Volume 2
Capítulo 12: Você Pode Confiar Em Mim? (3)
Nosso primeiro destino do segundo dia era o famoso Fushimi Inari Taisha, um dos santuários mais conhecidos de Kyoto. Localizado no sul da cidade, o lugar era famoso pelos incontáveis portões torii vermelhos que atravessavam a montanha como um túnel interminável. Segundo Yoshiko-sensei, aquelas trilhas levavam até o Monte Inari, considerado sagrado dentro do xintoísmo
— Dizem que existem milhares de torii espalhados pela montanha — explicou ela enquanto caminhávamos próximos da entrada principal. — E todos foram doados por empresas ou visitantes
— Milhares...? — Yuji arregalou os olhos. — Isso aí deve custar o PIB inteiro de um país pequeno!
— Na verdade, os maiores passam de um milhão de ienes — respondeu Haruka calmamente
— QUÊ?!
Ignorei o escândalo de Yuji e voltei minha atenção para o enorme portão vermelho à nossa frente. O chamado Portão Romon parecia ainda mais impressionante pessoalmente. Mesmo cercado por turistas, ainda carregava uma presença quase intimidadora. Estátuas de raposas observavam silenciosamente os visitantes ao redor do santuário. Segundo os panfletos turísticos, elas eram consideradas mensageiras de Inari, a divindade associada ao arroz e prosperidade. Honestamente, aquilo tudo parecia mais cenário de filme do que um local real
Depois de atravessarmos o Portão Romon, Yoshiko-sensei nos guiou até o salão principal do santuário. Vários visitantes faziam pequenas oferendas antes de rezar silenciosamente diante do honden
— Certo, seus animais sem cultura — disse Yoshiko-sensei enquanto batia palmas duas vezes. — Façam pelo menos o básico e não envergonhem nossa escola
— Isso foi ofensivo de várias maneiras diferentes — resmunguei
Ao meu lado, Yuji já havia fechado os olhos de maneira estranhamente dramática
— Inari-sama... por favor faça com que Ryoichi-kun me chame pelo primeiro nome
— Eu estou te ouvindo, seu idiota.
Juntei as mãos diante do altar por alguns segundos. Mas, quando tentei pensar em um desejo... percebi que minha mente estava vazia. Alguns dias atrás eu provavelmente pediria para sair logo daquele clube. Mas acho que eu tenho outros assuntos mais importantes agora
"Já sei..."
Joguei uma moeda e batendo as mãos, fiz meu pedido
"Por favor, que eu consiga me tornar alguém que apoie os outros"
— Whoa, você parecia tão sério. O que você pediu afina-
Ah! Já sei... — disse Yuji, abrindo um sorriso travesso. — Ryoichi-kun, seu danadinho... você pediu uma namorada, não foi?
— H-hã?! É claro que não! — respondi imediatamente. — E mesmo se fosse verdade, eu nunca te contaria
Cruzei os braços antes de continuar:
— Você nunca ouviu dizer que pedidos falados em voz alta não se realizam? Então parabéns. O seu já era
— O-o quê?!
Yuji arregalou os olhos em desespero antes de imediatamente puxar outra moeda do bolso
— Então eu vou consertar isso agora!
Eu já estava preparado para rir um pouco da palhaçada de Yuji quando meus olhos se voltaram para minha senpai. Ela estava ao meu lado direito, já com as mãos unidas em oração. Sua expressão era tão séria que deixava óbvio o quanto estava concentrada. Por um instante, me peguei imaginando o quão importante devia ser o pedido que ela fazia
— Senpai...
Alguns segundos depois, Natsuki lentamente separou as mãos e pegou a bengala apoiada próxima ao altar
— Acabei. Vamos?
— S-senpai, você também parecia super séria! — comentou Yuji, inclinando o corpo para frente com curiosidade. — O que você pediu?
— ...Huhuhu...
Natsuki-senpai levou a mão até os lábios e soltou uma risada suave e provocativa
— É segredo.
Ela então apoiou delicadamente o indicador sobre os próprios lábios
— Pedidos não se realizam quando são contados para os outros... não é? — Disse Natsuki-senpai com um pequeno sorriso. — Me desculpe, mas eu realmente quero que o meu pedido se torne realidade
— Ugh... então o meu já era mesmo...
— Você literalmente gritou o seu no altar — respondi imediatamente
— Inari-sama precisava escutar direito! Vai que ele estava no banheiro?!
— O que você está dizendo?! Deuses não vão ao banheiro!
— Como é que você pode ter certeza? Todo mundo vai ao banheiro! Inclusive eu mais ce-
— Ok, ok. Hora de ir
Depois de prestarmos as devidas homenagens no honden, finalmente chegou uma das partes mais famosas — e ao mesmo tempo mais cansativas — da visita. Era hora de subir a montanha. Logo atrás do prédio principal começava o Senbon Torii, o enorme corredor formado pelos incontáveis portões vermelhos que atravessavam a floresta do Monte Inari. Mesmo à distância, a visão dos torii alinhados lado a lado já era impressionante. As estruturas vermelhas pareciam formar um túnel infinito que desaparecia montanha adentro
— Então é a partir daqui, não é? — perguntei enquanto observava a trilha
— Sim. — respondeu Natsuki calmamente. — Se seguirmos o combinado, devemos encontrar Naomi-san na metade do caminho
— Metade do caminho...? — Yuji arregalou os olhos. — Espera. Isso significa que ainda existe MAIS subida?!
— Claro que existe — respondi imediatamente. — Você achou que a montanha era decoração?
— Eu odeio turismo espiritual...
***
Na noite anterior, Natsuki-senpai me contou sobre uma conversa inesperada que teve com Naomi-san
“Eu estava no quarto quando Naomi-san perguntou se tínhamos visto o que aconteceu mais cedo. Quando confirmei...”
— ...Me desculpem.
Natsuki pareceu surpresa ao lembrar daquilo
"Naomi-chan raramente pede desculpas desse jeito..."
— Eu não deveria ter escondido a briga com Hayato. — continuou Naomi. — É só que... como eu ainda não conheço vocês direito...
Sua voz foi diminuindo aos poucos, como se tivesse dificuldade em continuar
— Ah... tudo bem. — respondeu Natsuki gentilmente. — Eu entendo.
— Então...
Naomi desviou o olhar antes de continuar:
— Eu sei que estou sendo egoísta dizendo isso agora, mas...
Ela apertou levemente as próprias mãos
— Vocês podem continuar me ajudando?
— [...]
— Eu não quero desistir
O silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos. Então Natsuki sorriu calmamente
— Claro
Ela respondeu sem hesitar:
— Nós vamos conseguir. — respondeu Natsuki gentilmente. — Mas... se puder, dessa vez tente ser honesta conosco
— [...]
Naomi permaneceu em silêncio por alguns segundos. Era óbvio que ela ainda não se sentia confortável falando sobre a própria vida daquele jeito. Seus dedos apertaram discretamente a manga do uniforme antes dela suspirar
— Tudo bem...
Ela então desviou o olhar
— Eu conto
— Hã?
— Amanhã...
O vento da noite balançou levemente as cortinas do quarto enquanto Naomi continuava:
—...Nos torii.
***
— Ugh... arf... minhas p-pernas... — reclamou Yuji enquanto se apoiava nos próprios joelhos. Seu rosto estava completamente suado e ele parecia à beira da morte. — F-falta muito... gulp... p-pra chegarmos no ponto de encontro...?
Yuji praticamente se arrastava montanha acima, ficando vários passos atrás de nós dois
— Você realmente não aguenta nada, hein? Que molenga
— E-eu devia... ter pedido pro Inari-sama... escadas mais curtas...
— Você deveria era fazer mais exercícios
Mais à frente, Natsuki-senpai continuava subindo calmamente os degraus de pedra. Mesmo segurando a bengala, ela ainda parecia mais estável do que Yuji
— Hahaha... provavelmente já estamos perto — disse ela entre pequenas respirações. — Mas é um pouco difícil encontrar alguém aqui no meio dos torii...
De fato, aquilo era verdade. Como ainda era manhã, os grupos de estudantes e turistas continuavam espalhados pelas áreas mais baixas do santuário. Conforme subíamos a montanha, porém, o movimento diminuía cada vez mais. Aos poucos, o Fushimi Inari parecia se transformar em outro lugar. Tudo mais silencioso. Mais vazio. Como se aquele corredor infinito de torii fosse um pequeno pedaço isolado do resto do mundo.
O som dos insetos ecoava suavemente junto ao vento que atravessava as árvores da montanha, criando uma sensação estranhamente confortável... e ao mesmo tempo inquietante. A luz do sol atravessava os espaços entre os portões vermelhos, tingindo a trilha com tons alaranjados quase surreais. Por alguns instantes, tive a sensação de que aquele lugar nem parecia real
Tac
Tac
Tac
O som da bengala de Natsuki-senpai ecoava contra os degraus de pedra.. Naquele silêncio, o pequeno ruído parecia absurdamente alto
Quase como se estivesse marcando o tempo
Tac...
Tac...
Conforme subíamos pelos incontáveis torii vermelhos, até o vento parecia ter diminuído
Seria aquilo alguma brincadeira do destino?
Um encontro marcado em meio aos torii...
Com uma heroína carregando lágrimas nos olhos
— Aí estão vocês...

Uma voz firme ecoou pela escadaria silenciosa. Instintivamente, levantei o rosto. A dona da voz surgiu parcialmente escondida atrás de um dos torii vermelhos
— Naomi-san...
Ela nos observava em silêncio. Seu olhar ainda carregava desconfiança. Mas, ao mesmo tempo… parecia existir determinação ali também. Como se finalmente tivesse tomado coragem para encarar alguma coisa. Então Naomi respirou fundo antes de continuar:
— Me sigam, por favor
Ela apertou discretamente a alça da própria bolsa
— Eu vou contar o que aconteceu… entre mim e Hayato
Concordando silenciosamente com as palavras de Naomi-san, começamos a segui-la pela longa escadaria dos torii. Os portões vermelhos continuavam se repetindo sem fim montanha acima, enquanto o som dos nossos passos ecoava suavemente pelo corredor estreito
— Naomi-chan... e suas amigas? — perguntou Natsuki-senpai enquanto subíamos
Naomi continuou andando por alguns degraus antes de responder:
— Dei um perdido nelas
Ela desviou o olhar levemente
—...Provavelmente devem achar que eu me perdi ou algo assim
— V-você simplesmente abandonou o seu grupo...? — Yuji perguntou
— Elas não precisam saber do nosso acordo
A resposta veio imediata. Então Naomi diminuiu um pouco os passos
— Além disso... elas já se preocuparam demais comigo ontem. Eu não quero fazer isso de novo...
Escutar Naomi falando daquele jeito pela primeira vez me surpreendeu. Pela maneira como se expressava, dava para perceber o quanto ela se importava com as próprias amigas. A preocupação em não fazê-las sofrer ou se preocupar demais mostrava uma gentileza completamente diferente da garota agressiva e defensiva que conhecemos no depósito
— [...]
Aquilo me fez pensar. Eu sempre tive certo preconceito com esse tipo de grupo. Pessoas extrovertidas, barulhentas, cercadas de amigos o tempo todo... na minha cabeça, eram todos superficiais e egoístas. Gente que só sabia olhar para si mesma. Mas talvez, eu estivesse apenas julgando os outros de novo. O som dos nossos passos ecoou silenciosamente entre os torii enquanto eu abaixava o olhar por alguns segundos. Desde que essa viagem começou, eu vinha percebendo algo irritante. Quanto mais conhecia aquelas pessoas... Mais minhas certezas começavam a desmoronar
— Eu conheço Hayato desde pequena... nós somos amigos de infância. — Disse Naomi-san enquanto continuávamos subindo os degraus do santuário. — Nossos pais são amigos há muitos anos. Além disso, nossas famílias trabalham no mesmo ramo de roupas, então acabávamos nos encontrando o tempo todo
Ela suspirou levemente antes de continuar:
— E, sinceramente... quando conheci ele, eu não gostei nem um pouco
— Hã? — Yuji pareceu surpreso. — O príncipe perfeito da escola já nasceu irritante?
— Muito. — respondeu Naomi imediatamente. — Ele era chorão, medroso e vivia se escondendo atrás dos outros
— Oi?! Isso realmente é o Hayato?!
Naomi soltou uma pequena risada nasal ao ouvir a reação de Yuji
— Nós sempre acabávamos juntos por causa das nossas famílias. E como ele era muito covarde... eu sentia que precisava protegê-lo quando outros garotos tentavam intimidá-lo
— [...]
Aquilo me pegou completamente desprevenido. Hayato Kamo — o garoto popular cercado de amigos praticamente o tempo inteiro — sendo intimidado pelos outros? Parecia até difícil de imaginar. Na minha cabeça, Hayato sempre pareceu o tipo de pessoa naturalmente perfeita. Bonito, sociável, inteligente... alguém que nasceu sabendo exatamente como lidar com os outros
— Lembro especificamente de uma vez em que escutei alguns garotos falando maldades sobre nós dois. — contou Naomi enquanto passávamos sob mais uma fileira de torii. — Então eu fui atrás deles... e arrumei uma briga
— Whoa! — Yuji arregalou os olhos imediatamente. — Você é incrível, Naomi-san! E aí? Você venceu?
— Não. — respondeu ela sem hesitar. — Mas acho que dei bastante trabalho
— Isso definitivamente não é algo pra se dizer com orgulho... — murmurei
Naomi soltou uma pequena risada pelo nariz
— Eu realmente odiava quando os outros destratavam ele. — continuou Naomi-san. Sua voz parecia mais baixa agora. — Mesmo sendo fraco... Hayato sempre foi gentil
O vento atravessou silenciosamente os torii enquanto subíamos os degraus. As sombras vermelhas dos portões passavam uma após a outra sobre nossos corpos, quase como memórias antigas sendo revisitadas
— ...Mas talvez, depois daquela época... as coisas começaram a mudar pouco a pouco.
— Como assim? O que aconteceu? — perguntou Natsuki-senpai cuidadosamente
Naomi permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder:
— Muitas coisas deixaram de ser como antes
Ela apertou levemente a alça da própria bolsa enquanto continuava caminhando
— Nossos pais brigaram. Seriamente.
— [...]
— Depois disso, nossas famílias praticamente cortaram contato. Por muito tempo... eu parei de ver Hayato
O som dos passos ecoava lentamente pela escadaria
Tac...
Tac...
Tac...
— Eu tentava encontrar ele às vezes. — confessou Naomi. — Mandava mensagens, perguntava pros conhecidos, tentava puxar conversa quando a gente se esbarrava...
Ela soltou uma pequena risada amarga
— Mas ele nunca parecia retribuir
— Talvez ele estivesse confuso também — comentou Natsuki gentilmente
— Talvez. — Naomi desviou o olhar. — Mas, naquela época, eu não conseguia pensar desse jeito
Por alguns segundos, apenas o som do vento preenchia o corredor de torii
— Eu comecei a achar que ele simplesmente não precisava mais de mim
Aquelas palavras saíram baixas. Baixas o suficiente para quase se perderem no som das árvores
— E então... um dia, quando percebi... Hayato já tinha mudado completamente
— Em que sentido? — perguntei, genuinamente curioso
Naomi demorou alguns segundos para responder. Os passos dela diminuíram levemente enquanto atravessávamos mais um corredor de torii vermelhos.
— Eu só voltei a andar com ele de novo no ano passado. — explicou ela. — Nós não éramos da mesma sala... mas, sempre que podia, eu tentava encontrá-lo
Ela soltou uma pequena risada sem humor
— Eu puxava assunto, implicava com ele como fazia antigamente... mexia no cabelo dele só pra irritar... tentava fazer ele sorrir de novo
O vento atravessou a trilha silenciosamente, balançando algumas folhas acima de nós
— Mas não importava o quanto eu tentasse...
Naomi abaixou o olhar
— Era como se eu estivesse falando com outra pessoa
— [...]
— Hayato estava sempre cercado de gente. Principalmente garotas. Todo mundo ria do que ele dizia, seguia ele pra todo lado...
Ela apertou levemente os próprios dedos
— E ele também mudou comigo
Sua voz saiu quase amarga naquela parte
— O Hayato que eu conhecia era tímido, inseguro... alguém que precisava que eu puxasse ele pela mão o tempo inteiro
Naomi ergueu lentamente os olhos para os torii à frente
— Mas aquele Hayato já não existia mais
O silêncio tomou conta do grupo por alguns instantes
— Ele não estava mais nas minhas costas. Não era mais o garoto que eu precisava defender
Ela se voltou a nós e então sorriu de maneira triste
"Então... é isso."
As pessoas crescem e mudam. Mas, olhando para Naomi-san agora, parecia óbvio que ela sentia falta daqueles dias. Talvez não fosse apenas sobre proteger Kamo-san. Talvez fosse sobre sentir falta da presença dele em sua vida. Por isso, mesmo que estivéssemos tentando ajudá-la... existiam coisas que simplesmente não podiam voltar a ser como antes. Afinal, Hayato Kamo já não era mais o mesmo garoto de anos atrás. No entanto, Natsuki-senpai ainda parecia presa a uma dúvida específica
— Ontem... você disse para Kamo-kun “voltar para ela”. — comentou Natsuki cuidadosamente. — Pela forma como falou... parecia estar se referindo a uma garota
Ela inclinou levemente a cabeça
— Quem é ela?
— [...]
Naomi parou no meio da escadaria. O silêncio surgiu tão de repente que parecia até que o vento havia parado junto com ela. Como se aquele fosse um assunto que nem mesmo os torii permitissem ser dito em voz alta. Depois de alguns segundos, Naomi finalmente voltou a falar
— Foi no final do último ano letivo...
Sua voz saiu baixa
— Como sempre, depois das aulas, eu chamei Hayato para voltar comigo pra casa
Ela apertou levemente a alça da própria bolsa
— Normalmente ele recusava. Dizia que estava ocupado com os amigos ou com alguma coisa da turma dele...
Naomi abaixou o olhar
— Mas naquele dia... ele aceitou.
O som distante do vento atravessou os torii vermelhos
— Ele até avisou aos amigos que tinha outro compromisso
Um pequeno sorriso triste surgiu em seus lábios
— Eu fiquei tão feliz...
Seus passos permaneceram imóveis sobre os degraus de pedra
— Achei que finalmente ele tivesse aberto o coração pra mim de novo
— [...]
— Mas não era isso
O corredor de torii parecia ainda mais silencioso agora
— No meio do caminho... Hayato simplesmente parou de andar
Naomi respirou fundo. Então começou a contar:
"..."
"Hayato? O que foi?"
"Ayumi... eu preciso te contar uma coisa."
"Hã? Por que você está tão sério...? Ah..."
Ela soltou uma pequena risada nervosa.
"Não me diga que você finalmente vai se declarar pra mim... fufu..."
"..."
"O-o que foi...? Por que está me olhando desse jeito...?"
"Ayumi..."
A voz de Hayato parecia pesada.
"Eu vou me casar."
"...Hã?"
"Depois que eu terminar o ensino médio."
"C-casar...? Como assim...? V-você não pode simplesmente—"
"Meus pais que decidiram. Me desculpe."
"..."
Naomi abaixou lentamente o rosto
— Naquele momento... eu não sabia se queria chorar, gritar... ou rir da minha própria cara
O vento atravessou silenciosamente os torii acima de nós
— Eu devia estar fazendo uma expressão patética.
Sua voz saiu cada vez mais baixa
— A cada segundo... as costas de Hayato pareciam mais distantes de mim
Ela apertou discretamente os próprios dedos
— Até que, naquele dia... foi como se eu não conseguisse mais enxergá-las
"...Ah é?"
A voz dela saiu amarga
"E o que eu tenho a ver com isso?!"
"Ayumi... eu achei que deveria te contar..."
"Com quem você casa ou deixa de casar não é problema meu!"
O eco da própria memória parecia machucar Naomi enquanto ela continuava
"Para de agir como se eu tivesse alguma coisa a ver com a sua vida!"
"..."
"O quê? Só porque conseguiu alguns amigos te bajulando agora tá se achando especial?!"
"Ngh..."
Hayato ficou em silêncio por alguns instantes
"...Ah. Entendi."
"Hunf!"
"Então tudo bem."
A voz dele parecia estranhamente calma
"Eu realmente não preciso que você continue olhando pra mim como se eu ainda fosse aquele garoto."
"..."
"Então para de girar ao meu redor."
O silêncio pesou sobre a escadaria
"É sufocante."
"C-como quiser..."
"...Mas você está certa."
A voz de Hayato pareceu distante naquela lembrança
"Me pergunto por que achei que precisava te contar isso."
"..."
"Afinal..."
Os dedos de Naomi tremiam levemente
"...você já não faz mais parte da minha vida faz tempo."
"..."
"Adeus, Ayumi."
Aquilo mudava tudo drasticamente. Um casamento arranjado nos dias de hoje, são muito raros. Mas não impossíveis. Se realmente Kamo-san estava envolvido em um, isso tornava nosso objetivo impossível. Isso ia muito além de um trabalho em um clube. Isso envolvia os negócios de pessoas importantes. Inclusive, algo que nós meros adolescentes do ensino médio, não temos sequer condição de protestar. Mesmo que fosse difícil para Naomi-san, não era algo que ela deveria se envolver. Muito menos envolver terceiros. Por mais que entendesse o seu lado, isso era algo muito mais complicado do que parecia
Na verdade, era impossível. O destino de Kamo-san estava selado. Pro bem da própria Naomi-san ela deveria seguir em frente. Mas ela parecia presa a um passado distante. Passado esse que nunca mais iria voltar
— Eu sou patética, não sou? — Naomi, pareceu perguntar a sí mesma. — Se eu realmente me importasse com ele... eu deveria apenas ter o apoiado. Dado os parabéns para ele...
—...Mas é que... quando eu me lembro do seu rosto... — Naomi, disse com lágrimas nos olhos. —...E-ele parecia t-tão triste...
Naomi esfregou seus olhos. Continualmente ela continuou a fazer isso. Mas as lágrimas não pareciam parar. Até que, então, o som de metal caindo contra o chão foi escutado
Pah
A bengala de Natsuki caiu contra a escadaria. E em um movimento, ela a abraçou Naomi ternamente
— Senpai...?
Naomi pareceu surpresa por um segundo. Isso era óbvio, já que as duas nem são próximas. Muito menos amigas. No entanto, aquilo não parecia importar para minha senpai naquele momento
— Tá tudo bem — Disse, Natsuki. Sua voz era gentil. — Não é problema algum depender de alguém
Naomi pareceu pensar por alguns segundos e sua resposta foi apenas devolver o abraço
Depois de alguns segundos, Natsuki então se afastou um pouco
— Nós já temos o plano para garantir uma situação perfeita para sua confissão. Mais tarde, haverá o evento que só acontece 3 vezes no ano. O show de luzes no Santuário Kiyomizu-dera. Você sabe que essa sempre foi a ideia desde o início na verdade
— Eu só gostaria de ter certeza de uma coisa: você ainda quer fazer isso, Naomi-chan?
— [...]
— Sim, eu sei. É perfeito
Aquelas palavras de Natsuki, eram muito mais profundas do que pareciam. Depois da revelação de Naomi era óbvio que ela seria rejeitada. Afinal, Hayato estava noivo. Uma declaração de Naomi para Hayato, além de ter um resultado desastroso. Ainda poderia ser ainda pior caso os rumores corressem a solta. O que era bem provável
Natsuki apenas estava confirmando o desejo de Naomi e sua convicção. Naomi então saltitou alguns degraus acima
— Por que você vai fazer isso? — Perguntei, confuso
— Hoje a noite eu irei me declarar para Hayato. Falarei o que aquela antiga garota sempre quis dizer desde o início. E então... serei rejeitada.
— Então... por quê? Porque continuar algo que só vai te machucar?
—...Porque quando isso acontecer...
—...eu quero poder finalmente desejar sorte para ele com um sorriso
O festival de luz no Kiyomizu-dera. Acontecendo três vezes no ano, o seu ápice é marcado pela linha de luz que ilumina o céu de Kyoto. Dizem que simboliza a compaixão de Kannon, a deusa da misericórdia a quem o templo é dedicado. A luz azul forte é vista como um guia e um sinal da compaixão universal de Kannon, guiando os visitantes e protegendo a cidade
Me pergunto: a deusa terá compaixão dos sentimentos dessa garota? Ou seus sentimentos brilharão intensamente como a luz no céu e simplesmente desaparecerá como se nunca tivesse existido?
Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários
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