Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 3

Capítulo 6: 27 de Agosto (Quinta-feira)

27 DE AGOSTO (QUINTA-FEIRA)

Observei a paisagem passar sob um céu azul enquanto o trem balançava sob meus pés.

Fazia tempo que eu não andava em um desses.

Nascido e criado em Shibuya, eu havia levado uma vida reclusa e introvertida e quase nunca usava trens. Tudo o que eu precisava na vida eram mangás e livros. Para alguém como eu, Shibuya era um paraíso. Mesmo hoje em dia, quando livrarias praticamente desapareceram das cidades menores, Shibuya ainda contava com várias lojas grandes em funcionamento.

Eu conseguia matar o tempo nos dias de folga indo de uma livraria a outra, então não havia necessidade de viajar para muito longe.

E, ainda assim, lá estava eu, num trem, só para ir a uma piscina.

O vagão não estava muito cheio. Restavam apenas cinco dias de férias de verão, incluindo aquele, e a maioria das pessoas já tinha parado de sair para passeios e começado a se preocupar com o pouco tempo que ainda tinham para aproveitar a liberdade.

Olhei para o celular e conferi o horário: nove e dezoito. Eu tinha tempo de sobra para chegar à Estação Shinjuku antes do nosso encontro das nove e meia. Depois de nos reunirmos, pegaríamos um trem direto por meia hora e, em seguida, um ônibus por mais trinta minutos. Nosso destino parecia inesperadamente distante.

Eu já começava a me arrepender de ter aceitado ir.

Vamos lá, Yuuta, eu disse a mim mesmo. Você não pode simplesmente abandonar a Ayase, dar meia-volta e fugir.

Ayase havia sugerido que chegássemos ao ponto de encontro separadamente e tinha saído de casa mais de quinze minutos antes de mim.

Como nos comportávamos como estranhos na escola, ela não via sentido em contar a verdade para os colegas agora.

A Narasaka sabia, no entanto, e nenhum de nós pediu que ela mantivesse segredo. Mesmo que ela contasse aos outros, isso não causaria exatamente um problema.

Que descobrissem, então. Não era como se estivéssemos fazendo algo errado.

Fiquei observando a paisagem distraidamente, perdido em pensamentos, até ouvir o nome da estação que eu aguardava ser anunciado.

As portas se abriram com um sopro, como se o trem soltasse o ar acumulado, e eu desci na plataforma.

Depois de passar pela catraca, vi um grupo de cerca de dez pessoas. Eram mais ou menos cinco garotos e cinco garotas, todos usando o uniforme do Colégio Suisei. Eles até estavam com mochilas, como se fosse uma excursão escolar.

   "Que estranho" murmurei.

Eu também estava de uniforme. A Narasaka tinha me mandado mensagem dizendo para eu não esquecer de levar o uniforme e a carteirinha de estudante. Talvez a ideia fosse conseguir desconto estudantil, mas não bastaria mostrar a identificação da escola?

Apesar dessas dúvidas persistentes, achei melhor usar o uniforme do que vestir outra coisa e acabar chamando atenção, então decidi simplesmente seguir o fluxo.

Olhando ao redor, reconheci alguns dos estudantes.

   "Ali está ela…"

Ayase, também de uniforme, estava um pouco afastada do grupo. Ao me ver, soltou um pequeno suspiro de alívio. Ela também não tinha muitos amigos e, pelo que eu sabia, Narasaka era a única colega da turma com quem ela era próxima.

Narasaka, por outro lado, conversava animadamente no centro do grupo. Como era de se esperar da maior comunicadora do Colégio Suisei — pelo menos na minha opinião. Ela percebeu minha chegada e ficou na ponta dos pés para acenar na minha direção.

Ver aquele corpinho pequeno se esticando ao máximo me fez pensar num cão-da-pradaria. Ela era fofa do jeito que animais pequenos costumam ser, e imaginei que essa fosse a razão de sua popularidade entre os garotos.

   "Asamura! Bom dia, boa tarde e boa noite!"

   "Acho que só bom dia já basta."

   "É assim que se cumprimenta as pessoas na indústria."

   "Que indústria?"

   "A indústria do Colégio Suisei."

   "Ah… entendi. Acho."

Então o ensino médio era uma indústria. Para ser sincero, eu não entendia muito bem.

Todos fizeram apresentações rápidas, tomando cuidado para não atrapalhar o fluxo de pessoas que saíam pelas catracas. As apresentações em si foram curtas, mas demoraram uma eternidade porque Narasaka fazia algum comentário provocador toda vez que alguém dizia o próprio nome.

   "Eu sou Yuuta Asamura… prazer."

   "Esse é o Asamura! Ele parece quieto, mas a popularidade dele está crescendo secretamente!"

   "Como alguém pode ser popular em segredo? Isso não é um paradoxo?!", rebateu um dos garotos, entrando na brincadeira.

   "O que eu quero dizer é que agora é a hora de virar amigo dele!"

O grupo riu. Será que era esse o estilo da Narasaka, quebrar o gelo com piadas?

   "Né, Asamura?!", ela disse.

   "Tem muita coisa errada nisso, mas… tanto faz."

   "Muito prazer, Asamura!"

Um garoto grande, de pele bem bronzeada, apertou minha mão de repente. Ele parecia fazer parte do time de rúgbi ou algo do tipo.

Fiquei paralisado por um instante — não por causa do tamanho dele, mas porque tínhamos acabado de nos conhecer e ele já me tratava como um velho amigo. Esse era o efeito que a Narasaka tinha nas pessoas?

   "O prazer é meu…"
Respondi, apertando a mão dele de volta, embora aquela simpatia toda me deixasse um pouco desconfortável. Ele parecia um extrovertido amante de esportes, cheio de amigos — o completo oposto de mim.

Forcei um sorriso de volta para não estragar o clima, mas me sentia totalmente deslocado.

Mesmo assim, eu queria que Ayase se divertisse e se sentisse renovada, então decidi fazer o possível para me enturmar.

As apresentações continuaram, e Narasaka comentava cada uma delas. Com alguns, fazia trocadilhos; com outros, bancava a boba de um jeito que destacava o nome ou as características da pessoa. Até eu, que nunca fui muito bom em memorizar nomes, acabei aprendendo vários, junto com um pouco da personalidade de cada um. Então era por isso que ela fazia isso. Maaya Narasaka era mesmo impressionante.

   "Eu sou Saki Ayase."

   "Acho que todo mundo já conhece a Saki… Não se preocupem, ela não é tão assustadora quanto parece. Ela não morde."

   "Oi."

   "Chamem ela de Ayassie!"

O que isso queria dizer? Parecia nome de mascote regional.

   "Por favor, só me chamem de Ayase", disse ela, sem acompanhar a empolgação da Narasaka.

Ela não ficou irritada, no entanto. Consegui até perceber um leve sorriso em seu rosto, o que pareceu surpreender algumas das outras garotas. Elas deviam realmente achar que Ayase era assustadora.

Então um dos estudantes fez uma pergunta bastante lógica.

   "Ei, Narasaka, por que todo mundo está de uniforme?"

   "Já falei. A gente quer os descontos de estudante."

   "Mas não dava pra só mostrar a carteirinha?"

   "Essa é a justificativa oficial. Pensem bem! Até os pais mais rígidos deixam os filhos saírem se eles estiverem de uniforme."

   "Não entendi."

   "Não esquenta com bobagem, dá muito trabalho. Além disso, temos que aproveitar esses uniformes enquanto ainda podemos. Não se preocupe com isso e só se divirta."

[Ayko: Narasaka é uma borboleta social, mas é bem observadora… né não?]

A pessoa que perguntou não parecia convencida, mas recuou, sem querer prolongar o assunto.

Essa breve troca me convenceu de uma coisa: Narasaka prestava atenção a detalhes muito mais do que eu imaginava.

Provavelmente havia pelo menos um estudante ali com pais rigorosos, que não o deixariam sair para se divertir a menos que mentisse dizendo que tinha alguma atividade escolar. Essa pessoa deve ter contado isso à Narasaka antes, e ela organizou tudo para que todos viessem de uniforme, evitando que alguém se destacasse. Claro, tudo isso era pura especulação da minha parte.

Olhei novamente para o grupo. Eu não tinha ideia de quem poderia ter feito o pedido.

Provavelmente só a Narasaka sabia, e ninguém conseguiria perceber, já que ela não fazia nada que traísse o segredo. Qualquer insatisfação com essa regra misteriosa acabava recaindo apenas sobre ela — e não virava um problema porque ela criava facilmente uma atmosfera em que sugestões estranhas eram facilmente ignoradas.

Mais uma vez, as habilidades sociais da Maaya Narasaka se mostraram de outro nível.

   "Então, vamos nessa!", ela gritou.

Sem que ninguém percebesse suas manobras de alto nível, Narasaka tomou a dianteira e começou a caminhar animadamente em direção às catracas da estação.

Era o início de uma experiência memorável de verão — uma excursão liderada pela professora Narasaka, nossa guia do dia.

Embarcamos no próximo trem e seguimos para oeste, saindo de Shinjuku.

Em cerca de metade do caminho até o destino, os arranha-céus começaram a desaparecer da paisagem, e as janelas se encheram de céu azul.

Ir para oeste a partir do centro da cidade significava nos afastarmos da Baía de Tóquio, e achei estranho estarmos indo para longe da água para nadar. Mas talvez houvesse mais piscinas no interior justamente por não ficarem tão perto do mar.

Narasaka havia reunido dez pessoas, contando Ayase e eu — cinco garotos e cinco garotas. Eu estava conhecendo sete delas pela primeira vez.

Surpreendentemente, não tive dificuldade para conversar com o grupo no trem. Eu tinha receio de não encontrar assuntos para puxar conversa, mas não foi o caso.

Talvez a verdadeira marca de boas habilidades sociais fosse a capacidade de se ajustar ao ritmo do outro, mesmo quando a pessoa era introvertida ou tinha dificuldade para conversar.

   "Então você trabalha meio período numa livraria, Asamura?", alguém perguntou.

   "Sim."

   "Ganha bem?"

   "Não sei… nunca trabalhei em outro lugar."

   "Mesmo assim, é impressionante. Trabalhando o verão inteiro e ainda fazendo aulas de verão. Uau!"

   "Pois é", alguém comentou.
   "Eu passei o verão inteiro dormindo!"

   "Ah, não é nada demais…", respondi.

Eu ainda não era bom nesse tipo de conversa fiada.

Eu podia falar por horas sobre meus livros favoritos. Mas isso não era exatamente uma conversa se só eu falasse sem parar. Ainda assim, achava difícil trocar informações sem antes estabelecer um tema.

De qualquer forma, consegui sobreviver a todo o papo trivial e, depois de meia hora de trem e mais trinta minutos de ônibus, chegamos ao portão de entrada do complexo de piscinas.

O calor era intenso e, assim que descemos do ônibus, uma onda de ar quente nos envolveu, me deixando tonto. A diferença de temperatura entre o ônibus com ar-condicionado e o exterior era grande demais. As linhas brancas no asfalto refletiam a luz do sol, quase me cegando.

   "É aqui?"
Eu disse, olhando para o enorme prédio à nossa frente.

As únicas piscinas que eu conhecia eram a da escola e a do centro comunitário do bairro. Aquela estrutura gigantesca parecia mais um resort de águas termais ou algo do tipo.

   "Aqui é a entrada", explicou Narasaka.
   "Tem uma piscina interna enorme sob um teto transparente e uma piscina externa do outro lado. Dá pra ver um pedaço daqui."

   "Oh… um escorregador."

   "Chama de toboágua, pelo menos! Vamos lá, Asamura, entra no clima!"

   "Não acho que o clima tenha muito a ver com isso."

   "O que as pessoas iam pensar se alunos do ensino médio como a gente voltassem pra casa dizendo que passaram o dia inteiro brincando num escorregador?!"

   "Não iam achar que a gente… brincou num escorregador?"

Narasaka se virou para Ayase e para a garota ao lado dela.

   "Saki. Yumi. Falem alguma coisa!"

   "É um pouco grande demais para chamar só de escorregador", disse Ayase.
   "Então acho mais preciso dizer que é um escorregador muito grande com água passando por cima."

Nesse ponto, Ayase estava apenas descrevendo o objeto.

Yumi Tabata arregalou os olhos. Eu lembrava do nome dela porque era igual ao de uma estação da Linha Yamanote, como Narasaka mencionara na apresentação.

   "Eu não fazia ideia de que você fazia piadas, Ayase."

   "Piadas… ah, é."

Ayase não estava fazendo piada alguma. Ela só dizia exatamente o que pensava.

   "E ainda tem um parque de diversões atrás da piscina externa", continuou Narasaka.

   "Ei, Asamura, é a sua primeira vez num lugar assim?"

   "É… acho que sim."

Não era que eu desgostasse de parques de diversão ou zoológicos. Na verdade, eu gostava bastante. O que eu não gostava era de ter que acompanhar o ritmo de outra pessoa em atrações, feiras ou festivais. Eu preferia muito mais visitá-los sozinho.

Talvez fosse isso que me tornasse um introvertido, mas cada um tem seu próprio ritmo. Por que todo mundo parecia tão ansioso para correr de um lado para o outro como se estivesse sendo perseguido?

   "Hoje, vamos focar na piscina interna!"

   "Ah, certo."

Era o que constava no cronograma que Narasaka havia enviado.

Compramos os ingressos na entrada e entramos. Troquei de roupa no vestiário masculino e vesti a sunga novinha que havia comprado no dia anterior.

Eu não estava particularmente envergonhado — não era diferente de trocar de roupa para a educação física na escola. Mas a chave do armário me preocupava. Ela ficava presa a uma pulseira elástica, que você devia usar no pulso e levar para a piscina. E se ela soltasse e fosse levada pela água? Será que ninguém mais se preocupava com isso? Ou eu estava pensando demais?

De qualquer forma, depois de trocar de roupa, segui para o prédio da piscina.

Ao entrar, fiquei boquiaberto.

Era como uma enorme estufa. E aquilo ao redor da piscina não parecia plástico transparente. Devia ser vidro ou talvez acrílico.

A piscina era gigantesca. Caberiam vários ginásios da nossa escola ali dentro, embora eu não soubesse dizer quantos exatamente. Uma piscina rasa enorme ocupava cerca de um terço da área, equipada com uma máquina de ondas que fazia a água se mover de um lado para o outro. Havia um toboágua, claro — ou melhor, um toboágua de verdade — além de vários outros equipamentos cuja função eu não conseguia entender.

O ambiente tinha aquele cheiro característico de piscina, diferente do mar.

[Ayko: O nostálgico cheiro de cloro e protetor solar]

Havia bastante gente, mas não tanta quanto eu havia imaginado. Para um dia de semana, no fim das férias de verão, fazia sentido. Fiquei aliviado por não estar lotado.

Encontrei as garotas. Dava para perceber que as cinco estavam usando maiôs novinhos em folha. Lembrei do que Ayase havia dito no dia anterior. Acho que garotas realmente prestam atenção nesse tipo de coisa. Enquanto isso, eu só pensava em comprar roupas novas quando ficava sem o que vestir.

Narasaka usava um biquíni que deixava muita pele à mostra. A cor amarelo-limão combinava com sua personalidade vibrante. Mas talvez por seus trejeitos e por ser um pouco baixa, não parecia tão sexy quanto se poderia imaginar. Era mais fofa do que sensual.

Em contraste, o maiô de Ayase era um biquíni estilo regata. Os ombros estavam à mostra, mas não havia espaço entre a parte de cima e a de baixo, que eram presas por amarrações.

Talvez por causa do calor, Ayase gostasse de deixar os ombros descobertos. Eu os via quase todos os dias e, ainda assim, meu coração disparou quando a vi de maiô. Não era exatamente algo completamente diferente do que eu já conhecia, mas eu tinha plena consciência de que se tratava de um tipo de roupa totalmente distinto.

"Uau!", os garotos gritaram em uníssono ao verem as garotas.

Eu não tinha muito interesse nesse tipo de coisa, mas até eu conseguia perceber que os olhares mais intensos estavam voltados para Ayase.

A silhueta dela era completamente diferente das outras. A cintura era alta, e as pernas, longas e esguias. Tudo isso ficava evidente apesar do traje discreto. Ouvi alguns assobios contidos e senti uma emoção estranha crescer dentro de mim, difícil de definir.

O que diabos eu estava sentindo?

   "Olha a Ayase. Uau! Ei, Asamura, você não acha?"

   "Não sei se é… apropriado falar dela de um jeito tão vulgar", respondi por reflexo.

Hoje em dia, era melhor tomar cuidado com o que se dizia. Se fosse descuidado, alguém poderia facilmente te acusar de assédio. Essa era parte do motivo, mas havia algo mais. A sensação vaga e desagradável que brotava dentro de mim também teve grande peso.

Mas parecia que ninguém mais concordava comigo.

   "Ah, para com isso. Qualquer cara ia olhar, né?"

   "Não adianta resistir!"

Eles continuaram falando sem parar. Eu não sabia se percebiam o quanto aquilo me incomodava. Mas, justo quando eu estava prestes a repreendê-los, Narasaka se intrometeu.

Com a mão esquerda apoiada na cintura, ela apontou para nós com a outra.
  "Ok, vocês aí! O Asamura está certo! Vou esmagar os olhos de vocês e deixá-los cegos se continuarem olhando para a gente com essas caras nojentas!"

Narasaka ergueu os dedos médio e indicador, indicando que estava pronta para atacar. Ela parecia bem intimidadora.

De qualquer forma, conseguiu calar os garotos. Eles também pareciam ter notado os olhares frios das garotas, que agora os encaravam sem disfarçar.

Eu também era um garoto adolescente comum. Podia até ser introvertido, mas entendia como eles se sentiam. Ainda assim, hoje em dia era preciso lembrar de não dizer esse tipo de coisa na frente das garotas. Não que eu tivesse muita confiança na nobreza do meu próprio comentário impulsivo e meio desajeitado.

Senti o olhar de alguém sobre mim e me virei a tempo de ver Ayase desviar o rosto. Será que ela estava… me observando? Não havia como saber ao certo. Logo em seguida, ela foi até as outras garotas e se misturou a elas.

   "Ok, pessoal, vamos nos recompor e nos divertir!", declarou Narasaka com energia, trazendo calor de volta à atmosfera que tinha ficado gelada.
   "Vamos dar uma volta e aproveitar tudo até a hora do almoço! Vamos começar por aquele escorregador gigante!"

Ela apontou para o toboágua.

…Então agora estava tudo bem chamar de escorregador?

De acordo com o documento que Narasaka havia enviado, intitulado Vamos Criar Memórias de Verão! — Cronograma, passaríamos a manhã inteira explorando todas as atrações.

Começamos pelo toboágua. Era pequeno se comparado ao que tínhamos visto do lado de fora, logo na entrada, mas ainda assim tinha dois andares de altura e era bastante empolgante. Em seguida, atravessamos uma cachoeira artificial e nos perdemos em um labirinto, comemorando de vez em quando cada atração concluída.

Lembrei-me do cronograma que Narasaka havia elaborado e fiquei impressionado com o nível de atenção aos detalhes. Aquele tipo de atração praticamente garantia diversão. Em outras palavras, oferecia um nível sólido de entretenimento para qualquer um que participasse.

As dez pessoas que tinham vindo naquele dia mal se conheciam. O fato de todos estarem se encontrando pela primeira vez impedia que grupinhos já formados se fechassem entre si e acabassem excluindo os outros. Ayase e eu éramos um pouco diferentes nesse ponto, claro — nós já nos conhecíamos.

Mesmo estudando na mesma escola, não havia como dez alunos de turmas diferentes se tornarem amigos de repente. Além disso, Narasaka conhecia um grupo bastante variado: pessoas esportistas, outras interessadas em artes e cultura, colegas de comissões escolares e gente com hobbies parecidos. Qualquer conversa que fosse além de comentários superficiais seria difícil, já que não tínhamos quase nada em comum.

Mas Narasaka certamente havia pensado nisso. A solução dela foi fazer com que todos visitassem primeiro as atrações, que eram garantidamente divertidas, em grupo. Assim, todos se sentiriam à vontade, e a experiência em si se tornaria um assunto compartilhado. Isso garantiria um bom clima na hora do almoço.

Era por isso que ela havia nos feito andar pelo parque pela manhã e deixado seus próprios eventos para a parte da tarde. Parecia que Narasaka tinha algumas ideias guardadas para depois, envolvendo meninos e meninas brincando juntos.

Esse tipo de planejamento pode parecer simples, mas não é. Quando você organiza um evento, tende a achar que aquilo que planejou é mais interessante do que qualquer outra coisa. Mas Narasaka havia colocado tudo isso propositalmente mais para o fim. Se todo mundo ficasse empolgado demais ou se algo desse errado e o tempo acabasse, aquelas atividades poderiam simplesmente ser cortadas. Isso inclusive estava escrito no cronograma. Só alguém que pensa primeiro nos participantes, e não apenas no que quer fazer, conseguiria planejar assim.

Decidimos almoçar um pouco depois do meio-dia, quando surgiu um bom espaço livre na praça de alimentação. Dava para perceber que os outros estavam se divertindo, comentando sobre tudo o que tínhamos feito naquela manhã. O plano de Narasaka tinha sido um sucesso absoluto.

Quanto a mim, fiquei feliz em ver Ayase rindo junto das outras garotas.

Depois de comer, descansamos um pouco e decidimos ir para a piscina grande e rasa.

Talvez por ser um dia de semana, já no fim das férias de verão, não havia muita gente ali, e conseguimos nos divertir juntos, em grupo, no meio das ondas artificiais.

Diferente da praia, não dava para jogar vôlei nem construir coisas na areia. Isso limitava um pouco as opções, mas Narasaka havia listado várias atividades possíveis em seu cronograma.

   "Agora, pessoal, vamos jogar Othello com pranchas de natação!"

   "Tá bom!"

Todos responderam animados, como se tivéssemos voltado ao ensino fundamental. Até Ayase abriu bem a boca para concordar, embora o tom dela fosse um pouco mais baixo e contido que o dos outros. Ri por dentro. Soou quase como um gemido de reclamação.

Não sei se “Othello com pranchas” era o nome oficial do jogo ou se tinha sido uma criação original da Maaya Narasaka, mas as regras eram simples. Cada um recebia uma prancha com cores diferentes em cada lado. Felizmente, a piscina tinha várias disponíveis. Colocávamos as pranchas para flutuar na superfície da água, metade com um lado virado para cima e a outra metade invertida, e então nos dividíamos em dois grupos.

   "Vamos formar os times com um rápido jogo de pedra, papel e tesoura", disse Narasaka.
   "Quem ganhar vem para cá, quem perder fica daquele lado."

Ficamos cinco contra cinco. Os vencedores formaram o time de “cima”, e os perdedores, o de “baixo”. Por pura coincidência, Ayase e eu acabamos no mesmo time. Narasaka ficou no time adversário.

   "Vou ajustar o cronômetro agora. Temos três minutos", explicou ela.
  "O time de cima vence se houver mais pranchas com o lado de cima virado para cima. O time de baixo vence se for o contrário."

   "Certo."

   "Entendido!"

   "Vocês não podem agarrar as pranchas", continuou ela.
   "Elas precisam estar flutuando, e só vale bater nas extremidades para virá-las. Mas vocês podem empurrá-las para longe, impedindo que o adversário as alcance. Assim."

 Ela empurrou uma prancha, fazendo-a se afastar. 

   "Tudo claro?"

   "Sim!"

   "Gente! Nada de trapacear!", alertou Tabata.

   "Claro que não. Você não confia na gente?", respondeu um garoto, emburrado. O nome dele era Myoujin, se não me engano.

Narasaka ajustou o cronômetro em seu smartphone, que estava dentro de uma capa à prova d’água. Em seguida, declarou o início do jogo, e começamos a competir na beira da piscina.

Era mais difícil do que eu esperava. Será que esse jogo realmente tinha sido pensado para uma piscina com máquina de ondas? As pranchas ficavam se afastando sozinhas, mesmo quando ninguém mexia nelas. E como não podíamos segurá-las, alguém precisava ficar empurrando para que permanecessem na nossa área.

[Ayko: Aproveitando o gancho do Yuuta, originalmente, Othello é jogado em um tabuleiro, normalmente não dentro da piscina]

 

Com o tempo, nos dividimos entre quem esperava as pranchas se afastarem para empurrá-las de volta e quem ficava responsável por virá-las. Dá para dizer que nos adaptamos ao ambiente.

Depois de um tempo, uma musiquinha animada soou do celular de Narasaka. Os três minutos tinham acabado.

   "Ok, parem! Nada mais de virar as pranchas!"

Todo mundo congelou.

O time de Ayase e o meu venceu por seis a quatro. Os vencedores comemoraram, e os perdedores espirraram água em frustração. Todos tinham competido pra valer, e estávamos ofegantes.

   "Ok, pessoal. Vamos para mais uma rodada!", disse Narasaka depois de reiniciar o cronômetro.

Todos começaram a discutir animadamente sobre como vencer a próxima partida.

Por sinal… embora ninguém mais parecesse ter notado, o som do cronômetro de Narasaka era uma música que eu reconhecia. Era a abertura de um anime. Eu sabia porque tinha assistido na temporada passada, por recomendação do Maru. Então Narasaka também gostava de anime. Ela realmente tinha interesses bem variados.

Perdemos a segunda rodada.

Nem Ayase nem eu éramos muito ligados a exercícios físicos, e nossos corpos não aguentaram. Com dois dos cinco jogadores praticamente inúteis, não tivemos chance contra os mais ativos e os membros de times esportivos do outro lado.

   "Ok, isso encerra a atividade!", anunciou Narasaka.
   "Vamos fazer uma pausa, e depois vocês estão livres para fazer o que quiserem! Voltem aqui às quatro horas, e começamos a arrumar tudo!"

Depois disso, desabei à beira da piscina.

Caramba. Eu devia ter usado vários músculos que normalmente não usava, porque estava tão cansado que não queria dar mais um passo sequer. Queria me deitar ali mesmo.

Não tive energia para acompanhar o grupo animado que saiu correndo, dizendo que iria dar mais uma volta pelas atrações. Enquanto eu ficava ali, sem fazer nada, Ayase se aproximou.

Me forcei a me sentar quando ela se inclinou para olhar meu rosto. Ela parecia um pouco preocupada.

   "Você está bem?", perguntou.

   "Sim. Só cansado. Fico impressionado com todo mundo aqui. Eles têm muita resistência e reflexos excelentes."

Havia algumas garotas que tinham sido o centro das atenções o dia todo. Suspeitava que esse grupo saía bastante para fazer coisas juntos. Eu era mais caseiro, então quase não tinha tido chance de me destacar. Não que eu realmente ligasse para isso.

   "Mesmo assim, você foi bem legal agora há pouco."

   "Hã?"

As palavras de Ayase me pegaram completamente de surpresa.

   "Aquele jogo com as pranchas. Você ficou empurrando elas de volta para a nossa área o tempo todo, sem desistir."

   "Ah, aquilo."

Eu precisava fazer isso, senão o jogo simplesmente não funcionaria. E, quando os outros perceberam, mais gente começou a ajudar.

Ayase balançou a cabeça devagar.
  "Mas você foi o primeiro a pensar nisso. Você deixou a parte mais divertida, virar as pranchas, para os outros."

Fiquei sem reação. Não achei que alguém tivesse notado.

Quando as pranchas vinham flutuando na minha direção, se o lado de cima estivesse para cima, bastava empurrá-las de volta para os meus companheiros. O problema era quando o lado de baixo estava virado para cima. O mais eficiente seria bater nelas e virá-las antes de empurrar. Afinal, era disso que o jogo se tratava. Mas, quando havia um colega por perto, eu dizia "é com você" e deixava que ele fizesse isso.

Por que eu fazia isso? Porque essa era a parte divertida, exatamente como Ayase disse.

Eu poderia ter ficado virando todas as pranchas que vinham na minha direção, mas isso não teria sido divertido para os outros. Era um jogo em equipe, afinal.

   "Bom, para ser sincero, eu só não queria chamar atenção demais e acabar estragando tudo."

Isso também era verdade, ao menos em parte.

   "Sério? Bem, eu não me importo com os motivos. Só quis te elogiar. Achei isso legal. Só isso. Você parecia um contra-regra, alguém que passa o tempo todo fazendo os atores brilharem."

   "Alguém assim é legal?"

   "Acho que depende da pessoa."

   "Hm… acho que sim, mas ouvir isso diretamente dá um pouco de vergonha."

Vi os cantos dos lábios de Ayase se levantarem levemente.

Não era o sorriso educado que ela mostrava para o meu pai, nem a expressão distante que eu via em casa. Se tivesse que definir, era um sorriso inocente, parecido com o da foto dela quando criança.

Ah, ainda bem que eu me esforcei para vir.

O que eu sentia não era uma satisfação arrogante por ter evitado que Ayase tivesse um colapso.

Não. Eu estava feliz porque, se tivesse mantido distância como disse que faria, nunca teria visto aquele sorriso. Senti uma espécie de superioridade boba, por saber que eu era o único a vê-lo naquele momento. Eu tinha feito aquilo por mim, e apenas por mim.

   "Era só isso que eu queria dizer", disse Ayase, levantando-se. Virei-me para olhá-la enquanto ela se erguia.
   "Bom, vou indo."

O maiô dela ainda estava molhado, num tom mais escuro do que quando estava seco. Algumas gotas de água permaneciam na pouca pele exposta, refletindo a luz. Ela sacudiu a cabeça, espalhando-as ao redor.

   "Acho que vou nadar mais um pouco!"
Ela entrelaçou as mãos, levantou os braços acima da cabeça e se espreguiçou.

   "...Hã?"

Naquele mesmo instante, percebi algo de repente.

Não sei exatamente o quê. Pareceu completamente natural. Do nada, uma emoção começou a borbulhar dentro de mim.

Ah. Eu amo ela.

As palavras vieram primeiro. Depois, o choque diante do que eu estava sentindo.

Eu já tinha tido várias oportunidades de chegar a essa conclusão. Por que algo tão trivial — um gesto dela que eu devia ter visto inúmeras vezes — foi o que finalmente me fez entender?

Tudo o que ela fez foi entrelaçar as mãos e esticar os braços. Só isso. Não foi como se ela tivesse confessado seus sentimentos, nem como se tivéssemos superado alguma dificuldade juntos.

Eu já tinha ouvido colegas de classe falarem dessas coisas na escola — fulano se apaixonou por fulana, alguém confessou seus sentimentos. Eu escutava tudo de forma distante, achando que não tinha nada a ver comigo. Como eu poderia imaginar que acabaria vivenciando isso também?

Para ser honesto, sempre achei difícil lidar com mulheres.

Tendo crescido com meu pai e minha mãe, nunca tive ilusões sobre casamento ou finais felizes. Eu tinha uma visão bastante realista das relações entre homens e mulheres. Vi minha mãe gritar com meu pai por ele não calar a boca ou por não adivinhar o que ela estava pensando. Ouvi ela reclamar que ele precisava ser sempre um cavalheiro perfeito. E quando ele tentava ser atencioso, ela ficava irritada, dizendo que ele era passivo demais e pouco masculino. E, depois de tudo isso, ela o traiu e fugiu com algum homem rico que aparentemente considerava mais macho.

[Ayko: Sim, na tradução original o termo utilizado é literalmente ‘mais macho’. Mas o Yuuta cresceu com uma base familiar não muito tranquila também né…]

 

Foi assim que passei a enxergar todos os relacionamentos, e foi por isso que nunca tinha me apaixonado por ninguém.

Então por que agora? E por que justamente por ela?

As mudanças que eu sentia dentro de mim eram reais demais e repentinas demais para que eu conseguisse acompanhá-las. Eu não entendia.

A maioria das pessoas diz que sentimentos de amor são maravilhosos e preciosos. Eu não fazia ideia de que eles poderiam me atingir de forma tão súbita, em um único instante, como bolhas que irrompem na superfície da mente.

Enquanto eu observava Ayase se afastar — a água escorrendo por suas costas e refletindo a luz —, um pensamento me ocorreu.

Ela é minha irmã mais nova.

Mas, ao mesmo tempo, ela é Ayase.

Ela é minha meia-irmã.

Começamos a arrumar tudo às quatro da tarde.

Troquei de roupa no vestiário e percebi imediatamente o quanto estava exausto. Meu corpo estava quente. Eu me sentia febril e pesado, como se tivesse acabado de sair de um banho muito quente. Era o mesmo tipo de cansaço que eu sempre sentia depois das aulas de natação na escola.

Os garotos se reuniram na saída antes das garotas. Imaginei que, como muitas delas tinham cabelo comprido, deviam precisar de mais tempo para secar.

Pegamos o ônibus que saiu pontualmente às cinco e nos despedimos da piscina.

Voltamos pelo mesmo caminho por onde viemos — trinta minutos de ônibus e mais trinta de trem. Por termos passado tanto tempo juntos na piscina, estávamos bem mais falantes na volta.

Já passava das seis quando chegamos a Shinjuku, onde cada um seguiria seu próprio caminho. Ao atravessar a catraca, vi o céu do outro lado da rua. Ainda estava tingido pelo vermelho do pôr do sol, mas o sol já havia se deslocado bastante para o oeste.

Ao olhar para os prédios altos que bloqueavam o céu, senti que estava em casa — de volta a essa cidade cheia de arranha-céus.

   "Caramba, foi muito divertido!"

   "Maaya, você parece que ainda aguentava mais umas rodadas."

   "Nada disso. Eu estou com fome!"

Todos riram da resposta sincera de Narasaka.

Estávamos prestes a nos separar. Alguns pegariam ônibus, outros seguiriam por diferentes linhas de trem, e alguns voltariam para casa de bicicleta.

Ayase e eu pegaríamos o trem até a estação Shibuya. De lá, eu iria de bicicleta, e ela seguiria a pé. Sairíamos juntos do grupo, dizendo que morávamos na mesma direção. Ninguém imaginaria que íamos para o mesmo apartamento.

   "Então, até amanhã na escola!"

Depois de nos despedirmos animadamente, cada um seguiu seu caminho.

   "Oh, Asamura. Espera um pouco!"
Narasaka fez um gesto para que eu me aproximasse, e eu fui.

   "O que foi?"

   "Acho que essa é uma boa oportunidade para trocarmos contato. O que acha?"

Olhei instintivamente para Ayase. Ela desviou o olhar rapidamente, mas não parecia estar me encarando com reprovação nem nada do tipo. Eu e Narasaka estudávamos na mesma escola, então não parecia estranho.

   "Tá bom", respondi.
   "Já que estamos aqui."

Depois de trocarmos contato, ergui o olhar para ela.

   "Obrigado por organizar o cronograma de hoje, Narasaka."

   "Hm? Você fala como se a gente mal se conhecesse. Me chama de Maaya!"

   "A gente ainda não é tão próximo assim."

   "Não é?! A gente foi à piscina junto. Somos praticamente melhores amigos agora!"

Tive dificuldade em acompanhar a lógica dela.

   "Eu só queria dizer que deu para perceber o quanto você se esforçou nesse planejamento. Fazer a gente ir primeiro às atrações deixou o clima do almoço bem animado. É uma pena que só tenhamos conseguido jogar um dos jogos que você planejou."

   "Hã." Ela coçou a nuca, um pouco envergonhada.
   "Bom, não tinha muito o que fazer. O tempo estava curto."

   "Mas graças a você, até eu me diverti bastante hoje. Sou realmente grato por isso."

   "Ei, elogio não vai te levar a lugar nenhum."

   "Não estou tentando chegar a lugar nenhum. Estou dizendo porque é verdade."

   "Hm… bom, é legal ouvir isso. Wah-ha-ha-ha. Eu não esperava nem nada, mas fico feliz em saber que alguém estava prestando atenção."

   "É, acho que entendo isso."

…Era bom ter alguém que reparasse em você e notasse o que você fazia. Eu também tinha alguém assim.

   "Bom, então até mais!", disse Narasaka.
   "Tchau, Saki! Te mando mensagem!"

   "Tá bom."

Narasaka e Ayase acenaram uma para a outra. Narasaka ainda se virou várias vezes para acenar de novo antes de finalmente se afastar, com passos saltitantes.

   "Desculpa te fazer esperar", eu disse para Ayase.

   "Hm. Não demorou tanto assim."

Ayase e eu passamos juntos pela catraca, a caminho do próximo trem. Por algum motivo, ficamos em silêncio durante todo o trajeto. Descemos na estação Shibuya e começamos a caminhar em direção ao nosso prédio. Peguei minha bicicleta no estacionamento onde a havia deixado e segui ao lado de Ayase, empurrando-a.

O céu estava mudando do vermelho intenso para um azul escuro, e a paisagem ao nosso redor já estava envolta em sombras, embora o caminho fosse iluminado pelos prédios ao redor.

Era aquela luz característica do amanhecer e do entardecer. Em japonês, a palavra usada para ambos significa "o momento em que não se consegue distinguir o rosto das pessoas".

[Ayko: Por curiosidade, essa palavra é 「黄昏(たそがれ / tasogare)」Que também pode ser entendida como Crepusculo, isso dependendo do contexto ou tradução!]

 

Se você não perguntar, não pode ter certeza de quem está perto de você. Eu gostava dessa ideia; ela me fazia sentir que criaturas estranhas poderiam estar caminhando entre nós — semelhantes a humanos, mas não exatamente humanas.

Na verdade, existe outra palavra japonesa para esse momento em que o sol se põe e o céu escurece, quando não é exatamente dia nem noite. Segundo a tradição popular, omagatoki era "a hora dos encontros com demônios e monstros". Era nesse tipo de momento que você começava a se perguntar se a pessoa ao seu lado era realmente quem você pensava — um instante em que a realidade parecia irreal…

   "Você ficou bem próximo da Maaya", disse Ayase, me tirando dos meus devaneios.

   "Ah… sim. Eu só quis agradecer por ela ter me convidado."

   "Obrigada."

   "Hm?"

   "Ela é minha amiga. Então fico feliz que você tenha elogiado ela."

Não estávamos tão longe, e parecia que Ayase tinha ouvido nossa conversa. Eu não tinha dito nada que não quisesse que ela ouvisse, mas ainda assim senti uma estranha culpa.

   "Mas e você, se divertiu?", perguntei.

   "Sim, graças a você", disse ela, inclinando-se levemente em uma pequena reverência.

   "Eu gostava de ir a piscinas"
Ayase acrescentou, dizendo que fazia tempo desde a última vez.

   "Foi divertido, e foi bom nadar de novo. Ainda bem que eu te escutei", Ela me disse, sorrindo.

Ao observá-la, lembrei-me daquela emoção indefinível que tinha sentido mais cedo.

Eu estava perturbado pelos sentimentos recém-descobertos pela garota que caminhava ao meu lado — sentimentos de amor, ou pelo menos de atração.

Enxergá-la dessa forma destruiria a confiança que havíamos construído. E, se eu contasse, ela não saberia o que fazer. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha a sensação de que Ayase também nutria algum tipo de carinho por mim. Qual era a atitude certa aqui?

Conforme me perdia nesse emaranhado de emoções, eu falava cada vez menos.

O silêncio pareceu contagioso, e Ayase também ficou quieta.

O som dos passos dela acompanhava os meus, e tudo o que se ouvia era o rangido suave dos pneus da minha bicicleta girando.

Eu não conseguia olhar para o rosto dela. Mantive os olhos fixos no chão. Já não sabia mais para onde ela estava olhando enquanto caminhava.

Senti meu coração acelerar. Isso era normal quando se caminhava sozinho ao entardecer com uma garota bonita?

Não. Eu tinha ido ao cinema à noite com a Yomiuri outro dia. Também fiquei nervoso naquela ocasião, mas podia afirmar com certeza que não era assim. Como tinha acontecido recentemente, a diferença era clara como o dia.

Mas se me perguntassem o que era diferente… eu não saberia dizer. Me senti patético. Queria esconder o rosto entre as mãos. De alguma forma, eu sabia instintivamente que não era a mesma coisa. O mecanismo por trás disso, no entanto, estava trancado em uma caixa-preta impenetrável. Eram meus próprios sentimentos, e mesmo assim eu não fazia ideia do que estava acontecendo.

Enquanto observava o pneu da bicicleta girar em ritmo constante sobre o asfalto, percebi sua sombra ficar cada vez mais escura. Levantei o olhar para o céu e notei que a noite havia caído sem que eu percebesse. Ao pensar em como o crepúsculo tinha sido breve, algumas palavras surgiram em minha mente.

Ah, a Lua está tão bonita.

   "Você é muito bom em perceber as qualidades das pessoas, Asamura."

   "Hã?"

As palavras dela surgiram do nada, e eu olhei para o lado. Ayase também estava olhando para o céu. Provavelmente, ela também observava a lua.

Então ela se virou para mim.

   "Estou falando da Maaya. Você elogiou ela antes."

   "Ah, isso."

   "Você presta muita atenção nas pessoas. Eu respeito isso."

   "Você… acha?"

   "Acho, sim. Você percebe o esforço dos outros. Como eu disse naquela piscina, eu acho isso legal. Eu admiro muito isso…"

Ela continuava me elogiando, fazendo meu coração bater ainda mais rápido. Mas o que ela disse em seguida me deixou sem palavras.

   "...Onii-chan."

Engoli em seco. Fiquei completamente imóvel, ainda encarando o rosto dela. Seu perfil familiar parecia o de uma completa estranha.

Onii-chan.

Onii-chan.

Onii-chan.

Repeti as palavras na minha mente, mas, não importa quantas vezes eu as dissesse, o significado não mudava.

Irmão mais velho.

Em outras palavras, ela me via como irmão.

Eu nunca tinha ouvido ela dizer isso antes. Não fazia ideia do motivo de estar dizendo agora.

Mas por que eu estava tão surpreso? Ela era a única garota no mundo que podia, de forma lógica, me chamar assim.

   "Ah… eu te surpreendi dizendo isso do nada? Mas você tem pensado em mim e feito tanta coisa por mim — como um verdadeiro irmão mais velho em quem eu posso confiar…", disse Ayase, inclinando a cabeça de lado e sorrindo.

Não havia como eu dizer a ela o que aquilo realmente provocou em mim.

   "Bom… fico feliz em ouvir isso, Ayase."

   "...Ah-ha-ha. Mas ainda assim, não parece muito natural."

Para ser honesto, ela tinha me salvado.

Aquele inesperado "irmão mais velho" me trouxe de volta à realidade. O que, afinal, eu estava pensando? Sim, Ayase me tratava com carinho, e sim, ela me elogiava — mas isso era porque eu era o irmão mais velho dela.

Ela confiava em mim como alguém com quem podia ter uma relação neutra. Achava fácil se dar bem comigo porque eu não criava expectativas nem tinha pensamentos indevidos. Nossa relação era conveniente exatamente por isso.

E eu estava prestes a quebrar todas as regras.

   "Estou cansada hoje", ela disse.
   "Você se importa se eu fizer algo simples para o jantar?"

   "...Claro. Sem problema."

Até as trocas mais inocentes do dia a dia agora me deixavam nervoso. Eu estava falando com a mesma calma de sempre?

Quando chegamos ao prédio, disse que ia guardar a bicicleta, e nos separamos na entrada. Levei a bicicleta até o bicicletário coberto, tranquei-a e ergui o olhar para o céu.

As paredes altas do prédio bloqueavam minha visão, e eu já não conseguia ver a Lua.

Respirei fundo e disse a mim mesmo para me acalmar.

Ayase não estava por perto. Se o que eu sentia fosse apenas atração pela aparência dela, pelos feromônios ou qualquer outra coisa do tipo, então, sem ela à minha frente, as chamas da paixão que tinham surgido dentro de mim deveriam se apagar aos poucos. Assim, eu poderia dizer a mim mesmo que aqueles sentimentos, fossem eles quais fossem, não passavam de uma confusão momentânea — e então esquecê-los…

   “Droga…”

Eu sabia que isso não era bom. Sabia que não devia sentir aquilo e, ainda assim, esses sentimentos simplesmente não iam embora.

   “Como é que eu vou voltar para casa e encarar ela…?”

Não havia ninguém que pudesse me dar a resposta. Claro que não havia.
Era algo que eu não podia deixar que mais ninguém ouvisse.

[Ayko: Meu amigo, agora sim, Yuuta aceitou o que sente, mas essa resposta da Ayase… não sei não hein, alías, será que a Yomiuri tem algum sentimento pelo Yuuta? Me passou pela cabeça a pouco…]

 

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