Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 4

Capítulo 3: 4 de Setembro (Sexta-Feira) - Yuuta Asamura

4 DE SETEMBRO (SEXTA-FEIRA) — YUUTA ASAMURA

Meu pai e eu acordamos cedo na sexta-feira.

Assim que nos sentamos à mesa para o café da manhã, ele se virou para mim e disse:

   "Akiko e eu andamos pensando em uma coisa."

   "Os dois?"

Olhei para ele, intrigado, enquanto servia arroz na tigela dele. Papai e Akiko pareciam viver em fusos horários diferentes; fiquei me perguntando quando, afinal, eles encontravam tempo para conversar.

Perguntei isso, e ele explicou que os dois trocavam mensagens com frequência. Antigamente ele achava um incômodo até me mandar mensagem, e levei um momento para perceber o quanto ele tinha mudado.

   "Vou tirar um dia de folga para ir à sua reunião de pais e mestres. O trabalho está corrido, mas não é justo deixar tudo nas costas da Akiko."

   "Na verdade, pai, sobre isso..."

Expliquei o que Ayase e eu tínhamos conversado na noite anterior e contei que iríamos marcar nossas reuniões no mesmo dia, para que Akiko pudesse comparecer às duas. Assim, ele não precisaria faltar ao trabalho.

   "Sério? Tem certeza?", ele perguntou.

Assenti.

   "Eu e a Ayase concordamos. Não queremos causar problemas... e é estranho continuar escondendo o fato de que somos irmãos."

Nunca tinha visto meu pai tão feliz.

   "A Akiko vai ficar radiante", ele disse. Em seguida, comentou que ela havia falado sobre querer ser uma boa mãe para mim.

Se eu ainda fosse criança, talvez fosse diferente. Mas eu tinha dezesseis anos. Meu pai ter se casado significava que ele tinha uma nova esposa — não que eu tivesse ganhado uma nova mãe.

Papai e Akiko pareciam perceber isso, e ele acrescentou que o desejo dela de ser minha mãe não significava que quisesse assumir o papel de minha responsável legal.

   "Ela diz que quer que vocês dois sejam uma família, e que acredita que isso é possível. Acha que seria um desperdício ignorar os laços que se formaram quando ela se casou comigo."

Laços...

Agora eu entendia. Akiko não queria ser minha mãe por obrigação. Ela podia ser minha madrasta, e eu seu enteado, mas não era isso que ela queria dizer com “família”. Ela simplesmente queria valorizar o tempo que passamos juntos — ela, papai, Ayase e eu.

   "Então acho que ela vai ficar muito feliz quando souber que você a aceitou como parte da sua família", ele concluiu.

Senti uma pontada de culpa. Eu nem tinha pensado nisso.

   "Bom dia, pai. Bom dia, irmão."

Ayase entrou na sala.

   "Ah! Bom dia, Saki."

   "Quer café da manhã, Ayase?", perguntei.

Ela tinha acordado um pouco mais tarde, então quis confirmar. Normalmente ela saía antes de mim; talvez não tivesse tempo de comer.

   "Ah, desculpa por você ter feito o café. Eu assumo daqui."

   "Senta aí. A gente também acabou de acordar. Aqui está sua sopa de missô... arroz e hashis."

   "Ah... obrigada."

   "De nada. Mas... você não está atrasada? Dormiu demais?", perguntei, embora isso parecesse improvável.

Depois de se sentar, ela virou o celular para mim, mostrando a tela.

   "...Mensagens?", perguntei.

   "A mamãe disse que vai chegar em casa em algumas horas. Sobre o que conversamos ontem..."

Ah, certo.

Na noite anterior, Ayase disse que enviaria uma mensagem para Akiko sobre nossa decisão. Ela devia ter recebido a resposta naquela manhã e continuado a conversa por  texto. Provavelmente foi por isso que se atrasou.

   "A mamãe ficou muito feliz."

   "Viu só?", disse meu pai, satisfeito. Senti novamente aquela pontada no peito.

   "Sobre a data", continuou Ayase. "Ela me passou o dia que prefere."

   "Qual?"

   "Vinte e cinco de setembro, se for possível."

   "Dia vinte e cinco... uma sexta-feira", murmurei, olhando o calendário.

   "Dá certo?"

   "Dá, sim. Se for bom para ela, colocamos essa data no formulário. E, Ayase..."

Precisaríamos explicar a situação aos nossos professores com antecedência. Teríamos de avisar que nossa mãe não poderia faltar em dois dias diferentes, então as reuniões precisariam ser no mesmo dia. Tanto o meu professor quanto o dela já sabiam que nossos pais tinham se casado.

   "Ah, bem lembrado", ela disse.

   "Se estivéssemos na mesma turma, eu poderia explicar pelos dois, mas..."

   "Sem problema. Eu falo com o meu professor."

Ela pediu para deixar isso com ela e continuou comendo. Algum tempo atrás, Ayase teria hesitado em lidar com algo assim. Talvez isso estivesse mudando.

[Ayko: Realmente, o comportamente da Ayase aparenta estar mudando gradualmente bastante]

Ela terminou o café, lavou a louça e saiu no horário de sempre.

Meu pai saiu em seguida, e eu fui o último.

Enquanto caminhava para a escola, olhei para o céu. A brisa já não estava tão quente quanto no dia anterior.

Akiko queria que fôssemos uma família. Ayase chamava papai de "pai". Talvez eu devesse chamar Akiko de "mãe" também. Não porque a visse como minha mãe de verdade, mas para que nós quatro pudéssemos ser uma família.

Será que foi por isso que Ayase começou a me chamar de "irmão"?

Avisei a mim mesmo para parar com aqueles pensamentos assim que avistei o portão principal da escola.

Faltavam cinco minutos para a aula começar.

O sinal de advertência tocou no exato momento em que Maru entrou pela porta dos fundos da sala.

Ele não foi o único — alunos que tinham treino esportivo pela manhã foram chegando em grupos pequenos. Sempre apareciam pouco antes do sinal final. Maru sentou na carteira à minha frente e se virou, como se tivesse acabado de lembrar de algo.

   "Ei, Asamura."

   "Fala."

   "Você foi mesmo à piscina com a Narasaka e as amigas dela neste verão, não foi?"

   "Ah... fui, sim."

   "Ouvi um boato de que você e a Ayase estavam se dando bem demais."

   "O que quer dizer com isso?"

   "É só um boato. Mas, vendo como a Ayase anda agindo ultimamente, estou começando a achar que pode ser verdade."

Verdade... o quê, exatamente?

   "Então conta aí", ele insistiu.
   "Qual é a sua com a Ayase?"

Não sabia como responder. No fim, recorri ao clichê de responder com outra pergunta.

   "Por que está perguntando isso do nada?"

   "Você não acha que é dever do amigo do protagonista num jogo de namoro perguntar sobre a vida amorosa dele?"

   "Acho que você precisa separar jogo de realidade."

   "Hmm. Para falar a verdade, eu só ouvi isso recentemente. Não tenho prova nenhuma."

Então o time de beisebol estava comentando sobre mim e Ayase, dizendo que estávamos próximos demais.

Por quê? Eu só percebi meus sentimentos por ela naquela ida à piscina — e imediatamente decidi me livrar deles. Ela era minha irmã. Eu deveria ser o irmão dela. Precisava esquecer aquilo, apagar.

E, ainda assim, as pessoas ao meu redor continuavam me lembrar do que aconteceu no verão, como se pudessem enxergar através de mim.

Sem saber o que fazer, abri a mochila para me preparar para a aula.

Foi quando vi o formulário e me lembrei.

Ayase e eu tínhamos conversado sobre isso. Decidimos que não havia problema se nossos colegas descobrissem que éramos irmãos.

   "Ei, Maru?", chamei em voz baixa. Ainda não estava pronto para contar ao mundo inteiro.

Ele se inclinou em minha direção. Como esperado do meu melhor amigo — percebeu na hora que era algo delicado.

   "Sobre mim e a Ayase..."

Contei que nossos pais tinham se casado, que agora éramos meio-irmãos e que decidimos ser mais abertos quanto a isso.

Mas pedi que ele não saísse espalhando. Disse que estava contando porque confiava nele.

   "Claro", ele respondeu.
   "Não sou do tipo que sai falando de assunto sensível."

   "Valeu."

   "Mas agora faz sentido."

   "Hã? O que faz sentido?"

   "Quando você começou a me perguntar sobre a Ayase do nada, eu fiquei chocado. Parecia que você estava obcecado por ela."

   "Obcecado...?"

   "Desculpa, palavra errada. Mas você me deixou preocupado."

Em junho, Ayase tinha sido alvo de rumores maldosos. As roupas chamativas — que ela chamava de armadura — e o fato de ter sido vista em Shibuya à noite foram o bastante para alimentar fofocas.

   "Foi tudo um mal-entendido", eu disse.

   "É, parece que sim. Foi mal. Mas agora tudo se encaixa. Quer dizer que eu estava falando mal da sua irmã. Desculpa, cara."

   "Você não tinha como saber."

   "Eu achava que você tinha se apaixonado por ela."

Por um instante, meu coração falhou uma batida e minhas palmas suaram.

Ele achava que eu tinha me apaixonado por ela.

Não havia nada de errado em irmãos se importarem um com o outro. Mas isso era diferente.

   "Eu nunca..."

   "Foi mal. Passei do ponto. Mas, sinceramente, fico aliviado. Você não teria a menor chance contra aqueles caras. Não quero ver meu melhor amigo se machucar."

   "Aqueles caras?"

   "Não ficou sabendo? Estão dizendo que a Ayase mudou depois das férias."

Segundo Maru, ela tinha ficado mais simpática, e a popularidade dela disparou. Garotos que antes tinham medo dela agora disputavam sua atenção. Ela deixou de ser solitária, e vários começaram a se aproximar. Entre eles, alguns bem cobiçados.

   "Não tinha como você ganhar deles... ou pelo menos era o que eu pensava. Mas você nem estava competindo. Você é só o irmão dela."

   "Inacreditável."

   "Calma."

Maru parecia convencido.

Enquanto o observava, pensei que ele estava certo. Minhas chances contra qualquer pretendente não importavam se éramos irmãos. Que diferença fazia se algum cara atraente se aproximasse dela?

Só na ficção irmãos ficam preocupados em proteger a irmã de outros garotos. Ayase tinha dezesseis anos. Podia pensar em namoro sozinha. Não precisava do irmão se intrometendo — com laço de sangue ou não.

Certo. Eu precisava manter a calma. E daí se houvesse garotos interessados nela? Isso não tinha nada a ver comigo.

O professor entrou e começou a aula. Pediu que entregássemos os formulários, e eu entreguei o meu, explicando rapidamente a situação.

   "Entendo. Então sua madrasta virá à reunião?"

   "Sim, senhor."

Encerrada a conversa, voltei para a carteira.

Depois da aula, eu estava com pressa.

Trabalharia naquele dia, então peguei minha bolsa assim que a reunião de classe terminou e corri para a entrada da escola para trocar de sapatos. Foi então que ouvi um grupo barulhento se aproximando.

Reconheci uma voz familiar e me virei: Narasaka estava no centro do grupo. Eram alunos da turma ao lado. Como sempre, ela estava cercada de amigos, rindo, cuidando para incluir todo mundo na conversa.

Ayase estava com eles. Caminhava na mesma linha, mantendo uma distância neutra. De vez em quando alguém falava com ela, e ela respondia.

Quando a vi sorrindo e conversando, peguei meus sapatos por reflexo e me escondi.

Me mantendo nas sombras, saí pela porta lateral. Disse a mim mesmo que não queria atrapalhar.

Ela estava sorrindo. Era a primeira vez que a via rindo com os colegas. Fiquei feliz. Antes, ela parecia deslocada.

Como Maru disse — Ayase tinha mudado. A postura de não depender de ninguém a fazia parecer uma solitária forte, mas, na verdade, ela apenas cortava laços porque não sabia lidar com as pessoas.

Agora tinha aprendido que independência não exigia afastar os outros.

Ela estava mais gentil. Mais suave. E estava ali, conversando e rindo com pessoas que eu nem conhecia.

Então por que isso me deixava estranho?

Por que eu não conseguia simplesmente ficar feliz por ela?

O céu estava de um vermelho escuro quando cheguei ao estacionamento de bicicletas perto da estação.

Os dias estavam mais curtos. Era setembro, e o sol se punha cada vez mais cedo.

No trabalho, troquei de uniforme e fui para o salão de vendas.

Comecei organizando as prateleiras. Cumprimentei o gerente e fui até o fundo da loja.

Enquanto recolocava livros fora do lugar, minha mente foi se esvaziando. Eu quase entrava num estado de meditação quando—

   "Ei, rapaz. Você é exatamente a pessoa que eu queria ver."

Reconheci a voz na hora.

Me virei e encontrei uma bela japonesa de cabelos longos e negros, carregando uma pilha de livros. Nem precisei ler o crachá: era Shiori Yomiuri.

   "A propósito, que cara é essa?"

   "Nada. Só estava limpando a mente."

   "Refletindo profundamente, é?"

   "Acho que é o oposto disso."

   "Ah é? Então me diz, o que estava fazendo?"

   "Para de agir como um tiozão. Vou contar ao gerente que você está me assediando."

   "Vai? Que maravilha. Igualdade de gênero no ambiente de trabalho é essencial."

Duvido que assédio seja maravilhoso, independente de quem pratique.

   "Mas enfim, rapaz. Não tem algo que você deveria dizer a uma garota bonita carregando livros pesados na sua frente?"

   "Ah, desculpa. Eu pego."

Peguei os livros. Eram light novels para repor na estante.

   "Essa série é boa", comentei.
   "Mas por que está vendendo tanto de repente?"

   "Você disse que tinha lido, não foi?"

   "Li... Ah, claro! O anime deve ter estreado."

   "Exatamente."

Ela apontou para um expositor com um cartaz promocional.

   "Essa obra-prima foi feita por mim", disse.

   "É mesmo?"

   "Escrevi: 'Uma história emocionante que vai te fazer chorar litros!'"

   "Você sabe que não pode mentir, né?"

Mesmo assim, percebi que provavelmente já tinha caído na armadilha dela.

De repente me dei conta de algo.

Se o anime tinha começado agora, no outono, os próximos três meses seriam o auge das vendas.

   "Vai sair um volume novo...", murmurei ao ver a faixa promocional.

   "Você anda cansado, Yuuta", disse Yomiuri.

   "Como assim?"

   "Está sem energia. Antes, você sabia sobre novos volumes três meses antes do lançamento."

   "...Acho que é verdade."

   "Viu? Está sem energia."

   "Não é isso—"

   "Vai, eu te conheço. Yuuta desinteressado no próximo volume da série favorita? Isso é grave!"

Talvez ela estivesse certa. O eu de antes jamais deixaria passar.

   "Está com saudade da Saki porque os turnos de vocês não coincidem?", ela provocou.

   "Cuidado, Yomiuri. Se continuar com essa cara de quem sabe demais, vai perder os fãs."

   "Pode me contar seus problemas. Abra seu coração e caia nos meus braços."

   "Não é nada disso. Somos irmãos. Não pode ser nada disso."

   "Nada disso... o quê?"

   "Não estou com saudade. Ninguém sente falta da própria irmã só porque não trabalham juntos."

   "Não tenho irmão mais velho, então não sei. Mas ela é só sua meio-irmã, não?"

   "Ela ainda é minha irmã", respondi, sentindo o peito apertar.

   "Resposta sensata... e chata!"

   "Não estou aqui para te entreter."

   "Hmm. Então vamos mudar de assunto. Tenho uma informação interessante para animar você..."

Ela ergueu um dedo.

   "Minha faculdade vai ter um open campus. Você devia ir."

   "Open campus? Aquele evento para conhecer o curso e tal?"

   "Isso. Vai estar cheio de universitárias fofas."

   "Yomiuri... sua faculdade não é só para mulheres?"

   "É. E daí?"

   "Duvido que deixem um cara como eu entrar."

   "Ué?! E a igualdade de gênero?"

Não acho que chegamos a esse nível de iluminação social.

Eu sabia que ela só queria me animar. Mas não consegui sorrir.

Terminei o turno e fui direto para casa.

Havia jantar e um bilhete me esperando na mesa. Na noite anterior, Ayase e eu tínhamos jantado juntos pela primeira vez em um tempo. Mas naquele dia, ela apenas deixou um bilhete e se trancou no quarto.

Ela não estava me evitando... estava?

Eu queria ter visto o rosto dela.

Talvez eu tivesse mentido para Yomiuri.

Um único pensamento ecoava na minha mente:

Isso era inevitável, não era?

Afinal... Ayase e eu não somos irmãos de verdade.

 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora