Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 6

Capítulo 1: 11 de Dezembro (Sexta-Feira) - Yuuta Asamura

11 DE DEZEMBRO (SEXTA-FEIRA) — YUUTA ASAMURA

O último sinal ecoou pelo sistema de som da escola, e o professor saiu da sala. As cadeiras começaram a arrastar enquanto os alunos conversavam, indo para seus clubes ou planejando sair depois da aula.

Todos pareciam mais leves—talvez porque finalmente tínhamos recebido todos os resultados das provas.

O grandalhão sentado na minha frente—meu amigo Maru—se levantou e pegou a mochila. Achei que ele estava indo para o treino de beisebol como sempre, mas…

   "Ah, é mesmo. Asamura."

…ele me chamou, me pegando de surpresa.

Maru normalmente saía direto, sem falar muito.

   "Sim?"

   "Tenho que ir pro treino, mas você pode vir comigo?"

   "Pro treino? Por quê?"

   "Tem uma coisa que eu quero te dar."

   "Bom… tá."

Eu não tinha nada pra fazer mesmo, então peguei minha mochila e segui Maru. Imaginei que iria direto pra casa depois.

Olhei pela janela enquanto caminhávamos pelo corredor. As árvores ao lado do prédio já tinham perdido todas as folhas; o inverno tinha chegado de verdade. Através dos galhos nus, dava pra ver o pequeno pátio da escola. O único ponto de cor era a cerca viva sempre-verde, e ninguém estava sentado no banco ao lado. Uma única folha seca girava com o vento perto do gramado—um vestígio esquecido do outono.

   "Ei, Maru. Como você foi na prova?"

   "Hmm? Minha pontuação total foi 828."

   "Uau."

Maru era impressionante. Conseguia manter sua posição no time de beisebol e ainda tirar notas altas em tudo. Eu tinha feito 819.

   "Eu me esforcei bastante dessa vez", eu disse, "mas ainda estou longe de te alcançar."

   "Hmm. Não precisa se comparar comigo."

   "Mesmo assim."

Eu tinha melhorado bastante desde a última vez e estava me aproximando aos poucos.

   "Tô com a impressão de que você melhorou bastante desde o verão", disse Maru.

   "Deve ser por causa dos cursos de férias que fiz."

   "Será que é só isso mesmo?"

   "Hm?"

   "Ah, deixa pra lá."

Com isso, Maru ficou em silêncio e continuou andando.

Saímos pela entrada, e eu estremeci com o vento frio. Meus dedos já começavam a ficar dormentes. Era difícil acreditar que os atletas da escola treinavam ao ar livre nesse clima até o pôr do sol. Um cara como eu, que ia direto pra casa, não tinha como comparar.

Logo chegamos ao prédio dos clubes. Tinha dois andares e parecia um conjunto de quitinetes barato. Ambos os andares eram ocupados por clubes esportivos, e o time de beisebol ficava na sala da frente, mais próxima do campo.

Assim que entrei, fui atingido pelo cheiro de suor, seguido pelo aroma cítrico de um spray usado para disfarçá-lo. As paredes estavam cheias de compartimentos para os equipamentos dos jogadores. Cada um refletia a personalidade do dono—alguns organizados, outros cheios de bagunça com chuteiras e luvas. Num canto, vi vários tacos de metal guardados como se fossem guarda-chuvas.

Os membros do clube conversavam e riam enquanto trocavam de uniforme. Quando viram Maru, o cumprimentaram e também me cumprimentaram educadamente. Ele me apresentou como colega de classe, e eu fiz uma leve reverência.

Os mais novos me olhavam com respeito, mesmo sem nunca terem me visto antes. Era só por eu ser amigo do Maru? Eu me sentia completamente deslocado e quase não disse nada.

Enquanto eu esperava perto da entrada, meio perdido, Maru atravessou a sala, pegou um saco de papel do seu armário e colocou a mochila no lugar.

Mesmo tendo só atravessado o ambiente, os colegas continuavam chamando por ele e o parando.

   "Desculpa a demora", disse quando voltou.

   "Imagina."

Era bom ver como meu amigo era querido. Não tinha nada a ver comigo, mas ainda assim me deixava feliz.

   "Então, o que você queria me dar?"

   "Aqui. Não queria deixar isso na sala de aula."

Maru me entregou o saco de papel. Era pequeno o suficiente pra carregar debaixo do braço. Olhei dentro e vi três volumes de mangá—não do tamanho comum, mas aqueles um pouco maiores, voltados para um público mais velho.

Na hora fez sentido; não era fácil levar esse tipo de mangá pra sala.

   "São pra mim?" perguntei.

   "São minhas recomendações mais recentes, e são incríveis! Eu, pessoalmente, indicaria pro prêmio de próxima grande obra."

   "Sério? Mal posso esperar pra ler."

Mesmo assim, ele não precisava ter todo esse trabalho de esconder no armário do clube. Poderia ter me entregado depois, fora da escola.

Ou era o que eu pensava, mas…

   "Comprei cópias extras pra espalhar a palavra. Seu aniversário é domingo, né?"

…foi aí que percebi que era um presente de aniversário.

 

[Ayko: Maru é um bom amigo :)]

 

   "Então foi por isso que você fez tudo isso."

   "Pode ser meio nerd, mas é bom demais."

   "Você já me recomendou alguma coisa que não fosse nerd?"

   "Ha-ha. Cruel. Só pra constar, eu também leio coisas populares. Então não liga pro meu gosto e só aproveita."

   "Tá bom, tá bom—e valeu. Eu gostei mesmo."

Acabei zoando ele, mas estava genuinamente feliz. Nunca imaginei que ele me daria um presente. A gente nunca teve o costume de comemorar aniversários, nem trocamos nada no ano anterior. Foi uma surpresa.

Mas pensando bem, uns seis meses atrás, ele comentou algo sobre dar um presente pra alguém. Quando perguntei, ele desviou do assunto. Talvez aquilo tenha inspirado isso.

Eu teria que retribuir quando chegasse o aniversário dele.

   "Quis te dar agora porque não vou te ver no domingo."

   "É, vocês têm treino no fim de semana."

   "Desculpa não poder comemorar com você. Mas tenho certeza de que você tem muita gente pra isso."

   "Na verdade, não. E eu fiquei muito feliz por você ter lembrado."

   "Não é nada demais, então relaxa. Até mais."

Maru acenou e voltou para o vestiário. Eu já estava saindo quando outro jogador veio correndo até mim. Parecia ser da nossa série.

   "O Maru fala com você sobre a Narasaka?" ele perguntou em voz baixa.

Eu não esperava ouvir aquele nome ali.

   "Narasaka…? Quer dizer…"

   "Sim, aquela garota bonita."

   "Ah, entendi. Mas o que ela tem a ver com o Maru?"

   "Alguém disse que viu os dois conversando. Pareciam bem próximos."

   "Ele não comentou nada comigo."

[Ayko: Maru e Narasaka hein? Será será?]

E não era mentira. Maru não tinha falado nada. E mesmo que tivesse, eu não sairia contando.

   "Entendi…"

Pelo jeito, ele achava que os dois estavam namorando. Disse que já tinha perguntado diretamente ao Maru, mas ele não contou nada.

   "Desculpa te incomodar", disse por fim.

   "Sem problema. Até."

Fiz uma leve reverência e saí.

Enquanto caminhava até o bicicletário, fiquei pensando.

Maru e Narasaka, hein?

 

[Ayko: Tive a mesma reação Yuuta.. A EXATA mesma reação]

 

Parecia exagero… mas se fosse verdade, então eles também estariam escondendo isso. Outro relacionamento secreto.

Mas, pensando bem, por que um casal sairia anunciando isso pra todo mundo?

   "...Espera."

Talvez houvesse motivo.

Até no mundo animal isso acontece. Quando dois se juntam, deixam claro pros outros. Humanos também têm rituais como noivado e casamento.

Então… não seria estranho esconder?

   "Haah…"

Suspirei, confuso com meus próprios pensamentos.

Nem sabia se era verdade, então não adiantava pensar tanto nisso.

Joguei a mochila no cesto da bicicleta e comecei a pedalar com força.

Eu ainda tinha que ir pro trabalho na livraria.

Eu caminhava pelo entardecer de dezembro. O céu entre os prédios já estava em um tom profundo de índigo, e luzes de LED começavam a iluminar a rua. Luzes chamativas, sons e pessoas se misturavam ao meu redor.

As árvores perto da estação estavam decoradas, e até a estátua do cachorro famoso tinha sido enfeitada com um laço vermelho.

A livraria onde eu trabalhava não era diferente. Havia decorações natalinas por todo lado.

   "O quê?! A Yomiuri está doente?" eu exclamei.

   "Sim. Hoje é só você e a Ayase. Vai ser mais corrido, mas conto com vocês."

   "Certo… entendido."

Troquei de roupa e fui para o salão.

   "Desculpa o atraso!" Ayase disse, chegando ainda com o uniforme.

   "Tá tudo bem. Ainda não começou."

Logo começamos, e o movimento estava intenso.

Pedidos atrás de pedidos, sem tempo pra respirar.

Além disso, com o Natal chegando, muitos pediam embrulho de presente—o que dava ainda mais trabalho.

Mesmo assim, continuei trabalhando, enquanto meus pensamentos vagavam.

Um presente de aniversário para Ayase.

O que eu deveria dar a ela?

   "Opa, como está indo?"

A voz do gerente me trouxe de volta.

   "Logo chega ajuda. Aguente firme."

   "Sim, senhor."

Depois de um tempo, o movimento diminuiu um pouco.

   "Vou dar uma olhada nas prateleiras", eu disse.

   "Obrigada!"

Mais tarde, finalmente conseguimos respirar quando outro funcionário chegou.

Já era noite quando terminei o turno.

Eu caminhava ao lado de Ayase, empurrando a bicicleta. O ar estava frio o suficiente para ver minha respiração.

   "Por que você não usa luvas?" ela perguntou.

   "Sinto que escorrega quando uso."

   "Mesmo assim, deveria usar."

   "É… você tem razão."

   "Também não está usando cachecol. Não está com frio?"

   "Pode ser perigoso enquanto pedalo."

   "Ah… verdade."

Ela assentiu e então disse:

   "Vem mais para cá com a bicicleta."

   "Hã?"

Mesmo sem entender, fiz o que ela pediu.

Então, ela colocou suavemente a mão sobre a minha no guidão.

Entendi.

O calor dela atravessou a luva e chegou até mim.

   "Melhorou um pouco?"

   "…Sim."

   "É o máximo que posso fazer."

   "Já ajuda bastante. Obrigado."

Caminhamos em silêncio.

Para disfarçar o constrangimento, falei das provas.

   "Você me venceu de novo…"

   "Quatro pontos não significam nada. E seu 94 em japonês foi incrível."

Ela tinha saído de uma nota ruim pra 94 em seis meses.

Era realmente impressionante.

Se ela começasse a fazer cursinho também… provavelmente entraria entre os melhores.

Eu disse isso a ela, e Ayase balançou a cabeça.

   "Não pretendo fazer cursinho."

   "Imagino… é bem caro mesmo."

Considerando como Ayase evitava depender dos outros por natureza, não era surpresa que quisesse estudar sozinha.

   "Não tenho nada contra fazer cursinho… mas não quero causar problemas para ninguém. Eu sei que você disse que aprender a depender dos outros é importante, mas…"

   "Bom, eu só estava repetindo algo que ouvi da Yomiuri."

   "Eu entendi o que você quis dizer, mas ainda não sinto vontade de me matricular em aulas."

   "Se um dia quiser, eu te ajudo com isso."

   "Obrigada."

Depois disso, Ayase ficou em silêncio e apertou levemente minha mão. Senti a pressão—não era forte o suficiente para impedir meus movimentos, mas parecia que mais calor ainda emanava dos dedos dela. O vapor branco saía da minha boca enquanto o vento de inverno entrava pela gola do casaco, me fazendo estremecer. Ainda assim, aquela mão, envolta na dela, estava cheia de calor.

   "Além disso, se a gente estiver junto…", Ayase começou, mas falou tão baixo que não consegui ouvir o resto.

Quando me virei para ela, já estava olhando para frente de novo, encarando a escuridão à nossa frente.

Deixamos a rua principal e o movimento para trás e seguimos pelo caminho estreito até o nosso apartamento. Ao passar pela placa amarela brilhante do estacionamento, as luzes de casa apareceram—o lar onde eu e minha meia-irmã vivíamos juntos.

Quando cheguei, olhei para a mesa de jantar. Havia uma sacola plástica com algumas refeições prontas, junto de um bilhete escrito: “Jantar!”

Peguei o celular rapidamente e vi uma mensagem do meu pai. Pelo visto, ele tinha comprado comida no caminho de volta do trabalho. Abri a sacola e conferi.

   "Guioza, hein?"

   "E também tem carne de porco agridoce e carne com pimentão", disse Ayase, tirando os recipientes e colocando na mesa. "Parece que já está tudo pronto pra comer."

Como nossos turnos na livraria tinham sido ajustados, Ayase e eu tivemos que ir direto do colégio para o trabalho, sem passar em casa. Ou seja, nenhum de nós teve tempo de preparar o jantar.

Avisamos nosso pai; ele deve ter comprado comida pra ajudar. Ele já tinha jantado e estava no quarto, dormindo. Akiko, como sempre, estava trabalhando.

   "Asamura, quer sopa pra acompanhar?"

   "Acho que tem aquelas de preparar com água quente. Serve?"

Ayase assentiu, então fui até o armário e peguei sopa de milho instantânea. Coloquei duas tigelas na mesa enquanto esperava a água ferver. Enquanto isso, Ayase transferia a comida para pratos.

Se fosse só eu, teria comido direto dos recipientes, frio mesmo. Mas Ayase preferia esquentar tudo e servir adequadamente. Para ela, a apresentação fazia diferença.

E de fato, ao ver os pratos organizados, com vapor subindo, meu apetite aumentou.

Quando tudo ficou pronto, colocamos arroz nas tigelas e começamos a comer.

Depois de um tempo, Ayase olhou para mim e perguntou casualmente:

   "É assim que você come guioza?"

   "Hã? Tem algo estranho?"

Nós dois estávamos mergulhando os guiozas em molho. À primeira vista parecia igual, mas logo percebi a diferença.

   "Isso é só vinagre?" perguntei.

   "Sim. Não me diga que você usa só shoyu?"

   "O quê?! Não é o normal?"

   "Eu sempre usei vinagre."

   "…É bom?"

   "Eu que te pergunto."

Eu não conseguia imaginar o gosto daquilo. Quando disse isso, Ayase empurrou o molhinho na minha direção.

O tempo pareceu parar.

Será que eu podia usar o molho dela?

Algumas pessoas não gostam de compartilhar, nem com a família. Eu não ligava. Mas com Ayase… aquilo tinha um significado diferente.

Hesitei por um instante, então me convenci de que aquilo era normal entre irmãos.

Mergulhei um guioza no vinagre dela e dei uma mordida. Estava quente, e o caldo saboroso se misturou ao gosto ácido do vinagre. Era diferente, mas não exagerado. Na verdade… era bem gostoso.

   "Acho que entendi agora", eu disse.

   "Você gostou?"

   "Sim. Não é tão forte, mas é mais leve."

   "Viu? Fica bom com pimenta também."

   "O que a Akiko usa?"

   "O mesmo que eu. Ela diz que o shoyu é muito forte."

   "Entendi. Quer provar o meu?"

Empurrei meu molhinho para ela. Ayase mergulhou um guioza e levou até a boca—mas parou por um instante, como se tivesse percebido algo.

Mesmo assim, comeu.

   "Hmm… Tem gosto de shoyu."

   "Bom… é shoyu."

Cada um pegou seu molho de volta, e continuamos comendo em silêncio por um tempo.

Quando estávamos quase terminando, voltei ao assunto.

   "Ei, Ayase. Sobre nossos aniversários…"

Ela levantou o olhar.

   "Hm? Sobre comemorarmos no dia?"

   "Isso. Eu estava pensando no que te dar. Tem algo que você quer?"

   "Ah, eu ia te perguntar isso também."

Então ela tinha pensado o mesmo.

Mais uma vez, percebi como éramos parecidos nessas coisas. Nenhum de nós queria dar algo que o outro não fosse gostar.

   "Vamos definir um preço também", disse Ayase. "Algo mais simples."

   "Faz sentido. Você está economizando, afinal."

   "Então, Asamura. O que você quer?"

Fiquei em branco.

Mas, assim como quando ela me perguntava o que eu queria comer, “qualquer coisa” não servia.

Eu ia pedir tempo para pensar, quando ela disse:

   "Que tal um protetor de pescoço?"

   "Ah… você está pensando no caminho de volta."

Ela tinha comentado que meu pescoço parecia frio, e eu disse que cachecol era perigoso.

   "Boa ideia."

   "O que você quer, Ayase?" perguntei.

Ela respondeu na hora:

   "Um sabonete bom pra usar no banho."

   "Sabonete?"

Aquilo me surpreendeu.

   "Se a gente ficar trocando presentes assim todo ano, vai acabar acumulando coisas. E se quebrar ou tiver que jogar fora, dá pena, né? Acho melhor algo que já foi feito pra ser usado."

Era bem a cara da Ayase pensar até nisso.

Mas o que mais me chamou atenção foi outra coisa.

Ela estava assumindo que continuaríamos fazendo isso por muito tempo.

Não era algo de uma vez só.

Ela queria continuar trocando presentes comigo… por anos.

   "Entendi. Então, esse ano, eu te dou um sabonete especial."

Ayase sorriu—como se tivesse entendido exatamente o que eu quis dizer.

 

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