Volume 2
Capítulo Especial: Dia de Ceifador
"Este especial situa-se cronologicamente antes dos eventos do capítulo 11: “A Caçada Começa”, servindo como o último vislumbre da intimidade dos Ceifadores antes do conflito com os Hereges."
QG dos Ceifadores – Base da CIA
Local: Banheiro de mármore branco com iluminação frontal infinita
Sílvia está sentada em um banco minimalista enquanto Fabrizio, com uma expressão de concentração absoluta, ajeita as pontas do wolfcut da irmã. O reflexo no espelho mostra dois rostos quase idênticos, pálidos e de uma beleza gélida, contrastando com o metal das armas pousadas na bancada.
— Acha que o branco do meu cabelo está perdendo o brilho para as paredes desse lugar, Fabri? — Sílvia pergunta, tocando uma mecha com os dedos finos, enquanto observa o irmão pelo reflexo.
Fabrizio termina de alinhar a franja dela e começa a passar um pente fino pelo próprio cabelo loiro-branco.
— Considere impossível. Você brilha mais que o LED desse teto, Sílvia.
— Sinto que as memórias do papai e das dores parecem mais reais quando o silêncio aqui fica muito alto. Você também sente?
Fabrizio para o movimento do pente e coloca a mão no ombro da irmã, em um gesto de proteção pura.
— Eu não sinto nada além do dever de te manter viva, Sílvia. Se as memórias voltarem, nós as cortamos com as foices. Agora, termine de arrumar o meu.
Local: Sala de Treinamento Tático
Ian está limpando o cano de seu rifle militar preto com um pano de microfibra, sentado em uma posição perfeitamente ereta. Elijah está de ponta-cabeça, equilibrando-se apenas com as mãos, mantendo o corpo estático enquanto observa Ian com um sorriso gentil e inquietante.
— O baralho do Zack disse que hoje o vento em Cascade vai estar a favor dos seus tiros, Ian. Você deveria sorrir um pouco. Uma execução perfeita merece uma expressão de prazer, não acha?
Ian não desvia o olhar da peça do rifle, movendo as mãos com precisão.
— A sorte é uma variável irrelevante para quem domina a balística, Elijah. E o prazer é um ruído que atrapalha a execução — ele responde de forma pragmática.
— Você é tão funcional, Ian. É por isso que somos a melhor dupla. Você é o cálculo frio e eu sou a dança. Mal posso esperar para ver como os pescoços dos novos alvos vão estalar sob o seu silêncio.
— Apenas certifique-se de não dançar no meu campo de visão — Ian diz, finalmente montando o rifle com um clique metálico satisfatório. — Ordens são ordens. O ritual é seu, mas o resultado final é minha responsabilidade.
Local: Sala Branca
Diego está deitado de cabeça para baixo no sofá, balançando seus brincos de caveira enquanto joga uma granada de fumaça (desativada) para o alto e a pega. Zack está sentado à mesa de vidro à frente, fazendo um castelo de cartas que desafia a gravidade com uma mão só.
— Zack, você acha que se a gente pintar uma das paredes de preto, o Silas mata a gente? — Diego pergunta com um sorriso vibrante, tentando animar o parceiro. — Esse branco todo me dá vontade de fazer uma festa de tinta. Ou explodir algo bem colorido.
Zack sopra levemente o castelo de cartas e puxa o Ás de Copas do fundo, fazendo tudo desmoronar.
— As cartas dizem que o Silas não tem senso de humor para decoração, Diego. Mas o destino gosta de surpresas. Talvez a gente encontre um pouco de cor na missão de hoje.
Diego dá um salto e cai sentado, os olhos brilhando.
— É disso que eu tô falando! Sorte e agilidade. Eu preparo a fumaça, você limpa o campo com a M4, e a gente volta a tempo de ver o Jester fazer aquele truque das moedas desaparecerem. O que acha?
— Eu aposto dez pães de luxo que o Jester vai estar de mau humor hoje — Zack responde, guardando o baralho com um movimento de leque perfeito. — Mas o baralho nunca erra: hoje é nosso dia de sorte.
Local: Depósito de Carga
Silas analisa a prancheta, riscando os itens com uma caneta tática.
— Mantimentos saudáveis, confere. Produtos de limpeza específicos do Aiden, confere. Doces idiotas do Andrew, confere. O quê? Preservativos sabor abacaxi? Quem marcou isso no formulário?
O som suave do motor de um hoverboard ecoa pelo depósito branco. Jester surge deslizando, usando seu traje azul e vermelho, equilibrando-se com uma mão na cintura enquanto a outra faz um sinal de paz.
— Fui eu, Silly! A vida na CIA é tão estéril, não acha? — Jester responde com sua voz fina e saltitante de palhaço. — Precisamos de um pouco de sabor tropical para quando o mundo acabar de vez. O abacaxi é o símbolo da hospitalidade, sabia?
Silas fecha a prancheta com um estalo seco, encarando a máscara de pano de Jester com uma paciência sobre-humana.
— Nós somos assassinos biológicos, Jester, não uma colônia de férias. Não estrague meu inventário de novo ou vou deixar o Lil cuidar da sua próxima manutenção de drones.
— Oh, que mau humor! Mas confessa, você sorriu por dentro — Jester ri, dando um giro de 360 graus no hoverboard antes de acelerar para o fundo do depósito. — Vou guardar na gaveta do Andrew, ele vai achar que é bala de goma!
Local: Jardim Interno da Base
Sílvia está sentada em um banco de metal, olhando para as plantas artificiais com um olhar melancólico. De repente, Jester surge flutuando em seu hoverboard, escondendo algo atrás das costas enquanto seus guizos fazem um tilintar suave e proposital.
— Atenção, atenção! A Rainha da Morte parece um pouco murcha hoje! — Jester exclama com sua voz fina e animada.
Ele faz um movimento rápido de mãos, como um passe de mágica, e revela um pequeno buquê de flores silvestres reais, colhidas em algum lugar perigoso da floresta. Sílvia olha para as flores e, por um breve segundo, a palidez de seu rosto é quebrada por um sorriso genuíno e doce.
— Flores de verdade, Jester? Onde você conseguiu isso? Achei que tudo aqui fosse feito de plástico e aço.
— Um bobo da corte nunca revela seus esconderijos, Sílvia! — Ele faz uma reverência exagerada, quase perdendo o equilíbrio no hoverboard. — Vi que combinavam com seus olhos. Sorria mais, o branco dessa base fica muito mais bonito quando você faz isso.
— Obrigada, Jester — ela diz, segurando o buquê contra o peito como se fosse um tesouro. — Você é o único que consegue trazer um pouco de vida para este lugar. Às vezes, esqueço que ainda somos capazes de apreciar algo bonito.
Local: Pista de Treinamento
Diego está praticando saltos mortais e parkour sobre os móveis brancos, enquanto Jester o persegue no hoverboard, tentando acompanhar a agilidade do parceiro enquanto usa sua voz fina e divertida.
— Mais rápido, Diego! Se eu te atropelar com o meu hoverboard de luxo, o Silas vai descontar do meu salário de palhaço!
Diego ri alto, pegando impulso em uma parede e aterrissando com perfeição.
— Você é muito lento nessa banheira voadora, Jester! Devia deixar eu pilotar isso aí, eu ia fazer um estrago naquelas ruínas de Oregon!
— Nem pensar! Meus drones têm ciúmes desse brinquedo — Jester faz um truque com os dedos, fazendo uma pequena moeda aparecer atrás da orelha de Diego. — Aqui, um prêmio pela sua agilidade. Use para comprar sorte com o Zack.
— Valeu, palhaço! — Diego guarda a moeda com um brilho carismático nos olhos. — Você é o cara. Com você vigiando a gente lá de cima e eu correndo aqui embaixo, ninguém encosta nos Ceifadores. Vamos dar um show!
Local: Corredor de Acesso aos Dormitórios
Fabrizio caminha em direção ao seu quarto quando Elijah surge de uma sombra lateral, girando uma moeda de ouro entre os dedos.
— Você é tão silencioso quanto eu, Fabrizio. É quase irritante caminhar ao seu lado e não ouvir sequer o ranger do couro — Elijah comenta com seu tom amigável, bloqueando levemente o caminho com um sorriso.
Fabrizio para e encara Elijah, os olhos frios e sem expressão.
— O silêncio é uma ferramenta, não um truque de mágica, Elijah. O que você quer? Silas já distribuiu as posições de patrulha para a noite.
— Só queria saber se você estaria disposto a um treino real amanhã. Só nós dois! Quero ver se as suas foices conseguem acompanhar a minha Five-seveN.
— Não perca seu tempo, Elijah. Eu não luto por esporte ou prazer como você — Fabrizio responde, desviando dele e continuando a andar. — Eu só desembainho minhas armas para finalizar alvos. E você ainda faz parte do grupo... por enquanto.
Local: Corredor das Celas de Contenção
Jester desliza em seu hoverboard acompanhando o passo pesado de Lil. O palhaço está equilibrando um nariz de borracha na ponta do dedo enquanto Lil arrasta sua foice gigante, produzindo um som metálico que range contra o chão branco.
— Lil, amigão! O Silas disse que você está parecendo um vulcão prestes a explodir — Jester diz com sua voz fina e saltitante. — Se precisar de um alvo de treino, eu posso programar um drone para gritar "por favor" enquanto você o corta. O que acha?
Lil para bruscamente, a respiração ficando pesada sob a máscara de sorriso psicótico.
— Eu não preciso de máquinas, palhaço. Eu preciso de carne que treme. O silêncio deste lugar... ele me dá ordens. Ele manda eu limpar o branco com o vermelho.
— Oh, o silêncio é um mestre exigente! — Jester ri, fazendo uma pirueta no ar com o hoverboard. — Mas tente se segurar até a noite. Se você sujar o corredor agora, o Ian vai ter um colapso nervoso e eu vou ter que mediar a briga. E ninguém quer ver o palhaço triste, certo?
Local: Depósito de Suprimentos
Andrew está sentado em cima de uma caixa de munição, mastigando um punhado de balas de goma ácidas. Jester aparece de ponta-cabeça, pendurado por um cabo do teto, ficando cara a cara com o caçula dos Ceifadores.
— Bala de goma no café da manhã? Se o Coronel Turner estivesse aqui, ele te transformaria em um experimento de dentista, Andrew! — Jester exclama, balançando as antenas.
Andrew nem se assusta, apenas oferece uma bala verde para o palhaço.
— O mundo acabou, Jester. Se eu morrer hoje, quero que meu sangue tenha gosto de açúcar.
— Justo! Mas guarde um pouco de energia — Jester volta para o seu hoverboard com um mortal. — Vi nos sensores que você andou "esquecendo" de limpar o seu facão. Se o sangue secar na lâmina, ela perde o brilho. E você sabe que eu adoro ver as coisas brilhando nos meus vídeos de drone.
Local: Lounge de Convivência
Zack está fazendo um truque de levitação com uma carta de baralho enquanto Diego ri ao lado. Jester entra na sala fazendo malabarismo com três granadas reais, mantendo um ritmo frenético com sua voz de palhaço animada.
— Zack! Aposto meu chapéu novo que o baralho diz que hoje alguém vai levar um chute no traseiro! — Jester ri, pegando as granadas e guardando-as no traje com uma agilidade que confunde a vista.
Zack puxa uma carta e sorri de lado, mostrando a Rainha de Espadas.
— O destino está agitado hoje, palhaço. Tem uma energia estranha no ar. As cartas dizem que o equilíbrio do grupo vai ser testado antes do pôr do sol.
— Oh, o destino é um brincalhão, assim como eu! — Jester faz uma careta engraçada com a máscara. — Mas cuidado, Zack. Às vezes o curinga aparece quando ninguém está esperando para roubar o pote. Fique de olho na mesa!
Local: Pátio Interno da Base
O grupo está reunido para o check-out de equipamentos quando Jester, deslizando lentamente ao redor de Fabrizio, solta um comentário ácido com sua voz fina:
— Sabe, Fabri... eu andei olhando as gravações. Sua irmã Sílvia é uma verdadeira delícia, não é? Uma deusa da morte... dá até vontade de ser mais que um irmão para ela.
A reação é instantânea. Fabrizio rosna:
— Seu palhaço imundo.
Ele puxa suas duas foices com um estalo metálico, os olhos faiscando de ódio sob o capuz. Ele avança com uma sequência de cortes em arco, mas Jester, no hoverboard, desvia de cada golpe com uma facilidade irritante, rindo como um louco.
Fabrizio é um mestre, mas Jester parece ler seus movimentos antes mesmo de acontecerem. Em um movimento súbito, Jester salta do hoverboard, gira no ar e chuta o pulso de Fabrizio, desarmando-o, antes de aplicar uma rasteira e derrubar o gêmeo no chão. Jester pisa firmemente na cabeça de Fabrizio, imobilizando-o contra o piso branco.
O silêncio cai sobre os outros nove Ceifadores. Jester ativa o modificador de voz, e sua voz se torna um trovão sombrio e mortal enquanto ele encara o grupo:
— Quem é o próximo?
A tensão é sufocante, até que ele desativa o filtro, voltando à voz fina de palhaço. Ele sai de cima de Fabrizio e estende a mão para ajudá-lo a levantar, rindo:
— Ei, ei! Eu estou só brincando com vocês! Calma! É que às vezes sinto inveja de não ter uma dupla, sabe? Preciso de um pouco de atenção!
Local: Enfermaria
Elijah observa Fabrizio pelo reflexo do vidro, mantendo seu sorriso calmo e perturbador.
— Ele se moveu em uma frequência que nem os meus reflexos captaram, Fabri. O Jester não é apenas um estrategista; ele é um predador que escolheu usar guizos para nos dar uma chance de ouvir quando a morte chega.
Fabrizio aperta o curativo, os olhos fixos na parede branca com um ódio contido.
— Ele insultou a Sílvia para me testar. Ele sabia que eu atacaria sem pensar. Aquele palhaço não é um de nós, Elijah. Ele é algo pior que o meu pai criou.
— Pior? Eu diria... aprimorado — Elijah comenta, girando uma faca de combate com elegância. — O modo como ele desativou suas articulações foi poético. Não fique bravo, meu amigo. Hoje aprendemos que o "bobo" da corte é quem realmente segura o cetro nesta base.
Local: Bancada do Refeitório
Sílvia está sentada ao lado de Andrew, observando o caçula separar montinhos de balas de goma por cor. Ela estende a mão e ele, num gesto raro de generosidade, entrega a ela uma bala vermelha em formato de coração, sem tirar os olhos do estoque.
— Você deveria comer algo real antes da missão, Andrew. Só açúcar vai te deixar trêmulo quando precisar segurar o facão — Sílvia diz com uma voz suave, quase materna. — Quer que eu peça ao Silas para liberar uma das rações especiais de frutas para você?
Andrew mastiga ruidosamente, dando de ombros com sua petulância habitual.
— Açúcar é combustível, Sílvia. Além disso, o Jester me disse que se eu comer todas as balas verdes, eu fico mais rápido que o drone dele. Ele é louco, mas os doces dele são bons.
Sílvia sorri levemente, bagunçando os cachos do moreno.
— Não acredite em tudo que o Jester diz, pequeno. Mas guarde esse coração para depois. Vamos precisar de toda a doçura que conseguirmos quando sairmos por aquela porta.
Local: Deck de Observação
— O baralho diz que sua proteção sobre o Fabrizio hoje foi o que evitou um desastre, Sílvia — Zack comenta com seu sarcasmo leve. — Se você não tivesse interferido com aquele olhar, o Jester talvez tivesse esquecido de desligar o modificador de voz.
Sílvia pega a carta, observando o desenho detalhado.
— O destino é cruel, Zack. O Jester só queria provar um ponto, mas ele esqueceu que somos uma família, não apenas peças de um tabuleiro. Você realmente acredita que as cartas decidem tudo?
— Eu acredito que elas dão avisos — Zack responde, embaralhando o resto do maço com um som seco. — E elas dizem para você não carregar o mundo nos ombros hoje. Deixe que a sorte cuide de um pouco do trabalho sujo por você.
Local: Canto Silencioso do Hangar (Lil sentado no chão, abraçando os joelhos)
Lil está em um momento de introspecção pós-surto, tremendo levemente enquanto olha para as próprias mãos. Sílvia se aproxima sem fazer barulho e senta-se no chão frio ao lado dele, colocando uma mão delicada sobre o ombro.
— O barulho parou na sua cabeça, Lil? — ela pergunta em um sussurro acolhedor.
Lil olha para ela com os olhos arregalados, mas não há agressividade, apenas uma vulnerabilidade infantil que ele só mostra para ela.
— Está tudo bem. Ninguém está te dando ordens agora.
Lil relaxa os ombros e encosta a cabeça na parede branca, suspirando.
— Sílvia... as luzes daqui são muito fortes. Elas fazem as memórias brilharem. Mas sua voz é... morna. Como o sol que a gente via antes da Queda. Você é boa.
Sílvia inclina a cabeça e encosta a dela no ombro dele, um gesto de puro carinho fraternal.
— Eu estou aqui. Vamos ficar em silêncio juntos por um minuto. Só nós dois. Sem missões, sem sangue. Apenas o agora.
Local: Sala de Calibração
Ian está focado, ajustando a lente térmica do rifle de Sílvia sob uma luz cirúrgica. Sílvia observa suas mãos firmes, notando como ele trata a arma com um rigor que nunca demonstra com as pessoas. O silêncio é absoluto, quebrado apenas pelos cliques metálicos da ferramenta de Ian.
— Obrigada por ajustar o meu fuzil, Ian. Silas diz que você é o único que entende a alma dessas máquinas tanto quanto eu entendo a distância dos alvos — Sílvia diz, quebrando o gelo com uma voz suave e respeitosa.
Ian termina o ajuste e desliza o fuzil pela mesa branca para ela, sem mudar a expressão séria.
— Armas não têm alma, Sílvia. Elas têm mecânica e física. Se você confiar na alma, você falha. Se confiar na calibração, o alvo morre conforme o planejado.
Sílvia pega a arma e sente o equilíbrio perfeito do peso.
— Você é tão pragmático que chega a ser assustador, Ian. Às vezes acho que você é o único de nós que o laboratório realmente conseguiu transformar completamente em uma ferramenta.
— A diferença entre uma ferramenta e uma vítima é a utilidade — Ian responde, pegando seu próprio rifle. — Mantenha a mira no centro da massa. A estética do tiro não importa, apenas o resultado. Boa caçada.
Local: Corredor dos Espelhos
— Sílvia, minha querida deusa, você está excepcionalmente pálida hoje. O contraste com o seu cabelo branco é uma obra de arte que merecia ser pintada, não apenas filmada pelos drones do Jester — Aiden comenta com seu tom sádico e vaidoso.
— Sua obsessão com a aparência ainda vai te fazer ser o primeiro a cair, Aiden. O veneno nas suas flechas é letal, mas a sua vaidade é um rastro que qualquer rastreador iniciante seguiria.
Aiden ri, passando a mão pelo cabelo.
— Se eles me seguirem, terão o privilégio de ver a perfeição antes de morrerem sufocados. Além disso, se eu morrer, quero estar apresentável. Imagine o horror de ser um cadáver feio em um mundo tão cinza?
— Você é incorrigível — ela diz com um leve balançar de cabeça, quase sorrindo.
Local: Quarto do Fabrizio
Sílvia está sentada na cama, penteando os cabelos, quando Fabrizio entra e senta-se ao seu lado. Ele olha para ela por um longo tempo em silêncio, sua expressão calma e taciturna suavizando-se em algo que beira a melancolia pura.
— Sabe... hoje, quando o sol bateu no seu rosto no pátio, eu vi a mamãe em você — Fabrizio murmura, sua voz sendo apenas para os ouvidos dela. — Os mesmos olhos, a mesma forma como você inclina a cabeça quando está pensando em algo triste.
Sílvia para o pente e olha para o irmão, os olhos brilhando levemente.
— Você acha? Eu quase não me lembro do rosto dela sem o véu das memórias do Coronel.
Fabrizio coloca a mão sobre a dela, apertando-a com firmeza.
— O papai nos deu o sangue, mas ela nos deu o sangue e esse olhar. Você é o que sobrou de bom nela, Sílvia. É por isso que eu mataria cada um nesta base se alguém ousasse manchar essa semelhança.
— Nós somos o que restou dela, Fabri — ela encosta a cabeça no ombro dele. — Enquanto estivermos juntos, ela não terá morrido totalmente. Mesmo que sejamos deuses da morte, ainda somos os filhos dela.
Local: Quarto de Sílvia (Meio da Noite)
Sílvia acorda bruscamente com um tilintar quase inaudível. Ela olha para cima e vê Jester pendurado de ponta-cabeça no duto de ventilação, sem o modificador de voz, apenas com seu traje de bobo da corte balançando no escuro.
— Feliz... hum... terça-feira de madrugada, Sílvia! — Jester sussurra com sua voz fina e alegre. — Eu estava patrulhando os sonhos do grupo e notei que os seus estavam muito cinzas. Então, trouxe um pouco de "mágica" do depósito secreto da CIA.
Ele desce levemente pelo cabo e estende um objeto redondo e pesado. Sílvia o pega: é um globo de neve antigo. Ao balançar, pequenos flocos brancos flutuam sobre uma cabana solitária em uma floresta em miniatura.
— É lindo, Jester. É real? — ela pergunta, tocando o vidro frio enquanto a neve artificial cai lentamente. — Parece... paz. Algo que não temos aqui embaixo.
— Eu achei em uma caixa rotulada como "Lixo Emocional". Imagine só! — Jester ri baixinho, voltando para o duto. — Agora você tem uma tempestade que pode controlar. Durma bem, Rainha. O palhaço está vigiando as sombras para você.
Local: Torre de Vigia Superior
Sílvia estava com os braços apoiados no parapeito de aço, sentindo o vento frio do vale. Lá embaixo, estendendo-se por quilômetros, o milharal seco sussurrava com a passagem de algo muito mais rápido que o vento. Através do binóculo tático, ela observava o rastro de destruição. Os Espantalhos estavam em plena atividade.
— Eles estão animados hoje — Jester comentou ao lado dela, ajustando a frequência do rádio para captar o ronco ruidoso das motosserras que subia da planície. — Um grupo de saqueadores tentou cortar caminho pelo setor oeste. Coitados... não duraram cinco minutos.
Sílvia pegou o binóculo e focou em um dos vultos. Um dos 40 poloneses, usando trapos imundos e uma máscara de palha costurada à mão, levantava sua motosserra em saudação para a torre, como se soubesse que seus deuses estavam observando.
— Olha só para eles, Jester — Sílvia deu um sorriso genuíno, algo raro de se ver. — Eles são fofos, não são? O jeito como correm entre as palhas... parece uma peça de teatro infantil, se a peça fosse escrita por um psicopata.
— Eles são os nossos palhaços de guarda — Jester deu uma risadinha, inclinando o corpo perigosamente para fora da torre. — Os Executores eram úteis, mas os Espantalhos têm alma. Eles não matam apenas por ordem, matam por devoção. Eles nos viram descendo do helicóptero ontem e o líder deles quase teve um colapso religioso na lama.
Para os Ceifadores, aquela facção era a única que merecia o direito de existir no caminho para sua casa. Ver aqueles poloneses loucos protegendo os arredores do QG com um zelo quase místico trazia um conforto bizarro para a dupla.
— Deixe que fiquem com os restos dos saqueadores — Sílvia disse, afastando-se do parapeito e começando a caminhar em direção às escadas que levavam aos dormitórios. — É bom ter vizinhos que entendem o valor de uma boa máscara.
Jester soltou um último assobio em direção ao milharal, um sinal agudo que fez os Espantalhos lá embaixo pararem por um segundo em reverência silenciosa, antes de voltar para os alojamentos logo atrás da Rainha.
Local: Oficina de Armas
Elijah está sentado calmamente, os olhos focados enquanto desliza, com precisão cirúrgica, o pente carregado para dentro de sua Five-seveN. Sílvia se aproxima pelas costas, escondendo uma fatia generosa da torta de raízes do Jester em um prato de polímero.
— Elijah, você está muito tenso com essa calibração — Sílvia diz com uma voz falsamente doce.
Antes que o prodígio pudesse reagir com seus reflexos sobre-humanos, ela esmaga a torta diretamente contra a máscara de esqueleto dele, cobrindo de creme e farelos. Elijah congela com a arma na mão, o recheio escorrendo pelas fendas da máscara. Ele permanece em silêncio por cinco segundos, até que solta um riso baixo e genuinamente amigável.
— O açúcar realmente afeta o julgamento de vocês, Sílvia. Mas admito... o Jester caprichou no recheio.
— Considere isso o meu ritual de hoje — Sílvia ri, limpando um pouco de creme do próprio dedo. — Você fala tanto em prazer na luta, achei que gostaria de sentir o prazer de uma derrota doce pela primeira vez na vida.
Local: Corredor de Acesso ao Comando
Silas caminha, parando diante de Jester.
— Quero os drones em formação de varredura térmica no quadrante 4, Jester. Sem truques, sem atrasos. É uma ordem direta — diz Silas, sua voz baixa e autoritária ecoando no corredor branco.
Jester para o hoverboard, inclinando a cabeça com suas antenas balançando.
— Claro, Silly! Ordem recebida e anotada no meu caderninho imaginário!
Ele começa com sua voz fina, mas subitamente desce do aparelho e caminha até Silas, ativando o modificador de voz. O tom metálico e pesado de Jester vibra no ar enquanto ele toca levemente o pescoço de Silas.
— Você pode ser o líder, mas eu? Eu sou o cabeção deste lugar — ele sussurra, a voz distorcida carregada de uma frieza ancestral. — Não esqueça que, há dez anos, eu fui o único do projeto que você não venceu! Lembre-se do real motivo pelo qual você usa essa faixa, seu imbecil de merda.
Silas trava, os olhos gélidos fixos no vazio enquanto a memória do laboratório e daquele empate brutal ressurge. Jester desliga o modificador instantaneamente, volta para o seu hoverboard e segue seu caminho saltitando e cantarolando uma melodia de circo. Silas permanece imóvel no corredor por um longo tempo, processando a ameaça velada e a verdade histórica que Jester acabara de jogar em seu rosto. O líder dos Ceifadores sabe que, no xadrez da base, o palhaço é a única peça que ele não consegue capturar.
Local: Banheiro Privativo de Sílvia (paredes de cerâmica branca e vapor)
Jester desliza silenciosamente pelo corredor quando vê a porta entreaberta. Antes que possa reagir, a mão pálida de Sílvia o puxa para dentro e tranca a porta.
— Rainha? O que você está fazendo? Eu tenho drones para calibrar! — ele sussurra com sua voz fina, confuso.
Sílvia coloca o dedo sobre os lábios da máscara de Jester, os olhos brilhando com uma malícia rara.
— Hoje é meu aniversário e do Fabrizio. Quero testar uma coisa para ver se ele enlouquece — ela murmura, segurando o riso.
De repente, ela respira fundo e começa a gemer alto contra a porta branca:
— Ai Jester, seu animal! Não para, não para! Por que você não me disse que era tão habilidoso assim, Jester?
Ela grita, abafando o riso com a mão enquanto olha para o palhaço. Jester entende o plano instantaneamente; ele se curva, cobrindo a boca com as mãos enluvadas para não explodir em uma gargalhada. Para completar a encenação, Jester pega um pote de shampoo e começa a batê-lo ritmicamente contra a parede metálica, criando um som de impacto ecoante. Ele faz um sinal de joinha para Sílvia, enquanto ela continua a performance vocal que está prestes a derrubar a base.
A Reação do Grupo
Local: Sala Branca
No sofá branco, a reação é imediata. Diego arregala os olhos e deixa sua granada de fumaça cair no chão.
— Gente... o palhaço? Sério? Eu achei que ele só gostava de circuitos e baterias! — ele comenta, entre o choque e o riso.
Zack para de embaralhar as cartas, olhando para o teto.
— O baralho não previu esse... "movimento" inesperado. O Jester realmente tirou o Curinga hoje.
Andrew mastiga seu doce lentamente, com uma expressão de nojo misturada com curiosidade.
— Que barulheira chata. Se o Silas ouvir isso, ele vai transformar o Jester em sucata antes do jantar — resmunga o caçula.
Lil, por outro lado, inclina a cabeça para o lado, parecendo fascinado.
— O som... é diferente dos gritos. É um som de... ordem? Eu não entendo.
Enquanto isso, no corredor, Elijah passa calmamente pela porta do banheiro. Ele para por um segundo, ouve a performance de Sílvia e o som do pote de shampoo, e solta um riso nasalado, balançando a cabeça com sua suavidade habitual.
— Esse palhacinho... — sussurra Elijah para si mesmo, continuando seu caminho com um sorriso divertido sob a máscara. — Ele realmente sabe como incendiar uma casa branca.
Local: Cozinha
Na cozinha, o som atravessa os dutos de ventilação. Silas para de cortar seu pão, a faca travada no ar e os olhos gélidos fixos na parede. Ian limpa o canto da boca com um guardanapo, mantendo a expressão pragmática, mas com uma sobrancelha levemente erguida. Aiden solta uma risada curta, ajeitando o topete.
— Bem, parece que o Jester tem talentos que nem os drones captam, não é?
Fabrizio está parado no centro da cozinha, tremendo visivelmente.
— O que... aquele imbecil... está fazendo com a minha outra metade? — ele sibila, a voz carregada de um ódio mortal que faz a temperatura da sala parecer cair.
Ele puxa suas foices com um estalo violento, os olhos injetados.
— Eu vou matar ele! Eu vou arrancar cada guizo daquele traje e enfiar na garganta dele! — ele ruge, partindo em direção à porta em um estado de fúria absoluta que nem Silas tenta impedir.
Lá dentro do banheiro, Sílvia e Jester trocam um olhar de pânico divertido ao ouvirem os passos pesados e os gritos de Fabrizio se aproximando.
Fabrizio está com as foices em punho, pronto para derrubar a porta, quando o trinco gira. Sílvia abre a porta com uma calma gélida, envolta apenas em uma toalha branca, com seus cabelos brancos molhados grudados nos ombros pálidos. Atrás dela, Jester surge sem o traje, vestindo apenas uma cueca azul e vermelha que combina com sua máscara e antenas. Pela primeira vez, suas cicatrizes laboratoriais estão expostas, marcas profundas de cirurgias e experimentos que cobrem seu tronco esguio.
Fabrizio trava, a respiração pesada morrendo na garganta. Ele encara a irmã, e depois os olhos negros da máscara de tecido de Jester, mas não consegue proferir uma única palavra; o choque de ver a cena que ele imaginou ser real o paralisa como um veneno. Sílvia sustenta o olhar do irmão, mantendo uma expressão seriamente fria e distante, como se nada de incomum estivesse acontecendo.
— Oi, irmão. O barulho te incomodou? Sinto muito — Sílvia diz, sua voz soando como navalha cortando o silêncio do corredor. — Eu precisava me aliviar do peso das missões, e o Jester se mostrou... muito disposto a ajudar. Algum problema com a minha escolha?
Fabrizio continua estático, as mãos tremendo sobre o cabo das foices, completamente capturado pela armadilha psicológica que a irmã armou. Jester caminha até Fabrizio e dá dois tapinhas amigáveis no ombro do gêmeo, fazendo os guizos tilintarem no rosto do Ceifador paralisado.
Sem dizer mais nada, Sílvia e Jester passam por ele, caminhando lado a lado pelo corredor. Eles atravessam a sala, sob os olhares estupefatos de Diego, Zack, Lil e Andrew, e entram na cozinha diante de um Silas e um Ian que, pela primeira vez em dez anos, parecem não saber como reagir ao que estão vendo.
O silêncio na base nunca foi tão denso, mas desta vez não é o silêncio da eficiência, e sim o da perplexidade total. Jester, ainda de cueca e máscara, pula em seu hoverboard e começa a flutuar ao redor da mesa da cozinha, pegando uma maçã e dando uma mordida ruidosa enquanto olha para Silas.
— A noite está chegando — a voz de Silas finalmente ressoa, tentando recuperar a ordem, embora seu olhar ainda desvie das cicatrizes expostas de Jester. — Vistam-se. Temos uma floresta para silenciar. E Jester... coloque a droga das suas calças.
Jester apenas faz uma saudação militar cômica, rindo com sua voz fina enquanto acelera o hoverboard em direção aos seus aposentos.
O Despertar da Morte
Local: Floresta de Cascade / QG dos Ceifadores
Enquanto a base branca da CIA mergulha no modo de segurança, o cenário muda para a escuridão úmida e sufocante de Cascade. Dez silhuetas negras avançam entre as árvores centenárias com uma coordenação fantasmagórica. Os uniformes táticos pretos absorvem a pouca luz da lua, e as máscaras brilham como faróis de mau agouro entre os arbustos.
Longe dali, no conforto gélido do QG, Jester está jogado no sofá branco, observando a movimentação do grupo através de um tablet. Ele está sem a máscara, revelando apenas a parte inferior de seu rosto enquanto saboreia calmamente uma tigela de macarrão. O brilho das telas reflete em seu queixo, e um sorriso de canto surge enquanto ele vê os pontos térmicos dos seus irmãos se posicionando.
— Eles estão esperando por nós, Silly — Jester murmura para o microfone, sua voz oscilando uma última vez entre a diversão e o abismo. — Eles acham que as cruzes de galhos vão mantê-los seguros. Eles querem a morte? Bem... vamos dar a eles o que pediram.
O Povo da Noite avança, fundindo-se às sombras da floresta. O tempo de brincadeiras acabou. A calmaria da base foi apenas o prelúdio para a tempestade de sangue que está prestes a desabar. Os Ceifadores estão soltos, e a caçada, enfim, começou.
Fim do Capítulo
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