Volume 2

Capítulo 6: A Incrível Viagem Até Kyoto (3)

Antes de entrarmos no quarto, Yoshiko-sensei nos mandou tirar os sapatos. Só podíamos andar de meias pela pousada. Já esperávamos por isso, então apenas fizemos como foi dito

 

As garotas da nossa turma já haviam sido separadas, como esperado. Mais cedo, foram levadas ao quarto delas sob a supervisão da própria Yoshiko

 

Pelo que entendi, Natsuki-senpai ficaria junto das meninas da minha classe. Provavelmente a sensei fez isso por causa da Rina — assim, ela não se sentiria tão sozinha ou desconfortável em meio a tantos desconhecidos

 

— Venham todos! Mantenham a ordem! — exclamou Yoshiko.

Ao seu chamado, meus colegas rapidamente pegaram suas coisas e passaram a segui-la em fila

 

Muitos temiam pela nossa segurança. Afinal, passaríamos três dias e duas noites com a famosa “Ogra Escarlate” — o apelido carinhoso que os alunos deram à nossa querida sensei. Conhecida por sua fúria mortal e por seu longo cabelo vermelho, que dizem ser tingido com o sangue de seus inimigos

 

— Eu ouvi dizer que ela devora seus próprios alunos com uma tigela de missô no café da manhã… — comentou um deles

 

— Sério? Eu ouvi que ela mata estudantes com um único golpe. O tal “Punho Mortal”. Dizem que quem leva esse soco experimenta a verdadeira dor da morte… — murmurou outro

 

Não que eu discordasse completamente de que aquela mulher fosse uma ogra… mas meus colegas já estavam começando a viajar demais.

Diziam que ela tinha um “Punho Mortal”… que seu apartamento era um portal para o inferno…

 

Não que eu duvidasse completamente dessas informações.

Mas… eram, no mínimo, pouco confiáveis

 

Ainda assim, passar dias com aquela mulher não seria fácil. Porém, conforme avançávamos pela varanda de madeira, acabamos esquecendo um pouco da nossa professora

 

A pousada era cercada por áreas verdes. Pequenos jardins bem cuidados se espalhavam pelos pátios, com pedras lisas formando caminhos que guiavam nossos passos. A luz do sol banhava o cenário, enquanto o canto dos pássaros — que descansavam e bebiam de um pequeno riacho artificial — tornava o momento estranhamente agradável.

As reações variavam bastante. 

 

Aqueles que já tinham vivido algo assim pareciam indiferentes, enquanto os outros não conseguiam esconder a empolgação, reagindo a cada novo detalhe do ryokan

 

Quando paramos diante de uma grande porta deslizante, Yoshiko-sensei se virou mais uma vez para nós. Sua mão repousou sobre a superfície da porta

 

— É aqui que vocês passarão os próximos dias. Comportem-se… e aproveitem a viagem.

 

A porta se abriu

Um quarto antigo, no mais clássico estilo japonês — era assim que se podia descrever o lugar onde ficaríamos pelos próximos três dias. Tudo ali seguia um minimalismo quase rigoroso

 

O chão era completamente coberto por tatami, e o cheiro característico da palha seca se espalhava pelo ambiente, invadindo nossas narinas a cada passo

 

O shoji deixava a luz entrar suavemente, iluminando o ambiente. No centro do quarto, havia um chabudai cercado por alguns zabuton. As almofadas pareciam realmente macias, e muitos alunos foram direto testá-las

 

Estaria mentindo se dissesse que não senti vontade de fazer o mesmo… mas deixei isso para depois

 

Também havia um pequeno tokonoma. Alguns poucos alunos demonstraram interesse no delicado arranjo de flores — mas o encanto não durou mais do que alguns segundos. Dissipou-se rapidamente, como névoa

 

Não havia banheiro no quarto. Quando um dos alunos perguntou sobre isso, Yoshiko-sensei explicou que o banho era coletivo

 

A resposta gerou algumas reclamações — o que não era surpresa, considerando que muitos ali estavam acostumados a mais privacidade.

Mas elas cessaram quase imediatamente ao notarem a expressão “amigável” da sensei

 

“Whoa… ela com certeza foi um general de guerra na vida passada…”

Ela parecia ainda mais irritada do que o normal. Talvez já estivesse cansada das reclamações. Se os garotos já estavam enchendo o saco… nem quero imaginar as meninas

 

— Al-gu-ma… re-cla-ma-ção? ♡ — perguntou Yoshiko-sensei, lutando para manter um sorriso.

Silêncio.

 

— N-não! Haha… está ótimo! Não é, gente?! — disse um dos alunos, suando como um condenado

— S-sim! Maravilhoso! Parece até uma suíte cinco estrelas! Hahaha…

 

— Que bom! — respondeu a sensei, com um sorriso demoníaco. — Então não teremos problemas

 

O clima mudou na hora. O entusiasmo desapareceu. Restou apenas um clima de medo

Decidi não me envolver

 

Coloquei minha mala dentro do oshiire — o armário embutido com portas de correr. Lá dentro já havia futons dobrados, além de travesseiros e cobertores que provavelmente usaríamos à noite

 

Alguns alunos, ao ouvirem o barulho da porta, aproveitaram a chance para fugir da sensei e começaram a jogar suas malas ali também.

Outros, mais despreocupados, simplesmente largaram tudo em qualquer canto

 

Yuji, que aparentemente já tinha resolvido suas coisas, voltou a me seguir

 

— Nossa… a Ogra Escarlate tá mais rabugenta que o normal hoje, né, Ryoichi-kun? — disse ele, alto demais

 

— Cuidado pra ela não te—

 

— RYOICHI E YUJI!

 

— (Gulp x2)

 

A aura assassina da sensei se voltou diretamente para nós. O quarto inteiro ficou em silêncio. Fechei os olhos e naqueles poucos segundos de vida que me restavam… amaldiçoei Yuji com todas as minhas forças.

 

— VOCÊS DOIS… COMIGO. AGORA.

 

Como condenados marchando para a execução… obedecemos.

 

Enquanto saíamos, podia jurar que ouvi alguns colegas rezando por nossas pobres almas

 

***

 

— Snif… será que vamos morrer, Ryoichi-kun? Eu sou ainda tão jovem…

— Não. Não vamos

 

— Ryoichi-kun… — murmurou Yuji, com um sorriso no rosto. Como se tivesse visto uma luz no fim do túnel

 

— Até porque eu vou te matar primeiro

 

— So-socorroooo!!

 

O idiota do Yuji e eu estávamos em uma espécie de quarto oculto da pousada — um lugar que parecia ser usado como depósito de limpeza. O ambiente era um breu quase completo. A única fonte de luz vinha de uma pequena janela, alta demais para que qualquer um de nós pudesse alcançar

 

Yoshiko-sensei não disse nada. Apenas nos levou até ali… e nos trancou.

Mesmo que estivesse com raiva, eu realmente me perguntava como aquela maluca conseguiu um emprego como professora

 

— Ahhh… será que vamos ficar presos aqui pra sempre?! — Yuji parecia à beira do desespero. O mais “engraçado” é que a culpa de estarmos ali era totalmente dele

 

— Para de choramingar. É óbvio que ela não vai nos deixar aqui. Mesmo sendo uma ogra, ela ainda é uma professora.

 

— Sim, mas… — disse ele, esfregando os olhos — eu não posso ficar aqui por muito tempo… olha, tem aquela janela!

 

Yuji apontou para a pequena abertura que mal iluminava o depósito. Era óbvio que nenhum de nós conseguiria alcançá-la

 

— Qual é a sua ideia? — perguntei, curioso.

 

— Simples! Você me carrega nos ombros, eu alcanço a janela, escapo… e depois volto pra abrir a porta pra você! Genial, não é?!

Seria uma ideia fantástica… se tivesse sido pensada por uma criança de quatro anos.

 

Mas como Yuji estava no ensino médio, comecei a me preocupar seriamente com o futuro dele

 

— Eu não vou te carregar. E duvido que você vá querer subir nessas prateleiras velhas pra tentar a sorte — respondi. — Além disso, mesmo que alcançasse… seu corpo não passaria por aquela janela. Ela é pequena demais

 

— Ehh… é… não passaria mesmo…

 

— Não, espera… — falei, depois de pensar um pouco. — Tem um jeito.

 

— S-sério?! Fantástico! Fala logo, Ryoichi-kun!

 

— Seu corpo não passa… mas…

 

— Mas…?

 

— …só a sua cabeça talvez dê.

 

— Que medo!! Você tá me assustando, Ryoichi-kun!

 

***

 

Isso era ruim.

Eu não tinha pensado direito na situação. O lugar estava abafado demais… e não havia banheiro. Yuji já não parecia tão irritante quanto de costume. Estava agachado no chão há um tempo, ofegante, suando mais do que o normal

Comecei a considerar que ele podia realmente estar passando mal

 

A porta estava trancada. Se algo acontecesse com ele ali dentro…

Isso podia acabar muito mal.

Bam! Bam!

 

Comecei a bater na porta com força. Mas, ironicamente, por ser um depósito… aquela parecia ser a única porta realmente bem trancada

 

— Droga! Não se preocupa, Yuji. Vou fazer barulho. Alguém vai ouvir e tirar a gente daqui

 

— Você… realmente é o cara, Ryoichi-kun…

 

Por algum motivo, aquele elogio me deixou… feliz. Definitivamente, eu também devia estar passando mal...

 

Continuei batendo na porta — até que, de repente…

 

click

 

— O qu—

 

A porta se abriu

 

Yoshiko-sensei estava lá, com a mesma expressão nada amigável de sempre

 

Mas, dessa vez… não estava sozinha

 

— Ryoichi-kun? — perguntou Natsuki-senpai, como se quisesse confirmar

 

— Sen…pai…

 

Foi estranho

 

Só de vê-la ali… senti um alívio imediato. Como se, finalmente, tudo estivesse sob controle.

 

— O que diabos você está fazendo, seu idiota?!

Infelizmente, a presença da minha senpai não foi suficiente para impedir o inevitável. O punho mortal da famigerada ogra escarlate. Realmente, doía tanto quanto diziam os boatos

 

— Aii!! Que dor!! P-por que você…?!

 

Antes que eu pudesse terminar, notei que Natsuki não era a única ali.

Um pouco atrás dela… uma silhueta surgiu.

 

A luz que entrava pela porta iluminou lentamente a figura. E então, ela tomou forma...

 

Era Naomi-san.

 

Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários

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