Edward The Guide Brasileira

Autor(a): Gusty


Volume 3

Capítulo 35: Os outros

A conversa com Giovanni durara poucos minutos; com o aval do chefe, era necessário iniciar o trabalho para o qual fora contratado. Apressado, mas consciente do ambiente em que se encontrava, o garoto percorreu o corredor familiar, desceu pelo elevador e logo, ao abrir as pesadas portas de ferro, reparou na figura do zelador sentado à sua espera.

Sem delongas, Reith se levantou e iniciou o caminho até a saída do departamento que se conectava ao hotel. Completamente calado, puxou seu cartão de acesso do bolso da calça, liberou a trava, abriu as portas e prosseguiu em uma caminhada quase que programada.

Ao sair, um corredor largo e extenso recebia as três figuras. O trajeto era coberto por um telhado de madeira, sustentado por pilares e cercado por arbustos cada vez mais secos. O piso de pedra, regular, auxiliava em uma travessia rápida e antiderrapante. Assim como os outros corredores externos, este apresentava fortes e delicadas lamparinas. 

A cada passo, Scarlet, assim como seu amigo, sentia a intensificação da presença espiritual. De fato, existia mais de um espírito pelos arredores, e eles estavam próximos.

A caminhada silenciosa os levou ao pátio interno, um vasto retângulo que lembrava o claustro de uma antiga catedral. O caminho era contornado por galerias de carvalho escuro, protegidas por um telhado robusto feito para suportar o peso das nevascas. Ali, sob o teto de mogno, o ar era estático, mas os olhos da dupla já estavam voltados para o centro aberto.

No coração do pátio, um gramado menos esverdeado resistia ao frio. Edward e Scarlet ignoravam os detalhes que compunham o cenário — a fonte de água desligada, os bancos de tronco e o alto pinheiro solitário eram apenas vultos sem importância. Para eles, aqueles objetos eram meras molduras para o que realmente importava: a massa de forças espirituais que fervilhava bem ali, no meio da grama.

Assim que pisaram no limite do saguão, o guia parou em busca de palavras para explicar o local. Mas o diálogo foi interrompido pela natureza; o vento gelado, livre da proteção dos corredores, chicoteava as folhas resistentes do pinheiro e agitava com violência os casacos de Edward e Reith. O frio era cortante, contudo Edward sentia o oposto: um calor efervescente subia por suas veias. O foco no sobrenatural era tão absoluto que o mundo exterior começava a se apagar. De olhos fechados, ele deixou o ar áspero inundar os pulmões e buscou uma sintonia ainda maior com o outro lado.

Scarlet percebia a iniciativa do amigo e logo triplicou sua atenção. A situação não admitia brincadeiras ou qualquer atitude precipitada; aprendera, depois de combater alguns Parasitas, o quanto precisava minimizar erros — afinal de contas, espíritos também poderiam machucá-la.

A postura concentrada do visitante fugia à atenção do zelador, que iniciava novas explicações.

— Bem… — iniciou a fala, coçando o próprio queixo — Do outro lado você consegue acessar o hall principal do hotel, os andares com os quartos e o andar do restaurante — disse o homem, em uma fala metódica, sem energia, enquanto cruzava os braços.

Ansioso em terminar logo sua tediosa tarefa e retornar àquelas muito mais trabalhosas, o zelador tossiu e logo concluiu o resumo do restante do hotel.

— Se você seguir à esquerda, encontrará uma porta que te levará até o salão de festas. Agora, à direita, temos o acesso da academia, que também pode te levar a um campo de golfe desnecessariamente grande que vive sendo uma dor de cabeça — afirmou, trocando sua voz fraca por um timbre mais rígido.

Nenhuma resposta saiu da boca do trabalhador temporário. A falta de atitude gerou estranheza; de canto de olho, o adulto observou que o menino estava perdido em seus pensamentos.

— Está dormindo, é? — perguntou bufando, aumentando o tom de voz.

Edward reabria lentamente os olhos, exibia nenhum sinal de raiva ou preocupação quanto ao zelador, e respondeu em um sussurro:

— Obrigado pelas informações, depois irei checar cada uma das áreas.

— Tsc, é impressionante… garoto, seja mais disciplinado, é pedir muito? — indagou Reith, colocando-se à frente de Edward e o encarando cara a cara.

O funcionário, na maior parte das vezes, conseguia guardar seu lado ranzinzo; mesmo irritado pela carga de trabalho, no fim, aprendera a zelar por toda a propriedade. Recebia bem para isso e estava por ali havia um bom tempo — criar uma conexão afetiva tornou-se inevitável. Observar as pequenas atitudes do convidado o irritava profundamente, justamente por sentir que princípios estavam sendo pisoteados.

— Tenha mais respeito com este hotel e com todo nosso trabalho! Tenho certeza absoluta de que seria incapaz de realizar o trabalho duro que todos prestam aqui diariamente… Que geração complicada…

Ainda que encarasse o olhar ditador do zelador, o foco de Edward continuava no centro do pátio.

— Pode ficar tranquilo, estou aqui para aprender muito e tudo o que faço, levo a sério…

— Espero que deixe essa conversa em uma possível matéria. Jornalismo é coisa séria, ou estou errado? — Ergueu o queixo, reafirmando ainda mais sua posição.

— Está mais do que certo, inclusive — falou, retornando a caminhada e dando a volta em Reith. — Preciso começar meu trabalho.

— O que exatamente vai fazer agora?

— Analisar melhor meus pensamentos e o ambiente. Aliás… desculpe por atrapalhar, mas, se preferir, pode me deixar só a partir daqui — avisou o garoto no mesmo ritmo que seus pés, assim como os de Scarlet, tocavam a grama menos esverdeada do centro do pátio.

Observar a tranquilidade — interpretada como uma afronta — e o pedido do jovem deixou Reith irritado. Riu em voz alta e procurou seguir o conselho do garoto, mas com outras intenções.

— Lembre-se: tudo aqui é monitorado. Vou até o Giovanni, quero conversar com ele sobre isso.

— Tudo bem — retrucou em concordância, sem demonstrar muito interesse na ameaça passiva.

Ainda que o zelador demonstrasse irritação, Giovanni estava a par de cada movimento de Edward.

Enquanto o funcionário de longa data pisoteava o piso em fúria em direção à entrada da área de serviços, Edward e sua companheira subiam delicadamente o pequeno morro de grama localizado exatamente ao centro da área esverdeada.

Ao subir, ele se dispôs entre os três bancos de tronco de madeira e a esbelta árvore. Levou a mão direita até o bolso esquerdo de seu sobretudo e perguntou à amiga:

— Senti quatro presenças, uma muito forte. E você?

Scarlet, escorada nas costas do rapaz, vigiava a retaguarda, comentou levemente assustada:

— Ed… senti seis… Eles estão muito próximos! — O alerta acompanhou uma voz confiante, todavia seu olhar exibia um tremor de nervosismo.

O calor no peito alcançou seu limite; o coração acelerado de Edward acompanhou o movimento brusco de seu braço. Retirou do bolso um simples cordão de algodão, agarrou-o com força e chamou pelos espíritos:

— Me chamo Edward. Já sei sobre vocês e que todos estavam me esperando. Vamos apenas conversar…

— Podem me chamar de Scarlet. Ele está do nosso lado… podemos ajudar cada um de vocês… Ou, se preferirem, podemos partir para outros métodos!

Scarlet deu força ao discurso em alto e bom tom. Reconhecia que sua fala poderia facilitar a conversa com o desconhecido.

Um vento forte chacoalhava por inteiro os galhos da árvore. As folhas firmes aguentavam; sentiam cada vez mais que dias difíceis estavam prestes a chegar. O assobio do vento tornava-se mais grave, parecia um anúncio de tempestade. O cabelo mais longo de Edward dançava no ar; ele sentia o frio em cada ponta de seus fios — o misto de frio e calor trazia uma sensação de falta de ar. Scarlet manteve-se intangível e priorizou uma fraca presença. Assim, sua roupa e cabelo se mantiveram estáticos, o que contrastava ironicamente com seu estado emocional.

— Qualquer coisa, faça o sinal, Ed! Estou pronta para agir!

— C… certo!

A ventania cresceu. Seria uma reação dos céus por uma possível blasfêmia? Independentemente do quanto poderia se perder em questões complexas, todas desapareceram instantaneamente.

De maneira repentina, todo o caos adormeceu e, depois de poucos segundos, um espírito emergiu da terra entre o rapaz e o alto pinheiro. A figura se revelava aos poucos; durante o processo, com sua imagem ainda distorcida, encarou o rosto assustado do jovem que há pouco o chamava.

— Desculpe-me pela demora — proferiu a voz aveludada da já visível entidade.

As palavras vieram de um homem alto e extremamente elegante. O senhor, de pele retinta, estampava um rosto esculpido pelo implacável tempo. Marcas de expressão, a barba preenchida e a presença de rugas transmitiam respeito — tais características eram suas medalhas. O olho marrom, profundo, exalava seriedade, o que combinava perfeitamente com suas vestimentas: uma calça social preta, um refinado blazer — fechado, que escondia uma camisa branca social reconhecida pela gola —, um monóculo em seu olho esquerdo e uma cartola de vermelho marsala.

O espírito carregava consigo a maior força espiritual que ambos os jovens haviam notado. O frio na barriga, tanto em Edward quanto em Scarlet, refletia o encontro com o espírito mais forte já presenciado por eles até então. Tamanha imponência reafirmou a delicadeza da circunstância: os amigos precisavam lidar bem com suas próximas palavras e ações.

— Prazer, meu nome é Forv — cumprimentou respeitosamente e ajeitou seu monóculo.

— O prazer é todo nosso… Por acaso você esteve envolvido no caso recente? — Edward manteve a cordialidade, ainda assim mantinha o cordão misterioso em seu punho fechado próximo à perna.

— Aquilo fez um barulho… Me envergonho por ter sido incapaz de barrar a atitude — explicou brevemente e ajeitou com as duas mãos sua cartola. — Depois disso, pensamos que receberíamos a visita de uma pessoa diferente do que você vem mostrando. Ah, desculpe-me outra vez — exclamou, juntando as duas mãos —, vocês dois quase acertaram… Além de mim, existem mais quatro.

A nova informação acompanhou o surgimento de cada uma das novas figuras. Uma emergia do chão logo à frente de Scarlet; outras duas repetiam o mesmo movimento, cada uma ao lado dos dois jovens. Já outra saia do tronco desgastado da árvore.

“Ainda estamos errando nisso… precisamos melhorar”, refletiu Ed, ao mesmo passo que respirava fundo na tentativa de conter sua irritação.

“Meus olhos me fazem acreditar que estou errada, mas ainda tenho certeza de que existe mais um”, pensou a inquieta garota.

Ciente da possível desvantagem, o menino logo justificou o erro; mesmo que doesse, precisava manter uma imagem de credibilidade.

— Nos perdoe, erramos provavelmente por conta da sua exímia energia espiritual. Inclusive, tenho curiosidade de como a adquiriu… — Finalizou a retratação, estampando certa afronta.

— Acontece… — Forv, ainda mais sério, retrucou. — Garoto, você parece saber bem sobre nosso mundo. Deixe-me apresentar meus outros companheiros: à frente de Scarlet está minha querida amiga Zuly; logo à sua esquerda, Edward, você encontra o responsável pelo ato, o chamado Jerry; agora, à sua direita, está o recém-chegado Thomas. Atrás de mim está Jackie. — Cada brevíssima apresentação acompanhou gestos dos braços do elegante espírito, apontando para cada um dos outros.

Zuly usava um vestido plissado azul-escuro. Sua pele morena ressaltava o brilho dourado de seus brincos — em formato de lua crescente — e de um fino colar de ouro. A mulher aparentava ser jovem; sua maquiagem simples escondia possíveis marcas, todavia, pela estatura, a senhorita aparentava ter mais de trinta anos. O cabelo castanho-claro, crespo, em um típico big chop, brilhava tanto quanto seus olhos cor de mel.

Jerry utilizava roupas cotidianas: um tênis genérico, uma calça jeans e um blusão. O adulto era baixo e ligeiramente acima do peso. Seus olhos grandes e pretos exibiam certo tremor. Seu cabelo volumoso tentava esconder algumas cicatrizes próximas à sua orelha direita.

Thomas parecia um garanhão típico dos anos noventa. Utilizava uma jaqueta de couro vermelha,  calças jeans e um surrado All Star. O porte físico musculoso, junto do cabelo loiro raspado, ajudava ainda mais no estereótipo de um bad boy. Pela forma de se vestir e pelo sua imagem, o espírito parecia ser de alguém por volta de seus vinte e cinco anos.

De todos, Jackie era o que mais destoava. Embora vestisse roupas simples — uma camiseta xadrez avermelhada, uma calça jeans escura e sapatos esportivos —, o que o destacava eram as inúmeras feridas pelo seu corpo. Seu olho direito apresentava um corte profundo, longe de ser uma marca cicatrizada; suas pernas apresentavam furos e novos cortes. Todo o seu corpo parecia ter sofrido inúmeros ataques antes de sua morte. O cabelo castanho, desajeitado, transparecia desapego e talvez insanidade.

Observar toda a cena e a conversa com Forv trouxe uma reação debochada de Scarlet — fora mais forte do que ela.

— Parece que encontramos o líder do grupo…

— Cala a porra da boca! Por que diabos você está perseguindo esse garoto? Que merda vocês dois querem com a gente? — reclamou Jackie, com os braços cruzados, testa franzida e escorado no tronco.

— Jackie é seu nome, né? Sua força espiritual é tão pequena que meu amigo nem te enxergou.

— Talvez ele só faça um péssimo trabalho igual ao seu. Um espírito livre que escolheu ficar presa a um garoto patético… que piada.

Diante da bronca corajosa do espírito machucado, Jerry sentiu-se protegido e logo reforçou:

— É isso mesmo! Larguem essa marra. Garoto, somos fantasmas; você até pode nos enxergar, porém, se quisermos, acabamos com a sua vida e a da sua amiga tranquilamente. — Sentindo-se com o triplo de seu tamanho, ameaçou os visitantes.

— Jerry, por que resolveu abrir a boca, hein? — Jackie desfez sua posição e iniciou a caminhada em direção ao agora inquieto espírito. — Por sua causa esses imbecis vieram até o hotel. Inclusive, agora essa merda pode ter atrapalhado o plano de muita gente aqui.

— O meu não… — sussurrou Zuly, soprando suas unhas.

— Por favor, sejamos cordiais! — Forv impôs respeito com uma fala mais firme.

— Posso ajudar vocês a transitarem para o outro lado sem nenhum tipo de efeito colateral. Então, me expliquem a situação de vocês — Edward abriu os dois braços e disse, em tom confortante.

Observar a desconexão do grupo e o quanto o mais forte parecia inclinado a escutar suas falas fez com que Edward sentisse certa tranquilidade. A situação soava mais calma do que o esperado.

— E como você vai fazer isso, criança? — O arrogante Jackie, parado outra vez, aguardou uma resposta.

— Desejos… eles prendem vocês aqui! Estarei aqui para realizá-los e garantir o melhor para todos nós. Ninguém do hotel seria atormentado e todos vocês descansariam.

A fala do menino gerou um silêncio desconfortável, como se tivesse dito algo errado.

Sem controle, a risada estridente de Jackie contaminou todo o ambiente. Mesmo que inaudível para humanos comuns, a gargalhada seca cortava em cheio o coração de Edward.

— Edward… Você consegue fazer isso? — A risada se misturava com as palavras de Jackie.

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