Volume 3
Capítulo 1: Através das notícias
Eu estava me preparando para ir à escola, então a rotina era familiar. Coisas como tomar café da manhã ou colocar o uniforme eram rotineiras, mas fazer isso em um lugar que não era a minha casa parecia muito estranho. Eu estava vestido com o mesmo uniforme de sempre, mas pronto para sair de um lugar diferente.
Acho que sou o único que tá assim... Bem, pra Nanami-san, é o mesmo de sempre.
— Estou indo. Vamos. — chamei as outras pessoas ao sair pela porta.
— Certo, tenham um bom dia vocês dois. Cuidem-se, hein. — Tomoko-san, que usava um pijama roxo bonito, esfregou os olhos enquanto se despedia de nós.
— Tchau, mamãe. — disse Nanami, antes de baixar a voz — Nossa, é super raro ver a minha mãe acordada tão cedo.
Retiro o que eu disse antes.
Pelo visto, esta manhã também não era exatamente normal para Nanami-san. Eu tinha ouvido falar que Tomoko não gostava das manhãs, mas não sabia até que ponto isso era verdade.
— Não se esforce demais, Tomoko-san. Estamos indo. — disse Otofuke-san.
— Sim, não adianta nada querer fazer tudo e depois não conseguir fazer nada. Falou! — disse Kamoenai-san.
Ambas acenaram para Tomoko-san enquanto saíam de casa. Mesmo com cara de sono, Tomoko-san retribuiu o aceno. Apesar de tudo isto estar acontecendo, eu nunca poderia ter sonhado que nós quatro iríamos juntos para a escola.
— Isso é tão legal... — sussurrou Nanami-san enquanto caminhava ao meu lado — Queria fazer isso todas as semanas.
Embora fosse algo anormal, para mim, também, pareceu revigorante.
Quanto tempo faz desde a última vez que estive em um grupo tão grande?
Talvez um grupo de quatro não fosse tão grande para a maioria das pessoas, mas, para mim, parecia enorme. Na minha viagem de formatura, o grupo era mais numeroso, mas eu sempre ficava sozinho. Mesmo no nosso quarto, eu sempre pegava no sono antes dos outros. Quanto a ir a lugares com pessoas que eu considerava meus amigos, a última vez foi na escola primária.
Ok, ok… não vamos tentar lembrar. É isso ou vou me sentir mais vazio ainda por dentro. O agora é a única coisa que importa.
Falando de atualidade, segui adiante e contei Otofuke-san e Kamoenai-san como minhas amigas, mas não pude deixar de me perguntar se estava tudo bem eu dizer que as amigas da minha namorada também eram minhas amigas. Eu não sabia muito bem como essas coisas funcionavam.
De qualquer forma, tornar-se amigo desnecessariamente de outras garotas era provavelmente ruim, levando a mal-entendidos, mesmo que ambas tivessem namorado. O importante era manter uma distância adequada.
Sim, um senso de distância...
Há apenas algumas semanas, eu evitava encontrar amigos e achava incômodo fazer isso, justamente porque não sabia como manter a devida distância das pessoas. Tinha que admitir que isso trazia seus próprios confortos, mas, de certa forma, eu tinha mudado muito desde então.
— O que foi, Yoshin? — perguntou Nanami-san.
— Hã? Ah, nada. É que já faz um tempo que não caminho para a escola em grupo e aí comecei a perceber como não estou realmente acostumado com toda essa coisa toda.
— Ah, entendi. Mas é divertido passar o tempo assim, né? Sinto como se estivéssemos voltado pro primária ou algo assim. — respondeu Nanami, que parecia estar pensando o mesmo que eu.
「NT: No Japão, é comum que crianças até o 5º ano vão juntas para a escola em grupo com outras crianças do mesmo bairro ou quarteirão. Isso se deve ao fato que um monitor os acompanha. Ao contrário do Brasil, não há locomoção automotiva pública, portanto, restando caminhar.」
Esse pensamento aqueceu um pouco o meu coração e não pude deixar de sorrir. Agora mesmo, ela e eu caminhávamos lado a lado. A forma como nossas mãos se tocavam de vez em quando era tão tentadora quanto frustrante, mas poder sentir o calor dela cada vez era agradável.
Normalmente, estaríamos de mãos dadas, mas como duas amigas dela estavam aqui também, tanto Nanami quanto eu nos contivemos, apesar de, obviamente, elas já terem nos visto de mãos dadas antes.
— Ei, vocês não precisam se preocupar com a gente. Vão em frente, deem as mãos e fiquem de namorico. — disse Otofuke-san ao notar a nossa situação.
— Isso mesmo! Bora, deêm as mãos como sempre. Não tem pra quê se conter perto de nós. — acrescentou Kamoenai-san.
As duas caminhavam a pouca distância de Nanami-san e de mim. Para ser preciso, caminhavam atrás de nós como se estivessem nos seguindo. Mais do que isso, como se quisessem arrancar uma reação de nossa parte e agora exigiam que déssemos as mãos. Parecia que estavam se divertindo. Nanami-san e eu semicerramos os olhos e nos voltamos para olhá-las. Nanami-san até suspirou um pouco.
— É um pouco difícil dar as mãos quando vocês estão pedindo. — disse ela.
— Quê? — exclamou Kamoenai-san. — Mas você se exibiu aquele dia entrando na sala de mãos dadas com ele!
— É estranho quando estão nos observando por trás!
Compreendi perfeitamente o quão desconfortável ela se sentia. Sentir que estávamos sendo estudados me deixava um pouco…
Não, isso nos deixa muito envergonhados.
Mas para Nanami-san, essa não parecia ser a única razão. Ela baixou o olhar para a minha mão e depois se voltou para as garotas.
— Além disso, não quero sentir que estou me gabando por poder ir de mãos dadas a caminho do colégio quando vocês duas não podem fazer o mesmo com seus namorados.
Nós três ficamos em silêncio por um momento, até que, finalmente, Otofuke-san murmurou:
— Céus, você se preocupa com cada coisa...
— Pois é, né? — disse Kamoenai-san. — Digo, estou com inveja, mas ainda assim quero que vocês dois deem as mãos.
Ao ouvir isso, Nanami-san pareceu não saber o que fazer, mas finalmente dirigiu a elas um sorriso gentil.
— Hoje estamos todos juntos, então vamos como um grande grupo.
— Olha, tudo bem se é isso que você quer. Mas o Misumai concorda com isso? — perguntou Otofuke-san.
— Ah, aposto que o Misumai quer dar a mão para ela. — acrescentou Kamoenai-san em tom de deboche.
Ah, céus. Agora eu sou o voto de decisão. O quanto elas querem que nós déssemos as mãos? Digo, não é que eu não quisesse segurar a mão de Nanami-san, mas se ela não se sentia inclinada a fazer, eu não quero forçá-la
— Para ser sincero, — eu disse finalmente — eu quero sim andar de mãos dadas com a Nanami-san, mas também quero respeitar os desejos dela. Além disso, a gente pode dar as mãos quando quisermos, não tem pra quê ter pressa.
Pensei que era melhor darmos as mãos de forma orgânica do que fazer isso só porque alguém nos mandou, no entanto, quando eu disse isso, as duas amigas sorriram, um tanto exasperadas.
— Uau, você realmente diz as coisas como elas são, Misumai. — disse Otofuke-san.
— Sério, como você consegue dizer coisas assim com essa cara? — acrescentou Kamoenai-san.
Elas pareciam impressionadas por algum motivo, mas eu não achava que tivesse dito nada de tão estranho.
Por que eu forçaria a Nanami-san a segurar minha mão se ela realmente não quer isso agora? Isso só vai deixá-la desconfortável…
Enquanto isso, Nanami-san estava ao meu lado, com um sorriso tímido no rosto. Ela também assentia repetidamente e seu sorriso parecia um tanto satisfeito. Ao vê-la assim, tive vontade de voltar atrás e agarrar a mão dela.
No final, Nanami-san e eu nos abstemos de andar de mãos dadas enquanto caminhávamos para a escola, embora nós quatro estivéssemos em uma formação estranha em que Otofuke-san e Kamoenai-san nos flanqueavam pelos dois lados. Por algum motivo, as duas nos bombardearam com perguntas pelo caminho. Naquele momento, eu nem tinha parado para pensar em ir para a escola enquanto nós quatro chamávamos a atenção de todos ao redor.
♢♢♢
Onde há fumaça, há fogo.
É um ditado frequentemente usado quando surge algum tipo de boato, um ditado que descreve como um rumor só começa por qualquer padrão distante por existir algum tipo de correlação.
Pelo menos, é assim que eu entendo.
Mas também existe um ditado com o significado oposto. Dizem que "flores florescem onde não há raízes", significando que até uma história sem fundamento pode se espalhar, ou algo assim. Em suma, um provérbio só é útil quando você conhece o resultado da situação à qual deseja aplicá-lo.
E só quando tudo termina é que você pode decidir qual ditado se encaixa melhor.
Menciono tudo isso agora porque um boato começou a circular pela escola, um boato sobre mim. Achei que o boato era o candidato perfeito para o ditado das "flores que florescem", porque parecia totalmente infundado para mim, entretanto, para as pessoas ao meu redor, aparentemente eu tinha feito algo para provocar a propagação de tal rumor.
Para ser direto ao ponto, na verdade não havia apenas um boato principal, mas três deles:
-
"Nanami Barato terminou com o Yoshin Misumai"
-
"Yoshin Misumai deu em cima de outras duas garotas, embora esteja namorando a Nanami Barato"
-
"Yoshin Misumai tem um harém de três gyarus"
Aff… Esses boatos estão me dando dor de cabeça…
Aliás, esses eram apenas os três principais. Além desses, muitos outros ganharam "braços e pernas", com todo tipo de variação imaginável circulando e se espalhando. Eu nem conseguia imaginar o que tinha acontecido.
Sou só eu ou o primeiro boato é o único que parece minimamente possível?! Na verdade, ele não tem nada a ver com os outros dois!
Sobre como os boatos surgiram, gostaria de oferecer uma explicação, embora misturada com algumas das minhas próprias especulações. Em primeiro lugar, no dia seguinte ao nosso encontro no aquário, Nanami-san e eu entramos na sala separadamente.
Na verdade, foi uma coincidência.
Logo após chegarmos à escola, tive uma dor de estômago e acabei me separando de Nanami e suas duas amigas.
Digo, eu não estava muito acostumado com essa coisa de dormir fora, então meu corpo reagiu de um jeito estranho, sabe? Mas não adianta dar desculpas...
De qualquer forma, por causa disso, Nanami-san e suas amigas entraram primeiro na sala e eu cheguei mais tarde, mas se esse tivesse sido o único incidente, boatos como esses não teriam começado.
O próximo fator em tudo isso foi o meu novo corte de cabelo.
Permita-me começar dizendo que não se tratava de um daqueles eventos típicos em que me torno popular entre as garotas porque cortei o cabelo, deixando a Nanami-san com ciúmes. Na verdade, o problema era que eu, com meu novo corte de cabelo, entrei na sala sozinho. Não apenas não tinha entrado na classe de mãos dadas com a Nanami-san, como também tinha mudado de aparência.
Só posso supor que esses dois fatores combinados geraram suspeitas desnecessárias nas pessoas que nos rodeavam.
Na realidade, era mais raro entrarmos na sala de mãos dadas do que sozinhos ou sem estarmos de mãos dadas, mas, como já tinham nos visto fazer isso algumas vezes, nossos colegas começaram a fofocar entre si porque não o fizemos justamente daquela vez.
O terceiro fator que provavelmente contribuiu para o meu tormento foi que vários alunos nos viram, nós quatro, caminhando juntos para a escola, ou seja, os quatro andando juntos sem que eu segurasse a mão da Nanami-san. Presenciar uma cena tão irreal deve ter despertado a imaginação de um bom número de nossos colegas. Então, aqui estão elas, as três "raízes" que provavelmente provocaram os três boatos principais que circulavam pelo colégio.
Qual raiz levou a qual boato é provavelmente óbvio, mas quem pensaria que um corte de cabelo levaria as pessoas a acharem que eu tinha levado um fora? Digo, eu já tinha visto esse tipo de coisa em mangás, mas mesmo assim...
Como se não bastasse, os boatos se espalharam muito mais rápido do que eu jamais imaginaria. Afinal, a maioria dos estudantes de ensino médio hoje em dia tem smartphones. No final da manhã de segunda-feira, os rumores já tinham se espalhado por toda a escola. Quando fiquei sabendo, eles já tinham evoluído ao ponto de dizerem que eu tinha levado um fora porque traí a Nanami-san.
Talvez a culpa fosse minha por não ter aceitado o pedido da Nanami-san para arrumar meu cabelo. Se eu tivesse usado cera e cuidado um pouco mais do visual, talvez esses boatos não tivessem começado.
Na verdade, não...
Talvez arrumar o cabelo tivesse jogado mais lenha na fogueira. Se eu tivesse me produzido e chegado à escola com a Nanami-san e as outras, isso poderia ter dado mais credibilidade aos boatos sobre o "harém".
No fim das contas, talvez eu tenha feito a coisa certa.
Os alunos da nossa sala tinham visto Nanami-san e eu conversando sobre o nosso encontro, então não pareciam acreditar nos boatos. O problema, no entanto, eram os alunos de outras turmas. Nanami-san e suas amigas também não ficaram sabendo de nada até o meio daquela manhã. Só descobrimos porque alguém me contou e esse alguém foi o Shibetsu-senpai.
Na verdade, dizer que ele me contou talvez não seja totalmente exato. Durante o intervalo, Shibetsu-senpai praticamente invadiu a minha sala. A aparição repentina de um veterano, sem mencionar a estrela do time de basquete, causou um alvoroço na classe. Algumas garotas ficaram com o coração disparado ao vê-lo, mas ele não parecia se importar nem um pouco. Assim que o senpai me viu, ele avançou sobre mim e exclamou:
— Yoshin-kun! É verdade que você traiu a Barato-san ou a deixou brava e acabaram terminando?! Tanto faz... Não precisa se preocupar, tudo deve ser um mal-entendido! Venha, eu vou me desculpar com você! Se você se desculpar com toda a sinceridade que tem, tenho certeza de que a Barato-san vai entender que tudo foi apenas um erro!
Foi a primeira vez que ouvi falar de um boato que corria por aí. Sem olhar para mim nem para a minha confusão, Shibetsu-senpai continuou falando sobre como eu poderia me reconciliar com a Nanami-san.
— Sabe… a Nanami-san não me deu um fora. Está vendo? Ela tá bem aqui. — eu disse timidamente enquanto apontava para a Nanami-san ao meu lado.
O senpai, que ainda estava gritando, parecia não ter notado a presença da Nanami-san, pois quando finalmente a viu, inclinou a cabeça, estranhando.
— O que está acontecendo então? — ele perguntou.
— É isso que eu quero saber. O que é toda essa história de que eu traí a Nanami-san e a deixei brava?
Aparentemente, era isso que Shibetsu-senpai tinha ouvido para vir correndo até aqui. Com o senpai ainda confuso parado diante dela, Nanami-san, como se tentasse demonstrar que não tinha me dado um fora, abraçou em silêncio a minha cabeça contra o seu peito.
O-O que você está fazendo, Nanami-san?! Estamos na sala de aula!

Shibetsu-senpai, por outro lado, parecia sentir o oposto. Ao nos ver juntos, suspirou aliviado.
— Mas que diabos?! Que fofoca de merda, hein!
Com isso, ele explodiu no que parecia mais indignação do que raiva. Eu, por minha vez, estava mais preocupado com o conteúdo do boato.
Nanami-san e eu finalmente tínhamos descoberto os estranhos rumores que circulavam por aí, mas antes que eu pudesse perguntar os detalhes ao Shibetsu-senpai, ouvi o som de uma câmera de celular disparando em sequência, seguido pela voz de Otofuke-san.
— Aqui está, Nanami. Consegui algumas boas.
— Ah, você tem razão. Manda pra mim.
Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, Otofuke-san tinha tirado fotos da Nanami-san segurando minha cabeça contra o peito dela e agora as estava nos mostrando.
Espere, o que você está fazendo?
Nanami parecia empolgada, então não consegui dizer nada.
— Você também quer estas fotos, Yoshin? — perguntou Nanami-san, mostrando-as para mim.
— Hmm… acho que sim. — eu disse, um tanto hesitante.
Com um sorriso travesso, Nanami-san me enviou as fotos. Ao vê-las, refleti sobre a maciez que senti contra minha cabeça e me perguntei se teria sido a mesma sensação no aquário.
— Então, Shibetsu-senpai, o que é essa história de boato? — perguntei, assim que minha cabeça saiu das nuvens.
— Sabe, realmente não ajuda se você tenta parecer sério quando, há um momento, estava sendo abraçado e sorrindo como um idiota.
Hã? Eu estava mesmo com aquela cara?
Não pude deixar de tocar meu rosto para conferir. Com um olhar exasperado, Shibetsu-senpai nos contou os boatos que corriam pela escola. Nanami-san e eu, e até Otofuke-san e Kamoenai-san, finalmente ficamos sabendo dos detalhes.
— Já está nesse nível? — eu disse.
— Hmm, talvez devêssemos ter andado de mãos dadas esta manhã. — murmurou Nanami-san.
Otofuke-san ficou estática.
— O Misumai tem um harém? E logo com a gente?
— Ahahaha! Um harém? Ei, Misumai, quer montar um harém com a gente?
— Não, Kamoenai-san. Não quero.
Ao ver nossas respectivas reações, Shibetsu-senpai assentiu levemente.
— Eu sabia que os boatos não eram confiáveis. Fico feliz de ter vindo confirmar. Ei, que tal me deixar fazer a minha parte para que todo mundo saiba que os boatos são falsos? Se eu mandar uma mensagem no chat do grupo do time de basquete, com certeza podemos controlar as coisas.
— Mas você veio se oferecendo para se desculpar por mim perante a Nanami-san, não foi, senpai? Você não meio que acreditou no boato? — perguntei.
— Do que você está falando? Eu disse aquilo porque tinha certeza de que você nunca faria algo assim.
Era verdade que ele tinha dito que tudo devia ser um mal-entendido. Para o bem ou para o mal, ele era realmente um cara direto que dizia exatamente o que pensava. Agora, ele estava rindo alegremente. Nanami e eu nos olhamos e sorrimos.
— Nesse caso… — eu disse ao senpai — eu agradeceria muito.
— Com certeza. Deixe comigo. Mas francamente… quem em sã consciência espalharia uma porcaria dessas?! Vou achar quem fez isso e fazer essa pessoa completar um regime inteiro de treinamento infernal no time de basquete!
E, sem mais, Shibetsu-senpai se retirou, soltando fumaça, mas com um sorriso no rosto. Shibetsu-senpai realmente tinha mudado. Agora ele parecia estar torcendo por nós de verdade e, além disso, estava me chamando pelo primeiro nome. Eu tinha quase certeza de que antes ele me chamava pelo sobrenome. Essas eram as habilidades supremas de um extrovertido.
— Mas sério, eu não tinha ideia de que corriam boatos assim. — disse Otofuke-san.
— Sim, verdade. Não falaram nada lá no grupo da sala. Talvez não tiveram coragem de perguntar. — respondeu Kamoenai-san.
Espera! Então nem elas duas estavam sabendo? Se ninguém falou nada lá, então talvez as pessoas estivessem recebendo suas informações em outro lugar…
Não vou pensar no fato de que eu não sabia nada sobre esse chat de grupo, apesar de que mesmo que eu me juntasse a eles, provavelmente não teria nada a acrescentar. Eu já tinha trocado contatos com a Nanami-san, então isso era mais do que suficiente.
De qualquer forma, tínhamos conseguido esclarecer o mal-entendido com o Shibetsu-senpai. Agora, restava-nos apenas esperar pacientemente para que os boatos diminuíssem. Dizem que uma novidade só dura nove dias, embora ter que aguentar todo esse falatório sem sentido por mais de uma semana parecesse um incômodo.
De qualquer modo, todos vão se entediar logo, pensei.
Porém, foi na hora do almoço que a verdadeira confusão começou.
♢♢♢
Enquanto Nanami-san e eu estávamos sentados no terraço da escola, almoçando juntos como de costume, um monte de gente, que provavelmente já tinha ouvido os boatos, veio nos fazer uma visita. E me refiro a muita, muita gente mesmo. As primeiras a aparecer foram as amigas da Nanami-san. Ao contrário de mim, Nanami-san tinha dezenas de amigas. Havia de tudo, desde garotas do tipo gyaru até garotas estudiosas, passando por garotas tranquilas e de aparência tímida, além de artistas marciais obstinadas e a razão pela qual todas se reuniram ao mesmo tempo era que todas pretendiam consolar a Nanami-san.
Como eu disse antes, os boatos evoluíram a um ritmo alarmante. Os amigos da Nanami-san, irritados com as diferentes versões que tinham ouvido, reuniram-se sem que ninguém lhes dissesse explicitamente para fazê-lo. Os boatos eram algo horripilante. No início, todas pareciam zangadas, tanto que Nanami-san e eu nos sentimos mais do que levemente intimidados.
Todas as garotas ao nosso redor pensavam que Nanami-san, tivesse ela terminado ou levado um fora do seu primeiro namorado, deveria estar com o coração partido. Algumas se preocupavam que ela se sentisse desconfortável com os garotos por causa disso. Outras estavam decididas a me dar uma surra se as acusações de traição se provassem verdadeiras. Quaisquer que fossem seus pensamentos, todas tinham vindo consolar a amiga, que acreditavam estar sofrendo.
Apesar de tudo, fiquei muito feliz ao ver como todo mundo gostava da Nanami-san. Também me assustou um pouco a forma como as artistas marciais estavam tão dispostas a me bater. Pelo menos vieram primeiro confirmar a situação com a Nanami-san, em vez de me darem uma surra antes de ouvirem a história toda. No fim, eu sairia vivo. Os próximos a se reunir foram os rapazes.
Todos se reuniram com a intenção de convidar a Nanami-san para sair, acreditando que ela agora estava solteira. De alguma forma, todos chegaram à conclusão conjunta de que, se Nanami-san estivera disposta a sair com alguém como eu, eles também poderiam ter uma chance com ela. Diferente das garotas, não me agradava nem um pouco que tantos caras gostassem da Nanami. Afinal, ela "lhes agradava" em um sentido muito diferente. Mesmo assim, eu não conseguia evitar um sentimento sombrio e sinistro de superioridade, embora tudo isso tivesse começado por causa de um desafio, eu era o namorado da Nanami-san.
Não, isso não é certo. Não deveria ser tão convencido. Eu não estava feliz, mas também estava um pouco. Minhas emoções estavam à flor da pele, mas pelo menos eu sabia que não deveria deixar que subissem à cabeça. Isso não me levaria a nada que valesse a pena. Na verdade, seria melhor eu me dar conta de quantos garotos estavam dispostos a sair com a Nanami-san no meu lugar. Eu teria que me manter alerta, preparado para enfrentar qualquer futuro rival.
No momento, porém, eu diria que todos ao nosso redor estavam vendo suas esperanças, sonhos e delírios destruídos diante de seus próprios olhos. Ou seja, eu não podia evitar que eles, tanto rapazes quanto garotas, decidissem aparecer justo quando Nanami-san estava prestes a me dar comida com seus próprios hashis. Quem saberia dizer se o momento era bom ou ruim? Uma vez reunidos, todos nos viram almoçar juntos e soltaram um suspiro profundo: as garotas, de alívio, e os garotos, de decepção.
A intenção dos seus suspiros diferia, mas, ainda assim, eles alcançaram uma bela harmonia.
— Céus, vocês não estão se preocupando demais? Agradeço por virem me procurar, mas o Yoshin e eu estamos totalmente apaixonados um pelo outro. Olhem, até tiramos esta foto!
Nanami-san sorriu alegremente enquanto mostrava seu telefone ao grupo, lançando-nos olhares exasperados. Pensei que ela fosse mostrar a foto que Otofuke-san tirou na aula, mas o grupo perdeu a cabeça quando viu a imagem diante deles. Como um efeito dominó, um pânico desconcertado se espalhou à medida que mais pessoas a viam.
Hein? Eles estão agindo estranho, não estão? Todos olhavam de um lado para o outro entre Nanami-san e eu. Algumas garotas chegaram a corar. O que estava acontecendo? Claro, ser abraçado daquela forma era um pouco embaraçoso, mas abraços não eram o tipo de coisa que deveria provocar tanto rubor. Enquanto eu continuava me perguntando, olhei para o telefone da Nanami-san e vi a foto exibida.
Era uma da Yuki-chan, Nanami-san e eu. Era aquela foto, a que nos fazia parecer uma família de três.
— Nanami-san! Essa não é a foto errada?! — exclamei.
— Eh? Ah! Opa, na verdade é esta! Esta é a que eu queria mostrar! — gritou ela.
Nanami-san apressou-se em mudar de foto, mas já era tarde demais. Todas as garotas à nossa frente nos olhavam com olhos cheios de curiosidade, prontas para bombardear Nanami-san com perguntas. Os rapazes, por sua vez, pareciam ter perdido toda a esperança. Alguns até caíram de joelhos ou colocaram a mão no meu ombro e disseram "Desejo toda a felicidade a vocês", antes de irem embora.
Com isso, embora continuassem nos observando, todos acabaram saindo por vontade própria, sem mais alvoroço. Apesar de toda a confusão, Nanami-san e eu conseguimos terminar de comer em paz. Dito isso, eu ainda não sentia que todos os nossos problemas estivessem resolvidos.
— Ei, Nanami-san, você não acha que agora vai correr um novo boato, acha?
— Hmm... Não tenho certeza. Mas, bem, se for esse tipo de boato, eu realmente não me importo.
— Perdão?
— Ah, vai ficar tudo bem. Com certeza todo mundo vai rir de boatos estranhos.
Apesar das minhas preocupações, Nanami-san não parecia muito preocupada. É impossível que isso não nos importe, pensei. Talvez não seja tão ruim para mim, mas a reputação dela pode ser questionada. Mas, mesmo enquanto eu pensava isso, Nanami-san continuava mexendo no telefone, sem se preocupar nem um pouco com o que havia ocorrido.
— Digo, com base no senso comum, você e eu não poderíamos ter tido um filho juntos. Mas, se um boato assim começasse, talvez pudéssemos pedir à mãe da Yuki-chan para explicar.
Nanami-san tinha razão no que pensava. Embora eu não tenha dito, o que ela falou provavelmente era verdade.
—Você trocou contatos com ela?— perguntei.
— Sim, pensei “por que não?”. Afinal, a Yuki-chan era a mais fofa!
Como esperado da Nanami-san, sua capacidade de comunicação era extraordinária. Não havia como eu ter conseguido algo assim.
No final, o fato de ela ter mostrado às pessoas aquela nossa foto com a Yuki-chan acabou sendo algo bom. Quando vários boatos circulam, aquele com mais impacto é o que se espalha mais rápido. Neste caso, o fato de os boatos daquela manhã terem se provado falsos na hora do almoço provavelmente contribuiu para essa velocidade. Na saída da aula, os boatos tinham mudado de novo e agora eram os seguintes:
"Yoshin Misumai e Nanami Barato saem com uma criança pequena nos fins de semana como se fossem uma família" e "Esses dois estão basicamente casados".
Provavelmente, o Shibetsu-senpai também fez a parte dele. Talvez, como Nanami-san disse, as garotas que se reuniram no almoço também tenham ajudado a dissipar os rumores infundados. Talvez fosse o que chamam de transformar maldição em bênção.
Não, espere, uma bênção?
Bem, pelo menos tínhamos conseguido interromper qualquer boato estranho. Agora podíamos sentar e relaxar. Ou pelo menos foi o que pensamos, já que relaxamos demais.
Era agora, depois da aula. Nanami-san estava diante de mim como uma prisioneira de guerra, incapaz de escapar dos guardas que a rodeavam. Os guardas eram as garotas que tinham se reunido ao nosso redor no almoço, assim como Otofuke-san e Kamoenai-san.
♢♢♢
— Muito bem então, Sr. Namorado. Vamos pegar a Nanami emprestada por um tempo.
— Sinto muito, Yoshin... Vou me certificar de te mandar mensagens constantemente. Vamos nos encontrar mais tarde para fazer compras juntos, okay?
— Sem problemas. Divirta-se.
Para explicar o que estava acontecendo: Ao que parecia, as garotas queriam saber como as coisas estavam indo entre a Nanami-san e eu, então organizaram uma reunião apenas para garotas.
Parecia que o nosso progresso estivera cercado de mistério até agora, por isso todas estavam ansiosas para saber mais. No entanto, enquanto as garotas criavam coragem para perguntar, surgiu a ocasião perfeita para isso, a propagação de todos os boatos, bem como o fato de terem visto aquela foto. Embora a foto tivesse anulado os rumores, ela fez explodir a curiosidade das meninas.
Em qualquer outro dia, Nanami-san provavelmente teria se recusado a participar de uma reunião como aquela, mas como tanto ela quanto eu estávamos gratos pela ajuda das garotas em dissipar os boatos, ela cedeu relutantemente. Nanami-san precisava ter vida social e, como Otofuke-san e Kamoenai-san estavam lá, ela estaria em boas mãos.
Depois de me despedir das garotas, empreendi minha própria missão. Meu destino era o shopping de sempre. Ultimamente, eu só ia lá com a Nanami-san, então fazia muito tempo desde a última vez que fui sozinho. Na verdade, tinham se passado apenas duas semanas? Uau, eu estava perdendo a noção do tempo.
Mas estar sozinho neste momento era algo bom. Eu não ia fazer nada estranho, mas desde o nosso encontro no outro dia, eu vinha amadurecendo uma ideia. Durante o nosso encontro no aquário, percebi como era agradável receber algo feito à mão. A felicidade de poder comer o bento caseiro da Nanami-san, mesmo no fim de semana, foi incomparável. Por isso, eu queria preparar algo para ela.
É apenas minha opinião, mas o fato de um presente ser feito à mão não significa que apenas a intenção conte. O presente em si também é importante. Comida era provavelmente uma boa ideia, já que parecia informal e não carregada de significado. Assim, por um tempo, considerei a possibilidade de dar algo que eu mesmo tivesse preparado, mas como ainda estava aprendendo a cozinhar, decidi que não me sentia confortável cozinhando algo para ela. Ela provavelmente ficaria feliz independentemente do que eu fizesse, mas, se fosse possível, eu queria preparar algo que ela pudesse guardar.
Era isso que eu tinha em mente enquanto conversava com Baron-san e os outros, o que, por sua vez, me lembrou do que Baron-san me disseram há pouco:
BARON: Se quiser dar um presente, melhor esperar pelo aniversário de um mês ou algo assim.
Isso mesmo, nosso primeiro aniversário. E faltavam apenas duas semanas. Tanto para mim quanto para ela, esse dia era significativo porque era o limite de tempo para o desafio da Nanami-san. Eu não sabia o que ela decidiria fazer naquele dia. Talvez terminasse comigo naquele exato momento. Ou talvez não fizesse nada. Ou talvez tentasse celebrar a ocasião em grande estilo. Eu ainda não sabia ao certo como ela realmente se sentia, só podia imaginar. Por isso, decidi uma coisa:
No nosso primeiro aniversário, eu vou me confessar de verdade!
A decisão estava ligada ao sonho que tive durante o encontro no aquário. No sonho, eu disse à Nanami com toda a sinceridade que gostava dela, e queria fazer isso também na vida real. Também queria aproveitar a ocasião para dar um presente feito à mão, para acompanhar minha confissão sincera e comemorar nosso primeiro mês juntos.
— Será que vai parecer demais? — murmurei, duvidando de mim mesmo como de costume.
Era aqui que minha escassa, ou melhor, total falta de experiência com mulheres atrapalhava. Eu não sabia quais ações eram consideradas apropriadas, então avançava praticamente na base da sorte.
De qualquer forma, quero fazer o possível para não me arrepender.
Pensei que me sentiria mais confortável dando à Nanami algo feito à mão do que algo caro, e esperava que ela ficasse muito mais feliz com algo feito por mim. Por isso, estava pensando em fazer um colar de resina. A princípio, pensei em um anel, mas além de parecerem difíceis de fazer, eles tinham muita carga emocional. Um anel feito à mão era impossível. No entanto, encontrei vários vídeos na internet com instruções para fazer um colar, e os materiais eram baratos. Como presente, um colar parecia muito menos carregado de significado que um anel.
Por isso, estava aproveitando meu tempo sozinho para ir ao shopping reunir os materiais. Mas...
— Não é lindo, Nanami-san? — chamei sem pensar.
Droga, estou aqui sozinho! Agora pareço um esquisitão. Isso foi nota dez em estranheza!
A partir desse momento, fiz o possível para não dizer nada em voz alta, mas o que quer que eu visse ou tocasse, meus pensamentos voltavam para a Nanami-san. Consegui comprar os materiais, garantindo alguns extras por precaução. Caminhei pelo shopping enquanto Nanami-san me enviava mensagens de vez em quando, mas não conseguia me acalmar.
Algo não está certo.
— Me sinto sozinho — disse em voz alta.
Foi meu próprio murmúrio que me fez perceber. Me sentia sozinho porque ela não estava comigo. Desde sábado até aquela manhã, estivemos juntos. Com sua ausência repentina, era natural sentir um vazio. Como eu mudei, não estava em condições de dizer nada sobre o Shibetsu-senpai.
Com as compras na bolsa, sentei em um banco e olhei para o teto. Nanami-san enviou uma mensagem dizendo que a reunião terminara e que estava vindo me encontrar. Ao ver a mensagem, murmurei conscientemente:
— Nanami-san... mal posso esperar para vê-la.
— Eu também! Não aguentava de saudade, então vim correndo.
De repente, me virando para trás, vi Nanami-san ali, junto com Otofuke-san e Kamoenai-san.

— Há quanto tempo está aí? — perguntei.
— O suficiente para ouvir a parte em que dizia que se sentia sozinho. — respondeu Nanami — Céus, Yoshin, não sabia que queria tanto me ver! Você é um bebê. Vem aqui, deixa eu te mimar.
Ela se sentou ao meu lado e abriu os braços para um abraço. Provavelmente ficaria vermelha se eu aceitasse ali mesmo, mas as amigas deram apoio.
— De repente, no meio da reunião, ela começou a dizer o quanto queria te ver — disse Otofuke-san.
— O encontro virou o show solo da Nanami — acrescentou Kamoenai-san.
— Céus, não precisavam contar isso! — protestou Nanami.
As amigas se despediram, deixando-nos para a nossa "lua de mel de compras". De mãos dadas, fomos ao mercado. Ter ela ao meu lado me fazia sentir bem.
♢♢♢
No nosso aniversário de um mês, vou dizer o que sinto. Eu estava me preparando para isso, mas enfrentava um dilema mais urgente.
— Oh, uau. Isso é ruim — murmurei, debruçado sobre a mesa ao ver minha nota de matemática de 36 pontos.
Estava um pouco acima da nota de corte, mas era a pior que já tirei. Nanami-san se aproximou e viu o exame.
— Uau — disse ela, cobrindo a boca.
Ela tentou me consolar acariciando meu cabelo, o que atraiu olhares curiosos da sala. Ela tirou oitenta e sete. Mais que o dobro da minha nota.
— Foi culpa minha? — perguntou ela.
— Não, não, não é nada disso. Foi só falta de esforço da minha parte — digo para tranquilizá-la, enquanto solto um bocejo profundo.
Embora fosse verdade que eu tinha passado muito tempo com a Nanami-san, se eu tivesse me esforçado de verdade, teria conseguido arranjar tempo para estudar depois de chegar em casa. Em vez disso, gastei esse tempo me exercitando, jogando e mantendo o Baron-san e os outros informados. Eu tinha simplesmente ficado vadiando.
Mas isso era ruim. Se as minhas notas caíssem tanto agora, eu poderia acabar metendo a Nanami-san em problemas. Eu precisava dar um jeito de reservar um tempo para os estudos, mas como faria isso enquanto preparava o presente dela? No pior dos casos, teria que aguentar firme e passar algumas noites em claro.
— Você está pensando em passar a noite acordado para ter tempo de estudar? — perguntou Nanami-san, me fulminando com o olhar e me fazendo dar um pulo.
Com os olhos semicerrados, ela aproximou o rosto do meu até que nossos narizes quase se tocassem. A partir dali, continuou me encarando como se quisesse deixar algo bem claro. Eu não tinha coragem de encará-la nos olhos então acabei olhando para todos os lados, menos para o rosto dela. Não porque ela tivesse me descoberto, mas porque estava tão perto que eu não sabia mais o que fazer.
Confirmando as suas suspeitas com base na minha reação, ela suspirou sem se afastar. Senti o hálito dela no meu rosto, o que fez meu coração dar um salto. Eu sabia que ela não fazia aquilo de propósito, mas esse pequeno gesto não deixava de ser perigoso para o meu coração.
— Você é tão fácil de ler, Yoshin. Sabe que não deveria passar a noite em claro e se esforçar demais.
— Sim, mas eu ainda sou jovem. Vou ficar bem, mesmo que durma menos.
— Eu estou preocupada com você, então nada disso. Céus… — Nanami-san se afastou de mim e colocou a mão no antebraço, exasperada.
Hum, eu realmente não deveria deixá-la preocupada, então talvez passar a noite em claro esteja fora de cogitação. Se for assim, acho que terei que reduzir o tempo que passo jogando. Já que o dever de um estudante é estudar, suponho que seja o esperado. Terei que explicar a situação para o Baron-san e os outros.
Enquanto eu considerava as minhas opções, vi Nanami procurando algo no celular. Então, após assentir uma vez, ela aproximou o rosto do meu novamente.
— Ei, Yoshin, quer estudar comigo de agora em diante? Temos conversado no meu quarto até agora, mas eu poderia aproveitar esse tempo para te dar aulas.
A proposta da Nanami-san parecia boa demais para ser verdade. Parando para pensar, todas as vezes que estive lá, eu estava tirando o tempo de estudo dela, não estava? E, mesmo assim, ela tinha conseguido manter as notas. A Nanami-san era realmente impressionante.
— Bom, por mim tudo bem, mas você não se importa, Nanami-san?
— É claro que não me importo. Pelo visto, chamam isso de “encontro de estudos”. Se pensarmos que é como ter um encontro todos os dias depois da aula, não acha fofo?
Um encontro de estudos... Não soa contraditório? Será que dá mesmo para equilibrar os estudos e um encontro? Parece algo difícil de conseguir.
Fiquei impressionado com a criatividade de quem foi capaz de transformar qualquer coisa em um encontro. Para mim, isso não teria ocorrido por mais que eu tentasse.
— Espera, se for esse o caso, quer dizer que todas as nossas conversas no seu quarto também contam como encontros? — perguntei.
Era apenas um comentário improvisado, mas parecia que eu tinha acertado em cheio. Nanami ficou vermelha e começou a me dar tapinhas nas costas. É, acho que dizer isso em voz alta foi um pouco embaraçoso.
A essa altura, já tínhamos nos acostumado com todos os olhares que pareciam dizer "E lá vamos nós". Eu tinha a sensação de que todos ao nosso redor tinham se tornado um pouco mais gentis conosco desde o incidente dos boatos, embora não tivesse certeza se era realmente assim ou se era apenas impressão minha.
— Então começaremos hoje — disse Nanami enquanto mexia no celular.
Decidir isso juntos foi quase a única coisa que aconteceu na escola naquele dia. Todos os boatos do dia anterior tinham se acalmado um pouco. É claro que, em algumas partes do campus, ainda circulavam outros de menor importância, mas ninguém mais vinha nos confrontar.
A jornada escolar terminou e seguimos com a nossa rotina habitual: fazer compras, preparar o jantar e comer juntos. Quando terminamos, fomos para o quarto da Nanami-san.
Justo quando eu pensava que íamos começar a estudar, Nanami-san disse
— Me dê uns minutinhos, ok?
Fiquei sozinho no quarto dela. Tínhamos trazido todos os nossos livros e materiais de estudo.
O que mais ela precisa para se preparar?
Depois de esperar um bom tempo, Genichiro-san entrou primeiro no quarto.
— O Genichiro-san também vai estudar com a gente? — perguntei-me.
Provavelmente não. Ele trouxe consigo uma pequena mesa redonda que colocou no centro do quarto da Nanami-san. Depois, virou-se para mim e disse:
— Boa sorte, Yoshin-kun — antes de sair do quarto.
Ah, entendi. Ele trouxe uma mesa para estudarmos. Que gentil da parte dele.
Logo após o Genichiro-san sair, Nanami-san voltou a entrar no quarto, mas quando a vi, fiquei sem fala.
— Vamos começar então? Por favor, pegue a sua prova de hoje, Yoshin-kun — disse ela.
Assim como tinha feito na sua aula de culinária, ela tinha entrado no “modo professora” para a nossa aula de matemática. Nada do que ela dizia entrava no meu cérebro. Percebi que, devido ao choque, eu era incapaz de processar adequadamente qualquer informação que recebia.
Nanami vestia uma camisa branca de botões e uma gravata azul, junto com uma saia preta justa. Um par de óculos prateados que eu nunca tinha visto antes emoldurava seus olhos e ela usava o cabelo preso em um rabo de cavalo lateral.
Hã? Por que você está fazendo cosplay de repente? Isso é cosplay, não é?
— Hum, Nanami-san, por que você está vestida assim? — perguntei.
— Assim como? Quando eu disse à minha mãe que ia te dar aulas particulares, ela me emprestou essas roupas. O que achou? Eu poderia passar por professora, não poderia? Eu estou bonita?
— S-Sim, você está linda.
Quer dizer, ela estaá linda, mas acho que o conjunto é... estimulante até demais.
Nunca na minha vida tinha visto uma saia tão justa, e meu coração batia com força por causa da aparência madura dela. Nanami-san, no entanto, sentou-se à minha frente e começou a analisar seriamente a minha prova. Ao ver a seriedade dela, senti-me envergonhado por ter pensamentos tão impuros. Naquele momento, não éramos namorados, éramos aluno e professora.
Eu precisava levar a situação a sério desse jeito.
— Vendo as suas respostas, parece que você comete muitos erros por descuido. E acho que também está usando as fórmulas erradas. Você comete sempre os mesmos erros. Você é do tipo que se limita a memorizar os problemas e as respostas do livro didático?
— Sim. Muitas vezes acabo sem saber qual fórmula devo usar ou quando usá-la, então tento memorizar tudo e depois descobrir qual delas encaixar.
— Entendo. Em matemática, acho que é mais importante entender o conteúdo do que memorizá-lo. Se for para memorizar algo, é melhor memorizar padrões. Mesmo que você decore pares de problemas e respostas, na verdade não vai conseguir aplicá-los. Isso não é muito diferente das disciplinas de humanas.
A partir daí, ela revisou minha prova e me deu conselhos sobre os problemas que eu tinha errado. Mesmo quando me indicava algo, em vez de me dar a resposta, explicava por que eu tinha errado ou qual fórmula eu deveria ter utilizado. Ela acompanhou cada ponto com uma explicação minuciosa.
Mesmo nas partes que eu não entendia, ela foi muito paciente e revisou o conteúdo a fundo. Não era nem um pouco rigorosa. Na verdade, o tom dela era muito suave. Quando ela me explicava as coisas, eu costumava me envergonhar dos erros que cometia, mas também percebia o quão atencioso era o seu método de ensino.
Sinto-me um pouco mal pela minha professora ao dizer isso, mas senti que entendia as coisas cem vezes melhor depois que a Nanami me explicava. Não que a minha professora fosse ruim, tinha mais a ver com a minha própria atitude.
Como Nanami-san e eu estávamos sentados um de frente para o outro, ela teve que inclinar o corpo para frente para poder me ensinar as coisas. No princípio, eu estava ouvindo atentamente, mas, em certo momento, percebi algo.
A camisa e a saia que ela usava eram da Tomoko, mas não pareciam servir bem nela. Toda vez que ela se inclinava para frente, ficava um pequeno espaço entre a camisa e o seu corpo. Provavelmente ela usava a gravata para esconder isso, mas, ao longo da nossa sessão, a gravata havia se afrouxado ligeiramente.
Desviei rapidamente o olhar para não observar, mas não pude evitar vislumbrar com o canto do olho algo alaranjado e um tanto chamativo.
— O que foi, Yoshin? — perguntou Nanami-san.
— Nanami-san, você se importaria de cobrir um pouco a região do peito? Eu consigo ver.
Em pânico, Nanami-san levou as mãos ao peito e recuou em seu assento. Depois me encarou, me fulminando com o olhar, e murmurou:
— Você viu?.
— Só um pouco. Mas não vi nada terrivelmente nítido.
— Laranja...
Com essa única palavra, todo o meu corpo estremeceu. Parecia que Nanami-san também tremia, talvez de vergonha. Eu estava prestes a me ajoelhar para pedir desculpas, mas Nanami-san se levantou.
— Bem, suponho que, se for você, então não me importo. Mas pode esperar um pouco? Vou me trocar.
Com isso, ela saiu do quarto mais uma vez. Foi bom eu ter contado? Ou deveria ter ficado calado? Por mais voltas que eu desse na cabeça, não encontrava a resposta adequada. Em todo caso, eu sabia que era um cara de sorte, embora continuar olhando me parecesse errado. Por isso acabei contando a ela. Depois de um tempo, Nanami-san retornou, tendo vestido uma roupa de dormir cinza.
— Agora podemos nos concentrar, né? — disse ela.
— Sinceramente, ter você como minha professora me deixa nervoso. Embora essa roupa de ficar em casa seja muito fofa. — disse assentindo com a cabeça.
— Obrigada..., mas vamos lá, agora vamos nos concentrar em estudar, okay? — Nanami-san corou um pouco, voltou a olhar para a minha prova de matemática e retomou a aula. Agora que ela tinha me explicado tudo, eu sentia que dominava muito melhor o conteúdo estudado. Diferente das nossas conversas habituais, esta sessão de tutoria exigia muita energia física e mental, mas também me preenchia com uma agradável sensação de fadiga.
Quando terminamos de estudar, a mãe da Nanami-san nos trouxe xícaras de chá quente e pequenos lanches de chocolate. Nanami-san parecia ter pedido a ela com antecedência.
Tomei um gole de chá e comi o chocolate de uma só vez. Senti que o calor do chá e a doçura do chocolate derretendo em minha boca viajavam juntos por todo o meu corpo cansado.
— Vou te dar aulas assim todos os dias de agora em diante. Será uma boa revisão para mim, e as suas notas também vão subir, não é?"
— Eu me sinto mal por isso, mas com certeza vou aceitar a sua oferta. Você pretende ir para a faculdade, certo? Tem algo que você queira ser no futuro?
Nanami-san deixou sua xícara de chá e sorriu gentilmente para mim. — Na verdade, eu quero ser professora quando crescer.
— Uma professora? É por isso que você é tão boa em explicar as coisas?
— Bem, admito que não estou totalmente decidida.
— Tenho certeza de que você seria uma ótima professora.
Com isso, imaginei a Nanami-san como professora, mas, nesse mesmo momento, um pensamento premonitório cruzou a minha mente. Se ela se tornasse professora de ensino fundamental ou médio, sem dúvida seria popular. Haveria alunos que se apaixonariam por ela e poderiam até decidir dar em cima dela. Ou pior ainda, seus colegas de trabalho poderiam se apaixonar por ela. Isso seria mais provável do que os alunos tentarem convidá-la para sair. Eu queria apoiá-la em seus sonhos, mas, ao mesmo tempo, estava muito preocupado.
— Yoshin, por que está me olhando assim? Está preocupado com quando eu me tornar professora?
— Bom, não estou exatamente preocupado, mas você provavelmente seria muito popular se se tornasse professora, não é?
Eu sabia que estava me preocupando, então decidi não dizer mais nada. Não havia motivo para se preocupar com o futuro, mas a minha imaginação estava me deixando nervoso.
Nanami sorriu feliz diante do meu comentário. Ela se aproximou de mim e se deu ao trabalho de passar por baixo da mesa em vez de dar a volta. Enquanto eu me perguntava por que ela tinha feito aquilo, ela prosseguiu apoiando a cabeça no meu colo.
Então era isso que ela queria fazer, hein? Talvez não quisesse ter o trabalho de se levantar. Olhando para mim com o canto do olho, enquanto eu estava ali sentado, surpreso e divertido ao mesmo tempo, Nanami-san levantou a mão esquerda.
— Se você está tão preocupado, então, quando eu me tornar professora, talvez eu devesse usar um anel aqui. Então tudo ficará bem, não acha?
Usar um anel? Para afastar o mal e essas coisas? Não sei se isso funciona, mesmo que você o use no dedo anelar... Espera, no seu dedo anelar?
Olhando para onde ela apontava com a mão direita, compreendi finalmente o que ela estava tentando dizer.
Nanami-san esboçou um sorriso de satisfação. Depois, envergonhada, ficou vermelha e me deu as costas.
— Embora não seja de verdade, pode ser que continue sendo eficaz enquanto eu o estiver usando. Sei que não será até daqui a algum tempo e ninguém sabe o que vai acontecer antes, mas me deu vontade de mencionar.
Após dar uma explicação que soava mais como uma desculpa, Nanami-san ficou calada. Eu não sabia o que responder, então também não disse nada. Finalmente, como se estivesse tentando forçar a minha voz, abri a boca e disse:
— Você não acha que um anel é um presente pesado demais?
— De jeito nenhum. Se for você quem me der, então qualquer coisa me fará feliz. Ah, mas não é como se eu estivesse tentando te pedir um ou algo assim! Eu sou feliz contanto que você esteja comigo.
A voz da Nanami-san tornou-se cada vez mais suave. Fiquei alegre por ela se sentir feliz se eu lhe desse algo assim. Se até mesmo um anel estava bom, então um colar feito à mão estaria perfeitamente bem para o nosso aniversário.
— Vamos dar o nosso melhor juntos daqui em diante — disse-me Nanami em voz baixa.
— Sim, vamos — foi tudo o que consegui dizer como resposta.
O silêncio voltou a nos envolver enquanto ambos nos olhávamos e sorríamos. Sim, farei o que eu puder, pensei. Darei o meu melhor com a Nanami-san e, é claro, com os meus estudos.
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