Volume 2

Capítulo 9: O Plano de Confissão (3)

Os dois principais alvos do nosso plano finalmente haviam se encontrado. E, por algum motivo, ninguém parecia feliz com aquilo. Nem as amigas da Naomi-san. Nem os amigos do Kamo-san.


O clima entre os dois grupos era estranho. Pesado. Como se todos ali soubessem que bastava uma única palavra errada para aquilo desmoronar de vez. Naomi-san brincava distraidamente com uma mecha do próprio cabelo, enrolando-a nos dedos enquanto evitava olhar diretamente para Kamo-san. Já ele desviava constantemente o olhar. De tempos em tempos, coçava a própria cabeça, como se aquele gesto fosse um hábito involuntário para aliviar o nervosismo.


— O que você tá fazendo aqui? — perguntou Naomi-san, franzindo levemente a testa. — Você tá me seguindo por acaso?


— E por que eu faria isso? — respondeu Kamo-san imediatamente.


A resposta saiu rápida demais. Defensiva demais


— Eu também poderia perguntar o que você tá fazendo aqui…


— Você sempre faz isso… — Naomi suspirou irritada. — Sempre muda de assunto…


O vento atravessou lentamente o santuário.


Shaaaa…


Os bambus se chocavam uns contra os outros acima de nós, produzindo aquele som oco que parecia completamente incompatível com a tensão daquela conversa. Aquilo definitivamente não estava indo para um bom rumo. Mesmo sem conseguir enxergar a cena diretamente, Natsuki-senpai parecia tão tensa quanto todos nós.


— E agora…? Isso não tá nada bom… — murmurou em voz baixa.


— A gente deveria interferir? — perguntou Yuji inquieto.


— E como diabos faríamos isso? — rebati imediatamente. — Só pioraria tudo.


O clima entre Naomi-san e Kamo-san estava errado. Tudo parecia muito pesado e instável


Até aquele momento, o nosso clube tinha permanecido nas sombras. Aproximando grupos. Criando oportunidades. Empurrando discretamente os acontecimentos na direção que queríamos. Como se estivéssemos movendo peças num enorme tabuleiro chamado Kyoto.

Mas agora pela primeira vez desde o início daquela viagem… parecia que tínhamos perdido completamente o controle da situação


— Maldição... 


— Natsuki-senpai...


Eu nunca havia visto minha senpai daquela maneira. Nem mesmo quando ela foi confrotada por Naomi, ela parecia tão irritada. Sua frustração era notável e eu nunca pensei que algo assim sairia da boca de alguém tão requintada. E o pior era que eu sequer entendia onde tínhamos errado. Nosso plano era simplesmente aproximar os dois. Só isso.

Era óbvio que Naomi-san gostava dele. Ninguém faria um pedido daquele jeito sem estar apaixonada. Além disso, os dois sempre estiveram juntos desde que me lembro. Por isso, achei que talvez só precisassem de um pequeno empurrão para finalmente ficarem juntos. Mas olhando para eles agora, parecia que a situação estava muito longe de ser tão simples. E havia outra coisa estranha. Normalmente, numa discussão como aquela, imaginei que as amigas da Naomi-san e os amigos do Kamo-san tomariam partido imediatamente.


Mas ninguém fazia isso. Claro, eles reagiam. Ficavam tensos. Trocavam alguns olhares desconfortáveis. Mas ninguém interferia. Era como se todos ali soubessem de alguma coisa que nós não sabíamos. Alguma situação delicada demais para ser mencionada. Algo no qual nenhum deles queria se envolver. E honestamente, aquilo explicava muita coisa.


Porque, no fim das contas, Naomi-san nunca confiou realmente em nós. Mesmo tendo feito o pedido ao Clube de Amigos… nós ainda éramos estranhos.
Ela nunca teve motivo algum para nos contar tudo sobre sua vida pessoal.


— Ah, é…? Entendi… — Naomi apertou os próprios braços enquanto encarava Kamo-san. — Então não é da conta da sua amiga de infância, né…?


Kamo-san desviou o olhar novamente

E aquilo pareceu irritá-la ainda mais


— Mas daquela invasora é?! Então por que você não volta correndo pra ela?!
— Ayumi!!


A voz de Kamo-san explodiu pelo santuário. O ar pareceu congelar por alguns segundos. Turistas, funcionários e estudantes... Todos se viraram imediatamente na direção deles


Meu corpo inteiro travou. Durante todo o tempo em que estudei com Kamo-san…eu nunca tinha visto ele levantar a voz daquela forma. E aparentemente… Naomi-san também não. Os olhos dela se arregalaram lentamente. Como se ainda estivesse tentando processar o que tinha acabado de acontecer


— Você sabe… que não é tão simples… — murmurou Kamo-san, desviando o rosto


Mas Naomi-san parecia incapaz de escutar qualquer coisa naquele momento. Seu rosto perdeu completamente a cor. Os dedos tremiam levemente enquanto ela apertava a própria saia


Então—
uma lágrima caiu.


— V-você…
A sua voz normalmente tão confiante e destemida falhou. Se tornou tão fraca. Quebrada


— …gritou comigo…
— […]


Kamo imediatamente pareceu perceber o que tinha feito. Ele olhava para baixo sem dar qualquer resposta


— [...]


— H-Hayato…

Pela primeira vez… ouvi Naomi-san chamar Kamo pelo primeiro nome


— …você me prometeu…

Outra lágrima caiu. Então ela virou o rosto— e correu. Desesperadamente


Os cabelos castanhos balançavam enquanto Naomi-san atravessava os degraus do santuário e desaparecia entre os bambus de Arashiyama. Os passos dela ecoaram pela trilha por alguns segundos. Depois… silêncio.
Restou apenas o som do vento atravessando a floresta

 

***

 

Depois daquela enorme confusão, o clima só parecia piorar cada vez mais. As amigas de Naomi-san pareciam enfurecidas com a atitude de Kamo-san. Kamo sempre foi muito popular e bem quisto pelas garotas. Sua personalidade agradável, sua gentileza e bom tato sempre foram alvos de elogios por partes das mulheres

Era difícil imaginar ele sendo tão duramente criticado como ele estava sendo naquele momento. Mesmo que eu não o suportasse, até mesmo eu senti pena dele naquele dia. Depois de falar algumas palavras nada amigavéis, Seiko e Akari foram atrás de sua amiga. Rina parecia um tanto perdida, mas também as seguiu

Já os amigos de Kamo, pareciam estar em dúvida sobre como deveriam agir naquele momento. Não era uma surpresa, de fato. Afinal, acredito que eles nunca esperavam que o núcleo de seu grupo — a estrela por qual eles orbitavam — estaria nessa situação. Parecendo tão patético

— É cara... você pisou feio na bola hein? — Disse, um dos amigos de Kamo. Ele deu uns tapinhas no ombro esquerdo de seu amigo, como se lamentasse profundamente o ocorrido

Por sua vez, Kamo-san ficou totalmente estático por alguns segundos. E só se mexeu quando decidiu ir embora dali. A luz da tarde que invadia entre as brechas dos bambus destacou seu rosto, que outrora permanecia abaixado. Sua face não era nada bonita, no entanto

Seu grupo de amigos, obviamente, seguiu sua estrela. Mesmo que naquele momento ela não tivesse mais brilho algum

Quando os dois grupos sairam de cena, decidimos que seria hora de sairmos de nosso esconderijo. 

— O que é que foi isso? — Perguntou, Yuji

— Eu não sei... mas não foi nada bom. Nada bom mesmo.

Ninguém de nós sabiamos do porquê de tudo ter dado errado. Nem sabíamos como deviamos agir em seguida. Afinal, era até mesmo difícil acreditar que Naomi iria prosseguir com o plano. Na verdade, pensar nisso em sí já era um loucura total, dadas todas as condições

Era evidente que isso era impossível. Já estavámos caminhando para o fim da tarde do primeiro dia e o resultado era catastrófico. Naomi tinha acabado de brigar feio com sua paixão, Kamo parecia ter algum tipo de envolvimento romântico com uma garota desconhecida e eu nem preciso citar o clima entre os dois grupos

Era muito claro que nenhum dos dois iriam querer ver a cara do outro até o fim dessa viagem. E sendo bem sincero, isso era provavelmente o melhor a ser feito. Não é como se eles fossem ficar brigados para sempre. Kamo-san é muito popular — é claro que ele iria dar a volta por cima logo logo. E Naomi-san acabou revelando que é amiga de infância de Kamo, então, isso provavelmente era uma situação muito pessoal. Algo que nem deveríamos nos envolver

Por mais que me incomodasse com a maneira que tudo aquilo tinha acabado. Não era como se pudessemos fazer alguma coisa. A nossa relação com Naomi era péssima. A relação de Naomi com Kamo também era péssima. E nosso grupo parecia totalmente perdido sobre como dar o próximo passo

Resumindo, um fracasso total.

— E agora, Ryoichi-kun? O que vamos fazer? 

— Vamos desistir. É claro. 

Como se eu tivesse dito algo absurdo, Yuji que já aparentava muito nervoso olhou diretamente para mim. Ele não parecia acreditar no que eu havia falado, então perguntou mais uma vez

— Me desculpe... o quê? 

— Vamos pedir para Naomi-san retirar o pedido

— M-mas por quê? Eu sei que a s-situação é ruim, mas...

— Se você puder me dizer agora, uma forma lógica de resolver tudo isso. Eu sou todo ouvidos. — Assenti, com firmeza. — Mas te conhecendo, acredito que não tenha.

— Unhm...

Talvez eu fui um pouco rude na maneira como eu me expressei. Mas, se eu não cessasse os ânimos de Yuji de uma vez, ele iria acabar não apenas querendo continuar com o plano, mas também possivelmente iria acabar se intrometendo demais em um assunto que claramente não era mais nosso

Apartir do momento que Naomi-san escondeu informações de nós, acredito que isso já não tenha mais nada haver conosco. Afinal de contas, isso era omitir uma informação que poderia não apenas ser importante para a conclusão do nosso trabalho, mas também — como foi o que aconteceu — poderia ser um motivo de ruína de todo nosso plano

Acredite, eu não estou criticando Naomi por isso. Ela não é obrigada a nos contar tudo. Não somos parceiros, muito menos amiguinhos. Apenas estavamos realizando um serviço para ela. E ela tem o direito de não querer contar toda sua vida pessoal para um grupo de pessoas que ela não conhece. Mas, ao fazer isso, ela assumiu um risco. E apartir disso, nós não podemos fazer mais nada.

— Vamos pedir para Yoshiko-sensei falar com ela. Tenho certeza que ela-

— Natsuki...senpai? 

A voz de Yuji trouxe minha atenção para atrás de mim. Talvez por causa de toda aquela comoção, não havia percebido que minha senpai não havia dado um passo de onde estavámos antes. Sua expressão era severa. Como se ela fosse quebrar a qualquer momento.

Talvez notando a nossa atenção para ela, Natsuki-senpai expressou o que sentia naquele momento

— A culpa é minha...

— S-senpai... isso não é-

— Unh... não... a culpa é realmente minha. Eu não agi em nenhum momento como uma veterana agiria. — Suspirou, Natsuki. — Tudo isso aconteceu porque eu não os guiei direito. Na verdade, tem sido justamente o contrário... — Naquele instante, minha senpai pressionou sua bengala retrátil contra a terra fofa com firmeza. O som seco, mesmo que rápido trouxe uma sensação sufocante

— Eu preciso fazer isso sozinha. Não...

—...eu vou.

Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários 

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