DYSTOPIA Brasileira

Autor(a): SkullGuy


Volume 2

Capítulo 15 - Energia da Alma

Sala de Treinamento – QG dos Ceifadores

 

O som do combate não era de ossos estalando, mas do zumbido elétrico do hoverboard de Jester e das lufadas de ar que Henry desperdiçava a cada soco lançado no vazio. Vestido completamente de preto, Henry parecia uma sombra tentando agarrar o vento. Seus movimentos eram precisos para um humano, mas Jester era uma anomalia.

 

Henry lançou um direto de direita, visando a máscara de pano do bobo da corte, mas Jester inclinou a cabeça para o lado com um movimento plástico, quase mecânico.

 

— Errou de novo! Onde está aquela agressividade das ruas, Azulzinho? — Jester zombou, a voz afinada e saltitante ecoando nas paredes metálicas. Ele girou em torno de Henry, os guizos de seu traje soando como uma risada constante. — Eu não sou rápido, Henry... o mundo é que é lento para mim! Você luta como se estivesse nadando em mel.

 

Henry rosnou. Ele tentou uma rasteira, mas Jester acionou a propulsão do hoverboard, saltando sobre ele e aterrissando suavemente atrás do Herege. Antes que Henry pudesse se virar, sentiu o braço de Jester envolver seu pescoço.

 

O braço era fino, mas a força era de uma prensa hidráulica. Jester abandonou o hoverboard e travou as pernas na cintura de Henry, puxando-o para o chão em um mata-leão perfeito. O mundo de Henry começou a escurecer.

 

— Sabe o que eu vejo quando olho para você? — A voz de Jester mudou. Ele acionou o modificador de voz, e o tom de palhaço deu lugar a um trovão metálico e sem alma que vibrou diretamente no ouvido de Henry. — Eu vejo um cadáver que ainda não percebeu que parou de respirar. Se continuar assim, como você irá sobreviver lá fora? Silas não quer uma mascote, ele quer um Ceifador.

 

Henry sentiu a visão latejar em vermelho. Ele bateu duas vezes no braço de Jester — o sinal de rendição.

 

O aperto sumiu instantaneamente. Jester saltou de volta para seu hoverboard, recuperando a voz fina e a maçã que havia deixado sobre um banco.

 

— Melhorou! Pelo menos você sabe quando perder.

 

A porta pneumática da sala de treinamento deslizou com um chiado. Sílvia estava parada ali. Ela não usava o traje de combate completo, apenas a calça tática e uma regata preta que revelava as cicatrizes cirúrgicas em seus ombros pálidos. A máscara de lágrimas negras estava presa ao seu cinto.

 

Seus olhos verdes gélidos percorreram o estado deplorável de Henry.

 

— Chega de brincar com o bobo, Henry — Sílvia disse, sua voz melancólica carregando uma autoridade silenciosa. — Vá se limpar. Silas está esperando. Hoje você vem conosco.

 

Henry se levantou.

— Para onde?

 

Sílvia o encarou por um momento, e Henry viu uma centelha de algo que era aviso em seu olhar.

 

— Derrubar mais um grupo. Silas quer ver se o preto da sua roupa combina com o sangue dos infiéis. Vamos caçar os Condutores.

 

A Estrada Para a Energia

 

O veículo blindado preto dos Ceifadores cortava a névoa matinal com a precisão de uma bala. Silas estava no piloto, a máscara de crânio repousando no painel. Ele não olhava para Henry, que estava no banco de trás ao lado de Sílvia, mas sua presença preenchia todo o espaço.

 

— Os Condutores acham que o mundo é uma equação, Henry — Silas começou, sem se virar. — Eles cercam territórios com fios de cobre e acham que podem cobrar impostos sobre o sol. Ontem, eles interceptaram uma carga de baterias que deveria vir para nós. Vector cometeu o erro de achar que a "matemática" dele o protege da nossa fome.

 

Silas finalmente se virou, os olhos fixos nos de Henry.

 

— Eu vou te dar uma arma hoje. Uma de verdade. Mas lembre-se: se você hesitar, se um único Condutor conseguir disparar aquele arbalete de voltagem em mim ou na Sílvia porque você teve "piedade"... eu deixo o Lil terminar o que começou com os seus outros oito dedos.

 

Sílvia entregou a Henry um fuzil M4 preto fosco, idêntico ao dela. 

 

— Não se preocupem, vocês dois — Henry diz, e há uma frieza nova em seu tom. — Já provei minha lealdade matando aqueles supremacistas e os Espectros. Hoje não vai ser diferente. Mas vamos tentar conversar com eles primeiro, saber o que eles querem. Dependendo da resposta, a gente decide se atira pra matar ou só pra mandar pro céu.

 

Silas sustenta o olhar de Henry por um momento longo demais. Ele parece procurar qualquer vestígio de hesitação, mas só encontra a determinação de um homem que já perdeu quase tudo.

 

— Os Espectros foram um bom treino, Henry — Silas comenta, voltando-se para a estrada. — Mas eletricidade não sangra como carne comum. Sílvia, dê a ele o canal de negociação.

 

O Perímetro de Alta Voltagem

 

O veículo para diante da cerca de cabos. O zumbido de 60 Hz é uma tortura para os ouvidos. Henry desce. Os quatro Condutores, com seus trajes de borracha e máscaras de vidro, apontam suas lanças de fibra de vidro.

 

Henry dá um passo à frente, mantendo o fuzil em repouso, mas a postura agressiva.

 

— Eu sou Henry, dos Ceifadores. E antes de decidirmos se vamos transformar este lugar num cemitério de metal, queremos conversar — Henry projeta a voz, ignorando o campo estático que faz os pelos de seus braços se arrepiarem. — O que vocês querem em troca das baterias? Digam o preço. Se for justo, saímos em paz. Se não for... — Henry levanta levemente o fuzil — ...eu mesmo vou garantir que o "sistema" de vocês sofra um curto-circuito terminal.

 

O silêncio dura até que os alto-falantes nos postes de alta tensão estalam. A voz de Vector surge, carregada de um sotaque francês arrogante.

 

— Conversar? Um Ceifador que usa a lógica antes da bala... que erro de cálculo fascinante. Silas deve estar ficando sentimental. Vocês querem as baterias? Elas já foram integradas à Grande Rede. Mas eu sou um homem de negócios, não de desperdício. O preço da devolução é o seu sistema nervoso. Você seria a bateria perfeita para o meu laboratório central por... digamos... o resto da sua curta vida.

 

Silas, encostado no blindado com uma calma aterrorizante, olha para Henry e dá um sorriso de lado por trás das faixas.

 

— Aí está a sua "conversa", Henry. Eles não querem metal. Eles querem a gente para gerar energia. E então? — Silas destrava o bidente oculto na manopla com um estalo metálico. — Vamos mandar eles pro céu ou eu posso começar a descascar esses trajes de borracha?

 

— Tá legal, tentei do meu jeito — Henry diz, a voz agora distorcida e gélida pelo modificador da máscara negra. — Agora vai ser do jeito dos Ceifadores!

 

Antes mesmo de terminar a frase, o caos explode.

 

O Massacre de Alta Voltagem

 

Henry corre em direção a um dos Condutores que tentava carregar um arbalete. Henry saca o M4 e dispara uma rajada curta de três tiros. As balas atravessam o visor de vidro grosso do inimigo, estilhaçando a porcelana do isolador e fazendo o traje de borracha colapsar em uma poça de fluidos e eletricidade estática. Henry gira no próprio eixo, usando o fuzil como clava para desviar uma lança e termina o movimento com um chute frontal que joga o adversário contra a cerca eletrificada, fritando o sistema nervoso do Condutor em segundos.

 

Sílvia se move com uma elegância assustadora. Enquanto Henry é explosivo, ela é cirúrgica. Ela caminha calmamente pelo campo de batalha, o M4 apoiado no ombro, disparando com uma precisão desumana. Um inimigo tenta flanqueá-la, mas Sílvia atira na cabeça dele. Através do brilho do local, ela abate mais dois, movendo-se entre os raios como se fosse parte da própria tempestade, o rosto da máscara permanecendo impassível enquanto ela limpa o perímetro.

 

Silas ignora o fuzil. Para ele, isso é pessoal. Ele avança como um tanque de carne e osso. Um dos Condutores dispara um virote de alta voltagem diretamente em seu peito, mas Silas mal cambaleia — a modificação biológica e o colete de nível militar absorvem o impacto. Com um rugido baixo, ele agarra a lança de fibra de vidro de um atacante com as mãos, ignorando os choques que percorrem suas luvas. Silas puxa o homem para perto e, com um movimento seco, dispara o bidente oculto da manopla. As duas pontas de ferro atravessam o traje de borracha e o peito do Condutor como se fosse papel. Ele ergue o corpo do homem acima da cabeça e o arremessa contra os transformadores próximos, causando uma explosão de faíscas azuis que ilumina todo o vale.

 

Em menos de dois minutos, o solo está coberto por trajes de borracha vazios e fumaça de ozônio. Os quatro guardas da frente e os reforços que saíram da névoa foram dizimados. O zumbido de 60 Hz agora é acompanhado pelo som de metal retorcido e carne queimada.

 

Silas limpa o sangue do bidente na manga do traje e olha para Henry. Há um brilho de aprovação quase cruel em seus olhos.

 

— Viu, Henry? A matemática deles não previu a nossa chegada.

 

Vector grita pelos alto-falantes, a voz agora tremendo de fúria e medo:

— VOCÊS... VOCÊS SÃO MONSTROS! O DESPERDÍCIO DE VIDA É UMA EQUAÇÃO QUE NÃO POSSO PERDOAR! RECUEM OU EU VOU SOBRECARREGAR TODO O GRID E EXPLODIR ESTA REGIÃO COM VOCÊS DENTRO!

 

Silas olha para Henry e Sílvia. — Henry, a decisão é sua: entramos na base para desligar o sistema manualmente ou usamos o blindado para derrubar os geradores principais e deixar esse lugar no escuro?

 

— Quem sou eu pra decidir? — Henry diz, sua voz saindo firme e sem emoção pelo modificador. — Você é o líder, faça o que achar melhor... contanto que cheguemos nele.

 

Silas para por um segundo. Um sorriso lento e predatório surge em seu rosto. Ele dá um tapinha pesado no ombro de Henry, um gesto de reconhecimento de que o Herege finalmente entendeu seu lugar na matilha.

 

— Justo, Henry. Muito justo — Silas murmura. — Sílvia, abra caminho. Vamos visitar o matemático.

 

O Coração da Rede

 

Eles invadem o laboratório central. O local é uma catedral de metal e fiação, com Vector escondido atrás de sua cúpula de vidro blindado, conectado ao sistema como um parasita elétrico.

 

— Parem! Se derem mais um passo, eu sobrecarrego o sistema! — Vector grita, a voz trêmula. — A eficiência exige que vocês recuem! Eu posso explodir tudo!

 

Henry não espera Silas dar a ordem. Ele caminha calmamente até a base da cúpula, ignorando os avisos. Ele olha para Vector através do vidro, a máscara de Ceifador refletindo os arcos elétricos da sala.

 

— Você ouviu o que eu disse lá fora? — Henry pergunta, sua voz soando como um veredito. — Eu tentei conversar. Mas os Ceifadores não gostam de matemática. Eles gostam de resultados.

 

Silas e Sílvia se posicionam logo atrás de Henry, como sombras de morte. Silas entrega a granada de fragmentação para Henry, mas mantém os olhos fixos em Vector.

 

— Henry disse que eu decido — Silas diz, olhando para o líder dos Condutores. — E eu decidi que o mundo não precisa de contadores de energia. Henry... mostre a ele o que acontece quando a conta não fecha.

 

Henry não perde tempo com as súplicas desesperadas de Vector. Ele puxa o pino com um movimento seco e solta a granada diretamente no vão dos geradores que alimentam a cúpula de vidro.

 

"A conta fechou."

 

Ele se vira de costas antes mesmo da explosão. O estrondo sacode a base, e uma onda de choque de fogo e estilhaços de cobre rasga a plataforma. A cúpula de vidro se estilhaça em bilhões de fragmentos, e os gritos do líder francês são engolidos pelo som do curto-circuito terminal. O sistema central entra em colapso, mergulhando o laboratório em uma luz vermelha de emergência.

 

No meio do caos e da fumaça, a batalha ainda não acabou.

 

Um Condutor remanescente, escondido atrás de uma coluna de alta tensão, surge das sombras com uma lança de fibra de vidro carregada. Ele avança em direção a Sílvia, que estava momentaneamente distraída ajustando a máscara após a explosão.

 

Henry reage por instinto. Ele usa o fuzil e dispara três vezes na lateral do capacete de vidro do atacante. O corpo do homem cai a centímetros das botas de Sílvia.

 

Henry guarda a arma, caminha até ela e, com um tom de voz que mistura a nova frieza de Ceifador com um rastro do antigo Henry, diz pelo modificador:

 

— Você me deve um drink, "Pequena Morte".

 

Sílvia o encara por trás das lágrimas negras da máscara. Ela não agradeceu com palavras, mas Henry nota o sutil inclinar de sua cabeça — um reconhecimento de dívida de sangue que, entre os Ceifadores, vale mais que qualquer promessa.

 

Enquanto isso, ao fundo, Silas é uma força da natureza. Cinco Condutores tentam cercá-lo, desesperados para vingar seu líder. Silas nem sequer se dá ao trabalho de recarregar o fuzil. Ele se move entre eles como um fantasma branco e preto.

 

Com uma mão, ele agarra o pescoço de um Condutor e o esmaga contra a parede; em seguida, ele dispara os bidentes das manoplas, atravessando dois inimigos um de cada vez. Ele gira, desfere um soco em um homem e finaliza o último quebrando sua coluna com um movimento fluido de joelho. Em poucos segundos, Silas está parado no centro de uma pilha de corpos, sua respiração nem sequer alterada.

 

Ele olha para Henry e Sílvia, a luz das chamas refletindo em sua máscara de crânio.

 

— As baterias estão no hangar dos fundos — Silas anuncia, a voz vibrando com a satisfação do triunfo. — Henry, você fez bem. Hoje, o Oregon entendeu que não importa o quanto você se esconda atrás de fios e cálculos... a Morte sempre sabe o caminho.

 

O Retorno

 

No caminho de volta, o blindado está silencioso. Sílvia limpa uma gota de sangue do traje, ocasionalmente olhando para Henry. Silas observa o horizonte, já planejando os próximos passos.

 

Henry, por trás de sua máscara negra, olha para os próprios dedos enfaixados. Ele salvou uma vida, tirou dezenas e agora tem ainda mais respeito dos monstros que o caçaram. Mas, no fundo de sua mente, ele ainda ouve o zumbido de 60 Hz e se pergunta quanto de sua própria energia ele ainda tem antes de se tornar, de fato, um deles.

 

QG dos Ceifadores

 

O ambiente da base da CIA estava mais silencioso do que o habitual quando Henry entrou na cozinha. O zumbido das luzes LED ecoava a exaustão que ele sentia nos ossos. Ele sentou-se na mesma mesa de design minimalista onde, dias atrás, o jantar em família selara o seu destino.

 

Já se passaram três dias desde que Lil transformou o seu rosto numa massa de sangue e hematomas.

 

Sílvia apareceu na porta, movendo-se com a sua leveza espectral. Ela já não usava a máscara, revelando o rosto pálido e os olhos que pareciam carregar séculos de cansaço. Ela carregava a mesma maleta médica da primeira vez.

 

— Talvez já seja hora de retirar isso — disse ela, aproximando-se e colocando a maleta sobre a mesa com um clique seco. — Precisamos ver o que o Lil deixou em você. O selante biológico já deve ter feito o seu trabalho, mas a pele... a pele guarda as memórias da dor mais tempo do que o resto do corpo.

 

Ela estendeu as mãos e começou a soltar a fita adesiva na base do pescoço de Henry.

 

— Fica parado, Henry. Pode arder um pouco quando o ar tocar as cicatrizes.

 

À medida que ela desenrolava as voltas de gaze, camada por camada, o rosto de Henry ia surgindo. O inchaço tinha diminuído graças aos medicamentos avançados dos Ceifadores, mas as marcas eram profundas. Havia cortes que agora eram linhas avermelhadas e hematomas que viravam tons de roxo nas maçãs do rosto e na mandíbula.

 

Sílvia parou por um momento, observando o resultado com uma precisão clínica, mas os seus olhos demoraram-se um pouco mais do que o necessário nos dele.

 

— O Lil é eficiente no que faz — comentou ela num sussurro, passando um algodão com antisséptico por uma ferida aberta perto da sobrancelha de Henry. — Mas tu és resistente. A maioria teria ficado com o rosto desfigurado para sempre. Tu... tu apenas ganhaste o visual que o Silas gosta. O visual de quem sobreviveu ao inferno.

 

Ela pegou num pequeno espelho de mão e inclinou-o para que Henry pudesse ver.

 

Henry observa o próprio reflexo no espelho. Os hematomas e as cicatrizes agora fazem parte de sua identidade, marcas de um batismo de sangue que ele nunca pediu, mas que agora carrega na pele. Ele passa os dedos pelas bandagens descartadas na mesa e levanta o olhar para Sílvia.

 

— Bom... não importa o que eu acho da minha aparência agora — ele diz, a voz mais limpa sem o modificador da máscara, mas carregada de uma aceitação sombria. — Eu sou um de vocês. Não sou? Pelo menos é o que o Silas e o Jester não param de dizer.

 

Ele faz uma pausa, estudando o rosto pálido dela, tentando encontrar a humanidade escondida sob aquela fachada de Bela Morte.

 

— Posso perguntar por que você se importa com minha recuperação? Você não parece ser do tipo que faz caridade, Sílvia.

 

Ela abre a boca para responder, talvez com uma frase técnica ou fria, mas Henry a interrompe. Ele coloca a mão no bolso da jaqueta preta de couro e retira um pequeno objeto que brilha com uma luz azulada e pulsante. É um colar artesanal, feito com fios de cobre trançados e um pequeno capacitor que ele recuperou dos destroços da base dos Condutores. A energia residual faz o objeto brilhar em um formato de coração perfeito.

 

— Toma. Eu fiz pra você — ele diz, estendendo o colar luminoso. — Considere apenas um lembrete de que nem tudo que vem da eletricidade precisa ser uma arma.

 

Sílvia trava. Ela olha para o colar na mão de Henry como se fosse algo perigoso, algo que sua lógica de Ceifadora não consegue processar. O brilho azul reflete em seus olhos, e por um momento, o silêncio na cozinha é quebrado apenas pelo leve zumbido da energia contida no pingente.

 

Ela estende a mão devagar, os dedos pálidos tocando o metal frio e a luz quente do colar.

 

— Você é estranho, Henry — ela sussurra, a voz falhando por um milésimo de segundo antes de recuperar a neutralidade. — Ninguém nunca me deu nada que não fosse uma ordem ou uma munição. Se o Silas vir isso...

 

Ela não termina a frase. Ela fecha a mão sobre o coração luminoso, escondendo o brilho, e olha para a porta da cozinha como se esperasse que o irmão ou o líder aparecessem a qualquer momento.

 

— Eu me importo porque... — ela começa, voltando o olhar para ele, mas agora com uma intensidade diferente — ...porque se você for apenas mais um monstro, então eu estou realmente sozinha aqui. Agora, coloque sua máscara. Silas está vindo, e ele não gosta de ver o que está por baixo das faixas.

 

Henry permanece sentado, o rosto marcado pelas cicatrizes de Lil exposto sob a luz crua da cozinha. Sílvia guarda o colar rapidamente sob o traje, mas o clima de cumplicidade é cortado pela entrada imponente de Silas. O líder dos Ceifadores para.

 

Henry não desvia o olhar. Ele encara as faixas brancas de Silas e solta a provocação com um tom de voz que desafia a autoridade do líder.

 

— Eae? Gostou do presentinho que seu cachorro de estimação deixou em mim? — Henry aponta para os hematomas e cortes no rosto. — Não importa. Vou pra minha cama. Me acorde cedo para uma eventual outra missão.

 

O silêncio que se segue é gélido. Sílvia prende a respiração, esperando uma reação violenta. Silas inclina a cabeça, observando o rosto de Henry como se estivesse analisando uma obra de arte inacabada.

 

Silas solta um riso baixo e gutural. Ele caminha até Henry e coloca a mão pesada em seu ombro, apertando com uma força que faria um homem comum gritar, mas Henry não vacila.

 

— O "cachorro" só morde quem ele sente que precisa de uma nova forma, Henry — Silas diz, a voz baixa e controlada. — E parece que ele te deu exatamente o que faltava: o olhar de quem parou de se importar com a própria vida. Vá descansar.

 

Silas retira a mão e abre caminho. Henry se levanta e passa por ele sem dizer mais nada, caminhando em direção aos dormitórios.

 

Ao entrar no quarto, Henry deita-se na cama de luxo. O plano de Solomon e dos Hereges parece um sonho distante, enquanto a realidade de preto e prata dos Ceifadores se torna sua nova pele.

 

Quarto do Henry – QG dos Ceifadores – 02:30 AM

 

Henry está dormindo um sono inquieto quando sente um toque leve em seu rosto. Ele desperta, encontrando a silhueta de Sílvia à beira da cama. O quarto está na penumbra, mas o brilho azul do colar que ele deu a ela horas antes ilumina o rosto pálido da mulher.

 

— O que tá fazendo aqui? — Henry pergunta, confuso.

 

Sílvia apenas olha para ele, tocando o pingente em formato de coração feito com a energia dos Condutores. — Eu não agradeci. Obrigada — ela sussurrou. — Em 29 anos nunca ganhei nada parecido. Desculpa te acordar, volte a dormir.

 

Ela sai do quarto silenciosamente. Henry observa a porta se fechar e, pela primeira vez em quase uma semana morando com os Ceifadores, ele fecha os olhos e adormece com um leve sorriso.

 

Fim do Capítulo

 

 

 

 

 

 

 

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