estava sem camisa. Mas, ao chegar à minha bancada de trabalho, encontrei Lucy Mayreel enrolada na base da árvore, dormindo profundamente.

Sem pensar muito, peguei-a e a joguei sobre meu ombro como se estivesse carregando um saco de batatas, e então a arremessei dentro do abrigo de madeira.

— Ooo, aghk!

Lucy rolou sobre a cama feita de couro de martas e esquilos, murmurou algumas coisas incompreensíveis e, em questão de segundos, voltou a dormir profundamente.

Essa era a rotina.

Sempre que eu estava prestes a esquecê-la, Lucy aparecia e tomava minha cama para tirar uma soneca.

Já nem me dava ao trabalho de suspirar mais quando via isso acontecer.

— Vou cortar 50 pedaços de lenha, depois verificar meu uniforme da escola. Devo terminar em uma hora.

Cuspi nas mãos, agarrei o machado e desci o primeiro golpe contra a lenha do dia.

Clank!

— Waaahk…!

Ouvi um barulho alto atrás de mim. Ao me virar, vi Lucy esfregando a testa como se tivesse acabado de bater a cabeça contra um dos postes de sustentação do abrigo.

Lucy nunca acordava, a menos que eu beliscasse ambas as bochechas, mas dessa vez ela pulou por conta própria.

— O que você está fazendo?

— Algo está fedendo!

De repente, ela agarrou o chapéu de bruxa e correu como o vento, desaparecendo na floresta.

Seus movimentos eram ágeis como um raio. Em um piscar de olhos, ela já havia sumido.

O vento mágico que ela usou para impulsionar sua fuga levou consigo o suor da minha pele.

— O que deu nela?

Mas não precisei de muito tempo para perceber o motivo.

— Quem está aí?

Do meio do matagal, surgiu Bell Maya, uma senior maid do Ophelis Hall, o dormitório mais luxuoso da Silvenia Academy.

Eu conhecia bem a estrutura do grupo de empregadas do Ophelis Hall.

O Ophelis Hall era o lar de vários nobres e alunos brilhantes, e as empregadas que administravam esse dormitório eram de alto nível, atuando com a mesma habilidade e orgulho que as damas de companhia da realeza.

A maioria delas recebia treinamento especial desde a infância, tornando-se especialistas impecáveis.

Mas essa era apenas a base do enredo.

Nenhuma delas tinha um impacto real na história.

Elas estavam lá apenas para enfatizar a grandeza do Ophelis Hall, e nenhuma desempenhava um papel relevante na trama principal.

Ou seja, Bell Maya era apenas uma figurante.

Assim como Ed Rothstaylor, ela era um personagem secundário que aparecia em algumas cenas para depois ser esquecido.

— Eu estava pensando em dar uma volta pela floresta, faz tempo que não venho aqui… Mas não esperava encontrar o jovem mestre Ed.

— Ah, sim. Faz um tempo mesmo.

— Você não precisa falar formalmente comigo.

Bell Maya era uma personagem extremamente secundária, mas que aparecia ocasionalmente para soltar algumas frases enigmáticas.

Seja quando o protagonista ou uma das heroínas enfrentavam um desafio, ela diria coisas como:

"Mas a determinação nos olhos dele ainda brilha. Tenho certeza de que ele vencerá."

"Se for ela… Com certeza superará isso."

Ela não ajudava diretamente na resolução dos problemas, mas servia como um alívio narrativo para reforçar que o jogador deveria ter esperança.

Basicamente, ela era um suporte moral desnecessário, mas cumpria um papel simbólico na história.

Por outro lado, ela era a única pessoa que Lucy Mayreel realmente temia.

Por algum motivo Lucy, que era totalmente imprevisível, fugia de Bell Maya como um gato assustado.

Mas quem Bell Maya realmente era, no fim das contas, não importava muito.

Ela não passava de mais um membro do "Clube dos Personagens Secundários", assim como Ed Rothstaylor.

— Prefiro falar de maneira formal.

— Fico desconfortável com isso.

— Não sou mais um nobre.

— Mas ainda é um estudante da Silvenia.

Seu cabelo preto curto e bem arrumado, junto com seus movimentos refinados, justificavam seu status de Senior Maid no Ophelis Hall, um lugar repleto de profissionais de elite.

Mesmo tendo se aventurado tão fundo na floresta, seu uniforme impecável não tinha sequer um amassado, apesar de ela não poder usar magia básica para se manter limpa.

— Para ser sincera, estou bastante surpresa.

O engraçado era que, apesar de dizer isso, seu rosto não mostrava nem um pingo de surpresa.

— Seu tom de voz mudou bastante, e agora você tem um físico bem mais forte.

Só então me toquei de que ainda estava sem camisa.

Normalmente não me importava com esse tipo de coisa, mas a maneira neutra e indiferente com que Bell Maya falou fez isso parecer estranhamente embaraçoso.

— Acho que é uma mudança maravilhosa. Isso me deixa feliz.

— Ah, certo…

— Pode falar de maneira mais casual.

— Prefiro não fazer isso.

— …

Eu não conseguia dizer, por causa de seu rosto sem expressão, mas talvez eu tenha cutucado seu orgulho estranho sem querer.

— Você tem que falar casualmente.

— Mas eu não quero.

— Quando você morava no Ophelis Hall, fazia isso.

— Isso foi naquela época. Quando eu ainda morava no Ophelis Hall.

As empregadas do Ophelis Hall tinham uma teimosia estranha que era difícil de entender.

Eu notei que Bell segurava uma grande cesta em uma das mãos. Ao lançar um olhar para o conteúdo, percebi que estava cheia de cogumelos, vegetais selvagens e frutas.

As refeições no Ophelis Hall geralmente eram feitas com ingredientes de alta qualidade fornecidos por diversas lojas. Mas quando ingredientes frescos eram essenciais, as empregadas às vezes precisavam obtê-los diretamente na natureza.

Vendo-a fazer isso, finalmente entendi aquele meme da internet que chamava as empregadas do Ophelis Hall de "Fabricantes de Gado Humano".

Os alunos não precisavam fazer nada. Tudo o que tinham que fazer era ficar sentados e abrir a boca.

— Eu sabia que você ainda frequentava a academia. Eu ajudo a jovem senhorita Yennekar com seus preparativos matinais, e ela sempre fala sobre você, jovem mestre Ed.

— É mesmo?

— Mas eu não fazia ideia de que você estava vivendo assim. Quando você saiu do Ophelis Hall, seu rosto parecia o fim do mundo. Achei que acabaria deixando a academia.

'Que estranho que empregadas como ela se sentissem desconfortáveis quando alguém falava com elas de forma respeitosa.'

'Que tipo de educação elas recebiam para ter essa mentalidade?'

Mas o que realmente chamou minha atenção foi a cesta que ela segurava.

Ela estava cheia de todos os tipos de cogumelos, vegetais selvagens e frutas.

Minha pesquisa sobre plantas comestíveis estava limitada aos livros, então se eu pudesse pegar pelo menos um da cesta dela, minha variedade de coleta aumentaria drasticamente.

Nunca mexi com cogumelos ou frutas antes, pois alguns deles eram altamente tóxicos se não fossem tratados corretamente. Mas a chance de expandir minhas opções me fez salivar de expectativa.

'Bell Maya pode parecer fria, mas ela era, na verdade, bem gentil.'

Se eu pedisse ajuda, ela aceitaria sem problemas.

Além disso, ela era apenas uma personagem secundária sem grande impacto na história.

Se interagíssemos ou ficássemos mais próximos, nada de grande importância mudaria.

Na verdade, os benefícios poderiam superar os riscos.

Se nos tornássemos um pouco mais próximos, talvez eu pudesse pedir ingredientes, tecidos e até ferramentas de trabalho que sobrassem no Ophelis Hall.

A essa altura, seria estupidez da minha parte rejeitá-la friamente.

'As empregadas do Ophelis Hall raramente apareciam no jogo.'

'Isso mesmo! Não devia ter problema se nos tornássemos amigos!'

Tendo chegado a essa conclusão, ajustei meu tom de voz e falei com Bell Maya de maneira mais acolhedora, abrindo um sorriso tranquilo.

— Vir tão fundo na floresta para conseguir esses ingredientes… Deve ter sido cansativo. Mas quanto a essa cesta…

'Sim, não deveria ter problema se nos tornássemos amigos!'

E essa foi uma escolha da qual eu me arrependeria até o final da história.

— Sim, sim. Eu falo tanto sobre você com a Bell, Ed. Foi por isso que, quando estávamos conversando, ela de repente me contou que encontrou você aqui.

Bell estava mesmo saindo por aí revelando minhas informações privadas desse jeito?

Algo que até um espírito do vento de alto nível estava protegendo?

Não, eu tinha certeza de que a Bell Maya que eu conhecia era reservada e não falaria sobre os outros tão descuidadamente. Afinal, ser discreta era uma das qualidades mais básicas de uma empregada experiente.

E pelo que eu sabia, Bell Maya era uma empregada de elite, equipada com essa habilidade fundamental.

— Já que hoje é fim de semana, ela me disse para vir te visitar. Olha só, ela até arrumou meu cabelo tão bonito hoje! Olha aqui, não está lindo trançado de lado assim?

Ah, mas veja só essa garota…!

— Ah, é mesmo…

— Então, sobre essa preocupação que eu mencionei antes…

Yennekar sentou-se e abraçou os joelhos, finalmente chegando ao ponto.

A princípio, eu me perguntei por que ela veio até mim, entre tantas outras pessoas.

Enquanto olhava para a fogueira crepitante, Yennekar finalmente conseguiu dizer.

— Ed, você pode não ter visto, já que saiu primeiro. Mas, durante o Treino de Combate Conjunto no mês passado, eu acabei machucando algumas pessoas.

Era o evento em que ela invocou Takan, um espírito de fogo de alto nível, e cobriu todo o Nail Hall em chamas. Um dos maiores eventos que aconteceriam neste semestre.

Era óbvio quem ela acabou ferindo.

Embora tenha sido uma reação natural, considerando que a caloura Lortel quebrou as regras primeiro e usou magia intermediária…

Mas isso era apenas um detalhe secundário para Yennekar, que tinha um coração bondoso.

Mas por que diabos eu era a pessoa com quem ela vinha desabafar?

No fim das contas, todos os alunos estavam do lado dela.

Yennekar era radiante e adorável, e para os alunos do segundo ano, ela era um tesouro precioso. Sempre que ela se sentia culpada ou se punia, todos vinham correndo para incentivá-la e ficar do lado dela.

Porém, Yennekar sabia que todas essas avaliações e opiniões eram tendenciosas.

Eles não conseguiam fazer julgamentos objetivos e justos, pois se importavam demais com ela.

Embora ela fosse grata por sempre terem ficado ao seu lado incondicionalmente, isso não significava que os erros que cometeu desapareceriam.

Por isso, ela veio até mim. Ela sabia que eu não tomaria seu lado de forma automática. Eu não julgaria o evento apenas pela perspectiva dela.

Ela era muito gentil e justa… talvez por isso sua relação com Lortel fosse tão ruim.

— Sabe, mesmo que eu tente esquecer tudo, sempre fico pensando: ‘Acho que exagerei...’ ou ‘Será que reagi tanto a ponto de machucá-la daquele jeito?’ Eu não consigo tirar esses pensamentos da cabeça.

— Entendo…

— Devo ir me desculpar?

— Faça o que quiser.

— Mas meus amigos sempre me impedem de pedir desculpas, porque ela foi quem errou primeiro.

— Então não peça desculpas. Contanto que você ache que está certo.

— Hmmm

Yennekar ficou quieta, descansando o queixo sobre os joelhos.

Eu decidi não forçar minha opinião sobre ela. Não dava para prever como isso poderia afetá-la. Yennekar era importante demais para que eu influenciasse seu comportamento impondo um julgamento de certo ou errado.

Mas eu não pude deixar de querer garantir a ela que tudo ficaria bem.

— Como esperado de Ed.

Porém, sua resposta me pegou mais de surpresa do que eu imaginava.

— Ed… você nunca fica automaticamente do meu lado.

— Se isso te deixa triste, não posso fazer nada.

— Hã? Não, não. Não me entenda mal.

Yennekar sorriu, enquanto apreciava o fogo da fogueira. De alguma forma, o clima tenso no ar parecia um pouco mais leve do que o normal.

— Eu não me sinto mal, nem um pouco. Na verdade, me sinto aliviada.

Palavras simples, mas cheias de significado, continuaram saindo de sua boca.

— Eu queria que todo mundo no mundo fosse mais como você, Ed.

Eu não tive tempo para pensar no significado dessas palavras.

Porque eu ainda tinha uma pilha de trabalho para terminar hoje.

 

◇ ◇ ◇

 

— Gostaria de comprar 2 horas do seu tempo, Ed Rothstaylor.

Isso aconteceu dois dias depois.

No momento em que saí da aula de Estudos Elementais para almoçar.

À primeira vista, ela parecia elegante e bastante educada, mas seus brilhantes olhos turquesa estavam repletos de ganância por dinheiro.

Seus cabelos castanho-avermelhados estavam bem penteados e amarrados na altura das omoplatas, caindo sobre os ombros.

Havia um pequeno curativo desde a base do pescoço até o antebraço, resultado dos ferimentos que sofreu durante a aula de Treino de Combate Conjunto.

Já fazia bastante tempo desde aquele evento…

Isso só me fez perceber o quão sérias devem ter sido suas feridas para ainda não terem cicatrizado completamente.

Aquela garota tão boazinha, Yennekar, deve ter acabado completamente com ela.

Ela estava me esperando no distrito acadêmico, sentada em um banco com uma postura bastante digna.

Eu sabia muito bem quem ela era.

A pessoa que, no futuro, estaria sempre em desacordo com a Princesa Penia, brigando como cães e gatos.

Uma das quatro heroínas de ‘Silvenia’s Failed Swordmaster’.

A única filha de Elte Kehelland, o maior mercador do continente.

Uma rara mulher de negócios que escalaria até o topo da torre de moedas de ouro apenas com sua ambição por riqueza.

No futuro, as pessoas a respeitariam, chamando-a de ‘A Filha Dourada’.

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