Volume 4
Prólogo: Yuuta Asamura
PRÓLOGO — YUUTA ASAMURA
Uma garota acabou de cortar o cabelo comprido bem curto.
Em um romance, algo assim seria um grande acontecimento. Mas, na vida real, não era nada demais. Talvez estivesse calor demais no verão. Talvez o cabelo estivesse atrapalhando. Talvez ela só quisesse mudar.
Havia inúmeras razões possíveis, e tentar adivinhar o que ela estava pensando não fazia sentido algum. Poderia até ser considerado uma invasão de privacidade.
Não havia motivo para eu reagir de forma exagerada. Eu só precisava agir naturalmente e aceitar.
Eu, Yuuta Asamura, provavelmente não deveria pensar demais nisso. A atitude mais óbvia era encarar como apenas mais um acontecimento trivial do dia a dia.
Mesmo assim, eu não tinha certeza. Nunca tive uma meia-irmã antes, e nunca tinha passado por algo assim na vida real. Cheguei a desejar poder perguntar a todos os irmãos mais velhos do país que tivessem uma meia-irmã mais nova como havia sido a experiência deles.
Para começar, eu jamais imaginei que meu pai, já com mais de quarenta anos, ficaria bêbado em um evento de trabalho e acabaria se casando com a bela mulher que cuidou dele. Na verdade, quando ele me contou que iria se casar novamente, minha primeira reação não foi alegria por sua sorte, mas preocupação.
Isso vai dar certo?
Será que ele não está sendo enganado?
Eu estive presente quando o casamento dos meus pais desmoronou e terminou em divórcio, e me lembrava de tudo. Depois daquela experiência, deixei de esperar qualquer coisa das mulheres.
Passei noites inteiras ouvindo meus pais brigarem, vi minha mãe olhar para mim e para meu pai com frieza. E, no fim, ela o traiu. Pelo menos eu não fui negligenciado, mas isso era praticamente tudo o que se podia dizer de bom sobre a minha infância. Quando eles me disseram que iam se divorciar, senti mais alívio do que tristeza.
Minha mãe biológica foi a única mulher que conheci bem, e ela era alguém que tratava seus próprios erros com a maior leveza, enquanto exigia o mundo de mim e do meu pai — e ficava amargamente decepcionada quando não correspondíamos. Minhas lembranças dela eram todas negativas.
Por causa dela, deixei de esperar coisas das outras pessoas.
Foi por isso que senti tanto alívio quando minha nova meia-irmã estabeleceu os termos da nossa relação.
"Eu não vou esperar nada de você, e não quero que você espere nada de mim."
Para mim, aquilo soou como o relacionamento mais honesto que eu poderia desejar.
Ela poderia estar morando na minha casa, mas não exigiria nada de mim, nem pisaria em ovos ao meu redor. Em vez disso, sugeriu que nos ajustássemos e chegássemos a acordos.
Esse tipo de relação seca e neutra era exatamente o que eu queria — e esse era o tipo de garota que Saki Ayase era.
Eu estava convencido de que nos daríamos bem e nos tornaríamos o tipo de irmãos que o pai e a Akiko esperavam. Eu tinha certeza disso.
Mas havia uma grande diferença entre nós.
Eu era um cara que achava problemático ir contra a corrente. Tendia a me curvar ao vento predominante e deixar as coisas simplesmente passarem por mim. Eu ouvia o que os outros diziam e concordava.
Mas Ayase não era assim.
Ela não gostava de ceder à pressão social. Queria ter força para enfrentar aqueles que tentavam impor estereótipos bobos a ela e fazê-los recuar.
Ayase se esforçava muito para conseguir viver de forma independente. Estudava para melhorar suas notas, sempre ficava entre as melhores nas provas e até trabalhava sua aparência para que os outros a vissem como alguém atraente.
Ela dizia que sua aparência era como uma armadura. Os brincos brilhantes e o cabelo longo e descolorido balançando ao vento significavam que ela estava pronta para a batalha.
Conforme os dias passavam, fui observando a forma como ela vivia e, sem perceber, acabei desenvolvendo um grande interesse por Saki Ayase.
Então, no fim de agosto, cerca de três meses depois de começarmos a morar juntos, minha meia-irmã cortou o cabelo.
Provavelmente não significava nada. Cortes de cabelo assim só eram importantes em séries de TV e romances — na ficção.
Mas, um mês depois, algo realmente mudou.
"Oi, Ayase."
"Oi, Asamura."
Interações como essas desapareceram das nossas vidas.
O outono havia chegado.
Abri a porta do nosso apartamento e anunciei em voz baixa que tinha chegado.
Segui pelo corredor, iluminado apenas por uma luz noturna fraca, até a sala de estar.
Estava vazia.
Meu pai tinha um emprego comum e já tinha ido dormir há bastante tempo. Akiko trabalhava à noite e estava fora. Ayase era a única que talvez ainda estivesse acordada, mas, estivesse estudando ou dormindo, ela não respondeu.
O jantar estava servido sobre a mesa, coberto com filme plástico.
"Ah, hambúrguer."
Um bilhete adesivo dizia para aquecer no micro-ondas.
Havia arroz na panela elétrica, sopa de missô em uma panela no fogão e salada na geladeira. Eu já estava acostumado com aquilo e, depois de esquentar tudo o que precisava, sentei-me à mesa.
Murmurei um agradecimento pela refeição, peguei os hashis e cortei o hambúrguer ao meio. O queijo escorreu de dentro.
"Queijo! Isso!" comemorei baixinho.
As habilidades culinárias da Ayase melhoravam a cada dia e, para um cara como eu, que só tinha comido hambúrguer em lanchonetes ou versões congeladas do supermercado, poder comer um feito em casa e recheado com queijo era algo quase mágico. Eu imaginava que Ayase descartaria meus elogios e diria que tinha feito tudo sem pensar muito — como sempre dizia.
Olhei para a porta do quarto dela.
Ainda era um pouco cedo para se preocupar com as provas do meio do semestre, mas ultimamente ela estava sempre estudando quando eu chegava em casa. Passamos a comer juntos cada vez menos e, embora ainda trabalhássemos na mesma livraria, o turno dela havia mudado naquele mês, e quase não nos víamos.
Ela estava me evitando?
Balancei a cabeça. Claro que não.
Sempre que nos encontrávamos, ela agia exatamente como antes. Além disso, irmãos em idade escolar provavelmente não passavam tanto tempo juntos assim.
O hambúrguer que eu tinha acabado de esquentar pareceu, de repente, frio.
"Irmão mais velho, é?"
Desde aquele dia, ela nunca mais me chamou de outra forma.
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