Volume 1
Capítulo 27: Recuperação
A noite avançava, e Castiel e Kira permaneciam desacordados após a batalha na praça. Lia trocava as ervas sobre os corpos dos dois, enquanto Luther, ao lado, observava com preocupação.
Após a sugestão de Himiko, os emissários os trouxeram para a mansão, onde poderiam ser tratados em melhores condições. Ash estava no quarto ao lado, algemada à cama enquanto se recuperava dos ferimentos.
Lia e Luther haviam acabado de retornar das ruas de Port Strong, onde passaram horas ajudando os cidadãos a lidar com os estragos da batalha. Agora, voltavam para checar a condição dos feridos.
Luther não tinha o mesmo conhecimento de Lia em medicina—sabia apenas o básico que sua mestre lhe ensinara no clã. Assim, limitava-se a entregar o que Lia pedia e aguardava sua avaliação. Mesmo assim, sentia-se menos inquieto do que antes. Pela expressão dela, a situação já não parecia tão grave.
Quando terminou seu trabalho, Lia saiu do quarto para deixá-los descansar, e Luther a acompanhou até o corredor.
— E aí? — perguntou ele, cruzando os braços.
— Nada mudou desde que o doutor avaliou. Castiel foi quem sofreu mais, mesmo não parecendo. Ele forçou o próprio corpo além do limite — disse Lia, suspirando. — Kira voltou ao normal, mas vai precisar de um tempo fora de combate. Aquela Emissária de Sangue quase matou os dois.
Luther passou a mão pelo rosto.
— Temos que agradecer por ainda estarem vivos. Esses desgraçados são verdadeiros monstros em combate. Se as coisas tivessem sido diferentes, talvez nem tivéssemos corpos para enterrar… só destroços, como na delegacia.
Lia assentiu, o olhar distante.
— Essa é a natureza dos hemallitas. Os filhos do Império foram “abençoados” pelo demônio, uma ligação que não pode ser rompida. Isso distorceu suas almas. Fingem ser como nós, mas no fim… — ela apertou os punhos. — Aquilo que vimos na delegacia é o que eles realmente são.
Luther abaixou a cabeça. As imagens dos corpos soterrados pelo desabamento voltaram à sua mente. Enquanto ajudavam a resgatar os que puderam, os emissários viram a brutalidade do massacre. Especialmente os corpos no beco, onde ficava a entrada dos fundos.
"Como eu não percebi nada?" Ele cerrou os dentes. "Embora não seja surpresa... Eles sabem se ocultar quando querem. Mas mesmo assim..."
A lembrança de Poltergeist ressoou em sua mente.
"Abririam caminho para mim se soubessem a verdade."
Luther fechou os olhos. "Então era disso que ele estava falando? Ele queria a filha do demônio esse tempo todo?"
Embora fosse óbvio naquele momento para Lia, ela ser da natureza de Luther pensar e repensar sobre como agiu em uma situação de conflito, afinal foi como eles foram treinados, mas ele sempre adicionava um peso desnecessário em seus ombros. Ela então chutou de leve a perna de Luther o retirando do seu turbilhão de pensamentos e falou:
— Por favor, não faça isso! — implorou Lia, segurando o braço de Luther com firmeza.
— Eu queria poder ter feito mais. Viemos para salvar esta cidade, mas eu não fui atento o suficiente. Fiquei tão focado no Poltergeist que nem ao menos conseguimos capturá-lo! — respondeu Luther, sua voz carregada de frustração e culpa.
— Luther, nós fizemos o nosso melhor! Você fez o seu melhor! Sua regeneração mágica pode ser mais rápida que a de muitos de nós, mas olhe para você! Está exausto por todo o esforço que dedicou a essas pessoas. Entenda, o mal está por toda parte neste mundo, e nem sempre ele se apresenta de uma forma que podemos reconhecer. O povo de Hemall é caçado há muito tempo, eles sabem como se esconder. E essa era excepcionalmente forte — você sentiu o poder dela.
— Você tem razão. Ela conseguiu lutar sozinha contra a caçadora e, principalmente, contra Castiel. As histórias estavam certas sobre o poder demoníaco deles. Afinal, foi necessário a união de todos os clãs para derrotá-los no passado.
— Exatamente. Precisamos aceitar o que aconteceu e focar no que podemos fazer por essas pessoas agora.
Luther sorriu para Lia, agradecido por suas palavras reconfortantes, mesmo que ainda pairasse em sua mente a sensação de que poderia ter feito mais.
Caminhando em direção ao final do corredor, os dois emissários encontraram Sira, Jasmim, Alastar e Sho, que haviam acabado de retornar da busca na floresta por mais caçadores.
— Prima, como eles estão? — perguntou Sira, seu tom de voz firme, mas com uma preocupação sutil.
— No mesmo estado de antes. Acredito que só vão acordar amanhã — respondeu Lia, cruzando os braços.
— Onde está o Jinn? — perguntou Luther, olhando ao redor em busca de seu amigo.
— Ele foi ver Nádia e avisar a senhora Kami que a floresta está livre de caçadores. Finalmente, acabou. Ainda faremos uma nova busca para ter certeza, mas parece que o Poltergeist foi embora e não tem intenção de retornar — explicou Jasmim, sua voz trazendo um tom de alívio.
As palavras de Jasmim trouxeram uma sensação de leveza ao peito de Luther, mas, ao sentir o olhar penetrante de Sira sobre ele, ele se lembrou de que ainda havia questões importantes a serem tratadas com a Princesa do Vento. A expressão de Jasmim, quase como um aviso silencioso, apenas reforçou isso. Luther respirou fundo, preparando-se para o que viria a seguir.
— Eu conversei com Jasmim e Jinn sobre o draconiano com mais calma e chegamos ao acordo de deixar ele sob vigia de Alastar, não quero ouvir reclamações sobre isso Luther — disse Sira.
— Se alguém for vigiar Castiel, serei eu. Ele confia em mim e isso vai ser bem menos desconfortável para ele do que ter um desconhecido o vigiando — disse Luther.
— O conforto dele é irrelevante e você sabe muito bem disso! Está claro que nesse pouco tempo vocês se apegaram ao draconiano e não entendem o nível do problema que ele representa.
— Sira, eu estava na praça com você, você se esqueceu? Eu sei bem que ele é perigoso.
— Ótimo, chegamos a um acordo. Alastar você vai ficar de olho no draconiano.
O guarda assentiu ao ouvir as ordens da princesa e quando Luther estava prestes a protestar, Jasmim interviu dizendo:
— Sira, o Castiel não representa risco a ninguém, como eu expliquei antes, aquilo só aconteceu porque ele foi provocado. Deixe que o Luther fique de olho nele, vai ser melhor. Ele já está desconfortável o suficiente por não estar com suas memórias e vai acordar se sentindo terrível pelo que aconteceu mais cedo. Não precisamos tornar as coisas ainda piores para ele.
— Aquele homem é da raça mais poderosa que esse mundo já viu! Segundo as histórias um draconiano sem runa é uma força a ser temida, mas este tem uma runa elemental e mesmo à beira da exaustão ele ainda podia ter matado um de nós se não tivéssemos tido cuidado. Eu entendo que vocês se importam com ele, mas não podem agir baseados em suas emoções. Pensaram no que pode acontecer se ele recuperar as memórias e virar nosso inimigo? — disse Sira.
Luther, Jasmim e Lia se mantiveram em silêncio, aquela era uma possibilidade que normalmente preocupava os três, porém seus sentimentos diziam que aquilo não era possível e isso era a prova de que Sira estava correta em seu argumento. Eles não estavam agindo de forma imparcial.
O som da porta de um dos quartos se abrindo chamou a atenção de todos. Apoiando-se no batente, estava Castiel, ainda fraco, mas de pé. Jasmim correu em sua direção, pronta para ajudá-lo a se equilibrar, enquanto ele tentava se firmar.
— Está tudo bem, Luther. Não tem problema em me vigiarem — disse Castiel, sua voz fraca, mas carregada de sinceridade. — Eu peço desculpas do fundo do meu coração por todo o dano que causei. Eu realmente não fazia ideia de que era tão perigoso assim. Mas, se minhas palavras valerem de algo… eu prometo que não vou ferir ninguém. Não sou um monstro!
Castiel levou a mão ao abdômen, sentindo uma pontada de dor, o que deixou todos ao seu redor imediatamente preocupados.
— Você não devia ter saído da cama, Castiel. Vamos voltar — disse Jasmim, com um tom maternal, misturando preocupação e cuidado.
Ela colocou o braço de Castiel sobre seus ombros, ajudando-o a caminhar de volta para o quarto. Luther e Lia seguiram-nos, entrando no quarto logo após.
— Desculpe pelas coisas que você ouviu — disse Luther, seu rosto marcado por um misto de constrangimento e empatia. — Nós não te consideramos um monstro, e vamos te ajudar, como eu prometi que faríamos.
— Eu sei que começamos com o pé esquerdo — acrescentou Lia, com um sorriso gentil — Mas eu também não acredito que você seja um monstro, Castiel.
— Obrigado, gente — respondeu Castiel, seu olhar expressando gratidão, apesar da fraqueza. — Eu sei que vocês não me veem assim, mesmo com suas preocupações. E não se preocupem em deixar aquele cara me vigiando. Vai ser melhor para mostrar que eu não sou uma ameaça.
Permitindo que o draconiano descansasse mais um pouco, os emissários deixaram o quarto, embora ainda tivessem inúmeras perguntas sobre a batalha de Castiel com a emissária. Eles também esconderam a surpresa de vê-lo acordar e se levantar em tão pouco tempo, algo que parecia quase impossível para alguém em seu estado.
Do lado de fora, Alastar ficou de guarda ao lado da porta do quarto de Castiel, enquanto Sho assumiu a vigia na outra porta, onde a caçadora estava sendo mantida.
Luther, ainda aborrecido por Castiel ter ouvido o que Sira havia dito, voltou-se para a princesa. Ela estava com uma postura mais rígida do que o normal, algo que passaria despercebido para muitos, mas não para Luther, que a conhecia bem demais.
“Vou conversar com ela quando estivermos a sós”, pensou ele, observando-a com um olhar atento. “Tem alguma coisa errada acontecendo. Eu tenho certeza. A Sira não é desse jeito, pelo menos não normalmente.”
Enquanto isso, Sira permanecia de braços cruzados, seu olhar distante, como se estivesse presa em seus próprios pensamentos. Luther sabia que algo a incomodava, e estava determinado a descobrir o que era.
…
No quarto de Himiko, o médico da cidade examinou Nádia, que estava deitada na enorme cama do aposento. Ela havia sido encontrada no beco próximo à saída dos fundos da delegacia, cercada pelos corpos dos voluntários mortos. Quando a trouxeram para Himiko, a nobre quase entrou em pânico, temendo o pior.
No entanto, o médico logo a tranquilizou, explicando que, aparentemente, não havia nada grave. Mesmo com várias obrigações a cumprir, Himiko decidiu ficar ao lado de Nádia, sentada em uma cadeira ao lado da cama, desde o momento em que a trouxeram para seu quarto.
Assim que o médico terminou o exame, ele voltou-se para Himiko, que aguardava ansiosamente por notícias sobre o estado de Nádia.
— Ela está bem — disse o médico, com um tom calmo e profissional. — Parece que ela levou uma pancada muito forte na cabeça, algo que seria preocupante se ela não fosse uma usuária de magia. Felizmente, o fator de cura mágico dela já está cuidando do problema.
— Então ela vai ficar bem? — perguntou Himiko, sua voz carregada de esperança e alívio.
— Sim — respondeu o médico, com um leve aceno de cabeça.
Himiko respirou fundo, sentindo um peso sair de seus ombros. Ela segurou a mão direita de Nádia, como se quisesse transmitir-lhe força, e agradeceu ao médico, que se retirou para cuidar de outros feridos na cidade.
Com o quarto agora em silêncio, Himiko olhou para Nádia, seu rosto marcado por uma mistura de culpa e tristeza.
— Desculpe ter te ignorado depois da morte da sua mãe — começou Himiko, sua voz suave, mas cheia de emoção. — Eu usei a desculpa de que precisava lidar com os problemas da cidade, mas a verdade é que eu não queria te enfrentar. Sua mãe morreu por minha causa, seja por escolha dela ou não, e… sinceramente, parte de mim não sabe como lidar com isso.
Himiko ficou em silêncio por um momento, como se estivesse reunindo coragem para continuar.
— Eu prometo que vou fazer melhor do que fiz até agora. Vou tentar com todas as minhas forças. Desculpe, de verdade.
Ela encostou a cabeça na cama, fechando os olhos e fazendo o possível para segurar as lágrimas. Foi então que sentiu um aperto fraco em seu pulso. Assustada, Himiko ergueu o rosto e viu Nádia se movendo, sentando-se na cama com um olhar assustado e confuso.
— Freirr e Bogna são Emissárias de Sangue! — repetia Nádia, sua voz tremendo, como se estivesse presa em um pesadelo.
— Calma, Nádia, por favor, se acalme! — disse Himiko, tentando segurá-la pelos ombros.
Mas Nádia parecia não ouvi-la, continuando a repetir as mesmas palavras, cada vez mais agitada. Sem conseguir acalmá-la, Himiko gritou:
— Margery! Alguém me ajude!
Enquanto esperava por ajuda, Himiko olhou para Nádia, seu coração apertado de preocupação.
“O que fizeram com você, Nádia?”, pensou ela, sentindo uma mistura de medo e culpa enquanto segurava a mão de sua amiga, tentando transmitir-lhe algum conforto.
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