Volume 1
Capítulo 1: O mal dá as caras
“Coisas estranhas estão acontecendo com pessoas em toda parte do mundo, especialmente aqui no país: mais centenas entraram em estado de coma repentino e misterioso. Como infelizmente esperado, nenhuma delas mostrou sinal de despertar.
Só em Veraluz, e nas áreas próximas, já há mais de quinze casos em menos de sete dias — e o número provavelmente continuará a crescer. Médicos e cientistas afirmam não saber a causa por trás disso; simplesmente está acontecendo, e é preocupante.
Profissionais da saúde estão começando a considerar que essas pessoas entraram em um tipo de ‘estado de morte’.
A pergunta é: que doença seria essa? Estaria tudo relacionado à teoria levantada por teólogos de que as vítimas foram atacadas espiritualmente, tendo suas almas drenadas de seus corpos?”, comunicava a bela repórter.
Sentado no sofá enquanto terminava um pacote de fritas de um restaurante japonês chamado “Lecanto Di Saboru”, o garoto demonstrava tédio diante do noticiário — um mistério que começara há cinco semanas e desde então mantinha a população inteira apreensiva.
Mesmo sabendo, no fundo, que poderia ser a próxima vítima do “coma”, que aparentemente podia atingir qualquer um sem aviso ou meio de prevenção, ele não dava tanta importância — a preocupação com a estreia da temporada do anime na semana seguinte era maior.
— Por mim que se dane o mundo e essas pessoas que eu nem conheço — murmurou, tomado por um rancor reprimido, arremessando o pacote vazio no cesto ao lado, junto de várias outras embalagens espalhadas até mesmo pelo chão.
A noite mal dormida o deixava irritadiço. Quando acordara meia hora atrás, parecia um zumbi — a cabeça pesada, a consciência carregando resquícios do pesadelo: correria, sangue, monstros, caos, morte…
Mas aquilo nem era o pior. Sonhos horrendos já não o afetavam tanto se comparados às experiências da infância. O que realmente odiava eram as enxaquecas pós-despertar, que ultimamente vinham mais fortes, embora sumissem alguns minutos depois.
Além disso, embora às vezes virasse a noite jogando ou assistindo séries, bagunçando a própria rotina, dessa vez o motivo havia sido ansiedade.
Era a primeira semana de fevereiro — seu primeiro dia de aula no ensino médio na escola pública. Um nível mais puxado. Teria que sair de casa quase todos os dias para ir a um lugar chato, sentar a bunda em uma cadeira o dia inteiro para acompanhar assuntos chatos, cercado de pessoas chatas.
Mas havia um lado bom: graças à lista de alunos divulgada no site da escola, descobrira que, além de seus dois melhores amigos, também cairia na mesma sala que a “dona de seu coração”. E isso o fizera rolar inquieto na cama a noite toda.
“Como será que ela está? Será que vai ficar impressionada ao me ver?”, perguntava-se animado, imaginando cada cena possível.
Bem no fundo sentia que aquele ano tinha tudo para ser incrível — ou pelo menos sem nada incomum para afligi-lo como sempre. Suas expectativas deram uma pausa quando seus olhos cor de ametista arregalaram ao ver a hora no canto da TV: 07:38.
— Já?! Por que o tempo passa tão rápido quando não é pra passar?! — exclamou, pegando a mochila e saindo correndo porta afora, batendo-a ao sair.
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Rodeada por morros, prédios distantes, casas simples e um clima ameno, Veraluz era ideal para quem buscava tranquilidade, tanto que o único grande problema era o misterioso “coma” que colocava tanta gente para dormir sem explicação. E, afinal… o que um monte de gente desacordada poderia fazer?
Apesar de ser verão, o dia nublado e o vento alternado sugeriam que a qualquer momento poderia chover. Os passos apressados do garoto levantavam poeira conforme ele cortava caminho. Toda essa preocupação com o atraso não era por responsabilidade ou disciplina, longe disso…
— Nem ferrando que vou perder meu lugar no fundão! — Era isso que realmente importava. Até mudara sua rota para chegar mais rápido.
À frente, viu duas senhoras fofocando, e uma delas sussurrou com surpresa ao vê-lo:
— Aquele não é o garoto que os pais…
— Xiu! Acho que é sim.
Ele passou por elas com uma expressão irritada. Mesmo depois de tudo, aquilo ainda acontecia de vez em quando — e era sempre um saco.
No fundo sabia que seu passado tornava impossível fazê-lo ter uma vida totalmente normal. Afinal: quem perde os pais cedo, é rejeitado pela sociedade por supostamente ser o culpado, passa a infância sendo assombrado por fantasmas, é adotado por um maluco aleatório que o batiza com um nome estranho e depois desaparece, o deixando sozinho…?
Daria pra ser normal nessas condições?
Mesmo assim, sentia que um novo ano estava começando. Um recomeço. E ele estava determinado a não deixar o passado contaminar seu futuro.
Seguiu por mais um minuto até ver um garoto saindo de casa, trancando o portão. Foi diminuindo os passos enquanto se aproximava, até parar.
Aquele a uns três metros à frente tinha uma aparência meio punk: cabelos negros espetados, franja cobrindo metade do rosto. Trajava o uniforme escolar: calça preta lisa e camisa social branca com o brasão bordado no lado esquerdo.
— O que faz aqui, Saketsu? — perguntou o garoto com frieza ao notá-lo, os olhos âmbar mal visíveis sob a franja.
— Não te interessa, Iuri — Saketsu respondeu de forma ríspida, com expressão desafiadora e um sorriso provocativo, que logo se fechou em seriedade.
A tensão entre os dois era visível. Mas foi interrompida pela doce e familiar voz atrás de Iuri:
— Bom dia, Iuri.
Saketsu inclinou-se para enxergá-la: uma linda garota de longos cabelos negros, uniforme igual ao deles, com exceção da saia e das meias pretas até quase os joelhos. Os dedos brincavam nos fios sobre o ombro. As presilhas mantinham a franja presa para o lado esquerdo, dando destaque aos belos olhos verde-esmeralda desviados timidamente.
Um calor estranho surgiu no peito de Saketsu, e um sorriso bobo escapou sem que percebesse.
— Bom dia, Lana. Como vai? — cumprimentou gentilmente.
Mas ela mudou o semblante imediatamente, respondendo com incômodo. O sorriso dele fraquejou por dentro: “Eh… acho que ela ainda não gosta de mim…”
— O que está fazendo aqui? Que eu saiba, você mora do outro lado da cidade — Iuri partiu logo para o que interessava, com seu jeito frio de sempre.
— Bom, é que... já que... é nosso primeiro dia de aula... achei que pudéssemos ir juntos — ela respondeu, voltando com seu jeito doce e gentil, agindo com tanto acanhamento ao ponto de nem conseguir olhá-lo direito.
— Tsc. Posso ir sozinho. Não preciso da companhia de alguém irritante como você — rosnou, passando por ela, que ficou paralisada, chocada.
Vendo aquilo, Saketsu sentiu uma certa repulsa, porém não ousou fazer ou falar nada. Conhecia Iuri e sabia que esse tipo de comportamento fazia parte de sua personalidade. Alguns instantes depois, o máximo que conseguiu foi se aproximar de Lana. Ao vê-la parada, olhos cheios de lágrimas mirando o chão, sentiu um aperto no peito também.
Ele não compreendia — não entendia por que ela se esforçava tanto e sofria por alguém que sempre a tratara tão friamente. Ou talvez entendesse um pouco, já que, de certa forma, sempre estivera no lugar dela, enquanto ela, sem perceber, ocupava o lugar de Iuri, formando assim um círculo de paixões não correspondidas.
Saketsu queria ter alguma forma de melhorar a situação. Queria se aproximar, ajudá-la, dizer tudo aquilo que guardava há anos, mas, sem ideia alguma de como fazer isso, apenas tocou o ombro da garota e disse:
— Não fique assim, Lana. O Iuri é muito otário. Mas tenho certeza de que uma hora ele vai perceber a grande pessoa que está perdendo.
Lana levantou a cabeça, surpresa ao ver o sorriso confiante e gentil de Saketsu tentando confortá-la. Uma atitude inesperada demais, ainda mais considerando que ela o havia desprezado não fazia nem um minuto.
Contudo, os dois foram interrompidos quando perceberam Iuri parar mais adiante, até que, de repente, simplesmente desabou de bruços no chão.
O espanto foi imediato.
Enquanto Lana permaneceu imóvel, mão na boca, quase sem reação, Saketsu avançou com cautela até ele.
— Ei, Iuri, o que houve? Vai ficar aí no caminho mesmo? Levanta daí, cara, que brincadeira sem graça.
Mas não houve resposta. Nenhum sinal de vida sequer. Apenas aquele corpo imóvel e um pressentimento estranho que rastejava cada vez mais desagradável pela espinha de Saketsu, provocando um calafrio detestável.
Quando se aproximou o suficiente, agachou-se e sacudiu o ombro de Iuri. Não teve dúvidas: ele havia perdido totalmente a consciência. Nesse instante, a lembrança do noticiário que assistira há pouco atravessou sua mente. Se fosse aquilo que estava pensando, seria realmente problemático.
Foi então que seus fios negros balançaram com o vulto que passou rápido ao seu lado — e, no segundo seguinte, ouviu o grito da garota atrás de si.
— Lana! — Virou-se a tempo de ver o pescoço dela contorcer violentamente para o lado, acompanhado de um som seco de “crack”.
O corpo da garota perdeu toda a força, caindo como um fantoche com as cordas arrebentadas.
— O que você fez?! — Saketsu encarou Iuri, o autor do ato perverso, agora parado de pé atrás do corpo estirado da menina.
Instintivamente, olhou para trás… e o corpo de Iuri ainda estava ali, caído. Voltou-se para frente — e havia outro Iuri. Idêntico. Até na roupa.
“Como assim existem dois dele aqui? O que está acontecendo?”, pensou, completamente sem reação.
— Isso foi por sua culpa — disse finalmente o assassino. A feição era vazia, mas os olhos, arregalados, exibiam puro espanto… não. Insanidade. A verdadeira expressão de um psicopata.
Um vento estranho surgiu, arrastando folhas e balançando os galhos das árvores, enquanto o clima ficava mais pesado e o céu começava a se fechar.
No chão, ao lado de Iuri, uma pequena sombra arredondada se formou e começou a se expandir — não muito, apenas o suficiente para que algo começasse a sair dela. E saiu. Um pomo dourado, que rapidamente se revelou como um crânio ao emergir, conectado a um cabo negro que continuou a se erguer, até mostrar que fazia parte de uma lâmina larga da mesma cor.
A sombra servira como um portal. Iuri segurou o cabo e puxou a arma com força, erguendo-a para o alto com as duas mãos. Era uma espada quase do tamanho dele, com um desenho enraizado brilhando em vermelho vivo na base da lâmina negra. Era uma arma que, claramente, não pertencia a este mundo.
Logo, uma eletricidade azul começou a percorrê-la, estalando de forma ameaçadora. Por impulso, Saketsu se lançou sobre o corpo de Lana para protegê-la. Quando se deu conta, viu a lâmina vindo em sua direção para parti-lo ao meio.
Nem teve tempo de pensar antes que tudo se tornasse pura escuridão.
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— Não! — gritou, sentando-se rapidamente ao despertar.
Ainda estava meio escuro, mas, ao olhar em volta, logo percebeu que estava em um lugar diferente — o chão do seu próprio quarto.
Achava que havia acabado de sair de um pesadelo, porém, ao olhar para frente, sentiu como se tivesse caído em outro. Um enorme par de olhos vermelhos, reluzentes e assustadores o encarava de muito perto.
O susto o fez se levantar tão rápido que recuou até bater de costas na parede, esticando o braço para alcançar o interruptor e acender a luz.
Com o coração disparado, conseguiu finalmente ver com clareza a coisa medonha que o fitava: uma criatura humanoide de cerca de meio metro de altura, com características semelhantes às de um gato preto — porém sem boca, sem focinho e sem pálpebras, o que deixava aqueles enormes olhos inteiramente vermelhos sempre abertos, fixos nele.
Além disso, havia outro detalhe impossível de ignorar: um crânio dourado fundido no centro da testa da criatura, com cerca de quinze centímetros de diâmetro, contendo apenas a parte superior dos dentes.
O ser estava no centro de um grande hexagrama riscado por algo pontiagudo no chão do quarto, marcada dentro de cada ponta por desenhos geométricos — triângulos, círculos — como um símbolo macabro de ritual.
— O que está acontecendo?! Por que tem um demônio aqui?! Você veio buscar minha alma, não é?! — perguntou, em pânico, mantendo o máximo de distância possível. — Isso só pode ser um sonho… Eu quero acordar! — gritou.
— Não entendas mal — disse o ser, com um tom neutro e mecânico, quase robótico. O timbre, se fosse possível classificá-lo, parecia masculino. Sem boca, era impossível saber de onde o som saía. — Temos que esclarecer algo que tornará nossa relação menos hostil: eu não sou um demônio. Estou aqui para guiar-te e proteger-te. Hoje é o dia em que tua vida há de mudar.
— Do que está falando?
Saketsu se assustou quando o felino se moveu, mas ele apenas caminhou até a mesa de trabalho e subiu nela com um salto leve. Depois, com o pequeno braço peludo, arrastou a cortina para o lado e olhou pela janela, chamando-o:
— Olhe.
— O quê?! — aproximou-se e travou ao ver. — Quem é essa gente toda?
Na rua, logo em frente à casa, havia pelo menos uma dúzia de adultos olhando diretamente para o quarto de Saketsu, no segundo andar. Os olhos deles brilhavam em um vermelho sobrenatural, parecido com os da criatura — porém mais malignos, de arrepiar.
— Não são humanos. Pelo menos não totalmente — explicou o felino. — Estão possuídos por criaturas de outro mundo e tornaram-se algo que podes chamar de “zumbis sobrenaturais”.
— E por que estão aqui? — perguntou, engolindo seco.
— Para matar-te, já que tu és um “glasbhuk”.
— Um “o quê”?!
— Na tua língua, a melhor definição seria “fantasma-sombrio”, um espírito regido pelo elemento treva. Contudo, receio que mais explicações fiquem para depois. Temos que priorizar derrotá-los.
— Ah, é? E como pretende fazer isso?! Eu não sei lutar! E somos só dois contra um monte lá fora!
— Acalme-te. Há um jeito. Porém, para isso, tu terás de largar este teu corpo. — Ele olhou para Saketsu, observando a expressão horrorizada do garoto que dava passos para trás.
— Eu sabia! Você quer a minha alma! Quer me matar, né?! Seu demônio imundo dos infernos! — acusou, apontando.
— Esquece essa ideia de “demônio”. Já disse-te: estou aqui para ajudar-te. Tens de acreditar em mim. — Então virou-se totalmente para ele e concluiu: — Chame-me de Ukyi. Como já dito, sou teu espírito protetor. Caso queiras sobreviver, terás de lutar contra o destino sobrenatural que começou a cair sobre ti.
Saketsu encarou o ser desconfiado, tentando decidir se deveria mesmo acreditar nele. Mas a situação não deixava muita escolha. E, sinceramente, entre confiar naquele “protetor” estranho ou nos zumbis da rua, a decisão era óbvia.
— Tudo bem então, “Ukyi”. Vou confiar em você — decidiu. — E então… qual é o plano?
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