Volume 1
Capítulo 30: A breve despedida
Se fosse um dia antes, Lana pensaria que não merecia alguém como Dracarys depois de conhecê-lo de verdade. Mas havia se tornado mais segura de si mesma, passando a se autovalorizar, chegando até a demonstrar certa presunção, do jeito que alguém feliz e satisfeito com tudo ao seu redor costuma ser, e estar com Dracarys era como estar com uma outra metade digna de si mesma.
A noite que passaram juntos havia sido extremamente libertinosa.
Quando o dia seguinte chegou, foi como um verdadeiro recomeço para a garota, não se comparando nem um pouco ao último que começara na casa da sra. Gardênia.
Ao chegar na escola, contentou-se em perceber os comentários discretos das pessoas ao vê-la junto com seu novo amante, especialmente das outras meninas.
Embora o semblante da nova Lana parecesse frio e indiferente, por dentro ela se sentia elevada como nunca antes. Sua autoestima agora a fazia enxergar as presenças ao redor como insignificantes — um bando de idiotas deploráveis, especialmente Saketsu.
Tornara-se irritante vê-lo se aproximar demonstrando preocupação. Ainda mais percebendo que ele passou a aula inteira olhando para ela.
Se pudesse, faria com que dormisse para não acordar nunca mais.
O dia acabou sendo entediante, sem nada demais. Mas isso começou a ser compensado mais tarde naquela noite, quando Saketsu foi até a mansão de Dracarys e lá ocorreu a luta.
Ela havia permanecido escondida, apenas escutando as besteiras que ele dizia, e acabou rindo da reação dele quando Dracarys afirmou que ele a havia matado.
Bem, de certo modo, Dracarys não havia mentido.
No fim, Saketsu — fraco como sempre fora — fugiu, deixando-a com seu amado Dracarys, resultando em mais uma noite de pura luxúria.
Na manhã seguinte, já imaginava que o dia na escola seria como o anterior.
Para sua surpresa, porém, Saketsu não aparecera. Isso a fizera pensar que ele estaria em casa, preso no quarto, triste por acreditar que ela realmente havia morrido, provavelmente chorando, como um perdedor.
Durante a tarde, seu celular não parava de vibrar com as ligações dele.
“Será que esse garoto não vai parar de perturbar?”, pensava.
Passou pela sua cabeça a possibilidade de que ele pudesse estar enfrentando algum problema sério? Sim. Mas o que quer que estivesse acontecendo com ele já não era mais da sua conta. Desligou o celular para evitar qualquer perturbação.
Quando finalmente saíram da escola e a noite começava a tomar conta da pacata cidade, Lana e Dracarys foram para uma cafeteria.
Sentaram-se frente a frente em um canto mais isolado e fizeram seus pedidos à garçonete.
— Então, você deixou mesmo que dessem como encerrado o caso do seu pai? — perguntou Dracarys.
— Eu não me importo mais — respondeu Lana simplesmente. — Ele se envolvia com muita coisa errada. Não duvido que tenha sido alguma facção rival que fez aquilo com ele.
— Quem sabe, né? — concordou. — E sua casa já está limpa e pronta para recebê-la de volta.
— Ah, mas você não disse que eu podia ficar com você naquela sua mansão? — respondeu com um leve tom meigo.
Dracarys sorriu, achando adorável.
— É claro que pode. Você pode fazer o que quiser. Não quero estragar esse momento grandioso que você demorou tanto para conquistar.
A garçonete serviu os pedidos.
Lana pegou a colher e começou a mexer lentamente o chantilly de seu café.
Logo atrás de Dracarys, notou um noticiário sendo transmitido ao vivo na televisão. Uma repórter descrevia um incidente recente: duas pessoas haviam caído de um prédio. Dracarys percebeu o interesse dela e virou-se para olhar também.
"Há alguns minutos, um jovem e um agente da lei caíram deste prédio de mais de sessenta metros de altura…"
Mesmo com o desfoque da câmera, era possível ver os corpos estirados no chão, ensanguentados, em um estado irreconhecível. Lana sentiu um arrepio estranho percorrer seu corpo, perguntando-se se era apenas o choque da cena… ou alguma espécie de intuição.
"…foi nada mais que um suicídio.", comentou um policial intrevistado. "Como acabei de dizer: ele estava sendo perseguido pela polícia por um crime que cometeu e tentou fugir. Quando percebeu que não havia saída, acabou se matando; infelizmente levando um dos nossos oficiais junto."
"E você confirma que ele era um jovem de quinze anos?"
"Sim. Temos os dados dele."
"E que tipo de crime ele cometeu?"
"Isso já é confidencial."
Dracarys parecia se entreter com a notícia. Lana, por outro lado, permaneceu séria. Havia um desconforto estranho crescendo dentro dela. Seus olhos recaíram lentamente sobre o celular apoiado na mesa. Ele não vibrara mais, depois de passar a tarde inteira fazendo isso.
Tentou ignorar a sensação.
Nesse momento, alguém entrou apressado pela porta. Lana se surpreendeu ao ver quem era, sendo Tales, que se aproximou da mesa ofegante, claramente após ter corrido bastante. Parecia desesperado, lutando para conseguir falar.
— Saketsu… ele… ele morreu!
Os olhos da garota se arregalaram antes mesmo que percebesse.
— Eu ouvi tudo… — continuou Tales. — Aquele cara… Dalton… matou ele a tiros. Eu ouvi tudo pela ligação!
Ele começou a contar os detalhes.
Lana permaneceu imóvel, o olhar vazio, o rosto pálido.
Uma lágrima surgiu sem que percebesse, logo escorrendo lentamente pelo seu queixo.
Foi um impacto inesperado. De forma inexplicável, uma sensação de culpa pesou fortemente sobre seus ombros, como se estivesse prestes a esmagar seu coração.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
O dia seguinte amanheceu nublado e sob uma garoa fina, espelhando o sentimento triste das poucas pessoas que velavam o humilde caixão de Saketsu no cemitério.
Ali estavam seus colegas e amigos, entre eles Lana.
Ela chorava sem forças sequer para olhar quando o coveiro começou a jogar a terra sobre o caixote de madeira.
Quando finalmente o enterro terminou e todos foram embora, Lana permaneceu ali, inerte, parada diante do túmulo, os olhos vermelhos e inchados, pensando em tudo o que havia acontecido.
Tudo fora rápido demais. Anteontem acreditava que nunca mais sofreria, sentia-se dona do mundo, e agora estava ali, deplorável, sozinha, como sempre.
Não sabia exatamente o que Dracarys havia feito para apagar toda a aflição que sentira antes — especialmente a causada pela morte de seu pai —, mas agora percebia algo com clareza: a dor não havia desaparecido, havia apenas adormecido por pouco tempo.
Não conseguia suportar o peso das atitudes que tivera com Saketsu.
No fim das contas, ele sempre fizera tudo o que podia por ela, e ela havia retribuído como?
Provavelmente ele havia deixado este mundo sentindo desgosto por ela, e essa culpa era insuportável.
Só conseguia enxergar duas saídas: voltar a se "anestesiar" com a ajuda de Dracarys ou simplesmente apagar sua própria existência.
No fundo, acreditava que, se morresse, talvez pudesse encontrá-lo novamente, em outro lugar, em outro plano. Talvez tivesse a chance de pedir desculpas. Mas… e se não desse certo? E se não o encontrasse? E se não tivessse nada do outro lado?
— Vai pegar resfriado se ficar aqui na chuva. — A voz familiar a arrancou dos pensamentos.
Quando viu quem era, foi tomada pela surpresa.
O jovem que se aproximava era Saketsu. Sorria com uma calma estranha, acenando para ela com um simpático:
— Oi.
— S-Saketsu… — gaguejou Lana, incapaz de conter o choque. — Me desculpa… me desculpa mesmo… foi… foi minha culpa…
Ela voltou a chorar, tentando limpar as lágrimas que não paravam de cair.
— Calma, Lana. Está tudo bem. Não foi sua culpa — disse ele suavemente.
— Me desculpa por ter brigado com você… Se eu tivesse atendido o celular… isso… isso não teria acontecido…
— Está tudo bem. As coisas acontecem porque têm que acontecer, não é assim?
Sem conseguir se conter, ela se lançou para abraçá-lo, mas não conseguiu tocá-lo. Foi como atravessar um véu quase imaterial. Ao olhar melhor, percebeu: Saketsu estava mais pálido do que o normal, levemente transparente, a parte inferior de suas pernas já não existindo mais, sendo como se flutuasse.
— Ha ha… sim. Eu sou um fantasma agora. Literalmente. — Ele sorria, embora fosse possível perceber uma certa lástima escondida ali.
Lana abaixou a cabeça. Os punhos cerraram com força, fazendo as unhas cravarem na palma de sua mão até fazê-la sangrar.
Não tinha mais vontade de falar, nem achava que tinha esse direito, pedir desculpas era egoísmo.
Se tivesse permanecido ao lado dele, como havia prometido… Se não tivesse se deixado levar por algo tão pequeno quanto ciúmes… nada disso teria acontecido, estariam vivendo mais um dia comum juntos, como nos últimos tempos, mesmo com tudo o que estava acontecendo.
Instantes depois, os dois caminhavam por uma trilha próxima à floresta enquanto Saketsu contava o que havia ocorrido.
A parte em que explicou sobre Aine — e revelou que Dracarys estava por trás de tudo o tempo todo — foi a que mais atingiu Lana. Sentiu-se ainda mais frustrada consigo mesma ao lembrar como havia se deixado levar emocionalmente por ele. Não contou isso para Saketsu porque não queria decepcioná-lo ainda mais. Então desviaram o assunto para a morte de seu pai.
Saketsu demonstrou tristeza por ela.
— Bom… pra você não ficar sozinha, ir ficar com a senhora Gardênia seria uma boa. Tenho certeza de que ela não se incomodaria em receber você.
— Mas e quanto a você?
— Eu vou ficar bem. Nessa forma eu nem sinto fome, nem preguiça… tô de boa. Fora que agora posso atravessar paredes, ficar invisível, sondar as pessoas… — tentou brincar. — Só queria ter morrido com uma roupa melhor.
Ele vestia uma calça jeans e uma camisa básica meio velha. Lana já tinha ouvido falar que, quando alguém morre, às vezes o espírito permanece com a roupa do momento da morte.
— Enfim… acho que é isso.
— O que você vai fazer agora? — perguntou ela.
— Não sei. Talvez aproveitar pra andar por aí assombrando as pessoas um pouco. Quem sabe. Mas, de acordo com o que Ukyi disse, meu tempo aqui é curto.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Eu percebo que estou sumindo cada vez mais, não sei quanto tempo ainda tenho.
Lana não respondeu, apenas abaixou a cabeça.
— Pode me fazer um favor antes de eu partir? — ele perguntou. — Entregue meus mangás do Uãne Pice para o Enzo e minhas outras coleções para o Tales. Diz pra eles continuarem sendo as pessoas maneiras que são. Desejo boa sorte pros dois… ainda mais pro Enzo, já que ele tem que lidar com a Pimentão.
Saketsu falava como alguém que deixava suas últimas palavras para o mundo.
— E falando nela, diz pra ela ser um pouco menos estressada e aprender a relaxar. A vida é uma só. Depois que morre… bom, é isso aqui que você está vendo. E fala pra Lari que desejo tudo de bom pra ela também. Que não precisa mais chorar como chorou hoje por minha causa. Ela e o Tales formam um belo casal.
Lana apenas assentia com a cabeça, emocionada.
— E pra você, Lana… não precisa ficar desse jeito. Eu sei que uma hora tudo vai dar certo. Não vai demorar. Independente de onde eu estiver, sempre vou estar olhando por você. E, se de alguma forma eu puder, estarei te protegendo.
— Sim — respondeu ela, deixando um sorriso tímido surgir entre as lágrimas.
Saketsu hesitou por um instante.
— Eu queria terminar isso de um jeito mais bonito, mas nem um abraço eu posso te dar agora. Então, se dizer é a única coisa que posso fazer, e eu nunca disse isso antes… Bem, quero que saiba que... eu amo você.
Os dois sorriram um para o outro. Lana enxugou os olhos e Saketsu deu as costas.
— Agora vou indo nessa. Lembrei que tenho uma coisa que preciso fazer. Quem sabe mais tarde a gente ainda consiga passar mais um tempo juntos, antes que minha hora aqui acabe.
— Estarei te esperando.
Ele apenas ergueu uma das mãos e acenou sem olhar para trás, seguindo seu caminho.
— Tu não devias sair fazendo promessas assim — disse Ukyi, surgindo ao lado dele poucos segundos depois.
— Eu sei. Mas não pretendo sair deste mundo sem cumprir. Se depender de mim, meu último momento aqui será com ela.
Ukyi permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando adiante.
— O que pretendes fazer agora? Para onde estás seguindo?
— Estou indo para minha outra casa. Preciso cumprir algo que prometi anos atrás que faria quando morresse.
Saketsu cerrou os punhos e seu olhar endureceu.
— Eu não sei o que me espera, mas sinto que ainda não acabou pra mim. Quem sabe eu ainda tenha a chance de acabar com Dracarys… não, com o tal deus desgraçado que agiu através dele para acabar com minha vida.
Ele parou, olhando para o horizonte.
— Além disso, a profecia da bruxa ainda não se realizou por completo. De acordo com ela, eu vou estar envolvido no que vai acontecer com o mundo.
────────⊹⊱💀⊰⊹────────
Dracarys caminhava por uma rua de uma parte mais isolada da cidade quando percebeu um letreiro onde se lia: “Loja Esotérica da Bruxa Carla — Artigos Místicos e Religiosos”.
— Ora, eu estava mesmo pensando em ir para um lugar desses. Ainda preciso compreender melhor a energia deste mundo, que é tão diferente do meu — disse, com um leve sorriso.
Então entrou, fazendo o sino da porta soar.
O lugar era pequeno, mal iluminado e meio sombrio, repleto de prateleiras com objetos inusitados: potes de ervas, velas, ferramentas ritualísticas e várias outras bugigangas. Para Dracarys, aquilo era agradável, ainda mais com o forte cheiro de incenso impregnando o ambiente.
Não havia ninguém ali, nem mesmo no balcão.
Dracarys chamou, mas ninguém respondeu.
Estranhando, e com a intuição gritando alto, sentiu-se tentado e ultrapassou o balcão e a pequena porta além dele.
Acessou uma pequena sala cercada por cortinas, com uma mesa redonda no centro, e continuou avançando até outra bela cortina de contas que servia como passagem.
— Com licença.
Ele abriu uma fresta com a mão e sondou o outro cômodo, deparando-se com um quarto iluminado por velas e uma mulher sentada diante de seu altar, em uma postura estranha.
A bruxa estava ofegante, mantendo as mãos sobre uma bola de cristal, com os olhos revirados como se estivesse enxergando além daquele plano.
A energia emanada por aquilo era impressionante, afetando até as chamas espalhadas pelo ambiente.
— É o fim… Este mundo vai ser destruído… As criaturas são reais… Elas irão tomar tudo…
Ela começava a falar enquanto parecia entrar em uma espécie de convulsão.
Era muita carga energética sendo recebida ao mesmo tempo, até que, enfim, não aguentou mais e se projetou bruscamente para trás, quase caindo com a cadeira.
Dracarys não estava entendendo nada. Aproximou-se da mulher para observá-la melhor e percebeu que ela parecia sofrer de uma forte doença degenerativa: sua pele estava afetada como por uma radiação, já em estágio avançado, e ela mal mantinha qualquer sinal de consciência.
Em uma das paredes iluminadas pela vela, Dracarys percebeu uma sombra animalesca surgir.
A sombra moveu-se em direção à sombra da mulher e, ao esticar a bocarra cheia de dentes pontudos, devorou sua cabeça em uma mordida, fazendo no mesmo instante a cabeça real dela também ser esmagada, espirrando sangue para toda parte, inclusive no rosto de Dracarys.
— Uau… O que foi isso? Ran. Isso que dá acessar o que não deve.
Passou a mão no rosto para limpar o sangue.
Quando ia sair, percebeu três cartas de tarot viradas sobre o altar: O Diabo, A Torre e O Mundo. Mesmo sem muita familiaridade com elas, compreendia muito bem o que significavam.
— Huhuhuhu… Hahahahahaha! Eu vou adorar estar aqui para ver isso!
E foi embora, passando a esperar ansioso pelo evento que iria abalar o mundo.
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