Volume 1

O Templo e o Esquilo

CAP 13

— Vamos! A lua está chegando no ponto mais alto — Shaw anuncia com um leve tom de preocupação.

Em meus dias sendo uma aluna do nosso mago real aprendi a identificar as horas sem a necessidade de um relógio, além de eu conseguir usá-la como bússola caso me perca em algum momento na vida. São uma das poucas lições que estou realmente em débito com Paracelso por ele ter puxado minha orelha nessas aulas que agora vejo serem de bastante importância. Saio do prédio abandonado com o forte brilho luar preenchendo meu rosto, ergo minha cabeça e vejo o ponto da lua e de imediato identifico que estava próximo de meia-noite.

Assim que vejo o céu meus olhos se preenchem com a maravilha das estrelas radiantes nesta noite. É tão belo. À frente uma pequena ladeira de concreto que percorro sem problemas. Junto-me com os outros sendo a que faltava para que a jornada começasse, Temporizador se colocou como condutor.

Me sinto feliz de um jeito que não sentia fazia tempo, estou vestida com as roupas que me foram presenteadas, puxo o poncho que visto olhando para ele e o resto do conjunto formidavelmente confortável e de tecido feito de lá importada do Norte. Claro, sempre se comenta que as melhores coisas são importadas do lado Norte de Ecor e geralmente isto é verdade, porém temos os nossos próprios meios de sermos melhores: no ramo alimentício, e ai daquele que contestar tais fatos tanto nossos quanto deles, pois, nisto, nenhum dos lados comenta para não gerar intrigas e desavenças comerciais. Negócios são negócios. Este poncho é a prova disto.

O caminho é uma mistura virial de destroços com grama, arbustos e vinhas escalando os prédios visualmente distintos e estranhos da nossa arquitetura conhecida. Como uma selva de concreto e janelas quadradas parecendo conter algo à nossa espreita, nas sombras, o chão é rachado, o ar é pesado e seco. Aquilo tudo me era familiar, meus olhos procuravam algo por curiosidade olhando para todos os cantos tentando fazer com que meu cérebro tentasse identificar o que dali me era familiar. Estava difícil.

— Ayla. Vamos — Erik disse me observando ficar para trás.

— Ah, certo.

A estrada cinza e rachada dava várias curvas nos levando para um canto que, aparentemente, é o centro daquela ruína gigante, porém: outras estradas estavam se conectando no centro, para uma estátua; alta e feita de mármore coberta de vinhas principalmente na sua base escondendo um painel de ferro com uma escritura.

Pisco assim que a vejo nitidamente. Reconheço a estátua e consequentemente reconheço onde estamos.

A cidade de Ítham, fora bastante concebida por suas maravilhas e adorada pela deusa Khrün como sua protetora em outrora. Mas com a conquista vem a queda. Ìtham caiu e seu império fora perdido e a cidade se tornou um templo de adoração para a deusa e sacrifícios em seu nome são feitos em frente à estátua. Assim que nos aproximamos vejo uma cuia e velas usadas. Percebo que estou boquiaberta e me recomponho, reverenciando a estátua após um suspiro profundo: ponho-me de joelhos e estendo minhas mãos com a palma das mãos aberta.

— Deusa Krhüm — começo a oração com cabeça baixa e olhos fechados. — Vanguarda da fertilidade e proteção, venho-me colocar em meu lugar como sua adoradora, que as Trombetas de Wunn honrem vosso nome no Grande Salão de Jade. Pedimos proteção em nossa jornada, sabedoria para tomarmos as melhores decisões, e força para as batalhas. Assim seguimos.

— Assim seguimos. — disseram os outros atrás de mim, reverenciando igualmente.

Erik demonstrou confusão, ele não é daqui e apenas seguiu nossa deixa por pura educação e respeito. No fim todos um têm sua crença. Um pequeno sorriso me escapa ao olhar por cima dos ombros. Temporizador fazia uma reverência mais antiga, mais formal, usado em outrora pelos membros da Corte chamados de Antigos, fundadores do mais antigo conselho científico: Senhores de Pi. Os Antigos se perderam e deixaram a sociedade por tempo em ruína e à própria desgraça, cegos por ganância. Daí veio a guerra e a divisão de Ecor. Há poucos resquícios de sua essência e as poucas coisas que temos estão em livros ou nesta reverência audaciosa para com os deuses.

Limpo meu joelho, pronta para prosseguirmos. “Vamos”, eu disse. Eles passaram por mim normalmente e assim seguiram. Dou alguns passos, mas sei que faltou outra coisa, uma coisa necessária para quem presta oração para cada um dos deuses: um sacrifício não importa o tipo. Paro a pouco espaço de distância da estátua, viro-me e pisco para ela percebendo exatamente o que deixar para ela. Enrolo sob meu dedo uma mecha do meu cabelo branco, não qualquer mecha e sim a mecha que está uma bijuteria que mostrava a ligação de amizade entre mim e Lilith. Ela não estava mais viva, mas não queria a largar, ainda não estava pronta para me desfazer aquilo nas fibras do meu cabelo. Ainda não. Pego então a bijuteria que minha que guardei de minha avó, chego perto e gentilmente a coloco na cuia entre as velas apagadas e o chão com folhas. O vento uiva suavemente e solto um pequeno sorriso ao olhar para esta.

“Ela sempre quis estar mais perto dos deuses mesmo.”

Levanto-me, aliviada, e corro em retorno para com meu grupo.

⸗⸗⸗

Após uma caminhada perdida em meus pensamentos, ouço um craquelar na sola do sapato assim que pisei e me tirou do transe como num estalo. Levanto devagar a sola, uns rastros de folha seca, acinzentada e empoeirada caem como pequenos flocos. Pisco e forço meus olhos a focarem nisso ainda preso em minha sola, levanto meu rosto e à frente está uma escuridão, um tormento completo ainda no local do tempo da deusa: a Praga tomou conta de uma parte e engoliu a vida fértil local, o vento leva para longe o rastro de fumaça das pontas afiadas das estruturas, mas o caminho permanecia visível para continuarmos. Contudo, analisando de perto é perceptível que ela se alastrou tem muito tempo, as plantas mortas e a grama que vaza para fora do chão estava cinza como se ela não pertencesse a tal lugar e foi morta propositalmente, o templo da deusa é para todos os seres, e isto inclui a natureza e tal ato de maldade é um desrespeito maculado. Quase como uma anarquia ou vandalismo. Por que a deusa não fizera nada? Deixar seu templo sofrer tal ato assim sem punição é como ver o filho de outro maltratar os colegas enquanto os pais assistem sem fazer nada. Há algo de errado, isto não está certo.

Fiquem na trilha. Fiquem juntos. — Proclamou Temporizador.

Seguimos a passagem com uma névoa marrom densa sobre nossos calçados.

Minhas mãos apertavam a haste do cajado involuntariamente por medo.

— Isso não me parece nada bom… — comento em voz baixa.

— E não é — diz Shaw. — Esse templo é protegido por forças da sua deusa, tão antiga e poderosa que qualquer outra coisa deveria ser, teoricamente, impossível de penetrar. O que quer que esta Praga seja, é bem mais antiga do que sua deusa.

Isto muda tudo…

Shaw costuma falar de forma séria e com um tom de voz grave como quem desistiu de sua vida há tempos. Suas sobrancelhas franzem ao olhar ao redor, ele evita comentários do tipo, fala apenas o necessário, caso contrário se mantêm calado. Estranho.

Erik, logo, me aborda no meio do caminho.

— Como você está? — ele me olha de cima à baixo.

Eu o olho apenas por um instante apenas para voltar meus olhos para a trilha novamente.

— Acho que bem. Estamos passando por uma selva sem vida arriscando nossas para ir até não sei onde.

Solto o ar preso em meu pulmão e volto a falar.

— É minha primeira vez em algo real assim, sabe? Num perigo real, numa viagem real e numa busca real. Tenho medo de não conseguir alcançar as expectativas, quero dizer, e se eu falhar ou congelar num momento importante? E se eu não conseguir?

— Ei ei, você pensa demais. Pode não se lembrar, mas eu lhe vi em batalhas grandiosas e em algumas você enfrentou dois exércitos sozinha enquanto metade de uma população fugia. Você também era confusa, indecisa e achava que conseguia carregar o mundo nas costas. Se colocava em situações perigosas, mas conseguia dar um jeito. Conhecendo você, vai saber o que fazer.

Suas palavras me tocam, não por revelar nossa relação, mas por me contar meus feitos, dizê-los como se me conhecesse na palma de sua mão. Olho de canto soltando um sorriso tímido, não nego que gostei de ouvi-las, mas saber da minha contraparte fora bem mais interessante. Alguma coisa dentro de mim, escondida, me fazia crer que eu também o conhecia. Talvez minhas visões poderiam me dizer algo, mas não as tenho faz um tempo. Que estranho.

Nosso caminhar é cuidadoso e parecia que a cada instante algo de ruim aconteceria conosco e nos fazendo ter que enfrentar a morte, na pior das hipóteses. De relance vejo um esquilo consumido pela Praga. Em seu estado estático ele aparenta ter tentado fugir mas as ferragens e tempo mortífero foram mais rápidos que suas patinhas. Eu o encaro abismada e saio da trilha. Na hora não fora nada demais até perceberem e barrarem alertando do perigo, meus ouvidos negam e me ajoelho com minhas duas mãos acolhendo o pequeno roedor. Meu rosto é de horror, meus olhos com expressão de desespero piscando rapidamente, minhas mãos tremem situlmente. Inconscientemente assobio da mesma forma que minha mãe assobiava para os pequenos esquilos quando íamos ao piquenique, é como ela os chama para os alimentar, uma bela música, um bordão. Foi-me ensinado, claro, mas nunca havia o feito até agora.

Enquanto sinto o ar cantar entre minha língua e meus dentes, aterrisso levemente um dos dedos na ponta dos pelos na esperança de o acariciar e sentir ao menos uma falsa esperança se quer, mas tudo o que vejo, agora, é pó. Um pó negro em minhas mãos, eis o que me restou.

Os rapazes notam que a Praga sentiu alguém mexer em sua colônia. A Praga acorda. De pouco em pouco ela emerge com o chão tremendo, como se fosse se despedaçar, estilhaços surgem quebrando os anteriores para continuar o consumo. Mas desta vez seu objetivo é outro, a Praga sabe de nós, ela nos quer e quer nos consumir. Temporizador consegue se sobrepor à minha dor quando ele se coloca na frente do meu rosto, de joelhos e segurando meus ombros. “Ficar aqui não vai trazê-lo de volta, pequena.”, ele disse. O consumo nos acha e corre para nós em fúria, subindo e destruindo tudo, atravessando a terra e emergindo como um triturador vivo. Temporizador me levanta pelo braço até eu sincronizar com a corrida deles. Nossas pernas trabalhavam dobrado e ainda não estava há imunda a correr mesmo depois de tanta perseguição nos últimos dias, eu estava perdendo muito fôlego por não conseguir sincronizar minha respiração com a corrida diferentemente de Erik e Shaw, suas posturas de corrida e movimentação eram precisas a ponto de não conseguirem se cansar rapidamente como eu. Sentia-me ficando para trás como antes, eu não gostava disso e os tropeços nos galhos e cristais tornavam o caminho mais difícil, quase traiçoeiro e a Praga se aproximava mais e mais com sua gula quase baforando meu nome. Meu desespero pela sobrevivência dominou meus músculos dos pés e por um instante achei que escaparia, sim eu podia escapar, mesmo com o trajeto da Praga se dividindo pelas laterais até se encontrarem mais à frente, e por um triz não fui pega.

Saltei a tempo e um feitiço de gelo fora zapeado contendo temporariamente o avanço daquela coisa. Estar no chão foram o menor das minhas preocupações, levanto-me recuperando o fôlego e sentindo meu coração acelerado. Shaw, por outro lado, pulou de raiva para onde eu estava questionando minha decisão de sair da trilha, ele estava quase berrando.

— No que estava pensando? Colocou-nos em perigo por causa de um simples esquilo? — ele me afastava com suas palavras rudes. Ele se aproximava conforme eu recuava enquanto apontava para mim. É culpa minha, e eu sabia disso.

— Desculpa é que…

— Animais nascem, crescem e morrem. É o ciclo. Seja lá o que você se quer queria fazer lá atrás não mudaria a lógica da vida do roedor e ainda nos pôs em perigo, você se colocou em perigo! Não estamos mais no seu reino, garota. Faça barulho e os animais a cercam. Erre um instante e sua vida se esvai. Talvez devesse mesmo ter ido embora quando cogitou pela primeira vez lá atrás.

Seu rosto é marcado pelas sobrancelhas franzidas e olhos estreitos. Sua figura, então, se afasta com os punhos serrados indo procurar o caminho novamente, podemos ter saído do perigo, mas nos custou a perda da trilha para seguirmos.

Engulo seco; minhas mãos, juntas, na altura do meu queixo, tremelicam um pouco. Pisquei algumas veze até me soltar do corpo tenso entra uma árvore. “Desculpa…” sussurro.

Os outros mantiveram suas bocas fechadas e seguiram caminho. Olho para o chão antes de seguir, pensando no que fiz e, de fato, coloquei-nos em risco sem nem ter pensado no que poderia acontecer depois, me deixei levar e no fim virei a culpada da situação, e com razão. De fato não estamos mais em Homeworld e este sentimento de estar perdida paira sobre minha cabeça como um abutre rodeando uma carne. Pelo visto não sei se serei capaz de alcançar as expectativas postas neste ritmo.

O cair da noite é belo, disto eu sabia desde a noite anterior, mas ver o pôr-do-sol aqui fora entre a floresta é maravilhoso. Sentada numa pedra mediana meu rosto sente o calor acolhedor e meus olhos contemplam o tom do céu infinito mudar de laranja para rosa, depois para azul escuro; depois o principiar das estrelas. Tão belas.

Temporizador me chama para perto do fogo. Ele prepara uma sopa improvisada com o que encontrou e o cheiro, para minha surpresa, é estranhamente bom, mas a cara da sopa nem tanto. Vendo pela primeira vez, quase vomito e mina expressão é azeda e apática. Ele me entregou uma tigela antes que eu pudesse recusar. Erik, por sua vez, não fazia caretas como eu ou se quer reclamou da comida em momento algum, achei loucura, mas não questionei. Quando minha língua toca o líquido marrom com alguns legumes na colher sinto um gosto indiferente, saboroso, mas ainda com gosto de sopa. Então, parei de reclamar mentalmente e minha expressão azeda sumira. O Cavaleiro observa por um instante minha ferocidade no paladar.

— O que foi? — disse eu, quase cuspindo um pedaço de carne.

Ele estica o braço: “Entregue ao Shaw”, disse ele.

Shaw. Ele estava noutro canto próximo de nós. Assim como eu, ele também estava numa grande pedra, mas sua aparência lembra de uma sentinela em prontidão, ele estava de costas observando o além da floresta e o que quer que estivesse por lá. Se você o visse perceberia, então, que o incômodo é o que ele não deseja, apenas a companhia das sombras e o silêncio. A colher que iria na minha boca recua assim que meu rosto se vira para a silhueta de Shaw, e os eventos de mais cedo retornam. Largo a colher na sopa morna e encaro meu reflexo nesta.

— Eu não sei se…

— Ei, tudo bem — Erik aparece aterrissando sua mão no meu ombro. — Deixa que eu levo em seu nome.

Engulo seco e o vejo andar até a figura, eu estava preocupada, sim, de que ele recusasse a sopa por estar em meu nome, e, pior, ainda estar chateado. Cometi um deslize feio, sei disso. Quero consertar as coisas, mas não sei como. Meus lábios estreitam. Temporizador se senta ao meu lado com pés cruzados. Eu o olho de canto.

Não fique se culpe tanto. O sentimento é o que nos salva quando mais precisamos.

— Mas lá atrás pus nossas vidas em risco. Seria nosso fim… E talvez ele esteja certo.

Colocar as crenças esnobes dos outros acima da sua é tolice. Reflita seus atos e aprenda. Você é jovem e ainda apreenderá muito. Não se menospreze.

— Obrigada.

Pus a tigela do meu lado. Um sorriso se formou no meu rosto, assim que ruborizei.

 

 

Erik chega com a tigela para Shaw, esticando o braço.

— Trouxe em nome da Ayla.

Ele encarou por um instante, mas seus olhos voltaram para o escuro entre as árvores mais uma vez. Erik se apoia na pedra menor ao lado dele colocando a tigela de Shaw ao lado da sua cintura. Shaw não se importava, até Erik começar a falar.

— Sabe que ela não fez de propósito.

— É irrelevante.

— Ela perdeu o pai e a melhor amiga! Ela ainda tem o que aprender. O que lembrar. Ela se sentiu fragilizada pode ao menos demonstrar compaixão por ela, poxa? Aqui ela nunca esteve num perigo real e quando aconteceu você a menosprezou sem se quer avisá-la propriamente dos perigos aqui fora.

Shaw se manteve calado e pensativo.

— Nós já fomos assim.

Vocês foram assim. — Shaw retruca, seco.

— Ah, qual é — Erik parecia implorar. — Você também foi treinado, então ensine-a. Mostre a ela o caminho, novamente. Ela não é a única que pode perder pessoas importantes para ela.

Erik deu um tapinha nos ombros de Shaw antes de ir. Shaw olha por cima dos ombros seu amigo retornar para a fogueira. Ele julga ter mesmo sido duro nas palavras lá atrás e isso pesou sua consciência. O fez soltar um ar preso em seu pulmão e cogitar em seguir o conselho de Erik. Ele lembra por um instante de seus tempos quando mais jovem, raivoso, e principalmente ignorante, sempre disposto a servir à organização que ele serviu há muito tempo. Isso o deixou perplexo de ainda ter estas memórias, mas o mais importante: o fez ter empatia.

 Seja lá o que estivesse entre ele e as árvores, ele deixou de lado e tomou para si a tigela de sopa, trazida por Erik em meu nome.

Ele fecha os olhos e saboreia.

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