Volume 2

Capítulo 11: Você Pode Confiar Em Mim? (2)

Depois do jantar, alguns alunos aproveitavam seu tempo livre antes de dormir de muitas formas. Alguns conversavam, outros jogavam carta e Go, e os mais retraídos apenas mexiam em seus celulares

 

Já eu tentava dormir. Mesmo sendo apenas 21 horas da noite. Ainda assim, com toda aquela conversa e barulho, não era um trabalho nada fácil

 

Ainda tentava dirigir o que havia escutado mais cedo. Não sabia exatamente como agir escutando toda aquela história de Natsuki-senpai

 

Além disso, a proposta de abandonar o clube me fêz perder a linha de raciocinio. Era aquilo que eu queria desde o início, no entanto, não sabia porque não tinha conseguido apenas dizer "sim"

 

Nem eu mesmo conseguia me reconhecer naquele momento

 

Afinal… parecia que aquela viagem estava me mudando pouco a pouco

 

Tuc Tuc

 

Enquanto tentava dormir, comecei a sentir alguma coisa cutucando minhas costas. Pensei que poderia ser apenas um dos meus colegas idiotas tentando me provocar ou algo do tipo. Aquele evento típico de viagem escolar que aparece nos filmes. 

 

Pensei que se eu apenas ignorasse, eles apenas desistiriam

 

Tuc Tuc Tuc

 

Ok. Parecia que eles não iriam desistir. Seria um pouco irritante, mas eu estava com pouca paciência para brincadeirinha. Eu pensei em dar uma bela bronca em quem quer que fosse

Quando me virei pra fazer isso, no entanto, percebi que era apenas Yuji

 

— Você não tá vendo que eu tô querendo dormir seu id-

 

— Venha comigo — Disse, Yuji. Seu rosto estava estranhamente sério

 

— Hã? Você tá ficando maluco?

 

— Venha logo

 

Yuji começou a caminhar em direção a saída do quarto. Mesmo abrindo a porta de correr, ele praticamente não chamou qualquer atenção

 

Eu poderia ter apenas me virado e voltado a dormir. Mas alguma coisa na maneira como Yuji estava falando, ou talvez a sua expressão séria... me fez levantar do futon e seguí-lo

 

***

 

Não nos é permitido sair dos quartos sem qualquer motivo. Principalmente, a essa hora da noite. No entanto, de alguma forma, Yuji sabia exatamente quando a recepcionista não estava no balcão

 

Pegamos os sapatos na entrada e saímos pela porta da frente

 

— Ahh! Isso é tão incrível! É como se tivessemos em uma aventura proibida! 

 

— Cara, você ficou louco?! se algum professor nos ver aqui estamos ferrados! 

 

— Haha! Deixa de ser medroso! Ninguém vai nos ver, fica tranquilo

 

— Realmente?

 

— Eu acho...

 

— Você não me dá segurança alguma...

 

Se dependesse de Yuji, nós com certeza seríamos pegos. Já me perguntava porquê diabos eu decidi sair do futon. Devo estar ficando louco

 

— Eu vou voltar

 

— Quê? Não, cara. Já estamos perto. Olha, é ali na frente. 

 

Yuji apontou para uma máquina de bebidas automática. Ela ficava poucos metros de onde ficava a pousada. Então, realmente não era longe

 

A luz branca da máquina iluminava a rua vazia enquanto o som constante do motor ecoava no silêncio da noite

 

A maioria das lojas já estavam começando a fechar. Então, apenas tinhamos nós dois ali. Não acreditava que aquele maluco tinha me tirado do futon apenas por causa daquilo

 

— Não é incrível?! — Gritava, Yuji. Enquanto saltitava envolta da máquina. — Tem refrigerante, café, suco e até chocolate quente!  

 

— Ehh... chato...

 

— Eu não sou chato. Você que é animado demais

 

— Como não ficar animado vendo uma belezura dessas?! Máquinas automáticas de bebida são o passado, o presente e o futuro da economia japonesa! Encontrar uma preciosidade dessas em Kyoto só prova que isso tudo é obra do destino! Sim! Isso não é apenas uma máquina qualquer de bebidas...

 

—...É a salvaçãoooo do país!

 

— Hum... 

 

— Oh? Eu te fiz rir? 

 

— Hã? É c-claro que não! — Exclamei, tirando algumas moedas e levando até a máquina — Você deve estar ouvindo coisas! 

 

— Heh... talvez

 

Com as moedas em mão, olhei as escolhas que eu podia fazer. No geral, nada chamava tanto minha atenção, além de duas coisas

 

Havia chá matcha, então, eu podia escolher um chá gelado. Mas já era tarde, para uma bebida tão forte. Talvez aquela fosse uma escolha amarga demais no momento

 

Também tinha um chocolate quente. Sua embalagem chamava bastante minha atenção. Talvez fosse a escolha certa. Afinal, parecia algo doce e reconfortante. Mas... eu não sabia

 

 

— [...]

 

Yuji me olhava com atenção. Ele parecia sério como antes e mantinha seus braços dobrados. Como se observasse cada detalhe meu

 

De repente, sua voz saiu

 

— Você está confuso, Ryoichi-kun?

 

— Hã?

 

— Você parece não saber o que fazer agora

 

A voz de Yuji era diferente do que eu era acostumado. Tinha um ar de convicção muito forte e um tom assertivo

 

Era como se ele soubesse o que tinha acontecido mais cedo

 

— Sim. É verdade... eu não sei o que fazer...

 

— Por que você não sabe? Não é óbvio?

 

— Óbvio? Como que pode ser óbvio? Se eu escolher errado agora, não tem como eu voltar simplesmente depois

 

— Isso te deixa com medo? Você não acha que apenas está fugindo? Agindo como um covarde?

 

— C-covarde?! Como você pode dizer isso? Isso não tem nada haver com você! Você quer saber o qu-

 

— Eu não sei. E nem quero saber de nada

 

— O quê...?

 

— Eu apenas quero que você tome sua decisão

 

A máquina de vendas por um momento deixou de tomar a minha atenção. Eu não conseguia tirar os olhos de Yuji naquele momento. No entanto, ele não olhava diretamente para mim. Ele dividia sua atenção entreolhando a máquina e o meu peito

 

— Ouça, Ryoichi-kun. Eu não estou te julgando. Como não sei de qualquer coisa, sequer posso fazer isso — Explicou, Yuji. — Mas, você está estranho agora

 

— Estranho?

 

— Sim, estranho. Agindo totalmente estranho. Totalmente diferente do Ryoichi-kun que eu conheço

 

— Como é que você tem a audácia de dizer isso?! VOCÊ NÃO ME CONHECE! 

 

BAM

 

O barulho da minha mão batendo contra a máquina de vendas ressoou pela rua

 

Arf arf

 

Eu estava irado. Já Yuji apenas permanecia calado

 

— O que vocês estão fazendo seus vândalos?! Não venham procurar problemas aqui! 

 

O barulho proveniente do meu acesso de ira parece ter chamado atenção de um morador local

 

A culpa era minha. Eu deveria apenas olhar para trás e pedir desculpas. Mas eu sentia vergonha e medo

 

— Eu vou chamar a pol-

 

— Hahaha! Ryoichi-kun, se não tinha dinheiro era só pedir para mim! Não precisa ficar batendo na máquina! Pronto, eu te empresto! — Yuji gritava para que o morador escutasse sem problemas

 

Parece ter dado certo, já que ele parou de reclamar. E Yuji parou de fingir

 

Yuji abaixou o olhar por alguns segundos antes de voltar a falar

 

— Ryoichi-kun. E você?

 

— Hã...?

 

— Você se conhece?

 

A pergunta de Yuji me fez ficar estarrecido. Não conseguia nem ter a coragem de olhar para o seu rosto

 

— Bem, o Ryoichi-kun que eu conheço... é um homem sério e orgulhoso. Nem todos gostam dele, mas é inegável que ele é admirável

 

— [...]

 

—...O Ryoichi-kun que eu conheço... é um verdadeiro egoísta. O maior egoísta que eu já vi. Ele não vai se importar de tomar a decisão que lhe cabe bem, mesmo se bater de frente com o que os outros pensam

 

— [...]

 

—...O Ryoichi-kun... que eu admiro... vai tomar uma decisão. Mesmo que seja difícil. Porque, mesmo não sendo o homem mais virtuoso... ele sempre toma a decisão que acredita ser a correta

 

As palavras de Yuji pouco a pouco me fizeram levantar o meu rosto. Yuji desde que me conheceu sempre externou que gostava de mim, mas eu nunca havia visto ele falar sobre o que achava de mim dessa maneira

 

Ainda assim, eu não posso dizer que sempre o tratei bem. Na verdade, muita das vezes sempre foi o contrário. Eu não posso dizer que o odeio, mas mesmo agora com ele sendo tão honesto, não posso dizer se eu realmente o admiro

 

— Ryoichi-kun. Para mim, pouco importa qual decisão você vai tomar. Eu apenas quero que você tenha certeza de tomá-la...

 

— ...E não importa qual decisão você tome. Saiba que eu sempre vou estar aqui para te apoiar. Não importa qual seja

 

— Por quê...?

 

— Hã?

 

— Por que você diz isso? Por que você está me ajudando? 

 

— [...]

 

— Ora, isso não é óbvio? — Perguntou, Yuji — Eu já disse várias vezes não? 

 

— É porque eu sou único e melhor amigo.

— Hum... você realmente não tem jeito. É mesmo o rei dos idiotas. Tão teimoso...

 

— Hehe...

 

Virando o rosto contra a máquina. Eu coloquei as moedas e cliquei em uma das opções disponíveis

 

Click

 

Plam!

 

— Então você escolheu café? O mesmo de sempre?

 

— Sim, não é do Amai. Mas, não tem nada melhor do que o bom e velho café habitual

 

— Heh... sim. Esse é o Ryoichi-kun que eu conheço

 

Yuji então, estranhamente, se virou e começou a andar em direção a pousada

 

— Ué? Aonde você vai? 

 

— Eu estou indo dormir. Boa noite, Ryoichi-kun.

 

— Você não vai beber?

 

Yuji então suspirou e disse:

 

— Não. Eu não estou com sede

 

***

 

PAFT

 

— Ai...

 

Acabei acordando no meio da noite. Yuji tinha acertado a mão no meu rosto enquanto dormia. Ele realmente parecia o tipo de pessoa que não conseguia ficar parado nem dormindo

 

Decidi deixar passar. Quando meus olhos finalmente se acostumaram com a escuridão do quarto, percebi que muitos dos meus colegas eram iguais a ele. Alguns se mexiam enquanto dormiam, outros resmungavam coisas sem sentido e havia até um idiota roncando tão alto que parecia até um porco

 

Aquilo estava uma verdadeira bagunça

Eu poderia simplesmente voltar a dormir, mas o quarto estava quente demais. O ar parecia abafado por causa da quantidade de pessoas amontoadas ali dentro, e o cheiro misturado de futons, uniformes e shampoo só piorava tudo

 

Minha garganta estava seca. Tão seca que eu não conseguia nem fechar os olhos direito sem sentir incômodo

 

Suspirei baixinho antes de esticar a mão, tateando ao lado do futon em busca da minha garrafa de água

 

— [...]

 

Nada. Franzi a testa imediatamente

 

Foi então que lembrei que provavelmente tinha deixado minha garrafa dentro da mochila

 

“Que ótimo...”

 

Me levantei devagar para não pisar em ninguém e caminhei até o armário do quarto. A porta de correr rangia um pouco, então tentei abri-la com o máximo de cuidado possível

 

Shhhk

 

Acho que consegui fazer pouco barulho. Pelo menos ninguém pareceu acordar.cNo entanto, quando abri o armário, percebi um problema muito maior

 

As mochilas estavam empilhadas umas sobre as outras de qualquer jeito, junto de roupas, toalhas e uniformes jogados sem organização nenhuma

 

Parecia que aqueles animais simplesmente tinham arremessado tudo ali dentro antes de dormir

 

“Que chiqueiro...”

 

Fiquei encarando aquilo por alguns segundos, tentando descobrir onde exatamente minha mochila poderia estar escondida naquela montanha de bagunça

 

Desisti quase imediatamente. Se começasse a mexer ali agora, provavelmente derrubaria metade das coisas no chão e acordaria alguém. E sinceramente... eu não estava com paciência para ouvir reclamações no meio da madrugada

 

Fechei o armário devagar mais uma vez. Foi então que me lembrei do bebedouro próximo da recepção. Já era tarde, então provavelmente não haveria ninguém acordado por lá. Além disso, sair rapidamente apenas para beber água não parecia algo tão problemático assim

 

...Provavelmente

 

Me levantei devagar e caminhei até a porta de correr do quarto. Mais uma vez, precisei tomar cuidado para não fazer muito barulho

 

Shhhk

 

Abri apenas o suficiente para espiar o corredor

Foi então que percebi Yoshiko-sensei sentada do lado de fora do quarto, aparentemente nos vigiando. Ou pelo menos tentando

 

Sua cabeça pendia levemente para o lado enquanto ela dormia profundamente na cadeira. Um ronco baixo escapava de tempos em tempos, acompanhado por um pequeno fio de baba escorrendo pelo canto de sua boca

 

“Essa aí é um caso perdido...”

 

Fechei a porta com cuidado e atravessei o corredor o mais silenciosamente possível

O piso de madeira fazia pequenos estalos sob meus pés enquanto eu caminhava em direção à recepção. 

 

A pousada parecia completamente diferente durante a madrugada. Sem as vozes dos alunos e turistas, tudo parecia silencioso demais. A iluminação amarelada deixava o ambiente estranhamente aconchegante

 

Quando cheguei à recepção, percebi que a funcionária ainda estava lá. Diferente de algumas horas atrás, ela parecia bem acordada agora

 

Por um instante, pensei que ela fosse me repreender ou mandar voltar imediatamente para o quarto. Mas ela apenas olhou para mim por alguns segundos... e então fingiu que eu nem existia

 

Aquilo me surpreendeu um pouco. Talvez ela já estivesse acostumada com estudantes escapando dos quartos durante viagens escolares. Ou talvez simplesmente não fosse paga o suficiente para se importar

 

De qualquer forma, era melhor para mim

O bebedouro ficava logo ao lado do balcão. Peguei um dos copos descartáveis e pressionei o botão

 

Zzgh...

 

A água gelada começou a cair no copo

Levei imediatamente até a boca

 

— Ah...

 

A água estava fria e incrivelmente refrescante. Muito melhor do que eu esperava. Acabei bebendo um segundo copo também

 

Quando finalmente matei a sede, joguei o copo fora e comecei a caminhar de volta para o quarto

 

O ambiente noturno da pousada era surpreendentemente tranquilo

 

Sem os alunos correndo pelos corredores ou conversando alto, o lugar parecia completamente diferente do que durante o dia. A iluminação suave da lua refletia sobre a madeira escura da construção enquanto o jardim ao redor balançava calmamente com o vento da madrugada

 

O som distante da água correndo em algum lugar da pousada, somado ao canto baixo dos insetos noturnos, criava uma atmosfera quase hipnotizante

 

Aquele silêncio era estranhamente confortável

O vento fresco tocou meu rosto mais uma vez, aliviando o calor abafado que ainda parecia grudado no meu corpo desde que acordei

 

Sendo bem sincero... naquele momento eu não tinha vontade alguma de voltar para aquele quarto quente, apertado e caótico. Suspirei devagar enquanto observava o jardim iluminado pela luz fraca das lanternas

 

Então, como tudo parecia vazio e ninguém aparentava estar acordado, decidi caminhar um pouco pela pousada. Apenas para aproveitar a madrugada em Kyoto

“...Isso provavelmente conta como experiência turística, não?”

 

Era surpreendentemente agradável

 

A única coisa realmente incômoda era o yukata. O ryokan havia disponibilizado as roupas mais cedo, antes de irmos dormir

 

Pedi ajuda para Yuji na hora de vestir o meu, mas acho que ele tinha tanta experiência nisso quanto eu. Ou seja: praticamente nenhuma

 

O tecido parecia solto demais em alguns lugares e apertado demais em outros. Além disso, eu ainda não conseguia me acostumar com a sensação das mangas largas balançando toda vez que eu andava

 

Talvez fosse apenas questão de costume. Enquanto caminhava lentamente pelo corredor de madeira da pousada, observando o jardim iluminado pela luz suave das lanternas, notei que eu aparentemente não era o único incapaz de dormir naquela noite

 

Sentada próxima à varanda, uma garota aproveitava o silêncio da madrugada para ler um livro. Ou pelo menos, era o que parecia

 

A iluminação fraca da pousada revelava parcialmente sua silhueta enquanto ela permanecia completamente imóvel, sentada sobre o piso de madeira com as pernas recolhidas

 

No entanto, algo chamou minha atenção quase imediatamente. Ela não parecia olhar diretamente para as páginas. Em vez disso, seus dedos deslizavam lentamente sobre o papel, tateando cada linha com extremo cuidado

 

— [...]

 

Sem perceber, acabei diminuindo meus passos

Talvez por curiosidade. Talvez porque aquela cena tivesse algo estranhamente hipnotizante.

 

Quando fui notar... já estava parado ao lado dela

 

— Uhm... quem está aí? — perguntou a garota ao perceber o som dos meus passos contra o piso de madeira

 

— Adivinha. Seu kouhai favorito

 

— Ryoichi-kun? — Natsuki soltou uma pequena risada. — E quando foi que eu disse que você é meu favorito?

 

— Não precisa dizer — respondi, brincando. — Eu já sei disso.

 

Minha senpai pareceu genuinamente feliz com minha presença. Mesmo sem conseguir me ver, o pequeno sorriso em seu rosto deixava isso claro

 

Por algum motivo... aquilo me fez relaxar um pouco também

 

— Então... eu posso me sentar aqui? Ao seu lado? Não estou conseguindo dormir

 

— À vontade. — Disse ela, afastando um pouco o livro com cuidado. — Essa noite parece especialmente agradável

 

O vento da madrugada atravessava calmamente a varanda da pousada, fazendo as árvores do jardim balançarem suavemente enquanto o som distante da água ecoava ao fundo

 

Natsuki levantou levemente o rosto em direção ao céu

 

— Me pergunto... a lua está bonita hoje?

 

No instante em que aquelas palavras deixaram seus lábios, a brisa suave atravessou a varanda da pousada, balançando delicadamente seus longos cabelos loiros

 

A luz prateada do luar iluminava seu rosto delicadamente, destacando cada detalhe de sua expressão serena

 

Foi uma das poucas vezes em que vi Natsuki manter seus olhos azulados parcialmente abertos. Mesmo ofuscados e sem foco, eles refletiam vagamente o brilho da lua acima de nós

 

Por um momento, acabei apenas olhando para ela

 

Seus lábios permaneciam levemente entreabertos enquanto algumas mechas de cabelo dançavam diante de seu rosto. As bochechas suavemente coradas pelo frio da madrugada só a deixavam ainda mais bonita

Tão bonita que, por alguns segundos, minha mente simplesmente ficou vazia

 

Então desviei o olhar para o céu

 

— Sim... está linda.

 

Minha senpai estava diferente do habitual

 

Não apenas pelo ambiente calmo da noitinha ou pela maneira mais tranquila como falava comigo. Ela parecia mais suave

 

Natsuki também usava um yukata, assim como eu. O tecido claro combinava surpreendentemente bem com ela, dando um ar ainda mais delicado à sua aparência

 

Sentada próxima à varanda, suas pernas ocasionalmente escapavam discretamente pela abertura do yukata enquanto ela as balançava devagar para frente e para trás — Como uma criança

 

— Senpai, eu não imaginava que você gostava tanto de ler

 

— Ah, sim. Eu gosto bastante. Não tanto quanto Haruka-chan, no entanto... mas eu gosto da imersão do mundo dos livros — Disse, Natsuki-senpai. — Usando meu tato e imaginação, eu consigo visualizar coisas que normalmente não conseguiria

 

Natsuki então abriu cuidadosamente o livro que mantinha sobre o colo, inclinando-o levemente na minha direção como se quisesse me mostrar.

Foi a primeira vez que vi um livro em braile de perto

 

Não havia letras. Nem imagens. Nem qualquer coisa parecida com um livro comum.

As páginas eram preenchidas apenas por inúmeros pequenos pontos em relevo, organizados em padrões que, para mim, pareciam completamente aleatórios

 

— [...]

 

Por instinto, aproximei um pouco o rosto, tentando entender como aquilo podia realmente formar palavras

 

Era estranho pensar que, enquanto eu enxergava apenas pontos sem sentido... para Natsuki aquilo era uma história inteira

 

— Impressionante... — murmurei sem perceber

Natsuki sorriu discretamente ao notar minha reação

 

— Ha...ha... normalmente essa é a parte em que as pessoas ficam assustadas ou confusas

Seus dedos então deslizaram suavemente sobre a página com extrema naturalidade

 

Como se ela estivesse realmente lendo cada linha naquele instante

 

— Que incrível... isso até parece mágica

 

— Haha! — Natsuki riu baixinho. — Eu sempre acho engraçado como as pessoas reagem assim quando veem um livro em braile pela primeira vez. Eu sempre penso: “Ué? Mas eu estou apenas lendo. O que tem de tão impressionante nisso?” É algo tão normal para mim...

 

— Eu imagino. Mas é que realmente é muito diferente pra mim. Tipo... como isso funciona exatamente?

 

Me aproximei um pouco mais do livro, encarando aqueles inúmeros pontos em relevo espalhados pela página

 

— Você passa os dedos por um grupo de pontos e forma uma frase? Cada ponto é uma palavra? Eu realmente não consigo entender...

 

— Hm... — Natsuki levou o dedo indicador até a página. — Cada conjunto desses pontinhos representa uma letra. Dependendo da combinação e da posição deles, formamos palavras e frases inteiras

 

— Então você literalmente lê tocando?

 

— Sim. — respondeu ela com naturalidade. — Afinal, esse é o único jeito que eu conheço de ler desde criança

 

Seus dedos deslizaram mais uma vez pela página com extrema delicadeza. Era estranho observar aquilo tão de perto. Para mim, aqueles pontos pareciam completamente aleatórios. Mas para ela, eram palavras, emoções, histórias e personagens

 

— Isso é absurdo... — murmurei sem pensar. — Humanos realmente conseguem se adaptar a qualquer coisa, huh...

 

Natsuki sorriu de leve ao ouvir meu comentário

 

— Talvez. Ou talvez nós apenas aprendamos a viver apenas no nosso próprio mundo.

 

— [...]

 

— Eu posso tentar? Ver o seu mundo?

 

— Hã? Claro...

 

Natsuki pareceu levemente surpresa com o pedido, mas logo estendeu o livro cuidadosamente em minha direção

 

Peguei o braile com ambas as mãos, tentando não amassar as páginas. Por alguns segundos, fiquei apenas encarando aqueles pequenos pontos em relevo

 

Então fechei os olhos. E deslizei lentamente os dedos sobre a página, tentando imaginar como aquilo podia realmente se transformar em palavras dentro da mente dela.

 

Mas, não importava o quanto eu tentasse

Eu não conseguia entender absolutamente nada

Os pontos pareciam... apenas pontos. Sem significado. Sem forma. Sem sentido algum

 

— É... eu não consigo entender nada

 

Natsuki soltou uma pequena risada abafada

 

— Hihi... tudo bem

 

Ela apoiou calmamente as mãos sobre o colo antes de continuar

 

— Na verdade... eu fiquei feliz que você tentou

 

— Feliz?

 

— Sim. A maioria das pessoas apenas olha e diz “uau” antes de perder o interesse alguns segundos depois

 

O vento da madrugada atravessou silenciosamente a varanda mais uma vez enquanto ela continuava falando em um tom calmo

 

— Mas você tentou entender como eu enxergo o mundo. Mesmo que só um pouquinho

 

— [...]

 

— Isso me deixou feliz

 

Natsuki permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se pensasse cuidadosamente sobre alguma coisa

 

Então, inclinou levemente a cabeça antes de perguntar:

 

— Mas... por que você fez isso? Você nunca pareceu alguém tão apaixonado por livros

 

A resposta surgiu na minha mente quase imediatamente

 

— É porque... eu tenho interesse no seu mundo

 

— H-hã...?

 

Natsuki pareceu congelar por um instante. Seus lábios se entreabriram levemente enquanto sua expressão normalmente tão controlada vacilava diante daquelas palavras

 

Mesmo sob a iluminação suave da madrugada, dava para perceber suas bochechas adquirindo um tom avermelhado

 

— Senpai? Você está bem? Seu rosto está um pouco vermelho... você está resfriada?

 

— A-ah... r-resfriada...? — Natsuki desviou levemente o rosto. — S-será...?

 

Ela levou uma das mãos até a própria bochecha, claramente tentando disfarçar o constrangimento

 

O mais estranho era que eu realmente não entendia o motivo da reação dela

 

— Está calor? Talvez seja o yukata?

 

— N-não! Quer dizer... talvez um pouco...

 

Natsuki tossiu baixinho, tentando recuperar a compostura enquanto apertava o livro contra o colo

 

— Você realmente diz coisas estranhas às vezes, Ryoichi-kun...

 

— Estranhas? O que eu falei?

 

— N-nada! Esquece isso!

 

Minha senpai ainda parecia estranhamente abalada depois da conversa anterior. No entanto, aquele não era o único assunto que eu queria tratar naquela noite

 

Respirei fundo antes de abrir a boca

— Sen-

 

— Você já tomou... sua decisão? — Natsuki interrompeu antes mesmo que eu continuasse

 

— [...]

 

Por alguns segundos, fiquei em silêncio

 

— Sim. Era justamente sobre isso que eu queria falar

 

— Eu entendo...

 

A voz dela soou baixa

 

Foi então que percebi um pequeno detalhe

Natsuki mexia inquietamente as mãos sobre o colo, entrelaçando os dedos e logo depois os soltando de novo. Ela parecia nervosa. Aquilo era raro

 

— Me desculpe... — murmurei

 

— Não. — Natsuki respondeu imediatamente. — Você não precisa pedir desculpas

 

Ela abaixou levemente o rosto enquanto apertava o livro contra o peito

 

— Você nunca quis entrar nesse clube em primeiro lugar. Ninguém deveria ser forçado a permanecer em um lugar onde não quer estar. Não importa qual sej-

 

— ...Sim. Me desculpe. — interrompi calmamente. — Mas eu não vou deixar você fazer tudo sozinha

 

— O quê...?

 

Natsuki levantou o rosto rapidamente em minha direção

 

— Quando você disse que faria tudo sozinha... alguma coisa em mim ficou incomodada

 

Apoiei os braços sobre os joelhos enquanto encarava o jardim silencioso à nossa frente

 

— Afinal, nós dois somos membros do mesmo clube. E essa missão foi encarregada para nós dois

 

O vento atravessou lentamente a varanda enquanto eu continuava falando

 

— Porém... quando você disse que eu podia abandonar o clube...

 

Minha voz vacilou um pouco

 

— Aquilo mexeu comigo mais do que eu esperava

 

Fechei os olhos por um instante antes de continuar

 

— Porque era exatamente isso que eu queria desde o começo. O que eu achei que precisaria conquistar com esforço simplesmente... foi colocado na minha frente de graça

 

— [...]

 

— E mesmo assim... eu não consegui dizer “sim”

 

O som distante dos insetos preenchia o silêncio entre nós enquanto eu encarava o jardim iluminado pela lua

 

— Então comecei a me perguntar o motivo disso...

 

Apertei levemente minhas próprias mãos antes de continuar

 

— ...E foi aí que percebi uma coisa

 

Soltei uma pequena risada nasal, quase debochada de mim mesmo

 

— No fim... eu sou um grande egoísta

 

Natsuki permaneceu completamente em silêncio, apenas me ouvindo

 

— Eu não consigo me sentir satisfeito enquanto as coisas não acontecem do jeito que eu quero. E mesmo quando tudo dá errado... eu continuo tentando forçar a situação até conseguir alcançar aquilo que decidi

 

— Ryoichi-kun...

 

Desviei o olhar para o céu noturno por alguns segundos

 

— Então não se engane. Eu ainda quero sair desse clube

 

O vento balançou lentamente as mangas do meu yukata enquanto eu continuava

 

— Mas eu vou sair do meu jeito

 

Minha voz saiu mais firme daquela vez

 

— Vou jogar o jogo da Yoshiko-sensei até o fim. Vou cumprir qualquer missão ridícula que esse clube colocar na minha frente

 

Fechei os olhos por um instante antes de concluir:

 

— E depois disso... eu vou embora tendo certeza de que consegui. Sem fugir no meio do caminho — Disse, sorrindo. — Isso me parece bom não é?

 

Natsuki permaneceu em silêncio por alguns segundos após ouvir minha resposta. Ela parecia refletir cuidadosamente sobre cada palavra que eu havia dito. Então, soltou um pequeno suspiro

 

— Ryoichi-kun... eu fico feliz em ouvir isso

 

Sua voz era calma. Calma até demais

 

— Mas... eu também estou um pouco decepcionada

 

— Hã...?

 

A expressão dela não mudou. Ainda assim, havia algo pesado escondido em sua voz

 

— Eu achei que, de todas as pessoas... você entenderia

 

O vento atravessou silenciosamente a varanda enquanto Natsuki abaixava o olhar para as próprias mãos

 

— Isso já deixou de ser apenas sobre cumprir um pedido faz muito tempo

 

Seus dedos apertaram discretamente o tecido do yukata sobre o colo

 

— Desde que eu nasci... as pessoas sempre me trataram de forma diferente. Como se eu fosse feita de cristal

 

Sua voz permanecia estável. Mas cada palavra parecia carregar anos inteiros de frustração

 

— Mesmo agora... eu continuo dependendo dos outros para quase tudo

 

Ela soltou uma pequena risada sem humor

 

— Se eu esquecesse minha bengala em algum lugar, provavelmente nem conseguiria voltar sozinha

 

— Senpai...

 

— Isso é tão frustrante, Ryoichi-kun

 

Pela primeira vez naquela noite, sua voz vacilou um pouco

 

— Porque, no fim... é como se eu nunca pudesse ser considerada normal

 

Por alguns segundos, o jardim voltou a ficar silencioso

 

— O que diabos você está dizendo? Isso nem parece você mesma. — respondi imediatamente. — Desde quando você precisa de uma bengala para sustentar seus próprios pensamentos?

 

— Ryoichi...kun...

 

Natsuki pareceu perder as palavras por um instante. Mas eu continuei antes que ela pudesse responder

 

— Não deixe que as palavras daquelas pessoas te atinjam agora

 

Minha voz saiu mais firme do que eu esperava

 

— Todos nós precisamos de algum tipo de apoio

 

O vento da madrugada atravessava silenciosamente a varanda enquanto eu olhava diretamente para ela

 

— Você é a vice-presidente do Clube de Amigos. Mesmo sendo tratada de maneira diferente a vida inteira... você continua apoiando os outros

 

Natsuki abaixou lentamente o olhar

 

— Mesmo depois de Naomi-san agir daquela forma, você tentou entender os sentimentos dela. Continuou pensando nela mesmo sem ganhar nada em troca. 

 

— [...]

 

— Mesmo com a presidente e a Yoshiko-sensei sendo pessoas extremamente complicadas... você continua sustentando aquele clube praticamente sozinha todos os dias

 

Soltei uma pequena risada nasal

 

— Sinceramente? Sem você ali, eu acho que aqueles membros já teriam se matado em uma semana

 

— Sniff... hihi... t-talvez...

 

A pequena risada dela saiu misturada com a voz tremida

 

— E mesmo depois do que aconteceu no meu primeiro dia... quando eu praticamente causei um desastre na frente de todo mundo...

 

Desviei o olhar por um instante antes de continuar

 

— Você continuou me tratando bem

 

Minha voz acabou ficando mais baixa

 

— Eu sei que, mesmo se eu decidisse abandonar o clube... você ainda me apoiaria

 

— Ngh...

 

Os dedos de Natsuki apertaram o tecido do próprio yukata enquanto ela tentava segurar as lágrimas

 

— Você está me apoiando até agora

 

O silêncio tomou conta da varanda por alguns segundos. Então me aproximei um pouco mais dela

 

— Então, senpai...

 

Natsuki lentamente levantou o rosto em minha direção

 

— Você que passou a vida inteira apoiando os outros...

 

Respirei fundo e em um movimento peguei as mãos trêmulas de minha senpai

 

— Me deixe te apoiar agora!

 

— [...]

 

Natsuki-senpai esfregou os próprios olhos com as mangas do yukata. Depois de alguns segundos, respirou fundo e pareceu recuperar a compostura

 

— Nossa... que kouhai problemático eu tenho... fazendo uma garota chorar assim...

 

— Ah! M-me desculpe! Eu n-

 

— B-bem... se for assim... acho que eu não posso te deixar sozinho...

 

— Senpai...

 

— Então... por favor, continue me apoiando daqui pra frente

 

— S-sim! Eu vou!

 

Ao ouvir aquilo, senti meu peito finalmente aliviar um pouco. Parecia que, depois de tanta confusão, nós finalmente havíamos chegado a algum entendimento

 

Talvez já fosse hora de voltar para o quarto.

No entanto—

 

— Ryoichi-kun... eu posso te pedir uma coisa?

 

— Sim. Claro. O que foi?

 

Natsuki abaixou levemente o rosto. Seus dedos brincavam nervosamente com a ponta do próprio yukata

 

— Na verdade... tem uma coisa que eu queria fazer desde antes...

 

— O quê?

 

— Você... poderia me deixar tocar o seu rosto?

 

— H-hã?! C-como assim?!

 

— É que eu realmente... quero ver você. Por favor.

 

Meu coração pareceu errar uma batida. Mesmo tentando manter a calma, senti meu rosto esquentar imediatamente

 

— E-entendi... acho que não tem jeito então...

 

Sem saber exatamente como reagir, apenas me virei em direção a ela

 

A luz do luar banhava silenciosamente o rosto de Natsuki-senpai. Seus cabelos loiros balançavam junto ao vento frio, enquanto seus olhos azulados refletiam o brilho pálido da lua. Ela estava linda. Lentamente, minha senpai levantou os braços em minha direção

 

Por reflexo, fechei os olhos. Então, senti suas mãos tocarem meu rosto. Seu toque era cuidadoso e preciso. Mas, acima de tudo... incrivelmente gentil

 

As pontas de seus dedos deslizaram devagar pelas laterais da minha face antes de alcançarem minhas maçãs do rosto. A palma quente de sua mão repousou contra minha pele enquanto seus polegares desciam lentamente até meu queixo. Sem pressa. Como se tentasse memorizar cada detalhe

 

Ela tocou meu nariz usando apenas alguns dedos. O leve roçar arrancou um pequeno arrepio de mim, provavelmente porque fazia cócegas. Natsuki pareceu perceber isso, já que soltou uma risadinha tímida logo em seguida

Com cuidado, seus dedos subiram novamente.

Ela deslizou pelas minhas sobrancelhas, tocou minhas pálpebras fechadas e afastou minha franja da testa

Então, suas mãos passaram pelos meus cabelos. Devagar. Sentindo os fios entre os dedos até alcançar minha nuca. Por alguns instantes, apenas o som do vento preenchia o silêncio entre nós.

 

Achei que ela tivesse terminado. No entanto, como se tivesse se lembrado de algo importante, Natsuki suspirou baixinho. Uma de suas mãos permaneceu apoiada contra o lado do meu rosto.

 

Então, usando apenas o polegar, ela tocou meus lábios. Meu corpo inteiro pareceu congelar. Eu conseguia sentir meu rosto queimando de vergonha. E, pela leve curvatura no sorriso de Natsuki-senpai, tive a sensação de que ela sabia exatamente disso

 

— Sim...

Sua voz saiu baixa. Quase como um sussurro levado pelo vento da noite

 

—...Você é lindo.

 

Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários 

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