Volume 2

Capítulo 10: Você Pode Confiar Em Mim?

Já era fim de tarde quando decidi caminhar um pouco pelos arredores. O clima estava abafado, mas o ar não era seco. Como não havia nenhum professor por perto — afinal, ainda estávamos em nosso horário livre — decidi desabotoar alguns botões da camisa. Aproveitei também para afrouxar a gravata, que já estava quase me sufocando.

Acabei me separando um pouco de Yuji e Natsuki. Minha senpai disse que precisava fazer aquilo sozinha. Obviamente, não concordamos, mas não era como se pudéssemos mudar sua decisão. Além disso, tanto eu quanto Yuji percebíamos claramente o quanto ela estava abalada com o resultado que obtivemos


Ela estava tão ansiosa por essa viagem. Tão feliz por finalmente trabalharmos juntos pela primeira vez. No entanto, tudo acabou desandando de uma forma que nenhum de nós esperava. Acho que Natsuki finalmente percebeu também que, diferente dela e de Yuji, eu não estava tão animado quanto eles.

— Mas, senpai... nós prometemos fazer isso juntos! Somos um time, não somos? — Yuji tentou protestar. — Não é justo que você tenha que fazer isso sozinha.

— Eu disse. Mas a situação mudou. Eu tenho que fazer isso por mim mesma

— Por você? E desde quando você tem algo haver com isso? — Perguntei, frustrado. — Você não se lembra como Naomi-san te tratou mais cedo, senpai? 

— Ryoichi-kun... isso é irrelevante. Eu entendo que você possa estar frustrado, mas eu... não posso me levar pelas emoções

— Eu só acho que isso não é mais problema nosso. Não é como se houvesse mais alguma chance de nos intrometermos nisso

— E não é mesmo. Pelo menos, não de vocês dois. Vocês podem aproveitar a viagem como alunos normais do segundo ano. Não precisam mais agir como membros do clube, por agora. Eu farei isso sozinha

— Você? Pelo amor de Deus... Me diga como, pelo menos? Você sabe que é impossível que você consiga fazer algo sozinha! Sem qualquer ajuda!

Natsuki-senpai pareceu pensar sobre o que eu disse por alguns segundos. Então, ela se virou de costas para mim e para Yuji, e com o apoio de sua bengala começou a caminhar calmamente em direção a saída

Fiquei um pouco receoso sobre como minha senpai conseguiria se guiar em um lugar totalmente diferente. Mesmo estando acostumada com sua condição, ela não estava em Kitakyushu, mas em Kyoto.

Entretanto, era óbvio, tanto para mim quanto para Yuji, que aquele era o pior momento possível para demonstrar preocupação

Eu também já estava cansado de toda aquela confusão. Por mais que entendesse os sentimentos da minha senpai, acreditava estar tomando a decisão correta.

Afinal, eu não estava apenas tentando protegê-la, mas também o clube. Se continuássemos com aquele plano, acreditava que, além de alcançarmos um resultado ainda pior, correríamos o risco de sofrer ainda mais preconceito.

Tudo poderia acabar tomando um rumo trágico caso fôssemos descobertos. Eu sei que ela tem orgulho de si mesma como veterana, e até certo ponto respeito isso. No entanto, acredito que ela também precise pensar nas consequências caso continue agindo daquela forma

Eu decidi que deveria sair daqui o mais rápido possivel. Por isso, fazer essas tarefas como membro do clube me levam mais perto disso. Estou tentando cumprir minha promessa com Yoshiko-sensei e sumir desse inferno antes que me descubram

Decidi que precisava sair daqui o mais rápido possível. Por isso, cumprir essas tarefas como membro do clube me aproxima cada vez mais desse objetivo. Estou apenas tentando cumprir minha promessa com Yoshiko-sensei e desaparecer deste inferno antes que descubram quem eu realmente sou.

Entretanto, já fazia algum tempo que eu vinha me sentindo estranho em relação a tudo aquilo...como se meu peito ficasse inquieto sempre que pensava nisso.


Eu não odeio as pessoas deste clube. Também não sinto qualquer rancor delas — mesmo que minha primeira impressão tenha sido terrível e eu provavelmente também não tenha causado uma boa impressão nos outros membros.
Eu não odeio os membros. Odeio o próprio Clube de Amigos. Entendo que este lugar tenha sido criado com um propósito belo e genuinamente positivo. Mas aquilo que, para eles, representa libertação... para mim sempre foi uma prisão

Porém, o que mais me assusta... é perceber que essa gaiola vem se tornando um pouco mais confortável todo dia

 

***

 

Enquanto caminhava, notei uma garota parada na fila de uma barraca. Seus cabelos alaranjados combinavam bem com a luz da tardezinha que começava a desaparecer

Ela parecia prestes a pedir alguma coisa. Mesmo de longe, dava para perceber que era uma barraquinha de doces — algo extremamente comum em Kyoto

Entretanto, comecei a me perguntar onde estavam as outras garotas do grupo. Nenhuma delas parecia estar por perto. Isso provavelmente significava que deveriam estar em algum lugar com Naomi. Talvez simplesmente tenham se separado dela... ou a deixado para trás.
De qualquer forma, Rina provavelmente estava interessada em experimentar algum doce local. Kyoto é cheia dessas pequenas barracas vendendo wagashi, dango e outras guloseimas tradicionais para turistas

Rina-san parecia inquieta

Mexia as mãos o tempo todo, enquanto mantinha uma expressão claramente aflita no rosto.

“Oh... é claro...”

Rina-san não parecia ter dificuldades para se relacionar com as pessoas na escola. Porém, aquele era um ambiente completamente diferente.

Ela sempre estava cercada por alguém — o presidente, suas amigas, colegas de classe...
Mas agora estava sozinha. Enquanto eu raciocinava, finalmente chegou a vez de Rina. A atendente, que parecia extremamente extrovertida e animada, se virou para a tímida garota.

— E então, mocinha? O que vai querer?

— [...]

A atendente pareceu confusa com a situação, já que a cliente à sua frente não dizia absolutamente nada. Não demorou mais que alguns segundos para que ela começasse a atrair a atenção das pessoas na fila.

— Hm? O que foi? Você vai pedir alguma coisa? — perguntou, agora em voz mais alta. — Moça, eu não tenho o dia todo...

— [...]

“Droga!”

Rina pareceu se encolher, como se estivesse morrendo de medo. Acabei demorando demais para agir, surpreso com a situação.
Mas ela precisa de mim!

— Ri-

— [!!!]

Tap

Antes que aquilo se tornasse algo maior, Rina apontou para um dos doces no panfleto da barraca. Era um dos famosos dangos locais.
Rina sorriu enquanto apontava diretamente para o doce.

— Oh! Então você quer um dango? É assim que se fala! — exclamou a senhora, parecendo muito animada. — Um dango saindo para a senhorita! — gritou para o que eu suponho ser seu marido.

“...”

“Talvez eu tenha pensado demais.”

***

A Ponte Togetsukyo era praticamente o símbolo de Arashiyama. A velha estrutura de madeira atravessava o rio Katsura diante das montanhas, criando uma paisagem tão bonita que parecia saída de um filme histórico

Não era difícil entender por que aquele lugar atraía tantos turistas durante a primavera e o outono. Mesmo agora, com o movimento mais tranquilo do fim de tarde, ainda havia pessoas paradas apenas observando a vista

Yuji havia comentado mais cedo sobre um ritual tradicional realizado ali. Crianças da região recebiam uma bênção em um templo próximo antes de atravessar a ponte sem olhar para trás 

Diziam que quebrar essa regra trazia azar.
Honestamente... parecia o tipo de superstição antiga que Kyoto adorava manter viva

Construída originalmente no século IX, a Ponte Togetsukyo oferecia vistas panorâmicas deslumbrantes, especialmente durante a primavera e o outono, quando as cerejeiras floresciam ou as folhas tingiam as montanhas com cores vibrantes

Era um lugar que aparentava receber inúmeros visitantes todos os dias. Entretanto, naquele fim de tarde, o movimento parecia surpreendentemente tranquilo

O sol começava a desaparecer no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados que anunciavam o fim do dia. Era uma paisagem belíssima. O tipo de visão que fazia todo o cansaço daquela viagem parecer valer a pena.

Mas o que mais chamou minha atenção não foi o sol se despedindo. Também não foi a vista do rio Katsura ou do monte Arashiyama ao fundo.

Não. Nada daquilo.

A coisa mais bonita diante dos meus olhos era uma garota

Ela estava apoiada na ponte, aparentemente aproveitando o silêncio do lugar. O brilho alaranjado do pôr do sol iluminava seus longos cabelos loiros, que balançavam suavemente ao vento

Mesmo que sua postura parecesse tão elegante, não havia qualquer sorriso em seu rosto.
Sua expressão era distante. Fria. Como se estivesse perdida nos próprios pensamentos

— Aproveitando a vista? 

— Hum... bela piada, Ryoichi-kun

— Como você sabia que era eu?

— E quem seria se não você? 

Natsuki-senpai apoiava silenciosamente sua bengala contra a ponte enquanto o vento atravessava seus longos cabelos

Era difícil dizer o que ela estava pensando. Ela sempre parecera distante para mim

Mas, naquele instante, tive a sensação de que sua mente estava em algum lugar muito além dali

Um lugar onde eu não conseguia alcançá-la

— Senpai... por que você não—

— Simplesmente desiste? — perguntou Natsuki-senpai, como se tivesse lido meus pensamentos.

— [...]

Eu não conseguia entendê-la. No fim, aquilo era apenas um trabalho do clube. Ela não precisava se envolver tanto assim

Ainda assim, mesmo não a conhecendo há tanto tempo, eu conseguia perceber o quanto ela parecia triste

— Ryoichi-kun... vou lhe dizer a verdade. Seria muito fácil para mim simplesmente desistir agora. Pedir para nossa sensei reavaliar o pedido de Naomi-chan. Acredito que nosso clube não seria afetado de maneira alguma...

— Então... por quê?

Natsuki-senpai permaneceu em silêncio por alguns segundos enquanto o vento atravessava a ponte

— Ryoichi-kun... você me acha inútil?

— Não! De maneira nenhuma! — exclamei imediatamente. — Eu realmente te acho incrível, senpai. Eu te admiro!

— Então por que você disse que é impossível?

— [...]

— É porque eu sou cega?

— É claro que n-

— Ryoichi-kun. — Natsuki disse seriamente. Sua voz não foi tão alta, mas foi forte o suficiente para me calar imediatamente. — Mesmo não enxergando, tem coisas que você não pode esconder. Mesmo de mim.

Por alguns segundos, nós dois nos calamos. O barulho do forte vento era a única que se podia ouvir. E nenhum de nós parecia corajoso o suficiente para quebrar o silêncio

Fuuush

— Ryoichi-kun. 

— Sim?

— Você se lembra do que conversamos? No ônibus... sobre apenas nós três estarmos participando como membros do Clube de Amigos

— Isso...

 

***

 

Natsuki-senpai se ajeitava na sua poltrona. Ela parecia se preparar para dormir. No entanto, eu não conseguia relaxar

Das quatro poltronas disponíveis, três estavam realmente ocupadas. A quarta poltrona estava apenas cheia das coisas de Yuji, que usava aquilo despreocupadamente como uma espécia de bagageiro pessoal

Por algum motivo, eu não conseguia me desprender meus olhos daquela poltrona. E me peguei pensando naquilo...

— Senpai?

— Hã? — Natsuki-senpai pareceu ter tomado um pequeno susto com a conversa repentina. Ela provavelmente já estava adormecendo. — Sim... Ryoichi-kun? O que foi? 

— Você disse para mim que apenas nós dois participariamos dessa viagem...

— N-nó...

— [!!!]

—...N-nós... tr...ê...s... 

Aquele idiota do Yuji estava falando sonhando. Ele deu um belo susto em nós

Natsuki, no entanto, respondeu com um sorriso

— Sim. É verdade. Antes da chegada de Yuji-kun, o previsto é que apenas nós dois fariamos parte dessa missão

— Você pode me dizer o porquê?

— Hum... eu acho que o principal eu já... disse — Murmurou, Natsuki-senpai. Com uma voz sonolenta. — É sua primeira missão. Então, nós apenas escolhemos essa a dedo. É uma missão simples, então não precisamos de tantas pessoas. Chamar as... garotas do 1° ano estava fora de questão... e Rina-chan... já está ocupada demais... com o conselho estudantil

— Eu entendo. Mas... 

— Sim... o que foi?

Eu me perguntava enquanto olhava para o assento disponível

— Por que a presidente não veio...?

— Senpai?
 
Zzzzzz

A resposta nunca veio

***

— Você...

— Eu te enganei — Assumiu, Natsuki-senpai. — Eu não adormeci, Ryoichi-kun. Eu usei minha condição para não te responder. Eu sou terrível, não sou? 

— Por que você fez isso? Eu não consigo entender... O que você não quer que eu saiba? 

Aquela viagem me apresentou coisas que eu jamais poderia imaginar sobre minha senpai. Que ela poderia se sentir nervosa, que ela poderia sentir orgulhosa... que ela poderia mentir

Talvez, eu não a conhecesse tão bem quanto eu imaginava

— Ryoichi-kun. Se eu disesse que Haruka-chan, não veio porque seria muito desgastate para ela, devido a cadeira de rodas... você acreditaria?

— Não muito — Respondi, depois de raciocinar por alguns segundos. — Nossa escola é muito inclusiva. Acredito que se ela realmente viesseN eles fariam de tudo para ela se sentir confortável. Além disso, a presidente não é a única que usa cadeiras de rodas nessa escola

— Bingo! Acho que são 50 pontos pra você, Ryoichi-kun... — Disse, minha senpai. Mesmo que me felicitasse, sua voz não era tão animada. — Nossa sensei realmente está certa sobre você

Natsuki então se voltou para minha direção. Ela descansava suas costas no parapeito da ponte. E então, pegou sua bengala e começou a pressionar sobre a velha madeira

— Sua intuição estava correta. Diferente das outras garotas, em uma situação normal, nada impediria que Haruka-chan viesse nessa viagem. Na verdade, acredito que como é sua primeira missão, como presidente sua obrigação era estar aqui, te orientando

Isso era, na verdade, bem óbvio. Olhando com mais calma agora, era fácil perceber que havia alguma coisa estranha nisso tudo. Eu nunca fiz parte de um clube, mas acho difícil Natsuki-senpai como vice-presidente ter que assumir uma situação como essa, sem algum motivo válido

A presidente que deveria estar liderando agora. Mas, era Natsuki-senpai que estava fazendo isso no lugar dela

Eu poderia pensar que Natsuki apenas assumiu a frente das coisas devido a personalidade da presidente. Ou porque ela apenas não quis fazer esse trabalho, porque não tinha vontade. Mas eu acho isso um argumento muito frívolo

Era como se existisse algo atrás de tudo ali. Como se tudo tivesse sido orquestrado para que eu não suspeitasse

— Então, por que ela não está aqui? Se ela não tem motivo algum, então não deveria estar agora cumprindo seu papel como presidente?

— [...]

— Ela está. Agora mesmo.

— Hã?

Natsuki mantinha seu olhar em direção ao seus pés até aquele momento. Porém, ela não levantava sua cabeça. Seu rosto estava na direção dos seus pés, e ela batia a sua bengala no chão contra a ponte de madeira

Toc toc toc

— Ryoichi-kun, você tem aproveitado a viagem até agora?

— A viagem...? 
Era uma pergunta que realmente não esperava ouvir. Muito menos em um momento como aquele. Pensei por alguns poucos segundos que poderia ter ouvido mal, mas a reação da minha senpai, acelerando os toques da bengala contra a ponte, mostravam que ela esperava honestamente por minha resposta

— Acho que sim. — Disse, esfregando a palma de minha mão contra minha cabeça. — Bem, eu não sou muito de viajar, mas... está um pouco melhor do que eu imaginava. É apenas o primeiro dia e eu já conheci lugares realmente incríveis

— Kyoto é um lugar bonito?

— Sim! A arquitetura, as ruas, os rios e florestas... é tão vivo e cheio de cores! Eu consigo entender agora o porquê de ser um local tão famoso no mundo inteiro

— Eu imagino...

Foi quando escutei o suspiro de minha senpai foi que entendi, onde ela queria chegar. 

— Ryoichi-kun. O que é pra você uma experiência nova, para mim é só mais um dia comum. Eu sou cega desde meu nascimento. Então, para mim é como se eu vivesse em um mundo diferente do das outras pessoas. Um mundo que só é meu e apenas meu

— Eu não sei como é uma floresta. Também não sei dizer o que em sí é uma cor. No meu mundo, só há um vazio incomum. Onde nada além do som chega

— [...]

— Oh? Mas não pense que eu me odeio por causa disso. Claro, isso não significa que eu nunca tenha sentido curiosidade sobre essas coisas

Natsuki-senpai sorriu de leve.

— Mas, como eu disse... esse é o meu normal. O único mundo que conheço desde que nasci.

Ela parecia se sentir bem por finalmente revelar seus pensamentos mais intimos para alguém

— Ha..ha... Ryoichi-kun, você me acha estranha? — Perguntou, minha senpai. Coçando seu queixo com seu indicador

— Sim. Eu acho. — Respondi, honestamente. — Eu sempre pensei que pessoas com deficiência tinham inveja de quem não tinha. É difícil acreditar que alguém que não tenha pernas, por exemplo, não tenha inveja de quem possa correr. Por isso, para mim, é estranho ver você dizer que nunca sentiu vontade de ver o mar ou o céu estrelado. Mesmo que diga que esse é o seu normal

— Então, você acha que eu estou mentindo?

— Eu não disse isso. 

Natsuki-senpai riu, como se tivesse apreciado minha resposta

— Obrigado por ser honesto comigo

Minha senpai então voltou sua cabeça para cima. Como se tentasse alcançar o céu. Mesmo que fosse impossível

— Eu não posso dizer que eu nunca me senti mal por não poder enxergar. Isso porquê mesmo que seja o meu normal, não é o normal das outras pessoas. E se não é normal, para a maioria, logo é estranho

Natsuki então levantou sua mão direita em direção ao céu que já estava escuro. As pequenas estrelas e constelações cintilavam cada um com seu próprio brilho e destaque, tornando o escuro vazio em uma pintura natural

Os visitantes e alunos se voltavam mais uma vez a ponte. Todos assim como eu, estavam sem reação sobre quão bela era aquela visão

— É tão lindo...  — As pessoas ao redor suspiravam sobre quão bonito era o céu noturno sobre a ponte

Tão belo quanto o céu, era a garota que ao levantar o braço parecia tentar alcançá-lo com seus dedos

A voz doce e serena da garota me trouxe de volta ao mundo real

— Ryoichi-kun, eu já sofri muito bullying sabia? Principalmente, quando eu era pequena. Lembro de voltar para casa correndo chorando várias e várias vezes para o colo de minha mãe

— [...]

— Crianças são muito honestas, sabia? Elas não se preocupam em refrear o que pensam e dizem exatamente o que acham sobre você. 

O cabelo de Natsuki era empurrado contra o vento e ela olhava na direção do luar. Era como se ela sabesse que ela estava lá, mesmo que eu sabesse que ela não tinha ideia

— Lembro que houve uma ocasião especial na minha escola primária. Tinhamos uma pesquisa de campo e iriamos observar o céu noturno com o auxílio de um telescópio. Todos na minha turma ficaram muito animados. No entanto, minha professora disse que me passaria outro trabalho. Afinal, bem... eu acho que você já sabe...

—...Mesmo que eu não conseguisse enxergar. Eu sempre escutei muito bem. Eu sempre percebi que eles me tratavam diferente por ser cega, desde o início, mas eu suportava. Agora, quando até minha professora me tratou como alguém diferente, eu notei que não era alguém normal para eles

Natsuki começou a dizer o que sempre escutou

— "Ela é tão estranha..."
— "Natsuki-san, você não sabe como é sua própria mãe?"
— "Deixe ela ir. Ela não vai ver nada mesmo."

— Senpai...

— Enquanto chorava no colo de minha mãe, eu perguntava para ela como era o céu noturno. Ela dizia: 

"É como o mundo que você vê, Yumi. Um grande vazio escuro, coberto por astros e pequenas estrelas que brilham sobre ele"

"Mas, mamãe, eu não sei... como é.... uma estrela..."

— No meu mundo só há um universo escuro sem fim. Nada existe, além dos sons. O tato existe para me auxiliar. Mas, como elas estão distantes, eu não sei como é uma estrela; assim como não sei exatamente como são a lua ou os planetas. Eu apenas posso tentar imaginar isso, apesar que com certeza, o que eu imagino deve ser totalmente diferente do que realmente é...

—...No entanto, minha mãe sempre foi tão gentil. Ela sempre soube como me animar... ela me puxou para seu colo e me deu um abraço quente e apertado...

"Yumi, como que você acha que é uma estrela?"
"Snif... hã como... parece...?"
"Sim! Como você acha que é?"
"Bem, eu ouvi dizer que elas são pequenas e b-brilhantes..."
"Hum... e o que mais?"
"Acho que... elas devem ser quentes. E confortavéis!"
"Assim como o abraço da mamãe?"
"Sim!!!"

Natsuki-senpai olhava para o céu estrelado com um sorriso. Aquelas memórias realmente deveriam ser um tesouro para ela

— É amanhã...

— Amanhã? O que tem amanhã?

De primeira, eu pensei que ela estava se referindo a alguma coisa referente ao plano envolvendo Naomi-san. No entanto, sua voz cortou a minha linha de pensamento rapidamente

—...Amanhã é o aniversário da morte da minha mãe...

Foi como se o mundo de repente tivesse virado de ponta cabeça. Eu não sabia o que dizer naquele momento. O que falar... como agir... 

Então apenas continuei a observando, sem dizer qualquer coisa

—...Então, eu queria poder cumprir a promessa com Naomi-chan, se possível. Eu não quero simplesmente desistir agora. Eu sinto que a decepcionaria...

—...Sabe, Ryoichi-kun? Mesmo que eu nunca tenha conseguido ver o rosto de minha mãe, eu sei como ele era. Lembro-me perfeitamente...

—...Ela tinha um rosto delicado. Seu queixo era fino e as maçãs de seu rosto eram quentes e macias. Seus cilhos eram longos e suas sombrancelhas pareciam bem cuidadas. Suas orelhas não eram nem muito grandes, nem muito pequenas...

— [...]

—...Ela até tinha um cabelo longo, como o meu! Ela gostava de pegar seu cabelo e fazer cócegas no meu nariz. Eu sempre gostei! – Natsuki, exclamou sorrindo. — Quando eu esfregava minha mão contra seu rosto, sempre notei pela suas expressões faciais que ela estava sempre sorrindo

Escutar aquilo era tão bonito, quanto doloroso. Mas, eu sentia que devia escutar cada palavra com atenção

—...Mesmo quando ela adoeceu. Mesmo quando ela foi hospitalizada... Mesmo quando seu rosto ficou mais e mais magro... mesmo quando seu cabelo começou a cair...

—...Ela nunca deixou de sorrir. Nunca. — Disse, com lágrimas nos seus olhos. — Enquanto eu chorava em seu colo, ela dizia que: não iria embora. Apenas viraria uma estrela. E que sempre viria me abraçar

Natsuki dava um sorriso singelo, olhando para baixo. De repente, em uma fração de segundos, ela se virou para mim

—...O céu noturno está bonito, Ryoichi-kun?

— Sim, é lindo. — Respondi, imediatamente

— Entendo. — Disse ela, olhando para o céu mais uma vez. — Desde que ela morreu, eu nunca mais consegui ver as estrelas

O 1° dia estava se encerrando. Os professores começaram a chamar pelos alunos. Já era hora de voltar para a pousada

— Ryoichi-kun. 

— Sim? 

— Desde que eu cresci, eu vim enfrentando preconceito. Chegou ao ponto de eu não me importar mais com isso. Como eu já disse, esse é o meu normal e ninguém vai mudar isso

— Eu entendo...

— Mas, eu não vou mentir. Quando você disse que para mim era impossível mais cedo... eu não sei o porquê, mas doeu de novo

As pessoas se movimentavam de um lado para o outro na ponte. Sejam os alunos ou visitantes. O barulho dos passos, somado as vozes atrapalhava um pouco de escutar direito

O olhar de Natsuki era um pouco confuso. Eu não conseguia entender o que ela estava pensando. No seu rosto, não havia nem um resquício de um sorriso, no entanto


—...Eu só não entendi, o que isso tudo tem haver com o fato da presidente não estar aqui

— [...]

Como se minha voz tivesse a atingido diretamente. Natsuki-senpai ficou em silêncio por alguns segundos

— Ei! Vocês dois! — Gritou, um dos professores. — É hora de ir! 

— Ele está nos chamando... 

— [...]

Natsuki continuava calada e, por o que eu acredito ser reflexo, comecei a caminhar

No entanto, uma voz pesada e séria me fez parar imediatamente

— Ryoichi-kun, você disse quando se apresentou no clube, que desejava sair "daquele inferno" o mais rápido possível. 

— Sim, eu disse.
— Você ainda deseja isso?

Aquela era uma pergunta muito fácil de se responder

— Com certeza. Eu não vou desistir até sair daqui

— Eu entendo...

Como se ponderasse por alguns segundos, minha senpai murmurou

— Então que assim, seja...

— Hã?

— Como Vice-presidente do Clube de Amigos, eu lhe dou a permissão para sair agora do Clube, se quiser. 

Aquilo estava uma verdadeira loucura. Eu não sabia como reagir aquelas palavras. Se fosse verdade, eu finalmente poderia sair daquele lugar e cumprir meus objetivos
Eu poderia finalmente me soltar da gaiola que minha mãe impôs para mim. Estaria livre. Completa liberdade

Era só dizer que sim

Só isso

— [...]

— Ryoichi-kun?

Só dizer...

Que sim...

— E-eu...

— [...]

— Acho que você precisa de um tempo para pensar, afinal

Nem eu mesmo conseguia me entender agora. Por que eu tinha parado? Por que não consegui falar? 

Talvez, eu realmente precisasse de um tempo

— Por favor, eu sei que é difícil entender, mas me deixe fazer isso. É egoísta da minha parte, eu sei... mas eu quero tentar isso sozinha. Eu não quero decepcionar minha mãe, nem Haruka-chan que confiou em mim

— [...]

— Então... — Murmurou, minha senpai. Passando por mim apoiada de sua bengala — Você poderia confiar em mim?

 

Notas do Autor: Todas as Ilustrações dessa novel são feitas por IA. Comentem e façam teorias, leio e respondo todos os comentários 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora