Volume 1

Eu prometo...

A explosão jogou-nos para fora derrubando a parede detrás. A estrutura se fez em pedaços no ar com a explosão se esticando até próximo dos nossos corpos; por sorte consegui agarrar Aurora no instante que fomos arremessadas. O frio bate em meu cabelo como se quisesse levar ele e a nós junto. Meus baços envolvem Aurora, gritamos assim que nossos olhos perceberam o abismo abaixo de nós com a maior força que tivemos, a voz do Sir mal sai em seu grito antes de eu o perder de vista.

A queda durou uns 3 segundos até acertarmos os pinheiros cheios de neve com nossos corpos. Fechei os olhos e apenas senti o forte baque nas costas, galhos, folhas e tronco acertando-me por inteira rasgando minhas pele e roupa; o chão treme, sinto meus ossos fazerem barulhos estranhos por todo corpo. Meu pulmão fica sem ar. Forço a respiração que, apenas aos poucos, vem preenchendo o vazio no meu peito.

Aurora está em cima de mim. Estou de peito para cima, entreabro os olhos, piscando várias vezes, vendo o céu cinza e a neve cair; há sangue nos cantos da minha boca e um dos meus olhos está com o vazo estourado, então metade da minha visão está vermelha, a dor é imensa e percorre todo meu corpo em cada nervo e osso. Tudo o que ouço é um zumbido com a voz abafada da Sombra me chamando; ela materializou (apenas para mim) sua sombra viva me encarando, exalando um rastro de fumaça negra ela põe seu rosto no meu campo de visão chamando por mim, seu tom é em preocupação, seu semblante — conforme meus olhos se recuperam — se ajustava pouco a pouco com a figura humana, mas mantendo sua característica escura.

Garota! Ayla. Levante-se, precisa se levantar.

Minha voz esforça-se para sair.

— M-me… me a-a-aj--… ajuda…

Minha garganta está doída, mas sinto a força de minha voz voltando. Logo, sinto uma força me puxar. Ínnumar veio me levar? Não, estou sendo puxada para trás, carregada por outra pessoa.

Vai ficar tudo bem — Sombra me diz preocupada, mas escondendo com humor. — Seu corpo está se curando... seus músculos e sangue estão trabalhando rapidamente… ficará nova em folha.

Puxaram-me até uma árvore; enfim vejo minha salvadora, ela me põe apoiada na árvore. Estou ainda sentada. Solto grunhidos de dor ao ser largada.

— O-obrigada…

Minha cabeça, inclinada, ergue o pouco que pôde e vejo Aurora com lágrimas nos olhos, zangada e soluçando. Ela está machucada, mas melhor do que eu, pois, afinal ela está andando. Sua pele pálida está vermelha nas bochechas, as lágrimas limpa suas bochechas da queda e o seu belo cabelo branco está cheio de farpas, folhas de árvores e um pouco de neve. Ela está me encarando, ela descobriu o que eu fiz, o que escondi dela. Eu não vou negar se ela questionar, pois foi necessário seu eu quisesse achar meus amigos.

— Por quê? — diz ela reunindo forças e tentando não soluçar. — P-por que mentiu? E-eu confiei em você, estranha! Por quê?

Meu coração sente o peso e está quase tão dolorido quanto o dela. Ela continua:

— Eu-eu-eu… Eu compartilhei meu peixe!

— Aurora — eu procurava respirar devagar em meio a esta discussão. — Eu não queria isso. Por favor... acredite em mim…

Aurora exala com força o ar em seu pulmão, segurava o choro ao mesmo tempo que o deixa escapar soluçando como uma criancinha pequena, seus olhos cheios de lágrimas me observam com raiva pelo que escondi dela. Meu coração não aguenta vê-la assim, machucada tanto internamente quanto fisicamente. Talvez eu tenha me apegado a esta garota. Já sentia meu corpo se curando, com menos dores, mas minhas pernas permaneciam quebradas. Movia meus dedos, os ombros se realocaram e meu peito já não mais chiava.

— Aurora… por favor eu realmente só queria achar meus amigos.

A pequena Aurora ainda procura segurar as lágrimas. Sua demonstração de angústia é fofa e ao mesmo tempo comovente, a borda de suas orelhas se avermelhando pela raiva e as lágrimas derramando causa uma forte confusão, ela está triste ou com raiva? Não importa, ela provavelmente não confiará mais em minhas palavras e isto me quebrou internamente. Suspirando, Aurora me corta:

— E pensar que eu… que eu mostrei você para a mamãe. Que eu a chamei de… a chamei de…

— Aurora… — digo antes dela tapar os ouvidos em negação e gritar.

Meus olhos fitam-na cima à baixo. Seu peito mexia com fervor, para dentro e para fora, ela não quer mais me ouvir, talvez nem mais me ver. Aurora se joga na minha direção, se coloca de joelhos em cima de mim e grita bem próxima ao meu rosto “Mentirosa! V-Você é mentirosa! Você conhece o homem que quer levar a mamãe!” Ela está histérica, ela fala remexendo a cabeça enquanto as lágrimas seguem e suas mãos batem com força no meu peito. Seu raciocínio está restrito a dor da traição. Suas mãos cerradas batem, agora, na neve. Suas mãos vão tateando em busca de algo e agarram. Acha um pedaço de galho cuja ponta traz um ar ameaçador. Ela o agarra e eleva sob a cabeça com olhar selvagem e perdida de si mesma.

— Aurora, espere! Aurora…

Aurora limitou seus movimentos assim que levantei um dos braços para me proteger assim como fiz lá em cima. Ela manteve a respiração pesada, ela recuou no desejo de me acertar com aquilo nas suas pequenas mãos, mas o manteve acima da cabeça por um tempo, me observando e, então, percebi que ela deixou que eu falasse, ou ela não tinha coragem; talvez ela nunca tenha tido a coragem me acabar comigo de verdade o que me levou pensar rapidamente que ela poderia ter feito o mesmo com os três que procuro. Mas como e onde ela os prendeu? Se eu convencesse Aurora, talvez eu pudesse descobrir; engoli a saliva acumulada e hidratei os beiços antes de terminar de falar:

— E-eu posso salvar sua mãe! Por favor… eu quero ajudar a minha amiga.

Aurora sentiu algo no peito, talvez uma falsa sensação de confiança retornando; ela aparenta guardar o sentimento de me acertar com um galho até eu morrer e abaixa os braços, solto o ar preso antes de avistar, lá atrás, umas estruturas de gelo estranhas, familiares. São eles!

— Lá, lá está! — apontei.

Aurora vira seu torso, olha para o horizonte, percebe as cápsulas de gelo postas como grandes pedras com pessoas em posições diversificadas. Lá estão eles, postos em poses de ataque, junto a outros como uma coleção; troféus, ao que parece. Minha suspeita estava certa, Aurora nunca conseguiu se livrar de fato das pessoas que vinham atrás da sua mãe e as prendia em pedras de gelo como se fossem decorações sádicas guardadas ou recordações feitas para com que ela se lembrasse de que ela faz seu trabalho de proteger sua mãe de invasores, mas falha ao livrar-se destes.

Aurora volta-se para mim. Agora vejo apenas dor, sem mais raiva. Dor e tristeza.

— Sem mentiras? — ela diz depois de firmar as mãos.

— Sem mentiras… só queremos o casaco e vamos garantir que você e sua mãe fiquem seguras. Sem mais invasores. Eu prometo…

A pequena se mantém pensativa, claro que, por ser criança, ela não demoraria para dar sua resposta, mas devido ao medo comum de perder a mãe, ela cedeu.

Ela larga o galho.

 

 

As dores me perseguiram por um tempo, mas meu caminhar não mais está puxado. Consegui suportar até o fim. Caminhamos até a coleção e procurei por eles entre a névoa que levantava dos meus pés vejo-os e corro até o encontro deles com tamanha vontade e desespero. Serpenteio minhas mãos pela lisa estrutura levemente transparente. Temporizador é o primeiro, mas como tirá-lo? Chamei Sombra que prontamente saudou-me sem motivo, pois sei que ela sempre está me observando e nunca foi embora realmente. Ela se materializou do meu lado próximo ao gelo

— Me ajude, preciso tirar eles… tem alguma ideia?

Esquente-os. Solução óbvia. — Ela disse com sarcasmo.

— Eu sei, mas como? Eu não tenho fogo algum aqui.

Ugh — ela grunhiu com a mão na testa. — Não acredito que você não descobriu este ainda… Escute: você precisa sentir o calor do seu corpo e ir transferindo para sua mão. Imagine fogo e recite o encantamento que aquele velho, Paracelso, lhe ensinou numa das aulas.

Como? E-eu não sei como fazer isso, esqueceu? E-eu sou nova em ser essa tal portadora que você… que você diz que sou!

— Apenas... não se esforce tanto, seu corpo ainda está se recuperando.

Aurora me observa e contesta meu falatório, “Está falando com quem?’”, ela diz com olhar perdido. Supus que me ver assim talvez a tenha feito se arrepender da escolha que fez.

— Érr… comigo mesma… não se preocupe eu sei o que fazer.

Eu não possuía ideia do que fazer, a não ser seguir a ideia da Sombra. Está é minha única chance. Ouvimos um berro vindo da montanha, um berro horrendo e que reconhecemos muito bem de quem era, uma energia branca rodeou aquele canto isolado no cume misturado entre a neve que supostamente queria provocar uma avalanche também. Estávamos ficando sem tempo.

Esfrego as mãos para aquecer-me. Procurei internamente um calor dentro do meu corpo passando para minhas mãos novamente sentindo o frio nos dedos. Sussurrei o encantamento sentindo uma ansiedade, não apenas por causa da mãe da Aurora ter despertado novamente mas também por sentir minhas mãos esquentarem, um glifo mágico surgiu de relance, de fogo. Uma aura emanou da palma de minha mão, chiados são ouvidos e uma fumaça é emanada da região. Mas não era rápido o suficiente e não emanava chama alguma, apenas aquecimento da palam de minhas mãos. A mãe da Aurora gritou pela filha.

— Precisa disso? — ela deu-me meu cajado.

— Sim — disse tendo uma ideia. — Sim! Obrigada Aurora. Já sei o que fazer.

 

 

A mãe da Aurora desceu o cume flutuando como um fantasma e saindo do casulo branco assim que tocou o chão, sussurrava como uma assombração da floresta chamando pela filha procurando-a na floresta. Vejo-a por cima de um arbusto a uma considerável distância, mantive o anonimato, ainda bem, e retorno para Temporizador que está derretendo Shaw do gelo melhor do que eu. Ele cai de joelhos respirando fundo e tremendo com o rosto parecendo que havia contraído hipotermia (o que em teoria aconteceu).

Aurora vestia meu poncho que a dei para que se cobrisse assim que descongelei o primeiro. Verificamos como estávamos e começamos a bolar um plano, Temporizador construiu um, contudo intervi dizendo para apenas a controlarmos e retirar o Objeto de Poder o quanto antes pudermos.

Está dizendo para nos arriscar ainda mais, neutralizá-la é menos arriscado.

— O-olha Temporizador, senhor, Sir, sei lá… eu fiz uma promessa de ajudar a Aurora e vou cumprir, mas preciso de vocês ao meu lado.

Quer salvar a pessoa que nos prendeu?

— Ela só queria proteger a mãe, ela não é perigosa. — Meus olhos viram para a pequena observando a mãe por detrás do arbusto. — Por favor. Não quero que ela sofra como eu sofri com meu pai. A mãe é tudo que restou a ela.

Temporizador fitou-me por uns instantes, por detrás Shaw acena que é uma péssima ideia. Shaw sabe que mesmo na tentativa de salvar mãe de Aurora seria como pedir para que entrássemos num embate contra uma criatura que passou tempo demais com um Objeto de Poder, um ser extremamente poderoso e mortal. É lógico. Matar, para ele, é mais eficiente afinal ele viu muita coisa e viu muitas crianças perderem os pais. O pessimismo de Shaw, no fim, não afetou temporizador, que por sua vez nos juntou, e eu, enfim, propus o plano.

 

 

A mãe de Aurora procura pela filha ainda perdida; um rosto putrificado protege seus olhos que brilham como esferas luminescentes buscando sair da escuridão do seu corpo, suas mãos cresceram suas unhas se assemelham a garras e veste um enorme casaco feito de neve e escuridão. Mas isto tudo é apenas uma carapaça, no centro está a verdadeira, menor e com metade do rosto coberto por pele e crescendo devido à magia do Objeto de Poder que, a propósito, está sendo usado por ela. De longe é como ver o coração humanoide pulsando, grudado ao grande corpo pútrido com veias e veias negras por todo o lugar.

— Aurora, apareça. Agora!… Venha para a mamãe… — diz a voz estridente arranhando o ar.

Aurora saiu do canto escondido do arbusto de trás da criatura. Ela atende. A criatura vê sua filha por cima dos ombros soltando grunhidos ocos. Ela vira o rosto expondo o crânio negro para a filha cuja expressão é de medo da mãe.

— Aurora…

Ela se aproxima da pequena.

— Porque fugiu da mamãe… — ela diz com tristeza. —, dei-nos comida, abrigo e foge da sua própria mãe?

Aurora vai se afastando da criatura cautelosamente.

— Vivemos aqui para nossa segurança, fora do mundo para não saberem de nós… e ainda assim você traz estranhos para nossa casa. Para com sua mãe — seu tom de voz muda. Ela parece estar se enraivando. — Você quer que levem sua mãe embora? É isso?…É, você quer o casaco só para você e deixar a mamãe ser levada embora pelos homens maus, não é?

Ela assusta a filha que está tremendo da mãe.

— Fale sua idiota! — ela berrou antes de ouvir um estalo de árvore. Efetivamente atraiu a atenção dela que recebera um pinheiro bem no meio do rosto voando alguns metros adiante. Fora como se tivessem acertado um disco com um enorme bastão.

Conseguimos desorientá-la. —  Temporizador anunciou largando o enorme pinheiro de seus braços após um acerto bem dado.

A mãe grunhiu alto assim que voou por cima da filha e caiu com força no chão de neve. Ela geme de dor enquanto recuperava os sentidos, o baque fora tão forte que seus sentidos e orientação ainda estavam zonzos e distantes, seu corpo cambaleia sem seguir seus caprichos; Erik pulou para agarrar seus braços revelando, assim, outra habilidade que ele possui: esticou seus braços e invocou raízes do solo para agarrar a criatura e pressionar contra o chão. Cheguei pela frente e, novamente, lancei feitiço de fogo pelo cajado na mãe a fim de a enfraquecer enquanto Shaw e Temporizador correm para a verdadeira mãe da Aurora presa no peito com o casaco. Eles agarram-na se esforçando para retirá-la sem a machucar muito. Ela resiste.

— Não! — ela berra se contorcendo.

De certa forma sinto dó ao vê-la daquele jeito, mas é necessário remover o Objeto antes que ela se mostre mais perigosa. Temporizador alertou-nos de que o uso prolongado afeta a mente e psiquê da pessoa, o Objeto, aos poucos se torna parte do ser e isto explica o motivo do casaco estar praticamente fundido a ela, o enorme casaco de neve começara a derreter e o rosto daquele casulo gigante estava começando a pegar fogo. Era como retirar uma pele super-resistente de um esqueleto sem que este morra. O fogo, aparentemente, derreterá o resto fundido a carne pútrida e o tecido, mas não parecia totalmente certo; Temporizador quem nos deu esta informação, mas com o estado atual em que ambos os materiais se fundiram podemos apenas esperar que dê certo.

— Não! Não vão me levar!

Uma magia fria e instável circulou debaixo dos nossos pés e se revelou como um pequeno furacão, branco e feroz. Houve uma explosão. Jogou-nos longe e Aurora também sentira o impacto; havia sentido que daria certo e que conseguiríamos por um fim nisto. Que ingênua eu fui. A mãe avançou na direção da filha assim que ela a viu, sua respiração encheu seus pulmões frios c0mo se fosse uma ameaça de que transformaria a própria filha em um grande picolé como os outros. Pulei para protegê-la e ouvi o rugido após ela rugir para a filha a chamando de traidora. Ela lançou uma baforada, pude ouvir. “Me perdoe, Aurora”.

O vento soprou meu cabelo e balançou meu corpo, mas não senti a dormência nos músculos como deveria ser, ainda estou viva, mas o mais importante é que não congelei. Virei meus olhos com medo e vi um salvador, desta vez não era Erik. Era outro, um homem destemido e que se pôs a impedir que meu destino nas mãos da criatura vil. Vi sua armadura brilhar entre as chamas, a capa brandir e a posição defensiva em meio à chama de gelo; Temporizador opôs-se perante morte e a terrível criatura pútrida invocando chamas vermelhas para rivalizar com o adversário. Seus braços estão fixos num movimento quase rítmico, à frente está um grande glifo da magia de fogo, assim como mostrou no meu cajado. “Ele é um Nômade também?” pensei, espantada.

Vão!  — Olhou-nos por cima dos ombros enquanto segurava o máximo que podia.

Levantei cm os pés mexendo, prontamente, quase me derrubando. Aurora está em meu colo olhando para a batalha de poder atrás de nós. Então, vejo Temporizador ser jogado por cima de mim. A queda nada o prejudicou e ele, num rápido movimento, rolou-se para se pôr de pé correndo junto a nós. Erik e Shaw se juntaram ao perceber a direção em que íamos, a mãe de Aurora berre enquanto se arrasta como um monstro em nossa direção exclamando para devolverem sua filha, as rajadas de gelo são disparadas, mas continuamos até arfarmos para o chão de gelo logo à frente.

O chão inclinado deu-nos mais velocidade a ponto de quase desequilibrar, Shaw atira algumas granadas para atordoar a mãe, ou atrasá-la. O plano B deu-se início e pisamos no rio congelado; ele consegue nos aguentar, contudo a mãe está tão cega de raiva que não percebeu a armadilha. Enquanto nós mantínhamos o cuidado ao deslisar, ela, por outro lado, craquelou o gelo no primeiro baque da mão, perdera não só o controle da postura mas também do equilíbrio e quase afundara no rio, suas mãos se debatem para fugir e ela grita em negação. Atravessamos, e mantivemos os pés longe do gelo observando a água se acalmar novamente e o silencio retornar. Aurora desce do meu colo e observa o lago, ali perto está o buraco que sempre usou para pescar, o mesmo que adquiria comida para si e para com sua mãe a pessoa que cuidara dela da melhor forma até aquele dia. O dia em que ela não mais precisará daquela vara de pesca improvisada. Agora, sua mãe afundara no lago.

— O que fazemos agora? — Erik perguntou olhando para mim.

Devemos agir, em alguns segundo ela se afogará. Iremos retirá-la e retirar com cautela o Objeto sem prejudicar a vida restante da mãe da criança. — Temporizador explicou, contemplando o lago também.

— Então temos que nos apressar. — Shaw já demonstrou sua seriedade. — Ainda sinto dormência nos músculos. Vamos! Caramba, este lugar está tão amaldiçoado quanto aquela mulher.

Não é simples.

— Claro que é, tirar aquela coisa do lago, conseguir o Objeto de Poder e ir ambora. — Shaw retrucou com a menor delicadeza. Erik o olhou torto. Ele suspirou, e acalmou o tom ao prosseguir: — Olha, só vamos logo tirar ela de lá antes que ela morra e pegar o que viemos buscar.

— Concordo. — Erik diz. — Mal sinto meus dedos…

Enquanto eles discutiam senti o peso e a dor da Aurora, eu compartilhava sua dor, sua perda. Claro que queria que as coisas tivessem terminado de uma maneira alternativa, mas agora o que está feito está feito. Vi de relance pequenas lágrimas dela pela sua mãe enquanto levou as mãos para o peito, ainda usando meu poncho.

Estiquei suavemente meus braços para o ombro dela, mas não mais senti-me digna de dar meu apoio à pessoa que menti, e que também protegi. Como me sentiria digna se fazer algo a mais por ela depois de tudo? Não, e talvez a pequena terá desconfiança de mim pelo reto de sua vida, assim penso. Podemos ter mantido sua mãe viva, mas pus a crer que nossos caminhos se separariam a partir dali. Posso não saber o que se passa na mente dela, mas sei o que há na minha, e é culpa.

Os rapazes se aprontaram e deram os primeiros passos, foi quanto outra explosão de supetão ocorreu, de gelo e água fria bem perto dos seus pés na borda do gelo, ela retornou esbofeteando os rapazes e pulando em nossa direção com maestria. Suas gigantes mãos pútridas agarraram-nos; ela me subjugou e pressionou-me contra o chão. Minhas mãos agarram seus dedos com meu rosto observando o gelo ter consumido parte do corpo e dos ombros, a verdadeira mãe, no coração, está tão molhada e pálida…seu cabelo cobre seu rosto que me observa arfando. O casaco está se conectando à veias e dando carne nova, a magia está a contaminando. Envenenando-a. Suplico em vão e a cabeça gigante se volta para a filha na outra mão, ela a pressiona e observa a própria cria com desdém, com ranço e prepara uma baforada que se acumula com a neve e a água fria serpenteando o crâneo úmido. Sua filha chora de dor, chora de medo. Ela, também, suplica pela mãe voltar a si. Tudo o que a mãe não quer é voltar para onde os “homens maus” a levaram antes.

Sem forças e com o pulmão quase sem ar, apenas posso testemunhar um assassinato. Outro assassinato. Não queria mais aquilo, não podia acontecer.

“Não deveria acabar assim. Não deve.”

Meu olho esquerdo arde. Mas apenas um desta vez, sinto minhas veias borbulharem e arfo velozmente sentindo um poder subir, um poder quase corrupto e indescritível. Tão bruto e incompreensível que mal acreditava ter vindo de mim, sentia uma sinestesia e o arder subir para agressividade contra a mãe. Minha respiração acelera; então, veio um desmaio…

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