Volume 1
Prólogo: A Carta Nunca Escrita
Ano 3805, Era da Unificação
A dor era excruciante, dilacerante, como se cada fibra de seu corpo estivesse sendo desfeita. Michael, em meio ao turbilhão de agonia, imaginava-se escrevendo uma última carta para o garoto de oito anos que o aguardava em casa. Uma carta que nunca seria enviada, mas que ele precisava desesperadamente colocar em palavras, mesmo que apenas em sua mente.
“Luther,
Eu sei que, quando parti, não expliquei para onde estava indo. Na verdade, eu nunca explico, não é mesmo?
Consegui encontrar sua mãe. Achei que finalmente poderia cumprir minha promessa de que seríamos uma família novamente. Sei que você sonha em se tornar um grande herói, como aqueles das histórias que lhe conto todas as noites.
Mas, mesmo sabendo que alimentei esse sonho em você, desejo que siga pelo caminho oposto. Quero que sua vida seja comum.
O comum é muito mais valioso do que muitos imaginam. Em minha jornada, vi coisas que jamais deveria ter visto, e não quero que você veja o mesmo.
Que você não tenha o mesmo destino que o meu.
Não seja um herói. Seja apenas você.
Algo melhor que este seu pai, que nem sequer possui magia.
Viva, viva mais do que eu viverei.
E me perdoe por fazê-lo esperar pelo meu retorno.”
A voz distante ecoou novamente, rasgando o véu de seus pensamentos:
— Michael!
Ele já havia perdido quase todos os sentidos. Nem os cortes profundos em seu corpo, nem a ferida aberta em seu abdômen doíam mais. Tudo o que Michael conseguia sentir eram as lágrimas quentes escorrendo pelo rosto e o peso dos arrependimentos — tantos arrependimentos.
Ele lutava para se manter consciente, agarrando-se à imagem de sua família como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira em meio a um mar tempestuoso. Mais do que tudo, Michael queria avisar o filho sobre o perigo que poderia estar à espreita. Queria estar lá para protegê-lo, para garantir que Luther nunca precisasse enfrentar o que ele enfrentara.
“Talvez haja uma bênção naquilo que não se sabe… Ha! Quem eu estou tentando enganar? Sou apenas um tolo”, pensou, enquanto um sorriso amargo se desenhava em seus lábios.
Ele se perguntou se, talvez, existisse a possibilidade de, neste ou em outro mundo, retornar para casa com sua esposa. Talvez aquele momento terrível fosse apenas uma lembrança ruim em uma vida que ainda teria muito pela frente.
Nos seus trinta e poucos anos, Michael podia sentir que havia tanto para viver. Ansiava por uma vida comum, longe de todos os conflitos que atormentavam seu mundo. Uma vida em que pudesse ver Luther crescer, rir, brincar, sem precisar carregar o fardo de ser um herói.
“Esse é realmente o meu fim? Tanta coisa ainda falta fazer…”, pensou, enquanto imaginava sua família reunida. O sangue encharcava o sobretudo preto, mas ele murmurava para si: “Não importa… enquanto não souberem… da existência dele, tudo ficará bem. Eles… nunca o descobrirão… podemos ficar tranquilos...”
Com a consolação de que, ao menos, seu filho estaria em segurança, Michael permitiu-se ceder ao cansaço avassalador. Lentamente, seus olhos se fecharam, e o mundo ao seu redor mergulhou em uma escuridão silenciosa.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios