Volume 4
Capítulo 13: 28 de Setembro (Segunda-Feira) - Yuuta Asamura
28 DE SETEMBRO (SEGUNDA-FEIRA) — YUUTA ASAMURA
Percebi que o ar-condicionado estava fazendo menos barulho do que antes.
A temperatura devia estar caindo um pouco a cada dia, mas sempre existia aquele momento específico em que, de repente, você percebia que a estação tinha mudado.
Meu pai saiu para o trabalho mais cedo que o habitual naquela manhã. Ao que parecia, ainda tinha muita coisa para resolver e foi embora sem tomar café. Akiko ainda não tinha voltado para casa, o que significava que Ayase e eu éramos os únicos no apartamento.
Levantei a tampa da panela elétrica de arroz e não consegui evitar o comentário.
"Uau… isso está com uma aparência ótima."
No meio do mar de arroz branco, havia pequenas ilhas amarelas. Um aroma adocicado subia da mistura. Aquilo só podia ser...
"Hoje vamos tomar café da manhã com arroz e castanhas", disse Ayase por cima do ombro. Ela estava diante do fogão, aquecendo a sopa de missô.
"Castanhas… Já estamos nessa época do ano, então?"
Aquilo também era uma mudança sutil. Mas, quando todas essas pequenas coisas se acumulavam, você de repente pensava: Ah, uma nova estação começou.
"Eu senti vontade de tomarmos café juntos hoje de manhã", ela disse.
"Tudo bem para você?"
"Claro."
Ultimamente eu tinha a impressão de que ela vinha me evitando, então a sugestão me pegou de surpresa. Mas eu sentia o mesmo, então foi perfeito. Havia algo que eu também queria conversar.
Fazia tempo que não arrumávamos a mesa e preparávamos tudo juntos. Quando terminamos, nos sentamos e começamos a comer.
"Ah, sabia?", ela disse.
"Quando comprei as castanhas, também peguei sementes de ginkgo e cogumelos shiitake."
"Sementes de ginkgo e shiitake? … Você está pensando em fazer chawanmushi?"
"Acertou. Acho que não vou ter tempo de preparar de manhã, mas pensei em fazer para o jantar."
"Vou ficar esperando ansioso."
[Ayko: Nota culinária!
Conhecidas como Nozes Ginkgo, as sementes de Ginkgo são frutos da árvore Ginkgo Biloba, um dos fósseis vivos mais antigos do mundo, também são ricas em antioxidantes!
Chanwanmushi é um prato tradicional do Japão, que é basicamente um pudim de ovos salgado, cozido no vapor. Traduzindo literalmente o nome significa “Cozido no vapor em uma tigela de chá” - Chawan = tigela de chá / Mushi = cozido no vapor - ]
Conversamos um pouco sobre coisas triviais e depois começamos a nos atualizar sobre o último mês, como se estivéssemos compensando todas as conversas que não tivemos.
"Ah. Você não comentou que tinha almoçado com alguém recentemente?", Ayase perguntou.
"Sim. Fomos a um restaurante italiano perto do cursinho. Os preços eram baixos mesmo, como todo mundo diz." Hesitei antes de acrescentar:
"Achei que tinha visto você enquanto estava lá. Você passou numa loja de conveniência do outro lado da rua?"
"Hã?" Os olhos dela se arregalaram.
"Ah, é mesmo. Lembro de ter visto um restaurante italiano do outro lado do cruzamento. Era lá que você estava?"
"Então era você. Eu sabia. Você estava com um colega de classe, não estava?"
"Deve ter sido quando fomos comprar almoço para todo mundo. Eu estava com o Shinjou. Estávamos todos no apartamento da Maaya. Você lembra do Shinjou, né? Ele foi à piscina com a gente nas férias de verão."
Quando ela mencionou o nome, eu me lembrei. Era o mesmo cara que tinha falado comigo depois da reunião de pais e mestres, com uma raquete de tênis na mão.
Senti um nó na garganta. Eu não tinha o direito de me sentir assim. Estava sendo egoísta.
"Precisávamos de almoço, bebidas e lanches, então nos dividimos em dois grupos. Os outros ficaram para preparar alguma coisinha com a Maaya, enquanto eu e o Shinjou fomos até a loja de conveniência buscar comida e bebidas."
"Ah, então foi isso."
"Foi. Eu ia sozinha, mas o Shinjou acabou me ajudando."
Fazia sentido. Agora eu entendia por que ela estava lá.
"Posso fazer uma pergunta também?", ela disse.
"Claro."
"Você chegou bem tarde ontem. Mandou mensagem, mas não disse o que estava fazendo. Onde você estava exatamente?"
Era incomum Ayase pedir detalhes assim.
"Eu fiquei andando por Shibuya depois do trabalho."
"O quê? Só andando? Você estava com a Yomiuri?"
"Não. Lembra que eu disse que tinha almoçado com alguém? Essa pessoa me convidou para dar uma volta à noite, e—"
"Espera um pouco", ela interrompeu, e eu parei.
"Estamos falando de uma garota?"
"Ah…" Era isso que a preocupava?
"Sim."
"Hmm… Entendi. E aí?"
Tive a impressão de que ela estava um pouco irritada, mas talvez fosse apenas imaginação minha. Lembrei do que ela tinha dito quando nos conhecemos.
"Eu não vou esperar nada de você, e não quero que espere nada de mim."
Será que ela realmente não esperava nada?
Eu mesmo me fiz a mesma pergunta. Eu… esperava algo dela. Queria que ela tivesse sentimentos especiais, só por mim.
Lembrei do que Fujinami me dissera sobre encarar meus sentimentos e sobre como mentiras só conseguem encobrir as coisas por um tempo. Quando você reprime suas emoções, elas continuam crescendo dentro de você. E nunca desaparecem.
Nesse caso…
"Eu gostaria de conversar sobre uma coisa com você."
Minha voz saiu firme e clara.
"Conversar sobre o quê?", Ayase perguntou.
"Eu… como posso dizer isso? Acho que tenho sentimentos especiais por você."
Eu estaria mentindo se dissesse que não me arrependi no instante em que as palavras saíram da minha boca. Mas, agora que tinha dito, não podia voltar atrás. Eu estava decidido a seguir em frente, mas isso não significava que não tivesse receios.
A reação dela foi intensa.
"Hã…? O quê? Eu… você está brincando."
"Não estou."
"…Você está tirando sarro de mim?"
"Eu nunca diria algo assim para zombar de você."
"Não… é verdade. Você não é assim, Asamura."
Ah.
"Você me chamou de Asamura."
"Hã? Ah."
"Tudo bem. Esquece isso por enquanto."
"Tá… Então… sentimentos, é?"
"Acho que estou apaixonado por você."
Ela arfou. Os lábios começaram a se curvar num sorriso, mas logo se fecharam com firmeza.
"Você quer dizer que está apaixonado por mim? Ou que me ama como irmã?"
"Hã?"
Eu não esperava que ela respondesse à minha confissão com uma pergunta.
"Você quer dizer que quer me tocar e me abraçar? Que sentiria ciúmes se me visse com outro garoto? É esse tipo de sentimento?"
Assenti. Era exatamente isso que eu sentia.
Tinha começado naquele verão, quando pensei pela primeira vez: Ah. Eu amo ela. Eu não conseguia imaginar um irmão sentindo aquilo por sua irmã.
E ontem, quando a vi com outro garoto, senti o peito apertar.
Se aquilo não era ciúme, então o que era?
Por isso eu tinha certeza de que a amava como mulher, não como irmã.
Expliquei tudo com sinceridade.
"Mas sentimentos de amor também podem existir entre irmãos", disse Ayase.
Fiquei realmente surpreso. Ao mesmo tempo, lembrei da forma como Akiko tinha agido na reunião de pais e mestres. Minhas palavras a tinham emocionado tanto que ela me abraçou com força. Será que aquele nível de afeto era comum entre elas?
"Ayase, espera."
"Alguém me disse recentemente que… quando uma pessoa cresce privada de contato e aprovação do sexo oposto e, de repente, passa a conviver de perto com alguém do sexo oposto, ela pode desenvolver algo parecido com sentimentos românticos."
Pensei sobre aquilo.
Ela estava dizendo que, por causa da minha relação conturbada com minha mãe, eu tinha desenvolvido algo semelhante a sentimentos românticos por Ayase só porque estávamos morando sob o mesmo teto?
"Isso é só uma possibilidade, não é?", perguntei.
"Não podemos descartar que seja exatamente isso."
"É… acho que não."
"Existe a chance de isso ser apenas uma ampliação dos seus sentimentos fraternos por mim?"
Não… não podia ser.
Mas a insistência de Ayase fez minha convicção de minutos antes se dissipar como miragem no calor.
"Colocando assim… acho que não tenho certeza."
O que eu sabia era que aqueles sentimentos eram território desconhecido para mim.
O rosto de Ayase perdeu toda a expressão, e ela virou o rosto.
Depois disso, continuamos o café da manhã em silêncio constrangedor.
Durante o último mês, eu vinha tentando ignorar minhas emoções. Afinal, eu era o irmão mais velho de Ayase. Por isso comecei a conversar com outras garotas e tentar enxergar qualidades nelas. Mas, no fim, meus sentimentos por Ayase não mudaram.
E, ainda assim, agora ela dizia que talvez fosse apenas afeto de irmão.
Ayase terminou o café, arrumou tudo e se preparou para ir à escola, como sempre.
Eu a segui imediatamente.
Se deixássemos as coisas daquele jeito, acabaríamos nos evitando por mais um mês.
Alcancei-a na porta, enquanto ela calçava os sapatos. Quando terminou, levantou-se e ficou imóvel.
"Ayase."
"Deixa eu te dizer uma coisa", ela disse, ainda de costas para mim.
"Eu não me importo."
O quê?
Eu estava prestes a perguntar o que ela queria dizer, mas, antes que conseguisse, ela se virou, tirou os sapatos, segurou minha mão e me puxou pelo corredor com uma força inacreditável.
Atônito, deixei que ela me arrastasse até o quarto.
Ela fechou a porta, trancou-a e lançou um olhar rápido para as janelas, certificando-se de que as cortinas estavam fechadas. Então se virou para mim novamente. E…
"Hã?"
O tempo parou.
Eu soube na mesma hora o que ela estava fazendo, mas meu cérebro demorou a processar.
Senti calor.
Que sensação era aquela? Eu não conseguia explicar bem, mas uma palavra simples surgiu na minha mente, que logo virou um borrão.
Felicidade.
Nossos corpos se tocaram e se sobrepuseram, como se estivessem se fundindo. Os braços dela se apertaram firmes ao redor das minhas costas. Embora aquele gesto simbolizasse o tipo de possessividade que ambos dizíamos odiar, eu estava tão feliz por ela me querer que, inconscientemente, tentei retribuir o abraço.
Mas Ayase já estava se afastando.
"Você se sente aliviado?", ela perguntou.
"Eu…"
"Obrigada por ter tido coragem de dizer tudo isso. Deve ter sido difícil pensar nisso sozinho. Tenho certeza de que foi… um peso enorme."
"É… talvez."
"Mas não se preocupe. Acho que posso carregar parte disso com você."
Sinceramente, eu estava mais aliviado do que feliz.
Minha confissão foi um movimento arriscado. Poderia ter destruído toda a minha relação com Ayase. Eu não era particularmente atraente, e Shinjou era muito mais popular do que eu. Além disso, éramos família — o que tornava tudo ainda mais complicado.

Eu poderia ter perdido tudo no momento em que contei a verdade. E foi por isso que o abraço dela pareceu um perdão.
"Eu não me importo se os seus sentimentos são de irmão ou algo diferente. Vou ficar feliz de qualquer jeito."
"Ayase… não me diga que você sente o mesmo…?"
"Eu não sei. Não consigo dizer se me sinto assim porque sou sua irmã ou se é algo diferente."
"Ayase…"
"Mas tem uma coisa que eu sei com certeza. Eu quero te abraçar assim e tirar esse peso dos seus ombros. Esse sentimento é real. E eu também gostaria que você me abraçasse quando eu estivesse passando por momentos difíceis. É assim que eu descreveria o que sinto, sem colocar rótulos."
"...Entendi."
Eu provavelmente sentia o mesmo.
"Então vamos conversar direito sobre isso. Eu não quero causar problemas para a mamãe e para o papai. Você concorda comigo?"
"Sim. Eu quero que a Akiko e o papai sejam felizes juntos, sem arrependimentos."
"Outra coisa. Eu sinto ciúmes quando você está com outras garotas. Fico inquieta por dentro. E você?"
"Eu me sinto do mesmo jeito quando você está com outros garotos. Não quero te prender, mas fiquei um pouco incomodado com aquela sessão de estudos."
"Entendi. Da mesma forma, eu não gostei muito quando você disse que estava andando por Shibuya com uma garota."
"Desculpa."
"Você não precisa se desculpar. Nós dois temos outras relações. Mas… acho que esses sentimentos de ciúme também podem existir entre irmãos, não apenas entre pessoas apaixonadas."
"É… talvez você tenha razão."
Eu começava a entender onde ela queria chegar.
"A mamãe e o papai ficariam chocados se, de repente, disséssemos que estamos interessados em namorar. Por isso, vou te chamar de Asamura em público e de irmão mais velho na frente deles. Vamos nos conhecer melhor como irmãos… Não, espera." Ayase balançou a cabeça.
"Como meio-irmãos especialmente próximos… O que você acha?"
"Escondido dos nossos pais?"
"...Não é certo, é?"
Eu também achava que não podíamos deixar nossos pais saberem dos nossos sentimentos ou nos verem abraçados. Isso significava que, de alguma forma, aquilo não era certo.
Mas, se eu insistisse em fazer apenas o que era correto, nunca poderia ser honesto com minhas emoções. Para resolver esse dilema, eu teria que aceitar ser egoísta, mesmo sabendo que não era o ideal.
"Não me importa o que somos", eu disse.
"Só o fato de você me aceitar assim já é mais do que suficiente."
"...Eu me sinto do mesmo jeito."
Eu estava começando uma vida secreta com minha meio-irmã, usando como desculpa o fato de ser apenas uma extensão do nosso vínculo como irmãos. Sinceramente, eu não sabia por quanto tempo conseguiríamos manter aquilo.
Por enquanto, eu ainda estava satisfeito apenas por poder abraçá-la. Mas, se meus sentimentos se tornassem mais fortes, eu não sabia até onde iria querer ir.
Saímos juntos do prédio do apartamento, e o vento frio do outono tocou nossos rostos. Ainda assim, eu me sentia aquecido até o fundo do peito. Mesmo sem casaco, não conseguia sentir o frio.
[Ayko: E assim encerramos o volume 4 de Gimai Seikatsu… e que volume hein? Tantas reviravoltas, e que desenvolvimento na autoconsciência dos personagens. Que venham mais como esse!]
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