Volume 7
Prólogo: Yuuta Asamura
PRÓLOGO — YUUTA ASAMURA
A neve espessa que cobria o mundo começou a desaparecer lentamente no dia 12 de fevereiro, nos levando a uma manhã de sexta-feira. Abri meu armário de sapatos com as mãos dormentes de frio, e uma voz me chamou assim que troquei para os chinelos de uso interno.
"Bom dia, Asamura."
Quando me virei, vi meu amigo Maru me cumprimentando com um sorriso misterioso.
"Bom dia, Maru. Sem treino hoje de manhã?"
"A neve obrigou a gente a ficar em espaço fechado, então terminamos mais cedo. Mas você não hesitou nem um pouco, hein?"
"Hã?" Não entendi do que ele estava falando e deixei escapar uma reação confusa. "Como assim?"
"Eu só estava admirando como você abriu o armário sem nem pensar duas vezes."
"Isso é... ruim?"
"Normalmente não. Mas... olha ali." O olhar de Maru se desviou para um garoto da sala ao lado da nossa.
Ele parecia hesitar por um instante antes de abrir o armário. Quando finalmente abriu, soltou um suspiro leve, mas ainda assim audível.
"Dia 14 de fevereiro cai num domingo esse ano, né?"
"Ah, entendi."
Eu sabia muito bem que 14 de fevereiro é conhecido como o Dia dos Namorados. Na tradição cristã, é um dia para presentear pessoas importantes com algo vindo do coração, algo que acabou sendo transmitido até o Japão. Só que, de alguma forma, virou um dia em que mulheres dão chocolate para homens. Ultimamente, isso tem ficado mais flexível (ou melhor, voltou às origens), com tanto meninos quanto meninas dando chocolate para quem gostam. E como esse ano caiu no fim de semana, isso significa que os chocolates estão sendo entregues ou hoje, sexta-feira, ou no próprio dia.
"Pode ter chocolate esperando no seu armário, então o normal seria hesitar um pouco antes de abrir. Mas você simplesmente abriu sem se importar, né?"
"Exatamente."
"Mas isso realmente acontece? Quero dizer, achar chocolate no armário?"
Não me lembrava de nunca ter recebido chocolate assim, nem de ouvir alguém próximo falar disso. E hoje em dia, com tanta preocupação com higiene, colocar comida dentro de um armário de sapatos parece bem anti-higiênico e sem sentido. Sem falar que o armário de um estudante do ensino médio não é exatamente o lugar mais limpo do mundo. No máximo, uma carta faria sentido ali.
"É um argumento válido, mas... Asamura, pensar em higiene no Dia dos Namorados e tentar ser realista... não é como a maioria dos garotos pensa."
"Você... acha?"
"Seu cérebro entende a lógica, mas não dá pra ignorar aquele pequeno fio de esperança. É perfeitamente normal achar que pode existir... não, que deve existir pelo menos uma garota que gosta de você."
"Isso não é nada normal."
"Mas todos nós, garotos, somos meio malucos. Então isso torna normal."
"Que lógica falha."
Chegamos à sala enquanto conversávamos, e sem perceber comecei a observar ao redor, tentando notar se o clima estava diferente. No fim, o ambiente parecia tranquilo, e poucas pessoas falavam sobre o Dia dos Namorados. Provavelmente porque o Colégio Suisei é mais voltado para estudos do que a média. Ainda assim, ao longo do dia, vi garotas trocando chocolates entre si, ou meninos recebendo chocolates quando tinham muitas amigas. Já os casais que conhecíamos não trocavam chocolate na sala. Por quê?
Eventualmente, o sinal final tocou, e Maru se virou para mim.
"O que deu em você, Asamura? Ficou olhando pros lados com uma cara estranha o dia todo."
"Cara estranha...? Deve ter sido bem evidente se até você percebeu."
"Você estava com cara de filósofo."
Calma lá. Eu não sou Sócrates, Platão, Nietzsche ou Sartre, não. E nem estava pensando tão profundamente assim.
"Não estava tentando resolver a fome no mundo nem nada. Só achei curioso que até os casais assumidos não trocam chocolate na frente dos outros."
Ao ouvir isso, Maru me lançou um olhar desconfiado.
"Asamura... isso basicamente mostra que você parte do princípio de que todos os casais se sentem à vontade para demonstrar afeto na frente dos outros, sabia?"
"Isso..."
Não é verdade—foi o que pensei em dizer, mas então vieram à mente as imagens do meu pai e da Akiko. Pensando bem... talvez seja verdade.
"...é possível, eu acho."
"Me diz uma coisa... os casais que você conhece ficam se abraçando e se beijando em público sem vergonha?"
"Eu nunca vi algo assim... mas não me surpreenderia se acontecesse."
Não sei se meu pai e a Akiko se beijam quando saem pela cidade, mas não me surpreenderia se pelo menos andassem de braços dados... Embora, como filho, eu prefira não ficar imaginando a vida amorosa dos meus pais.
"Você deve ter assistido filme americano demais. Na prática, casais assim acabam sendo zoados até só por andarem juntos. Qualquer contato físico já é vergonhoso demais."
"Vergonhoso... é, faz sentido."
Então o motivo de Ayase e eu não fazermos essas coisas seria vergonha... certo? Parece ser isso, mas ao mesmo tempo não completamente. Lembrei vagamente do que aconteceu quando visitamos a família do meu pai no Ano Novo. Depois de deixar clara minha posição para meu avô, voltei para o quarto e fui dormir, mas então Ayase tocou minhas costas e disse:
"Obrigada, Yuuta."
Nunca tive problema com Ayase se tornar minha irmã mais nova. Saber que ela ouviu minha conversa com meu avô me deixou constrangido, mas também feliz por meus sentimentos sinceros terem chegado até ela. Ainda havia o risco de nossos parentes descobrirem sobre nós, e nossos pais podiam voltar a qualquer momento. Mesmo assim, Ayase se aproximou e buscou contato físico.
Com aquilo que ela disse e fez, como eu não sentiria nada?
Depois disso, Ayase não disse mais nada e voltou rapidamente para o próprio futon, mas meu coração estava acelerado demais para eu conseguir dormir. Apesar do risco de sermos vistos, tivemos aquele contato. Isso me fez pensar por que ela fez algo tão arriscado. Não é muito do feitio dela, mas fiquei feliz por termos nos conectado daquele jeito.
As palavras do Maru sobre meu subconsciente ecoaram na minha mente. No fundo... será que eu queria ser mais aberto com esse tipo de contato na frente dos outros? E só não sou por vergonha?
"Asamura, alguém está te chamando." A voz de Maru me fez levantar a cabeça.
Vi uma garota espiando pela porta da sala. Era Narasaka Maaya, amiga da Ayase. Ela acenou para mim, então me despedi do Maru e fui até ela.
"Narasaka? O que foi?"
"Vem comigo."
Ela me levou até a escada perto de um depósito no canto do andar. Para minha surpresa, Ayase já estava lá.
"A Maaya não parava de insistir pra eu te dar isso..."
"Dar... o quê?"
Narasaka se virou para mim com um sorriso.
"Eu prefiro não correr o risco da sua irmãzinha fofa ficar com ciúmes porque eu te dei chocolate escondido. Então, aqui!" Ela tirou um pacote embrulhado de trás das costas e me entregou. "Presente de Dia dos Namorados!"
"E esse é o meu. Não é nada demais."
Ayase também me entregou um pacote.
Ela não me deu em casa... mas na escola? Bem, não é tão estranho, considerando que provavelmente não conseguiu recusar a Narasaka.
"Ah... obrigado."
Sempre fico em dúvida se devo abrir presentes na hora, mas às vezes ver a reação deixa a pessoa feliz, então perguntei:
"Posso abrir?"
"Claro! Não tem carta de amor aí nem nada."
Narasaka respondeu sorrindo, então provavelmente é verdade.
"Então vou começar pelo seu."
Rasguei o embrulho e encontrei chocolate comprado.
E, para eliminar qualquer possível mal-entendido, estava escrito "Obrigatório" na embalagem.
"É o exemplo perfeito de chocolate de obrigação, sem risco de confusão!"
"Obrigado. Isso realmente facilita aceitar."
"Né? Eu sou incrível!"
Depois, passei para o presente da Ayase. De cara dava para ver que não era comprado, e que ela tinha se esforçado bastante. Pareciam mais trufas do que simples chocolate. Ela até tinha colocado algo como flocos por fora.
"Você fez isso pra mim?"
"Nossa! Saki, isso deve ter dado um trabalho enorme! Você fez o feuillantine também?"
"Claro que não. Eu comprei e só usei nas trufas."
"Feu... o quê?"
"Feuillantine. É isso que está no chocolate. Tem vários nomes, mas basicamente é crepe torrado e triturado."
"Ah... tipo biscoito triturado?"
"S-Sim... algo assim. Mas falar desse jeito tira toda a magia do Dia dos Namorados, então para. Mas ficou bonito, né?" disse Narasaka.
"Espera... então era por isso que a luz da cozinha estava acesa até tarde ontem?"
"É... isso é normal entre irmãos, não é?"
Foi o que Ayase disse, mas eu não fazia ideia se era verdade. Pra ser sincero, essa é a primeira vez que recebo chocolate caseiro, então não sei nem como reagir. E, pela reação da Narasaka, isso deve ter dado muito trabalho.
"Não é nada demais", disse Ayase, desviando o olhar, claramente envergonhada.
Narasaka observou e depois cochichou para mim:
"Nada mal, Asamura. Talvez você seja mais conquistador do que parece?"
"Não faço ideia do que você está falando."
Por que receber chocolate me tornaria um conquistador? Não consigo entender a lógica dela.
"Do que você está falando?"
"Eu só estava dizendo como você é dedicada, Saki. Bem, com um irmão mais velho assim, dá vontade de se esforçar, né!"
"Eu não fiz isso por ser o Asamura..."
"Sério mesmo? Tudo bem, tudo bem. Missão cumprida. Agora você pode ir pra casa, irmãozão~"
"Tá, tá."
"Até mais, Asamura", disse Ayase, virando as costas e indo embora.
Narasaka voltou correndo até mim.
"A viagem escolar está chegando, né?"
Assenti, sem saber onde ela queria chegar.
"Vou dar meu melhor pra vocês dois poderem passear juntos."
"Hã? Juntos?"
"Você vai ficar sozinho se não puder ficar com a Saki, né?"
"N-Não, não precisa se preocupar comigo."
"Não precisa ser modesto! É sua primeira viagem com sua irmãzinha fofa, né?"
Na verdade, já tivemos algo parecido quando visitamos a cidade natal do meu pai, mas se eu dissesse isso, poderia dar a entender algo sobre mim e Ayase. E vendo o sorriso dela, fiquei com a impressão de que talvez ela já tivesse percebido alguma mudança entre nós.
Consegui disfarçar e satisfazer a curiosidade dela, mas quando finalmente foi embora, percebi o quanto eu estava suando, de tanto nervosismo. Ainda assim, curiosamente, não me incomodava tanto as provocações dela. Na verdade... me deixavam feliz. Aqueciam meu peito.
Então... se isso é felicidade, por que sinto a necessidade de limitar o contato físico com a Ayase?
Peguei uma das trufas e coloquei na boca. O feuillantine deu uma leve crocância, e o chocolate derreteu, preenchendo minha boca com doçura.
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