Volume 1
Capítulo 6: Confronto decisivo
Apesar dos olhares raivosos já terem se encarado muitas vezes antes, agora era totalmente diferente.
Não se tratava mais de simples rivais ou de uma briguinha qualquer, mas de uma situação carregada de tensão sobrenatural, a um passo de definir quem mataria quem.
A eletricidade na grande espada explodiu com agressividade no mesmo instante em que Iuri se deslocou em direção a Saketsu, que, com o corpo inclinado para frente e os punhos carregados de chamas negras, aguardava apenas a aproximação para contra-atacar.
Quando aconteceu, socos envoltos em chamas negras e golpes da espada banhada em eletricidade passaram a se chocar de forma intensa.
Ambos possuíam um poder excepcional e movimentos rápidos o suficiente para se desviarem um do outro, e sabiam que o primeiro ataque bem-sucedido poderia determinar o resultado.
Afastavam-se e avançavam repetidas vezes, mas nada parecia mudar.
Até que, enfim, Saketsu conseguiu atingir o rosto de Iuri com um soco violento, capaz de amassar e lançar seu corpo para longe. Em seguida, parado, observou-o se levantar com dificuldade, apoiando-se na espada, cuspindo sangue, com o canto do rosto inchado e levemente queimado pelo impacto flamejante.
No fundo, Saketsu se satisfazia por ter acertado um golpe daqueles no rival, mas esse breve momento foi interrompido por uma sensação estranha que fez seu corpo adquirir um peso dormente.
Ao olhar para baixo, percebeu no canto da barriga um arranhão por onde pequenas cargas elétricas surgiam de forma intermitente. Concluiu, então, que também havia sido atingido por Iuri.
“Mas como? Quando?”
Não sabia. Apenas sabia que fora sorte ter sido apenas um arranhão — ainda assim suficiente para afetá-lo, retirando-lhe o controle total do corpo. Suas pernas cederam, e ele caiu de joelhos no chão.
A dormência intensa, acompanhada de um formigamento estranho que se espalhava a partir da região atingida, era causada pela eletricidade sobrenatural que ainda insistia em se manifestar, agora mais fraca.
Iuri permanecia parado e, ao contrário de Saketsu, ainda aparentava plenas condições de agir. Fechou os olhos, concentrou-se, segurou o cabo da espada com as duas mãos e, no instante seguinte, ela se acendeu violentamente, canalizando a eletricidade azul até formar uma massa energética que iluminava tudo ao redor.
Com uma expressão aflita, misturada ao medo, Saketsu não sabia o que fazer. Apenas compreendia que, se fosse atingido por aquilo — algo que parecia conter milhões de volts — não teria qualquer chance de sobreviver.
A espada de Iuri se moveu com brutalidade, como se cortasse o próprio ar, e a rajada elétrica foi disparada. Nos olhos de Saketsu refletia-se o poder colossal vindo em sua direção para pôr fim à sua existência.
BOOM!
O estrondo ensurdecedor veio acompanhado de um lampejo intenso, visível a vários quarteirões de distância.
Uma densa cortina de poeira se ergueu a partir da enorme fenda aberta na rua à frente de Iuri. Fora um ataque de alta magnitude — e, como esperado, teve seu preço. O corpo de Iuri quase cedeu. Estava esgotado, mas satisfeito, acreditando ter cumprido seu objetivo.
Parou pensativo para a cortina de poeira, como se algo no fundo ainda o incomodasse. Logo, foi surpreendido ao ouvir:
— Belo ataque, Iuri.
Saketsu emergiu da fumaça lançando um soco no rosto de Iuri. Ainda assim, ele permaneceu exatamente no mesmo lugar. O punho encostado apenas virou seu rosto por um instante, antes que ele o retornasse lentamente, encarando Saketsu, que se espantou ao encontrar um olhar sinistro, carregado de puro rancor.
Saketsu recuou rapidamente, massageando a mão dolorida após golpear com toda a força que possuía. Embora aparentasse estar mais revigorado, encontrava-se mais fraco. O motivo era claro: havia retornado ao seu verdadeiro corpo, limitado, conseguindo fazê-lo no exato momento em que seria atingido pela rajada elétrica.
Tinha sido uma sorte absurda ter pensado nisso no último milésimo de segundo — e agora Iuri sabia.
O silêncio se impôs entre os dois, enquanto uma corrente de vento fraca arrastava a poeira que lentamente se dissipava.
Saketsu esboçou frustração ao se lembrar do que realmente importava. Do motivo pelo qual havia começado a lutar.
— Desgraçado… por que fez aquilo com Lana?
Iuri não respondeu.
— Vamos, fala logo, seu lixo! — a fúria subia à cabeça, enquanto Iuri demonstrava apenas um olhar tenso, quase angustiado.
— Eu não posso perder para você, Saketsu. Vou te matar aqui — disse, por fim.
Fincou a espada no chão e começou a caminhar em sua direção. A aura elétrica passou a se manifestar pelo próprio corpo, da mesma forma que antes envolvera a lâmina.
Ao vê-lo se aproximar, Saketsu permaneceu apreensivo, sem reação. Não era ingênuo o suficiente para achar que poderia lutar em seu verdadeiro corpo, desprovido de poder e capacidade física.
Somente quando estavam a cerca de cinco metros decidiu que o melhor seria reagir — ou melhor, fugir. Era sua única alternativa. Mas, ao se virar, Iuri já surgira à sua frente numa velocidade absurda, atacando sem hesitar.
Por puro reflexo, Saketsu conseguiu defender o soco com as palmas das mãos. O impacto foi forte o bastante para arrastá-lo alguns centímetros para trás.
Iuri veio em seguida com uma joelhada ascendente, como um gancho, mas errou quando Saketsu recuou dois passos. Antes que pudesse se recompor, já recebeu outro golpe: um soco defendido ao erguer impulsivamente os braços diante do rosto, sendo arrastado mais meio metro para trás.
Os antebraços usados como escudo ardiam de forma insuportável. Era óbvio que seu corpo não suportaria muito mais daquela força sobre-humana.
Sem lhe dar tempo algum para se recuperar, Iuri já lançava outro ataque.
Saketsu defendeu como antes, mas dessa vez a guarda cedeu. Foi jogado para trás, e Iuri avançou de novo. E de novo. E de novo.
Ele ainda conseguia bloquear, mas sua resistência já não era o suficiente.
Os braços caíram dormentes, cobertos por hematomas roxos e inchados.
— Por que está fazendo isso, Iuri?! — gemeu durante a breve pausa, lutando para se manter consciente.
— Eu fui obrigado — respondeu baixo, também à beira do limite.
— Obrigado? Por quem?!
Iuri soltou o ar com frustração, cerrando os dentes, relutante em responder.
— Agora eu entendo… — Saketsu forçava o raciocínio. — Alguém te mandou me matar. Pra ter te manipulado assim, só pode ser alguém muito poderoso… ou alguém que te deu um motivo grande demais. Ninguém te controlaria desse jeito. Não o Iuri que eu conheço.
— Cala a boca — ordenou, a carga elétrica voltando a se manifestar no punho abaixado.
— Eu percebi desde o começo. Você não queria me matar de verdade. Você se segurou o tempo todo…
— Você não sabe de nada.
— Podia ter me matado ontem. Teve o dia inteiro, a madrugada inteira. Podia ter feito isso hoje, no instante em que me encontrou. Mas não fez. Sabe por quê? — Saketsu agarrou o próprio peito, cuspindo tudo o que guardava. — VOCÊ ESPEROU EU ENTENDER ESSE MALDITO PODER PRA LUTARMOS DE IGUAL PRA IGUAL, NÃO FOI?!
— DO QUE VOCÊ TÁ FALANDO?! NÃO AJA COMO SE EU ME IMPORTASSE COM VOCÊ! A GENTE NEM É AMIGO! — Iuri explodiu, correndo para cima, incapaz de ouvir mais. A mão brilhava, carregada, pronta para o golpe final.
— Tem razão… — Saketsu via o ataque se aproximar, mas não tentou se esquivar.
“Você já se segurou demais. Não hesite. Venha logo”, pensou, determinado a receber o golpe, os olhos refletindo o brilho azulado da energia.
O impacto veio.
O chão se salpicou de sangue no instante em que o ataque atingiu seu peito.
— … sempre fomos rivais — continuou Saketsu, sorrindo fraco, o sangue escorrendo pelo canto da boca antes de vomitar uma grande quantidade. — E os anos te odiando… te enfrentando… até te invejando… me fizeram te conhecer melhor do que você imagina…
Iuri permanecia diante dele, a mão cravada no lado esquerdo do peito, o ataque tendo atingido mais a lateral.
— Eu não vou morrer aqui… — disse Saketsu, ainda sorrindo, ignorando a dor latente e a dormência que se espalhava.
— Para com isso… é o seu fim…
— Eu não vou morrer aqui… porque preciso me vingar de quem transformou meu rival número um na pessoa mais merda que eu já conheci…
Iuri arregalou os olhos, o rosto se contorcendo em frustração.
— Cala a boca! Você não sabe pelo que eu passei!
— Então me conta… — Saketsu falava com dificuldade, a respiração falhando. — Chega de… tentar suportar tudo sozinho… Eu sei como é… não ter ninguém… pra dividir as dores… É sufocante… Eu não desejo isso… pra ninguém… Você não precisa passar por isso, Iuri… eu tô aqui…
Iuri baixou a cabeça.
Pensou no quão absurdo Saketsu estava sendo. Os ferimentos certamente estavam afetando sua mente.
Ainda assim, começou a se perguntar o que ele teria feito em seu lugar. Se, após tudo aquilo, teria agido diferente.
Sem perceber, voltou a liberar poder.
Saketsu gritou, com seu corpo inteiro acendendo, os ossos ficando visíveis sob a eletricidade.
Iuri já não enxergava mais o presente.
Sua mente mergulhou na lembrança da sala escura de sua casa, dois dias antes. Os pais ajoelhados no chão. Um homem encapuzado atrás deles, as mãos ossudas e douradas repousando sobre suas cabeças. Calmo. Ameaçador.
Num instante, os corpos começaram a definhar, secar, apodrecer, tornando-se esqueléticos antes de desabar, a vida sendo arrancada deles.
Iuri não conseguia se mover. Nem respirar direito. As pernas falharam, e ele se apoiou na parede.
A figura se aproximou, entrando na fraca luz da janela. Era uma caveira dourada, com um crucifixo invertido de prata cravado na testa, contendo inscrições estranhas em baixo-relevo e um rubi em forma de losango no centro.
— Não se preocupe, criança. Posso trazer teus pais de volta — disse a criatura, a voz grave e imponente, sem mover os dentes. — Mas quero um favor.
— Um… favor?
— Mate Saketsu Sura. Em troca, devolvo a vida deles. E para isso, te concederei uma das minhas armas sagradas. Quando estiver pronto, ela se mostrará.
Iuri aceitou, mesmo relutando, mesmo odiando a ideia.
Foi por isso que se segurou. Por isso hesitou. Por isso matou uma garota inocente antes de perceber o abismo em que havia caído.
O remorso queimava.
E esse sofrimento se traduzia em poder bruto, fazendo Saketsu gritar ainda mais.
Neste instante alguém assistia tudo, e não aguentando mais ficar sem fazer nada, se aproximava a passos apressados e com enfurecidos punhos fechados.
— JÁ CHEGA DISSO! — ordenou o berro da garota.
Tudo congelou.
A ordem foi tão absoluta que até o ar pareceu cessar.
Iuri se virou, incrédulo.
Era Lana — viva. Estava séria, tremendo e furiosa.
Ao retirar a mão do peito de Saketsu, ele caiu de joelhos, arfando, o corpo coberto de queimaduras fumegantes.
Lana se aproximou e, sem hesitar, deu um tapa tão forte que virou o rosto de Iuri por completo.
— Você ia mesmo matar ele?!
Iuri permaneceu calado.
— Me responde! — Ela o agarrou pela gola. — Eu te amava tanto… — as lágrimas escorriam. — E você vira isso? Um fraco sendo manipulado! É, eu ouvi tudo!
Caído de bruços no chão, os sentidos de Saketsu estavam começando a apagar, e antes que fosse por completo, porém, notou que várias pessoas começaram a se aproximar ao redor.
Era óbvio que a luta chamaria a atenção — pelo menos de pessoas normais, o que não era o caso das que vinham andando de um jeito meio decaído, com olhos de tom vermelho brilhando em meio à escuridão.
— Zumbis-sobrenaturais — tentou alertar Saketsu, utilizando suas últimas forças.
Sua visão começou a turvar e escurecer. Mesmo embaçado, conseguia ver que Lana e Iuri ficaram preocupados. Os olhos acabaram se fechando, e, por fim, não conseguia ver e nem ouvir mais nada.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios