DYSTOPIA Brasileira

Autor(a): SkullGuy


Volume 3

Capítulo 21 - Reencontro

QG dos Ceifadores – Aposentos de Sílvia

 

O quarto de Sílvia estava mergulhado em uma penumbra gélida, onde o único calor vinha do abraço em que ambos ainda dormiam de concha. A luz da manhã, filtrada pelas aberturas de aço, refletia suavemente no colar de coração que Henry havia dado a ela, brilhando contra a pele pálida de Sílvia. Quando eles acordaram e seus olhares se cruzaram, o mundo lá fora parecia ter parado por um breve instante. Henry levou a mão ao rosto dela com delicadeza e disse:

 

— Vem comigo, Sílvia!

 

Sílvia franziu o cenho, ainda perdida no rastro do sono e da intimidade da noite anterior.

 

— O quê? — ela perguntou, sem entender a gravidade daquelas palavras.

 

Foi então que Henry revelou o que vinha planejando no silêncio de sua mente: "hoje era o dia em que ele iria fugir da base dos Ceifadores". Ao ouvir aquilo, Sílvia sentiu um solavanco no peito e se afastou bruscamente, o corpo tremendo enquanto o questionava com o olhar, o choque transbordando em sua expressão. Henry não desviou o olhar e continuou, tentando acalmá-la:

 

— Eu vou salvar a minha família a todo custo, mas eu prometo que nenhum deles vai tocar em você. Você tem a minha palavra.

 

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Sílvia, pesadas e carregadas de uma dor que ela não conseguia processar. Henry se aproximou novamente, sua voz baixando para um tom suplicante:

 

— Não, não, não... olha pra mim. Vamos juntos, Sílvia.

 

— Os Ceifadores são a minha família, Henry... — ela respondeu em meio ao choro, a voz embargada pela lealdade de sangue e de trauma que a prendia àquele lugar.

 

Henry ficou em silêncio por alguns instantes, absorvendo o peso daquela recusa. Ele respirou fundo e olhou fixamente nos olhos dela, colocando tudo em jogo:

 

— A escolha é sua, Sílvia. Você pode me deixar ir, sabendo que eu vou te proteger... ou você pode agora contar para os outros o que eu te disse e eu morro aqui e agora.

 

Sílvia ficou ofegante, o peito subindo e descendo com rapidez, sem saber o que fazer ou como reagir diante daquele ultimato mortal. Henry permaneceu ali, imóvel, passando a mão pelo cabelo dela por alguns bons segundos, um último gesto de afeto puro antes do caos.

 

Após esse tempo, ele se levantou e começou a vestir seu traje tático. Ele colocou a máscara, escondendo as feições humanas. Antes de sair, ele parou junto à porta, olhou para Sílvia — que permanecia encolhida, chorando baixo e sem coragem de encará-lo — e disse:

 

— Eu volto, eu prometo.

 

Henry saiu do quarto, fechando a porta levemente atrás de si, deixando Sílvia sozinha com o som do próprio pranto e o peso de um segredo que poderia destruir a todos.

 

A Fuga das Sombras

 

Henry caminhava pelos corredores do QG com a postura de um predador, mas seus olhos, por trás da máscara, mapeavam cada saída. Ao passar pela sala de operações, ele viu Silas; o líder estava debruçado sobre uma mesa tática, movendo peças de xadrez como se estivesse movendo vidas, o rosto coberto pelas faixas brancas focado em um plano de invasão final. Perto dele, Jester ignorava a seriedade do momento, fazendo malabarismo com facas de combate, o tilintar das lâminas sendo o único som que preenchia o vácuo da sala. Henry seguiu em frente, passando pela porta da sala de treinamento. Lá dentro, o som era diferente: o estalo de socos e o metal colidindo indicavam que Elijah, Ian, Fabrizio, Aiden, Lil e Andrew estavam todos reunidos, aprimorando sua letalidade para o churrasco prometido por Silas.

 

Sem ser notado, Henry alcançou a garagem subterrânea. Em sua mão, ele apertava o dispositivo de abertura do portão principal — uma cópia que ele havia conseguido fabricar após as últimas missões de campo — e a chave de uma das motos de alta cilindrada dos Ceifadores. Ele montou na máquina, sentindo o couro frio do banco. O motor rugiu com um som abafado, mas potente. O portão pesado de aço subiu lentamente, revelando a saída. Henry acelerou fundo, sumindo entre as árvores densas das Cascades, enquanto o sol de uma manhã linda e irônica começava a iluminar as copas dos pinheiros.

 

A cena corta bruscamente para o interior do QG. O som da moto partindo ecoou pelos dutos de ventilação, fazendo alguns Ceifadores pararem o que estavam fazendo.

 

— Alguém saiu? — questionou Aiden, limpando o suor do rosto.

 

O Escudo de Lágrimas

 

O som da porta de metal deslizando fez Sílvia sobressaltar-se na cama. Fabrizio entrou. Ao ver a irmã naquele estado, encolhida e com os olhos vermelhos, se aproximou e tocou os ombros dela, sentindo-os tremer sob suas mãos.

 

— Sílvia... o que aconteceu? — a voz de Fabrizio era baixa, mas carregada de uma desconfiança protetora. Ele olhou ao redor do quarto, buscando vestígios de qualquer intruso. — Você viu o Henry? Ele sumiu e alguém pegou uma das motos.

 

Sílvia sentiu o coração disparar contra as costelas, o peso da mentira sufocando sua garganta. Ela olhou para o irmão, forçando cada fibra de seu ser a manter o segredo de Henry. Com a dor latejando no peito por trair o único sangue que lhe restava, ela soluçou e mentiu:

 

— Eu... eu não sei onde ele foi, Fabrizio. Eu não vi ninguém.

 

Fabrizio estreitou os olhos, a mão ainda firme em seu ombro. Ele sentia que havia algo errado, o ar no quarto ainda estava carregado por uma presença recente.

 

— Então por que você está chorando assim? — ele perguntou, buscando a verdade nos olhos da irmã.

 

Sílvia respirou fundo, deixando uma nova onda de lágrimas cair, desta vez usando sua própria tristeza como armadura.

 

— Eu apenas tive um sonho feliz... com a mamãe — ela respondeu, a voz falhando em um sussurro quebrado. — E acordar e lembrar que ela se foi... a saudade dói demais hoje.

 

O gelo na expressão de Fabrizio derreteu instantaneamente. A menção à mãe era a única fraqueza que ambos compartilhavam. Sem dizer mais uma palavra sobre Henry ou sobre as motos, Fabrizio a puxou para um abraço apertado. Sílvia enterrou o rosto no peito do irmão, chorando a perda de um passado que nunca voltaria e o medo de um futuro que Henry acabara de incendiar.

 

QG dos Hereges – Edifício Central

 

— Eles sentiram o golpe — comentou Kane, quebrando o silêncio. — Zack e Diego... dois a menos. O mundo parece um pouco menos lotado de monstros hoje.

 

— Não se engane, Kane — rebateu Kol. — O Silas não vai deixar isso passar. Nós matamos dois deles, mas o Henry ainda está lá dentro. Às vezes eu me pergunto se ele ainda lembra de como é usar uma máscara de madeira.

 

Solomon virou-se devagar, apoiado em sua bengala.

 

— Henry sabe quem ele é. Ele está fazendo o que nenhum de nós teria coragem de fazer. Ele está vivendo no estômago da besta para nos dar uma chance.

 

O diálogo foi interrompido pelo som metálico do elevador ao fundo do corredor. O zumbido elétrico subindo fez com que o ambiente mudasse de imediato. Em um movimento sincronizado, Gun sacou a Magnum, Solomon firmou a bengala e os Hereges cercaram a porta com armas em punho.

 

As portas de aço se abriram com um chiado. Diante deles, surgiu uma figura, vestindo o uniforme tático preto dos Ceifadores. No rosto, a máscara de madeira azul que todos conheciam estava pintada de preto fosco, com a cruz de galhos em prata brilhando de forma sinistra. 

 

— Parado! — rugiu Solomon, a voz ecoando pelas paredes. — Dê mais um passo e eu mesmo garanto que você não saia daqui.

 

A figura não se moveu. Ergueu as mãos lentamente. Através do modulador de voz, que tornava o tom metálico e inumano, ele falou:

 

— Esperem.

 

— Essa voz... — sussurrou Freya, dando um passo à frente.

 

A figura levou as mãos às travas laterais. Com um clique seco, ele removeu a máscara. Sob a tinta preta, o rosto de Henry surgiu, endurecido, mas com os mesmos olhos que Solomon conhecia.

 

— Henry? — Solomon soltou um suspiro.

 

— Sou eu, Solomon — Henry disse, sua voz natural agora preenchendo o salão. — Eu voltei.

 

Kane abaixou a manopla de serra.

 

— Por Deus, Henry... você parece um deles. O que eles fizeram com você?

 

Henry olhou para o próprio traje, depois para os amigos, com um olhar que carregava o peso de tudo o que vivera na base da CIA.

 

Henry caminhou em direção ao grupo, e o primeiro a alcançá-lo foi Kol. Ele apertou em um abraço de urso, batendo em suas costas com força.

 

— Pelas cinzas de Kiev, achei que veria sua cabeça em uma estaca, Henry! Bom ver que você ainda é de carne e osso.

 

Logo em seguida, Steve se aproximou, olhando para Henry com uma curiosidade quase infantil.

 

— Cara, você voltou do inferno e trouxe o uniforme do diabo! Mas o importante é que você não virou churrasco lá dentro.

 

Leo, o caçula, saltou sobre Henry com um abraço rápido e energético.

 

— Eu sabia! Eu disse a eles que você era rápido demais para aqueles esqueletos de metal te pegarem!

 

Beck manteve sua postura pragmática, mas apertou a mão de Henry com uma firmeza que demonstrava seu respeito.

 

— A base não foi a mesma sem você para testar os equipamentos, Henry. É bom ter um braço direito funcional de novo.

 

Vane sorriu, um raro momento de leveza no rosto do bósnio.

 

— A balança da nossa sorte estava pendendo para o lado errado. Sua chegada equilibra as coisas, meu irmão.

 

Por fim, Elena se aproximou, seus olhos de batedora analisando Henry de cima a baixo antes de lhe dar um abraço rápido, mas sincero.

 

— As sombras no centro do Oregon sentiram sua falta, Henry. Bem-vindo de volta ao lado certo da noite.

 

O clima mudou quando Kane segurou o braço de Henry para examinar o novo traje. Os olhos de Kane desceram para as mãos de Henry e ele estancou.

 

— Henry... suas mãos.

 

O grupo silenciou. Kane apontava para os espaços vazios onde deveriam estar os dedos mindinhos de Henry, arrancados pela brutalidade de Lil. Henry fechou os punhos lentamente.

 

— Um presente de boas-vindas do Lil — disse Henry, a voz fria.

 

Finalmente, Freya se aproximou. Ela olhou para Henry com uma gratidão profunda. Ela o abraçou com delicadeza, e Henry retribuiu com um cuidado fraternal.

 

— Obrigada por voltar, Henry — sussurrou Freya. — E obrigada por tudo o que fez por nós lá dentro.

 

Solomon, que assistia a tudo com os olhos marejados, bateu sua bengala no chão uma última vez para reunir a atenção de todos.

 

— O reencontro é uma bênção, mas o uniforme dele nos diz que a paz é curta. Henry, fale. O que o Silas planeja?

 

Henry estava prestes a responder a Solomon, mas sua postura mudou instantaneamente. Ele tencionou os ombros e girou o corpo, os olhos fixos em uma sombra que se movia perto dos geradores ao fundo da sala. Um assobio agudo e debochado ecoou pelo salão, um som que Henry reconheceria em qualquer lugar.

 

— O que esse babaca está fazendo aqui?

 

Mickey saiu das sombras, com seu visual desleixado e um sorriso cínico no rosto. Antes que Henry pudesse avançar, Gun deu um passo à frente, colocando-se como uma barreira de couro entre os dois.

 

— Calma, batedor — disse Gun, mantendo a voz grave. — O garoto é parte do time agora.

 

— Do time? — Henry rosnou, olhando para Gun com incredulidade. — Ele é um cão raivoso, Gun! Ele é instável.

 

— Ele salvou a minha vida e a do Piro naquelas florestas — Gun retrucou, defendendo o executor. — Durante o caos na mansão, ele apareceu do nada. Se não fosse por ele e pela capacidade dele de improvisar uma chacina em segundos, nós dois estaríamos mortos e enterrados sob os pinheiros. Ele é a razão de estarmos aqui.

 

Henry respirou fundo, tentando processar a nova aliança. Ele caminhou lentamente em direção a Mickey, parando a poucos centímetros do rosto do lutador de rua. A memória da briga brutal que tiveram meses atrás, quando Henry ainda servia aos Executores por obrigação, ainda "queimava na mente de ambos".

 

— Diga logo, Mickey — Henry disse, encarando os olhos selvagens do rapaz. — Por que você está aqui? O que você realmente quer?

 

Mickey não recuou. Ele inclinou a cabeça, mantendo o sorriso que raramente demonstrava sanidade, e deu de ombros de forma casual.

 

— Eu só quero fritar uns ovos e ver o circo pegar fogo, batedor — Mickey respondeu. Ele então deu um passo para o lado, apontando para a máscara de Zack pendurada na parede. — E, a propósito... você devia me dar um "obrigado". Fui eu quem matou o Zack. Aquele deus de lata não era tão durão quanto parecia quando eu enfiei o que tinha nas mãos na cabeça dele.

 

Henry olhou de Mickey para a máscara de Zack, sentindo o peso da ironia. O homem que ele mais desprezava no exército de Gun agora era o homem que havia derrubado um Ceifador. Ele relaxou os punhos, mas o olhar permanecia vigilante.

 

— O circo já está pegando fogo, Mickey — Henry murmurou. — E a gente vai precisar de cada psicopata disponível se quisermos apagar as chamas.

 

QG dos Ceifadores – Base da CIA

 

Quase todos os Ceifadores estavam reunidos. Silas permanecia diante da mesa de operações, observando as peças de xadrez que representavam seus soldados. Ele ainda se perguntava mentalmente "onde Henry teria ido", mas decidiu que aguardaria mais um pouco antes de chamá-lo ao rádio.

 

Elijah, ajustando as proteções de seu traje, olhou para o lado e questionou Fabrizio:

— Por que sua irmã não compareceu?

 

Fabrizio, que mantinha uma expressão fechada após ter deixado o quarto de Sílvia, respondeu sem hesitar, protegendo a dor da irmã:

— Ela está cabisbaixa. O motivo não importa, é coisa nossa... — Ele fez uma pausa curta. — Ela disse que não quer ir junto na missão. Pela primeira vez em dez anos, ela pediu para ficar.

 

Silas ergueu a sobrancelha, surpreso com a raridade do pedido, mas não demonstrou irritação. Ele aceitou a decisão, confiando na força do restante do grupo.

— Está tudo bem. Nós daremos um jeito sem ela.

 

O líder então se virou para Ian, que estava encostado em um rack de fuzis de precisão.

— E aí? Tá pronto?

 

Pela primeira vez em uma semana, Ian deu um leve sorriso de canto e acenou positivamente com a cabeça. Silas assentiu, sentindo a confiança do grupo subir.

— Ótimo. Os Hereges que brinquem de parkour nos telhados... nós vamos com poder bélico e com o nosso trunfo!

 

Nesse momento, Jester interrompeu a conversa de forma espalhafatosa, entregando a cada um os braceletes elétricos. O dispositivo era a chave tecnológica das missões dos Ceifadores: ele emitia uma frequência que impedia que os drones de ataque os detectassem como alvos hostis. Com os braceletes, eles podiam caminhar em meio ao caos mecânico sem serem atingidos pela própria tecnologia.

 

Silas travou o seu no pulso, ouvindo o clique metálico do dispositivo.

 

QG dos Hereges – Edifício Central

 

Henry se inclinou sobre a mesa de mapas, a expressão sombria sob a luz das lâmpadas industriais. Ele olhou para cada um dos presentes, deixando o silêncio pesar antes de soltar a primeira bomba estratégica.

 

— Silas não vem para uma troca de tiros comum — disse Henry, a voz firme. — Ele pretende atacar este prédio com um tanque de guerra.

 

O choque foi imediato. Leo deu um passo atrás, com as mãos na cabeça.

— Um tanque? Que porra é essa, cara? Isso é desproporcional! Como se luta contra um blindado no meio da cidade?

 

Henry ergueu a mão, pedindo calma.

— Me deixem terminar. Nós não iremos lutar aqui. Este prédio é uma armadilha de concreto se ficarmos parados. — Ele fez uma pausa e olhou diretamente para Gun, que ouvia tudo com o cenho franzido. — O confronto será na antiga base dos Executores.

 

Kol cruzou os braços, confuso.

— Como assim? A Serraria foi destruída, não sobrou nada lá.

 

— A Serraria era só o coração de petróleo e veículos — explicou Henry, voltando-se para o grupo. — Piro se lembra bem. A base principal era a mini cidade de Chemult, na Rodovia 97. É para lá que iremos levá-los. Eu avisarei os Ceifadores pelo rádio em breve, isso se eles não me chamarem antes. Vou atraí-los para o nosso terreno.

 

Henry então se virou para o casal.

— Gun e Freya, vocês ficarão aqui, seguros no bunker do prédio. Com as defesas eletrônicas ligadas, vocês estarão protegidos. Eu, os Hereges e... — ele suspirou, lançando um olhar de soslaio para o executor — ...o Mickey, iremos para a guerra.

 

— Eu também vou! — A voz de Solomon ecoou com uma autoridade que não admitia contestação.

 

A surpresa foi geral. Solomon, o mentor que há anos não entrava em um campo de batalha direto, firmou sua bengala de aço no chão.

— Eu ainda sei lutar. Serão dez de nós contra sete ou oito deles. Eles têm o poder de fogo, mas nós somos a maioria e conhecemos cada centímetro daquela rodovia.

 

Kane, ainda processando a escala do perigo, interrompeu:

— Espera, Henry. Você falou de um tanque. Como diabos vamos parar uma máquina dessas com serras e facas?

 

Henry deu um sorriso de canto, um brilho estratégico voltando aos seus olhos.

— Não é só o tanque, Kane. Além das armas de fogo que cada um vai levar, tem o Jester. Ele possivelmente ficará no QG operando remotamente; ele controla milhares de drones em missão. É aí que Chemult entra.

 

Henry apontou para os pontos estratégicos no mapa de Chemult, sua voz ganhando um tom de comando que não deixava espaço para dúvidas.

 

— Lá tem postos de gasolina juntos a oficinas e galpões, motéis grandes, casas, restaurantes e até um trem abandonado. Cada um de nós irá observar a chegada deles pelos telhados. Em duplas, cada um ficará em um local que decidirei em breve. Desse modo, os drones não nos pegam; estaremos cobertos pelo concreto e pela estrutura da cidade.

 

Piro franziu o cenho, ainda cético sobre a ameaça pesada.

— Como assim? E o tanque, Henry? Após ele derrubar o portão, é só ele disparar nos prédios e casas com a gente dentro! Ele vai demolir a cidade bloco por bloco.

 

Henry manteve a calma, seus olhos fixos na mesa.

— Eu não sei quem será o responsável por controlar o tanque, mas é aí que nossa armadilha começa. Só temos uma chance de executá-la.

 

Com um movimento seco, ele colocou dois objetos sobre a mesa. O som do metal batendo chamou a atenção de todos: uma granada de fragmentação padrão e o bracelete elétrico dos Ceifadores, aquele que ele havia recebido de Jester na base.

 

— Isso é tudo o que consegui trazer sem ser detectado. Parece pouco, mas se executado certo, vale por um milhão! — Henry explicou, apontando para o dispositivo. — Esse bracelete impede que os drones vejam o usuário como hostil; eles simplesmente o ignoram.

 

Ele levantou o olhar e fixou-o em Mickey, que acompanhava tudo com um sorriso torto.

— Você que gosta de diversão, Mickey... escute bem. Quando eles derrubarem o portão, eu chamarei Silas pelo rádio dizendo que ele é um covarde se atirar com o tanque nas casas. Vou dizer que isso diminuiria os Ceifadores como os maiores assassinos do mundo, transformando-os em apenas covardes com máquinas. Eu conheço o ego dele; ele vai ouvir.

 

Henry gesticulou, simulando o avanço das tropas.

— A tendência é que, após o desafio, cada Ceifador entre em um edifício para nos caçar. Aí já não sei quem enfrenta quem. Mas, enquanto o tanque caminha pela estrada principal entre os prédios... é nesse exato momento que você entra. Você sairá de algum canto com o bracelete no pulso. Os drones de cobertura não vão te atacar. Você vai correr e jogar a granada na boca do canhão do tanque! Quem quer que esteja lá dentro terá que sair rápido se quiser sobreviver à explosão interna.

 

Mickey estalou os dedos.

— Isso vai ser divertido pra cacete, batedor. Adorei o plano.

 

Henry retira da cintura o icônico revólver de cano longo, a arma que outrora pertenceu a Gun.

 

— Toma — disse Henry, entregando o revólver. — Só tem seis balas. Seis chances de matar pelo menos um Ceifador.

 

Mickey olha para o objeto e faz uma careta, uma mistura de deboche e nojo, como se estivesse segurando algo sujo.

— Eca... eu que vivo de improvisar com qualquer objeto como arma, ter que me reduzir a usar poder bélico? Mas tudo bem, batedor. Pelos velhos tempos.

 

Henry ignora o sarcasmo, mantendo o foco.

— O outro revólver ficou com o Gun para a segurança dele e da Freya no bunker. Deixei com ele as munições reservas que restaram da bandoleira que ele carregava no peito. O que você tem no tambor é tudo o que terá em Chemult. Faça valer a pena.

 

Mickey gira o tambor da arma, o som do clique metálico ecoando no salão.

— Seis balas... para sete monstros. Acho que vou ter que ser criativo com a última.

 

Por fim, Henry se afastou da mesa e olhou nos olhos de cada um dos seus irmãos de armas, incluindo Solomon e Gun. O peso da realidade final se instalou no recinto.

 

— Dificilmente todos iremos sobreviver a isso — admitiu Henry, com uma honestidade brutal que fez o silêncio ecoar. — Mas confio que venceremos essa guerra.

 

Fim do Capítulo

 

 

 

 

 

 

 

 

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