Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 5

Capítulo 1: 19 de Outubro (Segunda-Feira) - Yuuta Asamura

19 DE OUTUBRO (SEGUNDA-FEIRA) — YUUTA ASAMURA

Acordei às sete da manhã na segunda-feira e percebi que havia uma mensagem não lida no aplicativo de chat. Isso era bem incomum. Depois de desativar o modo de descanso do celular, abri a mensagem.

É da Narasaka?

Ela havia sido enviada às 2:07 da manhã. O quê?! Duas da manhã?

   "Ela ficou acordada até bem tarde."

Eu nunca conseguiria acordar de manhã se fosse dormir tão tarde. E, afinal, por que ela me mandaria mensagem no meio da noite?

Aviso importante da Maaya:

   "Ei! Acredita que o dia 21 deste mês é o dia em que Maaya Narasaka veio ao mundo?!"

   "E por isso haverá uma festa de aniversário!"

   "É de última hora, então não precisa se preocupar com presentes!"

   "Espero ver você lá!"

Ou seja, ela estava me convidando para a festa de aniversário dela.

As pessoas realmente organizavam festas de aniversário para si mesmas? Eu não me lembrava de já ter ouvido falar de uma festa em que o anfitrião também fosse o aniversariante. Mas o que eu sabia? Eu nunca tinha organizado uma festa de aniversário… nem sido convidado para uma.

[Ayko: Diferentemente do Brasil, onde as festas tendem a ser grandes e numerosas em pessoas, em certos países como o Japão as festas são bem mais discretas, e quando ocorrem, em grande parte dos casos o aniversariante não é quem organiza, podendo ser o último a saber da comemoração, já que geralmente é surpresa.]

E, além disso, eu nem era tão próximo da Narasaka. Ela era amiga da Ayase, não minha. Eu só a tinha visto algumas vezes, então era mais como um amigo de uma amiga. Por que ela me convidaria?

A resposta veio logo na linha seguinte da mensagem.

   "A Saki também vai."

Quando vi o nome da Ayase, meu coração bateu um pouco mais rápido.

...O quê? Por que ela faria questão de mencionar isso?

Será que ela percebeu a mudança no nosso relacionamento?

Preciso me acalmar. A Narasaka me convidou para aquela ida à piscina porque sou irmão da Ayase, certo? Além disso, ela é do tipo que considera qualquer pessoa com quem troca uma mensagem como amiga. Provavelmente não quis dizer nada com isso.

Mas isso não era tudo em que eu precisava pensar.

   "Com certeza vai ter um monte de gente… igual na piscina."

Lembrei dos outros alunos da nossa série que tinham ido naquela ocasião. Alguns eram da turma da Narasaka e da Ayase, mas outros ela conhecia de outros lugares.

A maioria era completamente desconhecida para mim, e a única coisa que tinham em comum era serem extrovertidos — todos, exceto eu.

Comecei a pensar nos amigos e conhecidos da Ayase que eu não conhecia, e senti um desconforto que já não experimentava havia algum tempo.

Isso era ciúme?

Me senti patético. Achei que já tinha superado esse tipo de sentimento quando eu e Ayase compartilhamos o que sentíamos, mas eles ainda estavam ali, crescendo dentro de mim. Ainda assim, eu havia amadurecido um pouco, pois agora conseguia reconhecê-los assim que surgiam e controlá-los rapidamente.

Eu não sabia como agir perto daquele tal Shinjou que vi com a Ayase em frente à loja de conveniência, mas imaginei que deveria apenas tentar me misturar como fiz na piscina e evitar chamar atenção.

Foi então que tive uma percepção.

   "Espera aí."

Será que isso seria mesmo como a ida à piscina?

Fiquei olhando para a mensagem da Narasaka, tentando entender por que me sentia tão inquieto.

Quando ela nos convidou para a piscina, pediu que todos fossem de uniforme escolar, provavelmente por consideração a alguém do grupo. Mas desta vez não havia nada assim.

E havia mais uma coisa que me preocupava: o Colégio Suisei era uma escola preparatória famosa de Tóquio, com regras rígidas, e era arriscado levar coisas desnecessárias para a aula. Narasaka disse para não se preocupar com presentes, mas normalmente não era esperado levar algo para um evento assim? Isso significava que os participantes provavelmente passariam em casa antes de ir até a casa dela.

   "E isso quer dizer..."

Havia uma grande chance de que todos trocassem de roupa.

Se eu fosse o único a aparecer de uniforme, iria me destacar demais. Fiquei aliviado por ter percebido isso com antecedência.

Enquanto suspirava de alívio, notei uma observação no final da mensagem.

   "Irmãozinho, trate de se vestir à altura da Saki."

Ao que tudo indicava, minha previsão estava correta. Mas agora não era só usar roupas casuais — eu precisava me arrumar bem.

O nível de exigência tinha subido absurdamente. Narasaka tinha me dado uma missão importante.

Eu gostava de me considerar um estudante comum do ensino médio, mas, quando se tratava de moda, eu ficava um pouco atrás.

Ao contrário da Ayase, eu nunca considerei roupas como uma forma de armadura. Não via o cotidiano como um campo de batalha, então nunca senti necessidade de proteção.

Mas agora começava a entender o ponto de vista dela.

Quando imaginei as outras pessoas que estariam na festa, a ideia de aparecer com roupas sem graça e fora de moda começou a me deixar ansioso. Era assim que um soldado se sentiria indo para a guerra desarmado?

Claro, eu não estaria lutando nem competindo com ninguém. Mas, ao imaginar Ayase, elegante, se encaixando perfeitamente, enquanto eu me destacava de forma negativa, comecei a ficar inquieto.

Moda, hein? Talvez eu dê uma olhada em algumas revistas. "Conheça o inimigo e conheça a si mesmo, e você não temerá cem batalhas", como dizem.

[Ayko: Essa fala do Yuuta vem também do livro A Arte da Guerra - Sun Tzu (recomendo a leitura, muita coisa é aplicável ao dia a dia, e não á guerras somente.]
 

Organizei meus pensamentos e enviei uma resposta breve para Narasaka:

   "Vou conversar com a Ayase."

De alguma forma, ao enviar a mensagem, tive a sensação de estar caindo exatamente no jogo da Narasaka.

Me preparei para a escola e fui até a cozinha. Hm? A Ayase não está aqui.

Será que ainda estava dormindo?

Meu pai estava sentado à mesa de jantar, parecendo entediado. Era o único ali.

   "Está esperando para comer?"

   "Achei melhor esperar até que todos estivessem prontos."

   "Entendi."

Eu não conseguia imaginar ele indo acordar a Ayase para a fazer cozinhar. Ele já havia servido o arroz e colocado na mesa, junto com alguns acompanhamentos.

   "Mas acho melhor começar a comer se quiser chegar no horário."

   "Seu trabalho ainda está corrido?"

   "Hm? Ah… está sim. Mas já está melhorando."

O trabalho do meu pai vinha sendo puxado desde o início do outono, e ele frequentemente fazia horas extras e chegava tarde. Às vezes eu ouvia Akiko murmurando que estava preocupada com ele, mas ele nunca demonstrava estresse e continuava agindo normalmente em casa.

   "Quer que eu esquente a sopa de missô?", perguntei.

   "Já está pronta, pode servir."

   "Pode deixar."

Depois de aquecê-la um pouco, coloquei a sopa em uma tigela e a servi.

   "Obrigado."

Agora, vamos ver o que a Ayase preparou para o café da manhã. Presunto, natto e alga tostada. Também havia pequenos potes com espinafre cozido e algo branco que eu não reconheci. Era peixe branco pequeno?

Observei enquanto meu pai colocava o peixe no natto, adicionava um pouco de molho de soja e misturava tudo vigorosamente.

Natto com peixe, é?

   "Prato interessante", comentei.

   "É. A Akiko fazia isso para mim o tempo todo. É tão simples que até me pergunto por que nunca fiz sozinho."

Eu sabia o motivo. Meu pai não via sentido em preparar comida gostosa quando comia sozinho.

Ele colocou a mistura sobre o arroz e começou a comer.

Não dava para saber se ele estava com pressa ou se realmente gostava da comida, mas ele comia em um ritmo impressionante.

   "É bom, sabia? O natto escorregadio combina bem com a textura do peixe. Dá até para colocar shiso. Ou substituir o natto por cogumelos enoki."

Isso já estava parecendo um programa de culinária.

[Ayko: Yuuta deu o gancho, natto é uma comida tradicional japonesa, a base é soja fermentada, e há quem diga que o cheiro é bem semelhante a amônia!]

Se meu pai não tivesse se casado com a Akiko, provavelmente ainda estaria comendo arroz com ovo e molho de soja sempre que estivesse com pressa.

   "Vou experimentar depois", disse.

Mas, enquanto o observava comer rapidamente, comecei a pensar.

   "Pai?"

   "Hm?"

   "Ah, pode continuar comendo. É que eu estava pensando... você já se preocupou com a forma como se veste quando está com a Akiko?"

   "Como assim?"

   "A Akiko está sempre bem arrumada, mas você..."

   "Eu sou estiloso do meu jeito."

   "Nossa, confiante, hein?"

Um sorriso bobo apareceu em seu rosto.

   "Eu mudei um pouco desde que comecei a sair com a Akiko, mas sempre me vesti como um trabalhador comum."

Como filho, senti que era meu dever dizer:

   "Não deveria tentar ser um pouco acima da média?"

   "Bom, sendo sincero, não gosto de me forçar a parecer estiloso. Só tento me manter apresentável, e pronto."

   "Entendi."

   "A Akiko precisa se arrumar por causa do trabalho, mas acho que manter uma aparência limpa já é suficiente."

Enquanto comia, ele explicou que via manter uma aparência profissional e se vestir para parecer atraente como coisas completamente diferentes. Ele se preocupava com a primeira, mas não achava mais necessário pensar na segunda.

Perguntei se ele se preocupava com outros homens ao redor da Akiko, e ele parou para pensar.

   "Não muito. Na época da faculdade, eu me preocupava com os caras ao redor da garota de quem eu gostava. Não sei quando parei, mas foi pouco depois de começar a trabalhar."

   "Quando virou adulto?"

   "Sim. Ou talvez quando comecei a trabalhar, comecei a me preocupar com outras coisas. E meu trabalho não depende de estilo para pagar melhor."

   "Ah, é isso que você quis dizer com aparência profissional?"

   "Já trabalhei com vendas. E, sendo sincero, acho que hoje em dia nem tenho espaço para me preocupar com isso."

   "Entendi."

Claro.

Eu não pensava nisso quando era criança, mas agora, no ensino médio, começava a entender. Meu pai podia fazer cafés da manhã simples, mas nunca senti que faltava algo em casa. O fato de ele ter mantido esse padrão de vida até agora era impressionante — mesmo sendo meio inútil em tarefas domésticas.

   "Era diferente quando eu ainda era estudante", continuou ele. "Eu precisava prestar atenção em como os outros caras se vestiam. Afinal, numa escola mista, você tem vários jovens reunidos no mesmo lugar. Acho que isso naturalmente me deixava mais consciente das comparações."

O que eu deveria responder a isso?

   "É assim que funciona?", perguntei.

   "Sim. Não é assim com você?"

   "Não sei...", respondi vagamente, e ele suspirou, parecendo um pouco preocupado.

Até meu pai achava que eu era ruim com moda?

Então as coisas mudam quando se vira adulto, hein? Eu ainda não tinha chegado lá, então não tinha como saber se ele estava certo.

   "Mas, pensando bem, se a Akiko fosse minha colega de trabalho, talvez eu começasse a me vestir como um rapper só para me destacar."

   "Ainda bem que não precisei ver isso."

Continuamos conversando até ele terminar de comer.

   "Obrigado pela refeição."

   "Eu lavo a louça, pai. Pode deixar."

   "Agradeço. Então, estou indo trabalhar."

Ele saiu apressado do apartamento.

Olhei para o relógio na parede.

Já estava na hora da Ayase acordar. Fui até o quarto dela para a chamar.

Mas, quando cheguei, a porta se abriu de repente.

Ayase saiu às pressas — e congelou ao me ver.

Ficou imóvel, como se tivesse sido pausada. Seu cabelo estava todo bagunçado, e ela ainda vestia o pijama. Eu nunca a tinha visto assim antes.

Depois de alguns segundos, ela voltou a se mover e correu para o banheiro, batendo a porta atrás de si.

   "Ah..."

Eu tinha acabado de ver a Ayase daquele jeito — e, ainda assim, eu provavelmente estava mais nervoso do que ela.

Já morávamos juntos há um tempo, mas era a primeira vez que eu a via daquele jeito. Aquela imagem fez meu coração disparar.

Ao mesmo tempo, fiquei impressionado com o quanto ela conseguia manter a compostura no dia a dia. Era realmente perfeccionista.

Bom, pelo menos ela acordou.

   "...Vou fazer umas torradas, tudo bem?", falei.

Após um breve silêncio, ela respondeu:

   "Desculpa incomodar. Obrigada."

Voltei para a cozinha e coloquei uma fatia de pão na torradeira. Ajustei o tempo e liguei o fogão elétrico para esquentar a sopa de missô. Peguei algumas fatias de presunto e coloquei em um prato.

A porta do banheiro se abriu novamente, e Ayase correu de volta para o quarto. Virei o rosto de propósito, imaginando que ela não queria ser vista.

Quando o pão ficou pronto, coloquei a torrada no prato e levei até a mesa. Desliguei o fogão antes da sopa ferver e a servi ao lado.

Depois de um tempo, Ayase apareceu já de uniforme e se sentou. Mentalmente, aplaudi — ela estava novamente perfeita.

   "Obrigada. Desculpa por deixar tudo com você."

   "Imagina. Você que preparou tudo ontem à noite." Olhei para a geladeira. "É o  suficiente?"

   "Está ótimo. Obrigada."

   "Sem problema. Mas é raro você dormir até tão tarde."

   "Fiquei conversando com a Maaya ontem à noite."

Aquilo me fez lembrar da mensagem.

   "Recebi uma mensagem da Narasaka ontem à noite. Imagino que ela tenha te contado."

   "Ah… sim."

   "O que você quer fazer sobre a festa de aniversário dela?"

Fiz a pergunta sem pensar muito, mas, assim que falei, Ayase congelou. Ela estava segurando um punhado de espinafre com os hashis, mas, por algum motivo, levou a boca na direção da torrada. Pareceu perceber o que estava fazendo um segundo depois. No fim, colocou o espinafre sobre a torrada, adicionou um pedaço de alga por cima e comeu assim.

Parecia uma forma estranha de comer torrada, e Ayase fez uma expressão esquisita assim que deu a mordida. Pelo visto, nem tinha percebido o que estava fazendo.

   "...Bom, é o aniversário dela. Pensei em ir comemorar com ela. E você, Asamura?"

   "Não somos tão próximos, mas não me importo de ir, desde que eu não esteja me intrometendo. Ela disse que não precisa levar presente, mas não é meio rude aparecer de mãos vazias?"

   "Ah, é verdade. Sim. Mas ainda somos só estudantes do ensino médio. Acho que não precisa ser nada caro."

   "Entendi. Mas isso complica um pouco. Nunca dei presente para uma garota."

   "Nunca?"

   "Não."

   "Hmm. Então acho que não temos escolha. Hum… você quer ir comprar algo juntos?"

   "Acho que sim. Ah, mas espera…"

Despejei chá na minha xícara enquanto falava. Olhei de relance para Ayase, perguntando silenciosamente se ela queria, mas ela balançou a cabeça. Chá verde com torrada é meio estranho mesmo, né? Bebi devagar enquanto esperava ela terminar.

Era só uma preferência minha, mas, sempre que havia espaço na mesa, eu costumava esperar todo mundo terminar antes de começar a recolher a louça. Tinha receio de que, se começasse a arrumar, a outra pessoa se sentisse apressada e não conseguisse aproveitar a refeição. Talvez não fizesse diferença, mas era um hábito meu.

   "...Se a gente for comprar em algum lugar perto", continuei, "alguém da escola pode nos ver juntos."

   "Ah, verdade. Você acha que isso seria ruim?"

Ela estava perguntando se isso seria algo normal entre irmãos.

Pensei um pouco.

   "Acho normal irmãos fazerem esse tipo de coisa, desde que se deem bem."

   "Sim, eu também acho. Mas não sei se… eu quero fazer isso."
Ayase hesitou um pouco, escolhendo as palavras com cuidado.
  "Quero dizer, se vamos sair juntos, seria uma pena ter que ficar se preocupando com alguém nos ver."

   "Ah… faz sentido."
Talvez não fosse um encontro, mas ainda assim sairíamos sozinhos. Seria bom poder relaxar.
  "Então que tal irmos a algum lugar um pouco mais longe amanhã depois da escola? Hoje não dá, tenho trabalho."

   "Tá bom." Ayase assentiu enquanto mordiscava a borda da torrada.

Ela geralmente comia rápido e saía antes de mim, então era raro termos uma conversa assim a sós. Fiquei feliz por termos conseguido planejar isso.

Obrigado por ter dormido até mais tarde hoje, Ayase.

   "Você lembra do que conversamos no festival cultural?", ela perguntou.

   "Lembro, sim."

Tínhamos prometido sair juntos, e parecia que essa oportunidade tinha chegado mais rápido do que eu esperava.

Era segunda-feira de manhã, depois da chamada, e a sala estava caótica. Havia uma mistura de preguiça típica de segunda com a animação de quem colocava o papo em dia após o fim de semana. Eu, por sinal, estava no grupo dos cansados. Como eles tinham tanta coisa para falar?

Nesse momento, Tomokazu Maru se jogou na cadeira à minha frente.

   "Você parece cansado hoje, Asamura."

Maru era maior que eu, e parecia um urso surgindo do nada.

   "E aí, Maru. Estava me perguntando como todo mundo tem tanta energia."

   "Tá falando igual um velho."

   "Essa manhã me esgotou."

Acabei me perdendo nos pensamentos e tive que vir correndo para a escola.

   "Desculpa incomodar quando você já tá cansado, mas posso te contar algo que vai te cansar ainda mais?"

   "O que você está falando?"

   "Aparentemente você tem um stalker, e ele está me perturbando sem parar. Quer que eu    arranje um jeito de vocês conversarem."

   "De qual mangá você tirou isso agora?"

   "Tô falando sério. Não tenta transformar isso em piada."

   "Você tá falando sério…? Duvido que alguém fosse querer me perseguir."

Eu não conhecia tanta gente assim. Tirando o Maru, havia o pessoal da piscina, a Ayase e a Narasaka. Só.

Mas logo a resposta apareceu. Maru virou para o corredor e acenou, e o aluno que estava esperando entrou sorrindo.

   "Valeu pela ajuda, Tomokazu. E… quanto tempo, Asamura."

   "Hã? Ah… oi." Depois de um breve atraso, retribuí o cumprimento.

Ele tinha cabelo descolorido e aparência atlética. Era Keisuke Shinjou.

Ele tinha ido à piscina conosco nas férias de verão. Também era o garoto que eu tinha visto com a Ayase na frente da loja de conveniência. Aquela cena tinha me incomodado bastante, e eu precisava tomar cuidado para não deixar isso transparecer agora.

Maru explicou:

   "Ele quer ser seu amigo e estava tentando descobrir com quem você anda. Meio assustador, né?"

   "Sério? Mas a gente já se conhece", respondi. "Podia ter falado direto comigo."

   "Ainda não sei muito sobre você", disse Shinjou, "então não sabia se agir com intimidade de repente te incomodaria."

   "Ele descobriu que a gente é amigo e pediu pra eu fazer a ponte", disse Maru, já meio irritado.

Foi aí que percebi que Shinjou chamava Maru pelo primeiro nome.

   "Vocês são próximos?", perguntei.

   "Nem tanto", respondeu Maru. "Mas estudamos juntos no fundamental. Como ambos praticamos esportes, trocamos informações às vezes."

   "Que coincidência."

Fiquei realmente surpreso. Duas pessoas que conheci em situações diferentes já se conheciam. Parecia coisa de romance, quando tudo se conecta.

Me voltei para Shinjou.

   "Então, o que você queria tanto falar comigo?"

   "Ah, é… tem um minuto?"

Ele se inclinou, olhando direto nos meus olhos, e fez um gesto para nos aproximarmos. Parecia querer manter segredo.

   "Tomokazu. Como você e o Asamura são próximos, deve saber sobre ele e uma garota chamada Ayase da minha turma."

   "Mm…" Maru olhou para mim, como se pedisse permissão. Assenti. "Claro. O pai do Asamura se casou com a mãe da Ayase, então agora eles são irmãos."

   "Isso significa que o Asamura conhece a Ayase melhor do que qualquer um."

   "Acho que sim", respondi.

…Hã?! O que eu estava dizendo?

Seria arrogante achar isso só porque moramos juntos. Afinal, hoje de manhã foi a primeira vez que a vi completamente desprevenida.

Será que falei isso por competitividade?

   "Eu pensei que, se te conhecesse melhor, talvez entendesse melhor a Ayase também."

   "Fala sério, Shinjou", disse Maru. "Você tá interessado na Ayase?"

   "Ah… bom… sim." Ele coçou a bochecha, sem graça.

Observando, senti algo estranho. Não era ciúme — era inveja da sinceridade dele.

   "Você também? Ela ficou popular depois das férias. É bonita, e agora que aqueles rumores não eram verdade, faz sentido."

   "Ei, não fala de mim como se eu fosse um inseto."

   "Mas pra um irmão, qualquer cara se aproximando da irmã é só uma praga, né, Asamura? Vai perdoar esse interesseiro?"

   "Espera! Não é assim! Eu queria uma chance, sim… mas também fiquei curioso sobre o Asamura. Ele parece se dar bem com ela como irmão."

   "Não precisa se explicar tanto", eu disse, rindo.

A expressão desesperada dele era genuína.

   "Podemos conversar assim na escola, se quiser."

   "Sério?! Valeu, Asamura!"

   "Mas só na escola. Depois da aula eu trabalho."

Eu não estava inventando desculpas. Quase não via nem o Maru fora da escola.

   "Mas não é estranho você chamar o Maru pelo nome e eu pelo sobrenome?", perguntei.

   "Então vou te chamar de Yuuta."

   "E eu de Shinjou."

   "O quê? Mas meu nome é Keisuke!"

   "Não pensa muito nisso."

   "Tá… tudo bem. Prazer em ser seu amigo."

   "Igualmente. Aliás, tenho uma pergunta pra vocês dois."

   "Pode perguntar", disse Maru.

   "Fala", completou Shinjou.

Shinjou parecia entender de moda. Talvez isso me ajudasse.

   "Digamos que você vá a uma festa onde estará uma garota que te interessa…"

   "Hmm. E aí?"

   "O que você vestiria? Roupas normais ou algo diferente?"

Maru começou a arrumar suas coisas enquanto pensava.

Shinjou também refletiu seriamente.

   "Talvez eu não comprasse roupa nova", disse por fim, "mas usaria a melhor que tenho."

   "Entendi."

   "Concordo", disse Maru.

   "Sério?"

   "Isso é estranho?"

   “Eu imaginei que você usaria as mesmas roupas de sempre.”

   “Eu não gostaria de exagerar, mas também gostaria que a garota soubesse que estou me esforçando.”

   “Hã. Mas isso não colocaria pressão nela?” perguntei. A resposta do Maru me surpreendeu.

   “Depende”, ele explicou. “Normalmente, eu concordaria com você. Pessoas que realmente se importam fazem o possível para que você nem perceba o esforço delas. Mas essa situação é um pouco diferente. Você sempre tem que levar em conta o tempo, o lugar e a ocasião. Nesse caso, a ocasião pede uma mudança de estratégia.”

   “Afinal, a garota de quem você gosta vai estar lá”, disse Shinjou, entrando na conversa. “Se você não tentar se arrumar pra ela, seria falta de educação.”

   “O Shinjou está absolutamente certo”, disse Maru, assentindo. “Se você gosta de alguém, é importante deixar essa pessoa ver que você está se esforçando. Olhe o comportamento dos animais. Todos eles realizam rituais de cortejo para seus alvos.”

   “R-rituais de cortejo?” gaguejei.

Eu não esperava ouvir uma palavra dessas vindo do Maru, e hesitei. Ele imediatamente aproveitou a oportunidade para contra-atacar.

   “Estou surpreso de você perguntar algo assim”, disse ele, sorrindo. “Finalmente encontrou alguém que te interessa?”

   “Não, não é isso. Eu só estava curioso.”

   “Desembucha.”

   “Foi mal. Não tem nada pra contar.”

   “Como vocês se conheceram?”

   “Já disse—não está acontecendo nada… Eu só queria saber o que vocês achavam de moda.”

   “Pfft…! Hahaha. Ahahaha!” Shinjou de repente caiu na gargalhada. “Yuuta, você é demais.”

   “Hã? Eu falei algo engraçado?” perguntei, surpreso.

   “Você pensa demais em tudo. Eu nunca me preocupei com que roupa usar ao sair com uma garota, mas você veio perguntar todo formal… achei engraçado.”

   “…Todo mundo não pensa no que vai vestir?”

   “Não. Nunca pensei nisso até você perguntar.” Shinjou riu de novo. “É interessante parar para pensar.”

Aparentemente, Shinjou não fazia esse tipo de coisa que era natural pra mim. E, por outro lado, eu precisaria me esforçar conscientemente para desenvolver o senso de moda que vinha naturalmente pra ele.

Eu sempre achei que me faltavam certas qualidades, mas talvez isso fosse só aquela velha história de achar que a grama do vizinho é mais verde.

   “Na verdade”, disse Maru, “o Shinjou pode parecer estiloso para você, Asamura, mas ele está trapaceando.”

   “T-Tomokazu, não fala isso!”

   “Trapaceando?” perguntei.

   “Ngh…” Shinjou coçou a bochecha, sem graça. “Eu… tenho uma irmã mais nova. Ela está no nono ano, e sempre que a gente vai comprar roupa, ela diz que minhas escolhas são horríveis.”

   “Sério?”

   “É. Ela pode ser minha irmã, mas ainda é uma garota, né? Então ela vê roupas do ponto de vista feminino… tenho que admitir, ela me ajuda bastante.”

   “Então você está dizendo que um cara não precisa ter senso de moda sozinho, pode pedir ajuda de alguém? Hm… nunca tinha pensado nisso.”

   “Yuuta, se você está preocupado com sua aparência, pode pedir pra sua irmã avaliar seus looks também.”

   “Ayase? Não sei se isso é uma boa ideia…”, falei, meio desconcertado.

   “Você é idiota?” disse Maru, cutucando Shinjou nas costelas. “Uma garota da sua escola não é a mesma coisa que uma irmã que você conhece desde bebê.”

Maru deve ter cutucado forte, porque Shinjou segurou o lado do corpo. “É… acho que você tem razão. Então… quer pedir ajuda para minha irmã?”

   “Isso faz ainda menos sentido”, respondi. O que a irmã dele pensaria se um cara aleatório pedisse pra ela avaliar suas roupas?

   “Na verdade, muitas garotas gostam de fazer esse tipo de coisa. Ela adora ver fotos dos meus amigos do clube de tênis e dá bons conselhos sobre cabelo e roupa.”

   “S-sério que ela faz tudo isso? Ah… então é por isso.”

Desde o fundamental, sempre achei que quem tinha irmãos conhecia muito mais gente de outras séries. Agora eu entendia o motivo.

Talvez fosse por isso que os caras ao redor do Shinjou se vestiam tão bem—não era só troca de interesses, mas também dicas de moda e contatos úteis.

   “Posso te ajudar, Yuuta”, disse ele. “Faço isso pra vários caras. Me manda uma foto sua que eu envio pra minha irmã na hora.”

   “Não tenho nada agora, mas… tá, se surgir algo, eu mando.”

   “É isso que dá para esperar de um cara”, disse Maru. “Se ele tem bom senso de moda, ou teve boas oportunidades pra aprender, ou estudou pra isso por algum motivo. Caso contrário, é um desastre. Mas dá pra aprender a qualquer momento. Não comece a se comparar com os outros e entrar em pânico.”

Maru tinha razão. Mesmo sem saber dos detalhes, ele me deu um conselho certeiro, como se tivesse lido minha mente.

Talvez fosse melhor evitar falar com ele sobre a Ayase… Se eu continuasse assim, ele ia acabar me fazendo confessar tudo um dia.

   “Yomiuri, por exemplo… hipoteticamente, se você conhecesse um cara e saísse com ele…”

   “Hehe!”

   “Hã? Por que você riu?”

   “Então… você gostaria que seu namorado fosse estiloso?”

   “Hmm…”

[Ayko: Yomiuri strikes again! :D]

Ela colocou o dedo no queixo e olhou para o teto.

   “Se ele fosse estiloso demais, talvez eu me sentisse pressionada.”

   “Pressionada?”

   “Mas… bom…”

   “Hm?”

   “Eu não ligo muito se ele é bonito ou não. Mas acho que ficaria feliz se ele estivesse se esforçando.”

Eu prendi a respiração.

   “Só mais uma coisa… ‘fofo’ é um elogio?”

   “Oh? Soa negativo pra você?”

   “Não sei se ficaria feliz sendo chamado de fofo…”

   “As palavras só têm significado dentro do contexto!”

   “Então… nesse contexto, o que significa ‘fofo’?”

   “Precioso!”

   “Eu fui idiota de perguntar.”

   “Brincadeira. Não é óbvio…?”

Ela viu um cliente se aproximando e mudou de postura imediatamente.

Mas antes disso, respondeu rápido:

   “Significa: eu te amo, idiota.”

 

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