Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 8: A sombra dos sentimentos

A tarde na escola havia passado de uma forma que Lana mal percebera.

Os pensamentos incômodos insistiam em permanecer em sua mente, e por isso ela não conseguira prestar atenção em praticamente nada da aula. A parte boa era que agora se sentia um pouco mais aliviada; às vezes, sentir as coisas de uma vez era melhor do que arrastá-las por dentro até não suportar mais.

O confortável pôr do sol contrastava com o céu já escurecendo, enquanto Lana caminhava ao lado de Esther, acompanhadas de outras duas amigas, Agatha e Elisa, que estudavam em outra escola, mas haviam se encontrado no caminho de volta para casa.

Lana exibia um ar genuíno de felicidade, conversando bastante, em contraste evidente com o silêncio desanimado que mantivera durante o dia.

Quando a noite caiu por completo, ela já se encontrava em frente à sua casa, despedindo-se das amigas. Ainda assim, nenhuma delas parecia com pressa de encerrar a conversa excitante que se desenrolava, agora centrada em uma festa.

— E então, vai ser sábado mesmo? Dou minha certeza. Vocês vão, não vão? — perguntou Agatha, visivelmente animada com a ideia.

— Com certeza eu vou. Preciso de algo para me distrair — respondeu Lana, acompanhando a empolgação.

— Pode apostar que sim! — confirmou Esther.

— Ótimo — disse Elisa, que estava por trás de tudo. — Sábado, às vinte horas, na minha casa. Não esqueçam de avisar os outros, tá?

Todas concordaram e, depois de alguma relutância, finalmente se despediram.

Lana entrou em casa enquanto os murmúrios animados das garotas se perdiam à distância.

O interior era dominado pelo silêncio, pela escuridão e por uma sensação constante de vazio, uma visão solitária e deprimente, que havia se impregnado no lugar havia muito tempo. Ainda assim, Lana não se permitiria ser afetada. Ela não precisaria permanecer ali; agora tinha um lugar para onde ir.

Mal entrou, largou a bolsa da escola de qualquer jeito sobre o sofá, pegou outra mais simples e saiu novamente, seguindo motivada rumo ao seu novo “refúgio”, se é que podia ser chamado assim.

Enquanto caminhava pela calçada, aproximando-se da esquina, notou um carro de cor escura e vidros pretos estacionado ali. Não era um tipo comum de se ver pela vizinhança. Achou estranho por um momento, mas acabou não dando tanta atenção.

Após cerca de quinze minutos, chegou à casa da senhora Gardênia. Encontrou-a sentada no banco do jardim, contemplando a noite, enquanto o doce aroma das flores se espalhava pelo ar fresco.

— Olá, boa noite, senhora Gardênia — cumprimentou, entrando pelo pequeno portão.

— Boa noite, Lana — respondeu a velha, com um sorriso acolhedor.

— E o Saketsu, está? — perguntou ao se aproximar e sentar-se ao lado dela, depois que a senhora lhe ofereceu espaço.

— Não. Ele saiu apressado há algum tempo, disse que precisava resolver a bagunça na casa dele.

— Entendo.

Lana observava o gramado bem cuidado, que refulgia sob a luz suave do luar.

— E ele… melhorou?

— Completamente. Muito mais rápido do que eu esperava. Talvez seja por causa das novas capacidades dele. É uma energia além do comum. Insisti para que ficasse mais um pouco, apenas para garantir, mas ele fez questão de ir.

Lana sorriu de leve, como se aquela atitude já fosse previsível.

De repente, algo chamou sua atenção. A senhora Gardênia lhe mostrava uma pulseira feita à mão, composta por raízes entrelaçadas e adornada com pequenas flores.

— Fiz uma dessas para o Saketsu… e esta é a sua.

Ela colocou a pulseira cuidadosamente sobre a mão de Lana, que a observou com curiosidade e certa confusão.

— Que linda! — disse, encantada, ao prendê-la no pulso. — Muito obrigada!

— Não há de quê — respondeu, sorrindo. — Mas você precisa saber que isso é um amuleto de proteção.

— Um amuleto de proteção?

— Sim. Eu o fiz juntando raízes de diferentes plantas protetoras. Ele ajuda a afastar espíritos ruins. Com isso, possivelmente, esses zumbis sobrenaturais não vão cismar de atacar você e o Saketsu, além de outros espíritos zombeteiros.

— Incrível… Muito obrigada mesmo, senhora Gardênia — Lana curvou a cabeça em sinal de gratidão.

— Não precisa agradecer. Fiz isso para ajudá-los. Você e Saketsu são boas crianças. Sei que as coisas não estão fáceis, e talvez fiquem ainda mais difíceis. Isso é o mínimo que eu poderia fazer.

Lana sorriu. O momento era bom. Era reconfortante estar ao lado de alguém que se importava genuinamente com ela, depois de tanto tempo. Contudo, de repente, um sentimento estranho começou a se infiltrar. A felicidade de instantes atrás foi sendo tomada por uma sensação incômoda, difícil de definir.

— O que há de errado, Lana? — perguntou a senhora, ao notar a mudança evidente em sua expressão.

— Eu… eu não sei — respondeu, com a voz pesada. O olhar caiu, tomado pela melancolia. — É como se algo ruim insistisse em querer me dominar… um vazio. Não importa o quanto eu tente ficar bem, esse desânimo sempre volta de repente. Parece que a felicidade foge de mim de propósito. Estou perdendo, pouco a pouco, a noção do que realmente é estar bem.

A senhora Gardênia a observava atentamente, compreendendo cada palavra.

— Fique à vontade para colocar tudo para fora, Lana.

A garota se surpreendeu. Não esperava ter que se abrir daquele jeito, do nada, mas algo dentro dela exigia isso — apenas para se livrar do peso que carregava.

— Eu não sei exatamente o que está acontecendo… mas tudo começou por causa dele.

Havia raiva em seu olhar.

— Eu sempre me sentia diferente perto dele. Meu peito se aquecia, meu ânimo surgia sem explicação. Mesmo quando as coisas não eram como eu desejava, eu gostava…

As palavras continuavam a sair, sem que Lana soubesse ao certo quando haviam começado ou onde terminariam. Seu rosto se contraía levemente, os olhos se enchiam, como se as lágrimas lutassem para escapar.

— Mas… tudo desabou de repente. O motivo que ainda me fazia seguir nessa vida infeliz era ele. Ele era como uma luz que me guiava na escuridão… e então se apagou.

Ela não conseguiu mais conter. As lágrimas finalmente caíram, e seus ombros cederam, como se um peso imenso tivesse sido lançado sobre eles.

— Eu não sei se o amo ou se o odeio. Eu não sei mais de nada… Por que ninguém nunca fica do meu lado? Nem mesmo meu pai…

A imagem dele surgiu em sua mente, como um retorno cruel ao passado: fechando a porta, deixando a pequena Lana sozinha na sala escura. Uma cena que se repetira vezes demais.

— Meus amigos…

Agora via pessoas sorrindo para ela, mãos apoiadas em seus ombros. Mas os sorrisos se desfaziam, os rostos se fechavam, e um a um se afastavam, indiferentes.

— Iuri…

A figura de Iuri criança surgiu diante dela, parado, encarando-a com a mesma indiferença de sempre.

Era como reviver um fragmento de sua infância.

Lana era a garotinha do terceiro ano, caída na lama sob a chuva, machucada, e ainda assim olhando para Iuri com admiração, como se ele fosse um herói, o cavaleiro que a salvara daqueles garotos marginais que poderiam ter causado danos irreparáveis.

Mas esse mesmo Iuri se virava, dando-lhe as costas, assim como todos os outros haviam feito.

Ela implorava, com todas as forças e do fundo do coração, para que ele não fosse embora. Não adiantava.

Centímetro por centímetro, tudo o que restava era a visão das costas do garoto se afastando. No meio disso, lembranças surgiam em flashes: a ignorância constante dele, a covardia silenciosa dela em nunca se confessar, e o acúmulo de arrependimentos que se transformaram em sofrimento calado.

As memórias cessaram no pior momento que já vivenciara: quando estivera a um passo de ser morta pelas mãos da pessoa que sempre amara. Num salto abrupto, o cenário se desfez, levando-a ao último contato que tiveram.

— Me perdoe, Lana, por tudo o que fiz desde o começo — disse Iuri, de costas, incapaz sequer de encará-la.

— E por que você fez tudo isso?

— Como eu já disse, fui obrigado. Aquela caveira ameaçou a vida dos meus pais. Eu não tive escolha. E, no fim… perdi tudo.

— E o que você vai fazer agora? Vai simplesmente ir embora assim, sem mais nem menos?!

— Vou. Depois do que fiz, não há como ficar. Não há como apagar o erro. Nada será como antes, então é melhor que eu vá de uma vez. Prometo que nunca mais aparecerei na sua frente… nem na do Saketsu.

Sem sequer virar uma última vez, Iuri começou a correr.

Lana permaneceu parada, braços cruzados, observando as costas dele se afastarem até desaparecerem em um destino que ela não sabia qual era.

A raiva era tanta que, mesmo sem querer demonstrar, transbordava sozinha. As unhas fincaram-se no próprio braço até romper a pele, enquanto os olhos vermelhos e marejados lutavam para conter o choro.

Queria ter dito algo. Queria ter feito alguma coisa. Mas não fizera nada. Não aproveitara a última chance. E, no fim, ainda não sabia o que sentia — se era ódio ou amor.

O presente retomou força.

Ainda sentada no banco do jardim, Lana estava agora debruçada sobre as próprias pernas, afogando-se em lágrimas, enquanto a senhora Gardênia a envolvia em um abraço silencioso.

Era difícil. Doloroso. A única pessoa por quem realmente se apaixonara lhe causara tanto mal e depois simplesmente desaparecera.

Nunca tivera um pai presente que lhe ensinasse como lidar com esse tipo de dor, e tampouco uma mãe — morta durante o parto.

Mesmo tendo algumas amigas, jamais criara intimidade verdadeira com nenhuma delas. Filha de um mafioso temido, sempre mantinham distância. Ninguém a entendia, e o afastamento vinha de forma natural.

Por isso, estivera sempre sozinha.

Ainda assim, nunca demonstrara fraqueza. Sorria, era gentil, mantinha-se firme. Nunca se entregara totalmente à tristeza, preferindo reprimi-la e ignorá-la. Talvez o motivo de todo sofrimento estivesse exatamente aí.

Acreditara por anos que lidava bem com as partes ruins da vida, sem perceber que apenas as empilhava dentro de si, escondidas, até o ponto de ruptura.

— Eu não aguento mais! — gritou, afastando-se bruscamente de Gardênia, ficando de pé e arfando de forma descontrolada, o choro se intensificando.

— Lana…

Foi então que algo começou a se manifestar às suas costas.

Uma grande larva espectral, grotesca, de traços vagamente humanos no rosto, emergiu e se pendurou em seu ombro. Seus braços finos se cravaram no dorso da garota, agarrando-se como um parasita faminto.

— Sabia… — murmurou a senhora Gardênia, finalmente compreendendo, ao encarar a criatura.

— Eu não aguento mais… eu quero morrer — disse Lana, paralisada, o desespero estampado no rosto.

— Então faça isso — respondeu Gardênia, com firmeza. — Mate essa Lana. Dê espaço para que outra possa viver.

A garota transtornada não entendeu.

— Mate o seu eu do passado. Independente do que tenha vivido, enquanto há vida, há chance de mudar, de renascer. O presente é sempre a grande oportunidade.

A larva se agarrou com ainda mais força, fincando suas garras no corpo da garota, determinada a não soltá-la.

— A partir deste momento, você é livre para buscar a vida que deseja.

— “Cale a boca, velha amaldiçoada!” — esganiçou a voz da criatura. — “Não escute ela, Lana. Ela está mentindo, como todos sempre fizeram.” — sussurrava junto ao ouvido da garota. — “Assim que puder, vai virar as costas para você também. Sempre será assim, porque você é fraca e as pessoas são falsas. Mas não se preocupe… eu estou aqui para te fazer forte. Basta se entregar.”

— Lana — disse a senhora Gardênia, paciente —, a escolha é sua. Este é o momento de abandonar aquilo que a impede de seguir em frente. O poder está em suas mãos.

— EU NÃO QUERO SABER DE MAIS NADA! — gritou, a voz estourando, caindo exausta de joelhos no gramado, enquanto a larva se expandia ainda mais sobre seu corpo.

— Por favor, Lana, veja o que está acontecendo. Esse mal está se alimentando de você. Só você pode fazê-lo desaparecer. Basta querer, do fundo da alma.

— “Eu já mandei fechar essa matraca, velha desgraçada!” — a criatura se desprendeu, lançando-se contra Gardênia.

Mas não chegou até ela.

Lana reagiu num impulso, segurando a larva com ambas as mãos.

— Eu só quero que isso acabe… — sua voz falhou. — Eu escolho deixar a velha Lana morrer para que a nova possa nascer. Eu me liberto!

A criatura se paralisou.

Seu interior começou a clarear, inchando, enquanto uma luz esbranquiçada rasgava sua forma sombria. Em instantes, toda sua composição se desintegrou em fragmentos luminosos, que explodiram e se dissiparam no ar, até não restar absolutamente nada.

Lana caiu no gramado.

A exaustão a tomou por completo, deixando seu corpo anestesiado. Lágrimas ainda escorriam, mas agora acompanhadas de um sorriso leve, sincero, como se tivesse se livrado de um peso de toneladas.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Mais tarde, na cozinha, a jovem e a senhora tomavam chá, conversando serenamente sobre o ocorrido.

— Afinal… o que era aquele ser? — perguntou Lana, ainda tentando compreender.

— Um espírito obsessor — respondeu Gardênia. — São mais comuns do que imagina. Muitos podem ser vistos como sombras presas às pessoas, especialmente adultos. Aquele, no entanto, foi gerado por você mesma. Alimentado por tanto tempo que acabou se manifestando.

— Como um parasita?

— Exatamente.

— Eu me sinto leve mais leve depois que ele se foi… como nunca. O peso sumiu, as vozes na minha cabeça se calaram. Tudo está mais silencioso… mais claro.

— É assim mesmo — sorriu. — Um obsessor nasce de ideias ou desejos intensos que tomam todo o foco da pessoa. Ela passa a enxergar apenas aquilo e se perde do resto. Por isso é importante parar, refletir, esvaziar a mente e as emoções. Quem não faz isso acaba se afogando em uma perspectiva negativa, sendo devorado pela própria criação.

Lana absorvia cada palavra.

— No seu caso, o apego às emoções que sentia por Iuri e o medo de perdê-las, de nunca achar alguém que pudesse admirar, fizeram com que você não as deixasse partir.

Ela ficou em silêncio, refletindo.

— Além disso, você reprimiu outras dores ao longo dos anos, por medo de senti-las.

— Sim…

— Evitar nunca resolve — continuou Gardênia. — O que é ignorado se acumula. E tudo que se acumula, um dia transborda. As coisas só são superadas quando encaradas de frente.

— Eu me sinto melhor do que jamais me senti — disse Lana, sincera. — Obrigada, sra. Gardênia.

— Não me agradeça. Eu apenas estive aqui. O trabalho foi todo seu. — Ergueu a xícara em um gesto calmo, que Lana acompanhou com um sorriso.

— Amanhã vou viver como se estivesse começando do zero — declarou, determinada. — Será um novo capítulo. Um renascimento.

E, de fato, as coisas estavam prestes a mudar.

Na manhã seguinte, Lana depois de sair da casa de Gardênia e ir até a sua para pegar seus materiais, ela saía motivada pela nova fase da vida. Porém, para quebrar suas expectativas, nada aconteceria como ela imaginava.

Mal pisou na calçada e notou, em frente à casa, dois jovens engravatados próximos a um carro preto — o mesmo que estivera parado na esquina no dia anterior. Eles se aproximavam, os trajes bem alinhados, cortes de cabelo agressivos, cicatrizes, piercings e expressões maliciosas que denunciavam caráter delinquente.

Algo estava errado. E não demorou para ter certeza que uma coisa ruim estava para acontecer.

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