Volume 4
Capítulo 11: 27 de Setembro (Domingo) - Yuuta Asamura
27 DE SETEMBRO (DOMINGO) — YUUTA ASAMURA
O calor do verão parecia estar fazendo um último e desesperado retorno. À medida que o sol subia no céu, a temperatura só aumentava, e quando cheguei ao cursinho, devia estar passando dos trinta graus.
Praticamente corri para dentro do prédio, fugindo do calor. As portas automáticas se fecharam atrás de mim, bloqueando o ar quente, e finalmente consegui respirar direito. Soltei um longo suspiro e segui pelo corredor.
Mais adiante, abri a porta com a placa SALA DE ESTUDOS. Cheguei quase no mesmo horário do dia anterior, mas, desta vez, o lugar estava lotado.
Virei-me e vi Fujinami sentada no mesmo lugar em que a encontrara no dia anterior. A cadeira ao lado dela, felizmente, estava vazia. Aproveitei a oportunidade e me sentei ali. Seus livros já estavam abertos, e ela estudava concentrada.
Sem dizer nada, abri meu caderno e o livro de exercícios e me preparei para enfrentar física — a matéria em que eu tinha tirado a pior nota nas provas finais. Para ser exato, setenta.
Não era que eu não tivesse entendido o conteúdo. Ou pelo menos era o que eu pensava. Se a prova refletia bem meu desempenho, aquilo significava que eu havia compreendido cerca de 70% da matéria. O problema era que eu tinha dificuldade em combinar fórmulas e fazer cálculos.
Os fenômenos estudados na física do ensino médio eram do tipo que apareciam com frequência em livros, então eu já conhecia a maioria deles antes mesmo de ter aula. Mas, quando se tratava de cálculos, se você não colocasse a mão na massa e resolvesse muitos exercícios, nunca ficaria mais rápido.
Enfim… “Determine o módulo da aceleração que atua sobre um objeto colocado em um plano inclinado liso”, é?
Isso vale para questões de qualquer matéria: a primeira coisa a fazer é ler o enunciado com atenção.
Por exemplo, “plano inclinado liso”. Geralmente isso quer dizer “um plano em que não é preciso considerar o atrito”. Na vida real, caixas de papelão em uma rampa raramente começam a deslizar sozinhas, porque o atrito com o chão é grande demais. Mas quase não vemos problemas tão práticos assim na física do ensino médio.
Fiquei imaginando como seria na faculdade e lembrei da conversa que tive com Ayase no dia anterior.
“Não é apenas um lugar onde dizem para você pensar — você precisa começar encontrando, por conta própria, algo sobre o que pensar.”
Será que ela quis dizer que, na faculdade, você pode criar seus próprios problemas para resolver? Por exemplo, eu poderia pensar no que aconteceria se houvesse atrito no plano. Ou se o plano não estivesse na Terra.
Isso parecia interessante.
Lembrei de um trecho de um romance de ficção científica que li certa vez, que descrevia como a gravidade na superfície da Lua é menor do que na Terra e, por isso, as gotas de água demorariam mais para escorrer pela pele de uma pessoa. Se isso for verdade, animar uma cena de banho na Lua seria bem mais complicado.
…Aceleração, hein? Aceleração. Hum…
Eu ouvia o som do lápis riscando o papel e de páginas sendo viradas na mesa ao meu lado. Quando eu terminava uma série de exercícios e virava a página, quase ao mesmo tempo ouvia outra página sendo virada ao meu lado, como se estivéssemos competindo. Uma estranha sensação de cumplicidade cresceu dentro de mim.
Por um tempo, permaneci ali na sala de estudos, totalmente concentrado nos exercícios ao lado de Fujinami.
Em determinado momento, ouvi um barulho ao meu lado. Sobressaltei-me e ergui o olhar. Fujinami estava de pé, olhando para mim. Sem dizer nada, pegou a bolsa e apontou para a porta.
O quê? Já?
Olhei o horário no celular. Já passava do meio-dia. Eu estava tão concentrado que nem tinha percebido que era hora do almoço.
Quando saímos para o corredor, Fujinami disse:
“Em vez de irmos à loja de conveniência hoje, que tal irmos a um restaurante?”
“Um restaurante?”
“Conheço um com preços razoáveis.”
“Tudo bem.” Pensei que talvez fosse bom comer fora de vez em quando.
“Sim, vamos.”
O calor nos envolveu assim que deixamos o prédio.
“Está quente demais lá fora”, comentei.
“Sim, mas o outono já chegou. Está na hora desse calor ir embora de vez.”
Conversamos sobre o tempo enquanto caminhávamos e, pouco depois, chegamos ao restaurante. Como Fujinami havia dito, era uma rede italiana acessível, bastante frequentada por estudantes.
Fomos conduzidos para dentro, onde o ar-condicionado estava no máximo, e levados a uma mesa junto à janela voltada para a rua. Sentamos um de frente para o outro.
Pedimos rapidamente, já que não tínhamos muito tempo. Eu escolhi carbonara; ela pediu espaguete ao peperoncino.
[Ayko: Notas culinárias do Ayko: Peperoncino é o termo que se refere a pimentas vermelhas picantes no Italiano! Bastante comum em molhos, geleias e acompanhamentos em massas.]
“Gosto de pedir algo apimentado e depois colocar bastante azeite por cima”, disse ela.
“Eu também gosto de comida picante, mas… estou morrendo de fome depois de tanto foco.”
“Sim, você demorou bastante para perceber.”
“Hã?”
“Fiquei te observando por um tempo… esperando você notar.”
Ela estava?
Eu achava que tinha ouvido quando ela se levantou. Mas talvez, na verdade, eu tivesse sentido o olhar dela sobre mim.
“Você podia ter falado.”
“Não queria distrair as pessoas ao nosso redor.”
“Então por que quis vir a um restaurante hoje?”
“Enquanto te observava, fiquei um pouco curiosa e quis ter uma conversa de verdade com você. Lá na sala de estudos tem gente demais, é difícil ser sincera. Ah, vou pegar água para nós. É self-service.”
“Eu vou.”
“Não, fique.”
“Posso pelo menos pegar a minha.”
Para evitar discussão, fomos os dois buscar água. Também pegamos guardanapos e voltamos para a mesa.
Demorou um pouco para a massa chegar.
Quando veio, Fujinami pegou o azeite e despejou uma boa quantidade sobre o prato. Depois moeu pimenta com o pequeno moedor rangente, enrolou o espaguete no garfo e começou a comer. Parecia acostumada com aquele ritual. Fiquei imaginando se vinha ali com frequência.
O que a deixara curiosa sobre mim? Eu tinha feito algo estranho?
Então percebi que, se eu queria manter essa nova relação, precisava fazer algum esforço também.
“Fujinami, você gosta de livros?”, perguntei.
“Você quer dizer se eu leio? Não me importo.”
Era uma forma estranha de responder.
“Quer dizer que… você não é muito entusiasmada?”
“Ah, não. Eu gosto de ler. É um passatempo com ótimo custo-benefício. Acho que já comentei que não tenho muitas condições financeiras, então é difícil fazer coisas que custam dinheiro.”
“Entendo…”
“Sabe aquele lugar de golfe? É barato ir nas noites de semana. Consigo praticar bastante pelo preço de dois livros de bolso.”
E, pelo jeito, ainda deixaria a família feliz se melhorasse suas habilidades.
“Que tipo de livros você lê, Asamura?”, ela perguntou.
“Bem… eu leio de tudo. Não sou muito exigente. Desde ficção popular até romances estrangeiros, ficção científica e light novels.”
“Light novels? Isso nem é exatamente um gênero, é?”
Não consegui evitar um sorriso. Pelo jeito, ela entendia do assunto.
“Você está certa. Light novels incluem ficção científica, mistério, dramas juvenis, histórias de guerra, até esportes… Não é um único gênero. Ouvi dizer que antigamente eram chamadas de ‘ficção juvenil’, antes de nascermos.”
“Sério?”
“‘Juvenil’ significa voltado para jovens, que é o público-alvo desses livros.”
Ou seja, o termo abrangia qualquer obra destinada a leitores jovens. Pelo que eu entendia, light novels eram leituras leves e acessíveis — embora houvesse opiniões divergentes.
“Você é bom em física porque gosta de ficção científica?”
“Eu não diria que sou bom… Na verdade, minhas notas não são tão altas.”
“Sério? Você estava resolvendo exercícios de física hoje de manhã, não? Pelo ritmo, achei que fosse muito bom.”
Isso me surpreendeu. Pelo jeito, ela tinha me observado de perto.
“Mas eu gosto da matéria.”
“Leu algo interessante recentemente?”
Pensei por alguns instantes e contei sobre um romance de ficção científica no qual eu tinha me interessado recentemente. Era a tradução de um best-seller mundial, e eu tinha ouvido dizer que até um ex-presidente dos Estados Unidos o havia lido. Isso, claro, não influenciava meu gosto. O que me fascinava eram as descrições da civilização alienígena — estranhas e empolgantes — que tornavam a leitura envolvente.
“Já vi esse na livraria”, disse ela.
“Mas é capa dura, e o preço é alto demais para mim…”
“Sim, é meio caro.”
Eu só tinha lido porque Yomiuri me recomendara. Caso contrário, talvez não tivesse gastado tanto. Um livro em capa dura pesa no bolso de um estudante do ensino médio, mesmo trabalhando meio período.
“Tem alguma recomendação mais barata?”
“Que tal aquele que virou filme recentemente? Tem edição de bolso. É sobre um gato que sai à procura do verão.”
“Ah, já li. Originalmente era um clássico de ficção científica estrangeiro, não era? Até eu sei disso. O gato era fofo. Vi um trecho do trailer. O gato era muito fofo.”
Ela repetiu. Será que gostava de gatos?
“Falando em gatos, tem também uma história em que um desaparece.”
“Ah, sim…”
Conversamos animadamente por um tempo sobre livros com gatos. Então lembrei que Yomiuri gostava de mistérios e tinha me falado de um romance com um gato detetive. Mencionei isso a Fujinami, e ela perguntou se era bom. Respondi que tinha lido um pouco e achado divertido.
Era sobre um gato muito inteligente que ajudava os humanos atrapalhados ao seu redor a resolver crimes com rapidez e habilidade. Como algo assim poderia ser entediante?
Fujinami pareceu interessada.
Tínhamos gostos parecidos e pensávamos de forma semelhante. Eu me sentia à vontade com ela — quase como quando conversava com Ayase.
Olhei pela janela e pensei: É bom conhecer pessoas novas.
E então a vi.
Ayase.
Ela estava sozinha com um garoto. Os dois estavam na sombra ao lado de uma loja de conveniência, tentando escapar do sol. Ela parecia estar se divertindo enquanto conversava com ele.
O que estava fazendo ali? E quem era aquele garoto?
Desviei o olhar instintivamente. Eles estavam um pouco afastados da janela, e era difícil distinguir o rosto dele. Mas tive a sensação de já tê-lo visto antes.
Lembrei que Ayase tinha dito que teria uma sessão de estudos naquele dia. O que estava acontecendo? Por que estavam só os dois? Onde estavam os outros colegas?
Suspirei. Então percebi o que estava fazendo e levantei a cabeça.
“Ah… desculpa. Sobre o que estávamos falando?”
“Não estávamos falando de nada agora.”
Droga… Que situação constrangedora.
Eu não podia simplesmente dizer que tinha visto Ayase lá fora e me distraído.
Tentei retomar a conversa.
“Ah, sim. Bem, é que…”
“Você não precisa se forçar a encontrar assunto. Na verdade, era isso que me deixava curiosa. É verdade que fui eu quem mencionou a sala de estudos quando nos encontramos no simulador de golfe. Mas quando te vi lá ontem…” Por um instante, ela pareceu hesitar. No fim, continuou. “...Você parecia estar fugindo de algo.”
Fugindo…?
Senti o peito se apertar.
“Foi isso que você pensou?”
“Sim.”
O olhar dela agora era diferente. Seus olhos castanho-escuros me encaravam como se pudessem enxergar direto na minha alma. Era como se eu estivesse passando por um raio-X ou uma ressonância magnética.
“Sua expressão era uma que eu conheço bem, e isso me deixou curiosa. Você estudava com afinco, dava para ver que é uma pessoa séria. Quando percebi que não estava tentando me paquerar, imaginei que estivesse tentando escapar de alguma coisa.”
“Será…?”
Eu não tinha consciência de estar fugindo. Mas, agora que ela dizia, não podia negar.
Achei que tinha dado um passo adiante e encontrado algo novo. Mas talvez estivesse andando para trás. E, se fosse verdade, eu estava sendo desrespeitoso com Fujinami — usando-a como fuga dos meus problemas.
“Desculpa”, murmurei.
“Não precisa se desculpar. Você ainda não fez nada de errado, e eu consigo entender como se sente.”
O que ela quis dizer com isso?
“Eu também já procurei outras pessoas como forma de escapar… Ah, posso pedir um pudim de sobremesa? O daqui é ótimo.”
Ela já tinha pegado o tablet eletrônico e feito o pedido.
“É meu único prazer na vida. Um dos poucos luxos que posso pagar com meu salário modesto. Eu deveria trazer almoço de casa todos os dias, mas, considerando o quanto fico cansada depois do trabalho, é importante dormir bem. E insistir em comer fora todos os dias acaba sendo menos pesado.”
Eu estava prestes a perguntar: “Menos pesado para quem?” Então me lembrei de algo.
No dia anterior, ela se referira aos pais como “aquelas pessoas”. Aquilo tinha me soado estranho e ficado na minha cabeça. Pela forma distante como falou, tive a impressão de que Fujinami não era muito próxima dos pais. Mas também não parecia odiá-los.
Ela parecia… quase tímida.

Aquilo me lembrou da forma como eu me sentia em relação à Akiko. “Aquelas pessoas”, como ela dizia, provavelmente ficariam felizes em preparar o almoço dela se pedisse — assim como Akiko fazia questão de estar presente tanto nas reuniões de Ayase quanto nas minhas. Mas Fujinami não queria que os pais fizessem isso por ela, apesar de não ter tempo para preparar o próprio almoço. Provavelmente era por isso que insistia em comer fora e tinha se tornado cliente frequente daquele restaurante.
O pudim dela chegou. Fujinami levou uma colherada à boca e semicerrrou os olhos como um gato satisfeito. Apesar do porte alto, naquele instante ela me lembrou um filhote.
“Mmm… Esse é o gosto da felicidade. E custa só 250 ienes.”
Ao que tudo indicava, ela levava mesmo a sério a ideia de fazer o dinheiro render.
Depois de terminar a sobremesa, endireitou-se na cadeira.
“Voltando ao assunto… Seu problema tem a ver com um relacionamento amoroso?”
Ela me encarou diretamente, tornando quase impossível mentir.
“Por que você—?”
“Por que eu acho isso? Bem, você me escolheu — uma garota — como sua rota de fuga. É um clichê as pessoas procurarem um novo relacionamento quando o atual fica difícil.”
“Mas isso implicaria que eu estivesse tentando te paquerar.”
“Exatamente. Se você tivesse consciência do que está fazendo, seria isso mesmo. Mas poucas pessoas percebem que estão fugindo. Afinal, entender isso só as deixaria mais deprimidas. Claro, agora que eu disse tudo isso, você ficou consciente, queira ou não.” Ela sorriu de leve, o que tornava suas palavras menos acusatórias e mais fáceis de engolir.
“Eu não sou exatamente uma pessoa gentil, sabia?”
Eu pensava em Ayase como alguém fria ao lidar com os outros, mas Fujinami estava em outro nível.
A franqueza de Ayase me lembrava a mim mesmo. Nenhum de nós esperava nada dos outros — especialmente de pessoas do sexo oposto. Não gostávamos de impor nossas opiniões, mas também não aceitávamos tudo passivamente.
Quando nos conhecemos, Ayase tentou avaliar meu caráter, e eu neguei todos os pontos que ela levantou. Em vez de se irritar, ela apenas sorriu e deixou passar. Foi ali que percebi que éramos parecidos.
Mas o sorriso de Fujinami era diferente.
Ela estava me condenando.
“...Para começo de conversa”, eu disse,
“Eu me apaixonei por alguém por quem não deveria.”
“Típico.”
“Cruel, não acha?”
“Sua expressão diz que é isso que você quer.”
Passei as mãos pelo rosto. Ela estava falando sério?
Fujinami me condenava. Me responsabilizava. Era como um cirurgião cravando o bisturi no paciente — como se dissesse: “É aqui que está o problema. E é isso que vou remover.”
Não que eu já tivesse visto uma cirurgia fora de dramas de TV. Mas a expressão dela parecia a de um cirurgião experiente, seguro de que a operação daria certo.
“Se eu insistir no que eu quero, vou ferir minha família. Eu deveria esquecer o que sinto… mas parece impossível…”
Continuei falando, mesmo sem ela ter perguntado.
“Você está bem envolvido, hein?”
Só consegui rir sem graça. Sim. Eu estava.
Fujinami continuou me encarando, braços cruzados.
“Hmm… Você tem tempo depois do cursinho hoje?”
“Eu trabalho.”
“Então nos encontramos depois do seu turno.”
“Tudo bem… Mas posso perguntar por quê?”
“Vamos dar uma volta pela cidade. Topa?”
Eu tinha acabado de fazer algo parecido com Yomiuri e não sabia se devia sair de novo tão cedo. Mas, no instante em que pensei em recusar, a imagem de Ayase conversando com aquele garoto surgiu na minha mente. Um incômodo subiu do peito à garganta e mudou minha decisão.
“Se precisar de uma desculpa…”, ela disse.
“Diga que está compensando por me usar como fuga.”
“...Colocando assim, acho que não posso recusar.”
“Então está decidido.”
Trocamos contatos e voltamos ao cursinho.
Já passava das nove quando saí do trabalho.
Mesmo àquela hora, Shibuya fervilhava. As luzes iluminavam tudo, e as sombras das pessoas dançavam no asfalto.
Combinamos de nos encontrar não em frente à famosa estátua do Hachiko, mas do outro lado da rua, na entrada da livraria onde eu trabalhava.
“Desculpa por fazer você esperar.”
Provavelmente ela não esperara muito, já que trocamos mensagens para acertar horário e local.
“Acabei de chegar também.”
“Para onde vamos?”
“Sem pressa, Asamura. A noite é uma criança.”
“Não vou virar a noite, hein?”, respondi, um pouco assustado. Ela riu. Era brincadeira.
“É aqui que você trabalha?”
“Sim. Você costuma vir aqui como cliente, não é?”
“Venho sim. Devia ter me contado que trabalhava aqui.”
Eu não escondi. Só não éramos próximos naquela época.
“Costumo passar aqui a caminho do trabalho, logo depois que abre.”
“Ah, então é por isso que nunca te vejo.”
Eu estaria na escola naquele horário.
“Vamos andar um pouco”, sugeriu.
“Não se preocupe, não vamos a nenhum lugar perigoso.”
“Ainda bem. Não sou muito confiante numa briga.”
“Gosto da sua honestidade.”
E começou a andar.
Voltamos em direção à estação, dando início ao “tour noturno de Shibuya por Kaho Fujinami”.
“Imagino que um estudante certinho como você frequente todos os karaokês da região.”
Karaokê é algo certinho? pensei.
“Na verdade… não vou com frequência.”
Eu ia com Maru a cada três meses — quando ele dizia que precisava praticar as aberturas de anime da temporada. Ele sempre decorava as músicas e queria que eu avaliasse sua performance. Cantava muito bem, aliás. Talvez por ser catcher do time de beisebol, tinha voz potente.
“Você é mesmo um aluno exemplar. Então que tal aquilo ali? Já foi?”, perguntou, apontando para um prédio iluminado.
“Um boliche?”
“Não é só boliche. Tem de tudo: boliche, sinuca, karaokê, pingue-pongue, fliperama…”
Em frente ao prédio, vi multidões entrando e saindo. Já tinha passado por ali muitas vezes, mas nunca entrado.
“É enorme.”
“Hoje é entretenimento familiar. Mas ouvi dizer que boliche e sinuca já foram considerados coisas de adulto. Houve um boom do boliche nos anos 70 e da sinuca na década seguinte.”
“Espera aí… Isso foi há meio século. Quem entrou nessa moda deve ser mais velho que meu pai.”
“Sim. Para nós, que nascemos no século XXI, é quase época dos nossos avós. Este prédio é novo, porém. E fica perto da estação. É bom lembrar dele. Fica aberto até o primeiro trem da manhã, caso você perca o último.”
“Vou lembrar.”
Embora eu normalmente fosse para casa a pé ou de bicicleta.
Seguimos contornando a estação e passando pelo Shibuya Hikarie. Eram 21h27. Restaurantes de sushi e curry estavam cheios.
Antes de meu pai se casar, eu costumava jantar por ali. Era familiar — e, ainda assim, Fujinami apontava lugares que eu nunca tinha notado.
“Como estudante, você não pode entrar em bares ou boates. Só podemos olhar por fora.”
“Não temos praticamente a mesma idade?”
“Mais ou menos. Mas ter a mesma idade não significa ter o mesmo nível de experiência.”
Soava como protagonista de história com múltiplas vidas passadas.
Entramos por um beco estreito.
“Quando você mora em Shibuya, quase esquece como a noite pode ser silenciosa. No interior, muitas áreas comerciais fecham às sete.”
“Você já esteve em lugares assim?”
“Você nunca sentiu vontade de ir para um lugar onde ninguém te conhece?”
Eu entendia. Mas, no máximo, já tinha ido a um parque de madrugada chutar uma lata vazia — e depois a joguei na lixeira correta.
“Não acho que você precise se culpar”, disse ela.
“Você não fez nada errado.”
“Talvez eu seja só um covarde.”
“Ter coragem para fazer algo imoral não ajuda em nada. Ah, aqui é um bom lugar para lembrar, se você gosta de livros.”
“O que é?”
“The Library.”
“O quê?”
“É o nome do lugar. Um bar onde você pode beber enquanto lê. Um refúgio para amantes de livros. Visite quando for maior de idade.”
“Você também é menor, não é?”
“Claro. Nunca entrei. Só sei que existe.”
Ela parecia saber muito sobre a noite dali.
Continuamos andando. Eu não sabia qual era o objetivo.
Então vi cenas que me deixaram desconfortável: um homem da idade do meu pai com uma garota jovem demais; um executivo caído no chão; uma mulher vomitando.
“Parecem todos fracassados, não?”, disse Fujinami.
“Mas até eles têm um lado sério.”
“Meu pai também costumava passar em bares antes de ir para casa.”
Ela começou a falar sobre certo e errado — sobre como, dependendo da situação, ninguém é absolutamente “certo”.
[Ayko: Tratar de certo e errado é um assunto delicado, Trazer uma situação como verdade absoluta tomada pelas conclusões de uma pessoa em unidade é irreal. Nossas experiências como pessoa, crenças, e outros fatores sociais como criação interferem nessa distinção. Como disseram após Sócrates, se outrora houve uma verdade absoluta, a mesma já se perdeu em sua essência.]
“Quando eu estava no ginásio…”, ela disse, olhando para uma garota que entrava num beco.
“Eu andava com um grupo de fracassados.”
Meu mundo pareceu inclinar.
Ela não estava me mostrando pontos turísticos. Estava me mostrando pessoas.
“Você cresceu sem esperar nada dos outros — especialmente das mulheres — não foi?”, ela disse.
Arregalei os olhos.
“Você observa tudo com neutralidade. Isso pode ser sua força. Mas, dependendo do motivo, também é sua fraqueza.”
Ela falou então sobre o passado.
Seus pais morreram num acidente quando ela entrou no ginásio. Em vez de compaixão, recebeu frieza. Foi morar com uma tia que a tratava com desprezo.
“Eu não fiquei com raiva. Só senti resignação.”
Ela parou de esperar algo das pessoas. Fugiu de casa. Enfraqueceu. Faltava às aulas.
Eu comecei a contar um pouco do meu passado também.
Perto da meia-noite, ela olhou para o céu.
“Droga. Hoje era a lua do meio do outono.”
As nuvens se abriram, revelando a lua cheia.
“Ela vai subir mais agora”, eu disse.
“Falando como um amante da física.”
“Mais astronomia.”
Ela então disse:
“Você diz que não espera nada das mulheres, mas acho que isso é mentira.”
Fiquei sem resposta.
Ela contou que fora adotada por uma mulher que lhe disse: “Você precisa aprender a estar em paz consigo mesma.”
Estar em paz significava não sufocar os sentimentos.
“Sentimentos não desaparecem”, disse ela.
“Eu achava que os meus tinham sumido. Mas estavam me guiando o tempo todo.”
A lua voltou a se esconder.
“A capacidade de olhar os outros sem preconceitos é rara”, ela continuou.
“Mas neutralidade não é ausência de expectativa. Somos humanos. E humanos sempre esperam algo.”
Eu me lembrei das palavras de Ayase quando nos conhecemos:
“Eu não vou esperar nada de você, e não quero que espere nada de mim.”
Na época, fiquei aliviado.
Mas… será que era verdade?
“Se alguém é realmente neutro, não precisa dizer a si mesmo que não espera nada das mulheres”, disse Fujinami.
“Insistir nisso só prova o contrário.”
Eu não consegui retrucar.
“Desculpa por deixar a conversa tão pesada. Você é do tipo que coloca as necessidades dos outros acima das suas, não é? Deixa o senso comum e a ética guiarem cada passo.”
“Acho que ter senso comum é algo bom.”
“Está vendo? É disso que falo. Você é mesmo um caso perdido.”
Ela disse que, por mais que tentemos nos convencer de que não esperamos nada, continuamos esperando. E quando essas expectativas não são atendidas, dói.
“E então você culpa a outra pessoa por ter criado expectativas”, completou.
“Mas isso não é egoísta?”
“Emoções humanas são egoístas.”
Era por isso que eu precisava ser honesto com meus sentimentos.
Depois disso, ela acenou e se despediu.
Fiquei parado sob o poste apagado, observando-a se afastar.
Não consegui contradizê-la.
Meu silêncio foi minha resposta.
Mesmo de madrugada, Shibuya continuava pulsando.
E eu permaneci ali, imóvel.
Tive a impressão de que a lua estava rindo de mim.
[Ayko: Que capítulo incrível. Fujinami é uma personagem que me surpreendeu muito. Em muitas partes, concordo. Seres humanos são seres de convivência social, e por consequência, dependem de outros seres humanos para muita coisa. O sentimentalismo humano é em tese algo egoísta pois nos leva a gerar expectativa de resposta condizente ao que sentimos. Essa idealização quebra, apaga o senso de que a quebra de expectativa ainda é possível, e a queda é sempre maior quando não se está consciente.
Que venha o próximo capítulo!]
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