Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 4

Capítulo 2: 3 de Setembro (Quinta-Feira) - Saki Ayase

3 DE SETEMBRO (QUINTA-FEIRA) — SAKI AYASE

O sinal tocou, marcando o fim das aulas. Peguei minha bolsa e fui em direção à porta da sala.

   "Saki!"

Congelei sem me virar e soltei um suspiro. Eu sabia quem era sem precisar olhar, e sabia que, se me virasse, ela não me deixaria ir embora. Eu sabia… mas agora não havia muito o que fazer.

   "O quê?", perguntei.

   "Ei! Não ignora alguém quando estão falando com você!"

   "Eu não estou ignorando. Eu parei, não parei? O que foi?"

   "Que impaciência é essa? Relaxa. Sério, os jovens de hoje em dia… sempre correndo, sempre ocupados."

Ela se aproximou de braços cruzados. Apesar do que dizia, ela tinha exatamente a mesma idade que eu.

Maaya Narasaka — minha única amiga.

Soltei outro suspiro exasperado.
  "Então, o que você quer?"

Tinham outros alunos atrás da Maaya. Eu não tinha muito interesse em decorar o nome e o rosto de todo mundo, mas reconhecia aquele grupo. Tínhamos ido à piscina juntos nas férias de verão.

Éramos sete ao todo, contando com a Maaya. Um dos garotos falou:

   "A gente vai pro karaokê agora. Quer ir com a gente?"

Qual era mesmo o nome dele?

Olhei para a Maaya. Ela agitava algo que parecia um cupom.

   "Consegui um desconto!"

Ah.

   "É que…", comecei, hesitando.

   "Não gosta de karaokê?", ela perguntou.

A antiga eu teria dito não e encerrado a conversa ali mesmo. Mas agora…

Olhei para os alunos atrás dela. Pela expressão deles, dava para perceber que estavam um pouco ansiosos, mas também empolgados. Estavam torcendo para que eu fosse junto.

   "Agradeço o convite, mas hoje não dá. Tenho coisas para fazer em casa e preciso voltar logo. Desculpa."

Eu não conseguia acreditar no quão educada estava sendo. Eu estava até sorrindo! Mas não queria estragar as lembranças divertidas que tivemos no verão. Também não queria ser odiada ou deixar ninguém desconfortável.

   "Vejo vocês depois"
Eu disse, fazendo uma breve reverência. Então peguei minha bolsa e saí da sala.

Atrás de mim, ouvi meus colegas comentando. Estavam surpresos com a minha pressa, e alguém disse: "Que pena, Shinjou."


[Ayko: Esse Shinjou ai… sei não hein…]

Ah, é mesmo. Tem alguém chamado Shinjou. Não lembro o primeiro nome.

Andei com pressa pelo corredor e troquei os sapatos no hall de entrada. Eu precisava chegar em casa antes que a mamãe saísse para o trabalho.

A avenida principal de Shibuya estava sempre lotada, mesmo às quatro da tarde de um dia de semana. Eu tinha saído da escola com pressa, mas a calçada estava cheia de pedestres bloqueando meu caminho. Isso me deixava irritada, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Além disso, eu sabia muito bem que era impossível correr pelo centro de Shibuya. A mamãe trabalhava ali desde que me entendia por gente. Eu conhecia aquela região como a palma da minha mão.

Saí da avenida principal e entrei em um beco estreito que levava a uma área residencial. Ali, finalmente consegui caminhar em passo acelerado.

Dobrei a esquina e o enorme prédio de apartamentos surgiu à vista. Esse era o novo lar da mamãe e meu.

   "Que estranho…"

Até junho, eu fazia um caminho diferente para uma casa diferente.

Foi quando nos mudamos para esse apartamento. Eu só seguia por essa rota há cerca de três meses, quase nada. Ainda não tinha descoberto caminhos alternativos, nem conhecia boas lojas para passar no trajeto.

Ainda estava em Shibuya. À medida que me aproximava da escola, aumentava o número de placas e estabelecimentos familiares.

E, mesmo assim, minha vida tinha mudado tanto. Tudo parecia tão desconhecido quanto a paisagem ao redor do nosso novo prédio. Antes, tudo era muito mais simples.

Me lembrei de como me sentia sem esperança naquela época. Foi por isso que fiquei tão desesperada para mudar.

Eu respeitava minha mãe por trabalhar em um bar no centro para me sustentar, e queria desesperadamente provar que todos que a criticavam estavam errados. Eu sabia muito bem como as pessoas olhavam para ela, e também sabia que tirar boas notas não seria suficiente para mudar isso.

[Ayko: Só adicionando um detalhe para quem não sabe. No Japão, há um estigma social muito grande sobre mulheres que trabalham como hostess ou em bares noturnos, muito disso por que se alinha com a ideia do envolvimento em atividades ilícitas ou moralmente duvidosas, mesmo se o trabalho seja somente sobre bebidas. Como é o caso de muitas pessoas que trabalham no distrito da luz vermelha chamado Kabukicho, em Shinjuku.]

Cheguei ao prédio, digitei o código de segurança e entrei. Passei pela sala do zelador e entrei no elevador.

Esqueci de checar a caixa de correio. Mas tudo bem, faço isso depois.

Desci no terceiro andar, quase em casa. Estava ofegante por ter corrido e desconfortavelmente suada. As mangas do uniforme grudavam nos meus braços, deixando uma sensação desagradável. Enquanto girava a chave na fechadura, me perguntei se teria tempo de tomar um banho antes de ir trabalhar.

   "Cheguei!", anunciei, notando os sapatos da mamãe na entrada.

A encontrei na sala, já maquiada e pronta para o trabalho.

   "Bem-vinda de volta", ela disse.

   "Você tem um minuto antes de sair?"

   "Claro. Já avisei que vou me atrasar um pouco, então não precisa se apressar."

   "Ufa…"

Desabei no sofá, exausta do calor do fim do verão.

Ufa. Consegui chegar a tempo.

Eu tinha voltado correndo porque ela disse que precisava conversar sobre algo importante.

Era sobre a reunião de pais e mestres.

Minha professora tinha entregado os formulários naquela manhã, e eu mandei mensagem para a mamãe no mesmo instante para que ela pudesse ajustar a agenda. Trocamos mensagens no intervalo e achei que estava tudo resolvido. Mas depois ela disse que queria falar comigo pessoalmente.

Para ser sincera, eu entrei em pânico. Corri para casa apreensiva, mas ao vê-la ali com sua expressão calma de sempre, percebi que talvez não fosse nada tão grave.

   "Você podia ter me mandado mensagem, sabia?", eu disse.

   "Sua mãe é antiquada. Fico com medo de não conseguir transmitir todas as nuances."

[Ayko: Akiko na razão! Conversar no cara a cara é sempre bom!]

   "É… acho que entendo."

Eu entendia. Ela sempre foi assim. Sabia se comunicar muito bem cara a cara, parte do motivo de ser uma ótima bartender. Diferente de mim, que cresci na era das redes sociais, ela devia achar estranho confiar apenas em mensagens de texto.

   "Tá bom, eu escuto. Só um minuto."
Corri até meu quarto, joguei a mochila na cama, peguei a bolsa que levava para o trabalho e voltei.
  "Pronto. O que você queria conversar?"

   "Bem…", ela começou, hesitando, algo que era raro.
   "Como estão as coisas com o Yuuta na escola?"

Meu coração falhou uma batida.
   "Como assim?"

   "Você anda chamando ele de irmão em casa, não é?"

   "Sim."

   "Fiquei me perguntando se faz o mesmo na escola."

Meu coração começou a bater cada vez mais forte, mas eu tinha certeza de que isso não transparecia. Eu era boa em manter uma expressão neutra.

   "Estamos em salas diferentes."

O que não era exatamente toda a verdade.

Nossas salas ficavam lado a lado. Tínhamos educação física no mesmo horário, embora meninos e meninas geralmente fossem separados. Ou seja, era bem possível nos encontrarmos. E isso já tinha acontecido, embora eu tivesse evitado olhar para o rosto dele.

   "Então nada mudou muito", concluí.

   "Isso quer dizer que ninguém sabe que vocês são irmãos?"

   "Acho que não. A gente não contou para ninguém."

Exceto a Maaya.

   "Hmm… Então talvez eu precise repensar algumas coisas."

   "Repensar o quê? Não era sobre a reunião?"

   "É que o Taichi está muito ocupado agora."

Ela explicou que seria difícil para o papai comparecer, e que não queria que ele se sobrecarregasse. Então estava pensando em ir tanto à minha reunião quanto à do Asamura. Para isso, seria mais fácil se as duas fossem no mesmo dia, assim precisaria faltar ao trabalho apenas uma vez.

   "Nosso bar é pequeno, não é fácil tirar vários dias", disse ela.
   "Mas, se as reuniões forem no mesmo dia, seus colegas podem perceber. Isso não seria um problema para vocês?"

Todos descobririam que eu era a irmã mais nova do Asamura.

Mas… isso era realmente um problema?

   "Não é exatamente isso que me preocupa", ela continuou.

   "Não é?!"

   "Tenho medo de que o Yuuta ainda não me veja como mãe. E isso me deixa um pouco triste."

Ah.

Era isso.

Nós dois, tentando tanto esconder que éramos irmãos, acabamos fazendo parecer que rejeitávamos nossa nova família.

Eu nem tinha pensado nisso.

Pouco depois, ouvimos a porta abrir. Asamura entrou na sala.

Automaticamente, falei: "Oi, irmão."

   "O-oi, Ayase."

Ele ainda me chamava de Ayase.

Depois que a mamãe saiu, ficamos sozinhos.

Eu precisava sair dali antes que minha determinação vacilasse.

   "Está quase na hora do trabalho", eu disse.

   "Ah… tá. Até mais."

   "Até mais, irmão."

As palavras saíram no automático.

Mas a imagem do rosto preocupado da mamãe não saía da minha cabeça.

Mais tarde, já na livraria, enquanto organizava livros, decidi que não queria vê-la triste de novo.

Eu precisava conversar com o Asamura.

Quando finalmente cheguei em casa naquela noite, bati na porta do quarto dele. Sem resposta. Fui até a sala…

…e lá estava ele.

O jantar estava pronto.

   "Você já comeu?", perguntei.

   "Vamos comer juntos."

Era perfeito. Eu também tinha algo para dizer.

   "Sobre a reunião de pais e mestres…"

Falamos ao mesmo tempo.

E, durante o jantar, ele disse praticamente as mesmas coisas que eu vinha pensando o dia todo.

   "Acho errado sobrecarregar a Akiko por nossa causa."

Isso era injusto.

Eu estava tentando apagar meus sentimentos por ele… e ele abalava minha determinação com algo tão simples.

Mas eu fiquei feliz.

No fim, decidimos que não havia problema se a escola descobrisse que éramos irmãos.

Seria uma decisão dos dois.

Uma declaração conjunta.

[Ayko: Essa ideia de apagar os próprios sentimentos em prioridade aos pais de ambos é muito muito legal de se ver em ambos, mas que faz um mal pra si mesmo, isso sim… como será que vão desenvolver isso hein?]

 

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