Fantasma Sombrio Brasileira

Autor(a): Pedro D'Arck


Volume 1

Capítulo 13: Pendência vingativa

Todos, com exceção de Tito, Nino e Heitor, que já deveriam estar bastante longe dali, continuavam parados, perplexos depois que os gritos de Agatha se silenciaram.

Com certeza ela havia sido pega pelo tal homem. Cada um sentia a vontade de voltar para ajudá-la, mas não eram ingênuos: sabiam que não poderiam fazer nada, já que, para piorar a situação, o sujeito parecia estar armado com algum tipo de bastão metálico e uma luva composta por garras.

Só que Saketsu podia fazer algo, pensava. Era o único ali com alguma capacidade real.

Ele se virou, pretendendo voltar, mas acabou sendo segurado pelo braço por Inácia.

— Você não está pensando em… — disse ela.

— A gente precisa ajudá-la. Ela é nossa amiga, não podemos deixá-la lá — determinou Saketsu.

— Ei, cara, talvez… talvez… — Tales parecia querer dizer algo, mas as palavras ficavam presas na garganta. Era difícil nomear o que, pelo jeito, havia acontecido com Agatha.

— Talvez ela já tenha morrido — completou Lana por impulso, pasma.

Infelizmente, todos ali, no fundo, pensavam a mesma coisa — exceto Saketsu.

— E vocês simplesmente vão aceitar isso? Não vão nem ao menos checar?! Ela é uma de nós! — Ele olhava para todos. — Eu não sei vocês, mas eu vou, nem que seja só para me vingar daquele maldito!

Saketsu balançou o braço e se desvencilhou de Inácia, que já nem fazia mais força para segurá-lo, e começou a andar.

— E o que você acha que vai conseguir fazer? Não entende que pode acabar se machucando também?! — ponderou Esther.

— Sim, é perigoso! — concordou Lari.

— Até parece… — Saketsu soltou um riso frustrado. Parou depois de alguns passos e olhou por cima do ombro. — Vocês não fazem ideia do que eu sou capaz de fazer — disse com seriedade absoluta, insinuando seu lado sobrenatural que todos desconheciam.

Enzo riu pelo nariz. Tales pareceu ser contaminado por aquilo também. Então, para surpresa das outras, os dois começaram a andar em direção a Saketsu.

— Esperem, aonde vocês vão? … Você também? — perguntou Inácia, vendo os dois passarem por ela.

Enzo, Saketsu e Tales olharam para Lana, Inácia, Lari, Esther e Elisa.

— Não se preocupem. Nós três damos conta. Sempre demos — garantiu Enzo a Inácia.

Eles se viraram e seguiram em direção ao muro.

— Vamos — chamou Lana, mais calma, pousando a mão no ombro de Inácia, que observava as costas deles com uma expressão de completo desacordo. — Eles vão conseguir, confie. O que podemos fazer agora é procurar ajuda.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Os três garotos voltaram para o lado de dentro do cemitério. O cenário estava quieto e solitário, sem nada de diferente à primeira vista, tudo normal… apenas túmulos.

Não.

Havia uma pequena poça de sangue logo à frente.

— Com certeza é dela — disse Tales ao se aproximar e examinar com cuidado.

Mais adiante, Enzo já observava outros pequenos rastros.

— Podemos achá-la se seguirmos o sangue — disse Saketsu, avançando. — Vamos.

E seguiram apressados, com os olhos atentos ao chão, acompanhando cada mancha vermelha.

Correram, correram e correram. Não havia sinal de Agatha nem do homem, nem mesmo sons além dos próprios passos.

Por fim, chegaram à outra extremidade do cemitério, onde o rastro de sangue terminava. A única coisa visível era uma placa de pedra encostada na parede.

Não demorou para entenderem o que aquilo significava.

Aproximaram-se e a arrastaram para o lado, revelando uma abertura feita de qualquer jeito, apenas larga o suficiente para alguém passar. Eles entraram.

A passagem dava acesso a outra parte da floresta. Ali já não podiam contar com o sangue, pois o ambiente estava escuro sob a sombra das grandes árvores.

No entanto, havia uma trilha visível à frente. Presumiram que o homem a havia seguido e decidiram fazer o mesmo.

Avançaram mais rápido, a grama roçando nas pernas enquanto corriam.

Logo se depararam com uma velha cabana de madeira no meio de uma clareira. Os garotos pararam e se imobilizaram, escondendo-se atrás das árvores.

A cabana, que mais parecia um mini celeiro abandonado, estava caindo aos pedaços. Precisavam confirmar se Agatha estava ali com o homem — e, caso estivesse, o melhor seria não serem notados, por enquanto.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Era o lugar certo.

Por dentro, o ambiente era ainda mais descuidado que o exterior. Fendas no teto e nas paredes deixavam o luar invadir o espaço. Parecia uma despensa para ferramentas… ou pior, um cativeiro para tortura.

Agatha estava amarrada nua por grossas cordas a uma cadeira encostada na parede.

— Ahn… — começou a recobrar a consciência.

Seu corpo estava coberto de hematomas e arranhões. A respiração era pesada, e mal tinha forças para abrir os olhos.

O homem, de costas, mexia em ferramentas sobre a mesa enquanto cantarolava de boca fechada. Nem se deu ao trabalho de amordaçá-la; mesmo que gritasse, sabia que ninguém a ouviria ali.

Ao olhar por cima do ombro, a via fraca, o que a fazia parecer meiga. Mas ele pretendia dar um jeito de animá-la. Ah, sim. Ela precisava estar no estado perfeito para sentir e "apreciar” o momento que ele planejava.

Preparou uma seringa e se virou para Agatha, que arregalou os olhos ao ver a substância bege dentro dela.

— Não… por favor! — tentou se debater, mas os movimentos eram fracos, inúteis. Indefesa, só podia assistir à agulha se aproximar e injetar em sua veia no pulso.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

Os garotos se aproximavam discretamente da cabana quando ouviram o grito de Agatha.

No mesmo instante, esqueceram qualquer cautela.

Invadiram o lugar, arrombando a porta com violência.

Agatha estava lá, presa à cadeira, ofegante, e o homem segurava uma seringa vazia enquanto mantinha o queixo dela erguido com a mão, desta vez sem as garras.

O homem os encarou.

— Ora, ora… o que temos aqui? Três menininhos — disse com uma voz suave e sádica.

Sua aparência lembrava um caipira comum, mas o jeito era astuto, frio e doentio: um psicopata. Para Saketsu, aquilo lembrava demais Dalton, fazendo a raiva crescer ainda mais.

Os garotos estavam tensos, tentando não deixar o ódio dominar. O homem assumiu postura de guarda e pegou um gancho sobre a mesa.

— O que você está fazendo com ela? — perguntou Enzo.

— Você vai se arrepender disso! — ameaçou Tales.

O homem começou a avançar devagar. Passou o gancho para a outra mão e apanhou uma faca que também estava sobre a mesa. Continuava se aproximando, como um animal estudando a presa antes do ataque.

Os garotos entraram em guarda. Atacar, fugir ou defender. Contra um homem armado e eles sem nada, a escolha era óbvia.

Quando o homem avançou de vez, todos tentaram escapar — menos Saketsu.

Ele investiu para cima com um soco carregado de fúria.

O homem se agachou com agilidade, sumindo do campo de visão, e, no instante seguinte,Saketsu sentiu uma dor brutal, como se uma rocha atingisse seu estômago.

Havia recebido uma joelhada.

Saketsu se curvou, ofegante, vendo apenas a sombra do homem passar por ele. Então veio a pontada seca na costela.

— Saketsu! — gritaram Tales e Enzo juntos.

O corpo dele caiu após a facada.

E o homem, sem hesitar, continuou avançando em direção aos outros dois.

De bruços no chão, Saketsu já não conseguia se mexer. Sentia a força se esgotar, a consciência lutando para escapar, abrindo espaço para uma dor quente e afiada, como se álcool fosse derramado sobre uma ferida aberta.

Via os pés do homem se afastando e, atrás deles, os rostos espantados de Enzo e Tales. A visão começava a perder o foco, escurecendo aos poucos, até que… tudo se apagou.

────────⊹⊱💀⊰⊹────────

— …Ele era um bom homem. As pessoas que sempre tiveram preconceito… Ser diferente é ser tratado como louco… Demonstrar amor do jeito dele foi errado? Precisavam matá-lo depois de tudo o que ele deu? Carinho, atenção… Ele não merecia… — a voz continuava, arrastada e doentia. — Demorei, mas tive uma ideia brilhante. Eu sabia que vocês sempre comemoravam o aniversário da morte dele… Segui vocês… Sei tudo sobre vocês. Até onde seria a festa. A única surpresa foi vocês irem visitá-lo pessoalmente, justo na hora que eu fui. Eu pretendia me vingar de vocês e, no fim, vocês ajudaram bastante. Depois que eu terminar aqui, vou atrás dos outros… Ah. Você acordou.

Saketsu ouvia uma voz adulta ecoando dentro da cabeça. A consciência retornava em fragmentos.

Onde estava?

Sua visão clareava lentamente.

Uma fraca luz entrava por frestas nas tábuas do teto. Era a luz do luar.

Ao virar o rosto, algo o despertou de vez.

Tales estava ao seu lado, amarrado, sangrando pela boca, coberto de hematomas. Estava acordado, mas ausente, com os olhos vazios e as pálpebras pesadas, como alguém que não dormia havia dias.

Do outro lado, Enzo estava no mesmo estado.

Todos com as mãos presas atrás das costas.

À frente deles, o homem permanecia de pé, o rosto escondido pela sombra.

— Você acordou na hora certa — disse. — Eu estava contando como vocês destruíram a vida do meu irmão. Vocês do quarto-ano C, fizeram com que ele tivesse uma morte lenta e dolorosa. Tudo porque ele era “bom demais” para vocês. E agora… como é sentir dor? Não chega nem perto do que ele sentiu, mas vou tentar caprichar. Só preciso escolher, por quem irei começar?

Saketsu mal conseguia processar. A cabeça girava enquanto o homem se virava e começava a mexer na mesa. O som de metal, ferramentas e peças sendo arrastadas ecoava no galpão.

— Este era o brinquedo favorito dele… Vou usar em homenagem.

Brinquedo?

O corpo de Saketsu estava mole, como se tivesse passado dias sem dormir. A mente apagava aos poucos. Parecia quando virava noites na frente do computador, indo até onde dava com a ajuda do café, mas no fim sempre acabava adormecendo sem perceber... Seus sentidos simplesmente iam sendo levados...

No entanto, se despertou totalmente com um alto grito que surgiu de repente.

Saketsu virou o rosto.

Agatha ainda estava presa à cadeira, tremendo, coberta de marcas e sangue fino nos braços e no tronco. O homem estava diante dela usando novamente a luva de garras metálicas.

Ele deslizava as pontas afiadas pela pele da garota com falsa delicadeza. Cada toque deixava linhas vermelhas que se abriam em dor.

— Belo corpinho… — murmurou com ironia. — Pena que não sabe apreciar carinho.

Agatha chorava, implorando para que parasse. Cada pedido só parecia divertir mais o homem.

— Pare… — Saketsu conseguiu dizer, com a voz fraca.

O homem virou o rosto lentamente.

— Ah… eu quase esqueci de você. Perdão. — Afastou-se de Agatha e pegou uma seringa da mesa. Aproximou-se de Saketsu e se agachou à sua frente. — Não tenha pressa. Logo chega sua vez. Por enquanto, vamos te deixar bem acordadinho.

Enfiou a agulha no braço dele e começou a injetar a substância bege.

— Eu… vou acabar… com você… — murmurou Saketsu.

— Que falta de educação… — sorriu o homem. — Papai do Céu não gosta disso. Mas tudo bem. Já, já conversamos melhor.

Ele se levantou e voltou para Agatha.

Saketsu fechou os olhos, ouvindo os sons do sofrimento dela ecoando pelo galpão.

A raiva crescia como fogo sob a pele.

E então algo mudou.

O corpo de Saketsu começou a reagir.

O torpor sumia. Os sentidos se ampliavam. A visão clareava, o coração batia mais forte. A mente despertava rápido demais.

A substância estava fazendo efeito.

Os gritos de Agatha soavam mais próximos. Mais reais. Mais intoleráveis.

Saketsu abriu os olhos.

— SOLTA ELA, SEU LIXO! — explodiu. — MALDITO! EU VOU TE MATAR!

O homem riu.

— Olha só… virou um cachorrinho bravo. Espere um pouquinho que logo logo eu disponibilizo os ossos da sua amiguinha.

— EU VOU ACABAR COM VOCÊ! VOU TE QUEIMAR VIVO ASSIM COMO SEU IRMÃO!

O sorriso do homem morreu.

O ar ficou pesado.

A expressão dele se deformou em ódio.

— Sa… ke… tsu… Su... ra... — a voz saiu trêmula de fúria. — EU VOU TE ESTRIPAR!

Ele avançou.

As garras metálicas cravaram no estômago de Saketsu.

Uma.

Duas.

Três vezes.

— COMO OUSA FALAR DO MEU IRMÃO?! MORRA!

O som do impacto ecoava. O corpo de Saketsu era sacudido a cada golpe. Sangue espirrava no chão e nas paredes.

Depois de algumas perfurações, a dor virou algo distante.

O mundo parecia estranho.

Confuso.

Quase… agradável.

Mesmo sendo destruído, Saketsu sentia algo crescer dentro de si.

Adrenalina.

Êxtase.

Um sorriso involuntário começava a se formar entre os dentes manchados de sangue.

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