Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 4

Capítulo 9: 26 de Setembro (Sábado) - Saki Ayase

26 DE SETEMBRO (SÁBADO) — SAKI AYASE

A Universidade Feminina Tsukinomiya ficava dentro do perímetro da linha JR Yamanote, o anel ferroviário que conecta a maior parte dos principais centros urbanos de Tóquio.

Para chegar lá saindo da Estação de Shibuya, era preciso seguir para o norte ao longo do circuito e descer na Estação de Ikebukuro, depois fazer baldeação para uma linha privada e seguir mais duas estações. A partir dali, a universidade ficava a uma curta caminhada.

Depois de descer na estação mais próxima, caminhei pela avenida principal até chegar ao portão de entrada.

   “É enorme...”

A primeira coisa que me chamou atenção foi o tamanho do campus. Quantos prédios caberiam ali dentro? Como a universidade conseguiu garantir tanto espaço bem no centro da cidade? Devia ser o poder de uma instituição pública histórica.

Árvores altas ladeavam o caminho que se estendia a partir do portão e, misturados a elas, havia vários prédios quadrados de altura semelhante. Pelo mapa que eu havia aberto no celular, os edifícios à direita e à esquerda eram uma escola primária e um ensino médio vinculados à universidade. Um pouco mais adiante, ficava também um ginásio.

Fiquei sem palavras. Era difícil acreditar que todas as séries, além da universidade, funcionassem no mesmo terreno.

Segui o fluxo de pessoas que entrava pelo portão e avancei.

Era sábado, então não havia aulas. Será que toda aquela gente estava ali por causa do open campus?

Uma garota mais velha, usando uma camiseta de cor vibrante, me entregou um programa assim que entrei. Pelo jeito, ela fazia parte da equipe do evento. Claro... não são só estudantes do ensino médio aqui hoje.

Observando melhor ao redor, percebi várias jovens e mulheres mais velhas. Devem ser universitárias e professoras.

Ao longe, ouvi gritos animados de pessoas praticando esportes. Também vi sombras se movendo nas janelas. Estudantes universitários não tiram folga? Ou será que são tão dedicados que vêm à universidade mesmo sem aula?

Não conseguia acreditar.

Segui adiante pelo caminho de pedras. Meu destino era o prédio da Faculdade de Humanidades, onde aconteceria uma aula experimental, e ficava lá no fundo do campus. Para chegar até lá, precisei contornar o grande prédio à minha frente.

Enquanto dava a volta, notei um pátio à direita, levemente inclinado para cima. A grama era de um verde intenso... e havia alguém deitado nela.

Pisquiei, incrédula. Uma mulher de jaleco branco estava estendida no gramado.

Isso pode mesmo? Ah... alguém está vindo. Parece que ela vai levar bronca.

Não que eu me surpreenda — deve ser ótimo ficar ali tomando sol. Então estudantes não são sempre sérios e também fazem pausas de vez em quando? Embora, no caso daquela mulher, talvez fosse um pouco demais.

Universidades realmente reúnem todo tipo de gente.

Cheguei ao prédio e conferi a placa na frente.

   “É aqui.”

Eu estava prestes a entrar quando tive a impressão de ouvir alguém chamar meu nome. Não pode ser. Eu não conheço ninguém aqui.

   “Saki! Eu não sabia que você vinha para a minha universidade!”

   “Hã?”

   “Yomiuri?”

Era Shiori Yomiuri, uma veterana que trabalhava comigo na livraria. Ela estava sentada atrás do que parecia ser uma mesa de recepção.

Isso quer dizer que...

   “Você estuda aqui?”, perguntei.

   “Sim. Acho que sim.”

   “Acho que sim”? Quando está sentada na mesa de recepção?

Olhei em volta e percebi que cada departamento tinha sua própria recepção. Yomiuri estava na da Faculdade de Humanidades.

   “Eu teria te dado uma recepção calorosa se tivesse avisado que vinha.”

   “Foi uma decisão de última hora.” Como eu poderia avisá-la, se nem sabia que ela estudava aqui?

   “Ah, entendi. Então você veio assistir à aula experimental, né?”

   “Acho que sim”, respondi, dando um passo para o lado para deixar outras estudantes passarem.

Eu não tinha vindo por causa de um departamento específico. Escolhi a aula pelo tema que pareceu mais interessante, mas não precisava contar isso à Yomiuri. Além disso, ela era inteligente; ouvir uma aula do curso dela provavelmente não seria uma má ideia.

   “Ainda temos tempo. Vou te mostrar o campus.”

   “Eu... tem certeza?”

Olhei para trás. Alguém já ocupava o lugar de Yomiuri na recepção, entregando panfletos aos visitantes. Percebendo que eu ainda não tinha recebido o meu, a garota me entregou um. Era um resumo das atividades do dia.

   “Shiori, você está atrapalhando. Se não vai trabalhar, dá licença.”

   “Tá bom, obrigada”, respondeu Yomiuri, virando-se para mim.
   “Vem, me segue.”

   “Mas—”

   “Oh? Essa é uma amiga sua, Yomiuri?”

Virei na direção da voz e vi uma mulher claramente velha demais para ser estudante. Seria professora? Devia ter entre o fim dos vinte e o começo dos trinta anos. Se realmente fosse professora, talvez fosse um pouco mais velha do que aparentava. Usava um terno lilás claro e tinha um ar maduro, embora leves olheiras sob os olhos diminuíssem um pouco sua elegância.

Ela parece cansada... Espera. Eu já vi essa mulher antes.

Imaginei um jaleco branco sobre o terno.

   “Ah.”

Era a mesma mulher que estava deitada na grama.

   “Hmm?” Ela me olhou de forma questionadora.

   “Oh? Saki, você conhece a minha professora?”, perguntou Yomiuri.

   “E-eu... não. Mas eu... vi ela... na grama...”

Não consegui dizer claramente que a tinha visto deitada no gramado, mas Yomiuri pareceu entender na hora.

   “Professora Kudou... estava aprontando de novo? A senhora está usando um terno de marca para o open campus. Vai acabar estragando...”

   “Eu estava de jaleco por cima.”

   “Isso não é desculpa...”

   “O que constitui ou não uma desculpa suficiente é subjetivo. A vida é curta demais para discutir os prós e contras de maltratar roupas caras. Esqueça isso, Yomiuri, e me apresente essa bela jovem ao seu lado.”

Yomiuri parecia querer retrucar, mas acabou desistindo e me apresentou.

   “...Esta é Saki Ayase. Trabalhamos na mesma livraria.”

   “Prazer”, eu disse.
   “Eu sou... Saki Ayase.” Fiz uma reverência para a mulher de terno lilás.

   “Mm, perfeito”, ela murmurou.

Perfeito? Para quê?

   “Prazer em conhecê-la, Saki”, continuou ela.
   “Sou Eiha Kudou. Professora associada aqui, e minha área é ética geral. Você parece estudante do ensino médio. Estou certa?”

   “Sim... Estou no segundo ano.”

   “Perfeito. Maravilhoso. Absolutamente perfeito. Tenho uma pergunta muito séria para você.”

As palavras fluíam com naturalidade. Dava para perceber que ela era inteligente. Afinal, era professora universitária.

   “Sim, senhora”, respondi.
   “Pode perguntar.”

   “Com quantas pessoas você já fez?”

   “Hã?”

Por um momento, não entendi o que ela queria dizer.
  “Fez”... fez o quê? Fez mal a alguém? Quantas pessoas eu já machuquei? ...Ela não pode estar querendo dizer isso, pode?

   “Hum, eu não entendo o que a senhora quer dizer...”

Na verdade, talvez eu entendesse. Mas preferia não entender.

   “Professora!”, exclamou Yomiuri.
   “Que tipo de pergunta é essa para fazer a uma menor  de idade que acabou de conhecer?”

Ela se colocou na minha frente, como se fosse me proteger, e partiu para o ataque.

   “Hã?” Kudou pareceu confusa.

   “Essa não é uma pergunta apropriada.”

   “Hmmm? Claro que não é. Foi por isso que tentei ser vaga. Mas, pensando bem, talvez nem haja necessidade de eufemismos. Afinal, é uma função humana básica... Aliás, sempre achei que esconder algo e usar rodeios só chama mais atenção e deixa a coisa ainda mais marcante... Enfim, para ser clara: o que eu queria perguntar é com quantos homens você já teve alguma experiência sexual. Ah, ou mulheres, claro.”

[Ayko: A professora Kudou seria uma ótima professora de filosofia, diga-se de passagem]

   “Professora”, repetiu Yomiuri, com firmeza.

   “Hmm? Por que você está tão aborrecida? Yomiuri, precisa manter esse rostinho bonito. Não vai querer acabar como eu, com todo mundo dizendo que pareço um vampiro privado de sono. Entenda, isso faz parte da minha pesquisa. É uma oportunidade rara falar diretamente com uma estudante do ensino médio de verdade.”

   “Como acadêmica, imagino que não precise que eu a lembre de que uma pessoa precisa consentir antes de ser usada como objeto de pesquisa, certo?”

Kudou arregalou os olhos por um instante, depois abriu um sorriso largo.

   “Oh-ho. Muito bem colocado. Você está em ótima forma hoje, Yomiuri.”

   “Obrigada.”

   “Certo, então... Saki — ou você prefere Ayase?”

   “Tanto faz...”, respondi.

   “Então Saki. É muito mais fofo”, disse Kudou, completamente séria.

Eu não conseguia decifrá-la. Comecei a me perguntar se todos os professores universitários eram tão estranhos quanto ela.

   “Meu principal tema de pesquisa é ética nas relações entre homens e mulheres e nas dinâmicas familiares”, continuou.

   “Dinâmicas familiares...”

   “Isso mesmo. De acordo com a definição de dicionário, ética é o ramo do conhecimento que trata dos princípios morais e da ordem na vida humana... Em outras palavras, normas sociais. Essa é a minha área.”

   “Dá para pesquisar esse tipo de coisa?”

   “Claro que dá. Veja, existem vários tipos de padrões éticos atuando na sociedade. Por exemplo, coisas que se espera que as pessoas façam e coisas que são proibidas — ou seja, tabus. Mas nada disso é fixo no tempo e no espaço. Um exemplo é a ideia de que parentes próximos, como irmão e irmã, não podem se apaixonar.”

Eu sabia que não deveria reagir, mas senti minha expressão enrijecer levemente.

   “A ética não é ciência”, ela continuou.
   “Ou pelo menos não é decidida com base em fatos científicos.”

   “Pode ser, mas acho que pesquisa precisa de ciência”, interrompeu Yomiuri.

   “Isso está fora do tema, Yomiuri. Podemos discutir depois. O importante é que, embora a ética tenha surgido por necessidade, as necessidades estão em constante mudança. E sempre há um descompasso entre as mudanças na sociedade e as mudanças na nossa consciência. E por causa disso, nós...” Kudou olhou em volta e finalmente pareceu perceber onde estava no meio daquele discurso inflamado. “Enfim... Saki, se você tiver tempo, pode vir ao meu laboratório?”

   “Lá vai ela recrutando garotas de novo”, murmurou Yomiuri.

Fingindo não ter ouvido, Kudou continuou:

   “Saki. Tem algo te incomodando, não tem?”

Eu estremeci.

   “Talvez eu consiga oferecer uma solução para o seu problema.”

   “Hã? Bem...” Para ser sincera, eu estava curiosa. Talvez alguém inteligente o suficiente para ser professora associada numa universidade famosa realmente tivesse uma resposta.  
  “Desde que não demore muito.”

   “Então está decidido. Venha comigo.”

   “Ela vai encher sua cabeça de ideias indecentes!”, disse Yomiuri, tentando nos seguir.

Mas Kudou a dispensou:

   “Você não tem trabalho para fazer no open campus?”

   “Eu ia mostrar o campus para a Saki. Já consegui permissão de todo mundo—”

   “Não fui eu que te dei três dias extras para terminar o relatório?”

   “Ngh!”

   “Você ainda não terminou, terminou?”

   “Urgh...”

   “Não se preocupe. Eu a trago de volta antes da aula experimental. Certo, estamos indo.” Ela se virou para mim.
   “Por aqui, Saki. Venha. Você quer ver como é um laboratório universitário, não quer?”

Eiha Kudou começou a andar, e eu fui atrás.

   “Você prefere café ou chá?”

   “Ah, hum, chá”, respondi, olhando ao redor da sala.

Devia ter pouco mais de doze metros quadrados, mas parecia ter metade disso por causa dos livros. Eles não ocupavam apenas a estante de aço encostada na parede — estavam empilhados sobre todas as superfícies planas, formando torres no chão. Era preciso se esgueirar entre elas para alcançar a mesa no fundo.

O único espaço livre era uma pequena área diante da grande escrivaninha. Havia uma mesa baixa e dois sofás ali — provavelmente para receber visitantes.

Kudou me indicou um dos sofás, ligou a chaleira elétrica, pegou um bule e duas xícaras numa prateleira e abriu uma lata de folhas de chá.

   “Nilgiri está bom?”, perguntou.

   “Ah, sim. Qualquer coisa está ótimo — mas Nilgiri? Não precisa ser nada tão sofisticado.”

[Ayko: Nilgiri é um tipo de chá preto! Cultivado em regiões da Índia, é bastante encorpado e brilhante.]

   “Vejo que você entende de chá.”

   “...Um pouco.”

   “Então me diga o que sabe.”

Ela falava como uma professora, mas logo percebi que nenhuma das minhas professoras jamais me fizera uma pergunta como aquela. Normalmente, elas queriam que déssemos a resposta certa. Kudou não. Ela queria saber se eu conseguia explicar, com minhas próprias palavras, aquilo que sabia.

   “É um termo genérico para folhas de chá cultivadas no sul da Índia”, respondi.
   “Às vezes chamado de ‘Chá das Montanhas Azuis’.”

   “Oh. Você é bem informada.”

   “Esse tipo de informação é fácil de achar na internet.”

   “Já experimentou antes?”

   “Não.”

Assim como o café Blue Mountain, o chá Nilgiri era caro. Eu podia saber sobre ele, mas nunca tinha provado. Quando éramos só eu e a mamãe, comprávamos o tipo de chá que custa quinhentos ienes por cinquenta sachês — dez ienes por xícara.

   “Então essa será sua primeira experiência”, disse ela, dando uma ênfase estranha às duas últimas palavras.

A chaleira desligou com um clique. Kudou colocou um pouco de água quente no bule para aquecê-lo, ligou a chaleira de novo e, quando a água ficou pronta, descartou a primeira, adicionou rapidamente as folhas e tampou o bule. Depois virou a ampulheta que estava sobre a mesa.

   “Os livros de etiqueta dizem que se deve despejar a água direto da chaleira no bule sem tirá-la do fogo, para que não esfrie. Infelizmente, não tenho fogão aqui. Perdoe se a água não estiver pelando.”

   “Está tudo bem.”

Ela realmente usaria uma chaleira tradicional se tivesse fogão? Não seria um pouco exagerado?

   “Um amigo que foi à Índia me enviou esse chá”, explicou.

   “Foi a passeio?”

   “Estava lá fazendo trabalho de campo.”

   “Ah, por trabalho?”

   “Não, por pesquisa. Meu amigo é pesquisador.”

Não entendi. Se ele era pesquisador, pesquisa não era o trabalho dele?

   “Oh, entendo”, disse ela.
   “Sim, imagino que a maioria das pessoas veja assim. Mas acho que poucos de nós consideram pesquisa como ‘trabalho’. Eu também não.”

   “É mesmo? Então... o que a senhora faz?”

   “Eu vivo.”

   “O quê?”

   “Para mim, é só isso. Eu apenas vivo. Sou pesquisadora.”

   “...Não tenho certeza se entendi.”

   “Imagino que não. É difícil explicar. Pouca gente entende.”

Quando as folhas terminaram de infusionar, ela descartou a água quente das xícaras e as encheu com o chá. Um aroma agradável subiu até meu nariz.

   “Infelizmente, não tenho nenhum doce para acompanhar”, disse.
   “Normalmente tenho, mas acabou...”

   “Não tem problema. Obrigada.”

   “De qualquer forma, não temos muito tempo antes da sua aula experimental.”

Sentamos frente a frente nos sofás e, por um tempo, apenas tomamos chá em silêncio.

Segurei a xícara com as duas mãos e bebi o líquido avermelhado. O ar-condicionado tinha me deixado com frio; o chá quente aqueceu meu corpo. Suspirei quando o calor chegou ao estômago.

   “Yomiuri me contou sobre você”, disse Kudou.

   “Contou?”

   “Para ser mais precisa, contou sobre vocês dois. Você e... como era mesmo?”

   “Está falando do Asamura?”

   “Ah, então esse é o nome dele.”

   “...A senhora não sabia.”

   “Acertou”, disse ela, sem o menor sinal de culpa.

Ela tinha fingido não lembrar para que eu dissesse o nome. Fui enganada.

   “Eu não sabia o nome dele. Yomiuri só disse que havia um garoto interessante no trabalho. Acho que foi no verão que comentou que tinha aparecido outro. Mas não quis me dizer os nomes de vocês. Pode não parecer, mas ela é bem rígida com privacidade.”

   “Por que eu não acharia isso...? Para mim, Yomiuri é uma boa pessoa, com princípios sólidos. Um ótimo exemplo.”

   “Oh? Já a vê como sua veterana? Bastante confiante, considerando que nem estuda aqui ainda.”

   “...Quis dizer no trabalho”, respondi, mal-humorada. Ela sabia muito bem.

   “Ha-ha. Calma. Estou só provocando. Vocês dois são ainda mais interessantes do que eu imaginava.”

   “A senhora também conheceu o Asamura?”

   “Claro que não. Mas se Yomiuri diz que ele é interessante, e você é assim tão divertida, imagino que ele também seja. Eu adoraria conversar com ele.”

Franzi a testa, tentando deixar claro que não aprovava a ideia. Tive a sensação de que não deveria deixar essa pessoa chegar perto do Asamura.

   “Certo, vamos ao que interessa.”

   “Interessa...?”

Kudou fez uma expressão exageradamente surpresa.

   “Já esqueceu? Eu disse que talvez pudesse oferecer uma solução para o seu problema.”

   “Ah, é.” Eu tinha esquecido.

   “Vou ser direta. Você se apaixonou por esse tal de Asamura, não foi? E esses sentimentos vão contra as normas éticas da sociedade.”

[Ayko: Okay. Precisa, direta, e extremamente certeira. Uau.]

   “Por que acha isso?”

   “Sua pergunta sugere que eu estou certa.”

   “...Eu não gosto muito da senhora.”

   “Ha-ha-ha. Eu gosto de jovens sinceras”, disse, rindo.
  “Desde que ouvi como vocês se comportam no trabalho, minha imaginação não parou. É óbvio que vocês se interessam um pelo outro, mas tentam manter distância. Pensei no motivo e concluí que talvez seus sentimentos violem algum tabu. Por exemplo, se vocês fossem meio-irmãos.”

[Ayko: Incrivelmente precisa. Uau.]

Ela era direta demais. Era difícil rebater golpes tão frontais.

   “Vejo que fez questão de especificar ‘meio-irmãos’.”

   “Se fossem irmãos de sangue, imagino que você não estaria hesitando. Então... você ama o Asamura, não ama?”

   “...Ele é um bom irmão.”

   “Não é isso que estou perguntando. Quero saber se você tem sentimentos românticos por ele.”

   “...Ele é meu irmão.”

   “Mas é um estranho.”

   “Pode ser meu meio-irmão, mas ainda é meu irmão.”

   “Só há três meses.”

Ela até tinha descoberto quando nos tornamos irmãos. A forma como juntava poucas informações e chegava à resposta certa me irritava.

   “Mas somos família. Então o que a senhora está dizendo não é possível. A mamãe fica tão feliz quando o Asamura conta com ela. Tenho certeza de que é porque ele é o filho precioso do homem que ela ama.”

   “Eu não estou perguntando sobre as outras pessoas da sua família. Estou perguntando sobre você, Saki.”

   “Sobre mim...?”

Eu hesitei. Era certo contar a verdade a essa excêntrica? Além disso, ela era professora da Yomiuri. E se repetisse o que eu dissesse?

Esses pensamentos passaram pela minha cabeça — mas, mesmo assim, não consegui me conter.

   “Eu também não entendo. Mas sei que fico consciente demais da presença dele...”

Quando percebi, já estava contando tudo o que tinha acontecido nos últimos três meses. Ao terminar, bebi o resto do chá. Estava frio e um pouco amargo.

   “É assim que é se apaixonar...?”

   “Hmm. Entendo.”

Kudou se recostou no sofá e olhou para o teto. Depois fechou os olhos. Cruzou os braços e começou a bater o dedo indicador no braço esquerdo, pensativa.

   “Hmm”, murmurou de novo, abriu os olhos e olhou pela janela.
  “Acho que você está enganada.”

...Hã?

   “O que quer dizer?”

   “E se eu dissesse que esses seus sentimentos não são românticos?”

   “Eu...”

Esses sentimentos dolorosos — eram um mal-entendido? Isso era possível?

   “Calma. Vamos analisar passo a passo.”

Kudou descruzou os braços e levantou um dedo. Então começou a me analisar.

Primeiro, comentou sobre minha aparência e como ela se relacionava com o que eu sentia por dentro.

   “Você veio de uniforme hoje.”

   “Minha professora mandou.”

O Colégio Suisei era conhecido por ser descontraído, mas em eventos ligados a universidades ou mercado de trabalho exigia-se traje formal — terno ou uniforme. Como a maioria não tinha terno, o uniforme acabava sendo a única opção.

   “Yomiuri me contou como você costuma se vestir. Pelo que ouvi, você usa... como posso dizer? Roupas que indicam que está no ataque.”

   “Acho que pode dizer assim.”

Kudou parecia entender minha ideia de que a moda era uma espécie de armadura.

Maaya nunca compreendeu isso, por mais que eu explicasse. Ela parecia se divertir muito mais vestindo os irmãos.

   “Você ganha um segundo ataque? Ou talvez dano em área?”

   “Essa piada está na moda?”, perguntei. Tive a impressão de já ter ouvido algo parecido do Asamura.

   “Não precisa ficar na defensiva. Imagino que a maioria das pessoas ache que você só está se divertindo com a moda.”

As palavras de Kudou me lembraram do que a professora Satou tinha dito no dia anterior. Ela se preocupava com a forma como eu me vestia. E era verdade que muita gente devia achar que eu era o tipo de garota que só ficava perambulando por Shibuya. Também não fiz muito para mudar essa impressão — parecia trabalhoso demais.

   “Mas suas roupas são uma declaração, não são?”

   “Uma declaração...”

   “Você está comunicando algo ao mundo.”

   “Oh...”

Talvez ela tivesse razão. Eu nunca tentei esconder isso.

   “Ela só estuda, não sabe se arrumar.”
   “Ela é fofa, mas meio avoada.”

Eu não queria ouvir nenhum desses comentários — nem ser reduzida a um só deles.

Eu já tinha dito algo assim ao Asamura antes. Eu respeitava minha mãe por me criar sozinha, mas muita gente olhava para a aparência e o nível de escolaridade dela e concluía que ela não merecia respeito. Eu queria calar essas pessoas.

   “Sua aparência é algo que você construiu conscientemente”, disse Kudou.

   “Acho que sim.”

   “Quanto ao seu interior... posso ver que você é bastante dedicada. Afinal, veio ao nosso open campus ainda no segundo ano. E esta é uma universidade prestigiada.”

   “Minha professora sugeriu na reunião com responsáveis.”

   “Não importa. Não é esse o ponto. A pessoa que você aparenta ser não viria só porque a professora mandou.”

Será? Eu... não tinha tanta certeza.

   “Isso não é verdade”, retruquei.

Kudou soltou um suspiro divertido.

   “Então me apresente seu argumento.”

   “Eu não tento parecer uma garota festeira. Não é isso que quero que pensem. Só quero que saibam que consigo me vestir sozinha e ser ‘bonita’ e ‘fofa’. Só isso.” Como a mamãe.

   “É mesmo? E?”

   “Eu não vim hoje porque sou dedicada. Vim porque queria provar que sou inteligente. Essa é uma forma de fazer isso.”

   “Está dizendo que saiu por aí contando para todo mundo que viria ao nosso open campus?”

   “Não, não fiz nada desse tipo. Mas pensei que, vindo até aqui, poderia aumentar minhas chances de sucesso. Queria provar isso para mim mesma. Talvez ninguém percebesse se eu relaxasse, mas eu perceberia.”

Falei com clareza e firmeza.

Kudou me encarou nos olhos, e eu sustentei o olhar. Tive a sensação de que, se desviasse primeiro, perderia.

Não sei quem quebrou o contato visual antes, mas, no fim, as duas desviamos. Kudou terminou o chá e se levantou.

   “Entendo. Então você está dizendo que tanto a sua aparência quanto quem você é por dentro — que parecem se contradizer — são construções conscientes. Mas existe outra forma de descrever isso.”

   “Ah?”

   “Você é do tipo que está determinada a não mostrar suas fraquezas aos outros.”

Arfei.

   “Você acabou de dizer algo muito importante”, ela continuou.
   “O comportamento que você mostra ao mundo e aquilo que pensa por dentro obedecem à mesma lógica. O ponto central é que você não quer perder.”

Esperei em silêncio que ela prosseguisse.

    “Você está sempre no ataque, e está sempre sozinha. Luta quando está em público e luta quando está em casa. Não quer mostrar fraqueza e não quer perder. Mas sabe, pessoas assim costumam ser as mais carentes de amor e validação — e acabam se agarrando a qualquer um que lhes ofereça um mínimo de apoio.”

   “Se agarrando...?”

Por um instante, imaginei um cachorrinho abanando o rabo e pulando no dono. O que ela está dizendo — que eu sou um cachorro? Decidi ignorar o fato de que, na minha imaginação, o dono era o Asamura.

   “Vejo muitos casos assim no meu trabalho.”

   “E que tipo de caso é esse?”

   “Aquele em que alguém passa, de repente, a morar com uma pessoa do sexo oposto que antes era uma estranha — como meio-irmãos ou padrastos e enteados. Se alguém é carente de aprovação do sexo oposto e, de repente, passa a ter muito mais oportunidades de contato, pode ficar mais suscetível a sentimentos que se parecem com amor.”

…Ela está dizendo que é isso que está acontecendo comigo?

Por um momento, achei que minha cabeça fosse explodir. Respirei fundo algumas vezes e forcei meu coração a se acalmar.

   “Tenho uma objeção”, declarei.

   “Fique à vontade.”

   “A senhora fala como se a aprovação do sexo oposto fosse indispensável para o desenvolvimento de uma pessoa, e como se, sem isso, qualquer mínimo gesto pudesse gerar sentimentos especiais além do normal.”

   “Você discorda?”

Interpretei aquilo como um “continue”.

   “Essa é realmente uma premissa segura? De qualquer forma, parece inadequada no contexto atual. Isso invalida casamentos entre pessoas do mesmo sexo e famílias monoparentais. Além disso, há exemplos históricos de épocas em que meninos e meninas não eram criados em proximidade.”

   “Dê um exemplo.”

   “Segundo a tradição confucionista, meninos e meninas não deveriam se misturar depois dos sete anos.”

   “Ah, sim, é verdade. Embora eu ache essa visão um tanto antiquada.”

   “Mas era assim que as pessoas pensavam antigamente, não? É por isso que existem internatos femininos... e faculdades só para mulheres.”

   “Touché.”

Marquei um ponto?

   “Seguindo o seu raciocínio, qualquer pessoa criada num ambiente assim se apaixonaria pelo primeiro membro do sexo oposto que encontrasse.”

   “Uhum. E daí?” Ela parecia estar se divertindo.

   “Como eu disse, gostaria de ver as pesquisas que fundamentam essa afirmação. Caso contrário, considero inútil sequer levá-la em conta. Sem falar que seu argumento invalida a legitimidade da minha própria criação.”

Como eu poderia ficar calada enquanto ela insinuava que, por ter sido criada por uma mãe solteira, eu tinha ficado desesperada por homens?

   “Nossos instintos biológicos nem sempre funcionam de acordo com a razão”, ela respondeu.

   “Justamente por isso temos lógica e razão — para alinhar nossos instintos às normas sociais.”

   “É uma forma de ver a questão. E então?”

  “Sem evidências, a afirmação de que a falta de aprovação do sexo oposto na infância faz os sentimentos românticos saírem do controle não passa de opinião. É apenas uma reformulação da velha norma social de que crianças precisam de pai e mãe. Não posso concordar com isso.”

   “Então você está dizendo que as normas sociais mudaram?”

   “Acredito que sim.”

   “Apenas acreditar não resolve nada.”

   “Mas mesmo que existam requisitos para a criação de uma criança, focar apenas em reações instintivas é negar a razão e o intelecto. Se há requisitos, então devemos ajustar e reescrever as normas sociais para atendê-los. Seguir cegamente a moral convencional — como gritar frases feitas do tipo ‘Seu filho precisa de um pai!’ — é ridículo.”

Falei como se estivesse desafiando Kudou. Ela assentiu, apoiando os braços no encosto do sofá.

   “E é exatamente esse tipo de coisa que estudamos em ética”, disse.

Hã?!

Toda a minha força foi embora de uma vez. Então era isso.

   “Evidências, fundamentação teórica... posso citar quantos autores você quiser. Há uma infinidade de pesquisas em biologia e psicologia que sustentam a hipótese que mencionei. Mas tudo isso trata apenas de tendências gerais. Nada disso vai te dar uma resposta satisfatória. Este é o seu problema pessoal — e diz respeito apenas a você.”

   “...Sinto que fui feita de marionete para seu entretenimento.”

[Ayko: A professora Kudou é assustadora. Realmente assustadora.]

 

Afundei no sofá, relaxando. Meu corpo parecia estar virando uma água-viva ou um pepino-do-mar enquanto eu olhava para o teto e suspirava.

   “A Yomiuri passa por isso todos os dias...?”

Kudou se jogou no sofá oposto — comecei até a me preocupar com os vincos que ela estava fazendo no terno caro — e respondeu:

   “Não exatamente. No máximo duas ou três vezes por semana.”

   “...Já é bastante.”

Eu estava cansada. Cansada de verdade. Não queria pensar em mais nada por uma semana inteira.

   “Professora, isso não é exaustivo...?”

   “Não sei. Sou péssima em não pensar. Ideias como as que discutimos ficam rodando na minha cabeça o tempo todo, exceto quando estou dormindo... embora, às vezes, eu pense até nos sonhos.”

   “A senhora nunca descansa?”

   “Não consigo. Já tentei várias vezes, mas não dá. Imagino que só vá parar de pensar quando morrer.”

Ela me lembrou um peixe que precisa continuar nadando para sobreviver. Comecei a entender o que quis dizer quando afirmou que simplesmente vivia como pesquisadora.

   “Enfim, com base na nossa conversa, aqui vai um conselho de vó”, disse ela.

   “Hum, sim?”

   “Você diz que está apaixonada por esse tal de Asamura, mas não conhece outros garotos assim tão bem, conhece?”

   “Ngh... Bem, não.”

Os únicos homens que eu conhecia, além do Asamura, eram meu pai das memórias de infância e meu padrasto, que eu conhecia havia apenas três meses.

   “Você pode afirmar com absoluta certeza que não se apaixonou por ele simplesmente porque é o único garoto de quem você é próxima?”, perguntou ela, acrescentando:
   “Desculpe se isso soa cruel.”

Depois de tudo, eu não esperava um pedido de desculpas.

   “Não, não posso afirmar com absoluta certeza.”

   “Então deveria tentar se relacionar com mais pessoas. Você ainda é jovem. Pode acabar percebendo que há outros garotos interessantes por aí e deixar de se torturar por causa do seu meio-irmão.”

   “Outros garotos?”

   “Não estou dizendo que precisa começar a namorar. Apenas conviver mais. Um referencial limitado é inimigo da razão e do intelecto.”

   “Isso é verdade... Concordo.”

   “Você não precisa me ouvir. Não estou falando como professora de ética. É apenas o conselho de uma mulher com um pouco mais de experiência. Mas, se conviver com outros garotos e seus sentimentos continuarem os mesmos, então essas emoções são genuínas — e acho que deve valorizá-las.”

Dito isso, Kudou se levantou. Estendeu a mão para mim, ainda largada no sofá como uma perfeita água-viva. Olhei para o relógio na parede — estava quase na hora da aula experimental — e aceitei sua mão, levantando-me.

   “Isso mesmo. Às vezes é importante aceitar a mão que alguém estende para você, Saki.”

   “...Pode me chamar de Ayase?”

Vi um arrependimento sincero passar pelo rosto dela.

Quando Yomiuri veio me buscar, parecia genuinamente preocupada. Eu devia estar com uma aparência péssima. Em vez de brincar como sempre, ela foi especialmente gentil.

A aula experimental foi muito interessante.

O tema era o amor romântico entre irmãos.

 

[Ayko: TUDO se voltando a situação dos dois, mas que conveniente, não é?]

 

Partindo da premissa de que a ética muda com o tempo, a palestrante argumentou que o motivo pelo qual relacionamentos românticos entre meio-irmãos são vistos como inaceitáveis se deve apenas ao conjunto atual de crenças éticas da sociedade — e não a valores individuais.

Segundo a palestra, a sociedade funciona assim: quando indivíduos quebram normas sociais em nome do livre-arbítrio, o código ético da sociedade acaba sendo atualizado posteriormente.

A palestrante era, claro, a professora associada Kudou.

Ela se movimentava pela sala, ora à esquerda, ora à direita, escrevendo palavras-chave no quadro branco e falando com tanta paixão que parecia quase espumar pela boca.

Apesar de haver dez minutos reservados para perguntas ao final, ninguém levantou a mão.

Kudou saiu da sala com um ar desapontado.

Eu teria feito algumas perguntas, se tivesse forças. Quem sabe em um futuro não tão distante eu tenha essa oportunidade. Tive a sensação de que teria.

Mas, antes, eu precisava olhar com atenção para as outras pessoas ao meu redor — além do Asamura.

Enquanto voltava para casa, lembrei das palavras de Kudou sobre como um referencial limitado é inimigo da razão e do intelecto.

O vento parecia me empurrar enquanto eu seguia em direção à estação.

A brisa de outono estava fria contra minhas bochechas.

 

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