Volume 2

Capítulo 13: O Mundo Que Você Enxerga [FINAL]

As amigas de Naomi-san acabaram nos encontrando

Elas pareciam preocupadas e surpresas com a nossa presença ali

— Nao-chan! Onde você esteve?! — Akari exclamou a abraçando — Você sumiu de repente!

Seiko que parecia ser um pouco mais perceptiva. Também externou sua opinião

— Você chorou? — Perguntou, Seiko — Seus olhos estão vermelhos

— [...]

— Você tem estado estranha, Nao-chan. Não me diga... que você ainda tá pensando naquele idiota

Naomi parecia um pouco nervosa a príncipio com a chegada de suas amigas. Mas também parecia feliz ao perceber o quanto elas estavam preocupadas

— Não. Está tudo bem. Eu só me perdi

— Se perdeu? Ahh... já não basta a cabeça de vento da Akari, agora eu tenho que me preocupar com você, Nao-chan?

— Ca-cabeça de v-vento...? — Akari pareceu querer retrucar, mas sem sucesso

Olhei para Naomi-san e ela pareceu sorrir. Ela deve realmente amar aquelas garotas

— E esses aí? — Indagou, Seiko. — Quem são? Vão falar ou só vão ficar aí nos olhando?

— São seus amigos, Nao-chan?! — Perguntou, Akari

— Amigos...

Naomi pareceu pensar por alguns segundos e depois de olhar por alguns segundos em nossa direção, respondeu

—...É... acho que sim...

Akari e Seiko se entreolharam e pareceram não entender a reação esquisita de Naomi. Que apenas voltou a subir as escadas

— Vamos, meninas? Eu ainda quero fazer compras depois daqui!

— Ah, essa é nossa Nao-chan! [2X]

Correndo pelas escadas entre os torii vermelhos, Naomi e suas amigas pareciam esquecer seus dramas por alguns instantes. Naquele momento, eram apenas garotas aproveitando a própria juventude como sempre

 

***


TRIM

Um som de um toque de celular chamou nossa atenção. Natsuki-senpai então pediu licenca e atendeu a ligação

— Alô...? Ah, é você Yoshiko-sensei?

Fiquei um pouco curioso sobre o fato de minha senpai usar um celular. Mas eu poderia perguntar sobre isso mais tarde

Também era indagante o fato de Yoshiko-sensei ter o contato dela. Porém, não era exatamente uma surpresa tão grande, considerando o quão as duas pareciam próximas

— Entendi... Então, eu acredito que não tem jeito... Natsuki murmurou com uma voz séria

— Eu já estou chegando...

Click

Ela parecia ter encerrado a ligação. Ela não durou mais que poucos segundos

— Aconteceu alguma coisa, senpai?

— Nada sério. Mas, eu vou ter que descer e me encontrar com Yoshiko-sensei no início das escadas

— O quê? Mas por quê?

— Ela disse que precisa me contar alguma coisa. Se ela chegou ao ponto de me ligar, deve ser relevante

— Agora, a gente vai ter que descer tudo isso... ah que saco!

— Hahaha.... você a conhece. Quando ela coloca algo na cabeça é impossível tirar. Mas não se preocupe, você não precisa descer

— O-o quê? Como assim?

Natsuki se virou para atrás para Yuji. Ele parecia que tinha tomado um banho. Tinha uma espécie de pedaço de madeira em mãos que parecia usar como apoio e estava com as línguas de fora

— Yuji-kun, vai descer comigo.

— A..ha..au....a...h..

Yuji parecia balbuciar alguma espécie de lingua alienigena.

— Não, senpai! Eu-

— Você fica. Ordens de Yoshiko-sensei. Ela pediu que você continuasse subindo sozinho por enquanto

Eu não compreendia a razão. Mas Yoshiko era a nossa professa conselheira no clube de amigos, então era muito provável que houvesse uma razão para essa sucessão estranha de acontecimentos

Protestar contra o desejo daquela mulher ogro também estava fora de razão. Afinal, tenho muito amor pela minha vida

— Tudo bem. Eu não entendo, mas confio em você, senpai

Por um instante, Natsuki pareceu surpresa antes de sorrir levemente

—...Obrigada.

Mesmo cheio de dúvidas, continuei subindo sozinho pelos torii vermelhos enquanto o vento atravessava silenciosamente a montanha "Afinal, o que haverá mais á frente...?"

 

***

 

Não demorei muito para chegar à famosa interseção de Yotsuji. Aquele ponto marcava aproximadamente a metade da subida do Monte Inari. Diferente dos corredores apertados de torii lá embaixo, a área se abria em uma espécie de pequeno ponto de descanso.

Havia bancos espalhados próximos da trilha, máquinas de venda automática e pequenos quiosques vendendo lembranças e comida quente para os turistas cansados da subida. Alguns visitantes aproveitavam para descansar antes de descer a montanha

Outros continuavam a caminhada em direção ao topo, onde o movimento parecia diminuir cada vez mais. Pelo que Yoshiko-sensei comentou mais cedo, muita gente encerrava a visita ali mesmo. 

Honestamente, eu conseguia entender perfeitamente o motivo. Por mais que estivesse cansado, acabei sendo atraído pela beleza da cidade de Kyoto. Eu podia ver ela perfeitamente dali de cima.

As pequenas casas, as ruas, a vegetação e até as pessoas. Era como se todo aquele caminho arduoso tivesse valido a pena. A transição do túnel fechado e sombreado de portões torii para o espaço aberto, me trouxe uma sensação libertadora. Já que pude apreciar aquela vista

As poucas pessoas presentes aqui também pareciam sentir o impacto de ver a Kyoto moderna e urbana espalhada pelo vale, emoldurada pelas montanhas ao fundo, enquanto estão pisando em um solo sagrado milenar

Outros aproveitavam sentados nos bancos das casas de chá locais, parecendo sentir o tempo desacelerar ao ouvir apenas o som do vento nas árvores da floresta sagrada

— É tão bonito que faz valer a pena, não é?

Uma voz levada pelo vento chamou minha atenção. Uma voz que estava guardada há muito tempo em memórias não tão felizes

O dono dessa voz eloquente, era um garoto de cabelos dourados. Tal qual os grãos de trigo amadurecidos. Seus olhos da cor do mar pareciam perdidos na paisagem. Alto e de boa aparência, ele trazia atenção para si mesmo apenas por existir

Talvez, por isso, as pessoas acabam apenas orbitando ao seu redor

— Meus amigos apenas desistiram no meio do caminho. Disseram que eu era louco por continuar. Ainda bem que eu não os escutei

Com as mãos em seus bolsos, o garoto sequer olhava para mim. Seus olhos permaneciam olhando para frente

— Onde estão seus amigos? Eles também desistiram?

— Não exatamente. Mas eles tiveram que voltar

— Entendi. É uma pena pra eles também. Mas e você? Vai continuar daqui?

— Acho que não. E você?

— Você ainda tem dúvidas? Eu vou subir até o fim

— Acho que você gosta de sofrer, não é? Você já subiu até aqui. Não é o suficiente?

— De fato, não é. Não, nem mesmo perto disso. Eu realmente me esforcei até aqui. Não me arrependo nem por um segundo. Afinal, por eu ter me esforçado, eu tive essa bela visão. Mas, me pergunto se eu subir um pouco mais? Será que verei algo ainda mais bonito?

— Você não tem medo de se machucar?

— Maior que o medo de me machucar, é o medo de voltar a ser um covarde. Quando isso acontecer, você vai se machucar e quem você ama também

— Você não está satisfeito? Não acha que está sendo egoísta demais?

— Humanos são seres egoístas. Vivemos pela nossa felicidade. Mas eu acredito que, se for resultado de nosso próprio esforço, então qual é o problema? Afinal, você não chegou até aqui por causa disso?

— Acho... que entendi. Eu vou me lembrar disso

O garoto então se virou de costas para a cidade e voltou a caminhar em direção ao fim do monte Inari. Seu andar confiante e a maneira como ele se portava demonstrava que não havia dúvidas sobre a sua decisão

— Acho que... talvez eu devesse subir também...

O garoto continuou andando, mas sua voz foi carregada pelo vento

— Não. Você não precisa se apressar ainda. Você ainda tem tempo pra descobrir isso

— M-mas-

— Eu achava você deprimente. Pensei que você era um covarde. Mas, veja só... agora vejo que você é tão egoísta quanto eu

— [...]

— Então, talvez nós dois tenhamos nos enganado

— Acho que sim...

Com um braço estendido e um pequeno sorriso, o garoto se despediu

—...Continue se esforçando, Ryoichi-san. E veja vistas ainda mais belas que essa

Hayato Kamo — o garoto que parecia não enxergar ninguém ao seu redor ainda se lembrava do meu nome. E foi justamente da pessoa que eu mais desprezava que ouvi palavras que jamais esqueceria

Talvez fosse apropriado que aquele lugar se chamasse de interseção. Afinal, parecia que todos nós estávamos presos em algum tipo de encruzilhada emocional

Kyoto realmente é um lugar que tece as linhas do destino

***

Depois de visitarmos outro templo, o famoso Yasaka. Estava quase na hora da caminhada que nos levaria ao ápice da viagem ao famoso Kiyomizu-dera

O lugar que seria não apenas o ponto alto da excursão, mas também o cenário perfeito para a declaração de Naomi

Agora, que estavamos chegando perto, eu estava me sentindo com um frio na barriga. Era agora o nosso tempo livre, então podíamos visitar alguns lugares pelo distrito de Higashiyama. Que é justamente onde é situado os dois templos: Yasaka e Kiyomizu-dera

Cada grupo parecia fazer algo diferente: Alguns decidiram participar de cerimônias tradicionais do chá em casas locais. Outros alugavam yukatas de verão para tirar fotos nas ruas pitorescas, fingindo ser moradores da Kyoto antiga

Visitar lojinhas antigas que vendiam cerâmicas e doces tradicionais (como dango grelhado) e artesanato local também era uma excelente opção

— Como Yuji-kun está? — Perguntou, Natsuki

— Na mesma

Yuji estava agora todo jogado em cima de um banco. Ele realmente parecia totalmente esgotado depois de subir e descer todas aquelas escadas de Fushimi Inari

Ele também acabou tendo que andar conosco pelo templo Yasaka, então acredito que só tenha sobrado a sua alma agora

— Você realmente não consegue andar mais um pouco, Yuji-kun?

—  A-andar?! Ghh... agh... — Respondeu, Yuji. Balbuciando

— Eu acho que isso é um não...

Yuji parecia precisar de mais algum tempo para descansar

— V-vocês... podem ir. Depois... e-eu alcanço vocês...

— N-não, Yuji-kun. Não vamos fazer isso! — Exclamou, Natsuki-senpai. — Nós somos um grupo, não vamos simplesmente te deixar aqui

— Isso mesmo. — Assenti, em concordância — Não seria a mesma coisa, sem você

— Fico feliz pelas palavras, mas... isso não... me faz me sentir melhor

— [...]

— Vão logo. E... se divirtam. Depois eu logo os alcanço

— Entendi. Tudo bem. Vamos senpai.

— Espe- Ryoichi-kun!

Comecei a caminhar pelo distrito em busca de alguma coisa que pudesse fazer. Natsuki vinha logo atrás de mim

— Você realmente vai deixar Yuji-kun? Ele não é seu amigo?

— Eu não vou deixá-lo. Estou simplesmente cumprindo o desejo egoísta dele

— [...]

Higashiyama é um lugar realmente diferente dos demais, esbanjando história e cultura por onde andávamos.

Enquanto caminhávamos, acabamos chegando à famosa rua de Ninenzaka, repleta de lojas históricas, cerâmicas artesanais e docerias tradicionais. As construções antigas de madeira alinhadas pela ladeira davam ao lugar uma atmosfera quase nostálgica. Lanternas decoravam algumas fachadas, enquanto turistas passavam carregando sacolas de lembranças ou tirando fotos vestidos com yukatas alugados.

O aroma adocicado de dangos recém-feitos se misturava ao cheiro suave de chá vindo das pequenas casas tradicionais espalhadas pela rua.

Sentindo falta de Natsuki-senpai ao meu lado, olhei para trás.

Ela estava alguns metros distante de mim, completamente perdida no meio da multidão.

Seu corpo esbarrava levemente nas pessoas enquanto tentava se orientar. Em um momento, acabou quase tropeçando no meio do fluxo de turistas, fazendo meu coração gelar por um segundo.

— Estou aqui, senpai!

Rapidamente corri até ela e segurei sua mão.

— R-Ryoichi-kun?!

Sem pensar muito, puxei Natsuki até uma área menos movimentada da ladeira. Só depois de parar percebi o quão pequena e delicada sua mão parecia dentro da minha.

— Senpai, onde está sua bengala?

— Na pressa eu acabei esquecendo... A-acho que deixei lá atrás com Yuji-kun...

— Ahh, ótimo... Bom, não tem problema. Vamos volt—

— Ryoichi-kun...

— Hã? O que foi, senpai?

— S-sua...

— Minha o quê?

— Sua mão...

Olhei para baixo por reflexo.

Eu ainda estava segurando a mão dela. Se Natsuki não tivesse comentado, provavelmente eu nem teria percebido.

— A-ah... m-me desculpe... é que eu...

— H-hahaha... T-tá tudo bem...

O rosto dela parecia levemente avermelhado.

— B-bem... então vamos logo voltar e—

— [...]

Thud.

Um peso suave repousou sobre meu ombro esquerdo. Meu corpo congelou por um instante

Era minha senpai. Ela havia se aproximado completamente de mim, segurando meu braço enquanto apoiava parte do corpo contra meu ombro

— S-senpai...?

— [...]

Ela não disse nada por alguns segundos. Apenas manteve seu rosto escondido contra meu ombro

— A-acho que teremos que ir assim então... — murmurou Natsuki em voz baixa.

O rosto dela, outrora escondido, agora carregava um tom rosado incomum

— ...Me guie por hoje... tá bom?

— T-tudo bem...

Começamos a caminhar lentamente pela rua de Ninenzaka

Era uma sensação estranha. O calor do corpo dela era impossível de ignorar. Às vezes eu sentia algo macio tocar meu braço, fazendo meu rosto esquentar ainda mais.

Tentei desesperadamente fingir que não percebia aquilo

Ou seria perigoso demais para o meu coração

— Onde estamos? — perguntou Natsuki enquanto caminhávamos.

— Em Ninenzaka.

— Ninenzaka...? Interessante. Você está me levando para algum lugar específico?

— Eu não tenho nenhum em mente. Você conhece algum lugar legal?

Natsuki soltou uma pequena risada divertida.

— Ryoichi-kun... não se pergunta para uma dama aonde ela quer ir durante seu encontro.

— I-isso é um encontro?!

— Eu não sei... isso é? — perguntou, sorrindo.

— Kh... você realmente...

— Hihihi... você é tão fácil de ler...

Eu realmente não fazia ideia de como agir naquela situação.

Nunca tinha saído sozinho com uma garota antes. Muito menos caminhado tão próximo assim de uma.

E minha senpai parecia saber disso.

E, para piorar, ela realmente adorava me provocar

Eu já havia percebido isso há algum tempo, mas não sei por quê, ela estava ficando cada dia pior. Me provocando sempre que podia

Natsuki continuava apoiada em mim enquanto avançávamos lentamente pela rua movimentada

O perfume suave do shampoo dela ocasionalmente era carregado pelo vento até mim — exatamente como havia acontecido no ônibus.

Mas, daquela vez, não tinha sido um acidente.

E o mais estranho era que, em algum momento, eu tinha começado a me acostumar com a presença dela ao meu lado

Conforme caminhávamos, comecei a perceber os olhares das pessoas ao redor. Eram muitos. E nenhum deles fazia questão de esconder a curiosidade

No início, imaginei que fosse por causa da deficiência visual de Natsuki. Afinal, uma garota caminhando de olhos fechados enquanto se apoiava em alguém naturalmente chamaria alguma atenção

Mas, conforme prestava atenção nos cochichos ao redor...

Percebi que não era exatamente isso.

"Olha só que casal fofo..."

"Ahh... eu queria voltar a ser jovem..."

"Whoa... ela é linda. O que está fazendo com um cara tão sem graça?"

— "..."

Meu rosto queimou instantaneamente.

"Q-que vergonha... espero que minha senpai não tenha escutado isso..."

— Ah...

A pequena reação dela foi suficiente para destruir minhas esperanças

"É óbvio que ela escutou."

***

Depois disso, achei que seria interessante levar minha senpai para uma das muitas docerias espalhadas pelo distrito. Eu ainda lembrava claramente do quão animada ela parecia em Arashiyama quando falávamos sobre doces tradicionais de Kyoto.

— Senpai, tem várias lojas de doces incríveis por aqui.

— Hum...

— Talvez a gente pudesse visitar algumas antes do Yuji nos alcançar. Só precisamos ser rápidos, hahaha...

— É... talvez...

— [...]

A resposta dela foi estranhamente vaga.

Até alguns minutos atrás, Natsuki-senpai estava rindo, me provocando e se divertindo comigo. Mas agora parecia um pouco distante. Seu tom de voz havia ficado mais baixo. Mais reflexivo.

— Senpai... aconteceu alguma coisa?

— Hã...? N-não, nada. — respondeu com uma pequena risada fraca. — Eu só acho que estou um pouco cansada...

— Ah... me desculpe. Eu devia ter percebido isso antes. A gente já está andando há bastante tempo.

— N-não tem problema. — Natsuki balançou levemente a cabeça. — Eu estou me divertindo muito... só acho que preciso descansar um pouco.

Não precisei procurar muito para encontrar um pequeno banco próximo da rua.

Sem dizer nada, guiei Natsuki até ele. Ela lentamente se soltou do meu braço e tocou a superfície do banco com os dedos, confirmando sua posição antes de ajeitar o tecido longo da yukata e se sentar com cuidado.

O movimento parecia tão natural que, por um instante, eu me perguntei quantas vezes ela já precisou fazer aquilo sozinha.

Também não demorei para imitá-la e acabei me jogando no banco ao seu lado. Enquanto olhava para o céu ainda azul, respirei fundo e tentei descansar um pouco antes de voltar a andar.

O movimento das pessoas continuava ao nosso redor. Vozes, passos, risadas... mas, de alguma forma, aquilo parecia distante.

Eu me sentia um pouco ansioso.

Principalmente pela mudança de humor de Natsuki.

Afinal, eu queria que tudo fosse perfeito e que ela achasse divertido do início ao fim. Então me perguntava se ela realmente estava gostando ou se apenas estava sendo educada, como sempre.

Talvez eu pudesse ter sugerido que descansássemos em uma doceria. Seria matar dois coelhos com uma cajadada só.

Mas acabei agindo por impulso e agora não tinha tanta coragem de sugerir aquilo de novo.

Foi então que escutei a voz de Natsuki mais uma vez.

— Me desculpe, Ryoichi-kun... eu estraguei tudo.

Meu corpo reagiu antes mesmo que eu pudesse pensar.

Virei imediatamente em direção a ela.

— O que você... está dizendo, senpai?

A voz dela era baixa. Frágil.

Em meio ao som das conversas, passos e risadas espalhadas por Higashiyama, parecia que aquelas palavras poderiam desaparecer a qualquer instante se eu não prestasse atenção.

— Do que você está falando? Se for sobre o nosso passeio, não precisa se preocu—

— Não apenas hoje...

Natsuki abaixou levemente a cabeça enquanto apertava as próprias mãos sobre o colo.

— Eu estraguei tudo...

— [...]

— A viagem de vocês... nossa missão... a relação da Naomi e do Hayato...

A voz dela tremia cada vez mais conforme continuava.

— E até agora... eu continuo estragando tudo de novo...

— Senpai...

— Repetidas vezes...

O movimento da rua continuava normalmente ao nosso redor. Turistas passavam conversando. Lojas permaneciam abertas. Risadas ainda podiam ser ouvidas ao longe.

Mas, naquele momento, parecia que apenas nós dois estávamos parados no tempo.

— Natsuki-senpai. Você pode esperar um instante? Eu juro que volto logo.

— O-o qu—

 

__________

 

— Arf... huff... s-senpai... voltei...

— Ry-Ryoichi-kun?! Você demorou! — reclamou Natsuki, fazendo um pequeno beicinho.

— Me desculpa... a fila estava enorme. Tinha um monte de alunos lá.

— Fila...?

Respirando fundo para recuperar o fôlego, sentei cuidadosamente ao lado dela no banco.

Havia mais do que o suficiente em minhas mãos para nós dois.

— Senpai... pode juntar suas mãos um instante?

— T-tudo bem...

Com certa hesitação, Natsuki juntou lentamente as mãos delicadas diante do corpo.

Então coloquei cuidadosamente o que havia comprado sobre suas palmas, ainda embrulhado em papel tradicional.

Func. Func.

Natsuki inclinou levemente a cabeça.

— Esse cheiro... lembra açúcar caramelizado...

Ela aproximou o embrulho do rosto por reflexo.

— ...É salgado... mas também... doce...

Seu tom pareceu ganhar um pouco mais de vida.

— São doces?!

— Sim. — sorri sem perceber. — Mas tenha cuidado. Eles ainda estão quentes.

Dentro do embrulho estavam mitarashi dangos. Pequenos bolinhos de arroz grelhados em espetos, cobertos por uma calda brilhante agridoce feita de açúcar e shoyu.

O aroma adocicado se misturava suavemente ao cheiro tostado deixado pela grelha.

Por algum motivo, achei que aquele tipo de doce combinava perfeitamente com Kyoto.

O humor da minha senpai parecia completamente diferente agora.

O sorriso melancólico de alguns minutos atrás havia desaparecido.

Em seu lugar, ela carregava um sorriso animado de orelha a orelha enquanto segurava cuidadosamente o embrulho dos dangos.

Ela parecia genuinamente ansiosa para provar os doces.

Mesmo assim, talvez por minha causa, Natsuki ainda tentava manter certa compostura.

Então, segurando discretamente a manga do meu yukata com uma das mãos, ela inclinou levemente o rosto na minha direção.

— E-eu posso provar...?

"..."

Meu coração sofreu um ataque crítico.

Aquilo era injusto.

Não.

Aquilo definitivamente deveria ser proibido por lei.

O governo precisava urgentemente impedir mulheres de usarem aquele tipo de expressão.

Principalmente se elas estivessem usando yukata.

— C-claro... fique à vontade...

Natsuki imediatamente abriu um sorriso ainda maior.

— Oba... ♪

Minha senpai começou a assoprar cuidadosamente os dangos.

— Fuu... fuu...

O vapor quente ainda subia levemente da calda brilhante enquanto ela repetia o movimento várias vezes.

Só parou quando aparentemente julgou, por pura intuição, que a temperatura já estava aceitável.

Então, com um movimento delicado, Natsuki ajeitou os longos cabelos atrás das orelhas.

Meu olhar acabou acompanhando aquele gesto sem perceber.

Ela então aproximou lentamente os lábios do primeiro dango.

Antes de morder, encostou a ponta dos lábios nele com cuidado, confirmando se ainda estava quente demais.

E só então...

Nhom.

Ela puxou o bolinho do espeto cuidadosamente.

— Hmmmmmmm...

Os ombros dela estremeceram levemente.

— Q-que foi...?

— [...]

— Que delíciaaaaaaaaaaa!

O rosto de Natsuki imediatamente se iluminou.

Parecia até outra pessoa comparada à garota silenciosa de alguns minutos atrás.

— ...É doce! Mas, ao mesmo tempo... salgado! Doces umami realmente são uma dádiva dos deuses!

— [...]

Natsuki parecia imparável.

Eu nunca a tinha visto tão animada daquele jeito antes.

— Ahh... — suspirou como uma garota apaixonada. — O salgado do shoyu misturado ao doce do açúcar... a textura incrivelmente macia, densa e grudenta...

— Grudenta...?

— Sim! E ainda tem a crosta levemente crocante por fora, o sabor defumado da grelha... tudo isso perfeitamente harmonizado e—

Ela interrompeu a própria fala no meio da frase.

— Ehh...

Seu rosto deixava claro que finalmente havia percebido o quão empolgada estava ficando por causa de um simples doce.

O silêncio durou apenas alguns segundos.

Então...

— Pff... hahahaha!

Acabei explodindo em risadas sem conseguir me controlar.

— Você precisava ver a sua cara agora, senpai! Foi incrível! Hahahaha!

— H-Humph!

Natsuki virou levemente o rosto, claramente envergonhada.

— Isso foi golpe baixo, Ryoichi-kun... e não ria de mim...

Mesmo reclamando, ela ainda segurava o espeto de dango como se fosse o maior tesouro do mundo.

— Ha... m-me desculpe... é que... pff... foi muito bom ver você tão animada por causa de um dango.

— Humph! — Natsuki continuou fazendo beicinho. — E-eu esperava mais de você, Ryoichi-kun. Me provocando só porque eu simplesmente gosto um pouquinho de doces, só isso...

— Um "pouquinho"? — perguntei, provocando. — Babando daquele jeito?

— S-sim! Só um pouquinho! E eu não estava babando!

— Hahahahaha! Já que você está dizendo...

— Mmph... você é mesmo horrível às vezes, Ryoichi-kun...

Mesmo reclamando, ela ainda sorria discretamente enquanto mordia outro dango. Eu me juntei a ela e também comecei a comer o meu. O que acabou sendo uma péssima ideia. Eu havia esquecido de assoprar o dango

E acabei queimando a língua.

***

Voltamos a caminhar algum tempo depois. Logo começaria a escurecer, então resolvemos subir a ladeira de Ninenzaka em direção ao Kiyomizu-dera na esperança de que Yuji nos encontrasse mais facilmente.

A rua mantinha uma atmosfera mágica, com as tradicionais luminárias de papel (chōchin) dos restaurantes e lojas locais, que estendiam um pouco o horário de funcionamento durante aquele dia.

Afinal, o festival de luz era um evento único e raro.

— Ryoichi-kun... obrigada.

— Por que você está me agradecendo?

— Você se lembrou, não foi? Que hoje é o dia em que minha mãe morreu? Por isso você quis me agradar.

— [...]

— Obrigada. Você é sempre tão gentil.

— E-eu... não sei do que você está falando... Eu apenas segui o seu conselho. Você não se lembra?

— Conselho?

— Em Arashiyama, você disse que eu deveria levar outra garota para comer doces um dia. Bem... mesmo que não seja outra garota... eu achei que seria legal.

— [...]

— E você...? Está mais feliz?

— Sim. Eu estou.

Muitos estudantes e casais continuavam subindo conosco.

Já havíamos chegado à famosa Sannenzaka, o que significava mais uma rodada de escadarias intermináveis.

As antigas construções de madeira alinhadas pela ladeira davam ao lugar uma atmosfera quase intocada pelo tempo. As lanternas de papel começavam a acender pouco a pouco conforme o céu escurecia, iluminando os paralelepípedos e os degraus de pedra com uma luz alaranjada suave.

Por um instante, parecia que havíamos voltado centenas de anos no passado.

Mesmo com o movimento dos turistas, o som dos passos ecoando pela subida estranhamente trazia uma sensação de calma.

No entanto, aquele momento de paz foi interrompido por um toque inesperado.

Trim-trim.

— É o seu celular? — perguntou Natsuki, embora provavelmente já soubesse a resposta.

— Sim. Mas é estranho... — respondi, olhando para a tela do smartphone. — Eu não conheço esse número.

— Oh? Será... que é um fantasma?! — Natsuki fingiu estar assustada.

— Hahaha... é uma pena que eu não acredito em fantasmas — respondi honestamente. — Mas estou curioso. Vou atender.

— Alô?

— R...y...oi...c...hi-sa...n...

Click.

Desliguei na hora.

— Por que você desligou?

— Pensando bem... acho que agora eu acredito.

— ...?...

Trim-trim.

— Oh? Está ligando de novo. Qual é o número, afinal?

— É...

Acabei ditando o número para Natsuki.

— Ah. Mas esse número é da Haruka-chan. Não me diga que você desligou na cara dela.

— Hahaha... ah, eu me ferrei, não é?

— [...]

"Droga... se eu não atender, posso ser amaldiçoado..."

— Alô?

— [...]

— Alô...?

— Ryoichi-san. Acredito que eu deva lhe dar os meus parabéns.

— S-sério? Por quê?

— Sim. Eu realmente preciso valorizar sua empáfia e falta de vergonha na cara por desligar na cara da sua presidente. Realmente, isso não se vê todo dia.

— M-me desculpe... por favor, não me amaldiçoe... — disse, quase chorando.

— Amaldiçoar? Do que diabos você está falando? Eu liguei para ver se estava tudo indo bem. Yumi não me liga há dias... como está o andamento do plano?

— Está caminhando... eu acho...

— Caminhando?

— É... está indo... eu acho...

— [...]

— Hahh... acho que agora eu entendi por que Yumi não está me ligando...

— D-de qualquer forma, tudo será resolvido hoje à noite. Mas... como você conseguiu o meu número?

— Yoshiko-sensei me passou. Por quê? Tem algum problema?

— Nada, nada...

"É óbvio que tem um problema. Desde quando Yoshiko-sensei tem meu número?!"

— De qualquer forma, é seu primeiro trabalho. Então não fique desanimado, qualquer que seja o resultado.

— Eu não vou.

— Está bom, então.

Como parecia que não havia mais nada para falar, pensei que ela fosse desligar.

No entanto, ela continuou na linha.

— [...]

"..."

Normalmente, eu desligaria.

E meu dedo quase tocou a tela para fazer exatamente isso.

Mas, por algum motivo, não fiz.

— ...Yumi...

— ...Hã? O que tem a senpai?

— ...Como ela está? — perguntou a presidente de maneira estranhamente hesitante. — Tipo... o rosto dela ou algo assim...

— Ela me parece bem, eu acho. Só um pouco cansada. Nós estamos subindo bastante degraus hoje.

— ...Hum...

— [...]

— ...Eu posso falar com ela?

— Claro.

Coloquei o telefone no viva-voz e posicionei o celular para que Natsuki pudesse escutar.

— Ela quer falar com você.

— S-sério? O que foi, Haruka-chan?

— ...Se anime logo, idiota.

Tu. Tu. Tu.

A ligação foi encerrada.

— O que foi isso?

— Hm... Haruka-chan... você realmente...

Mesmo que eu não entendesse totalmente o significado daquilo, naquele pequeno e breve momento, Natsuki sorriu

***

Depois de algum tempo, finalmente chegamos ao nosso destino.

E também ao grande clímax da nossa viagem escolar:

O templo Kiyomizu-dera.

Construído na encosta do Monte Otowa, o famoso "Templo da Água Pura" parecia ainda mais impressionante ao anoitecer. As antigas estruturas de madeira iluminadas pelas luzes do festival davam ao lugar uma atmosfera quase irreal.

O enorme terraço principal se projetava sobre a montanha sem utilizar um único prego em sua construção. Dali, era possível enxergar boa parte de Kyoto iluminada ao longe.

Mesmo cercado por turistas e estudantes, o lugar ainda transmitia uma sensação estranha de calma.

Como se o tempo passasse de maneira diferente ali.

Talvez por isso excursões escolares para Kyoto fossem consideradas tão especiais no Japão.

Não era apenas turismo.

Parecia mais um daqueles momentos da juventude que as pessoas carregam para sempre consigo.

Próximo dali também ficava o famoso santuário Jishu, conhecido pelas lendas envolvendo amor e relacionamentos. Alguns estudantes até tentavam atravessar de olhos fechados o caminho entre as pedras da sorte enquanto os amigos riam e observavam.

Já outros seguiam diretamente para a fonte sagrada de Otowa, depositando ali desejos sobre o futuro, aprovação em exames ou simplesmente esperança de que algo mudasse.

E, honestamente, observando aquele lugar iluminado sob o céu da noite, eu conseguia entender perfeitamente o motivo.

— Ah! Finalmente vocês chegaram!

Yuji, agora vestido com um yukata masculino escuro, acenava exageradamente para nós do outro lado da entrada, chamando atenção não apenas nossa, mas também de vários turistas ao redor.

Ao lado dele estava Yoshiko-sensei.

E, honestamente...

Ver Yoshiko-sensei usando yukata definitivamente não era algo que eu esperava ver hoje.

— Eae, Yuji. Você que sumiu, hein? — brinquei enquanto nos aproximávamos.

— Hahah, é mesmo! É difícil encontrar alguém no meio de tanta gente. — disse, esfregando a própria cabeça. — Mas, deixando isso pra lá...

— Hã?

— Espero que tenha aproveitado seu passeio com a senpai. Hehehe!

— D-do que você e-... ahh, cala a boca, idiota!

Yuji pareceu satisfeito com minha reação.

Seu sorriso ia de orelha a orelha.

Ele também entregou a bengala de volta para Natsuki, que o agradeceu.

Como eu já tinha visto que ele estava bem, decidi falar com minha sensei, que apenas observava tudo em silêncio.

— E Yoshiko-sensei... esse yukata ficou muito bom em você.

Por um instante, ela pareceu surpresa com o elogio antes de suspirar de maneira cansada.

— Ara ara... desde quando você aprendeu a bajular, Ryoichi-kun?

— N-não é bajulação! Eu só estava sendo educado!

— Hihihi...

Natsuki acabou deixando escapar uma pequena risada ao meu lado.

Yoshiko então cruzou os braços enquanto observava nós três.

— Yumi-chan e Ryoichi-kun, vocês chegaram em um bom horário. Ainda falta um pouco para o show de luzes começar.

Ela apontou discretamente para a área principal do templo, já iluminada pelas lanternas do festival.

— Então aproveitem o festival enquanto podem.


***

Uma das atrações mais famosas do Kiyomizu-dera naquela noite era a fonte sagrada de Otowa.

Longas filas de estudantes e turistas se formavam diante da pequena cachoeira iluminada pelas lanternas do festival.

A água cristalina descia da montanha em três correntes separadas antes de cair sobre a bacia de pedra abaixo. Cada visitante segurava uma caneca metálica de haste comprida para beber apenas de uma das correntes.

— Ah... o famoso ritual das três correntes... — comentou Yoshiko-sensei enquanto observava a movimentação.

— Ritual...? — perguntou Yuji.

— Cada fluxo representa uma bênção diferente — explicou ela. — A da esquerda simboliza sucesso acadêmico. A do meio está ligada ao amor. E a da direita representa saúde e longevidade.

— Hoh... então o que você está fazendo, sensei? — Yuji perguntou, confuso. — Você se esqueceu?

— Como assim, Yuji-kun? Esqueci o quê?

— Sua bacia, oras. Yoshiko-sensei vai fazer trinta anos sem ter um namorado. Só assim pra você ter certeza que vai desencanar de vez!

— [...]

POW!

—...D-dizem também que b-beber de mais de uma corrente é s-sinal de ganância... — continuou Yoshiko-sensei. — E que i-isso anula as bênçãos... ha ha ha...

Dava para ver as veias saltando no rosto de Yoshiko-sensei.

Aquilo era, sem dúvida, um assunto sensível para ela.

— Ehh?! Então só pode escolher uma?! — indagou Natsuki.

— E-exatamente, Yumi-chan. Ha ha ha... s-só uma...

Ela continuou seu monólogo.

— S-se quando eu era mais jovem, eu t-tivesse bebido da fonte do meio... m-mas eu estava indo mal nos e-estudos... ha ha ha... eu não sabia... h-hahaha...

— [...]

— Hahaha... ehh... nós vamos indo, sensei...

— Ryoichi-kun.

A sensei segurou firmemente meu yukata.

— O-o que foi?

— Vo-você não me acha encalhada, não é?

— H-hã?

— Eu ainda sou jovem, n-não? Eu tenho tempo!

— Hahaha... claro que tem, sensei.

— Ryoichi-kun...

Yoshiko abriu um sorriso genuíno de pura felicidade.

— Ainda bem...

— Desde que você continue usando maquiag—

POW!

______________

Por algum motivo, enquanto observava aquelas três correntes caindo silenciosamente sob a luz das lanternas, tive a sensação de que aquilo combinava perfeitamente com Kyoto.

Um lugar onde desejos, arrependimentos e sentimentos pareciam sempre se cruzar.

— Vamos, Ryoichi-kun! Antes que a fila fique maior! — disse Yuji.

Yuji parecia estranhamente motivado para participar do ritual. Ou talvez apenas estivesse desesperado para garantir uma vida longa depois de quase morrer pelas mãos da sensei.

— Tá bom, tá bom...

A fila diante da fonte sagrada realmente estava enorme.

As lanternas do festival iluminavam a área com tons alaranjados suaves enquanto o som constante da água ecoava pela encosta do templo. O fluxo cristalino descia continuamente das três correntes de Otowa, brilhando sob a luz da noite como pequenas faixas prateadas.

O ambiente inteiro parecia vivo.

Estudantes conversavam animados enquanto aguardavam sua vez. Alguns turistas erguiam celulares para fotografar a cachoeira iluminada. O som de risadas, passos e vozes se misturava ao barulho contínuo da água caindo sobre a pedra.

Meus colegas pareciam especialmente eufóricos.

Os garotos brincavam uns com os outros enquanto tentavam puxar a água usando as longas conchas metálicas sem se molhar no processo. Alguns acabavam falhando miseravelmente, arrancando gargalhadas da fila inteira.

Já as garotas pareciam muito mais interessadas na corrente central.

— Ahhh! É a fonte do amor!

— Tira foto! Tira foto rápido!

Muitas delas seguravam os celulares com ansiedade enquanto posavam próximas da água iluminada. Outras fechavam os olhos por alguns segundos antes de beber, como se realmente estivessem depositando seus sentimentos naquele pequeno ritual.

Mesmo cercado por toda aquela movimentação, o lugar ainda mantinha uma sensação quase sagrada.

Como se a água carregasse silenciosamente os desejos de milhares de pessoas através dos anos.

— Estamos perto, Ryoichi-kun? — perguntou Natsuki.

— Ainda falta um pouco.

Mais à frente, vi o grupo de Naomi-san. Elas riam bastante, tiravam fotos e pareciam genuinamente felizes.

Curiosamente, Naomi foi a primeira a pegar sua concha de água, escolhendo a corrente do meio sem nem pensar muito.

Como estava tão focado nela, acabei esquecendo por um segundo de Rina-san. Ela já estava levando sua concha para a área de higienização.

Conhecendo-a, provavelmente escolheu a corrente do sucesso acadêmico.

Sim, provavelmente.

— Nós somos os próximos, senpai.

— C-certo.

Depois de avançarmos lentamente pela fila por vários minutos, finalmente havia chegado nossa vez.

Yuji foi o primeiro a pegar a longa concha metálica.

Sem hesitar nem por um segundo, caminhou diretamente até a corrente da direita.

— Ahh! Vida longa ao grande Yuji-sama!

Ele ergueu a concha de maneira exageradamente dramática antes de tentar beber da água.

No entanto, acabou derramando metade dela no próprio rosto e no yukata.

— Gwah! Tá gelada!

Os estudantes ao redor imediatamente começaram a rir e a gritar em animação.

— Vai morrer cedo desse jeito!

— Bebe direito, idiota!

— Hahahaha!

Até alguns turistas estrangeiros pareciam se divertir com a cena, mesmo sem entender exatamente o que Yuji estava falando.

Aquele idiota realmente tinha um talento estranho para contagiar as pessoas ao redor.

Depois que a concha foi devolvida para a área de higienização, chegou a vez de Natsuki.

Por algum motivo, só naquele instante percebi que eu não havia pensado em como ela faria aquilo.

A água caía constantemente das três correntes sob a luz quente das lanternas do festival. O som contínuo da cachoeira ecoava pela estrutura de madeira do templo enquanto o vento frio da noite atravessava silenciosamente a encosta da montanha.

— Você pode me acompanhar? — perguntou Natsuki em voz baixa.

— Claro.

Ela se apoiou levemente em meu braço enquanto eu a guiava cuidadosamente até a plataforma de pedra próxima da fonte. Os passos dela eram lentos e cautelosos sobre o chão úmido.

Ao chegarmos mais perto, Natsuki estendeu a mão livre até tocar os pilares de madeira escura e a pedra fria ao redor da fonte, como se tentasse compreender o espaço através das texturas.

Percebi algumas pessoas olhando discretamente para nós.

Alguns estudantes até haviam parado de conversar por um instante.

Talvez estivessem curiosos.

Ou talvez apenas observando em silêncio.

— Pode segurar minha bengala um momento?

— Ah... claro.

Peguei cuidadosamente a bengala enquanto ela voltava a atenção para a fonte.

— Onde estão as conchas?

— Em um suporte bem na sua frente. Um pouco mais à direita... isso...

Natsuki moveu lentamente a mão pelo ar até encontrar a estrutura metálica.

As conchas de cabo longo refletiam a luz alaranjada das lanternas enquanto descansavam alinhadas no suporte de madeira.

Ela passou os dedos cuidadosamente pelos cabos frios até parar exatamente na concha central.

— Certo... agora, se eu não estiver enganada...

Segurando a concha junto ao peito, Natsuki caminhou lentamente na direção das correntes de água.

O movimento foi tão natural que até eu fiquei surpreso.

Os sons ao redor pareciam ter diminuído por um instante.

O único barulho que permanecia forte era o da água caindo continuamente sobre a pedra.

— Como você sabia onde estava, senpai...? — perguntei quase sem perceber.

— Hã? Ah... pelo som. É bem alto, não?

Ela respondeu aquilo de maneira tão simples que acabei ficando em silêncio por alguns segundos.

Sob a luz suave das lanternas refletindo na água, aquela cena parecia estranhamente bonita.

— Você pode me guiar? — perguntou ela outra vez. — Eu quero beber da fonte do meio.

Meu coração reagiu antes da minha cabeça.

— Ah... claro.

Natsuki ergueu cuidadosamente a concha metálica com as duas mãos.

O cabo longo tremia levemente enquanto ela tentava alinhar a posição apenas ouvindo o som da água.

— Estou no lugar certo?

— Mais um pouco para frente, senpai. Senão a água não vai alcançar a concha.

— Assim...?

Ela deu dois passos cautelosos.

— Perfeito. Agora um pouco para a esquerda... isso... segue reto.

No instante seguinte, a água cristalina caiu com força dentro da concha metálica.

Chhhhhh—

O impacto espalhou pequenas gotas pelo ar.

Natsuki perdeu levemente o equilíbrio por causa da força inesperada da água, mas conseguiu firmar o corpo antes de derramar tudo.

— Já está bom. Pode puxar.

Ela trouxe lentamente a concha de volta para perto do corpo.

O vapor fresco da água subia suavemente sob a luz das lanternas enquanto algumas gotas escorriam pelos dedos delicados dela.

— Está fria... — murmurou baixinho. — Mas... é tão revigorante...

Com cuidado, Natsuki derramou parte da água na palma da mão esquerda antes de aproximar os lábios lentamente.

Então, em silêncio, ela bebeu da corrente do meio.

— Ahh... é refrescante... Você quer um pouco, Ryoichi-kun?

— H-hã? Eu acho que não dá pra dividir.

Natsuki se apoiou em mim e levou a concha até a área de higienização.

Depois disso, devolvi sua bengala e peguei minha própria concha.

"Pera aí... qual era qual mesmo...?"

— Vai logo, não tenho o dia todo não! — disse um dos alunos atrás de mim.

— Ngh... j-já tô indo...

Acabei simplesmente escolhendo a mesma corrente da Natsuki-senpai.

Bebi a água, que estava incrivelmente fria.

O frescor desceu pela garganta quase como se limpasse todo o cansaço acumulado do dia.

Só não entendi a reação estranha das pessoas ao redor.

"Será que fiz alguma coisa errada?"

***

Depois de deixarmos a fonte sagrada de Otowa para trás, seguimos acompanhando o fluxo de estudantes e turistas pelo complexo iluminado do Kiyomizu-dera.

Nosso próximo destino talvez fosse o lugar mais comentado pelas garotas da escola.

E, honestamente, também por alguns dos garotos mais populares:

O Santuário Jishu.

Mesmo cercado pelas grandes estruturas do Kiyomizu-dera, aquele lugar parecia possuir uma atmosfera completamente diferente do restante do templo.

Mais leve.

Mais íntima.

E perigosamente voltada para o romance.

As antigas estruturas vermelhas do santuário eram iluminadas por centenas de lanternas de papel penduradas sob os telhados de madeira. A luz amarelada balançava suavemente com o vento da noite, criando sombras delicadas sobre os caminhos de pedra e os visitantes que circulavam pelo local.

O calor abafado do verão de Kyoto ainda permanecia no ar.

Mas a brisa fresca vinda da montanha finalmente começava a aliviar o cansaço acumulado do dia inteiro.

O som estridente das cigarras também parecia diminuir aos poucos conforme a noite avançava. Em seu lugar, restavam os murmúrios tímidos dos estudantes, o tilintar suave dos fūrin presos próximos das construções e o som seco dos geta ecoando pelo chão de pedra.

O cheiro de incenso queimando lentamente se misturava ao aroma adocicado vindo das barracas de comida mais abaixo no festival.

E talvez fosse justamente aquele ambiente que tornasse tudo tão estranho.

Fora da escola...

Sem uniformes...

Sem professores observando cada movimento nosso...

Parecia que todos estavam agindo de maneira diferente.

Os garotos caminhavam mais próximos das garotas.

As garotas pareciam rir mais facilmente.

E até pequenos silêncios ou esbarrões de ombro estranhamente carregavam algum significado.

— Ahhh! São as pedras da sorte!

A voz animada de uma estudante chamou minha atenção.

Mais à frente, um pequeno grupo observava duas pedras posicionadas a alguns metros uma da outra no centro do santuário.

— Dizem que, se você conseguir atravessar de olhos fechados até a outra pedra, seu desejo amoroso vai se realizar!

— Ehh?! Sério?!

— Vai logo! Tenta!

Uma garota usando um yukata floral começou a caminhar lentamente de olhos fechados enquanto as amigas gritavam instruções completamente inúteis ao redor.

— Mais pra esquerda!

— Não, esquerda não! A outra esquerda!

— Ahhh! Ela vai bater na lanterna!

— Hahahahaha!

As risadas ecoavam pelo santuário inteiro.

Próximo dali, estudantes formavam fila na pequena lojinha de amuletos.

Algumas garotas seguravam omamoris cor-de-rosa contra o peito enquanto conversavam animadamente.

— Esse aqui é pra encontrar o amor!

— Ahh! Tem o de proteger relacionamentos também!

— E-espera... quem compraria esse tipo?!

— Hmmmm~ Será que alguém aqui tá namorando escondido?

— EHHHH?!

Instantaneamente, o grupo inteiro começou a entrar em pânico.

Outros estudantes escreviam pequenos desejos em placas de madeira antes de pendurá-las no mural do santuário.

Passei os olhos rapidamente por algumas delas enquanto caminhávamos.

"Quero passar nos vestibulares."

"Desejo felicidade para minha família."

"Quero namorar ainda esse ano."

"..."

Algumas tinham até iniciais escritas discretamente ao lado de pequenos corações.

— Kyoto realmente é assustadora... — murmurei sem perceber.

— Hm? O que foi, Ryoichi-kun? — perguntou Natsuki, apoiada ao meu lado.

— Nada... só acho que esse lugar é perigoso demais pros estudantes.

— Hihihi...

Ela soltou uma pequena risada divertida.

— Talvez seja justamente por isso que ele seja tão popular.

— É... talvez...

— [...]

Por algum motivo, depois de bebermos da mesma corrente na fonte de Otowa, caminhar ao lado dela naquele santuário parecia ainda mais perigoso para o meu coração.

— E você?

— Hã?

— Você nunca pensou nisso? Nem um pouquinho?

— Em... namorar e tal?

— Uhum. — Natsuki assentiu levemente. — Você pensa?

— B-bem... eu...

Minha voz acabou falhando por um instante.

— Acho que sim...

Afinal, esse sempre foi meu objetivo.

Ter uma juventude normal.

Sair com amigos.

Viajar.

Rir de coisas idiotas depois da aula.

Conhecer alguém especial.

Se apaixonar.

Coisas simples.

Coisas comuns.

Mas que, de alguma forma, sempre pareceram absurdamente distantes de mim.

Enquanto observava meus colegas se divertindo livremente durante aquela viagem, percebi mais uma vez o quanto invejava aquilo.

A facilidade com que eles se aproximavam uns dos outros.

A maneira como conseguiam expressar o que sentiam.

As escolhas que podiam fazer sem hesitar.

Tudo parecia tão natural para eles.

Enquanto, para mim, parecia algo distante demais para alcançar.

— Conhecer uma garota e namorar parece legal... — murmurei. — Daria pra fazer todo tipo de coisa divertida.

— Hm? Tipo o quê? — perguntou Natsuki imediatamente.

— O-oi?

Ela inclinou levemente o rosto na minha direção com um pequeno sorriso divertido.

— O que exatamente você faria?

— B-bem... sair juntos e tal...

— Só isso?

— Comer juntos também...

— Uhum. E depois?

— Ngh...

Por que ela estava me interrogando desse jeito...?

— A-andar de mãos dadas...

— E...?

Ela continuava sorrindo.

Mesmo sem enxergar meu rosto, eu tinha certeza absoluta de que sabia exatamente o quão vermelho eu estava naquele momento.

— R-Ryoichi-kun... você realmente é fofo às vezes.

— Ngh...

— Então? O que mais?

— [...]

Meu coração parecia querer explodir.

— ...B-b... b-beijar e tal...

No instante em que aquelas palavras saíram da minha boca, senti vontade de pular da montanha do Kiyomizu-dera.

— Pfffff... Hahahahaha! V-você é mesmo uma figura, Ryoichi-kun!

— Grr...

— Hihihi...

Minha senpai realmente adorava me provocar.

Talvez por isso eu não estivesse tão animado para essa parte da viagem.

Afinal, o Santuário Jishu era praticamente um evento obrigatório para casais.

Ou para pessoas tentando desesperadamente deixar de ser solteiras.

E, honestamente, eu não tinha ninguém em mente.

Também duvidava muito que alguém me enxergasse daquela forma.

Enquanto caminhávamos entre as lanternas do santuário, era impossível não notar os casais ao redor.

Garotas puxando discretamente a manga do yukata dos garotos.

Mãos quase se encostando durante a caminhada.

Risadas tímidas perto das placas de desejos amorosos.

Tudo parecia tão natural para eles.

Mas tão distante para mim.

Era quase como passar o Dia dos Namorados completamente sozinho.

Você observa todo mundo vivendo aqueles momentos especiais enquanto tenta se convencer de que não se importa tanto assim.

No fim, acaba apenas torcendo para receber ao menos um chocolate por obrigação...

Ou talvez uma cartinha de amizade escrita por pena

— Ryoichi-kun?

Minha senpai parecia estar de ótimo humor, cantarolando enquanto me provocava.

— Sim?

— Se você quer tanto uma namorada... você não deveria estar atrás de uma agora mesmo? Lembre-se, esse é um evento único em sua juventude.

— N-não é tão simples.

— Por que não? Você não acha nenhuma garota da nossa escola bonita?

— Bem, tem algumas...

— Oh? Algumas?

Por alguma razão, senti um calafrio ao ouvir o tom de voz da minha senpai. Acho que foi só impressão minha.

— Mas não é assim. Eu mal tenho amigos. Também não sou popular como Kamo-san. E não sou especialmente bom em nada. Não sei por que uma garota se apaixonaria por mim.

Acredito que, naquele momento, eu estivesse falando demais. No entanto, Natsuki-senpai continuava me escutando e respondendo naturalmente. A maioria das pessoas acaba desistindo de conversar comigo. Algumas me acham estranho. Outras, arrogante. Já Natsuki parecia possuir um dom natural para lidar com as pessoas.

— Eu acho que quero apenas ter uma vida normal. Ser normal.

— Você não é?

— Eu não sei. Eu penso que sim. Mas o mundo diz que não. Então acaba que... eu não sei em quem devo acreditar.

— E o que você acha que alguém normal faz?

— Conversa e sai com os amigos. Joga videogame, viaja, estuda junto, vai ao karaokê... talvez até consiga uma namorada.

— Isso é bom? — perguntou Natsuki-senpai.

— Eu... não sei. Eu realmente não sei.

Natsuki então caminhou lentamente para o meu lado direito e voltou a se apoiar em meu ombro, mesmo já estando com sua bengala.

— Eu posso te fazer outra pergunta? Apesar de achar que já sei a resposta.

— [...]

— Você está se divertindo? Aqui e agora?

— Sim. Eu estou.

— Isso é bom?

— ...Sim.

— Hehehe. Eu sabia.

Natsuki continuou andando apoiada em mim. Talvez por causa do ambiente, não chamássemos tanta atenção quanto antes. Por isso, eu me sentia mais confortável.

— Sobre ser popular... acho que uma garota decente não levaria isso em consideração.

— Hahaha... talvez. Me desculpe por ser tão autodepreciativo.

— Tá tudo bem — respondeu Natsuki em voz baixa. — Afinal... eu também me sinto assim às vezes.

— Hã? Você?! Vai dizer que nunca recebeu uma declaração, senpai?

A brisa fresca da montanha atravessou silenciosamente o caminho de pedra entre as lanternas do santuário. Os fūrin pendurados próximos ao telhado tilintaram suavemente acima de nós.

— Hum... não que eu me lembre.

— Mas por quê? Você é tão bonita.

— Uhn...

Ela hesitou. Mesmo cercada pela luz quente das lanternas, desviou levemente o rosto para o lado, como se não soubesse reagir àquilo. Por alguns segundos, apenas o som distante das conversas dos estudantes e o barulho dos tamancos sobre as pedras preencheram o silêncio entre nós.

— Ryoichi-kun... você fala coisas atrevidas às vezes.

— H-hã?! E-eu só estava...

— Hihihi... seu bobo.

Ela soltou uma pequena risada enquanto voltava a caminhar ao meu lado. Mas, estranhamente, eu continuava pensando no que ela havia dito.

Natsuki-senpai era uma garota muito bonita. Muito mais bonita do que a maioria das garotas que eu normalmente via na escola. Então ouvir dela que nunca havia recebido uma declaração foi algo que sinceramente me surpreendeu. Afinal, eu sempre imaginei que ela fosse o tipo de garota que naturalmente atrairia atenção. O tipo de pessoa que teria vários garotos tentando se aproximar dela.

Mas, pelo visto, eu estava errado.

E aquilo me incomodava mais do que eu gostaria de admitir.

Porque não era apenas sobre aparência.

A senpai que eu conhecia era gentil, calma e incrivelmente agradável de estar perto. O tipo de pessoa que fazia os outros se sentirem confortáveis naturalmente.

Então... por que ninguém sequer tentou?

Me perguntei se aquilo tinha relação com sua deficiência.

Pensando bem, talvez isso explicasse tudo. Talvez muitos garotos simplesmente não soubessem como agir perto dela. Talvez imaginassem que ficar ao lado dela seria complicado. Ou talvez apenas tivessem receio do olhar das outras pessoas.

O desconhecido costuma afastar muita gente.

Mas, se esse realmente fosse o motivo, então aquilo definitivamente não me deixava feliz.

Porque a Natsuki-senpai que eu conhecia era forte. Muito mais forte do que a maioria das pessoas ao redor dela. Ela era gentil, bonita e seguia sempre em frente do próprio jeito.

E, acima de tudo, não precisava da pena de ninguém.

— Sejam bem-vindos. Obrigada por realizarem sua visita sagrada ao Santuário Jishu.

— D-de nada. Nós viemos c-comprar o... o...

Minha mente simplesmente travou sob o olhar calmo da atendente.

— Qual era mesmo...?

— O Enmusubi Omamori — respondeu Natsuki, segurando uma pequena risada.

— I-isso! Dois, por favor!

Apressei-me em olhar o mostruário atrás do vidro. Os omamori coloridos estavam alinhados cuidadosamente sob a iluminação quente das lanternas. Depois de procurar por alguns segundos, finalmente localizei o amuleto indicado por Natsuki e apontei rapidamente para ele.

As outras mikos mais atrás trocaram pequenos olhares discretos antes de abrirem sorrisos suaves, quase divertidos.

Como se compartilhasse da mesma impressão, a miko à nossa frente pegou cuidadosamente os dois amuletos usando ambas as mãos. Então realizou outra pequena inclinação respeitosa antes de informar o valor em um tom de voz baixo e gentil.

Depois de pagar, ela colocou cuidadosamente os omamori embalados sobre minhas mãos estendidas.

— Aqui estão. Que vocês encontrem a felicidade.

— O-obrigado...

Por um instante, senti meu rosto esquentar sem motivo aparente. Ao meu lado, Natsuki também parecia levemente envergonhada. Mesmo assim, ainda mantinha um pequeno sorriso nos lábios enquanto segurava cuidadosamente o próprio amuleto junto ao peito.

Talvez eu estivesse pensando demais, mas a maneira como aquela miko havia dito aquilo fez parecer, nem que fosse só por um segundo, que nós realmente éramos um casal ali naquela noite.

— Sobre o que é esse amuleto, afinal, Natsuki-senpai?

— [...]

Em minhas mãos, o omamori balançava suavemente com o vento da noite. O pequeno amuleto verde possuía detalhes delicados costurados em fios dourados. Na parte da frente, havia apenas uma inscrição:

"União de destinos."

Curioso com o significado daquilo, virei lentamente o amuleto.

"Realização amorosa."

"…"

Instintivamente, olhei para o omamori que Natsuki segurava junto ao peito. Era exatamente o mesmo. A única diferença era a cor rosa suave do tecido.

— Ryoichi-kun... você me deixa ver o seu?

— Ah... claro.

Entreguei o amuleto para ela. Natsuki passou cuidadosamente os dedos sobre o tecido, percorrendo os detalhes costurados como se tentasse confirmar alguma coisa.

Então, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— Você disse que queria ser igual a todo mundo.

— Disse...

— Viu? Agora nós estamos combinando. Não somos diferentes deles.

Minha senpai levantou os dois omamori com a mão, exibindo-os como se fossem uma pequena prova daquilo que havia acabado de dizer.

— [...]

Meu coração falhou por um instante.

— S-sim... é verdade...

***

Ainda dentro do Santuário Jishu, existia uma área muito mais barulhenta do que o restante do complexo.

No centro do pequeno pátio de pedra estavam posicionadas as famosas "Pedras da Sorte do Amor". Duas pedras separadas por cerca de dez metros uma da outra.

Segundo a tradição do santuário, se alguém conseguisse caminhar de uma pedra até a outra completamente de olhos fechados, seu desejo romântico se realizaria.

E, honestamente... aquilo parecia muito mais difícil do que eu imaginava.

— Vai reto! Reto!

— Não, idiota! Pra esquerda!

— A OUTRA ESQUERDA!

— Ahhh! Ela vai errar feio!

O lugar inteiro estava tomado por estudantes aglomerados em círculos ao redor das pedras. As vozes ecoavam pelo santuário enquanto vários alunos tentavam atravessar de olhos fechados sob os gritos desesperados dos amigos.

Alguns caminhavam devagar, com os braços estendidos para frente. Outros acabavam tropeçando antes mesmo de chegar à metade do caminho, arrancando gargalhadas de todos ao redor.

— Hahahahaha!

— Isso definitivamente não vale se receber ajuda!

— Cala a boca! Eu quase consegui!

Sob a luz das lanternas balançando com o vento da noite, o ambiente parecia incrivelmente vivo. Mesmo em um santuário dedicado ao amor, ninguém ali parecia particularmente elegante ou romântico naquele momento.

Era apenas um monte de estudantes sendo barulhentos, idiotas e estranhamente felizes.

— Yuji-kun está demorando...

— Quem mandou aquele idiota se entupir daquela água? Provavelmente se perdeu por aí procurando o banheiro.

— Você não tem o número dele?

— Pior que não.

Pensando bem, eu realmente não tinha o contato do Yuji. Era algo meio estranho de perceber naquele momento. Mas, ao mesmo tempo, só de imaginar aquele cara me mandando mensagens vinte e quatro horas por dia já me fazia desistir imediatamente da ideia.

Ao redor de nós, o Santuário Jishu continuava tão barulhento quanto antes. As lanternas balançavam suavemente sobre os caminhos de pedra enquanto grupos de estudantes se reuniam próximos às famosas pedras do amor.

— Vai reto! Reto!

— Não, direita!

— DIREITA!

— Ahhh! Ela bateu de novo!

— Hahahahaha!

As gargalhadas ecoavam pelo santuário inteiro junto ao tilintar distante dos fūrin carregados pelo vento da noite.

Natsuki inclinou levemente o rosto na direção da confusão.

— Que barulho todo é esse...? — perguntou ela. — É o desafio das duas pedras?

— Sim... — respondi, soltando um pequeno suspiro. — Se me lembro bem, elas ficam separadas por uns dez metros. Você tem que sair de uma e tocar a outra de olhos fechados. Desculpa... eles estão realmente animados.

Levando em consideração a audição mais sensível da senpai, imaginei que aquele caos talvez estivesse sendo ainda pior para ela.

— Se estiver muito alto, a gente pode ir pra outro lugar.

— Hum... talvez depois.

Um pequeno sorriso travesso surgiu nos lábios dela.

— Hehe... vamos fazer isso primeiro.

— Hã...? Fazer o quê exatamente?

— Vamos mostrar pra eles como se faz.

— O-o qu— e-espera!

Antes mesmo que eu pudesse terminar de reclamar, Natsuki começou a me puxar na direção da algazarra. Guiando-se provavelmente pelo barulho absurdo do grupo de estudantes, ela caminhava com surpreendente confiança entre as lanternas e os visitantes.

Conforme nos aproximávamos, consegui finalmente enxergar as famosas pedras do amor.

As duas pedras arredondadas repousavam sobre o chão do santuário, separadas por vários metros de distância. Ao redor delas, dezenas de estudantes observavam o desafio enquanto davam instruções inúteis uns aos outros.

Uma garota usando um yukata floral acabava de falhar miseravelmente ao caminhar de olhos fechados e quase colidir contra uma lanterna.

— Ahhh! Eu falei esquerda!

— MAS ESSA ERA A ESQUERDA!

— Hahahahaha!

No instante em que nos aproximamos do círculo de estudantes, algumas pessoas imediatamente voltaram os olhos para nós.

"..."

Por algum motivo, a movimentação ao redor pareceu diminuir por um instante.

— Vai, Ryoichi-kun! — disse Natsuki animadamente. — Você começa!

— V-você ficou maluca?!

— Hm?

— Você sabe qual é o significado desse desafio?!

— Uhum.

— ENTÃO POR QUE VOCÊ TÁ TÃO CALMA?!

Ela apenas soltou uma pequena risada divertida.

— Você não disse antes que queria ser igual a todo mundo?

— [...]

Minha própria fala sendo usada contra mim desse jeito parecia injustiça.

Natsuki então apoiou suavemente a mão esquerda nas minhas costas e me empurrou levemente para frente.

— Vai lá — disse ela, sorrindo. — Mostra pra eles, Ryoichi-kun.

Atrás de nós, ouvi alguns estudantes começarem a cochichar animados.

— Ahhh~ Eles vão tentar!

— Parece cena de romance!

— Será que eles tão juntos?!

Meu corpo inteiro instantaneamente ficou quente.

— Ngh... por que eu não consigo dizer não pra ela...?

Então fechei os olhos.

A escuridão veio instantaneamente.

O som do santuário pareceu crescer ainda mais ao meu redor.

O tilintar distante dos fūrin.

As cigarras ecoando ao longe na encosta da montanha.

Os passos secos dos geta sobre as pedras.

As vozes dos estudantes.

As risadas.

E, no meio de tudo aquilo, eu tentava apenas lembrar onde a outra pedra estava.

Eu tinha gravado sua posição na minha mente.

Se continuasse reto... deveria conseguir chegar até ela.

Só precisava me manter calmo.

Respirei fundo e comecei a caminhar lentamente.

Tap. Tap. Tap.

O chão de pedra parecia irregular sob minhas sandálias. A brisa fresca da noite atravessava silenciosamente meu yukata enquanto as lanternas provavelmente balançavam acima de mim.

Mais alguns passos...

Só mais alguns...

— VAI! MAIS PRA DIREITA!

— NÃO! É PRA ESQUERDA!

— SE ELE FOR PRA ESQUERDA, ELE VAI BATER NA LANTERNA!

"E agora...?"

Meu corpo hesitou imediatamente.

"Será que eu me perdi...?"

Dei mais alguns passos inseguros enquanto tentava ouvir a direção das vozes ao redor.

— O QUE ESSE IDIOTA TÁ FAZENDO?!

— PRA ES-QUER-DA, SEU BURRO!

— UHHH... CUIDADO PRA NÃO SE MACHUCAR!

"Esquerda... talvez..."

Mudei levemente minha direção.

— NÃOOOO! VOCÊ VAI PASSAR DELA!

— VIRA NOVENTA GRAUS E VAI RETO!

— JÁ QUE ELE NÃO QUER OUVIR, DEIXA ELE SE MACHUCAR!

"Eu não sei..."

As vozes começavam a se misturar umas às outras.

"Eu não sei o que fazer..."

Meu peito apertou lentamente.

"Estou perdido..."

Por um instante, quase abri os olhos.

Eu sabia que não podia.

Sabia que isso anularia o desafio.

Mas...

"Talvez só uma olhada rápida..."

Ela é cega. Nem iria notar.

"Eu—"

— Calma, Ryoichi-kun. Você está pensando demais, como sempre.

"...!"

Aquela voz...

Yuji.

Senti uma mão tocar gentilmente meu ombro direito. Nem percebi em que momento ele havia aparecido ao meu lado.

— As pessoas... elas ficam gritando...

— É barulhento, eu sei — respondeu ele com naturalidade. — Mas você não precisa ouvir todo mundo, certo?

— [...]

A algazarra ao redor continuava.

Mesmo assim, a voz dele parecia estranhamente fácil de escutar.

— Ela está cerrando os punhos, sabia? — disse Yuji em tom leve. — Tá torcendo por você faz um tempão.

Meu coração vacilou por um instante.

— E eu também tô aqui — continuou ele. — Você não precisa carregar tudo sozinho. Vamos, eu te ajudo.

Respirei fundo lentamente.

Então voltei a caminhar.

Tap. Tap. Tap.

— Isso... você tá indo bem — disse Yuji ao meu lado. — Agora um pouco pra direita.

— Assim...?

— Isso mesmo.

Dei mais um passo.

— E agora?

— Dois passos médios pra frente.

— Olha pros meus pés, idiota. Eu não sei o que é um "passo médio".

— Hahah... calma, calma. É mais ou menos assim.

Mesmo sem enxergar, consegui perceber pela voz dele que estava demonstrando com o próprio corpo.

A multidão ao redor continuava gritando direções contraditórias, mas aquilo já não parecia tão assustador quanto antes.

Depois de caminharmos por mais alguns metros, a presença de Yuji começou a se afastar lentamente.

— Onde eu estou...? — perguntei baixo.

— Exatamente onde você precisava estar.

— Certo... então ago—

— Agora é com você, meu amigo — disse Yuji enquanto se distanciava. — Mas relaxa. Se você se perder de novo... eu vou estar aqui.

— [...]

Por algum motivo, acabei sorrindo.

— Certo... obrigado, Yuji.

As vozes continuavam ao redor.

Pessoas dizendo o que eu deveria fazer.

Como eu deveria agir.

Qual caminho eu deveria seguir.

Mas, naquele instante, percebi que aquilo não importava tanto assim.

Porque, no fim, a responsabilidade de continuar andando era minha.

E, mesmo se eu me perdesse...

Mesmo se eu errasse o caminho...

Agora eu sabia que existiam pessoas torcendo por mim.

Isso definitivamente era bom.

Respirei fundo mais uma vez.

Então caminhei lentamente em frente.

Tap. Tap. Tap.

"Mais alguns passos..."

E então as vozes ao redor começaram a diminuir.

Meu pé parou diante de algo sólido.

Abaixando lentamente a mão, senti a superfície fria e lisa da pedra sob meus dedos.

"..."

"Consegui."

No instante em que toquei a segunda pedra, uma explosão de vozes e aplausos ecoou pelo Santuário Jishu.

— OHHHHHHHHH!!

— ELE CONSEGUIU!!

— Hahahahaha!

— Até que isso foi maneiro!

Abrindo os olhos, caminhei de volta até minha senpai.

Ela ainda mantinha as mãos cerradas.

Sua bengala estava deitada no chão.

— Ryoichi-kun?

— Obrigado por me apoiar, senpai — disse, sendo o mais honesto possível. — Agora é minha vez de te apoiar.

— ...Sim. Por favor.

Natsuki se apoiou em meu ombro e caminhou comigo, assim como havia feito durante boa parte da viagem.

As pessoas gritavam bastante, mas ela não parecia se importar.

Na verdade, parecia feliz.

Estava sorrindo.

Quando chegamos ao meu ponto de partida, parei instintivamente.

— Você começou daqui, não é?

— Como adivinhou?

— Hihihi... por que será?

Foi então que a deixei seguir sozinha.

E Natsuki calmamente começou a caminhar.

— VOCÊ TÁ LOUCO, CARA?! ELA VAI SE MACHUCAR!

— SEGURA ELA, PELO AMOR DE DEUS!

— PELO MENOS ENTREGA A BENGALA PRA ELA!

Calmamente, a garota de cabelos dourados continuou avançando.

Deslizando os pés pelo chão.

Sentindo.

Escutando.

Conforme os segundos passavam, as vozes também diminuíam.

O que antes era um evento barulhento começou a se transformar em algo parecido com uma apresentação.

Todos que estavam ali observavam a mesma pessoa.

Sem conseguir desviar o olhar.

— São dez metros, não é? Então está aqui.

Tocando a pedra com as mãos gentis, ela também concluiu o desafio.

— [...]

Como se aquele caminho jamais tivesse sido difícil para ela. Como se fosse apenas mais um dia comum em seu mundo.

***

O evento principal daquela noite finalmente estava chegando.

O Festival da Luz era um dos acontecimentos mais aguardados daquela época do ano em Kyoto. Desde que chegamos à cidade, eu havia ouvido turistas, comerciantes e até alguns estudantes comentando sobre ele. Agora, observando toda a movimentação ao redor, finalmente entendia o motivo.

Entretanto, aquele evento parecia ter sido escolhido a dedo pelas minhas senpais para servir como o palco perfeito para a declaração de Naomi.

Quanto mais a temida hora se aproximava, mais nervosa Natsuki-senpai parecia ficar. Ela trocava mensagens constantemente com Yoshiko-sensei e não conseguia esconder a própria inquietação.

Enquanto caminhávamos em direção ao salão principal, acabamos passando em frente aos banheiros.

— Me desculpe, Ryoichi-kun. Eu vou precisar ir ao banheiro.

— Tudo bem. Eu espero aqui fora.

Por mais que já não fosse uma surpresa como antigamente, eu ainda achava impressionante a forma como minha senpai conseguia memorizar os lugares por onde passava.

Na frente dos banheiros havia uma cerca de madeira onde pude me apoiar enquanto esperava.

Dali de cima, a vista era de tirar o fôlego.

O distrito de Higashiyama se estendia ladeira abaixo como um mar de telhados escuros, recortado pelas luzes quentes das lanternas que guiavam os visitantes pelos caminhos antigos de Kyoto. A madeira sob minhas mãos ainda guardava parte do calor acumulado durante o dia. Nem mesmo a noite conseguia dissipar completamente o mormaço daquele verão.

Acima das árvores, o famoso feixe de luz azul do Kiyomizu-dera já cortava o céu escuro em direção ao horizonte. Parecia uma linha brilhante dividindo a própria escuridão.

Abaixo de mim, centenas de visitantes continuavam subindo os degraus de pedra do templo. Os passos apressados, as conversas animadas e o balançar dos yukatas criavam um murmúrio constante que se espalhava pela encosta da montanha.

Mesmo assim, tudo parecia estranhamente distante.

Talvez fosse porque eu não conseguia parar de pensar na declaração.

O palco estava pronto.

O festival havia atingido seu auge.

Agora, só faltavam os protagonistas.

— O que você está fazendo aqui?

Uma voz forte e familiar arrancou meu olhar da paisagem.

— Naomi-san...?

Quando me virei, encontrei Naomi parada ao meu lado.

Ela estava diferente do habitual.

Os longos cabelos escuros haviam sido cuidadosamente arrumados e adornados com pequenos enfeites. A maquiagem suave destacava ainda mais seus traços delicados, enquanto o batom vermelho atraía naturalmente a atenção para seus lábios.

Por um instante, fiquei surpreso.

Naomi sempre foi bonita.

Mas naquela noite parecia ter dedicado um cuidado especial à própria aparência.

— Onde está sua namorada? — perguntou casualmente. — Ela também foi ao banheiro?

— Namorada...?

Demorei alguns segundos para entender de quem ela estava falando.

— M-minha senpai não é minha namorada!

— Eh?

Naomi piscou algumas vezes antes de abrir um sorriso divertido.

— Sério?

— S-sério.

— Whoa... desculpa então.

Ela levou uma das mãos à cintura enquanto soltava uma pequena risada.

— Eu jurava que vocês eram um casal.

— [...]

Pensando bem, aquela não era a primeira vez que alguém dizia isso durante a viagem.

Por algum motivo, várias pessoas pareciam convencidas de que eu e Natsuki-senpai éramos um casal.

Turistas que cruzavam nosso caminho. Meus colegas de classe. As atendentes das lojas. Até mesmo as mikos do Santuário Jishu.

Era estranho.

Eu realmente não entendia de onde tiravam aquela impressão.

Claro, nós havíamos passado bastante tempo juntos durante a viagem. Eu a ajudava a caminhar quando necessário. Ela costumava se apoiar em mim. Conversávamos bastante.

Mas isso era tudo.

Não era como se nos conhecêssemos há anos.

Não era como se estivéssemos saindo juntos.

E definitivamente não era como se estivéssemos namorando.

Então por que tantas pessoas chegavam exatamente à mesma conclusão?

Talvez fosse apenas porque estávamos sempre lado a lado.

Ou talvez as pessoas simplesmente gostassem de imaginar romances onde eles não existiam.

Sim.

Provavelmente era isso.

...Provavelmente.

— E você? Está esperando suas amigas?

— Sim. Nós sempre vamos juntas.

— [...]

— Naomi-san... você está com medo?

— O quê...?

Ela finalmente desviou o olhar da paisagem e me encarou.

— Digo... é só um chute. Se eu estiver errado, pode ignorar.

Por alguns segundos, Naomi não respondeu.

Apenas voltou a olhar para as luzes de Kyoto espalhadas além da encosta da montanha.

Era estranho.

Naomi sempre parecia cercada de pessoas. Sempre havia alguém conversando com ela. Sempre havia amigas ao seu redor.

Mas naquele momento, ela parecia sozinha.

Talvez eu estivesse apenas tirando conclusões precipitadas outra vez.

Talvez estivesse enxergando os outros através dos meus próprios problemas. Eu costumava fazer isso com frequência.

Mesmo assim, observando aquele silêncio, a forma como ela evitava olhar para mim e como seus olhos permaneciam perdidos na cidade iluminada ao longe...

Por algum motivo, eu não achava que estava errado daquela vez.

— Haha... é tão na cara assim? — perguntou Naomi.

— Então acho que fiz a escolha certa em não ir com as garotas.

— [...]

— Sim. Eu estou com medo.

Ela soltou uma pequena risada.

— Ou melhor... um pouco nervosa.

Seus olhos voltaram para as luzes espalhadas pela cidade.

— Eu achei que estava pronta para isso. Achei que já tinha aceitado qualquer resposta que pudesse receber. Mas agora que o momento finalmente chegou...

Naomi soltou uma risada sem humor.

— Hahaha... eu me sinto um pouco covarde.

— [...]

— É patético, não é? Principalmente porque Hayato provavelmente nem vai se importar tanto assim.

O vento da noite atravessou silenciosamente a cerca de madeira entre nós.

— Eu não acho que isso seja verdade.

— Hm?

— Tenho certeza de que os seus sentimentos vão chegar até ele.

Naomi me observou por alguns segundos.

— Posso perguntar por que você acha isso?

— Porque eu acho que qualquer cara ficaria feliz em receber uma declaração.

Dei de ombros.

— Principalmente se vier de uma garota bonita como você, Naomi-san.

— Oh?

As sobrancelhas dela se ergueram levemente.

— Eu não esperava receber um elogio assim.

— Não se engane. Eu só acho que Hayato é um maldito sortudo.

Ela soltou uma pequena risada.

— Sério. Se ele tiver a audácia de rejeitar uma declaração em Kyoto feita pela própria amiga de infância... eu mesmo acabo com ele.

Eu tinha pretendido fazer uma piada para aliviar o clima.

Mas Naomi apenas ficou me encarando em silêncio por alguns segundos.

"S-será que eu exagerei...?"

— D-descul—

— Hahahaha!

A risada dela ecoou pela varanda.

— Até que você é engraçado, Ryoichi-san.

— [...]

Pisquei algumas vezes.

Ela tinha se lembrado do meu nome.

Honestamente, eu não esperava isso.

A maioria das pessoas acabava esquecendo que eu existia depois de alguns dias.

Mas, de alguma forma, Naomi-san tinha se lembrado.

— Bem... é só um chute, mas eu diria que vocês dois são bem parecidos no fim das contas.

— Parecidos?

— Uhum.

Naomi sorriu por alguns segundos antes de perguntar:

— Você é amigo do Hayato?

— Definitivamente não.

— Hahahaha! Imaginei.

Antes que eu pudesse perguntar o que ela queria dizer com aquilo, ouvi o som de várias vozes se aproximando.

Quando me virei, vi as amigas de Naomi vindo em nossa direção.

Entre elas estavam Rina-san e Natsuki-senpai.

— Oh? Nao-chan! E é... qual era mesmo o nome...? — Akari inclinou a cabeça enquanto tentava se lembrar. — Hmmm... Ryoichi-kun?

— É... esse mesmo.

Akari imediatamente se aproximou de mim com um sorriso curioso. Parecia muito interessada em descobrir o que eu e Naomi estávamos conversando ali sozinhos.

— Vem logo, Nao-chan! A gente vai acabar perdendo o evento! — chamou Seiko.

Pelo menos alguém naquele grupo ainda tinha prioridades.

— Certo! Até mais, namorado da Nao-chan!

— Sua—

Antes que eu pudesse responder, as três já estavam rindo enquanto arrastavam Naomi na direção do salão principal.

Tuc. Tuc.

Senti um toque suave nas minhas costas.

Era Rina.

Só então percebi que ela não havia seguido as outras garotas.

— O que foi, Rina?

Ela ergueu o celular e me mostrou uma mensagem escrita no bloco de notas:

"...Namorada?"

— [...]

Foi bem difícil tentar explicar

***

O evento principal daquela noite finalmente estava chegando.

O Festival da Luz era um dos eventos mais aguardados daquela época do ano em Kyoto. Desde que chegamos à cidade, eu havia ouvido turistas, comerciantes e até alguns estudantes comentando sobre ele. Agora, observando a movimentação ao redor, finalmente entendia o motivo.

A noite havia transformado completamente o Kiyomizu-dera. Centenas de lanternas de papel iluminavam os antigos caminhos de pedra, espalhando reflexos dourados sobre a madeira escura dos corredores. Acima da montanha, grandes feixes de luz azul atravessavam o céu noturno como lanças brilhantes, apontando para o horizonte distante de Kyoto.

Do enorme palco de madeira do templo, a paisagem parecia quase irreal. As copas verdes dos bordos de verão se estendiam abaixo como um oceano escuro, balançando suavemente sob o vento da noite. Além delas, milhares de luzes da cidade cintilavam ao longe, transformando Kyoto em um mar de estrelas espalhadas pela terra.

O som das cigarras ecoava incessantemente pela floresta ao redor. De vez em quando, o estalar ritmado dos geta contra as pedras se misturava às risadas dos visitantes que percorriam os corredores iluminados. Mais distante, quase escondido sob todos aqueles sons, era possível ouvir o fluxo constante da água descendo pela Cachoeira Otowa.

O ar continuava quente e abafado, carregando o calor acumulado durante o dia. Ainda assim, uma brisa suave atravessava as estruturas abertas do templo, trazendo consigo o cheiro das árvores, do incenso e das barracas de comida espalhadas pela encosta da montanha.

Os estudantes haviam percorrido as antigas ladeiras de Ninenzaka e Sannenzaka cercadas por yatai iluminadas. Entre uma barraca e outra, compravam kakigori, espetinhos e lembranças da viagem antes de atravessarem o imponente portão vermelho do templo. Agora, reunidos sob as luzes do festival, caminhavam livremente por um lugar que parecia existir fora do tempo.

Talvez fosse por estarem longe da escola. Talvez fosse por estarem longe dos pais. Ou talvez fosse apenas porque aquela era uma daquelas noites que só acontecem uma vez. As conversas pareciam mais leves. Os sorrisos surgiam com mais facilidade. Pequenos olhares demoravam alguns segundos a mais do que deveriam. Mãos quase se tocavam durante a caminhada. E corações aceleravam sempre que duas pessoas acabavam sozinhas por alguns instantes.

O Festival da Luz possuía uma atmosfera estranha. Como se incentivasse silenciosamente todos a darem um passo à frente. E, em algum lugar no fundo do peito, muitos deles já sabiam que aquela viagem estava chegando ao fim.

Talvez fosse justamente por isso que ninguém queria que aquela noite terminasse.

Porque, anos depois, quando todas aquelas pessoas seguissem caminhos diferentes, provavelmente se lembrariam daquele momento. Das lanternas. Das luzes. Dos amigos. E da sensação de que, por algumas horas, o mundo inteiro parecia cheio de possibilidades.

— Natsuki-senpai, está tudo certo?

— Sim. Eu acabei de falar com Yoshiko-sensei. Rina-chan vai levar Naomi-chan até o palco às 20h30. E Yuji-kun já está de olho no grupo do Hayato-kun.

Tudo parecia estar correndo conforme o planejado. O palco já estava preparado. Os membros do staff haviam terminado os últimos ajustes e permaneciam atentos para evitar qualquer problema.

Mas uma peça não existe sem os seus atores.

Para que tudo desse certo, algumas pessoas ficaram responsáveis por acompanhar discretamente os dois grupos e garantir que ninguém estragasse os planos das senpais.

— Então foi por isso que Rina-san conseguiu ficar no grupo da Naomi-san?

— Uhum.

Natsuki assentiu.

— Era importante que alguém estivesse ao lado da Naomi-chan até o último momento. Então usamos toda a influência do Clube de Amigos.

— Influência...?

— Hihihi...

Um sorriso divertido surgiu em seus lábios.

— Digamos que houve uma pequena conspiração entre nós e a própria Naomi-chan. Graças a isso, Rina-chan conseguiu autorização para acompanhar o grupo dela, mesmo sendo de outra turma.

— Então vocês realmente planejaram tudo...

— Claro.

Pela maneira como respondeu, parecia até orgulhosa daquilo.

— Não se organiza uma declaração romântica no Kiyomizu-dera sem um bom planejamento.

Ela disse aquilo com um enorme sorriso.

Mas falando sério... aquilo realmente era impressionante.

Um dia atrás, eu teria dito que algo assim era impossível. Mas agora conseguia enxergar claramente cada membro se esforçando por um objetivo em comum.

Yoshiko-sensei.

Rina-san.

Yuji-kun.

E Natsuki-senpai.

Era como se algo que antes parecia tão distante que mal podia ser visto agora estivesse ao alcance das nossas mãos.

Bastava esticá-las.

— Haha... vocês são realmente incríveis...

— [...]

— O que você está dizendo?

Natsuki inclinou levemente a cabeça.

— Você é tão incrível quanto eles.

— Você me valoriza demais, senpai.

— Evidentemente.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— Afinal...

Antes que eu pudesse reagir, ela se aproximou mais uma vez.

Seu ombro encostou no meu.

Então, pouco a pouco, a distância entre nós desapareceu.

A ponta do nariz dela roçou de leve minha orelha.

Foi um toque tão sutil que parecia ter acontecido por acidente.

Mas, de alguma forma, eu tinha certeza de que não havia sido.

Meu corpo inteiro congelou.

E então ela sussurrou:

— ...Você é o meu favorito.

— S-senpai...?

Minha voz falhou miseravelmente.

— V-você está brincando, não está?

— Hihihi...

Natsuki levou uma das mãos até os lábios enquanto se afastava. A brisa noturna atravessou o espaço que ela havia deixado para trás.

Seu sorriso, porém, permaneceu exatamente o mesmo.

— Será?

— [...]

Minha senpai parecia um pouco menos tensa do que antes, o que era bom.

Ela parecia feliz.

Talvez até realizada.

Afinal, aquela era a noite em que poderia mostrar para todos o resultado dos seus esforços. A noite em que ajudaria Naomi a dar um passo importante em direção aos próprios sentimentos.

E, acima de tudo, a noite em que poderia provar a si mesma que era capaz.

Por algum motivo, achei que sua mãe teria ficado orgulhosa disso.

Minha senpai parecia um pouco menos tensa que antes, o que era bom. Ela parecia feliz, talvez até mesmo realizada Afinal, era o dia em que ela poderia mostrar para as pessoas do que ela era capaz de fazer. E também de dar orgulho a sua falecida mãe

***

O salão principal estava lotado. Estudantes, turistas e visitantes ocupavam praticamente todo o espaço diante do palco de madeira. Porém, algo parecia estranho. Ninguém parecia particularmente animado. Pequenos grupos conversavam em voz baixa. Outros olhavam para os funcionários do templo. Alguns apontavam para os equipamentos de iluminação. Uma inquietação silenciosa se espalhava pelo local.

— O que está acontecendo? — perguntou Natsuki-senpai. — O que é esse barulho todo, Ryoichi-kun?

— Eu não sei...

ZUM.

A vibração do meu celular interrompeu meus pensamentos. Retirei o aparelho do bolso e acendi a tela. Era uma mensagem de Yoshiko-sensei.

"O Festival da Luz atrasou."

"Os funcionários estão tentando resolver o problema."

"Ainda não existe previsão."

Pisquei algumas vezes.

Logo abaixo, havia uma última mensagem:

"…Continuem o plano mesmo assim."

"Não podemos ficar aqui a noite inteira."

— [...]

Meu estômago afundou.

Yoshiko-sensei simplesmente havia jogado aquela bomba nas minhas mãos.

Até alguns minutos atrás, tudo parecia finalmente estar funcionando. Naomi estava pronta. Hayato estava a caminho. Os membros do Clube de Amigos estavam em suas posições. O palco estava preparado.

Mas o Festival da Luz era o coração daquele plano.

Era o momento que Naomi tinha escolhido. O cenário que daria coragem a ela. A luz que transformaria aquela declaração em uma lembrança inesquecível.

Sem ela... tudo parecia perder parte do significado.

Ao meu redor, já era possível perceber a insatisfação crescente dos visitantes. Algumas pessoas começavam a reclamar. Outras verificavam os horários nos celulares. Até mesmo alguns estudantes pareciam impacientes.

E, se aquela situação continuasse por muito mais tempo, a decisão seria óbvia.

Os professores encerrariam a visita.

Todos voltariam para a hospedaria.

E aquela noite terminaria antes mesmo de começar.

Naquele momento, mais uma vez, senti que aquele plano estava fadado a fracassar.

E agora... como eu iria contar aquilo para Natsuki-senpai?

— [...]

— Ryoichi-kun?

A voz dela soou preocupada.

— O que foi? Está tudo bem?

— E-está...

Não estava.

Nada estava bem.

Todo o nosso esforço.

Todo o planejamento.

Tudo parecia desmoronar naquele instante.

Talvez a declaração nem acontecesse mais.

— Está realmente tudo bem? Sua voz está tremendo muito.

Todo o esforço da Naomi-san...

— S-sim... está t-tudo bem...

Todo o esforço da Natsuki-senpai...

— Aquilo foi seu celular? O que você viu?

— [...]

Tudo.

Tudo indo por água abaixo.

— Eu...

Minha garganta travou.

— [...]

— ...Estou mentindo.

Eu não conseguia fazer aquilo.

Não conseguia esconder a verdade dela.

Se eu escondesse, ninguém poderia fazer nada.

E, por algum motivo, uma parte de mim acreditava que, se existisse alguém capaz de encontrar uma solução...

Essa pessoa seria Natsuki-senpai.

— ...Eu sei, bobão.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— Você não consegue esconder nada de mim, esqueceu?

[...]

Acabei soltando uma risada fraca.

— É... verdade.

— Agora me conta. O que aconteceu?

Então expliquei tudo.

A mensagem da Yoshiko-sensei. O atraso. A falta de previsão. O risco de cancelarem a visita antes mesmo do festival começar.

Natsuki ouviu tudo em silêncio.

Sem me interromper.

Sem demonstrar pânico.

Sem sequer mudar o tom de voz.

Quando terminei, ela apenas assentiu.

— Entendi.

— [...]

— Então realmente atrasou.

— Você já sabia?

— Yoshiko-sensei comentou algumas vezes comigo.

Ela apoiou as mãos sobre a bengala.

— O festival normalmente começa às dezoito e trinta. Então eu já imaginava que alguma coisa estava errada.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Eu deveria ter perguntado para você se já conseguia ver as luzes.

— [...]

— Mas eu estava me divertindo tanto que acabei perdendo o foco.

Por um instante, ela ficou em silêncio.

Então respirou fundo.

E, de repente—

PÁ! PÁ!

Ela deu dois tapas fortes nas próprias bochechas.

— S-senpai?!

— Uhum!

Ela endireitou a postura imediatamente.

— Certo!

— Hã?

— Vamos lá!

— Vamos fazer o quê exatamente?!

— Você não leu a mensagem da sensei?

A confiança na voz dela era quase absurda.

— Vamos continuar o plano.

— Hã?! M-mas—

— Não se preocupe, Ryoichi-kun.

Ela sorriu.

Não era o sorriso travesso que costumava usar para me provocar.

Nem o sorriso gentil de sempre.

Era um sorriso cheio de determinação.

— Mesmo que o destino tente atrapalhar...

Ela segurou a bengala com firmeza.

— Os sentimentos da Naomi-chan são mais fortes do que o próprio destino.

— [...]

— Então isso não é nada. Afinal, tanto ela quanto eu estamos decididas a fazer isso hoje!

Por algum motivo...

Depois de ouvir aquelas palavras...

Pela primeira vez desde que recebi a mensagem da Yoshiko-sensei...

Eu senti que talvez ainda existisse uma chance.

Tudo porque uma garota ainda não havia desistido.

Talvez porque aquela garota claramente enxergasse um mundo que ninguém mais via.

E, nesse único, mas intrigante mundo...

A garota, sem dúvidas, triunfaria.

***

O grupo de estudantes e visitantes estava em polvorosa.

Pequenos grupos se formavam por todos os lados. Reclamações surgiam aqui e ali, enquanto muitos já começavam a especular que o festival seria cancelado.

No entanto, acompanhada pelos outros professores, Yoshiko-sensei avançou até o centro da multidão e ergueu a voz:

— Se acalmem, seus fedelhos! — exclamou Yoshiko-sensei. — Todos vocês vão ver as luzes hoje!

A resposta imediata foi um silêncio desconfortável.

Por mais que muitos ainda tivessem reclamações, quase ninguém possuía coragem suficiente para bater de frente com a Ogra Vermelha.

Ainda assim, aquelas palavras eram completamente diferentes do que ela havia me dito por mensagem.

Eu não tinha dúvidas de que, no máximo, restavam alguns minutos antes de sermos enviados de volta ao ryokan.

— Acho que isso tem relação com o que você disse mais cedo, não é? — perguntei.

— Sim.

Natsuki-senpai assentiu.

— Eu só quero que todos acreditem que o festival vai acontecer normalmente.

— [...]

Fazia sentido.

Para que a declaração da Naomi-san acontecesse sem problemas, era necessário primeiro manter os estudantes calmos. Se todos começassem a reclamar ou se espalhasse o rumor de que o evento seria cancelado, o clima criado para a confissão desapareceria completamente.

Natsuki-senpai havia entendido isso imediatamente.

Mas, ao mesmo tempo, aquilo era extremamente arriscado.

Porque, no fim das contas, tudo não passava de uma atuação da Yoshiko-sensei.

E, dentro de poucos minutos, ela poderia simplesmente anunciar o encerramento da visita e nos levar de volta ao ryokan.

— Você consegue ver a Naomi-chan?

— Sim. Ela já está no palco.

Afastada do restante dos estudantes, Naomi permanecia alguns metros à frente, próxima à borda do grande palco de madeira. Seu olhar estava voltado para o céu escuro acima das montanhas, como se tentasse encontrar ali a coragem que lhe faltava.

Suas amigas permaneciam ao seu lado. Entre elas estava Rina-san, que havia cumprido com sucesso a missão de levá-la até aquele local.

— Rina-chan fez um ótimo trabalho — comentou Natsuki-senpai com satisfação. — Vou agradecê-la depois.

— É verdade...

Olhei para a tela do meu celular.

21h50.

Se eu me lembrava corretamente, os estudantes só poderiam permanecer no Kiyomizu-dera até as dez da noite.

Ou seja, restavam apenas dez minutos.

Meu estômago se apertou.

O maior problema era que, ao contrário de Rina-san, Yuji-kun não estava conosco.

Ele continuava acompanhando o grupo de Hayato-kun.

Além disso, não tínhamos nenhuma forma de entrar em contato com ele.

Eu não possuía seu número, e Yoshiko-sensei estava ocupada demais tentando controlar o caos crescente entre os estudantes.

Naquele momento, tudo dependia de uma única pergunta:

Yuji-kun conseguiria trazer Kamo-san até o local correto?

Ou será que todo o plano estava prestes a desmoronar por causa de um detalhe que nenhum de nós conseguia verificar?

— Droga... se eu tivesse o número do Yuji-kun...

— [...]

De repente, senti algo envolver minha mão.

— Hã?

Olhei para baixo.

A mão de Natsuki-senpai estava segurando a minha.

Era um toque suave. Quente.

Por um instante, toda a agitação ao redor pareceu se afastar.

— Vamos acreditar no Yuji-kun, tá bem?

— [...]

Meus olhos encontraram os dela.

Mesmo sem poder enxergar a situação diante de nós, Natsuki-senpai parecia muito mais calma do que eu. Muito mais confiante.

Como se não tivesse a menor dúvida de que tudo daria certo.

...

Acabei soltando uma pequena risada.

— Sim.

Apertei sua mão de volta.

— Eu acredito nele.

Natsuki-senpai havia transformado toda aquela situação em uma aposta.

Existiam fatores que ainda podíamos controlar. Yoshiko-sensei continuava segurando os estudantes no salão principal. Rina-san havia conseguido levar Naomi-san até o local combinado.

Mas também existiam fatores completamente fora do nosso alcance.

Yuji-kun era um deles.

E isso era o mais assustador.

Ao contrário de Rina-san, ele não fazia parte do grupo que estava acompanhando. Não possuía nenhuma influência sobre Hayato-kun nem sobre os amigos dele.

Tudo o que podia fazer era observá-los e tentar guiá-los discretamente para o local certo.

Além disso, a notícia do atraso do Festival da Luz provavelmente já havia se espalhado por todo o templo.

Visitantes comentavam sobre isso. Funcionários conversavam entre si. Os próprios estudantes já começavam a reclamar.

Se o grupo de Hayato-kun tivesse ouvido os rumores, existia uma grande possibilidade de simplesmente não vir para a área principal.

Afinal, por que perderiam tempo esperando por um evento que talvez nem acontecesse?

Eles poderiam muito bem passar os últimos minutos da visita explorando outras áreas do Kiyomizu-dera antes de voltarem para o ryokan.

E, se isso acontecesse...

Todo o plano acabaria ali.

Não por falta de esforço.

Ou de preparação...

Mas porque uma única peça não havia chegado ao palco.

***

Minha família sempre me disse que eu deveria me tornar uma adulta logo. Meus pais sempre dizem que ser adulto é ser realista. Não dar um passo maior que a perna. Não tentar alcançar algo, sem ter como fazer isso.

Essa visão tão pragmática que eles tem, sempre me assustou de alguma maneira. Talvez, por isso, sempre busquei fazer o exato contrário disso Minhas roupas, minha aparência, minhas amizades, minha forma de agir... o que eu sou

Fiz de tudo para fugir das coisas que eles me impuseram desde cedo. Por que de alguma forma, não queria me tornar como eles. Uma casca vazia, uma pessoa moldada pela mão de outra

O que eu busquei desde cedo — talvez — era uma idealização falsa de liberdade. Algo que busquei para sentir, mesmo que fosse falso, que não estava agindo como eles queriam

Mas eu também percebi que, no fim... nada havia mudado. Como uma peça de teatro, tudo parecia livre à primeira vista. Os atores escolhiam suas falas. Demonstravam emoções. Tomavam decisões. Mas o roteiro já existia desde o início

E, quando chegasse a hora, as luzes se apagariam. A cortina se fecharia. Não importava se a peça terminasse em felicidade ou tragédia. Os aplausos viriam da mesma forma

Clap

Clap

Clap

 [...]

Então... O que realmente havia mudado?

 No fim, meus pais haviam me influenciado de qualquer maneira. Talvez eu tivesse passado anos correndo na direção oposta.

Mas ainda estava presa ao mesmo palco.

***

Faltavam apenas cinco minutos.

Cinco minutos para tudo acabar.

Segurando a mão de minha senpai, permaneci acreditando fielmente no mundo que ela enxergava. Não porque era a única alternativa que havia restado, mas porque acreditava que havíamos feito tudo o que podíamos.

Então, mesmo que Yuji não chegasse, e mesmo que o plano fracassasse, eu não teria arrependimentos.

Ainda assim, segurando a mão da minha senpai com firmeza e cerrando os olhos... rezei para que Yuji chegasse.

"Por favor..."

"Chegue a tempo, Yuji..."

— É sério!! Eu vi aqui!!

Uma voz animada chamou imediatamente minha atenção.

Logo depois, ouvi o som de vários passos apressados subindo os degraus do salão principal.

— Arf... arf... v-você tem certeza...? — perguntou um dos garotos entre uma respiração e outra.

— Claro que tenho! — respondeu a voz familiar. — Meus olhos jamais me enganariam!

Meu coração deu um salto.

"Yuji... você..."

— Definitivamente era um OVNI!

...

Retiro o que pensei.

Era mesmo o idiota do Yuji.

Ele realmente havia conseguido trazer o grupo de Kamo com essa desculpa idiota.

— Onde está?

— Ali. Está vendo?

— Hum... mas eu não estou vendo nada!

— Ah é. Era só uma estrela. Acho que me enganei... Teehe!

— CORTA ESSA! (3X)

Os amigos de Hayato pareciam prontos para bater em Yuji.

Aquilo poderia acabar sendo um problema, então já estava me preparando para intervir.

No entanto, de repente, a atenção deles foi desviada para outra coisa.

Hayato, que caminhava mais à frente do grupo, havia parado.

Seu olhar estava fixo em uma única pessoa.

A garota que o aguardava em silêncio.

— Naomi...

— Hayato.

As amigas de Naomi pareciam prontas para impedir a aproximação dele.

No entanto, a própria Naomi lançou-lhes um olhar tranquilo, como se dissesse que estava tudo bem.

Aquilo, somado à presença de Rina, foi o suficiente para fazê-las recuar.

Por alguns instantes, ninguém disse nada.

O murmúrio dos visitantes, as cigarras e o som distante da floresta pareciam preencher o espaço entre os dois.

Então, Hayato falou primeiro:

— ...Você está linda.

Naomi desviou o olhar por um segundo.

— ...Uhn... v-você também... não está mal.

Enfim, o protagonista e a heroína haviam se encontrado.

Era o momento que todos aguardavam.

O momento pelo qual Natsuki-senpai, Yoshiko-sensei, Rina-san e Yuji-kun haviam se esforçado tanto para criar.

Ainda assim...

O clima definitivamente não era dos melhores.

Talvez porque todos ali soubessem da situação.

O Festival da Luz continuava atrasado.

O tempo estava acabando.

E, acima de tudo...

Talvez porque, no fundo, muitos de nós estivéssemos desejando um milagre.

Um final perfeito.

Mesmo sabendo que a realidade raramente concedia esse tipo de coisa.

— Por que você veio aqui?

— Eu não posso mais falar com uma velha amiga sem ter algum motivo?

— Amiga...

Naomi pareceu refletir sobre aquela palavra.

Como se estivesse confirmando alguma coisa dentro de si antes do ato final.

— É uma pena... — murmurou. — ...Que o Festival da Luz não vá acontecer. Era um momento que eu queria guardar na memória.

— Você acha? Mas eu acho que essa viagem foi tão especial. Eu pude me divertir bastante e conhecer lugares incríveis. De fato, não vou me esquecer disso.

— E-eu também. Eu não vou me esquecer dessa viagem. Não quero me esquecer jamais...

Um clima frio pairava no ar.

Como se, mesmo estando ali naquele momento, os dois não conseguissem realmente se alcançar.

Era como assistir à despedida de dois amantes.

— Ayumi, obrigado.

— Hã? Por que... você está me agradecendo?

— Se não fosse você... eu não teria chegado até aqui. Se você não tivesse segurado a minha mão, eu ainda estaria deitado em algum canto chorando.

— Eu...

— Você sempre me protegeu, Ayumi. Por muito tempo, eu acreditei que estava tudo bem permanecer daquela maneira. Afinal, eu estava seguro atrás das suas costas.

— Então, por quê?! Por quê...? — Naomi gritou.

Lágrimas guardadas havia muito tempo escorriam por seus olhos.

— ...Por que você m-me deixou...?

— Ayumi...

Naomi tentava limpar os olhos sem sucesso.

Carinhosamente, Kamo enxugou suas lágrimas com os dedos.

— Você vê, Ayumi? Eu sempre faço você chorar assim.

— Ngh... gh...

Hayato deu mais um passo em sua direção.

Olhando fixamente para seus olhos.

Talvez aquela fosse sua forma de demonstrar sinceridade.

— Eu não quero mais te machucar, Ayumi. Não quero... que você se machuque por minha causa.

— Ghn... nh... m-mas eu...

— Eu achava que, se deixasse todo o peso para você, estaria tudo bem. Desde que eu estivesse protegido atrás das suas costas, estaria tudo certo. Porque eu sempre acreditei que você era forte.

Hayato continuou:

— Talvez porque... por estar sempre olhando suas costas... eu esquecesse de olhar para o seu rosto. E entender que você também é apenas uma garota normal. Que chora, se sente cansada, irritada... e que, às vezes, também precisa de apoio.

— H-hayato...

Naomi, que parecia não aguentar mais ouvir aquelas palavras, reuniu o último resquício de coragem que ainda possuía.

— E-eu...

Ela respirou fundo.

— ...Te amo. Eu te amo, Hayato... eu sempre te amei...

— Ayumi...

As palavras de Naomi pareceram chamar toda a atenção ali. Como se o tempo tivesse parado. Afinal, mesmo que a sinceridade e a coragem de Naomi fossem dignas de nota, ainda assim todos sabiam como a peça iria se encerrar. Afinal, já estava escrito em tinta e papel.

— ...Você sabe que eu... — murmurou Kamo.

Naomi então se afastou alguns passos de Hayato e estendeu a mão direita, apontando o indicador para ele.

— ...Essa viagem foi especial para mim. Mesmo que não haja festival, mesmo que eu tenha chorado bastante e as coisas não tenham saído exatamente como eu queria. Eu pude sair e fazer compras com minhas amigas, pude comer coisas gostosas, pude conhecer lugares novos de tirar o fôlego e pude conhecer pessoas realmente intrigantes.

Naomi falava como se estivesse recitando sua última fala.

— E eu finalmente pude me declarar para quem eu gosto.

— [...]

— Então, eu declaro aqui: Ayumi Naomi não vai abaixar a cabeça. Eu gosto de vestir roupas bonitas e usar muitos acessórios, gosto de usar maquiagem e de ir ao karaokê com minhas amigas. — Naomi afirmou. — E eu amo elas. Nada disso é falso. E eu também não fiz isso porque fui obrigada. Então...

Ela respirou fundo.

— ...Mesmo que você me rejeite aqui, não vá achando que eu vou ficar chorando por você, Hayato! Não como as outras que você já rejeitou! Eu apenas vou continuar a minha vida! Porque, diferente de você, eu sou forte e independente. Eu não vou simplesmente abaixar a cabeça para o que minha família diz!

— Ayumi... você me ama?

— Amo. Definitivamente. Mas eu não vou mais ficar me remoendo por você. Com ou sem você, eu ainda vou buscar meus sonhos e objetivos.

— [...]

— ...Você entendeu, sr. Hayato?

As palavras de Naomi eram fortes. Convictas. Cheias de si. Ela não tinha nenhuma dúvida disso. E definitivamente esperava que Hayato entendesse a mensagem.

— Ayumi... você realmente é incrível demais para mim...

— Hayato...?

— ...Quando eu percebi que não podia te proteger, eu me esforcei para tentar mudar quem eu era. Minha forma covarde de agir, minha aparência, minhas amizades. Tudo porque eu não queria mais ficar apenas atrás das suas costas.

Hayato parecia olhar um pouco para dentro de si mesmo.

— No entanto, mesmo que eu mudasse, no fim o resultado era o mesmo. Como se estivesse escrito em algum lugar do destino. Você era maltratada e alvo de comentários apenas por estar perto de mim. Seja pelos garotos ou pelas garotas. No fim, você era machucada de qualquer maneira.

— O-o que você está falando?! Eu sou forte! Eu não ligo para o que dizem de mim!

— É verdade. Mas eu tenho certeza de que, se eu me machucasse, você viria me salvar. Eu sabia que você se sentia mal pela forma como os outros me tratavam. Eu sabia disso. Então, não passou pela sua mente que eu também me sentia da mesma forma quando faziam a mesma coisa com você?!

— Hayato...

— É óbvio que eu não ficaria feliz em ver a pessoa que mais me importa sendo tratada assim. É tão difícil para você entender?!

Naomi parecia sem palavras. Mas, de fato, as palavras de Hayato faziam sentido.

— Mesmo quando eu recebi a notícia de que me casaria, eu sabia que as pessoas de fora e da minha família te atacariam apenas por você estar perto de mim. — Hayato confessou. — Foi por isso que eu me afastei de você...

— Por que você não me disse? Se você tivesse me dito, eu apenas...

— Porque eu não percebi que, na verdade, não havia mudado nada. Eu ainda sou o mesmo garoto covarde que se escondia atrás de você. Por isso não contei e guardei isso para mim até hoje.

— ...Mas sabe, Ayumi? Eu pensava que deveria estar à sua frente. Protegendo você da mesma forma que você fez comigo. Mas agora noto claramente que você não precisa de proteção alguma. Isso porque você é uma mulher forte.

— H-Hayato...

— Foi exatamente por você ser uma mulher tão forte que eu me apaixonei por você.

— Ah... Ngh...

— ...Eu não quero mais te ver por trás. Nem quero te deixar para trás. A partir de hoje, quero estar ao seu lado. Segurando sua mão até o fim da minha vida.

— Ngh... ng...

— Mas, para isso... eu tenho que tomar uma decisão tão forte quanto você. Tenho que ser forte como você...

Naomi ficou imóvel.

Pela primeira vez naquela noite, parecia não encontrar palavras.

Hayato respirou fundo. Como se finalmente estivesse pronto para dizer aquilo.

— Ayumi, eu te amo. Eu quero estar ao seu lado até o fim da minha vida.

Quando as palavras de Hayato saíram de sua boca, um som uníssono tomou conta de todo o santuário.

— Whoooa!

A voz de pessoas unidas encarando o céu escuro de Kyoto. Agora iluminado por uma linha tão brilhante que cortava o céu em dois.

Dois destinos que pareciam totalmente separados agora se encontravam em uma noite incomum.

— H-Hayato... v-você... é um completo... idiota...

Naomi disse, juntando-se ao corpo de Kamo.

Ele, em resposta, a abraçou ternamente.

— Sim. Eu sou. Mas obrigado por amar esse idiota.

— Se v-você me ama... então por que você...

— Bem, eu acho que nós somos mais parecidos do que parece, né? Eu também estava tão nervoso e queria que esse momento fosse especial.

— O-o quê...?

— Ora, podemos dizer que... você não é a única que pode fazer um pedido. — disse Kamo, dando um sorriso e piscando um dos olhos.

— [...]

— S-seu trapaceiro! Bobo! Besta!

Naomi batia contra o peito de Hayato.

— Ai! Ai! I-isso dói!

Tchuk.

Em um mundo fora de qualquer roteiro, o tempo parou.

A heroína, corajosamente e em lágrimas, puxou o protagonista para um beijo. Mudando qualquer ordem comum dos fatos.

Mas aquilo já não era mais surpresa para mim. Aqueles dois pareciam não se importar com o que era normal ou não

Sejam as amigas de Naomi ou os amigos de Kamo, todos pareciam emocionados com aquela conclusão.

"Será que eles realmente vão ficar juntos?"

"Conseguirão vencer a pressão familiar?"

"E o casamento de Hayato? Ele realmente vai se opor a isso?"

"E, se sim, como os dois vão seguir suas vidas?"

"..."

Ahh.

Parecia que, naquele momento... naquele pequeno e breve momento dos dois... aquilo pouco importava.

Talvez eles realmente não conseguissem.

Talvez não durassem muito.

Talvez aquilo fosse realmente impossível.

Mas, olhando para aqueles dois... eu entendia que, mesmo que não desse certo, mesmo que eles não ficassem juntos para sempre, ainda assim aquele amor... aquele sentimento entre aqueles dois amigos de infância havia sido gravado em suas memórias.

Havia sido escrito para sempre com uma tinta que jamais se apagaria.

Nenhum dos dois, até o fim de suas vidas, seja qual fosse o resultado... esqueceria.

...Daquela noite em Kyoto.

***

Nosso trabalho estava feito. Naomi e Kamo estavam felizes. Os amigos de ambos comemoravam a união dos dois com alegria. E Rina e Yuji se abraçavam enquanto choravam.

— Q-que lindo...! — exclamou Yuji. — Obrigado, Deus, por estar v-vivo...!

— [¡ ▪ ¡ ]

— Hahaha... não exagerem...

No entanto, um pouco mais atrás, notei uma garota solitária. Ela permanecia firmemente em pé, com a bengala cravada no chão e as duas mãos apoiadas sobre ela. Sorria enquanto olhava para os dois, como se realmente pudesse vê-los.

— Deu tudo certo no fim.

— Sim. Obrigada, Ryoichi-kun. Se não fosse por voc-... não... se não fosse pelo trabalho de todos vocês... não teria sido possível.

— Oh? Não acredito. Minha senpai também está emocionada? Se quiser, eu deixo você chorar no meu peito.

— E-eu não vou chorar! Pare de me provocar!

— Hahaha...

— Rs... você é mesmo...

Toda aquela viagem estava chegando ao fim. Mas tudo parecia ter valido a pena: os risos, as lágrimas, as confusões, os desencontros... Era como se tudo tivesse servido para nos trazer até aquele momento. Como recompensa, tínhamos diante de nós a luz cortando o céu estrelado.

— Será que um dia... nós vamos encontrar a felicidade assim?

Ela parecia se referir àqueles dois.

— Desde que não desistamos como eles não desistiram, eu tenho certeza de que sim. Acho que não precisamos ser exatamente iguais aos dois, mas podemos aprender com eles.

— [...]

— O que eu quero dizer é que... desde que você enxergue esse amor no seu mundo, então com certeza também vai encontrar um igual. Ou talvez até maior.

— Ryoichi-kun...

— Eu tenho certeza disso. Afinal, hoje você conseguiu fazer algo impossível.

— [...]

Natsuki pareceu refletir por alguns instantes. Então, retribuiu com um pequeno sorriso.

— Me pergunto...

— Hã?

— ...Se minha mãe está orgulhosa de mim agora...

— Ela está, sim. É óbvio.

— Como você pode ter tanta certeza?

— Porque eu também estou muito orgulhoso. Yoshiko-sensei, a presidente, Rina e Yuji... todos eles também estão orgulhosos de você. Então é óbvio que ela também está.

— Ryo...

— Natsuki-senpai.

— O-o que foi?

— O céu estrelado realmente está lindo hoje... então...

— ...

— Poderia me deixar ver as estrelas?

— [...]

— Claro. Por favor.

Puxei a garota, que tinha lágrimas nos olhos, para um abraço. Sua bengala acabou caindo sobre o chão de pedra. Seus braços magros se estenderam sobre minhas costas, e eu pude sentir o calor de seu corpo contra o meu.

Era tão quente.

Confortável.

Seguro.

Brilhava tanto que quase machucava meus olhos.

Meus olhos estavam fechados.

E, ainda assim, eu conseguia enxergar claramente o céu estrelado.

"Então... esse é o seu mundo?"

De fato, compartilhar aquele momento... aquele curto, porém especial momento com minha senpai...

Era algo que eu guardaria para sempre em meu peito.


Esse foi o capítulo final do segundo volume. No entanto, ainda serão lançados alguns capítulos "ss" antes do fim do volume 

O Volume 3 chega em breve!!!  

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