Em Outro Universo Angolana

Autor(a): Tayuri


Volume 2

Capítulo 18: O Apagão

Chloe estava deitada, à mão direita entrelaçada à esquerda de Astrid. Compartilhavam o mesmo travesseiro sob a escuridão da cela das meninas.

Era estranho. Chloe teve de admitir. Não era familiar, entretanto não realmente desconfortável como achou que seria quando Astrid, voluntariamente lhe cedeu um espaço em sua cama enquanto Chloe se dirigia para cama de Lucky, a qual prontamente a incentivou a ir com Astrid.

Em primeira instância Chloe não se moveu e quando a primeira lâmpada apagou, a ruiva forçou os pés a irem em frente e quando as restantes decidiram chamar a escuridão, Chloe correu e foi facilmente pega por Astrid no escuro.

A mão de Astrid alcançou a sua trêmula e assim a guiou pela cama e elas passaram a compartilhar o mesmo espaço.

Por que? Chloe quis perguntar, mas se conteve e tentou focar em suas mãos que desobedientemente tremiam, saindo totalmente de seu comando, como se ainda não tivessem percebido que ela já não era uma criança, que já não estava presa em um sótão escuro. Ela era forte agora.

— O Logan…— disse, a mente tentando procurar o resto da informação referente ao companheiro. 

— Está estranho! — falou Astrid e Chloe assentiu na escuridão.

— Tem algo acontecendo com ele. Desde a última missão em Amarílis ele…

— É o outro!

Chloe apertou a mão de Astrid.

— Ao menos é o que ele acha. Ele parecia confuso e…ele acha que o outro está acordado, sendo que ele também está acordado é meio…confuso. 

— Espera o que!? 

Chloe se virou para Astrid vendo apenas claramente seus olhos.

— Eu disse! É confuso. Só sei que algo está errado. Acho melhor ficarmos de olho nele, tipo de olho mesmo. 

Chloe tentou relaxar, tentou respirar.

— Por que tudo só piora? 

Chloe se sentiu cansada.

— Ele vai o que!? Matar todo mundo enquanto sorri amigavelmente? 

Astrid ofereceu apenas silêncio.

— Talvez Lucky tenha razão. A solução de tudo pode ser encontrar o guardião e sei lá…

Engoliu em seco, tentou encontrar algo, uma solução, um caminho, uma imagem onde todos eles terminassem bem.

— Pedir para ele tirar os nossos poderes? — Astrid sugeriu e Chloe tentou enxergá-la melhor. — Má ideia? — perguntou quando o silêncio assumiu por tempo demais.

— Não — sussurrou. — Não realmente. Talvez…isso fosse o melhor para nós. Ninguém mais iria morrer por causa deles e talvez…nos deixassem em…paz.

— E se não acontecer? Sem poderes nós…

— Seriamos dizimados. Nossas habilidades sem poderes não seriam muito contra um número grande. Nós. Os mais velhos e as crianças, seriamos todos mortos ou…forçados a lutar mesmo sem poderes.

O silêncio tomou a frente de novo, cada uma segurando a mão da outra mais forte possível, cada uma tentando não visualizar cenários pintados de vermelho sangue. 

— Co…como é a outra? — Chloe perguntou em um tom muito baixo. 

— Quem…Ah!! — baixou o tom. — Bem ela…é a melhor. Minha melhor amiga é…incrível. — Chloe sentiu a mão aquecer levemente.

— Estás com saudades?

— Muitas. Chloe…Meu pai…acho que tenho tantas saudades que ficaria feliz até se encontrasse a Aiyslnn.

— O que você fez para ela.

Astrid ficou em silêncio e Chloe tentou afugentar todas as preocupações que vinham facilmente para sua mente até que a voz de Astrid retornou, distraindo seus problemas.

— Quando era mais nova, eu e o meu pai nos mudamos para Anthurium.

Capital. Chloe tentou se situar.

— Fui para uma nova escola e fiz minha primeira amiga, Chloe Walsh. As crianças não gostavam de brincar com ela porque não tinha cabelo azul e eu não conseguia amigos de verdade — reiterou. — Por que não tinha o cabelo completamente azul então nós unimos o útil ao agradável e passamos a brincar juntas e depois conhecemos Aiyslnn e Brid e assim nos tornamos um quarteto. Saímos do primário e fomos para o secundário. Excepto Chloe todas faziamos parte do club de Aquaswimm e como posso dizer…

Astrid ficou em silêncio e Chloe ficou em espera.

— Brid…era incrível. Simplesmente a melhor nadadora do time e nós estavamos apenas no Secundário, mas…quando se tratava dela já se falava de coisas mais alta. Já se pensava em campeonatos profissionais, treinadores de times renomados e um monte de coisas que a faziam parecer…— pausou, Chloe ouvia respirar profundamente. — Que ela estava além. Brid era diferente de nós. Ela era a estrela e nós…eu…

— Astrid você…

— Eu estava morrendo de ciúmes.

Chloe sentiu o aperto em sua mão aumentar.

— Me chamavam de génio da arte. Eu nem precisava me esforçar e poderia desenhar qualquer coisa perfeitamente, isso me rendia uma boa dose de…felicidade, e aí eu fui para Aquaswimm e lá…eu era uma completa Médiana. Não havia nada de especial, não tinha qualquer talento e por mais que me esforça-se eu não conseguia vencer Brid e ela…ela nem parecia se esforçar — Astrid soltou quase exasperada, baixando o tom logo de seguida. 

Chloe sentiu os olhos pesarem, mas os forçou a ficarem abertos.

— Ela era muito talentosa. E eu…perder começou a me irritar…fiquei com raiva e a empurrei na piscina — disse acelerada. — Ela machucou o tornozê-lo na queda e foi afastada por algumas semanas. Quando voltou…

— Quando voltou!? — Chloe incentivou. 

Astrid riu baixo.

— Brid a melhor nadadora simplesmente quase se afagou no primeiro dia do seu retorno, a justificava era que ela desenvolveu medo de nadar. — Astrid riu mais e Chloe se sentiu tentada a lhe pedir para parar. — A treinadora informou mais um período de afastamento e depois disso Aiyslnn decidiu deixar de ser minha amiga. Me acusou e no meio do corredor gritou para todo mundo saber dá maldade que eu fiz.

— As…

— Eu sei. Eu fiz algo horrível e Aiyslnn estava certa em me odiar, mas…Eu fui vê-la para sabe…voltar a dormir sono, mas descobri…

Chloe soltou um bocejo e abriu os olhos rapidamente.

— Eu fui lá para me desculpar. Me ajoelhar se fosse necessário – Astrid riu novamente. — Ela não tinha medo nenhum. Ela confessou. Ela me agradeceu.

— Pelo quê?

— Por tirá-la de algo que odiava. Era o sonho da mãe e não dela. Odiava os treinos e ainda mais as conversas sobre o futuro. Ela viu a oportunidade quando a empurrei para fugir sem se sentir culpada, sem precisar ser acusada pela mãe por abandono. 

— Ela te usou — Chloe concluiu. — E Aiyslnn não voltou a ser tua amiga. Você chegou a contar?

— Brid pediu para não fazê-lo. Seria uma forma de me perdoar por te-lá empurrado e…eu contei. Disse tudo para Chloe e para Aiyslnn, mas só Chloe acreditou, só ela voltou a ser minha amiga. Aiyslnn e o resto da escola ficaram ao lado de Brid. Eventualmente a treinadora me afastou da equipa, acho que a pedido dos pais. Minha vida no secundário havia acabado.

— Você errou.

— Eu sei. Fiz algo de ruim e paguei por isso. Ser excluída não é nada bom. 

— Ao menos você tinha Chloe. 

— Sim. Ao menos tinha Chloe. Já falei que ela é a melhor?

Chloe sorriu, na escuridão.

— Ela me deu um enorme sermão e mal falou comigo até que contei o resto da história. Ela foi a única a ficar ao meu lado, foi a única a me dar uma segunda chance, mesmo que tivesse agido como uma idiota.

— Como era a vida dela?

— A melhor.

— Sério?

— Sério, seus pais…

Astrid ficou em silêncio.

— Diga! Estou realmente curiosa.

Com o sinal verde, Astrid avançou.

São muito bons. Eles me tratavam tão bem que eu nem sentia falta da minha própria casa. E os irmãos…— Astrid riu. — Simplesmente os meus irmãos. Chloe diz que se pudesse os levava de volta para a lixeira onde os pais os pegaram, mas…eles eram…são os melhores irmãos que alguém poderia ter. Era como se eu tivesse três irmãos mais velhos que podiam meter medo em qualquer um.

— Essa família é tão boa assim?

— Huh!! Tanto que era difícil evitar o sentimento de inveja. Estar sentada com eles, conversando, rindo, sem me oferecerem brechas para me sentir de fora. 

— Que inveja. A minha é péssima — admitiu e sentiu Astrid apertar sua mão. — Minha mãe é horrível. Meus irmãos eram péssimos, egoístas. Nunca se importaram o suficiente para me tirar da escuridão. E meu pai…esse era ocupado demais, com o trabalho e em esconder as mulheres com as quais ele saía. Eram todos péssimos…quer dizer excepto o Oliver. 

— Quem é Oliver?

— O cachorro do Kai. Minha mãe…ela…Oliver estava com saudades do Kai. Estava muito barulhento e minha mãe o ódio tanto que o matou. Não deu para alguém ou o levou para algum lugar sei lá…Ela só…o envenenou e o esperou morrer. 

— Como o Kai reagiu? 

Chloe sorriu para o escuro.

— Quase me sufocou. Primeiro implorou que eu dissesse quem fez aquilo e quando não respondi ele me segurou e quase me sufocou. Como posso dizer…Oliver era um bom cachorro, mas facilmente irritava as pessoas com tanta energia ou com latidos constantes. Kai tinha muitos inimigos pela vizinhança e todo mundo sabia o quanto ele amava o Oliver. Não que isso fizesse alguém matar um animal…quer dizer minha mãe…É uma família ruim e eu e Kai demos o azar de ela querer parar no segundo filho e o meu pai querer mais. Ela até colocou suas iniciais nos nomes deles e nós…éramos só o erro que aconteceu por não se impor e fazer o que o marido quis. 

— Pobre Oliver! — disse Astrid e Chloe tentou não pensar nele. 

— Tenho a certeza que a outra não deve ter o mesmo nome pela mesma razão.

— Senhora Walsh escolheu Hooda e Horald e Senhor Walsh escolheu Chloe e Kai. César para Chloe e Kael para Kai. 

— César Kael Walsh. 

— O teu pai pode ter os tirado do nome dele também.

Chloe riu e depois bocejou.

— Ele não tinha esse tempo. Deve ter pego em qualquer lugar. Ele…

Chloe fechou e abriu os olhos. Ouviu Astrid bocejar e bocejou logo em seguida.

— Que inveja. Da outra. Séria…muito ruim se eu…pegasse a vida dela? 

A pergunta ficou no ar, as duas caíram no sono.

.

.

Chloe despertou com Lucky cutucando sua bochecha.

— Hora de acordar!

— Sim — foi tudo que Chloe conseguiu murmurar enquanto coçava os olhos para expulsar o sono.

Lucky deu a volta na cama e passou a cutucar a bochecha de Astrid até ela despertar.

— Não pode me acordar como uma pessoa normal — reclamou Astrid. 

— Eu não sou normal — falou Lucky e partiu para o banheiro, ao passo que Astrid se jogou na cama novamente.

— Vamos!

Chloe deslizou para fora da cama e quase literalmente arrastou Astrid para o banheiro.

Quando o segundo anúncio da abertura das celas tocou, todas já estavam prontas. Chloe foi a primeira a sair, e todos seguiram atrás.

Tudo estava normal, Chloe percebeu. Tudo deveria mudar naquele dia, e se não acontecesse então morreriam mesmo como soldados.

A primeira refeição foi calma, mesmo que o coração de Chloe palpitasse a cada instante, tão barulhento que lhe causava embrulho no estômago só de pensar em alguém ouvi-lo, só de imaginar seus companheiros ouvi-lo fazia o embrulho aumentar. 

Quando o som do final da refeição tocou, todos ficaram em pé, sendo Chloe a única que ficou sentada por um total de vinte segundos, mas ninguém disse nada. Seus companheiros apenas se foram e ela seguiu atrás, no entanto facilmente abriram espaço e Chloe novamente se viu na frente.

Saiam de qualquer lugar perigoso. Chloe pediu para todos os que eram autorizados a ouvir, viram em um corredor e entraram na sala de corrida. Chloe selecionou os integrantes tocando muito lentamente na tela, a mente sendo invadida por várias vozes. Soldados, ajudantes, guardas e Russell estavam todos na sua cabeça. Todos excepto Kieran Gray. Ela não podia o ter aí, ela não podia deixar o resto escapar.

Pontos como agulhas surgiram na parte de trás da cabeça, vozes cantavam em sua mente em um ritmo estranho, lhe causando náuseas e puxando suas energias para longe do seu corpo.

Chloe finalizou a seleção e olhou para os companheiros, os quais a encaravam com expectativa. Eles provavelmente estavam dizendo algo, mas Chloe não conseguia entendê-los. Sua cabeça estava girando e suor escorrendo de sua face. 

Jase abriu a boca, mas Chloe não o ouviu. Ele deu alguns passos até parar a sua frente e voltou a abrir a boca, mas novamente Chloe não ouviu. As vozes na sua cabeça aumentaram e quando Jase segurou em seus braços, sentiu o gosto de sangue na boca e se fez ouvir gritando: PREPAREM-SE!!.

Chloe esperou pelo que pareceu dois minutos e nos minutos seguintes vários corpos foram para o chão. Soldados, ajudantes e até guardas caíram se contorcendo de dor. 

Jase por sua vez apertou seus braços, os olhos fechados com força e os dentes trincados. Ele não parecia querer cair, ele não parecia querer soltá-la até que enfim o fez, quase levando Chloe consigo.

As vozes lentamente foram diminuindo até que nenhuma a não ser de Chloe existia.

Chloe levou a mão trêmula para o rosto e limpou o sangue das narinas, arrastando-o para as bochechas. Deu um passo em frente e o corpo caiu de joelho ao lado de Jase que estava inconsciente.

Está me ouvindo? Kieran?

Estou!!

Chloe suspirou aliviada. Passou novamente a mão pelo rosto e em seguida entrelaçou uma na outra para acalmar a tremedeira. 

Vá…em frente! Ordenou.

Deixa comigo!!

Chloe desligou a chamada e a mente. 

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